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O Ligeirinho da Rede

História de: Ita Francelino (Eronildes Francelino da Silva)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/06/2016

Sinopse

Conhecido como Ita Francelino, Eronildes Francelino da Silva relembra em seu relato momentos marcantes de sua vida como seu período na Escola de Aprendizes-Marinheiro de Pernambuco, que terminou em uma decepção. Seus tempos de jogador de futebol, em que era conhecido como canela de aço, por ser muito rápido, começou no time o Leão XIII, que acabou desbancando o Sport Club do Recife, o campeão da época, graças aos seus gols, o que o fez receber um convite para jogar no Sport Club do Recife. Entre memórias das partidas de futebol e os trabalhos como telegrafista da Rede, cargos que ele conciliava, Ita narra momentos de emoção como o assassinato de seu irmão, a perda de seu avô em um acidente de trabalho e o falecimento do seu pai. Ao se aposentar, registra também seu trabalho como “olheiro” de futebol e empresário.

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História completa

P/1 – Eu queria que o senhor dissesse o seu nome, local e data de nascimento.

 

R – Olha, meu nome é Eronildes Francelino da Silva, conhecido na imprensa como Ita Francelino, entendeu? Porque já fui jogador de futebol.

 

P/1 – O local e a data de nascimento do senhor.

 

R – Eu vou dar a idade que está nos meus documentos. Minha mãe, como se diz, aumentou a minha idade para eu entrar na Marinha. Então, meus documentos foram modificados para 13 de abril de 1939, mas eu não sou de 1939.

 

P/1 – O senhor nasceu em que ano?

 

R – Em 1943. Veja bem, três de março de 1943. Para entrar na Marinha, minha mãe tinha um compadre que era tenente e eu era doido para ir para Marinha. Quando eu via um marinheiro, ficava doidinho. Aí, fui para Marinha, em Olinda. Nós ficamos na Escola de Aprendizes-Marinheiros de Pernambuco, a senhora conhece, né? A escola Aprendizes-Marinheiros, no caminho de quem vai para Olinda? Quando cheguei lá não gostei muito porque eu notei que eles, alguns até oficiais e sargentos, cozinheiros, gostaram de mim e eles não eram pessoa assim, feito homens. Eram mais para lá do que para cá, a senhora entendeu? Eu fiquei envergonhado, inclusive com um oficial que, um dia, eu estava treinando contra um time chamado Vassouras e eu fiz três gols. Depois, no banheiro, ele entrou e me beijou. Um oficial me beijou. Aí, eu disse: “Não vou ficar aqui não”. Em Olinda, morava a família de seu Manoel Soares que era gerente da Usina Catende, na rua principal. Eu disse que ia visitá-los, peguei minha valise, saí. Fui para lá e contei tudinho, chorando e tal. Eles me mandaram num caminhão para Catende, um caminhão que vinha para Recife e ia para Catende, trazia Chica-Boa. Chica-Boa é o nome de uma aguardente que lá tinha uma fábrica. A fábrica de aguardente Chica Boa era muito famosa. Eu vim em cima do caminhão. Quando eu cheguei em Catende, que eu pulei já perto da minha casa, eu digo: "Eu moro na rua tal, tal e tal". Eles pararam o caminhão e eu pulei de tanta alegria, que quando eu pulei, caí e quase desmaiei de alegria de ver que vinha para a minha casa. Contei tudinho a minha mãe e pronto. Eu jogava sempre juvenil, garoto, né? Comecei jogando no Leão XIII Futebol Clube aí houve um jogo contra o Sport Club do Recife, campeão de Recife. O Leão XIII tinha a concentração, concentração é um lugar onde ficam os jogadores, lá tem do bom e do melhor. Tinham aqueles meninos do engenho, que a Usina Catende colocava lá, tinha tudo, tinha alfaiataria, tinha sapataria, tinha sorveteria, tinha tudo o que a senhora quisesse. Se a senhora quisesse um tamanco, uma sandália, eles faziam quase na hora. Tinha barbeiro, tinha tudo, tudo, tudo. Eram escoteiros dos engenhos aqueles meninos pobrezinhos e tal, eles traziam esses com 18 anos formados já. Eu estava fazendo feira com meu pai, quando chegou um servente, Siqueira, e disse: “Seu João, eu vim buscar Ita”. Ele disse: “Para quê?” “Porque o seu Jaime me mandoueu buscá-lo para a concentração que ele vai jogar”. Meu pai era meio ignorante ao falar e disse: “Meu filho não vai jogar não, entendeu? Porque eu não gosto que ele jogue ‘fitibol’ não”. Ele não chamava futebol, chamava ‘fitibol’. De toda maneira, me levaram para a concentração. A senhora me falou assim: “Olha, você vai entrar no lugar de Hugo. Hugo adoeceu na concentração ontem, gripado, tossindo muito, e o médico disse: 'Não tem condições de ele jogar não'”. Catende estava superlotada de gente para ver o Sport, gente de Garanhuns, gente de Caruaru, gente de Palmares, de Ribeirão, de toda parte para ver o Sport que tinha sido campeão. Quando eu entrei no campo já não cabia mais gente, muita gente. Lá tinha um túnel que tinha para entrar que saía para dentro do campo. Os únicos times que tinha o túnel eram o Leão XIII e o Sport. Quando eu ia entrando, o pessoal que encontrava: “Meu Jesus, quem vai entrar é canela de aço”. O meu apelido lá era canela de aço porque eu corria muito, chamava eu canela de aço, perninha fina, canela de aço. “Meu Deus, não é possível um negócio desses, vai entrar canela, tal, tal e tal”. E o Sport com um timaço, tinha sido campeão. Foi três a dois, eu fiz dois gols. Eu só dormia oito horas, oito e meia no máximo, ia para o cinema e tal. Nesse dia, eu fui dormir mais de meia noite. No Leão XIII, onde vão fazer uma festa para mim agora no primeiro de maio. Veja bem, eu ganhei tanto dinheiro, digo a senhora, que eu nunca tinha visto tanto dinheiro. Um me dava cinco mil réis naquele tempo, outro me dava dois, me dava um, eu estava com os bolsos cheios do dinheiro. Meu irmão, o que foi assassinado, e o outro estavam lá, arrumaram um jipe para me levar em casa. Ficava perto. Do Leão XIII para lá é um negócio de dez a 15 minutos porque o dinheiro estava por todo canto, de tanto que me davam, e abraço, e não sei o que, e aquelas moças que me conheciam me abraçavam querendo dançar, mas foi uma festa! Depois de três dias dessa festa todinha, foram me buscar lá. Leilo, antigo jogador do Sport, foi me apanhar lá, porque o treinador e dois jogadores pediram para me contratar. Um se chamava Bria, já falecido, e o outro ainda é vivo, Zé Maria, diziam para o treinador que era argentino, Salvador Perini, o nome dele: “Você tem que buscar o magrinho Ita, que não sei o quê”. Foram me buscar. O dono da Usina foi quem me autorizou. Eu vim com o goleiro, como espécie de meu procurador. Quando chegamos aqui, me colocaram para treinar em Recife no campo do Portela. Foi gente assim de torcedor para me ver, porque saiu no jornal: “O matuto de Catende”. Matuto a senhora sabe, né? Pessoa do interior. “O matuto de Catende acabou com o campeão, Sport, fez dois gols e treina amanhã no Sport”. Foi gente assim para me ver treinando. Nesse treino, eu fiz dois gols, me levaram para concentração. Olha, passei como rico lá, do bom e do melhor. Mas, como saiu no jornal, o pessoal do Great Western of Brazil Railway, desse time de futebol, que depois passou a ser Rede Ferroviária Federal S.A., que chamava de Ferroviário. Quando viram no jornal, o ataque de aço e eu no meio, foram me buscar. Eram mais de meia noite, me tiraram e levaram para a Rua da Imperatriz, para uma pensão, pensão até boa, segundo andar, nunca esqueci: Rua da Imperatriz, 36, segundo andar. Umas das principais ruas de Recife, né? Rua Imperatriz Tereza Cristina. No outro dia, me efetivaram como praticante oficial de telegrafista, rádio telegrafista. Agora, eu passei a federal, depois de cinco anos. Comecei jogando, fazendo gol, estava no time do Ferroviário. Depois de uns anos, um português que gostava muito do meu jogo e o treinador queriam um atacante para Portugal, que lá não se chama meia não, chama ponta de lança. Indicaram-me e fui à Rede para saber, eu já tinha mais de cinco anos na Rede, podia tirar licença de um ano. Passei quase um ano jogando no Sport Clube União Torrense, a cidade fica perto de Lisboa. Quando eu vim embora, o treinador brasileiro Otto Glória, que foi campeão do mundo, era o maior treinador que tinha em Portugal, me viu jogando, nesse jogo eu fiz dois gols e ele viu no jornal que eu estava indo embora, mandou me chamar em Lisboa. Ele me deu uma carta para eu chegar ao Rio de Janeiro e treinar no Bangu Atlético Clube, o treinador chamava-se Tim (Elba de Pádua Lima). O Bangu era um time rico ficava em Moça Bonita, o Bangu. Eu treinei, fiz dois gols, ficaram doidos por mim, eu entrei no segundo tempo. Quem treinou também ao meu lado foi Zózimo Alves Calazans, antigo jogador da Seleção Brasileira e um garoto chamado Ademir da Guia, filho de Domingues da Guia, juvenil. Fiz amizade com tal, tal, tal. Depois, passaram um telegrama que eu tenho em casa ainda, para eu me apresentar urgente, iam mandar minha passagem para lá, eu ia fazer excursão para os Estados Unidos e queriam que eu assinasse contrato. Fui saber na Rede se eu podia ir, aí meu chefe disse assim: “Se tinha jeito dele ir no meu lugar”. O seu Edgar Tito disse: “Ita...”. Que eu lá era conhecido como Ita: “Cadê o jogador, cadê o jogador?”. E o jogador era eu. Todo mundo esperando o jogador, me chamaram: “Não vai não, porque se você tirar outra licença você perde o emprego”. Aconselharam-me a não ir, porque era emprego federal. Aí, não fui. Continuei no Ferroviário, joguei mais dois, três anos, mas um camarada de um time chamado Ibis Sport Club, que era considerado o pior time do mundo, naquele tempo, sabendo que eu era goleador, me deu uma pancada na perna, que eu passei... O pessoal do Sport gostava de mim ficaram muito chateados porque o massagista do Ferroviário, ao invés de colocar aqueles negócios certos, colocou bambu na minha perna. E a perna estava ficando fina, a perna direita. O massagista que gostava muito de mim mandou me chamar, me tratou e me deixou tinindo. Mas acontece que eu continuei jogando, mas de vez em quando, levava uma pancada na perna e machucava. Passava um mês, dois meses, 15, 20 dias sem jogar. Quando eu vi que não dava certo, eu deixei de jogar. Com 28 anos, deixei de jogar. Embora hoje ainda jogue futebol de salão e, modéstia à parte, no futebol de salão fui três anos e bati recorde no futebol de salão dos veteranos porque no jogo eu fiz 14 gols, 14 gols! Querem fazer uma reportagem comigo aqui, no jornal, que entre profissional e futebol de salão, ninguém nunca hoje fez 14 gols, em todas as modalidades. Nunca fez 14 gols. Quem fez mais gols até hoje foi Dario e Pelé e, nesse jogo de futebol de salão, em Boa Viagem, eu fiz 14.

