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História

"O maior mercado de leite longa vida do planeta é o nosso"

História de: Ricardo de Come Penof
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/01/2008

Sinopse

Infância no ABC Paulista. Entrando na Tetra Pak. Centro de treinamento. Colocando em prática. Assistência técnica e montagem de equipamentos. Fábrica de Monte Mor (SP) nos anos 80. Instrutor de treinamentos. Novos produtos no mercado. Conservação do leite. Área comercial. Regionalização. Relação com o cliente. Embalagens inovadoras. Crescimento da empresa nos anos 90. Importância da Tetra Pak Brasil. Crescimento profissional. Maiores desafios profissionais. Valores da Tetra Pak.

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História completa

P/1 - Rodrigo de Godoy

P/2 - Larissa Rizzatti

R - Ricardo de Come Penof



P/1 – Bom dia!

 

R – Bom dia.

 

P/1 – Para começar, eu queria que você dissesse seu nome completo, local e data de nascimento?

 

R – Ricardo de Come Penof, 28 de abril de 1961, nascido aqui em São Paulo.

 

P/1 – E qual é o seu cargo atual na Tetra Pak?

 

R – Eu tenho a responsabilidade sobre a diretoria de categoria de lácteos, tudo que abrange produto de lacticínios e também da vice-presidência de “card solution”.

 

P/1- Certo. E o nome dos seus pais, Penof?

 

R – Vasilio Penof e Clarisse de Come Penof.

 

P/1 – Eles são naturais de onde?

 

R – Meu pai é do Ipiranga, aqui em São Paulo; e minha mãe, de Socorro, no interior de São Paulo.

 

P/1 – E a atividade deles?

 

R – Os dois são falecidos, mas meu pai trabalhava com embalagens também, foi encarregado de produção em uma empresa de embalagens, e minha mãe se dedicou a nossa família.

 

P/1 – E você morava onde, durante a sua infância aqui em São Paulo?

 

R – Uma boa parte dela eu passei em Santo André, no ABC Paulista, convivendo com a proximidade ali de todo centro metalúrgico e tudo que acontecia dentro de um centro nervoso. Naquele momento, começava o nosso atual Presidente da República a ter... Como é? Ser notado dentro do Sindicato no ABC. Então começava já a movimentação, isso lá por volta dos anos 78, 79. Eu lembro bem de uma passagem, que eu tava no Tiro de Guerra, e o Lula fazia a primeira greve dos metalúrgicos. Eu ficava de plantão 24 horas dentro do quartel. Então a minha lembrança começa daí, da época que o Lula ainda, talvez, não fosse tão conhecido.

 

P/1 – E como era Santo André nesse período, a cidade?

 

R – Já era uma cidade bem desenvolvida. Ela já tinha uma certa atratividade dentro da cidade de São Paulo, que como o ABC era bastante desenvolvido na parte industrial, isso acabava atraindo mão de obra e, principalmente, pessoas que já tinham uma certa capacitação. Isso conduzia a cidade a ter um bom padrão de vida, um bom padrão... E oferecia condições, em geral, muito interessantes para quem morava lá.

 

P/1 – E você tem irmãos?

 

R – Tenho. Tenho um irmão e uma irmã, o Rogério e a Cristine. O Rogério trabalha com venda de laticínios também, e a Cristine que mora no interior - privilegiada -, em Piracicaba, vendendo confecções para crianças.

 

P/1 – E você é o mais velho?

 

R – Sou o mais velho sim.

 

P/1 – É o mais velho. É, e que lembranças mais fortes você tem da sua época de infância, do seu período de infância lá em Santo André?

 

R – Uma coisa que me lembra muito com certo saudosismo, que eu morava meio distante da escola e era uma situação que eu caminhava para ir até a escola alguma coisa em torno de 30, 40 minutos diariamente. Tinha ônibus, mas era uma opção caminhar e era uma coisa que era gostosa, você não se preocupava com segurança. Ia andando pelas ruas em Santo André, era aquela coisa gostosa. Você ia passando por parques. Às vezes eu chegava atrasado na escola, porque eu parava no parque mais do que devia - mas você sempre tinha esse saudosismo. Então, essa lembrança agradável de você ter segurança, poder brincar na rua, você tá a vontade. Coisa que hoje, infelizmente, nós não podemos oferecer para o nossos filhos.

 

P/1 – E você começou os seus estudos, então, em Santo André mesmo?

 

R – Comecei em Santo André, exatamente. Fiquei por lá até o final do segundo grau, fazendo colégio técnico. Depois fui para universidade já, a Mauá, fazendo Administração. E daí continuei meus estudos em várias outras oportunidades, outros vários cursos de especialização.

 

P/1 – E o curso técnico você fez em quê?

 

R – Fiz técnico em mecânica, que foi aonde me habilitou a entrar na Tetra Pak 22 anos atrás. Quando eu comecei na Tetra Pak, eu comecei como técnico dando manutenção nos equipamentos da Tetra Pak. Então, a minha base técnica me permitiu entrar e desenvolver a minha carreira passando por diversas áreas dentro da empresa.

 

P/1 – E o seu primeiro emprego foi na época da faculdade, antes?

 

R – Não, foi antes. Eu tava terminando o segundo grau, daí eu fui fazer estágio na Pirelli Pneus, em Santo André. É, de lá eu fiquei 1 ano e meio fazendo estágio. Depois já passei para uma área, de auditoria de qualidade. Posteriormente, vim para uma segunda empresa, que eu trabalhei por 6 anos; é uma empresa de equipamentos para laboratório, fazia a supervisão de assistência técnica. Por último e recente, minha vinda para Tetra Pak 22 anos atrás, que [é] meu terceiro e último emprego que eu tenho. Então, essa é a minha passagem em 3 empresas.

 

P/1 – E você é casado?

 

R – Sou casado pela segunda vez, tenho uma filha do meu primeiro casamento, com 18 anos. Agora está cursando Administração.

 

P/1 – Ah, e qual o nome da sua esposa atual?

 

R – A Roseli.

 

P/1 – Roseli. Ela é formada, ela trabalha, tudo?

 

R – Não, ela trabalha; ela teve, se dedica mais ao comércio. Nesse momento, nós fizemos...Depois de algumas tentativas com loja, restaurantes, enfim, uma série de atividades, nós resolvemos dar um tempo. Agora nós estamos vendo um outro tipo de atividade, mas em breve nós vamos anunciar nova oportunidade de negócio.

 

P/1 – E vocês moram em São Paulo também?

 

R – “Part time”. Eu tenho um apartamento em São Paulo e também, em Cabreúva, nós temos uma casa. Então nossa opção, nosso endereço fixo é Cabreúva, mas aqui em São Paulo, como um... Como a cidade é tão “agradável” em termos de trânsito à tarde, então a gente decidiu ficar aqui, porque é impossível você tá se locomovendo e voltando todo dia.

 

P/1 – Com certeza. E, bom! Aí já chegamos na parte da Tetra Pak, que você falou que foi o seu terceiro emprego?

 

R – Exato.

 

P/1 – Até que você em um; andou muito até descobrir a Tetra Pak?

 

R – Não, não.

 

P/1 – Fala, é, para nós... Primeiro, você tinha conhecimento da Tetra Pak antes de ir trabalhar na Tetra Pak?

 

R – Não. Deixa eu contar que a história é legal, da minha entrada na Tetra. Acho que é uma... Até eu lembro com uma, com bastante carinho desse detalhe. Eu prestava assistência técnica na outra empresa que eu, a segunda empresa que trabalhava, e fui em uma empresa muito próxima a Tetra Pak. Eu me recordei que uns 15 dias antes eu havia visto no Estadão um anúncio [de] que estavam buscando pessoal para assistência técnica, e era área minha de formação. E, com esse detalhe, eu lembrei do assunto e perguntei para pessoa que eu conhecia nessa empresa que é muito vizinha da Tetra Pak, se ela conhecia a empresa. Ela falou: “Não, eu conheço. A empresa é um pouco para frente, é uma empresa bastante interessante, renomada, apesar de não ser conhecida; mas tem boas indicações aqui”. Falei: “É? Legal, vou lá”. Saí da empresa, que eu acabei o serviço que tava prestando, e fui até a portaria da Tetra Pak. Nesse momento, eu me identifiquei. Perguntando por uma vaga e me passaram a Ana Maria, que a Ana Maria, da Cooperpak, trabalhava no RH. Ana Maria atende, eu perguntei para ela pela vaga, ela me fala o seguinte: “Olha, a vaga não está fechada, mas o processo de seleção tá bastante avançado e você precisaria me trazer um currículo aqui amanhã”. Bom, de Monte Mor à Santo André, onde eu morava naquela oportunidade: nós estamos falando de 150 quilômetros, no mínimo. Eu volto para Santo André naquele dia, no dia seguinte - não vou trabalhar -, faço o currículo, volto para Tetra Pak. Ou seja, 150 [quilômetros] e mais 150 [quilômetros] para voltar, 450 quilômetros [no total]. Entrego o currículo. Liguei de novo para Ana Maria que era o meu contato, até então, e a Ana Maria fala para mim o seguinte: “Olha, agora você pode ficar tranquilo que deve demorar uns 10, 15 dias para um contato”. Falei: “Ótimo”. Voltei a minha vida normal, viajei. Na semana seguinte, me liga a Ana Maria: “Ricardo, tem uma entrevista, você precisa estar aqui amanhã”. Eu falei: “Ana, eu estou viajando”. Ela falou: “Não, Ricardo”, “Tá bom Ana, eu vou dar um jeito”. Daí fui, voltei, fiz a entrevista, perguntei de novo para Ana, aí foi o primeiro contato visual que eu tive com a Ana - até então, era só telefone. Ela falou: “Não, ainda demora mais um pouco, agora você pode ficar sossegado”. Viajo para Bahia novamente e a Ana me liga: “Você tem a entrevista final com o diretor”, no dia seguinte. Falei: “Meu Deus do céu”. E aí tem um fato muito interessante, é que Monte Mor, naquela época, as ruas que circundavam a Tetra Pak não eram asfaltadas e eu não tinha... Eu tinha moto, mas nesse dia tava chovendo. Eu pego um ônibus, venho até Campinas, de Campinas pego outro ônibus e desço no centro da cidade, em Monte Mor. Como era uma entrevista final com o diretor, que era o Alf Lindgren - na era, na época, era o diretor técnico. Falei: “Vou com blazer”. Peguei, comprei um blazer, e tava com uma calça clara. Eu atravesso essa rua de barro, eu cheguei com barro até o joelho. Bom, pedi para o guarda da recepção, o guarda me abriu o banheiro lá, eu limpei na calça que virou... O guarda, agora ele já é aposentado, mas ele lembrava desse detalhe, eu lavando a minha calça dentro do banheiro da Tetra Pak. Bom, fui para entrevista, fiz a entrevista. E, basicamente, aí começa a história, porque dessa entrevista, logo eu fui contratado. As condições eram bastante favoráveis, bastante interessantes. E para ser sincero, eu não sei como fui parar na Tetra Pak. Eu saio de Santo André, vou morar em Monte Mor - de uma situação que até hoje eu não sei explicar, mas era, acho era para ser para mim. Então, eu fui. Dessa maneira é que começa, há 22 anos, a minha história em Tetra Pak.

 

P/1 – Então você se mudou para Monte Mor?

 

R – Mudei, fui morar na “grande” cidade de Monte Mor, fui conhecer o interior do interior... A gente brinca muito, que é... Monte Mor tinha [só] um prédio; para vocês terem uma ideia, era um prédio de 3 andares onde moravam alguns técnicos, algumas pessoas da Tetra Pak - que era meio que uma república. E era uma brincadeira muito interessante [de] que qualquer cidade do interior que você fosse visitar, ia achar ou uma casa Pernambucana ou um cinema. Monte Mor não tinha nenhum dos dois... Mas tinha Tetra Pak! Isso se explica pela proximidade, tava a 25 Km de Campinas, então as pessoas acabavam indo para suas necessidades à Campinas. Mas aí começa a minha história em Monte Mor, por pouco, um período curto. Eu fiquei 3, 4 meses morando em Monte Mor. E, logo depois, já mudei para Campinas e continuei trabalhando em Monte Mor.

 

P/1 – E o seu cargo então, de entrada, foi de técnico?

 

R – Técnico em assistência técnica.

 

P/1 – De assistência técnica.

 

R – Era quem fazia a instalação das máquinas, reparavam as máquinas, dava toda a estrutura pros nossos clientes. Quer dizer, já começa o contato com cliente, desde o início, na Tetra Pak, que é onde eu acho que eu, foi o meu grande foco, a... Toda a minha carreira foi dedicada a atenção aos clientes.

 

P/1 – E qual foi a sua primeira impressão na empresa, da Tetra Pak, quando você efetivamente começou a trabalhar lá dentro?

