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História

O Mascate

História de: Theodor Bittar
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/07/2005

Sinopse

Infância em Antioquia e costumes de sua família. Escola e brincadeiras. Imigração para Santos e trabalho como vendedor de caixas de fósforos, em sapataria e como mascate. Ida para Porto Alegre, como mascate. Viagem para a Turquia e casamento. Volta a Porto Alegre e trabalho como fotógrafo lambe-lambe. Ida para São Paulo e comércio de sapatos. Lazer na juventude em Santos e Porto Alegre. A loja de sapatos. Formas de pagamento e embalagens. Funcionários e importância do bom atendimento. Mudança do ramo de sapatos para vestidos e acessórios para noivas. Família e filosofia de vida.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO O meu nome em português - não completamente traduzido - é Theodor Bittar. Bittar significa ferrador de animais em árabe. Nas encruzilhadas a gente deixa o animal lá para trocar a ferradura. Então, quem troca ferradura é bittar. Nasci em Antakya, em português dizem que é Antioquia. É cidade célebre nos livros sagrados. Fui registrado em 11 de fevereiro de 1902. Mas sou mais velho um pouco. Nossa cidade era turca, então, os pais, quando se tratava de meninos, escondiam uns dois ou três anos, depois registrava pra ele não servir muito criança, serviço militar.

PAIS E AVÓS Meu pai é Hana. Traduzido pro português é João, João Bittar. Minha mãe é Angelina. Angelina, filha de ourives da mesma cidade. Meus avós lidavam com ouro. Como meu avô lidava muito com o representante do consulado inglês, na minha cidade natal, o cônsul disse para ele: "Olha, nós vamos ter uma crise terrível, universal - em 1914 - você podendo salvar a sua família, tirá-la daqui, desse inferno que nós vamos passar." Não tinha nem capim pra comer. O meu avô, homem do dinheiro, comprou passagem pra minha família toda e mandou, disse para minha mãe: "Angelina, vai minha filha, vai. Que Deus te acompanha. Porque nós vamos ter uma crise terrível aqui."

IRMÃOS Eu tinha duas irmãs, já falecidas as duas. E mais três irmãos homens, todos falecidos. E eu estou na fila. Um dia chega a minha vez! INFÂNCIA A minha casa era um rancho de gente pobre. Eu fui para lá agora, visitei minha casa. Era uma sala embaixo e o dormitório no sótão, em cima. Abria um colchão pra família inteira e todo o mundo deitava. Todos crianças. Era gostoso.

BRINCADEIRAS No inverno, às vezes precisava afastar a neve da porta da saída da casa. Então, a gente formava bolas de neve e soltava um na cara do outro, guerreava, meninos entre um bairro e outro.

CONFLITOS ENTRE TURCOS E ARMÊNIOS Eu estava no segundo ano da escola árabe, no momento que eu estava na porta de entrada da cidade, o meu professor, já falecido, me disse: "Sedosse – Sedosse é meu nome em árabe –, dá-me a sua mão e me acompanha." Ele me pegou do centro da cidade e me levou para a casa do consulado, que era a um quarteirão. Toda a família cristã estava escondida lá pra não serem massacrados. Naquela época, os turcos, que estavam massacrando os armênios, pegaram meu irmão mais velho, puseram no chão, pegaram a faca. Iam degolar. Veio um outro turco, disse para ele: "Não, larga, esse aqui é cristão, não é armênio." Os turcos estavam matando os armênios e pegaram o meu irmão por engano. Meu irmão já estava com a passagem pronta para vir ao Brasil, ficou doente um ano. Não pode sair da cama. Depois disso, o meu falecido avô comprou passagem para nossa família toda.

IMIGRAÇÃO PARA O BRASIL Viemos em 1913, antes de começar a Primeira Guerra europeia. A viagem foi maravilhosa. Da minha terra até o porto marítimo, hoje leva uma hora de automóvel. Naquele tempo, de carreta, levamos dois dias. Subimos até o cume da montanha primeiro, pra depois dar a baixada. Do porto, em canoa, fomos tomar o navio, porque o navio não atracava ainda. Lá no navio, embarcamos na terceira classe, que imundície. O meu pai tirava o calção, ia na luz e via piolhos. O nome do navio era Tomaso de Savoia. Foram 60 dias de viagem e nós chegamos aqui na cidade de Santos.