 

P/1 – Senhor Francelino, vamos voltar um pouquinho, eu vou fazer algumas perguntas para o senhor, foi interessante isso que o senhor contou que deu um contexto geral. Eu queria que o senhor falasse, o nome dos seus pais e onde eles nasceram e o que eles faziam.

 

R – Olha, meu pai era operário da Usina Catende, chefe de caldeira, entendeu? Nasceu na cidade de Bonito, embora eu dissesse: “Oh, pai, o senhor nunca me levou em Bonito onde o senhor nasceu, o senhor nasceu não foi em Bonito?”. “É meu filho, nasci em Bonito”. “Por que é que o senhor é tão feio?”. Ele ria, pronto, tem essa história. Agora, minha mãe chamava-se Olindina Francelina da Silva e era empregada doméstica. Eu dizia que: “A senhora era maquinista de fogão.” Mas ela dizia: “Meu filho, o que é isso, o que é maquinista de fogão?”. “É pessoa que trabalha só fazendo comida, entendeu?” Empregada doméstica, mas era maquinista de fogão. Ela nasceu em Catende.

 

P/1 – Senhor Francelino, o senhor tem irmãos?

 

R – Não, todos estão mortos, só eu estou vivo da família. Morreram minhas duas irmãs, uma deixou até uma casa para mim. Graças a Deus, tenho três casas. Eu comprei a casa com o dinheiro que vinha de jogador. Ganhei em dólar, trouxe e comprei a casa para ela. Ela morreu de uma doença que... Negócio de um açúcar, como é que chama?

 

P/1 – Não tem problema se o senhor não se lembrar.

 

R – Aquele negócio que tem muito açúcar, é...

 

P/1 – Diabetes?

 

R – Diabetes! Ela morreu de diabetes.

 

P/1 – Como é que era o nome dela?

 

R – Eronita Francelina da Silva.

 

P/1 – E os outros irmãos do senhor, como é que eles se chamavam?

 

R – O meu irmão, o que foi assassinado, José Francelino da Silva; e, o outro morreu do coração e também sofria de asma... O José, que morreu assassinado, era serralheiro na Usina Catende e o outro mais novo, que morreu do coração e tinha asma, era soldador.

 

P/1 – Como é que era o nome dele?

 

R – Elias Francelino da Silva. E minha irmã que era casada, que morreu há uns cinco anos, chamava-se Amara Francelina da Silva e o nome do marido é Amaro. Amara minha irmã e ela casou com Amaro. Ele era aposentado em Catende, era administrador de campo, tinha o fiscal e o administrador, ele era o administrador. Agora, eu tenho parentes lá em Catende, sobrinhos e primos. De vez em quando, vou lá.

 

P/1 – Como é que era a casa que o senhor morava lá em Catende quando o senhor era pequeno?

 

R – Olha, era uma rua que pertencia à Usina Catende. Eu nasci na Rua Siqueira Neto, número 17. Do outro lado, tinha outra rua chamada Rua Trinta de Março, depois, passei para Rua Trinta de Março e fui morar no número 12. Na Siqueira Neto foi onde eu nasci.

 

P/1 – O senhor lembra como era essa casa? O senhor morou lá até que ano? Quantos anos o senhor tinha quando saiu dessa casa?

 

R – Ah, eu tinha mais ou menos dez a 11 anos.

 

P/1 – E como que era essa casa, senhor Francelino?

 

R – Olha, a casa tinha três quartos, banheiro dentro, a Usina Catende dava. A gente não pagava água, luz, nada, pagava nada, nada, nada. Meu pai morreu quando teve de morrer mesmo. Meu pai tomava banho todo dia às cinco horas da manhã, quando era quatro a cinco horas, estava ele com aquelas cuecas da Zorba, aquelas cuecas grandes. Nesse dia, ele foi tomar banho no banheiro dos operários que largavam de manhã. Nunca tomou banho lá, nesse dia foi tomar banho lá, escorregou no lodo, caiu: “Bum!” Como ele sofria daquele negócio do testículo, eu comprei um negocinho em Recife para ele. Ele já estava aposentado, aí, estourou.

 

P/1 – O senhor estava contando que o seu pai sofreu um acidente quando foi tomar banho...

 

R – Escorregou, o pessoal ouviu aquela pancada muito grande: “Meu Deus, o que foi que houve?” Quando entraram num dos banheiros: “Meu Deus, mas é o seu João Francelino”. Levaram-no para casa, tal, tal, tal. No outro dia, ele foi para o médico, doutor Euclides, que tomava conta dele: “Mas como é que o senhor faz um negócio desses?”. Estourou o que ele tinha nos testículos e tal, que ficava...

 

P/1 – Era hérnia que ele tinha?

 

R – Era, exatamente isso. E com 11 dias ele faleceu.

 

P/1 – O senhor tinha quantos anos?

 

R – Eu tinha 12 a 13 anos.

 

P/1 – Vocês moravam dentro da usina, era isso senhor Francelino?

 

R – Dentro não. Eu morava pertinho, numa das ruas que a Usina Catende fazia para os operários.

 

P/1 – Era vila de operários da usina...

 

R – É, a vila de operários. Agora, todo fim de ano a usina mandava pintar, como é que se diz?

 

P/1 – A fachada das casas?