 

R – Um grande susto. Primeiro dia que eu tava na Tetra Pak, você faz aquela primeira integração, vai conhecer as pessoas. Até aí tudo muito legal, porque a Tetra Pak é uma empresa que ela sempre olhou muito para o lado social. Então, você tem boas instalações, normalmente têm pessoas jovens, pessoas bem preparadas, você tem uma estrutura muito interessante nesse aspecto. Então, toda a parte de integração foi muito legal, muito tranquila, você conhece diversos departamentos. Uma empresa estruturada, que chama a atenção para quem vem de uma empresa média, como eu tava vindo - já mostra uma conotação totalmente diferente. Agora a história fica mais interessante. Como eu falei, vinha de área técnica, dei assistência técnica a minha vida toda. O dia que eu paro em frente a primeira máquina, eu olho, é uma máquina de 6, 5 metros de altura, eu falei: “Eu vou ter que mexer com esse negócio”. Daí que começa o primeiro susto, mas daí veio uma coisa interessante, que é... Não só olhando para o lado social, a Tetra Pak, também, tinha uma história de treinamento. Então, o técnico para ser apto a tá trabalhando nos equipamentos da empresa, ele tem um treinamento muito intenso. Então você entra e fica praticamente 6, 7, 8 meses em treinamento para poder sair para o campo, para você poder ter atividade na máquina. Então foi o que aconteceu comigo, do meu susto inicial. Nos próximos 6, 7 meses, eu passei em treinamento, conhecendo o equipamento, montando, desmontando, fazendo revisão, tudo dentro da escola que nós temos, que é o nosso centro de treinamento na Tetra Pak em Monte Mor.

 

P/1 – E qual foi a sua maior dificuldade nesse começo? Você já falou que o susto com o tamanho, [que] foi bastante marcante. Com o tamanho da máquina, quando você começou. Mas qual foi uma, a sua maior dificuldade nesse começo? Seja ela de, do ponto de vista técnico, ou realmente de pessoal, social?

 

R – Eu, para mim foi uma, um grande desafio. Eu acho que na fase de 24, 25 anos você ter uma oportunidade como essa, começa entender melhor a empresa que você está inserido. Você começa a ver aquele ambiente, um ambiente tecnologicamente avançado para o, pros recursos que nós tínhamos no Brasil, que até então eu conhecia. É, era uma coisa nova, era desafiador. Você tava em uma nova situação, ganhando melhor, de status melhor, uma empresa legal. Então, quer dizer, tinha um glamour, tudo aquilo. Agora, tinha umas situações que eram muito interessantes, nós tínhamos, é, situações de, como técnico. Inclusive, como toda empresa é assim. Os técnicos mais novos, os juniors - e eu era um junior; naquela oportunidade, acabava sendo o técnico que mais sofria, porque os técnicos mais experientes acabavam passando essa situação pros mais junior, então tinha, tudo que era ruim de ser feito, adivinha quem fazia? O junior. Limpar a oficina no final da tarde? O junior. Então tinha uma situação muito interessante. Eram técnicos mais experientes, pessoas, inclusive, mais adultas, nós tamos falando de técnicos na faixa de 45 anos, é, mais de 40 anos, em média. Técnicos muito experientes, com 10, 15 anos de Tetra Pak, com uma boa bagagem profissional. Então o junior normalmente sofre, e não foi diferente comigo. Eu também tinha muita lembrança desse tipo. Lembro que a gente tinha uma oficina que ficava atrás do centro de treinamento; então, acabavam as aulas no centro de treinamento, a gente ia para essa oficina, e ficava conversando. Como o treinamento era conjunto, às vezes a gente tinha pessoas de fora, clientes fazendo o treinamento junto, a gente acabava tendo a oportunidade de ficar em um grupo mais fechado de Tetra Pak, nessa oficina. E essa oficina sempre tinha gozação, sempre tinha alguma atividade. E mesmo a experiência, quando você saía para campo, trabalhava 8, 10, 12 horas de uma maneira intensa, mas a hora que parava, o grupo era muito unido. Então era gostoso você trabalhar, e nós tínhamos colegas ali muito queridos. O Leonardo, que já é falecido hoje, o Renato Eyng, você tinha o Brito, o Elias, o Janis, tinha uma série de pessoas que a gente foi convivendo intensamente. Então foram anos que é, foram dedicados de uma maneira intensa.

 

P/1 – E depois do treinamento, desses 6 meses que você ficou lá aprendendo como mexer nas máquinas, como foi o seu primeiro dia de trabalho na prática mesmo? Como foi o primeiro contato real com a área?

 

R – Eu não sei se eu devo falar isso, mas foi um desastre. Foi interessante, porque, como eu falei, naquela época eu era jovem. E, naquela época, tinha um conjunto que fazia um tremendo sucesso, que era a Blits - eu tô falando isso, de 1985 -, e a Blits foi fazer um show em Campinas. Estava a gente em um grupo de pessoas de Monte Mor para assistir o show em Campinas e ficamos até altas horas, bebemos, foi uma festa! Realmente, tava muito gostoso. E no outro, dia seguinte, era o meu primeiro dia de trabalho na Cica, que era em Jundiaí. Gente, eu lembro que foi duro, isso eu posso dizer para vocês, mas era a situação inicial. Era uma situação que era esperada, foi uma revisão. A gente tava começando a fazer a revisão, sempre acompanhado de um técnico mais sênior - o técnico era o Elias, na época, que foi uma pessoa que me deu uma base tecnológica muito grande. Então, foi começando. Mas a referência dum show na véspera de um trabalho tão importante no dia seguinte, não é uma boa combinação, com certeza.

 

P/1 – E aí, a função de um técnico é montar a máquina no cliente? É isso?

 

R – Ele vai desde a montagem, "startup", vai fazer a manutenção, aquelas manutenções que são programadas; quando tem o "troubleshooting", vai solucionar problemas; vai desenvolver, ajudar a desenvolver "layout". Então ele acaba cuidando de toda parte técnica. Naquela época, a estrutura da Tetra Pak era menor, então o, a pessoa de assistência técnica, ele se envolvia em tudo. Então se tivesse um problema de alteração do produto, uma não conformidade, o técnico era envolvido.

 

P/1 – Mas o, a máquina em si, ela era... Quem trabalhava nela era o próprio cliente mesmo, ou era alguém da Tetra Pak que cuidava da máquina?

 

R – Não, era o cliente. O nosso serviço era, se a máquina era ou fabricada no Brasil, no princípio, então ela vinha desmontada. O nosso técnico ia para lá, montávamos a máquina, "startávamos", colocávamos ela em pressão. Daí vinha o operador do cliente, que também era treinado pela Tetra Pak, e fazia o processo de produção normal. Nós só fazíamos as intervenções.

 

P/1 – E como era a fábrica de Monte Mor nesse seu começo, Penof?

 

R – Ah, era interessante. Para mim era uma diferenciação, porque, apesar de eu ter uma vivência já relativamente boa em termos de tecnologia... Na outra empresa eu atendia empresas como: General Electric, Volkswagen, Ford, empresas grandes. Mas a tecnologia da embalagem, era alguma coisa que diferenciava do que nós víamos. Então você tinha logicamente na indústria automobilística, tinha, é, um processo produtivo, talvez mais avançado, em termos de tecnologia. Mas embalagem era um, algum segmento novo para mim, então me encantava ver essa, esse conhecimento. E dentro desse meu treinamento, eu passei um bom período dentro da fábrica, acompanhando operários nossos de fábrica, é, desde da preparação do clichê, que é um componente da formação da embalagem, até a embalagem ser cortada e armazenada. Então tinha uma interação muito grande isso facilitava até dentro da função. E a fábrica era uma coisa muito menor do que é hoje. Nós estamos falando em 85, a fábrica tinha sido fundada ou construída em 78. Então, de 78 para 85, ela era uma fábrica nova e, logicamente, era vistosa, uma fábrica bonita, [com] um padrão sueco - como a gente gosta de se referir; e isso trazia todo um referencial muito forte de qualidade. Talvez esse seja um dos principais ativos da Tetra Pak, essa preocupação com qualidade, e, logicamente, o atendimento aos nossos clientes. 

 

P/1 – Nesse período, 85, é, a Tetra Pak, ela já tinha muitos clientes, a... Como que era esse mercado?

 

R – Não, o mercado era diferente ainda. Nesse me, período ainda, nós estávamos iniciando. Eu não posso falar para você que a Tetra Pak, ela começa a crescer, é, de uma maneira fantástica, a partir do início dos anos 90. Aí tem uma mudança, é a primeira vez que nós temos um presidente brasileiro, Nelson - tá chegando nesse momento no Brasil. Já começa a dar uma estratégia, foco para o cliente nacional, com uma visão totalmente diferente, então aí começa o bum. De 85, que é a fase que eu acompanho até 90, era uma situação que eu não tinha muita visão do negócio, porque tava ainda mais imbuído na área técnica. E dentro da área técnica, eu sofro a minha primeira, meu primeiro, subo o primeiro passo na minha escala, dois anos depois, por volta de 87, quando eu vou para o centro de treinamento, que aí que eu começo a ter um pouco mais de visão gerencial - aí eu já era gerente. Até então, como técnico, eu não tinha a visão do negócio, mas a gente via que a situação era uma situação promissora, mas também era promissora há alguns anos. Ainda não tinha sido o "bum" da história, que vai acontecer um pouco mais tarde na história.

 

P/1 – E aí você foi, é, se tornou gerente 2 anos após a sua entrada na empresa?

 

R – É, essa história também é fantástica. Tem algumas histórias que acho que marcam a situação. Um dia de verão, calor intenso - Monte Mor [é] próximo a Campinas, era muito quente -, e tinha que ser feito uma montagem a, uma máquina tinha que ser encaixotada. Como as caixas eram de dimensões grandes, isso era, é... Montagem feita ao tempo, então você subia com caixa de 2 metros de altura, tinha escada, tinha que fechar; era uma coisa muito braçal e extremamente exaustivo. Me chama o diretor, o Alf - que era o diretor que me contratou -, e eu de macacão, trabalhando, suando o dia todo. Me chama dentro da sala dele. Eu saio lá dos meus “afazer”, vou para sala dele, a primeira pergunta que ele me faz: “Ricardo, como é que tão as coisas?”, ele falava até meio diferente. Ele: “RicardÕ, como é que tá as coisas?”. Até... (risos) Era a maneira dele falar, que a gente imita até hoje. Falei: “Ó seu Alf, não tá muito boa não. Não tô gostando do que eu tô fazendo aqui. Eu não tô gostando desse negócio de ficar montando máquina no sol, não vim para cá para isso”, “É. Ricardo, eu vou fazer o seguinte, você vai para escola de treinamento”, “Como, seu Alf, eu vou para escola de treinamento de novo, fazer algum curso?”, “Não, não, você vai trabalhar na escola”, “Eu vou ser instrutor lá seu Alf, mas e o Osvaldo que é o instrutor que tá lá?”, “Não, não, você não entendeu. Você vai ser gerente”. Eu reclamando que a situação tava ruim, meio que insinuando que eu tava pensando em sair da Tetra Pak, ele me promovendo para gerente; então são os grandes contrassensos aí. E aí é a minha primeira oportunidade. Eu volto para escola, o, a pessoa que me instruiu passa a ser uma pessoa que vai trabalhar comigo, eu já assumo a posição de gerente da escola de treinamento. É nesse momento que eu começo a ter um pouco mais de visão do "business", não só mais de específico da área técnica. Começo a entender. E por essa época, também, começa um movimento diferente da Tetra Pak, que a Tetra Pak começa a se preparar para falar em regionalização. O que era Monte Mor é explodido, a gente começa a ir para outros estados já com base técnica. Então, é um momento interessante na, no correr do tempo aí da Tetra Pak.

 

P/1 – E como gerente, suas atribuições mudaram como? O que mudou?

 

R – O primeiro desafio que eu tive foi muito interessante, me deram a promoção e uma tarefa simples, que até então, os cursos da Tetra Pak eram gratuitos pros nossos clientes. Eu tinha a pequena missão de fazer, começar a cobrar dos clientes. Esse, então, foi o meu primeiro desafio. E começa aí uma situação muito interessante, que é... Eu tive a habilidade, e isso daí realmente refletiu. Nós começamos a cobrar e os clientes começaram a valorizar, fomos dando uma nova cara para o centro de treinamento. O negócio, que era um negócio, vamos dizer, secundário, passa a ser uma operação interessante. Tem, é, prestígio pelo cliente, o cliente percebe isso como uma diferenciação, começam a pagar por esses treinamentos, começa a se ter uma estrutura. E um fato muito legal é que de tempo em tempo, a Tetra Pak, sempre que ela tem um equipamento novo, ela começa a reciclar. E aqueles meus amigos técnicos, que tavam lá atrás, começam a vir para escola, agora, para serem reciclados. Então tem uma inversão, o júnior começa a estar recebendo os técnicos seniores para fazerem reciclagem, mas tudo dentro de um tema muito amistoso. Porque acho que esse ambiente de, que a gente tinha no começo de carreira, ele é estimulante, é legal. Porque se a pessoa souber, é, entender que aquilo é uma maneira de você tá crescendo profissionalmente, você se dedicando é um excelente momento na carreira.

 

P/1 – E, nesse período, é, no centro de treinamento, você disse que os clientes, eles tinham cursos para; do que é que eram esses cursos? Para ensinar a mexer nas máquinas?

 

R – Exato. É, os cursos na Tetra Pak, eles têm basicamente 3 linhas mestras que eu posso te falar. Um é para o pessoal que vai operar essas máquinas no nosso cliente, o operador. O segundo, de manutenção, ou seja, as pessoas que fazem a manutenção no cliente, também, são treinadas. E controle de qualidade. Naquela época, nós recebíamos supervisores de clientes, e a gente passava algumas, é, alguns dados, algumas informações, para que eles pudessem, também, trabalhar dentro do processo de qualidade da empresa.

 

P/1 – Nesse início, nesse final... Metade, final da década de 80, o grande carro chefe, é, ainda era o leite?

 

R – Sim.

 

P/1 – Ainda era o leite, mas estavam chegando outros produtos no mercado. Fala um pouquinho sobre isso.