CHEGADA A SANTOS Nós saímos do porto e logo em seguida e a primeira coisa que fomos fazer foi comprar uma lata grande de fósforos. O meu pai pegava uma cesta grande, enchia e ia para a rua com um pacote: "Duas um tostão, duas um tostão." Eu, então, fiz a mesma coisa. No domingo, eu engraxava sapato por minha conta. Fiz uma caixa ia para a rua, um tostão a engraxada. O português me puxava a orelha: "Ô turco desgraçado, você não sabe engraxar! Toma lá o tostão, vai embora!" Até que tive um pouco a maioridade. Aprendi a consertar sapatos com meu irmão mais velho. Fiz uma caixa com ferramentas dentro, pregos e linha. Saí pela rua, consertava. Quando eu não sabia, trazia para casa para o meu irmão consertar.

TRABALHO COMO MASCATE Eu enchia cestas de miudezas, utilidades domésticas, pras costureiras, linhas, bordados, agulhas, tudo que uma senhora pode precisar. Levava a matraca na mão. A gente andava pela rua: "Ô, turquinho, vem cá." Chegava lá: "O que é?" "Dá um cadarço, dá um carretel de linhas 50, 40." Saía de manhã, voltava em casa à noite. Meu pai mesma coisa. Às vezes, chegava hora de almoço e nem voltávamos pra casa. Entrávamos num bar que era já conhecido e a gente pedia um pão com mortadela. Pronto! Almoço!

LOJA DE TECIDOS EM SANTOS Naquele tempo, a cidade de Santos era limitada até a Companhia dos Bondes, Vila Matias. De lá pra diante era mato, até a praia era tudo mato! Eu morava na Rua General Câmara, perto da Companhia Docas, entre a Rua Eduardo Ferreira e João Bittencourt. Essa rua leva até o mercado municipal. Moramos num sobrado, onde embaixo era loja. Os meus irmãos puseram um pouco de tecido. O tecido era estrangeiro, não tinha fabricação aqui. Depois disso, um dos meus irmãos alugou uma portinha do lado, de uma tal Filomena, uma italiana brava, e consertava sapato lá. Fiquei consertando sapatos até que eu saí da cidade de Santos.

CASAMENTO Eu fui em aventuras, por conta própria, pra minha cidade natal, Antakya. A minha tia já falecida, conversa vai conversa vem, diz: "Ó, Sedosse, você vai levar uma companhia junto com você pro Brasil." "O que é isso? Eu não vim para isso." "Vem cá." Entramos lá na casa vizinha e ela disse: "Olha, essa daqui vai ser a sua mulher." "Mas eu não vim para casar!" "Mas você vai casar." Sorte! Destino! Graças a Deus, tenho uma esposa como poucas. Ela é dona da casa. Não é extravagante pra coisa alguma. Não pede nada, só pede o que é necessário mesmo. Tá em casa, de vez em quando nós damos uma escapadinha para Águas de Lindoia ou pra cidade de Santos e assim passamos a vida! O nome dela é Nazira. Ela tem 84 anos, eu 94. E ainda de pé, graças a Deus.

MUDANÇA PARA O RIO GRANDE DO SUL Fui pra Europa, me casei, voltei. Depois que saí de Santos fui para Rio Grande do Sul, para a cidade de Porto Alegre. Comecei a vender mercadorias. Viajei um pouco, viajei todo o estado do Rio Grande do Sul. Arranjei um meio de cavar a vida boa, que entrava em todas as casas e vendia. Arranjei agulhas de máquinas de tecer quebradas. Comprava lapiseira e punha agulha. Pegava uma meia desfiada, com aquela agulha eu desfiava e enfiava de novo. Parei numa esquina em Porto Alegre, vendia centenas daquelas agulhas. Qual é a menina ou mulher que não tem meia desfiada? Todo mundo me comprava. Eu já tinha uma filha, Maria, nascida em Santos, e os demais filhos nasceram no Rio Grande. Lá, aprendi a fotografar, fazia caixas de fotógrafo de jardim e vendia. Comprava lentes no brechó e vendia. Fórmula de revelador eu mesmo fazia. Trabalhava na Praça 15 de Novembro. Só tinha fotógrafo por todos os lados, mesas no centro e o bar, do lado. A maior parte das pessoas, forasteiros, sentava ali naquelas mesas pra tomar um chope ou uma cerveja. Vinha o fotógrafo e tique, batia fotografia, já ganhava dinheiro.