 

R – Das casas, pintar tudo. Tudo, tudo, tudo. A gente tinha parede, tinha tudo e tal, pronto. No fim do ano, nós íamos na Catende, onde reuniam os filhos dos operários de até 16 anos, colocava o nome, podia ter dez filhos, para dar presente em tecidos para fazer roupa para o fim de ano, tanto as meninas quanto os meninos. Davam antes do Natal e as pessoas mandavam fazer, se fosse homem mandava o alfaiate, se fosse mulher mandava a costureira, sabe? Eles davam todo fim de ano.

 

P/1 – Essa usina produzia o que senhor Francelino?

 

R – Açúcar e álcool. Era umas das maiores usinas da Pernambuco, tem 101 engenhos, faz milhares de açúcar. É uma das primeiras.

 

P/1 – Naquela época, como é que funcionavam as caldeiras? Eram à lenha?

 

R – À lenha.

 

P/1 – O senhor chegou a ver produzir, o senhor via como fazia ou não?

 

R – Eu via porque eu ia atrás de meu pai, ele sempre me dava caldo de cana, eu sempre gostei, sabe? E começava a olhar os trabalhadores dele abriam aquelas caldeiras e tome lenha, tome lenha, tome lenha. Uma dessas caldeiras, meu pai disse: “Olha, essa caldeira está condenada”. Ele estava dizendo sempre para os engenheiros lá, tanto que essa caldeira explodiu. A quentura foi tão grande que matou 17 operários e meu avô estava no meio, chamava-se Cristóvão, morreu, e para enterrar era tanta ferida que eles enterraram com folha de bananeira. Ao invés de colocar roupa, que não dava, eles enterraram todos os 17 com folha de bananeira.

 

P/1 – Que horror! O senhor lembra mais ou menos quando aconteceu, ou não?

 

R – O ano eu não me lembro não.

 

P/1 – Então não tem problema. O que aconteceu quando estourou essa caldeira, o que é que a usina providenciou? Depois ela providenciou alguma coisa...

 

R – Providenciou uma nova caldeira. A pancada foi tão forte que a caldeira subiu, caiu do outro lado onde passavam os trens da Great Western. A pancada foi tão grande que quebrou os trilhos feito cana, em pedaçinhos assim. Foi tão forte que arrebentou o trilho.

 

P/1 – O trem ia até a usina para fazer o transporte?

 

R – Não.

 

P/1 – Passava perto?

 

R – Não, esse trem que eu estou falando da Great Western que ficava perto da Estação de Catende. Ela subiu tanto que caiu do outro lado em cima dos trilhos da Great Western que depois passou a Rede Ferroviária, partiu os trilhos em pedaçinhos como quem parte cana.

 

P/1 – E ficou muito tempo pra eles consertarem a via?

 

R – Uns 15 dias, foi muita coisa para fazer.

 

P/1 – O senhor disse que seu avô também trabalhava na usina?

 

R – Trabalhava.

 

P/1 – Ele fazia o que na usina?

 

R – Ele era trabalhador de meu pai que também colocava lenha nas caldeiras. Tinham seis caldeiras.

 

P/1 – Ele era o pai do seu pai?

 

R – Não, ele era pai de minha mãe.

 

P/1 – E ele veio a falecer nesse acidente?

 

R – Foi.

 

P/1 – O senhor falou que a sua mãe era maquinista de fogão?

 

R – É, eu a chamava de maquinista de fogão.

 

P/1 – E que comidas típicas ela fazia quando o senhor era criança?

 

R – Ah, oxe! Comida que eu estou doido para voltar para lá e o pessoal da empresa não quer, eles sabem, queria comprar uma casinha para morar lá porque isso aqui está muito bagunçado, é ladrão, tudo tem ladrão. Eu queria morar na minha terra. Embora eles não queiram me deixar ir. Veja bem, as comidas, comidas que fortificam, como minha mãe dizia: cuscuz com leite, inhame, macaxeira, batata, peixe de rio doce: jundiá, apiaba, traíra. Eu comia isso. Agora, na hora do almoço, arroz, jerimum, eu sou louco por jerimum...

 

P/1 – O que é jerimum?

 

R – Jerimum no Rio de Janeiro se chama...

 

P/1 – Abóbora?

 

R – Abóbora. A gente comia muito, modéstia à parte, viu? Agora, carne de sol, bacalhau. Naquele tempo, quem comia bacalhau a pessoa dizia: “Fulano está passando fome, está comendo bacalhau”. Hoje é comida de rico. Se você comesse bacalhau e morasse perto de mim eu dizia: “Na casa de Fernanda estão comendo bacalhau, a situação lá está ruim”. E o bacalhau dessa grossura...

 

P/1 – Como é que o bacalhau ia para lá? Como é que ele chegava lá?

 

R – O bacalhau vinha para Recife e ia para o interior, entendeu?

 

P/1 – E ia de quê? De trem?

 

R – De trem, de ônibus. E naquele bacalhau da Noruega. Portugal só vende bacalhau da Noruega. Eu também era louco por carne de charque, jabá, no feijão, que é um espetáculo. Arroz, macarrão e sou louco por suco. A fruta que eu mais adoro no mundo é pinha, é um espetáculo, não é não? Pronto. E muita gente pensa que eu sei inglês, mas eu não sei inglês. A senhora me ensina uma palavra em inglês, eu aprendo. Eu fui para Áustria levar um jogador. Quando eu cheguei na Áustria, um país, tudo educado, menina linda... A gente aqui, com licença da palavra, no Brasil para a Europa é lixo, entendeu? Quando eu cheguei em Bruxelas para fazer a conexão para ir para Áustria, para preparar o jogador que saiu de Recife, foi Seleção Brasileira Olímpica, José Carlos, e eu o apanhei, peguei um avião em Lisboa, fui para Bruxelas. Quando eu cheguei lá, a aeromoça disse: “Who is mister Francelino?” Quer dizer: "Quem é Ita Francelino?" Eu digo: “I am.”. "Eu sou". “Mister Carlos, football player is here”. Ela disse: “O jogador José Carlos, jogador de futebol está aqui lhe esperando”. Quer dizer, muita gente pensava que eu sabia inglês, mas eu só sei o que me ensinavam. Quando eu cheguei lá estava assim de fotógrafos: “Who is Mr. Francelino manager José Carlos?”. "Quem é Ita Francelino, o empresário de José Carlos?" Manager quer dizer empresário. Eu digo: “I am.” “Do you come from?” Quer dizer: "De onde você vem?" Eu digo “I am...” "Eu sou de Recife." “Come back here...” “Vim agora de ‘Lisbone’”. Quer dizer, "Vim agora de Lisboa", entendeu? Perguntaram a idade: “Mister Carlos, how old are you?How old are you quer dizer, como velho ele é. Ou quantos anos ele tem. Eu digo: “Twenty two.” Quer dizer, 22, entendeu? “Good football player”. Bom jogador de futebol: “Sim.” “How time mister Carlos jogou?” Ele perguntou qual o time que ele jogou? Eu disse: “Seleção Brasileira, Botafogo da Paraíba e Santa Cruz de Recife”. Aí, me entrevistaram, depois, eu disse a eles “Please, speak for me slow. I don’t know very much english”. Eu disse a eles: "Por favor fale devagar que eu sei um pouco inglês." “Please, speak for me.” Quer dizer: "Fale para mim". Slow quer dizer devagar. Entendeu? Disseram que não sabiam muito inglês, mais ou menos, more ou less em inglês. “I speak more or less em inglês”. Eu disse a ele: “Eu falo mais ou menos em inglês.” Pronto.

 

P/1 – O senhor se virou bem.

 

R – Eu me virei bem.

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho lá para sua infância. Quais eram as brincadeiras que o senhor gostava de fazer, senhor Francelino?

 

R – Olha, eu gostava de jogar pião, aquele que joga assim, entendeu? Bola de gude e futebol eram as coisas que eu gostava.

 

P/1 – E o pião o senhor era quem fazia, como é que era? Quem fazia o seu pião?

 

R – Não, eu comprava. Tinha um cara lá que fazia pião e me vendia, eu enrolava e: “Tchiiiii”. Jogava o pião.

 

P/1 – O senhor brincava com quem?

 

R – Com aqueles colegas que batiam bola, que a gente chamava pelada. Amauri, eu jogava com ele. Ia para a escola de manhã para a aula e à tarde ficava... E à noite ia praticar telegrafista.

 

P/1 – Então vamos entrar nisso. O senhor estudava em que escola?

 

R – Eu estudava no grupo, Grupo Escolar Herculano Bandeira.

 

P/1 – Que ficava lá em Catende?