 

R – Sim, é verdade. Nós tínhamos. O leite sempre foi a base, eu acho que a história da Tetra Pak no Brasil começa no leite. Ele vem até hoje com uma importância muito grande, mas, naquele momento, nós tínhamos um cliente, por exemplo, a Jandaia no, em Fortaleza. Para ser mais exato, 50 Km distante de Fortaleza, no Ceará. Ela tinha uma situação de uma planta muito grande e ela produzia sucos tropicais. Começava uma diferenciação; todo mundo que havia tentado com suco, até então, tentava o suco de laranja, que o referencial nosso, como brasileiros, é o suco espremido, que é muito comum, então você tem uma dificuldade industrializar um produto que seja tão parecido. Já nos sucos tropicais, maracujá, goiaba, é, tantos outros, o suco é muito próximo, manga é muito próximo do suco natural. Então começava uma história de sucesso. Nós tínhamos um cliente que era a Jandaia - Cajubrás, na época, era o nome, a razão deles, a razão social. E eles tinham toda essa tecnologia no suco, era uma fazenda. As máquinas dentro da fazenda, então, eu, tinha um suco de excelente qualidade que estourou rapidamente no Brasil, cresceu muito rápido, criou uma estrutura muito grande - e nós tínhamos lá 10 máquinas. Então, era o sonho do nosso pessoal ir para Fortaleza, porque você saía para o nordeste, ia dar manutenção, e fim de semana [era] praia em Fortaleza. Não precisa falar como que os técnicos se dedicavam, mas é. Esse nosso grande cliente acabou entrando em uma situação econômica ruim, é, teve problemas não só da situação financeira, mas um próprio escândalo que existiu de, é, do dióxido que teve no suco, isso em 88, que foi provocado pelo suco de caju. Acabou afetando todos os negócios deles, então eles tiveram uma queda. Eles praticamente pararam por um bom período, voltaram depois dos anos 90. Então, aqui cria uma lacuna. Mas nós tínhamos, além do suco, nessa época, também tínhamos o primeiro lançamento de tomate, é, com a Cica, que era uma inovação também dentro do Brasil. Aí nós tínhamos uma embalagem de 500 ml, 500 gramas, que é... O comercial era muito interessante, é, falava que agora para você abrir a caixinha, precisava de uma tesoura, e mostrava então, tirava toda aquela complexidade da lata, tirava todo aquela história; e vinha forte com inovação. E com a marca Cica, que era a marca que era dominante no mercado, então era uma, também era um momento novo. E vieram vários produtos - era um ano muito interessante, um período muito interessante -, que a gente tinha goiabada; veio um pouco mais tarde com as nossas embalagens. Finalzinho dos anos 80, começo do 90, dos anos 90, aparece a Arisco, que se torna um grande parceiro da Tetra Pak. Alavanca fortemente o segmento de tomates, [e] começa a trabalhar com sucos. Nós tínhamos Maguary também, começando no finalzinho dos anos 90. Então, tinha uma, era um momento que os volumes não eram ainda tão expressivos, mas já se preparava ou se via um futuro mais promissor, que era justamente esses novos clientes, novas marcas. Você tinha Parmalat começando a crescer no Brasil, várias empresas aí.

 

P/1 – É, como você mesmo disse, o leite foi o que possibilitou a vinda da Tetra Pak ao Brasil, na década de 50. E nesses novos produtos, como goiabada, tomate é, você saberia dizer se houve algum tipo de resistência dos consumidores, devido a embalagem? Ou a aceitação foi boa e satisfatória?

 

R – À medida que as embalagens foram crescendo a sua curva de volume, foram feitas várias pesquisas, onde se identificava claramente que o consumidor tinha a percepção por ser uma embalagem inovadora - agregava segurança - e tinha produtos de qualidade. Então a caixinha, rapidamente, como a gente chamava naquela época, se tornou um ícone de qualidade. Todos os produtos que vinham na, nessa carona da, desse ícone de qualidade, eram reconhecidos pela consumidora como um produto diferenciado, um produto de qualidade. Então era muito interessante que, automaticamente, quando você ia para o cliente com um desenvolvimento novo, mostrava esse ícone de qualidade. O cliente já comprava a ideia muito facilmente, porque ele falava: “Poxa, eu quero ter atrelado ao meu produto uma imagem de qualidade. Se essa embalagem me traz esse benefício, por que não tê-la?”. E aí você pega algumas empresas tremendamente arrojadas, como foi a Parmalat, a Arisco, Nestlé; eles tinham esse, essa percepção e investiam fortemente. Então ajudava a crescer a inovação com produtos diferenciados e ia criando cada vez mais massa crítica, que foi dando essa, esse suporte desse tamanho todo para Tetra Pak.

 

P/1 – É, tem, teve uma época em que a; havia uma questão muito grande com relação a conservação do leite na caixinha, na embalagem da Tetra Pak, que não se sabia. “Ah não, porque tem conservante. Não, em um tem conservante. Como pode um leite não estragar depois de tanto tempo de, na embalagem?”. Isso é contemporâneo a essa sua entrada na época da Tetra Pak, você se lembra dessa questão?

 

R – Eu não só lembro, como nós sofremos dela. De tempo em tempo aparece alguém ainda perguntando isso hoje em dia. Tá, então... Na realidade, é, a, talvez o que seja mais complexo em um processo como esse da Tetra Pak, é você explicar o que acontece nesse tratamento térmico, nesse envase. É, são situações bastante complexas e “de difícil você explicar”, é difícil você comunicar isso ao consumidor. Então, toda essa situação, é, ela tem uma dificuldade. Como que você vai comunicar ao consumidor que o tratamento térmico já retirou todos os microorganismos que tinha ali nocivos, essa é a dificuldade. Então era muito mais fácil para o consumidor, o brasileiro entender, ele: “Não, esse negócio tem conservante”. Mas era muito interessante, porque você ouvia esse aspecto do conservante, do consumidor, que nós fizémos “N” pesquisas com isso. Da mesma maneira que ela falava: “Não, mas eu sei que o que tem aí dentro é qualidade”. Então, é, era um contraponto, um paradoxo, que até hoje, para ser sincero, nós não sabemos explicar. Isso vem decorrendo ao longo dos anos, até hoje é muito comum você encontrar pessoas: “Não, dentro desse produto tem conservante, tem peróxido. Não é possível!”. As pessoas têm dificuldade em entender o processamento térmico de alimentos; eu acho que esse é o grande segredo.

 

P/1 – E a Tetra Pak, ela teve ações de esclarecimento e para conscientização sobre essa questão, ou sempre foi uma coisa que o próprio consumidor se informou por si só e aí acabou percebendo?

 

R – Várias atividades, desde atividades de conscientização através de propaganda falando do leite - “vem dentro da caixinha” -, falando da qualidade, folhetos, ponto de venda. O que já foi investido nisso daí é muito. Só que é muito difícil para você mudar um conceito cultural, é uma coisa que leva anos, décadas e se necessita de investimentos pesadíssimos. Então, é, à medida que nós temos algumas coisa, situação... É muito comum, às vezes, sair na, em universidades, não esse assunto de, é, conservantes, mas sair alguma coisa. Então a nossa interação é muito grande. Nós temos uma estrutura que vai até o local e vai explicar, a mesma coisa. É muito comum falar que a embalagem não é reciclada, a embalagem é 100% reciclada. Então é uma situação, que talvez, mais atualizada para nossa realidade de hoje em dia. Sempre que nós temos essa situação, a gente interage junto com o pessoal para educar e mostrar o processo, mas é uma coisa que vai demandar tempo.

 

P/1 – Mas hoje pode se dizer que essa questão com relação aos conservantes, é quase nula, não?

 

R – Ela é nula no ponto de vista no que diz respeito ao alimento. Agora, de tempo em tempo alguém aparece. Principalmente que as nossas; a gente vai ver senhorinhas de 60, 70 anos, pessoas que às vezes têm dificuldade de entender o conceito técnico então. Mas é muito menos frequente que nós tínhamos no passado. No passado, era como, até um certo momento é, quando o longa vida começava a crescer, ele logicamente, substituía o pasteurizado, que era... Se a gente voltar lá para o começo dos anos 90, a estratégia do concorrente, do pasteurizado, na época, era denegrir a imagem do longa vida, que era a única saída que eles viam. E de que maneira atacar? Falar que tinha conservante, que um produto natural não podia resistir por tanto tempo. Então sempre foi essa situação. Mas de tempo em tempo nós achamos alguém que vem e nos pergunta: “Mas esse leite não tem conservante mesmo?”. Então...

 

P/1 – Tem uma questão Penof que é um pouco mais recente, mas que também se encaixa nessa, nesse “panteão” de lendas sobre o longa vida, que é a questão da numeração...

 

R – Da faixa...

 

P/1 - No fundo da caixa. Se você pensar, se uma pessoa pega e pensa um pouquinho mais, ela vê que isso é impossível, que é realmente uma lenda urbana...

 

R – É verdade.

 

P/1 - Mas como isso refletiu? E como foi a questão do esclarecimento, vocês foram procurados por consumidores para esclarecimentos nesse caso? Você tem conhecimento disso?

 

R – Tenho sim. Eu tive envolvido diretamente com esse assunto, porque tudo que acaba passando para o cliente é uma, um canal de entrada na empresa e através do nosso pessoal. E uma das coisas que nós aprendemos é como, é, no gerenciamento de crise, você tem que entender um pouco melhor, porque isso virou uma crise dentro da Tetra Pak, efetivamente. Então, é, tudo isso começa de uma maneira, sem uma estratégia clara ou definida, pelo menos para nós. É claro tinha uma, provavelmente um jogo de concorrência, nós não temos certeza ao afirmar isto, mas é uma situação de crise, na qual a Tetra Pak para, ela busca conhecimento fora. Porque era uma coisa totalmente inovadora para ela, apesar do Brasil ser o país que mais tem, se preocupa com lendas urbanas, hoje, se você abrir o site do google você vai ver “trocentas”. E foi a partir desse conhecimento de pessoal de consultoria externa que nós ficamos sabendo que o Brasil é o país mais atacado no mundo com esse tipo de coisa, que a gente começou a tomar algumas providências. É claro que essas providências você tem que tomar cuidado, não pode fazer nenhuma movimentação radical, porque se a gente pensar, talvez, 10% dos consumidores de embalagem tinham essa preocupação. Então você tinha que fazer uma medida que ela fosse, ao mesmo tempo, eficiente com esses 10% e também fosse, preservasse esses 90%. Então nós saímos com algumas atividades, sempre alinhados com os nossos clientes. Fomos para ponto de venda, jornais, televisão, diversos veículos de comunicação, explicando que aquilo era um site. Porque se for analisar a maneira com que era falado, vocês imaginem o seguinte, o leite que tivesse com a faixa 2 - nem vou pegar a 5 -, que estivesse aqui em São Paulo, produzido no sul, só o transporte para levar o leite para o sul e trazer de volta, já inviabilizaria. Sairia muito mais caro do que reciclar o leite. Então isso não existe e é simples de comprovar isso, porque dentro de cada laticínio existe uma pessoa, que é de serviço de inspeção federal do ministério da agricultura, ou seja, justamente para que não exista qualquer tipo de fraude. Então é uma, mais uma das nossas Lendas urbanas, como tantas outras.

 

P/1 – Mas que foi resolvida, é, essa questão?

 

R – Eu diria para você que lenda urbana, quando, e este, novamente, são aprendizados que a gente tem [com] consultor. Ela tem ciclos, vem e volta. Então pode ser que daqui a pouco a gente vai escutar que em uma cidade do interior apareceu de novo, porque, é... Hoje eu vou em Socorro, lá na sua cidade ou perto da sua cidade, falo para alguém e comento: “Olha, é, você ouviu a história do, da faixa do leite longa vida?”. Pronto, começa. É suficiente. Um já vai multiplicar e, com certeza, essa comunicação, ela vai ser explodida até na ponta, até chegar no supermercado, no ponto de venda. Então é, se a gente for lembrar dos “cases” que nós temos aí de tudo que tá na Internet, isso é cíclico. Então não, eu não descartaria que amanhã ou daqui um mês, daqui um ano, a gente volte a ter novamente esse tipo de situação.

 

P/1 – E Penof, voltando agora um pouquinho para sua trajetória dentro da empresa. A gente parou na, no gerente da, do centro de treinamento. Como foi daí para frente a sua carreira?

 

R – Ah é, esse é simples. Do gerente de centro de treinamento, eu fui gerente de assistência técnica, gerente de assistência técnica, eu fui gerente de vendas, gerente geral de assistência técnica, voltei para área técnica, gerente executivo de vendas, voltei para diretor da parte de serviço técnico, diretor regional... Eu nem lembro mais. Daí eu fui, acho que, vice-presidente, diretor de categorias e por último, vice-presidente de novo; que a estrutura foi flutuando ao longo desses anos, é. Logicamente que é normal que as pessoas vão se adequando. Então é, o que eu tenho orgulho de falar, que seja ou na área técnica ou na área comercial ou dando suporte às outras áreas da empresa, a minha atuação sempre foi direcionada ao cliente. Então eu posso dizer que, eu acho, ao longo desses anos, aprendi a lidar com clientes.

 

P/1 – Boa parte da sua trajetória se deu na área técnica, então, dentro da Tetra Pak?

 

R – Olha, hoje eu diria que não, que após 22 anos eu diria que já tem uma parte maior na comercial.

 

P/1 – Na comercial mesmo?

