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História

O mapinguari

Sinopse

Em sua longa entrevista, Professor Roberto fala de sua infância na localidade do Curuperé, Vila do Conde. Fala dos costumes indígenas seus e de sua família e, além disso, das dificuldades iniciais em conseguir estudo. Roberto fala de sua formação e a saga para manter a Escola da Montanha, que por muitos anos foi só de sua responsabilidade. Roberto nos conta a respeito de seus alunos, das lendas locais e de como esse folclore vem sendo voltado para a educação dos filhos de Barcarena, como peça de resistência cultural.

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História completa

Uma das histórias que a minha mãe contava muito pra nós, era de um personagem chamado Mapinguari. O Mapinguari é, hoje, nós que fizemos um estudo, sabemos que é um ser mitológico do Amazônia. É um ser, uma espécie de um macaco muito grande. Tem duas versões dele. Uma que diz que ele tem uma boca muito grande na barriga. Outros dizem que ele tem uma boca muito grande na costa. Então, uma pessoa que vá em qualquer uma das nossas florestas aqui da Amazônia e se deparar com o Mapinguari, é difícil de escapar. Porque o Mapinguari, inclusive, não vive sozinho. Ele não mora sozinho. Ele tem uma família de Mapinguari. E a pessoa tenta correr, é cercado pela família e eles acabam comendo a pessoa. E colocam lá, eles têm uma boca normal e têm uma boca na barriga.

Uma das histórias que eu lembro que ela contava, era assim: um determinado senhor ia de uma comunidade pra outra. As localidades, na Amazônia, dependendo do local, são muito distantes, né, pra você ir de uma casa até outra, você precisa passar um, dois dias andando, pra poder chegar na casa de um conhecido. E esse homem saiu de uma casa pra ir pra outra que ele precisava passar dois dias. E ele passa o dia todo caminhando, com sede e com fome. Lá por volta de três horas da tarde, ele chegou, encontrou um barracão no meio da floresta. “Poxa, mas quem é que mora nesse barracão? Nunca vi ninguém. Nunca soube que alguém morasse aqui. Mas eu estou muito cansado” - ele diz - “vou me deitar aqui”. Era um barracão todo aberto, não tinha parede. E ele vai e se deita no barracão. Com muita sede, com muita fome. 

E quando ele olha pra cima, no meio da palha, tinha um espeto. E tinha um churrasco atrativo ao olhar e ao olfato. Era um fígado grande assado, chega ele estava assim bem tostado. E ele sentiu o cheiro. E ele disse: “Poxa, de quem poderia ser isso aqui?”. E chama, grita, chama, procura alguém e ninguém aparece. E ele espera umas duas horas de tempo. E ninguém aparece. E o que ele faz? Ele diz: “Eu vou comer esse fígado. Não tem ninguém. Não aparece ninguém aqui. Eu não sei quem deixou”. E ele pegou, subiu pelo esteio, pegou o espeto e comeu o fígado. Estava uma delícia o fígado. E, depois de ele terminar, deu um sono profundo nele. E ele adormeceu. Quando ele se acordou, era umas dez horas da noite. Estava uma escuridão imensa. E ele ia dormir só uns trinta minutos, ia levantar e continuar a caminhada. Mas ele acorda lá pras dez horas da noite. Ele tinha dormido desde a tarde. Ele só acordou porque ele ouviu um grito vindo do meio da floresta. E ele ouvia a voz de alguém gritando muito forte: “Eu quero o meu fígado”. Aquele ser gritava: “Eu quero o meu fígado”. E vem se aproximando, se aproximando. E ele querendo se levantar, mas ficou anestesiado, não conseguia levantar. E aquele ser vem se aproximando, vem se aproximando, vem chegando. E ele querendo levantar e nada de conseguir. E até quando ele vê assim, surge na escuridão, ali num espaço que estava um pouco mais claro, ele viu o Mapinguari que surgiu ali. Aí o Mapinguari olhou pra ele e disse assim: “Tu comestes o meu fígado?”. Ele disse: “Eu comi. Eu não sabia de quem era” “Pois esse fígado era do último viajante que passou por aqui. Eu o comi, tirei o fígado dele e assei e coloquei aí. E tu te atrevestes a comer algo que tu não sabia o que era e de quem era. Então, por conta disso, eu vou te comer. E vou assar o teu fígado e vou deixar aqui pra atrair outra pessoa”. E ele agarrou o homem e comeu o homem. Tirou o fígado dele e assou e colocou novamente lá. E seguiu. E volta pra floresta, esperando um novo viajante que passasse e caísse na armadilha também. 

Essa foi uma história que ela me contou: Mapinguari. Na verdade, hoje em dia eu tenho quase trinta histórias do Mapinguari escritas, pra eu lançar um livro, entendeu? Futuramente, eu espero lançar um livro em homenagem à minha mãe, assim, pelas histórias do Mapinguari que ela contava. E eu fui coletando de outras pessoas também. Só que pra mim, a versão da minha mãe é especial. Das preferidas dela era o Mapinguari.

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