 

R – Ficava em Catende, ficava não, fica lá, ainda tem gente estudando hoje.

 

P/1 – O senhor estudou até que ano lá?

 

R – O segundo ano do primário.

 

P/1 – O senhor parou de estudar? Não estudou mais?

 

R – Não estudei mais. Mas naquela altura eu já sabia somar, diminuir, multiplicar e raiz quadrada, entendeu? Quando eu vim para Recife, jogar futebol, não dava tempo porque eu treinava e trabalhava.

 

P/1 – O senhor começou a fazer o curso de telegrafista por que, senhor Ita?

 

R – Primeiro porque eu entrei na Usina como ajudante de torneiro.

 

P/1 – O senhor tinha quantos anos?

 

R – Ah, tinha uns 15 anos. Mas, desculpa a palavra que vou dizer, mas naquele tempo, eu limpava o torno, o torneiro, o ajudante de torneiro era eu. Mas só me viam cochilando no torno e, às vezes, modéstia à parte, eu urinava nas calças dormindo. Meu pai soube disso, o torneiro, Vicente de Paiva, que gostava muito de mim e disse: “Senhor João, o Ita é trabalhador e tudo, mas ele dorme no turno e, às vezes, ele urina nas calças”. Meu pai me deu uma prensa que quase me mata. A minha mãe era muito amiga de um dos donos da Usina Catende, que ele se chamava Ismael Silva, o apelido dele era seu Santino, minha mãe gostava muito dele. Ela fazia doce de mocotó e que ele gostava, era homem rico, minha mãe fazia doce de mocotó que ficava muito forte, era bom demais. Foi falar com seu Santino contando a minha situação, tal, chorando, ela lhe disse que queria trabalhar na Estação, com dois dias eu estava na estação. Ele falou com o chefe da estação e eu comecei praticando telegrafista. Para aprender telegrafia, tem um código Morse, o “A”, o “B”, o “C”, tudo, né? Quando a Great Western me contratou, eu sabia um pouco de telegrafia, pouco, mas fui trabalhar na estação Central, que tinha 38 telegrafistas, Rádio Telegrafista espetacular e eu melhorei como telegrafista, porque aquilo era difícil, era não, é difícil pegar as letras e escrever. Depois de uns quatro, cinco anos, foi que eu comecei a telegrafista e tive a chance de ser hoje, no mínimo, capitão da aeronáutica, da base. Da base, porque veio do Rio de Janeiro, ou Brasília, não sei de onde foi, um oficial buscar um telegrafista porque Juscelino foi telegrafista, em Recife, na Bahia, que eram considerados da Ferrovia, os melhores telegrafistas do Brasil. A preferência para entrar como sargento já, casado, solteiro ou casado com filho. O meu pai de canto Murilo Crespo, hoje mora em Boa Viagem, num apartamento de luxo, todo fim de ano ele me dá presente, tinha nove ou dez irmãos em Catende, família pobrezinha e tudo, ele não tinha dinheiro para comprar um lanche, nem tirar fotografia para fazer os documentos dele, tudo eu paguei para ele. Ele disse que teve um pai, mas o segundo pai dele fui eu. Como muitos jogadores hoje estão ricos e dizem: “Tenho Ita como o meu pai”. Alguns deles me reconhecem como Geraldo, um jogador que eu coloquei no Sport, foi campeão há uns dois anos. Geraldo, carioca, é o que ganhava mais no Sport, na altura ganhava 110 mil, craque. Depois, foi para o Náutico, no Náutico foi vice. Ele campeão no Sport, chamavam-no de ‘o diamante negro’. Diamante negro era Leônidas, um dos maiores jogadores do mundo era preto e apelidaram de diamante negro, por isso tem aquele chocolate, não sei se você já ouviu falar. Coloquei-o no Náutico, trabalhou com o Nivaldo que hoje é empresário da Fédération Internationale de Football Association (Fifa), aí ele foi vice-campeão e artilheiro. Jogou na Arábia Saudita, Dubai, entendeu? Quando ele voltou, Nivaldo, o colocou no Sport, e, depois de campeão, foi para o Náutico, vice-campeão e artilheiro; em seguida, foi para o Ceará. No Ceará, o ano passado, foi campeão, colocou o time na primeira divisão e foi artilheiro com 11 gols. Foi jogar em Goiás, em Itubiara. Sabe quanto ele ganhava? Cento e quinze mil, o homem era muito rico. O Ceará, como ele é ídolo e colocou o time na primeira divisão, foi buscá-lo agora, sabe quanto ele ganha? Cento e trinta mil. Sabe quanto ele me dá, faz cinco ou seis anos que ele me dá todo mês, manda Nivaldo me entregar? Trezentos reais. A cabeleireira dele, ele a chama de minha tia, dá 200 reais, é um filho abençoado. Ele tem uma casa, um apartamento em Muro Alto, já ouviu falar em Muro Alto, que custou 700 mil. O francês que mora no momento dá 900 mil e quem toma conta de tudo é Nivaldo. Nivaldo disse que se o homem vender tudo o que ele tem, ele tem uns cinco milhões hoje.

 

P/1 – Eu vou fazer uma pergunta para o senhor, só para entender um pouco o tempo. O senhor quando foi para a Marinha, tinha mais ou menos uns 15 anos, aconteceu aquele problema que o senhor nos contou, que ficou decepcionado. O senhor voltou para Catende e o senhor entrou na Rede, é isso?

 

R – É.

 

P/1 – E o senhor começou a trabalhar na Rede como telegrafista?

 

R – Como telegrafista. Comecei a trabalhar em Recife.

 

P/1 – Lá em Catende, o senhor trabalhou...

 

R – Era praticante de telegrafia. Depois de praticante, passa a praticante oficial; praticante oficial é aquele que pode substituir o telegrafista, depois de praticante, vai a praticante oficial, passa a ser oficial, entendeu? Por exemplo, outra estação precisa de um telegrafista, não tem: “Coloca Fulano de tal que é oficial”. Já estava documentado como praticante oficial, recebia dinheiro. Quer dizer, se eu tirasse cinco dias como telegrafista, vinha no fim do mês cinco dias. Foi quando houve esse negócio e tal, porque Jesus sabe o que faz.

 

P/1 – Senhor Ita, como é que era a estação de Catende naquela época?

 

R – A Estação de Catende era uma estação grande. Se a senhora queria, por exemplo, ir para Garanhuns, que tem estação, queria fazer uma mudança, ia para aquele local que se chamava despacho, despachar. Do outro lado, tinham os telégrafos, para a gente falar com as estações. Mais um pouco, tinha local para vender passagens, a senhora queria ir de Catende para Palmares, queria para Garanhuns, de Catende para Ribeirão, de Catende para Ilha, para Mercês, comprava lá. Era estação grande. Às vezes, a pessoa despachava para Catende, aí colocava lá no...

 

P/1 – Armazém...

 

R – No armazém...

 

P/1 – Tinha um armazém lá também...

 

R – Tem um armazém grande. E o chefe da estação morava na frente, casa grande, ainda tem hoje lá.

 

P/1 – Na estação de Catende, tinha vila de moradores da Rede?

 

R – Não.

 

P/1 – Nessa estação, tinha carros de passageiros e vagões de mercadoria? Quer dizer, o trem que fazia essa estação tinha mercadoria e tinha passageiro.

 

R – Os trens de passageiros despachavam somente para ir de um lado a outro, somente tinha uma gradezinha assim, peru, botava ali dentro. Agora, um despacho para uma mudança ia nos trens de carga, aqueles vagões grandes, que botavam as mercadorias todinhas, chamavam trem de carga. Passageiro só era passageiro e para despachar, por exemplo, um peru, dois perus, tinha um negocinho que colava, mais nada. Agora sua maleta, seu negocinho, podia ir dentro, junto da senhora...

 

P/1 – As bagagens podiam ir no trem...

 

R – É, podiam ir no trem, as bagagens, roupa, sapatos, a maleta e tal, não tinha problema.

 

P/1 – O senhor veio para Recife como telegrafista para trabalhar na Estação Central.