 

R – Na comercial, porque mesmo quando eu... É, interessante o modelo da Tetra Pak, ele foi se desenvolvendo. Quando eu falo, é, gerente de vendas, em alguma oportunidade eu já saio só da base de vendas. Quando eu chego como em Belo Horizonte, que eu saio de São Paulo - eu tava trabalhando em São Paulo eu vou para BH. Eu tava montando um escritório em BH, vou tomar conta desse escritório. Quando eu vou tomar conta? Eu já tenho pessoas, gerente de vendas, gerente de assistência técnica e reportam para mim. Já começa um sistema que o regional, como nós chamamos hoje, o, a pessoa que é responsável pelos nossos seios "offices", é, ele já tem a visão completa do cliente, ou seja, ele vai entrar no cliente, vai começar a olhar a parte de vendas, a parte técnica, a parte financeira, as necessidades do cliente. Ele já atua como marketing, como financeiro, ou seja, já começa a ter uma visão completa do cliente, que eu acho que foi um grande diferencial da Tetra Pak. Ela explode as suas barreiras internas e coloca todo mundo olhando como um todo para o cliente.

 

P/1 – E Penof, em que momento a Tetra Pak sentiu a necessidade da regionalização dos escritórios? De criar escritórios regionais e... Por que eles foram criados, qual era a função que a Tetra Pak esperava desses escritórios?

 

R – Esse aspecto, muito interessante, é... Quando nós começamos, eu diria que teve duas tentativas, uma primeira foi mais acanhada, nós voltamos para trás, fechamos tudo de novo, centralizamos tudo em Monte Mor. Essa durou um ano e meio, dois anos. Isso, antes dos anos 90. Aí nós estávamos basicamente olhando mais para área comercial e técnica, mas uma situação ainda que a base de clientes não era tão grande. Nós tínhamos, nesse momento, um escritório em Salvador e outro em Goiânia, e a operação centralizada em Monte Mor. É... No início dos anos 90, volta com esse conceito. Só que de uma maneira muito mais forte, aí já se visualizava a necessidade de estar mais próximo do cliente, que a base já aumentava, a necessidade de entender melhor o mercado de atuação do nosso cliente. Porque você falar de um cliente do sul prum cliente do norte, existe uma diferença total, desde produto, como cultura, como distribuição, como posicionar esse produto no ponto de venda, como é [o] que o consumidor vê. Então já existia essa preocupação e essa necessidade de entender melhor o negócio do cliente, diferente da primeira oportunidade onde nós oferecíamos um serviço de proximidade. Aqui nós queríamos entender bem o negócio e essa condição foi fazendo com que o Brasil fosse aumentando, a chegarmos a situação de hoje. Nós temos oito escritórios no Brasil e mais um no Paraguai. E são estruturas hoje que nós temos em alguns regionais, com 25, 30 pessoas em cada operação dessas, sempre com, dentro dos seios "office" nós temos um diretor responsável e com toda uma equipe. Então isso nos trouxe proximidade do cliente, entendimento melhor do seu negócio, do consumidor para cada área geográfica, que nos permitiu adequarmos os produtos até para necessidades distintas. É muito difícil você administrar o Brasil olhando a partir de Monte Mor. Então, a gente foi explodindo, isso foi, essa explosão, essa abertura de escritório foram acompanhando, ao longo dos anos, a medida que a base ia crescendo. Então, é, você, eu tive a oportunidade de trabalhar muito forte com o de Belo Horizonte. Daí nós vimos que ia existir uma oportunidade em Goiás, abrimos um escritório em Goiânia. Nesse momento, nós já tínhamos Recife, temos São Paulo, interior, em Ribeirão Preto. Até é interessante, porque a proximidade de Monte Mor é muito próxima, mas agrega muito valor você estando no campo, junto com os clientes. Fomos para Ponta Grossa, em 98, quando a Tetra Pak abre a segunda fábrica no Brasil. Nós colocamos um escritório regional. De lá, nós já migramos para Curitiba; temos outro em Porto Alegre e temos um em Assunção no Paraguai. Então a expansão foi acompanhando o crescimento e o grande, a grande sacada nessa história foi estar próximo do cliente, estar vivendo o que o cliente vive. Esse é o grande segredo.

 

P/1 – Quando a, o primeiro contato que você teve com a área de vendas, efetivamente, foi em que ano que você passou para essa área?

 

R – Putz, qual o ano? Eu não me lembro.

 

P/1 – Mais ou menos, início da década de 90?

 

R – Foi, porque o Nelson tinha recém-voltado. O Nelson era o diretor financeiro da Tetra Pak no Brasil, ele sai, vai para o Panamá, é, tava atuando responsável como "controller" na América Latina. Ele volta para o Brasil como presidente e eu recebo uma chamada dele. Tô em um cliente, na Batavo - eu era gerente de assistência técnica -, ele me liga, falando: “Ricardo, o que é que você acha de vendas?”. Eu falei: “Eu acho legal”, “Quer trabalhar em vendas?”. Falei: “Nunca pensei, mas topo”. Assim. Então foi uma coisa muito rápida, já tava indo para vendas e aí já era uma estrutura... Porque vendas, dentro da Tetra Pak, sempre foi uma área, por essa proximidade, essa vivência. A Tetra Pak é uma empresa que ela preserva muito os relacionamentos, ela é, incentiva a você construir relacionamento, base [dos] relacionamentos com clientes. Então a área de vendas sempre foi uma área muito privilegiada. Era uma área de desejo dentro da Tetra Pak; as pessoas, até hoje, buscam como desafio de carreira, crescimento, passar pela área de vendas. Então, era um objetivo legal, era uma situação legal. E o presidente convidadndo, nada mais agradável. Então, nesse momento, começa, foi começo dos anos 90, que eu vou para vendas. E a vantagem [é] que eu tava chegando em vendas, que eu já vinha com uma bagagem técnica. A venda da teca, da Tetra Pak, ela é uma venda de conhecimento técnico. Vender um equipamento, um conceito, uma embalagem é, você precisa realmente tá trabalhando toda uma base técnica. Então essa bagagem que eu trazia até então, era muito legal, muito aplicável, e mais alguns treinamentos, algumas coisas que foram desenvolvendo minhas habilidades, também, na minha área de vendas. Ficou uma somatória legal, me deu uma base. E aí eu fui descobrir que eu gostava de vendas, apesar de, no passado, isso na época de escola, que você fazia aquelas loucuras para defender algum trocado, eu fui trabalhar em vendas em feira com tio, fui trabalhar em loja com outro tio, então sempre tinha um vínculo de venda, mas nunca tinha pensado em carreira. E aí começa a despertar a minha, esse meu lado para vendas.

 

P/1 – A área de vendas, é, ela é responsável tanto pela venda do maquinário, das máquinas, quanto das embalagens?

 

R – Sim, ela, na realidade, é, nós temos vários, várias estruturas dentro da Tetra Pak. Nós chamamos, é, existe uma estrutura que é essa parte cartonada, parte de embalagens, existe a estrutura de "process". "Process" são todos os equipamentos que antecedem a máquina de envase. Então, aqui tem uma divisão. A primeira divisão, então, é, eu tenho a responsabilidade por parte desse negócio e tenho um colega, que é o Mario Jacinto, que tem responsabilidade pela parte de "process". Quando nós olhamos essas duas estruturas; a embalagem entra dentro dessa parte de cartonados, então, dentro dessa estrutura, nós temos um pessoal de administração de vendas, que é o pessoal que recebe o pedido, que faz via internet a colocação dos pedidos com os nossos clientes. Então é, a embalagem, ela entra nesse circuito. E como é que nós trabalhamos? Nós trabalhamos desde o conceito. Eu gosto de brincar que, às vezes, a gente vende desde o sonho. O cliente sonhou: “Olha, eu quero envasar maionese”, vamos nós lá ajudar a desenvolver o produto, desenvolver o "layout" da fábrica, a embalagem, é, ajudar o cliente a posicionar o produto no ponto de venda, e muitas vezes usando até de prestígio da Tetra Pak para abrir portas de supermercados para o cliente, efetivamente, fazer vendas. Então a nossa participação começa desde o sonho, porque muitas vezes é comum: “Será que dá para envasar tal coisa?”, falou. Será que dá? Já tem alguém de vendas olhando para o negócio? Já começa a nossa participação. Então é legal, porque nós temos várias histórias de sucesso no Brasil, que essa visão empreendedora, é, nos permitiu trazer produtos que nós não temos em lugar nenhum do mundo. Então são vários, goiabada era só no Brasil, leite condensado começou no Brasil. Nós temos inúmeros produtos que são típicos do Brasil. Posso dar um exemplo: o único no mundo, suco de milho, em Tetra Pak, é um envasado. Água de coco foi um projeto legal. Então tem vários projetos aí que começam dessa criatividade, dessa imaginação, dessa força de vontade de fazer com que o mercado brasileiro seja diferente.

 

P/1 – Hã, só para ver se eu entendi, então, é, chega um cliente para Tetra Pak e fala: “Eu quero, é, envasar o meu suco”, por exemplo. Aí a Tetra Pak, ela também desenvolve a embalagem, dá noções com relação ao "layout" de embalagem... 

 

R – Sim.

 

P/1 - A, esse tipo de situação, e indica qual é a embalagem mais indicada para aquele produto ou não? É isso mesmo?

 

R – Exatamente. É, dentro de uma estrutura que nós temos hoje, nós estamos adquirindo um "know-how" ao longo desses anos, que nos permite hoje auxiliar os nossos clientes, e é a nossa obrigação transferir esse conhecimento para eles. Então, é, com isso, a gente pode ajudar até a interferir na cor do produto do cliente, seja na coloração do produto, da embalagem. "Olha, se você mudar essa embalagem do teu vermelho para um verde, pode te dar mais frescor para o teu produto." Então até esse tipo de coisa. E a Tetra Pak, no design, ela tem alguns parceiros no Brasil, entre eles, o Seragini, que é um dos maiores designers do Brasil, no qual nós levamos às nossas palestras, com clientes. É muito comum a Tetra Pak... Para eu te dar um exemplo: daqui a 40 dias nós vamos estar fazendo um evento com 120 clientes, onde nós trazemos pessoas de diversas áreas para, justamente, agregar valor aos produtos dos nossos clientes. Então, o Seragini, é muito comum ser convidado para dar palestra de cor de embalagem, de design é, como fazer uma embalagem de alto impacto, como explorar o máximo do recurso visual. Porque o que leva o consumidor hoje a tomar a decisão na gôndola são duas coisas: é marca - se ele tiver alguma fidelidade à marca - ou é o que ele vê na hora, o que ele vê na hora é o visual e preço. Então, se você tiver preço e você agregar o visual, tem uma chance grande de ter sucesso nessa, nesse momento aí de decisão do consumidor.

 

P/1 – Penof, é, pegando esse gancho do que você falou: com a década de 50 brasileira e no mundo todo também, com a expansão dos supermercados, aconteceu exatamente isso; o vendedor deixou de ser uma pessoa e passou a ser o próprio produto, ele era o responsável pela venda daquilo: a embalagem, o que, as informações contidas nela. Fala um pouquinho, é, sobre a evolução das embalagens da Tetra Pak, como elas foram se desenvolvendo ao longo do tempo, é, para se tornarem exatamente mais atrativas, mais opções ao cliente?

 

R – A Tetra Pak, no Brasil, ela sempre teve uma preocupação de tudo que nós tivéssemos disponível no nosso portfólio mundial, no mínimo, ser apresentado aos nossos clientes, e se possível, implementado no mercado. Isso sempre nos deu uma grande vantagem, porque, por se tratar de uma empresa multinacional presente, com uma participação, uma cobertura muito grande no mundo. Nós sabíamos o que acontecia no Japão, na China, na Suécia, Estados Unidos, em qualquer lugar do mundo. Então, um produto novo, uma embalagem nova, imediatamente era pinçado. Trazíamos para o Brasil, analisávamos. Com isso, nós já podíamos, às vezes, agregar uma pesquisa local com consumidor, uma pesquisa com, é, “retailers” em supermercados. Com esse pacote, com essa estrutura pronta, nós começamos a olhar quais os clientes que nós deveríamos direcionar esse tipo de produto, quem seria o cliente que teria sucesso nessa estrutura, e já íamos para o cliente com uma solução meio pronta. Então, a preocupação de embalagem, ela sempre existiu. A evolução da embalagem, para nós, é um negócio, é o “core” da Tetra Pak. Nós temos no nosso DNA a inovação, nós gostamos de falar que isso faz parte da história da Tetra Pak, no Brasil [e] no mundo. Porque a empresa que cria um segmento, que ela é líder mundial, ela que tem que gerar inovação, ninguém mais. Se ela não gerar inovação, o seu produto vai ficar envelhecido muito rápido e desatualizado muito rapidamente, então isso tá dentro da cultura da Tetra Pak, e no Brasil. Se lançássemos uma embalagem diferente que fosse em qualquer lugar do mundo, nós íamos achar uma solução aqui no Brasil. Então, isso fez com que a evolução da embalagem no Brasil fosse sempre muito acelerada. Às vezes a gente lançava o Tetra Prisma, que é um bom exemplo, uma embalagem que ela vem se tornando mais conhecida nos últimos 4, 5 anos, que ela ganha notoriedade, mas ela tá presente no mercado a mais de 10 anos. Então isso foi sempre uma estratégia. É, trazia alimentos diferenciados, os produtos que tinham lá fora, era muito legal, às vezes você degustava um produto. “Poxa, esse produto é legal. Vamos levar para o cliente!” “Não, esse produto não é legal, mas o conceito é legal.” Nós temos o pessoal de engenharia de alimentos em Monte Mor: “Vamos fazer uma tropicalização do produto para levar”. Então até. no nível de produto a gente trabalhava. E uma das coisas que ajudava a Tetra Pak a manter essa inovação, [era] fazer com que as coisas fossem sempre vistas da maneira que são lá fora também. Nós sempre levamos clientes para Europa. Europa, América do Norte, para qualquer lugar do mundo, para, justamente, eles se atualizarem. É muito mais fácil quando um cliente nosso vê um conceito na prateleira, vê o consumidor comprando e entende uma realidade. É claro, a Tetra Pak, ela procura privilegiar alguns clientes que tenham essa visão, que estejam preparados para isso. Não adianta você falar ou o cliente falar para você a vida toda: “Olha, eu sou um ‘follower’, vou só seguir o mercado”, ele não é o cliente que vai fazer inovação. Agora, você tem grandes empresas que falam: “Eu tô disposto, eu preciso fazer a inovação”. Então, esses clientes, nós pegamos. Eu tô indo com um grupo agora, domingo, eu tô levando pessoas para Europa, justamente para ver esse tipo de coisa, [o] que é que tá acontecendo. E para nós, Europa sempre foi o seguinte: a Tetra Pak nasceu na Suécia, e a Europa, por ela ter essa facilidade em desenvolver, por ela ser a ter esse, o, essa situação economicamente melhor, ela sempre teve à frente do Brasil alguns anos, então ela servia um pouco de visão. “Olha, vamos ver o que vai acontecer no Brasil daqui a 10 anos, daqui a 5 anos.” “‘Tchum’, vamos para Europa.” Então servia meio que um piloto para o cliente, para ele se antecipar, e com isso ficava mais fácil a decisão dele, como fazer para introduzir novos produtos, novos conceitos. 