MUDANÇA PARA SÃO PAULO Fiquei trabalhando de fotógrafo até que eu vim pra São Paulo. Aquilo ali era um ganha pão, mas não era o total. A gente tem ânimo, quer lutar, procurar um meio de melhorar. Chegando aqui em São Paulo, fui na Voluntários da Pátria, coloquei moradia e loja. Meu irmão me mandou um vendedor que fabricava sapatos com sola de pneumático de automóvel. Me mandou um saco desses, punha na porta e vendendo ganhava uma miséria, mas dava pra pagar o aluguel do armazém. O dono daquele armazém é um multimilionário hoje.

LAZER EM SANTOS Como tinha vários amigos conterrâneos, que já morreram também todos eles, a gente sentava na balneária, em frente ao mar. O Benjamim tinha padaria na Rua General Câmara e depois pegou aquele bar em frente à praia. Sentávamos lá, uma turma de meia dúzia de amigos e começávamos a tomar cerveja. Às vezes, meu pai acompanhava ali. Éramos uns cinco, seis, oito rapazes, chupávamos a cerveja e tremoços. A gente tomava cerveja até esgotar o estoque do homem! A cerveja era Antarctica. Quando não tinha Antarctica vinha Brahma mesmo.

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – RUA JOSÉ PAULINO E RUA SÃO CAETANO Da Voluntários da Pátria fui para a Rua José Paulino. Vendia calçado. A Rua José Paulino tinha depósito cerveja e minha razão de sair foi que chegaram as prostitutas naquela cercania toda. Fecharam todas as travessas, era só prostituição. Eu com duas meninas em casa, disse pra minha mulher: "Vamos embora." Foi o destino! Eu fui passeando pela Rua São Caetano, queria ver alguma porta. Meu irmão, os meus sobrinhos, eles não queriam que eu fosse pra Rua São Caetano pra ser concorrente. Passando, um tal de Jorge Nemi, que tinha casa de quadros, tava na porta: "Ó, Bittar, que é que tá fazendo por aqui?" Eu disse pra ele: "Eu estou andando por aqui, quero ver se eu encontro um ponto pra mim. Ele disse: "Bittar, vem cá, fica com essa minha loja!" Eu tinha 14 contos no bolso. Eu digo: "Mas eu não tenho dinheiro para ficar com a loja! Loja com vitrine e tudo!" Diz: "Não faz mal, você não paga nada, fica com essa loja!" Me deu a loja de presente com vitrines. Um lado. O outro lado tinha um outro patrício com tecidos. Tinha moradia, deu para a turma se deitar no chão e dormir. E o outro me diz: "Bittar, vem cá, fica com essa minha parte!" Opa! Fiquei com a outra parte, e do lado de lá tinha três dormitórios, nos fundos, já melhorou a situação. E tinha as vitrines de presente! Antes era uma loja de calçados, veja só que destino. Comecei melhorar a situação. Pus uns pares de sapatos na frente, para vender. Um vendedor me mandou uma numeração imediatamente, ele tinha pronto da fábrica. Deus quis que melhorasse toda a situação, abriu as portas do céu e eu progredi, criei a família. Destino é que manda. Nós dizemos em árabe: "Al maktub!" – o que está escrito.

SÃO PAULO ANTIGA – RUA SÃO CAETANO Aos sábados, à noite, era assim lotada de gente. Meninas e meninos passeando, era uma beleza. Passava o bonde por lá ainda. Lá em cima, na entrada da Rua São Caetano, tinha loja de calçado Clark. Mais embaixo, na outra esquina era mais uma loja, agora de propriedade de meu filho caçula. E nós mandamos o pai da minha nora fechar o negócio daquela esquina, porque pra nós eles não vendiam de forma nenhuma. Depois que fechou o negócio fomos para lá, botamos o filho Oswaldo. Hoje Oswaldo é dono da esquina, mas tivemos que usar o truque. Uma pessoa de fora fechou o negócio, pronto, estava feito! A maioria das lojas era de tecido! Calçado tinha só Clark em cima e essa outra lá embaixo. Antes tinha o trem da Cantareira, que a força do movimento do bairro vinha de baixo para cima. Então, vinha o trem da Cantareira até a Rua Cantareira, despejava aquele monte de gente diariamente, e de lá vinha para a Rua São Caetano fazer as compras. Depois tiraram o trem, veio por cima a freguesia, pela Avenida Tiradentes, pelos ônibus. Então, meu movimento embaixo fracassou completamente. Isso foi em 1940.