 

R – Não, eu vim para Recife, para o Sport. Quando saiu no jornal que eu tinha feito dois gols e tinha acabado com o Sport campeão, que eu sei os dois times de cabeça, eu gravei. Eles viram que saiu meu nome no jornal: “O matuto de Catende, Ita, acabou com o Sport Clube do Recife campeão, fez dois gols e o Sport o trouxe”. Quando eles viram isso, procuraram saber onde eu estava. Eu estava em Dois Irmãos, na concentração de luxo, feito um rico, do bom e do melhor, treinando de manhã e tarde, de tarde e à noite. Massagem, davam massagem em mim, davam tudo, tinha tudo, entendeu? Foram me buscar mais de meia-noite no jipe me levaram para Recife e me colocaram na Rua da Imperatriz, na pensão, chamava-se Dona Regina. Agora o seguinte: tem um detalhe que eu vou dizer, meu irmão, o que houve o caso por causa da menina...

 

P/1 – Conta essa história para a gente o que aconteceu...

 

R – Foi o seguinte: o mais novo era Sport e o que foi assassinado era Santa Cruz. Eles me adoravam. Tinha um irmão que, às vezes, eu não gosto de falar porque eu sou muito emotivo, sabe? (choro). Tinha meu retrato na caixa para ele botar as ferramentas dele e ele colocava: “Meu querido irmão...”. Eu sou muito emotivo. Veja bem: o meu irmão, o mais novo, esse que sofreu do coração, que houve o caso com a menina, ele sofria do coração e tinha asma, veio assistir um jogo. Eu o esperei na estação Central e ele dormiu na pensão. Como a pensão, para almoçar, oferecia feijão, um pouquinho de arroz, um pedacinho de carne que não tem nada, que era tão fino que apelidaram a carne de: “Jesus está te chamando.” Porque era pouco. Disse: “Tu vais comer Jesus está te chamando?”. Como ele comia muito e, no interior, come-se muito, ele chegou em casa, disse a minha mãe: “Mãe, Nido...” Que ele me chamava de Nido. “Mãe, Nido está passando fome”. “O quê, meu filho?” “Está passado fome, mãe”. “Só a senhora vendo para crer”. Depois do jogo, a gente foi a pé da Rua da Imperatriz para a Ilha do Retiro, que era ida e volta. À noite, café, um pão francês, um pouquinho de manteiga e mais nada. “Mãe, pelo amor de Deus, mande comida para meu irmão, ele está passando fome”. Aí, mãe endoidou. O que ela fez? A gente tinha direito que se despachasse uma coisa não pagava nada por que era funcionário. Toda semana, ela mandava um caixão de fruta, com pinha, com banana, com laranja, com jerimum, tudo, toda semana. Então, aqueles caras que também passavam fome, que comiam “Jesus está te chamando”. E diziam: “Ita, pelo amor de Deus, o que é que trouxe sua mãe para dar um presente”. Eu dava a eles também de comer, porque a pensão só dava isso, para a gente passar praticamente fome.

 

P/1 – A Great Western foi buscar o senhor e o senhor foi jogar na Rede Ferroviária, no time, mas o senhor também trabalhava como telegrafista.

 

R – Trabalhava.

 

P/1 – E como é que era? O senhor trabalhava durante o dia e durante a noite?

 

R – Tinham 38 telegrafistas, eles me colocavam para trabalhar mais de manhã ou à tarde. Eu preferia que eles me colocassem mais de manhã porque a gente treinava à tarde, seis horas somente, das seis às 12. Eu largava meio-dia, ia para a Rua da Imperatriz almoçar, almoçar não, aquela comida: “Jesus está te chamando”. Depois, à tarde, ia para estação Central porque Ipiranga é bem pertinho da Estação Central. Descia lá, trocava de roupa, chuteira, tudo para treinar. Tinha dia que era individual e tinha dia que era coletivo, coletivo quer dizer treinar com bola, pronto.

 

P/1 – Fazer jogo mesmo.

 

R – Aí pronto, só ia mais de manhã.

 

P/1 – O clube da Rede Ferroviária tinha um campo para treinar, tinha lugar de concentração, tudo?

 

R – Tinha e tem hoje, embora esteja sendo vendido, que vai acabar com o futebol lá, vão vender tudinho, vai ser um supermercado. E para dormir na concentração quando tinha jogo, eu dormia no primeiro andar da sede que tinha campo, ainda tem hoje, campo grande. Teve jogador que jogou no Botafogo do Rio de Janeiro, do Ferroviário, que jogou comigo, com Garrincha, aquele antigo jogador. Tem outro que jogou no Náutico, era meu reserva, sou mais velho do que ele seis anos, Geraldo, jogou no Náutico, campeão; jogou no Palmeiras, campeão; jogou no Flamengo, campeão. No Flamengo, ele trouxe a sunga. Uma multidão... Sabe qual foi o público que deu lá, foi Flamengo e Fluminense, ele era campeão pelo empate, foi empate e eles foram campeões? Tomaram tudo dele, chuteira, calção, só não tomaram a sunga, a sunga ele trouxe para mim. Ele era meu reserva. Ele era compadre meu, era meu reserva no juvenil, entendeu? Deu 177 mil pessoas, já pensou? No Maracanã, 177 mil pessoas.

 

P/1 – O senhor quando jogou no Ferroviário, o time era considerado bom?

 

R – Era. Dos times pequenos, hoje nós chamamos times intermediários, o melhor que tinha era o Ferroviário.

 

P/1 – Mas o senhor participava da primeira divisão?

 

R – Primeira divisão, primeira divisão.

 

P/1 – Jogava com o Santa Cruz, com o Sport...

 

R – Sport, Santa Cruz, Náutico, América, era Auto Esporte Clube, Ibis, com os times da primeira divisão.

 

P/1 – E o senhor chegou a ser campeão alguma vez pela Rede Ferroviária?

 

R – Não, nunca fui. Antes de começar o campeonato, tinha o desfile, a gente foi várias vezes campeão de desfile. Agora fomos campeões de aspirante, que antes de ser titular tem o aspirante. Eu fui campeão aspirante, fui artilheiro, o terceiro artilheiro, para ser o artilheiro legítimo. O treinador me colocou várias vezes titular, entendeu? O que ganhou fez 16 gols, o segundo fez 14 e eu fiz 12. Se eu tivesse jogado no titular várias vezes, eu teria sido campeão. Eu ainda tenho a medalha de bronze, como campeão.

 

P/1 – Nessa atividade que o senhor fazia na Rede Ferroviária, o senhor ficava só como telegrafista? O que era a função do telegrafista? O que ele tinha que fazer?

 

R – A telegrafia tem em diversos setores, entendeu? Tem um que a senhora fala com a Paraíba, tem outro que a senhora fala com Palmares, Garanhuns, tem outro que fala com Maceió, tem outro que fala com Carpina, tem outro que fala com Arcoverde. Por exemplo, tinham os documentos, esses avisos internos da Rede para Arcoverde, eu transmitia e eles também transmitiam avisos de lá ou telegramas para a Recife, entendeu? Às vezes, também eu tinha um telegrama, por exemplo, para Pesqueira.

 

P/1 – O senhor que transmitia...

 

R – Eu transmitia.

 

P/1 – Como é que era o aparelho, o senhor sabe descrever para gente como é que era o aparelho, como é que o senhor fazia?

 

R – Chamava-se aparelho Morse. A gente batia no dedo assim: “Tan-tan-tan-tan.” E ouvia. Eles transmitiam as letras e a gente ia escrevendo o que eles transmitiam, no ouvido. Depois passou a... Como é que se diz? Tem esse negócio do ouvido...

 

P/1 – Havia telefone, não? Havia Telex...

 

R – Não, feito esse com que ele está...

 

P/1 – Ah, microfone...

 

R – Sim, microfone, entendeu? Não tinha zuado, naquele tempo tinha zuado porque juntam os outros que estavam com outras estações... A gente tinha que captar bem. Depois passou a transmitir, só quem ouvia era a gente mesmo...

 

P/1 – Ah, era com os fones de ouvido...

 

R – É, fone de ouvido, pronto.

 

P/1 – O senhor punha alguma coisa na mão para poder bater? Lá tinha algum metalzinho que o senhor...

 

R – Não, não.

 

P/1 – Era com o dedo só?

 

R – Era somente com o dedo no aparelho Morse, ele juntava e transmitia.

 

P/1 – Como é que era o uniforme do telegrafista?

 

R – Não, o uniforme era qualquer um. Era comum, a gente podia ir do jeito que quisesse. Calça, camisa e gravata, entendeu?

 

P/1 – Como era o uniforme do time da Rede Ferroviária.

 

R – Ah, o time! Era tricolor: branco, verde... Fluminense como é? E vermelho.

 

P/1 – Teve uma época que era vermelho e amarelo, não era?

 

R – Não. Tinha época não, agora é que são essas cores.