 

P/1 – No Brasil, a última novidade - por favor, me corrija caso eu esteja errado -, é, com relação às embalagens da Tetra Pak, seria a Tetra Recart.

 

R – Perfeito.

 

P/1 - Para alimentos sólidos. E aqui, agora, tá chegando, que é a Tetra Gemina?

 

R – Certo.

 

P/1 – É isso mesmo?

 

R – O, a Tetra Recart, ela é uma embalagem que nós temos a operação no Brasil a quase 1 ano agora. Nós saímos com um produto que era realmente a seleta de ervilhas, cenoura e esses produtos. Agora já foram lançados mais duas, dois segmentos, foram lançados, é, grão de bico, em Tetra Pak, e recentemente feijão, feijão pronto. Essa é novidade. Eu tô antecipando para vocês, tá entrando no mercado agora. Extremamente interessante, feijão já pronto: você abre a embalagem, coloca no recipiente, leva para o microondas, tá pronto o feijão. Isso tá, é novidade fresquíssima, tem 20 dias que tá no mercado e é fantástico. É, a gente, em casa - lá é eu e minha esposa só -, tem, busca muito alimentos prático; e isso daqui para nós é fabuloso. E o brasileiro, como todos nós gostamos do feijãozinho, e esse realmente vale a pena. O Tetra Gemina nós apresentamos agora na Fispal, ele é uma embalagem nova, um conceito novo - nós estamos trazendo. Já temos clientes para essa embalagem no Brasil. Em breve vocês terão a oportunidade de tá vendo nas prateleiras dos supermercados. Mas é, de novo, mostrando o DNA da empresa. O Tetra Gemina - recém-lançado -, assim como o Tetra Recart - [também] recém-lançado no mundo -, já estão presentes na realidade brasileira, ou seja, já estão nas nossas prateleiras. E pela importância da indústria de alimentos no Brasil, a Tetra Pak ganha alguma vantagem em introduzir produtos, não só pela indústria brasileira, que eu tenho que deixar a modéstia um pouco de lado, também, pelo tamanho de operação da Tetra Pak no Brasil. Então, é, sempre que se tem hoje uma inovação dentro do grupo, o Brasil é um dos países foco para trazer, para introduzir.

 

P/1 – Bom aí na, no departamento, na área de vendas vou... Como foi o seu; você falou, mas que você falou rápido, eu não consegui... Em um, me lembra de qual foi mesmo a sua trajetória. Daí, na área de vendas, você?

 

R – Daí teve uma ocasião que eu voltei para área técnica, tinha uma necessidade de um diretor da área técnica. E a pessoa que me contratou, que eu gosto muito, o Alf, que hoje é aposentado. É, o Alf teve um problema, de doença, ficou hospitalizado, afastado e tinha uma necessidade de voltar para fazer uma ponte, até se trazer um diretor de..., Normalmente, diretor na área técnica, até então, sempre eram, é, expatriados, ou era suecos, normalmente. Até porque a tecnologia era desenvolvida na Suécia. Então eu fico aí um período, acho que de 6 meses, se não me falha a memória, dando cobertura até a chagada do novo diretor técnico. Aí eu tinha responsabilidade total pela divisão, que foi uma experiência válida para mim também, porque eu já tinha vindo de assistência técnica, já tinha trabalhado como gerente de assistência técnica, gerente de treinamento. Aí eu tava agregando, tava vendo a visão macro do negócio, que foi uma situação bastante interessante. Mas, foi um "part time", aí eu tava fazendo um socorro e logo depois eu volto já na posição de diretor regional, que daí já começa a estruturação mais pesada das nossas regionais.

 

P/1 – E aí foi na regional BH?

 

R – Eu começo em São Paulo. Eu tinha a atenção de algumas contas, eu atendia. Naquele momento, era quando nós estávamos com [a] Parmalat, explodindo no Brasil - era um grande cliente. Eu atendia juntamente com alguns colegas a conta da Parmalat e, nesse momento, nós tínhamos a necessidade de começar dar foco em outros clientes. Eu lembro bem que foi uma situação muito interessante, que eu cheguei para o presidente, Nelson, falei: “Nelson, eu tô me voluntariando para ir para Belo Horizonte”. Ele olhou para mim: “Você é louco?”. Foi essa a palavra, falei: “Por que louco?”, “Você toma conta do nosso maior cliente”. Falei: “Nosso maior cliente tá andando bem, tem gente demais. Agora, os nossos segundos maiores clientes tá... Eu acho que não tá legal”. Ele disse: “Você é louco”. Ele sai, vai na garagem, pega o carro [e] sai, me liga: “Mude segunda-feira, você é o melhor estratégico que eu tenho”. Começa a história, eu vou para Belo Horizonte e em uma decisão. Isso era o legal, é o... Era o legal não, é o legal na Tetra Pak, que as decisões são tomadas dessa maneira; isso, da agilidade. Se você tivesse, talvez, em outro tipo de multinacional, teria que ser feito conselhos, avaliação. Não, Tetra Pak é coisa objetiva. Se você tiver um conceito, uma ideia boa, a aprovação disso é rápido. Claro que você tem que justificar, tem valores envolvidos, então, essa velocidade se traduz em velocidade para o cliente. E aí foi um período legal, fiquei 2 anos e meio em Belo Horizonte. Já começamos a olhar para; naquela época, nós atendíamos os estados vizinhos, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Goiás, começamos [a] perceber que tinha um potencial de explosão em Goiás. Falei: “Vamos abrir um escritório, vamos abrir o escritório de Goiânia”. Eu era candidato, porque a estrutura de BH já tava montada - eu sou meio nômade, falei: “Não, eu vou para Goiânia agora”. Só que daí meu atual chefe, o Paulo, vai embora do Brasil e me chama de volta para São Paulo. Quer dizer, toda a minha estratégia de sair da loucura; eu volto para São Paulo, só que daí eu volto já como vice-presidente. Daí eu já tava, foi na primeira posição, primeira vez na estrutura como vice-presidente, ajudando essa estruturação toda.

 

P/1 – Isso em que ano, mais ou menos?

 

R – Isso fazem 10 anos. Foi quando o Paulo foi embora, exatamente 10 anos atrás.

 

P/1 – 97?

 

R – 97, nessa época.

 

P/1 – Aí você ficou como vice-presidente?

 

R – É, na realidade, a Tetra Pak tem uma... O título em si ele varia, mas a responsabilidade que acaba sendo é o principal. Eu sei [que] eu dei o meu [melhor]. A minha grande missão sempre foi olhar para clientes, é isso daí. Então, uma hora, é, pode ser vice-presidente, outra hora é diretor de categoria, outra hora é diretor executivo, outra hora volta a vice-presidente. Você vai alterando, mas a responsabilidade, que acho que é o principal, o foco, como eu lhe falei, era o foco no cliente. Acho que eu me tornei um especialista ao longo desses tempos, trabalhando com clientes. E para mim ficou uma situação extremamente agradável, porque você vai construindo relacionamento ao longo desse tempo. Então eu consegui, com isso, eu tenho muito bons clientes, muito bons contatos. Eu gosto muito. Têm pessoas que frequentam, inclusive, a casa pessoalmente, então eu tenho uma relação muito legal. Isso vai construindo o negócio, mas vai construindo em relação com [as] pessoas também.

 

P/1 – E na década de 90, em meados da década de 90, foi quando... Você disse alguns momentos atrás, no seu depoimento, que teve o “bum” de crescimento...

 

R – Isso.

 

P/1 - Da venda das embalagens e da Tetra Pak. Hã... Qual o motivo, na sua opinião, que propiciou esse panorama tão positivo para esse crescimento? E ele continua até hoje?

 

R – É, nós brincávamos, e isso era interessante, pessoal de venda sempre tem, é, essas brincadeiras. Se um gerente nosso de venda saísse daqui para qualquer lugar no interior, passasse no campo e visse uma vaca em uma fazenda, nós parávamos para vender uma máquina. Brincadeiras a parte, mas começava o momento que a gente começava a ampliar a base da Tetra Pak. É, uma vaca era pouco, mas se o cliente tivesse o mínimo aí de 30, 40 mil litros de leite [por] dia, nós já tínhamos foco. Nós tínhamos que conhecer obrigatoriamente quem era esse cliente, onde estava esse cliente, nós tínhamos que visitar. Importasse ou não se nós tivéssemos negócio, era uma prospecção que a gente começava e, com isso, nós fomos criando uma base. Então nós começamos a pegar o mapa do Brasil, nós fomos pintando estado por estado, fomos achando onde estavam os nossos clientes, fomos posicionando, melhorando a nossa cobertura a nível nacional, fomos entendendo melhor essa base, e isso foi nos dando uma condição de aumentar. É, teve sim um fato muito importante, que foi uma visão diferenciada. Até início dos anos 90, nós tínhamos sempre uma administração internacional, ou nós tínhamos um sueco, um inglês, quem quer que seja, no comando. Pela primeira vez nós tínhamos um brasileiro, que era o Nelson, como presidente da empresa, e com a visão [de] vamos disponibilizar o produto, vamos fazer [com] que o produto chegue ao laticínio. Se ele chegar ao laticínio nós vamos vencer uma etapa. [Ou] não vamos vencer, porque aquele produto tem que chegar ao consumidor, tem que ser atrativo. Mas a primeira etapa tá preparada, aliamos isso, começamos a comunicar, a trabalhar. Fomos criando a base, crescendo ano após ano, fazendo uma base bem estruturada até chegar ao tamanho que nós estamos hoje. Hoje, ainda, o leite cresce, mas já cresce em uma base menor do que nós crescíamos lá dentro, no passado - perdão. Mas para você ter uma ideia, é o maior mercado de leite longa vida do planeta, é o nosso. Então é a maior base, é o maior mercado de leite aromatizado do globo. É o nosso, brasileiro. Então, temos várias marcas aí que são muito sustentáveis. E falar que nós vendemos hoje cinco bilhões de litros de leite por ano, falar que nós vendemos hoje quase oitenta milhões de caixinhas de água de coco, você pode imaginar oitenta milhões de caixinha [por] ano? É coco que não acaba mais. Então é interessante. A gente fala leite aromatizado, Toddynho, "nescalzinho" e várias outras marcas. Se vende um bilhão e trezentos milhões de embalagens por ano, para esses produtos. Então você fala: “Onde tanta criança toma leite aromatizado?”. Então, são números muito expressivos, muito interessantes. Falar que suco se consome mais de um bilhão de litros de suco nas nossas embalagens. Então tem 500 milhões de produtos atomatados, é, são números expressivos, que chamam a atenção do mundo todo e continuam crescendo. Graças a Deus, continuam crescendo, continuam nos dando vantagem. Esse ano nós vamos, é, crescer também aí outros 4%, 5%, que é muito bom para o tamanho de uma empresa onde nós estamos hoje. E tamô já olhando desafio, que a nossa missão não tá parada em 2007. Aliás, eu diria para você que 2007 já ta indo por inércia, nós já tamos olhando 2012. Já tamô montando um planejamento [de] onde nós queremos chegar em 2012 - que essa sempre também foi outra vantagem, aí é... A Tetra Pak, ela tem uma visão no dia e também tá olhando para o futuro. Então a gente tá sempre provocando um pouco aí esse paradoxo, como administrar o presente olhando para o futuro.

 

P/1 – E Penof, é, tomando por base esses dados que você acabou de nos citar com relação a venda de leite, de aromatizados, qual é a importância da Tetra Pak Brasil dentro do grupo Tetra Pak? Como ela é vista lá fora?