FORMAS DE PAGAMENTO Era toma lá, dá cá. Nunca vendi fiado. Não tinha caderneta. Uma única vez que uma pessoa se tornou muito amiga minha – se é que ele formou essa amizade com esse propósito, eu não sei – mas ele pegou o calçado fiado e nunca mais apareceu.

FORNECEDORES Os fornecedores davam prazo. Eu tinha bons fornecedores, tinha os Nicoletti, tinha os Catamachia, tinha... o Nápoli, marcas de calçados conhecidíssimas aqui. Eles davam 30, 60 dias de prazo. Bom, o freguês, era só telefonar e a mercadoria vinha. Mas, para começar a luta, em qualquer uma atividade requer paciência e insistência e honestidade, porque se você toma e não devolve, você perde o crédito e nunca mais se apruma!

EMBALAGENS Vinha tudo em caixas de sapato. Em todas eu punha o meu rótulo: "Bittar". Um rótulo amarelo assim, com Bittar atravessado. Um detalhe bom: balconista ganhava pouco salário. Todo o sapato levava selo, obrigatório, para o governo. Então, o balconista vendia o sapato e enquanto, enquanto eu estava vendendo sapato, eles com as unhas arrancavam o selo que valia um bom dinheiro, arrancava o selo sem o freguês saber, embrulhava o sapato. Aquele selo ele revendia outra vez para o fabricante e lá vinha de novo o sapato selado... ele vendia pela metade do preço, mas... dava.

FUNCIONÁRIOS R - Tenho até hoje... três ou quatro balconistas. Mas eu tinha um balconista lá que hoje é gerente da Casa Fidalga, na Rua Quintino Bocaiúva. Ele é gerente lá, era meu balconista, hoje é gerente da Fidalga, ainda é, um tal Paulino. Ainda nos cumprimentamos, nos... conversamos, de vez em quando eu compro sapato dele lá. Bom balconista, ele é gerente na Fidalga. Aprendeu a trabalhar comigo... o, o balconista que trabalhava comigo ele aprendia a servir a freguesia. Aprendia, eu ensinava o modo delicado de... onde a freguesa saía bem servida. Eu tinha reservatório para a freguesa sentar e experimentar o sapato, que ela de pé desaparecia. Aquilo ali foi serrado, até sentada mesmo ela aparecia pra fora, porque o balconista é malandro. A freguesa fechada, ele passava a mão ali à vontade. Com um modo de... de calçar o sapato ele pegava na perna, assim, da freguesa e, e pegava o sapato com a outra, dizia: "Estou experimentando." Algumas se queixavam, outras gostavam, mas então eu cortei aquilo ali. A freguesa fica livre, tem que aparecer que é ela que está servindo sapato, não a perna dela!

LOJA DE NOIVAS Eu saí da loja de sapato liquidando tudo e entrei no ramo de vestidos de noivas, que já dava mais dinheiro. Hoje não, hoje é porcaria. Hoje não vende mais. A diferença é que vendendo vestidos de noiva, a freguesia tinha que esperar muito para levar um vestido pronto, porque as lojas tinham muitas encomendas. Hoje não, hoje você chega lá, encontra tudo pronto. FILHOS Todos os filhos homens continuam no comércio. Os três homens. Agora, quem está desenvolvendo mais o comércio é o mais velho, o Eduardo. O outro tem uma indústria que ganha quanto quer.

REFLEXÕES SOBRE A ENTREVISTA O trabalho de vocês é digno de confiança e de apoio. Eu esclareci a minha vinda ao Brasil, desde a pequena infância, o que eu passei para lutar e vencer na vida. Deixei tudo como um livro para vocês. Hoje não faço nada porque não preciso fazer coisa alguma. Meus filhos cresceram, estão ricos graças a Deus. Deixei tudo por encaminhar, essa gente toda está vivendo pelo caminho que eu tracei pra eles. A gente diz o ditado: "A gente conhece a árvore por seu fruto." E o meu fruto está aí. E a vida é maravilhosa! Digna de ser amada.

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