 

P/1 – Ah, vermelho e amarelo é agora.

 

R – Vermelho e amarelo é agora.

 

P/1 – Ah, mas naquela época era verde, branco e vermelho.

 

R – Era. Chamava-se tricolor porque eram três cores.

 

P/1 – Nessa época, com quem o senhor jogou que depois ficou famoso e foi jogar em outros times fora de Recife?

 

R – O treinador do Sport era Dante Bianchi que era argentino e gostava do meu jogo porque eu fazia gol, um amigo dele português pediu um jogador atacante bom pra ir para Portugal.

 

P/1 – Foi quando o senhor foi para Portugal.

 

R – Foi. Ele me indicou. Tirei o passaporte. Eu tenho nove passaportes, eu tenho um que vai até o dia dez de dezembro.

 

P/1 – Até o senhor se machucar, o senhor jogou até os 28 anos.

 

R – 28 anos.

 

P/1 – Quando o senhor parou de jogar, o senhor ficou trabalhando como telegrafista?

 

R – É, como telegrafista e como eu, de vez em quando, indicava jogadores para Portugal porque eu joguei, um amigo meu me colocou na imprensa, Hélio Pinto, jornalista. De jogador, ele não conhecia, aí, me chamou para ir para lá como assistente de empresário, porque ele era empresário e jornalista. Ele era Botafogo, Santos. Eu viajei com Santos, Botafogo, Fluminense, América do Rio, viajei por todo canto.

 

P/1 – Como que o senhor fazia para viajar nessa época que o senhor trabalhava na Rede?

 

R – Eu pagava a um telegrafista para ficar no meu lugar, oito, dez dias. O apelido era gronga: “Quer fazer uma gronga para mim?”. Quer dizer: “Quer ficar no meu lugar?”. Chamava-se gronga. Quando era no fim do mês: “Quantos dias trabalhou?”. “Tantos dias.” Aí, a gente pagava, entendeu? Eles faziam um preço mesmo e a gente pagava. Chamava gronga.

 

P/1 – Não tinha problema na Rede, a Rede permitia fazer isso.

 

R – Não, não, permitia, o chefe permitia. O negócio é que tinha uma pessoa do lugar da outra.

 

P/1 – O senhor pagava para aquela pessoa substituí-lo?

 

R – É. Para substituir.

 

P/1 – O senhor começou a viajar com os clubes, o que o senhor fazia quando viajava com esses clubes?

 

R – Eu ia como empresário. Hélio Pinto ia visitar algum time, eu ia. Hélio Pinto acertava quanto o clube ia receber e já estava certo hotel e tudo, tal, tal e tal. Ficávamos naquele hotel. Quando terminava o jogo, o presidente do clube que a gente jogou, eu saia com ele que me dava um dinheiro.

 

P/1 – Ele queria contratar algum jogador e o senhor intermediava essa transação, é isso?

 

R – É. Hélio Pinto, negócio de jogador ele não conhecia e dizia “Fulano quer um jogador assim, assim a assado”. “Qual a posição que ele quer?” Eu comecei a indicar, entendeu? Indicar jogador e tudo.

 

P/1 – O senhor fazia a intermediação entre o clube e o clube interessado lá para poder fazer a venda do jogador.

 

R – É. E eles me gratificavam com dez, 20%.

 

P/1 – E isso o senhor fez para vários clubes do Brasil?

 

R – Fiz. Agora muitos, 70% deles, me enganaram e eles sabem disso.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque eu não tinha documento. Hoje, eu coloco o documento e reconheço a firma, vou no cartório. Se eles me enganarem eu ponho na justiça, como coloquei o Náutico agora, depois de dois anos. Esse jogador, um tempo desses, me telefonou e estava passando fome. Passando fome e eu mandei dinheiro para ele, bom jogador do Cabo, Ipojuca, por esses lados e o Náutico ainda não pagou. E fora o outro jogador que eu arranjei para ele que foi para o Internacional de Porto Alegre, Robson, Robe Gol. Outro que eu mandei para Espanha, Ricardo Rocha, o time ficou me devendo 20 mil dólares, até hoje não me pagou. Eu tenho uma base de uns 50 mil para receber e até agora não recebi, porque eu não tenho documento. Desse, que disse que está passando fome, ganha uma questão e eu tenho documento, meu e dele, passando a procuraçãoo. Agora eu uso tudo com procuração.

 

P/1 – O senhor viajava muito de trem?

 

R – De trem? Ah, viajava muito.

 

P/1 – Como era a paisagem, quando o senhor andava de trem de Recife para?

 

R – Catende.

 

P/1 – Como é que era a paisagem? O que tinha no meio da estrada, como é que era? Tinham muitas plantações?

 

R – Tem, a maioria cana.

 

P/1 – Ah, era cana.

 

R – Cana, era.

 

P/1 – E que outros lugares que o senhor viajou aqui no Nordeste de trem? O senhor foi para a região Central, para o Sertão...

 

R – Olha, eu viajei de trem para Arcoverde, Serra Talhada, Caruaru, Garanhuns, Palmares, Catende que era a minha terra, somente essas que eu fui.

 

P/1 – Essas regiões eram todas da Linha Tronco Norte ou era Linha Tronco Centro? Que linha que era essa?

 

R – Não, Catende é Zona da Mata, né?

 

P/1 – É Sul?

 

R – Sul. Serra Talhada eu não sei, não me lembro, entendeu? Garanhuns deve ser também Sul. Eu viajei para esses cantos.

 

P/1 – Então, para Garanhuns e Serra Talhada, como é que é a paisagem?

 

R – As paisagens são lindas, entendeu? Coisa bonita, a gente via, por exemplo...

 

P/1 – O que o senhor via pela janela do trem?

 

R – Eu via, por exemplo, aqueles engenhos, usinas, eu via gado, entendeu? E via muitas coisas bonitas. Era bom naqueles tempos que quando parava na estação era bom, que vinha um cara vendendo tapioca, cocada, apesar de no trem ter restaurante.

 

P/1 – Quer dizer que quando parava na estação, tinha o comércio também de comida?

 

R – Tem os caras vendendo: "Oh, a tapioca!" Outro: "Quer beiju?" O outro: "Quer cocada?" E não sei o que, pronto.

 

P/1 – Em que região que tem plantação de pinha?

 

R – A região que tem plantação de pinha é Garanhuns, Triunfo tem, onde tem muita pinha também, é para o lado de Carpina, Pau d'Alho, entendeu?

 

P/1 – E como é essa planta? É uma árvore?

 

R – É uma árvore, pequenininha que vai crescendo a pinha, entendeu?

 

P/1 – A árvore não é grande...

 

R – Não, não. Um metro e meio, dois metros, entendeu? Só não plantei agora em casa porque não teve jeito, mas toda casa minha tinha... A primeira coisa que eu faço é pinha.

 

P/1 – A plantação que o senhor falou que tem muita pinha é muito grande?

 

R – Não, só tem dois lugares que eu conheço, Pau d'Alho, a plantação é grande e Triunfo é pinha que, a senhora, só vendo... Pega nela assim, entendeu? Tem que lavar a pinha e depois... Eu compro sempre pinha todo mês, 20, 30, 40 reais de pinha em Afogados, cada pinha desse tamanho assim. Agora, Triunfo, além de pinha, a senhora de noite se não botar um...

 

P/1 – Uma blusa...

 

R – Uma blusa, a senhora não dorme por causa do frio.

 

P/1 – Lá é uma região mais alta.

 

R – É.

 

P/1 – É mais frio.

 

R – Tanto Triunfo quanto Garanhuns, frio. O outro lugar que é muito frio também é Gravatá. Espetáculo Gravatá, viu?

 

P/1 – Como é que o senhor conseguiu esse apelido de Ita?

 

R – Olha, Ita é o seguinte: quando eu treinava no juvenil, em Catende, no Leão XIII, quem me lançou no futebol chama-se Jaime Albuquerque, ele era promotor. Tinha um jogador aqui no Santa Cruz, o time era: Vicente, Segundo, Salgueiro, Pedrinho, Pelado e Pinto, Itaguari, Jango, Taraci, Dici, Dunga. Olha, Itaguari era ponta, antigamente, eu era ponta direita. O estilo do jogo dele, a mesma coisa que ele fazia aqui, eu fazia também em Catende. Aquele pessoal que tinha dinheiro e que vinha para Recife, que naquele tempo era quatro, cinco horas, para vir para cá, dizia: "Rapaz, aquele filho de seu João Francelino, Nido, parece Itaguari, todo jogo dele é tipo Itaguari, ele faz isso, isso, tudo ele faz igualzinho". Começaram a me chamar: "Itaguari, Itaguari, Itaguari...". Aí ficou como Ita, entendeu?