 

R – Isso, talvez, seja a parte mais encantadora da minha história, poder acompanhar essa credibilidade que a Tetra Pak Brasil construiu. Isso é fantástico. Se nós pegarmos lá no início dos anos 90, a Tetra Pak, dentro do ranking lá, nós talvez estivéssemos lá pelos trigésimos, lá no final da lista. Essa era a realidade e a gente veio com o crescimento, a gente veio posição a posição, nós viémos subindo, chegamos no início do... Agora, já na virada do milênio, a gente já tava em uma posição, assim, a gente começava olhar o primeiro lugar no top do "ranking", assim, com alguma possibilidade. Naquele momento, Alemanha era primeiro, Brasil tava em terceiro. Nós tínhamos ali uma briga com outros países, mas a gente tava vindo duma maneira forte. Nós tínhamos tudo para chegar na ponta, só tinha um pequeno detalhe: um "paisinho pequeno" que tava lá na décima posição, que era a China. Brasil chega em segundo e a ultrapassar, para ser primeiro, vem um "pequeno país" chamado China e atropela o Brasil. Mas, é, atropelar o Brasil foi uma coisa interessante, porque a empresa, também, ela tem algumas maneiras de medir. Se a gente olhar o número de embalagens efetivas, a China vende 24 bilhões de embalagens e o Brasil vende nove [bilhões]. Se eu pegar e converter esses 24 bilhões de embalegem e converter os nossos 9 bilhões em litragem, o Brasil é maior que a China. Então o Brasil, em litragem, é maior. Se a gente olhar alguns outros aspectos, o Brasil é maior do que a China. Isso é uma questão também de tempo; vai reverter, porque os volumes do crescimento deles é fantástico, mas o Brasil, em muitos aspectos, hoje, tá no top do ranking. Eu diria para você que o Brasil, se não for uma das melhores empresas, a melhor empresa do grupo, ela tá entre as três maiores. 

 

P/1 – Isso é motivo de orgulho para todos os funcionários, com certeza.

 

R – Foi trabalho, muito suor, muita inspiração. A gente brinca que tem muita inspiração e muita transpiração também para chegar até aqui. Mas, sem dúvida nenhuma, é motivo de orgulho. É aquilo que eu falava no começo, para mim é muito gratificante você ver um trabalho chegar. E é bacana que hoje nós temos uma situação: esse resultado gerou um auto credenciamento para o, para o nosso parque aqui no Brasil, ou seja, os nossos, é, colaboradores, hoje, estão no mundo todo. A medida que a Tetra Pak Brasil foi crescendo, é, logicamente, chamou a atenção do grupo. E toda vez que você precisava de pessoas diferenciadas, o Brasil começou a ser prestigiado. É a segunda maior delegação de expatriados, você tem uma ideia? A Tetra Pak na Suécia é a primeira delegação, é onde tem mais suecos no mundo, o segundo maior grupo de pessoas que foram exportadas de seu país de origem é o Brasil. Então, hoje, você vai encontrar brasileiro na China, na Itália, na Russia, onde você imaginar, que é legal. Onde você vai hoje, você fala: “Eu sou da Tetra Pak Brasil”, “Brasil! Poxa, que legal! Me fala aqui como que é?”. Então essa credibilidade, esse respeito que nós construímos é fabuloso, dentro de uma empresa desse porte.

 

P/1 – E existem produtos, que ao que me parece, são desenvolvidos localmente, no sentido de Brasil mesmo. Um desses exemplos seria a água de coco; acredito que ela tenha se desenvolvido aqui no Brasil, é isso mesmo?

 

R – Isso, é verdade. O conceito da água de coco, na realidade, ele passa por uma tropicalização, porque já tínhamos alguns produtos sendo envasados em outros países do mundo, mas não com a mesma aplicação que se fazia aqui no Brasil. E a história mais interessante é a seguinte, é, começa de uma “joint venture” de duas empresas, a Sococo, que é um grande cliente da Tetra Pak com a base em Alagoas, e a Irgominas, que era envasadora de Coca-Cola em Minas. Eles tinham um pequeno problema: toda a água de coco que eles tinham, era jogada fora; isso era um problema ambiental, porque eles aproveitavam a castanha, faziam o creme, o leite de coco, faziam outras aplicações, mas a água não tinha uma solução. Discutindo com eles, nós desenvolvemos um sistema de envase nas nossas embalagens. Começa então a história do envase de água de coco, o que era um problema para o lado, para indústria, que era essa água de coco, um problema sério de meio ambiente. Passa a ser envasado, transforma-se em um sucesso. Porque, como eu falei, a Coca-Cola era um dos patrocinadores, era um dos parceiros nesse projeto. Então, o primeiro lugar que a água de coco vai, é junto com as garrafinhas de Coca-Cola, no mesmo caminhão, isso vai por pouco tempo, até essa informação chegar em Atlanta, no raio de quarto da Coca-Cola, que vem a ordem no dia seguinte. Tire a água de coco dos caminhões de Coca-Cola. Eu lembro bem. Até ontem eu tava conversando... O Renato Barcelos, que era o “partner” nesse projeto, nós sentamos em Belo Horizonte, falamos: “O que é que nós vamos fazer agora?”. Nós sabíamos que era um projeto campeão, que era um projeto extremamente inovador, um produto com um chamado muito forte, uma embalagem que agregava valor. Nós tínhamos ali um conjunto de vantagens que não poderiam ser, é, deixar cair no descaso naquele momento. “Bom, nós temos que criar uma distribuição nova. Vamos criar uma distribuição nova.” Mais uma vez, a parceria funcionando forte. Fomos identificar uma pessoa; da pessoa, nós fomos fazer a identificação de como vamos fazer, é, a distribuição, quais os canais, como nós vamos fazer juntos, em parceria, a Tetra Pak e a Amacoco - que é essa empresa. Criamos esse canal de distribuição, e graças a esse esforço, fez com que a água de coco viesse a crescer. Se ela tivesse encaminhando, a Coca-Cola ela cresceria, talvez, mais rápido. Mas é, o esforço valeu como um ensino, porque, é, nem sempre a solução que a gente tem, que é a prática, que tá ali na nossa cara, vai ser a que vai se perpetuar. Então, desse problema, desse momento ruim da história aí, se criou uma solução que persiste até hoje e nos traz aí um volume muito significativo de água de coco, para nossa felicidade. 

 

P/1 – Penof, pelas histórias que você fala, a impressão que passa é de que, na verdade, a relação entre a Tetra Pak e o cliente, ela supera a... É uma relação profissional, obviamente, mas se torna mais uma parceria do que, efetivamente, um contato de venda ou de compra. Hã... Isso é uma constante com todos os clientes? É real isso mesmo, a sensação de que a parceria se faz presente sempre, é, confere? 

 

R – Esse é nosso objetivo, essa [é] a nossa maneira de trabalhar. Eu diria para você, que a parceria, ela é uma situação no qual nós gostamos, nós estamos preparados para trabalhar, nós entendemos [e] cultivamos esse tipo de atividade. É claro, falar que isso seria para 100% dos nossos clientes, talvez não seja verdade, porque muitos clientes não querem trabalhar dessa maneira, então aí você tem que respeitar essa maneira que o cliente quer. O que eu diria para você talvez seja o seguinte: que a Tetra Pak se adequa a maneira com que o cliente queira que ela participe dos seus negócios. Esse é o, talvez seja a melhor definição. Mas, com certeza, onde nós temos espaço para trabalhar em parceria, nós somos especializados nisso. Essa é a nossa praia.

 

P/1 – Você falou que na questão da água de coco, o despejo dela causava um dano ambiental [e] era uma questão, também, ambiental. A Tetra Pak, ela é muito preocupada com essa questão ambiental? Não só com relação as suas embalagens, que hoje, como você mesmo disse, já são 100% recicláveis, como também dentro da própria empresa, dentro da sua estrutura fabril e de produção. Fala um pouquinho sobre essa questão para gente.

 

R – Eu acho que essa consciência não podia ser diferente, porque se nós voltarmos mais de 50 anos atrás, quando o fundador da empresa, é, criou, que o Dr. Ruben Rausing cria a embalagem longa vida, cria a embalagem asséptica, ela... Início dos anos 61, 62, início da década, ele já tinha essa preocupação com o meio ambiente. Você tem que usar e tem que dar destino para essa embalagem, então isso é uma consciência que vem desde o fundador da empresa. Isso é levado muito a sério no Brasil, porque, é, nós temos a nossa consciência correta. Nós temos que olhar para isso, isso é uma obrigação nossa como fornecedores de embalagem, e não só, é, esperar que isso seja um problema do consumidor, das autoridades ou da indústria, que é o nosso cliente. Isso é um problema de todos nós. Se nós fossemos esperar no Brasil que essas políticas, é, de reciclagem, ou essas políticas ecologicamente corretas acontecessem, talvez nós estivéssemos a 10% do que nós estamos fazendo hoje. Aí fala mais forte o nosso DNA de inovação, o nosso empreendedorismo; e, com isso, nós fomos avançando ao longo do tempo e não estamos satisfeitos. Nós temos feito muito, mas nós queremos fazer muito mais. Então, reciclagem para Tetra Pak é uma coisa séria, é uma coisa que nós entendemos que isso vai diferenciar as empresas no futuro, sejam elas de embalagem, de indústria automobilística. Quem não estiver preocupado, quem não estiver antenado, não estiver alinhado com as tendências ecologicamente corretas, vão desaparecer. Isso eu não tenho dúvida. Eu acho que é o que nos dá essa seriedade, que nos dá essa certeza, é o quanto a empresa no Brasil, é o quanto a empresa no, o grupo investe mundialmente por esse assunto. Então, no Brasil, é um assunto sério, eu fico contente de falar e tenho, até me sinto honrado de falar que na empresa que eu trabalho tem uma diretoria, um departamento de meio ambiente consciente e atuante. Na semana do meio ambiente, que [é] essa semana que nós tamos, se vocês forem para Monte Mor hoje, tem uma tenda montada lá, onde nós estamos esperando receber todos os nossos funcionários para justamente falar de conscientização ambiental. Isso tá acontecendo hoje em Monte Mor, está acontecendo em Ponta Grossa, na nossa outra fábrica. Temos ações com todos os nossos escritórios regionais, ou seja, meio ambiente é coisa séria na Tetra Pak.

 

P/1 – É observável que a Tetra Pak, quando ela abre uma nova fábrica, ela sempre se posiciona perto de regiões que ainda estão em desenvolvimento, pelo menos no Brasil. No caso de Monte Mor foi assim, e que, graças a ela, a região como um todo explode, digamos assim.

 

R – Perfeito.

 

P/1 – É, pegando esse gancho, eu queria que você falasse um pouquinho sobre a questão do investimento social mesmo, da Tetra Pak.

 

R – Certo.

 

P/1 - Nas regiões onde ela se faz presente.

 

R – Perfeito. É uma verdade. Quando a gente pega em 78, quando a Tetra Pak construiu a fábrica - e vocês vão ter a oportunidade de ver as fotos. Eu acompanhei em 85, quando eu cheguei, onde a Tetra Pak estava. Era uma chácara, uma fazenda, era totalmente despovoado, tá? A cidade, ela era minúscula. Monte Mor. Com a chegada da Tetra Pak, a Tetra Pak se torna a empresa que mais arrecada impostos, então, começa aqui já uma contribuição com o município, uma contribuição com o estado, já gerando riqueza para que o município de, [para que] novamente investe. Ela começa a atrair, é, os funcionários para sua empresa, então começa a criar aqui, também, uma ambientação social muito legal. Porque a maioria dos nossos funcionários ou moram em Monte Mor, em Campinas ou Ponta Grossa, muito próximo. Então também traz esse lado, mas não só isso, Ela começa, também, [a] criar uma preocupação com o lado social, com a comunidade que ela vive. E aí começam programas de voluntariado espontâneos dentro da Tetra Pak. É, logicamente, nós incentivamos isso, nós temos uma postura, uma visão positiva quanto a isso. Então nós temos hoje [uma] situação no qual a Tetra Pak, é, reforma praça em Monte Mor, doa ambulância, ajuda asilo. Seja por iniciativa da Tetra Pak ou do corpo voluntariado, que eu acho que isso é o legal. Não importa da onde vem; tem que vir de algum lugar, tem que ser trabalhado. E aí vai se trabalhando. O último que eu vi agora, a semana passada, era alguma coisa para o orfanato Mcdonald’s, é, Mcdonald’s McDia Feliz, a gente participando. Então existe essa conscientização, e não é aquela conscientização demagoga: “Eu vou fazer porque é bonitinho para empresa”, não é isso. Isso não tem nenhuma visão financeira, não tem. É a satisfação [de] nós como seres humanos, é como funcionários, trabalhando e gerando essa riqueza; que, aliás, falta muito para o nosso país, infelizmente. Mas essa é uma visão que existe forte na Tetra Pak.

 

P/1 – Ações como as questões da, ligadas à questão ambiental e também essa questão social; você acredita que modifica positivamente o funcionário? Para que quando ele saia da empresa, para que ele quando tá na sua casa, fora do seu ambiente de trabalho, ele também leva consigo todas essas questões e esses aprendizados para sua própria vida?

 

R – Rodrigo, eu vou te falar uma coisa, é, eu acredito que sim, que altere. Eu acho mais até, eu acho que é papel aí sim da empresa como meio de educação, ela tá contribuindo para que esse processo se ocorra e ocorra de uma maneira sadia. Eu fico muito feliz em poder dizer que na Tetra Pak, a gente percebe que isso daí é um multiplicador e as situações são muito comuns, a gente vê. A gente tá em uma certa... Em determinado local alguém vem comentar uma situação normal dentro do grupo, uma situação, uma reação. Você vê que isso sim está sendo, é trabalhado a cultura do funcionário, e agente é; eu acho que é enriquecedor isso. E nós temos que promover isso de uma maneira bastante intensa e assertiva. Não pode ser percebido simplesmente como um evento para tentar mudar, é uma coisa que ela é sutil, ela tem que ser feita passo a passo para que seja percebida. Não simplesmente uma mudança porque alguém tá desejando essa mudança, mas que ela seja assim entendida como uma realidade de vida. 