 

P/1 – Ita Francelino.

 

R – É. Francelino foi depois. Só me conheciam como Ita, depois foi Francelino.

 

P/1 – O senhor jogou futebol até os 20, o senhor começou a jogando com 15 anos, foi isso?

 

R – De 14, para 15 anos, juvenil.

 

P/1 – E jogou até os 28.

 

R – Foi. Por causa da pancada. Hoje não sinto mais nada dela, graças a Deus.

 

P/1 – Quando jogava no interior, a Rede Ferroviária emprestava a rede para poder fazer a transmissão do jogo?

 

R – Não. Quando tinha jogo em Catende, só transmitia, por incrível que pareça, a Rádio Clube.

 

P/1 – Quando era em Caruaru? Também era...

 

R – Não. Caruraru a gente só jogava amistoso, entendeu? Amistoso quer dizer jogo particular, a gente ia daqui para lá, eles vinham de lá para cá. Barreiros, Santa Terezinha, a gente jogava por ali.

 

P/1 – Quando o senhor jogava no clube, no time da Rede, como é que o senhor se deslocava para jogar em outras cidades? Vocês iam de trem? Como é que era?

 

R – Não, a maioria de trem e também ia de ônibus. Tinha almoço e tal, se a gente chegasse cedo lá, almoçava, descansava e ia jogar. Depois do jogo, a gente vinha embora.

 

P/1 – Quando vocês vinham de trem, vocês iam num vagão especial? Como é que era?

 

R – No vagão comum. Agora, não pagava nada, entendeu? Não pagava nada, quem pagava era o clube. Agora, eu hoje não pago trem ainda não, eu tenho um documento aqui que eu posso... No Rio de Janeiro tem o trem azul, é Rio e Belo Horizonte, eu não pago.

 

P/1 – E o senhor costuma viajar muito por esse trem?

 

R – Nunca viajei, mas fui lá visitar.

 

P/1 – O senhor foi casado?

 

R – Fui, sou.

 

P/1 – O senhor conheceu a sua mulher quando e como foi que o senhor conheceu?

 

R – Foi no Ferroviário.

 

P/1 – Ah, foi na Rede que o senhor a conheceu?

 

R – Foi.

 

P/1 – Ela trabalhava na Rede?

 

R – Não, ela era filha de um chefe da Rede.

 

P/1 – E como é que é o nome dela?

 

R – O nome dela é Arisvaldete e eu a chamo de “Pepsi”. Você diz: "Por que a chama de Pepsi?" Porque eu dizia assim: "Ô, Dete..." A gente ia almoçar: "Você quer coca-cola, guaraná ou..." E ela dizia "Não, eu quero é Pepsi" Aí, eu a apelidei de Pepsi.

 

P/1 – E o senhor a conheceu como?

 

R – O meu cunhado, o irmão dela, gostava de futebol e dizia: "Tem um magrinho lá que se chama Ita, mas joga demais, é bom demais". Ela, de vez em quando, ia me assistir treinar, às vezes, era dia de jogo e ela ia, e tal, e tal. Ficou gostando de mim e mandou um recado por ele: "Tom..." Aristom, o nome dele: "Tom, diz a ele que eu perguntei por ele, tal, que eu gosto dele, não sei o que, tal." Ficou aquela paquera, né? Pronto.

 

P/1 – O pai dela fazia o que na Rede? O que é que ele era?

 

R – Ele era chefe de escritório em Jabotão. Sabia inglês, batia em inglês.

 

P/1 – E o se senhor casou com ela quando? Em que ano, o senhor se lembra?

 

R – Ah, não me lembro não. Faz 30 e poucos anos, entendeu?

 

P/1 – E o senhor tem filhos, senhor Ita?

 

R – Só tenho uma.

 

P/1 – E como é que ela se chama?

 

R – Lairane.

 

P/1 – E a Lairane faz o que, senhor Ita?

 

R – Lairane tem os cursos dela todos, tal, tal e tal, entendeu? E ela é uma espécie de pessoa particular que... Ela passou nuns três lugares, mas o marido dela não quer que ela trabalhe não.

 

P/1 – Ah, ela já é casada?

 

R – É.

 

P/1 – E o senhor tem netinhos ou não?

 

R – Só tenho um.

 

P/1 – Como é que é o nome dele?

 

R – Ítalo.

 

P/1 – Ítalo.

 

R – Eu sou Ita e ele é Ítalo.

 

P/1 – Ele tem quantos anos?

 

R – Ele tem 15 anos, 16, completou agora. Eu casei muito novo.

 

P/1 – O senhor casou com quantos anos?

 

R – Ah, eu casei eu tinha 24 anos, 23 para 24.

 

P/1 – A sua esposa trabalhava, eu ela só ficava em casa?

 

R – Só ficava em casa.

 

P/1 – O senhor falou o que o seu irmão foi assassinado. Conta essa história pra gente, como é que foi isso?

 

R – Olha, uma menina de Garanhuns, de uma família, depois eu vim a conhecer, que vive muito bem, foi desvirginada em Garanhuns quando tinha 17 anos. Os pais ficaram revoltados e mandaram-na embora da casa, ela estudava num colégio lá. Ela foi para a casa da tia e uma camarada, mais velha do que ela, botou na cabeça dela para ela ser, com licença da palavra, uma prostituta, entendeu? Por que o camarada que fez esse negócio com ela fugiu e não apareceu mais. Ela foi para Catende. Meu irmão gostava de ir para a gafieira e ouvir música e tal, tal, tal. Ela ficou doida pelo o meu irmão.

 

P/1 – O seu irmão mais novo.

 

R – O mais novo.

 

P/1 – Como é que ele chamava?

 

R – Elias. Então, os filhos do Pinheiro, esses dois rapazes, ficaram doidos por ela e a queriam de toda maneira. Forçaram, forçaram, forçaram, até que teve um dia, véspera de Reis, ele morreu, foi assassinado. Então, o seguinte: eles a queriam de toda maneira e meu irmão estava com ela. Meu irmão disse: "Ela não quer vocês". Ela só queria meu irmão, entendeu? Que meu irmão não era para ela, ela era outro gabarito, bonita, linda mesmo. Eu digo: "Mas rapaz..." Só a vi umas duas vezes, ela dizia: "Cunhado, cunhado..." "Tudo bem, tudo bem...". "Cadê meu amor?". Eu digo: "Está trabalhando com meu irmão..." "Tudo bem." Todo mundo só queria ela, aqueles caras que tinham loja e tudo só a queriam, mas ela não queria, só queria o meu irmão. Esses dois filhos de Pinheiro, na véspera de Reis, foram lá, ela estava lá, eles queriam ela a força, levaram ela para o quarto à força. Meu irmão estava lá e deu nos dois, entendeu? Deu nos dois, que ele era forte, tinha muita força. Porrada num, porrada no outro e tal, tal, tal... Tirou sangue de um, tal, tal tal, eles foram embora. Meu irmão falou com ela e depois saiu. Já sabia da série, porque cidade pequena, né? Hoje está maior. Todo mundo sabe os boatos logo, né? "Rapaz, Elias, teu irmão, estava brigando com os filhos de Pinheiro". E contou tudinho. Disseram meu irmão, aí meu irmão foi lá...

 

P/1 – O irmão mais velho do senhor.

 

R – O irmão mais velho, o José. Aí ele foi tentar apaziguar, entendeu? Antes, meu irmão deu neles, que meu irmão foi embora, eles, depois, foram na casa dele com o revólver do pai e uma faca peixeira, desceram para matar meu irmão, esse que a menina gostava. Meu irmão já tinha saído. Quando chegou o meu irmão, o mais velho, eles conheciam e, como não puderam matar o meu irmão que deu neles, eles descontaram no mais velho. Aí mataram meu irmão de tiro e faca. Esse meu irmão que a menina gostava tinha vindo para cá, disse: "Rapaz, parece que mataram Del". "O quê?". Quando ele voltou, os caras tinham vindo da gafieira, já tinham matado dando tiro e a facada. Meu irmão encontrou os dois. Quando encontrou os dois, um já tinha botado bala no revólver, meteu no meu irmão para matar porque eles queriam matar o mais novo. Meu irmão correu e ficou numa arvorezinha, nesses lugares onde a Prefeitura não bota planta, aquelas árvores, né? Ele ficou ali deitado, o revólver e o cara atirando... Quando eles acabaram de atirar, procuraram colocar bala, meu irmão entrou num bar, o bar fechou, o bar de Nelson. O bar estava aberto e tinha uma garrafa assim de cerveja, como é que se diz? Já...