 

P/1 – E como se dá o investimento da Tetra Pak nos seus funcionários, Penof? Ela, existe um programa de bolsas para funcionários que querem a, uma especialização aqui ou em uma área que seja coerente a sua atuação dentro da empresa? Existe esse programa?

 

R – Existe sim. Nós temos diversas maneiras de tratar esse assunto. Tudo começa por uma avaliação que é feita no final do ano, onde o líder, junto com a pessoa que tá sendo avaliada, é, interpretam a avaliação dela e identificam onde estão os pontos de desenvolvimento. Então, isso daqui seria a primeira linha, que nós tratamos o desenvolvimento, vamos dizer, o desenvolvimento profissional. A segunda linha é, tá vinculada a algumas coisas que estejam fora, talvez você, como você citou, o curso de especialização, é, se ele tiver dentro de uma proposta, dentro de alguns perfis que a Tetra Pak tem já como legível. Você tem que ter um certo tempo de casa, tem que ter um certo desempenho, tem que ser validado pelo teu superior. Então ela se torna legível a esse tipo de situação. É possível sim você ter essa possibilidade. E é uma coisa que a Tetra Pak vem investindo a muito tempo, é, vai desde você acreditar que tem um funcionário com potencial. Às vezes você pega pessoas de outra área e vai formando essa pessoa. Não só nos formam, na formação, vamos dizer, é, profissional, mas também em outras que possam agregar também à função.

 

P/1 – Hã... Penof, pela sua própria trajetória dentro da empresa, observa-se que há um potencial de crescimento muito grande dentro da Tetra Pak, que não existem limites, no sentido burocrático, ou é a capacidade mesmo que abre os caminhos para pessoa dentro da empresa...

 

R – Certo.

 

P/1 – Isso é vivenciado dentro da instituição como um todo, em todas as áreas? É uma realidade que abrange todos os funcionários e a própria forma de atuação dessas pessoas?

 

R – É, Rodrigo eu te diria que sim, mas é claro que você tem que entender a proporcionalidade: nós somos uma empresa aqui no Brasil com mais de mil e cem funcionários, quase mil e duzentos, então você falar que os mil e duzentos tiveram oportunidade de ascensão, é, fica complicado. Mas é, eu posso te mostrar, posso indicar. Eu tenho várias pessoas que conheço, histórias que eu acompanhei, que vieram nesse processo de ascensão. Então é muito comum essa ascensão na Tetra Pak. A Tetra Pak é uma empresa que ela olha primeiro para dentro dos seus quadros, para dar oportunidade; isso é uma regra. Se nós tivermos que promover alguma coisa, a primeira coisa que nós vamos tentar é identificar é dentro de casa. Se nós tivermos um profissional que nós achamos que tenha a mínima condição de atingir aquilo, nós vamos passá-lo, vamos prepará-lo e vamos dar condição. Se nós não encontrarmos dentro, aí sim nós vamos para o mercado buscar. E é interessante, que a pouco tempo eu tava em um processo, é... Eu gosto de contar, porque acho que é bem isso. Um técnico nosso sai, é, se forma e vem prum processo de “trainee”; esse processo, para vocês terem uma ideia, ocorreu agora, o grupo que tá, que são os nossos, tão virando gerentes agora. Seis mil concorrentes para oito vagas, é mais intenso que um vestibular de medicina. Ele chega para mim; eu tava na entrevista final, tava com outro diretor, virei para ele:: “Escuta, o que é que te leva a sair da área técnica - que você era técnico - para vir para área comercial?”, “Os bons exemplos”. E me, se referia a mim. Nesse momento, eu falei: “Bom, eu não tenho mais condições de fazer a entrevista”, e pedi para o outro diretor conduzir a entrevista - me desabou. Mas eu acho que a empresa se espelha nos exemplos, e quando ela se espelha nos exemplos, é legal. Eu posso te dar vários exemplos, você [pode] pegar o Paulo Nigro, que é o nosso presidente e VP do, começou como gerente de vendas; Nelson Findeiss começou como gerente financeiro, é; Wilson Mardonado é um cara que tá na empresa, vem crescendo na função. Tem “Ns” exemplos que a gente possa citar. É claro que isso é uma coisa que acaba demandando tempo, é, precisa de uma certa longevidade. Tem uma série de circunstâncias que talvez fossem mais favoráveis 10 anos atrás quando a empresa tava crescendo, ela precisava expandir sua organização. O crescimento mais forte no passado, significa maior número de oportunidades - diferente de hoje. Mas, com certeza, é uma das coisas que nós mais olhamos, é como trazer o pessoal para cima.

 

P/1 – E nesses...

 

[Pausa]

 

P/1 - Que é... A gente observa, às vezes, que existem empresas que elas têm um quadro muito fechado, que as possibilidades de crescimento são quase nulas...

 

R – São nulas.

 

P/1 - Assim, preferem - exatamente como você falou - buscar fora, do que caçar na própria, no que já tem. E aí... E na Tetra Pak, a gente observa...

 

R – É o contrário.

 

P/1 - Que em vários casos, como o próprio Gasparotto, você, o Paulo Nigro, a gente... É incrível isso.

 

R – Você tem, é, essa é uma, é comum na Tetra Pak e é legal, porque ela identifica, seleciona bem. Então, ela identifica o potencial já no começo. Quando ela acha esse potencial, ela começa a trabalhar para que ele vá evoluindo. Por isso que a nossa equipe, você vai ver [que] em grande medida, ela é jovem.

 

P/1 – É, é. Mas é legal deixar registrado isso, porque, é, vai; muitas pessoas vão ter acesso a isso e [podem] ver que é uma realidade. Nesse sentido também. E Penof, desde que você entrou, em 85, até hoje, teve algum momento que você considera como tendo sido o de maior crise da Tetra Pak?

 

R – Olha, nós já passamos por algumas crises. Agora, identificar a maior, eu não conseguiria. Acho que o que a Tetra Pak sempre teve é muita inteligência para lidar com as crises, é, tem situações em um, esse é um exemplo até, eu gosto de citar o lado cômico, porque eu acho que ela acaba referenciando. Em 2003, é, começava uma CPI no Brasil - CPI do leite - e um dos grandes vilões que eram atribuídos, era o preço da embalagem que era muito alto, que a embalagem Tetra Pak era cara e aí eu passo, eu e o Eduardo Eisler, que é um diretor que hoje tá na Itália, é, nós passamos por um treinamento e nós tínhamos que ir para Brasília conversar com um Deputado Federal, que era o relator dessa situação. E poxa, fizemos “media trainer”, tivemos todo tipo de treinamento, nos preparamos, toda a estrutura que você imaginar, estava sobre controle para nós irmos para lá. É claro que é uma situação tremendamente, o fator emocional [é] mais alto que o racional; mas o racional, eu diria para você que tava preparado. Chegamos na antessala do Deputado, o Deputado Carimbão, que era o responsável por esse, por essa CPI. E, naquele dia, ele se atrasou uma meia hora, vem a assistente dele, fala: “Olha, vocês não se preocupem que hoje é o aniversário do relator”. Ah, falei: “Hoje é o aniversário do relator?”. Nesse instante, entra um bolo e umas 10 caixas de suco Del Valle entrando dentro da sala dele, eu olhei para o Eisler, ele olhou para mim, eu falei: “Cara, mudou”, o que era vilão... Daí a gente, justamente, aproveitando essa situação do suco tudo, nós entramos, fomos falar com o Deputado, é, conversamos com ele, mostramos e falamos, inclusive, do suco. Foi uma situação que a oportunidade se mostrou naquele momento e se; e quando as oportunidades vêm, não dá para você deixar ela passar despercebida. Saindo de lá, nós encontramos, na porta, o Gabeira, o Deputado. Nós estávamos com o assessor nosso de comunicação: “Deputado, posso te apresentar aqui dois executivos da Tetra Pak?”. O Gabeira olha assim com a cara: “Tetra Pak? Eu adoro vocês”, “Como assim, Deputado?”, “Não, quando eu fui exilado na Suécia, a Tetra Pak, para me ajudar, me dava serviço de tradução. Eu fazia a tradução para Tetra Pak e mandava para o Brasil. Eu sou fã de vocês. O que é que cês tão fazendo aqui, que é que cês precisam?”. Tem certas coisas que você tem que se preparar, mas você [também] tem que tá atento às oportunidades. Essa do suco entrando na sala do relator e essa de encontrar o Gabeira na porta da saída, são oportunidades que ninguém, com o melhor preparo que você pudesse ter, poderia imaginar que ia acontecer. Mas é, eu sempre falo que a Tetra Pak, ela tem uma coisa que é surpreendente: ela se prepara extremamente bem, vai esgotar todas as possibilidades e tá atenta a essas oportunidades. E ela busca dentro dos seus relacionamentos as melhores situações. Então, é, talvez não tenha sido a crise mais grave, porque acabou nem virando uma CPI, não houve nada no final, é, “terminou em suco” - posso dizer dessa maneira. Mas é uma situação que eu lembro, como as oportunidades mudam.

 

P/1 – E Penof, qual foi o maior desafio que você vivenciou dentro da Tetra Pak?

 

R – O maior desafio dentro da Tetra Pak? Poxa vida! Essa é uma boa pergunta. Rodrigo, eu diria para você que talvez o maior desafio foi trazer a Tetra Pak onde ela chegou, que isso nós sonhávamos muito. Eu lembro, em algumas situações, eu não quero citar cifras, [que] eu tava viajando com o presidente da empresa, ele falava assim para mim: “Eu quero ver essa empresa chegar ao volume ‘X’ de embalagem e volume ‘Y’ de faturamento, porque isso é meu sonho. Eu acredito”. E nós fizemos. Então, quer dizer, sonhar talvez seja o maior desafio, fazer realizar é a nossa, é o nosso dia a dia. Então, é, a Tetra Pak, eu acho que o maior desafio [foi] fazer dessa empresa uma grande empresa.

 

P/1 – E quais são os valores da Tetra Pak?

 

R – Eu gosto muito de alguns e, mas tem um que me chama muito a atenção: o “working hard and fun”. Eu acho que você tem que trabalhar, é, nós temos que transpirar, pensar e nós temos que nos divertir. Eu acho que você tem que ter satisfação do que você faz e o “work hard and [have] fun” me fala muito forte. Acho que, é, para uma pessoa que tem uma pequena tendência mais a vendas, como eu tenho, ele é uma essência, uma verdade muito forte. Então eu gosto muito disso, tem muita liberdade com responsabilidade. Tem vários, mas eu acho que o “work hard and [have] fun” é o que mais traduz [a] Tetra Pak, é o... Para mim, tá no meu coração esse “work hard”.

 

P/1 – Penof, eu queria que você fizesse um apanhado, de quando você entrou até hoje, dos presidentes que passaram, é, nesses 22 anos de Tetra Pak e colocasse uma característica que tenha sido daquele período, daquela gestão, daquele momento para [a] empresa?

 

R – Eu não vou voltar muito atrás, porque, talvez, eu esteja falando de situações que não tenha muita relação. Mas eu acho que tem dois que eu gostaria de citar, que aliás, eu acho que dentro daquilo que a gente tá falando de exemplos, como que a Tetra Pak tem, eu quero registrar isso que já falei pros dois, então não é segredo. Na minha carreira, foram duas pessoas que me inspiraram: o Nelson, que é o presidente - tá se aposentando agora - e o Paulo, que é o presidente atual. É, o Nelson pela extrema inteligência dele, uma pessoa rápida, inteligente, fora da média normal, uma pessoa visionária, é, empreendedora, que aposta; que às vezes eu fico tentando entender as reações dele. Então, para mim, me chama a atenção. Se nós temos uma história de sucesso, foi a visão desse, do Nelson que fez isso, sem dúvida nenhuma. E eu fico muito à vontade, que eu falei para ele que ele é o meu espelho, me espelho muito no que ele fez. E o Paulo, pela; nós trabalhamos muito tempo juntos e o Paulo é um cara já polido, educado, que tem uma visão, que comercialmente é muito forte - ele vai te vender, vai te trazer. Ele vem com uma escola diferente, uma escola que eu tenho expectativa de trabalhar agora. Porque a Tetra Pak, até agora, é uma história de crescimento. Daqui para frente, a nossa história é uma outra, totalmente, já com uma presença maior da concorrência [e] algumas dificuldades, que são inerentes da mudança que nós estamos passando. Então, o Paulo vem de todo esse cenário de Europa, Canadá, Itália. Ele traz toda essa visão, e sem contar que é uma pessoa extremamente agradável. Cês vão ter a oportunidade de entrevistá-lo, é uma pessoa jovem, agressiva, é, bom comunicador, gosta de coisas legais. Então, é, são duas escolas para mim: uma pela agilidade, pela inteligência, pela destreza [e] a outra pelo carisma, pela maneira de negociar - que fizeram dessa empresa o que ela é hoje. Eu vou falar sem nenhuma chance de errar: se nós não tivéssemos tido o Nelson como presidente, a Tetra Pak não seria a melhor Tetra Pak do grupo - como nós fomos já elegidos vários anos; se nós não tivéssemos o Paulo aqui, para o futuro, nós também teríamos muita dificuldade. Então é uma combinação fantástica. E, nessa combinação, uma coisa que me chama a atenção: Nelson escolhe o seu sucessor. Em qualquer outra multinacional, seria o contrário; veriam um nome e ele teria que aprovar, ele falou: “Não, esse é o nome que eu quero”, então mostra o quanto a empresa, ela tá preparada, o quanto ela pensou nesse processo de sucessão. Esse, eu acho que são os dois que eu gostaria de contar, porque é motivo de orgulho, é a era nacional, a era que nós temos brasileiro à frente do negócio. É orgulho falar: “Poxa vida, uma das maiores Tetra Paks do grupo é dirigida por brasileiro”. Os dois foram VP do “cluster”, o Paulo tá sendo, o Nelson é ainda tá em fase de transição, então, tem responsabilidade não só pelo Brasil. E esses dois, um tem uma história fantástica desses 17 anos à frente dessa empresa e o outro tem um futuro muito desafiador que tá preparado para isso. Então eu acho que essa soma, essas duas gerações são, uma que nós presenciamos e uma que nós estamos querendo presenciar daqui para frente.

 

P/1 – E Penof, qual é a importância da Tetra Pak na indústria brasileira, dentro da industrialização do Brasil?

 

R – É, se eu restringir um pouco mais a indústria alimentícia, a Tetra Pak teve um papel fundamental, porque ela ajudou a indústria, é, alimentícia a se desenvolver. Se nós olharmos o tamanho dos nossos clientes dez, quinze anos atrás, talvez chegue hoje a 10%, 20% do que nós temos. Nós temos grandes histórias de sucesso, empresas que não existiam, começaram muito pequenas e se tornaram empresas de tamanho razoável, empresa de faturamento de 300, 400 milhões de Reais por ano, que não existiam 10 anos atrás. Então a Tetra Pak tem um papel fundamental, ela cria esse segmento. Nisso, ela faz com que empresas mais corretas, elas se beneficiem desse crescimento. Ela traz alta tecnologia, faz com que a indústria alimentícia sofra um “upgrade” muito forte, porque a partir do momento que você tem tecnologia em uma das áreas dentro de laticínio, as outras também vão começar a demandar; então faz com que as empresas olhem não só para o longa vida, mas olhem também para outros produtos e tragam mais tecnologia para serem, efetivamente, mais competitivas. Então é uma somatória, Rodrigo, de coisas que fazem com que, é, aumente a tecnologia dentro da indústria de alimentos, seja ela na de tomate, na de suco, de leite, enfim, em todas elas. 

 

P/1 – E o que você conhece, é, da história da Tetra Pak nesses 50 anos de Brasil - que ela comemora agora em 2007? Quais são os marcos que você, que te vem à cabeça quando a gente fala “Tetra Pak 50 anos”?

 

R – Ah, são vários Rodrigo. Eu acho que 50 anos dessa história - tive a oportunidade de presenciar quase metade dessa história -, o mais notável foi o respeito que ela adquire dos seus clientes. Nós estamos falando de clientes de cooperativas pequenas, que muitas das vezes são dirigidos por fazendeiros, até grandes multinacionais, como, Unilever, Nestlé. Então, eu acho que o grande marco, o grande feito da Tetra Pak, nesse tempo, foi conseguir ser reconhecida pelos seus clientes como um dos preferenciais “suppliers” no Brasil. Então esse marco eu acho que ele sobressai a falar volume, a falar em resultado financeiro, falar em número de pessoas que trabalham, falar em organização, falar em estrutura, porque, para mim, tudo isso que eu citei agora, é consequência dela ter se colocado perante aos seus, é, parceiros de uma maneira estratégica. Quando eu escuto um cliente, um presidente e um cliente falar para mim: “A Tetra Pak faz o que ela desejar fazer no mercado”, pode parecer meio, é, forte, mas se isso tiver bem direcionado, eu acho que é importante. Ou um outro cliente, um vice-presidente de uma grande empresa, segunda maior empresa de laticínio, falar para mim: “Ricardo, eu sei que estou na mão da Tetra Pak, mas sei que eu estou em boas mãos”. Então eu acho que esse é o grande legado, grande aprendizado. Esse é o grande marco, porque nada acontece se você não tiver clientes engajados, se você não tiver o cliente junto com você. E junto com esses clientes, a Tetra Pak teve a habilidade suficiente para construir o que eu julgo como sendo o maior ativo que essa empresa tem, que somos nós, os empregados, porque se você olhar no mercado hoje, qualquer empresa tem recurso financeiro em maior ou menor escala, tecnologia disponível [e] pode se prontificar a fazer o que a Tetra Pak fez, mas ela teve um grande mérito em selecionar bem, preparar bem, acreditar nos seus potenciais. Como eu sou um exemplo disso e vários outros colegas nossos, alguém um dia olhou e falou: “Puta, esse cara como técnico aqui, vamos ver o que é que a gente faz com ele. Vamos ver o que é que dá para fazer”. E, assim, são “Ns” histórias dentro da Tetra Pak. Então, quando ela alia recursos humanos, pessoas - nós, funcionários - com uma história de respeito a seu cliente, de carinho, de trabalho, de transpiração. Eu acho que se eu pudesse resumir, isso daqui, dela, é a grande história da Tetra Pak desses 50 anos.

 

P/1 – E na sua opinião, qual é a importância do projeto Mémoria 50 anos Tetra Pak?

 

R – Eu gosto desse lado, porque acho que tem um glamour. Eu acho que a gente tá podendo relatar essa história, contar isso. A velocidade com que nós vivemos, nós já estamos falando agora, a... Nós estamos em setembro, em junho nós estávamos na Fispal comemorando 50 anos. Ontem, eu já tava em uma reunião falando da Fispal do ano que vem, quer dizer, já vou falar de 51, isso tá ficando para trás, 2, 3 anos e isso já virou história. Então, é muito rápido. Hoje a velocidade com que nós trabalhamos, então, registrar esse histórico, registrar essas histórias, que são histórias bonitas, são pessoas contando da sua própria vida, eu acho que é uma coisa que é muito gratificante. Você tá me falando as pessoas que participaram aqui, eu sou capaz de dizer para você que mais da metade delas, tem 50% ou mais do seu tempo de vida dedicado a Tetra Pak. Isso tem uma história, é, ver pessoas que estão vindo aqui, contando seus depoimentos, deixando registrado, é legal. Eu vou ter muito prazer em mostrar esse livro para muitas pessoas que não me conhecem fora de Tetra Pak, então vou querer levar... Eu acho que esse registro é importante pras pessoas que estão tendo a possibilidade de tá dando esse depoimento. Vai ser legal para gente também mostrar pras pessoas que não conhecem o Ricardo dentro da Tetra Pak, que é uma coisa interessante. E até mais, eu vou dar um exemplo para vocês terem uma ideia: eu tenho uma sobrinha [que tinha] seis, sete anos de idade, ela nasceu na Jordânia, é, morou no Brasil um tempo, foi para o Senegal na África, voltou para o Brasil, morou um tempo, morou em Paris, voltou para o Brasil, morou um tempo e agora ela tá em Senegal de novo. E ela, essas vindas que ela morava no Brasil, ela vinha e ficava com a gente em casa. E, há pouco tempo, agora, na, ela estuda na escola americana, a graduação dela foi muito boa na escola americana. Então ela teve uma graduação semelhante aos alunos americanos mesmo, e ela chegou em casa toda contente, toda feliz falando para mãe dela que ela tinha tido, porque ela tava com o dificuldade quando ela começou; e ela tinha sido a melhor, foi escolhida. E ela pergunta para mãe dela o seguinte: “Mãe, será que meu inglês agora já dá para eu trabalhar na Tetra Pak?”. Gente, eu me arrepio até hoje de ouvir. Aí você começa a entender, nós transpiramos Tetra Pak. Às vezes, a gente não percebe como que uma criança de 7 anos tem esse sonho, só pode ter sido contaminada por alguém; a maioria dos meus sobrinhos. A minha filha fazendo administração agora, o primeiro trabalho de faculdade que ela teve que fazer, que é que ela foi fazer? Tetra Pak. Então, quer dizer, nós, é, vendemos esse conceito, vendemos essa imagem dessa bela empresa, essa empresa correta, e nós transferimos isso pras pessoas que estão ao nosso redor e sem perceber às vezes. É tanto entusiasmo, carinho [e] tempo que dedica [que], às vezes, a gente acaba até exagerando nessa dedicação, mas as pessoas vão percebendo, vão falando, vão, é, muito comum. Eu vejo hoje muito jovem se aproximarem para vim pedir conselho para mim, eu fico olhando. Primeiro fico preocupado: “Tô ficando velho”. Segundo: “Poxa, que é que eu posso transferir. Poxa, qual, o que é que eles tão enxergando?”. Então é muito interessante esse, essa paixão por Tetra Pak.

 

P/1 – É, Penof, nós estamos chegando no final da entrevista, é, tem algum assunto, algum ponto, que talvez nós não tenhamos abordado, que você gostaria de deixar registrado?

 

R – Não, Rodrigo, eu acho que nós traçamos por tudo. Eu acho que nós fizemos uma cobertura legal, foi um bate-papo agradabelíssimo. Eu acho que, é, tive condições de fazer um "flashback" aí de 22, quase 23 anos, agora, voltar às situações, lembrar de pessoas. E, olha, foi uma oportunidade única, porque parar para pensar em uma história Tetra Pak, vou te ser sincero, a gente acaba sempre discutindo etapas, pedacinhos, mas fazer uma recapitulação como essa foi uma oportunidade legal e bastante gostosa. Foi para, muito proveitosa em termos de relembrar todo o passado. Eu acho que o que quero acreditar que é o grande futuro, o que promete. Porque falar dos 50 anos é fácil, é uma história que já aconteceu. Construir os próximos 50 anos, que é a nossa obrigação, a minha obrigação, obrigação de todos os funcionários, dos que virão por aí, porque... Eu diria que a responsabilidade deles é maior do que do que foi feito até agora, a minha resonsabilidade é maior, porque construir uma história de sucesso, nós fizémos; agora, manter essa história, fazer com que ela seja mais bonita ainda é a grande responsabilidade. Então eu acho que a Tetra Pak, que ela; nós temos uma brincadeira que o passado é passado, mas aqui, nesse momento, a gente tem que deixar registrado que o passado serviu de base para nós fazermos um futuro bem melhor. 

 

P/1 – Penof, o "slogan" da Tetra Pak é "Protege o que é bom". O que é bom para você?

 

R – Trabalhar na Tetra Pak.

 

P/1 – Você gostaria de deixar algum recado em, para Tetra Pak, em comemoração a esses 50 anos, para o seus colegas e pras pessoas que tiverem acesso a esse depoimento?

 

R – É, trabalhar essa história é uma coisa que é privilégio de poucos. Como eu falei ainda a pouco, mil e duzentos, talvez nem todo mundo tenha participado dessa história, mas poder registrar, é, participar dessa história é uma coisa que é gratificante. Eu acho que, como profissional, como executivo, como um líder, é uma aspiração que muita gente teria e poucas tiveram, a possibilidade de participar. Eu tenho muitos amigos que me ajudaram muito, tem muitas pessoas a que eu devo muito dentro da Tetra Pak, tem muitas pessoas que eu quero agradecer, que acho que é legal. É um momento de falar: “A Tetra Pak, ela é um grupo”, ela não é uma, não são duas, não são três pessoas. E se ela cresceu, muita gente se apoiou. Pouco tempo atrás um amigo nosso da diretoria faleceu, o Roberto, e o Roberto foi um dos caras que mais eu me apoiei - ele era o diretor financeiro -, e a gente tinha muitas discussões, a gente saía, fazia planos juntos. Então, é, eu venho em um momento emocionalmente sensível, eu venho em um momento que é muito legal tudo que tá acontecendo dentro da Tetra Pak, é um ano de festa. Com essa tristeza do Roberto, talvez, não tá, é, participando desse momento, que ele com certeza taria sentado com seus 30 anos. Ele era um dos que teria que tá sentado nessa cadeira, teria que tá relatando inúmeras histórias também que ele vivenciava, que ele participou. Mas eu queria deixar também essa homenagem para o Roberto, que eu acho que se eu tenho que escolher uma pessoa hoje para falar, agradecer, seria o Roberto; que eu tô agradecendo no Roberto, eu tô agradecendo a todas as pessoas que fizeram parte dessa história. Então eu acho que, dessa maneira, eu queria deixar a minha mensagem de agradecimento a todos os nossos colegas, a todas as pessoas, em especial, agradecimento ao Roberto.

 

P/1 – Penof, para finalizar, eu queria que você dissesse o que achou de ter dado o seu depoimento para o Projeto, como foi essa experiência?

 

R – Muito legal, me senti extremamente à vontade. Eu já cheguei com o espírito meio, brincando com todo mundo, que eu acho que facilita o processo. É uma experiência legal. Como eu comentava ainda a pouco, acho que, é, pela primeira vez em vinte e poucos anos, eu tive que parar para olhar toda a minha história, minha trajetória. No dia a dia, você tá olhando para o futuro, essa é uma realidade. É, vocês tiveram muita habilidade, eu acho que as perguntas, a maneira com que foram orientadas, que foram trabalhadas, facilita e muito o processo, nos dá uma tranquilidade. É, eu me senti muito à vontade e gostei bastante da experiência. Me convidem para outras, tá? Nos próximos 50 anos, vocês me chamem de novo [que] eu venho aqui para falar para vocês.

 

P/1 – Penof, então, em nome do Museu da Pessoa e da Tetra Pak eu agradeço a sua presença, o seu depoimento, o seu tempo e... Brigadão, viu?

 

R – Rodrigo, Larissa, muito obrigado por vocês, foram extremamente habilidoso. Perdão, esqueci o teu nome?

 

P/3 – André.

 

R – André, obrigado também por nos acompanhar. E bom dia para vocês.

 

P/1 – Obrigado.

 

[Fim do depoimento]

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