 

P/1 – Vazia?

 

R – Vazia não, estava cheia. Meu irmão tirou a cerveja, quebrou, entendeu? E partiu para cima dos assassinos e deu de cima para baixo, num dos assassinos, que rasgou ele todinho assim. E partiu para o outro. Deu no outro também, foi quando eles correram. Eles correram e meu irmão foi atrás deles, lá na frente botaram bala e, novamente, mandou bala em meu irmão. Tome bala, tome bala, tome bala. Meu irmão doidinho para ir novamente matá-los. Eles foram embora, entendeu? Porque com essa de: "Rapaz, os filhos dele mataram Del, não sei o que..." O apelido dele era Del, o José. Foi quando telefonaram de Catende para mim.

 

P/1 – E o senhor já estava aqui em Recife.

 

R – Já estava em Recife. "Rapaz, mataram teu irmão em Catende". Eu disse: "Quem foi?" "Assim, assim, assim..." Aí eu peguei um táxi, peguei o revólver que meu padrinho me deu e ia matá-los. Eu não mato nem uma barata, tenho pena, mas eu fui para matar eles dois, se dissesse que foi esse e esse, eu atirava em todos os dois.

 

P/1 – Quando o senhor chegou lá eles já tinham sido presos?

 

R – Eles fugiram. Pegaram eles numa usina Aripibú. Desconfiaram deles porque souberam que houve um assassinato em Catende, foi o do meu irmão e eles eram filhos de um barraqueiro, viviam bem, relógio de pulso, cordão de ouro. Desconfiaram porque para trabalhar nas canas, cortando cana da usina... Como desconfiaram, comunicaram o cara de Palmares, o delegado, que telefonou para Catende, vieram dois caras. Eram eles e os prenderam, entendeu? Teve um operário, amigo de meu irmão, que foi na delegacia dos presos para matá-los, Alonso. Foi com revólver para matar os dois. Houve o júri e Catende foi fechada. Aquelas meretrizes que conheciam meu irmão foram todinhas para o juizado e o pai dos dois, que gostava muito de meu irmão, que meu irmão quando passava nas máquinas, ele era serralheiro de locomotiva, fazia peça para ele e tal. Quando disseram, o Pinheiro, com o pai: "Mataram Del!" "Del?! Quem foi?". "Os teus filhos." "O quê?". "Aqueles assassinos..." Pronto. Foi para lá para matar os dois, só não matou os dois na cadeia porque a polícia não deixou. Colocaram não sei onde os dois presos e no dia do júri, Catende fechou. A Usina Catende botou dois advogados e o pai dos assassinos botou um de Palmares contra os próprios filhos. Cada um pegou 28 anos. Foi em rádio, o pai dizendo: "Vocês são uns assassinos! Começa pela sua mãe que não valia nada". A mãe deles era linda e botou gaia com o motorista de engenho. Ele matou a mãe, o Pinheiro, pai, matou a mulher, a mãe dos dois assassinos, matou porque ela botou gaia nele.

 

P/1 – Ele não foi preso?

 

R – Foi. Passou seis meses preso. Gastou muito dinheiro, entendeu?

 

P/1 – Ele tinha o que? Ele fazia o que? Ele tinha usina, o que é que ele era?

 

R – Não, ele tinha um barracão grande, alugado à Usina Catende, um engenho. Aqueles caras de engenho compravam bacalhau, compravam charque, compravam açúcar, sabe? Grande mesmo e ele vivia muito bem. Tinha jipe, tinha tudo e tal. E houve esse negócio com a mulher dele, só vendo o camarada que ela botou gaia nele. Ele ia fazer serviço e ela saia com ele. Quando ele descobriu, o cara o contrariou, pronto, mataram. Ela fazia as patifarias com ele dentro dos matos. Só a senhora vendo, linda, a moça era linda. Vão dar-me uma festa no fim do ano. Se Catende fosse perto, eu levava vocês para lá. Eu vou ser homenageado, Prefeitura e os vereadores.

 

P/1 – Qual era o time, quando o senhor jogou em Catende, quem eram os jogadores do time?

 

R – Oh, o time do Leão XIII formou com Teobaldo, Aurélio e Isaías. Agenor, Nelson e Eronildes, tinha o nome também de Eronildes. Agora, o ataque: Amaro Moco, porque ele era meio moco, chama-se Amaro Moco; Geraldo, eu, Pimenta e Tarzan. O Sport com Carijó, Bria e Pedro Matos, Zé Maria, Wilse e Pinheirense, Carlinho, Tonho, Ênio, Seli e Zingone, esses Seli e Zingone eram argentinos, entendeu?

 

P/1 – E o senhor jogou em que posição?

 

R – Jogava de centro-avante, número nove. Antes, eu era número sete, por causa de Itaguari, depois passei a número nove porque eu pulava muito alto e fazia muito gol de cabeça, entendeu? Ficaram doidos por mim.

 

P/1 – O senhor era um bom cabeceador?

 

R – Bom cabeceador, era.

 

P/2 – E no Ferroviário, o senhor era que número?

 

R – Nove também.

 

P/1 – O senhor se aposentou quando?

 

R – Eu me aposentei no ano de 1981.

 

P/1 – E o senhor se aposentou com quantos anos? 42 anos mais ou menos?

 

R – Olha... É

 

P/1 – Por que é que o senhor se aposentou tão novo?

 

R – Porque Juscelino Kubitschek, que foi telegrafista, quando ele foi presidente, ele estipulou duas categorias no Brasil para aposentar se com 25 anos, médicos, eu tenho até um primo que é médico, que trabalha no Hospital Português, e telegrafistas, porque ele foi telegrafista. Chegou a hora de me aposentar: "Rapaz, esse menino vai se aposentar?", Pronto. Eu me aposentei novinho.

 

P/1 – E o senhor foi fazer o que depois que se aposentou?

 

R – Quando me aposentei, continuei no Ferroviário jogando.

 

P/1 – E o senhor fazia o que lá?

 

R – No Ferroviário? Jogando...

 

P/1 – Mas com 42 anos o senhor continuou jogando?

 

R – Não.

 

P/1 – Aí o senhor estava fazendo o que depois que se aposentou. O senhor continuou...

 

R – No Ferroviário assim, como uma espécie de...

 

P/1 – Empresário...

 

R – Empresário, pronto.

 

P/1 – O senhor começou a procurar jogadores...

 

R – Procurar jogadores, ia para um canto, ia para outro para ver jogadores.

 

P/1 – O senhor contou para a gente que teve um prêmio para os melhores olheiros, né?

 

R – É.

 

P/1 – E o senhor foi considerado o segundo melhor olheiro.

 

R – Foi.

 

P/1 – Conta como é que foi isso para o senhor?

 

R – A SportTV, da Globo, o setor de futebol, começou a indagar em todo o Brasil quem era o olheiro de tal lugar, olheiro de outro estado e tal, tal, tal. Então, quando chegaram em Recife, deram a melhor informação, tinham que ter quatro itens: "Rapaz, tem algum olheiro?". "Tem." "Que é?" "Ita Francelino." "É jogador de futebol?". "Foi jogador de futebol, jogou até em Portugal". "Ele sabe contar piada?" "Oxê, ele conta tanta piada que os jogadores ficam doidos por ele". E teve outro item que eu esqueci. Eram quatro. A maioria, quem fez mais foi três itens e eu fiz os quatro itens. Só três pessoas fizeram os quatro itens: foi o de Curitiba, o de Espírito Santo e eu. Eu tirei segundo lugar. Eu vou trazer a fita para a senhora ver. Passou na televisão, telefonou para mim do Rio de Janeiro, Evaristo Macedo, Sérgio Cosme, Murici Ramalho, que treinou o Palmeiras, treinou o Náutico. E os jogadores de futebol, de Catende, de muitos lugares me dando os parabéns, porque eu entrei nisso.

 

P/1 – O senhor sabe contar muita piada então?

 

R – Sei.

 

P/1 – Conta uma para a gente, mas não pode ser suja, tem que ser uma piada mais...

 

R – Porque tem piada...

 

P/1 – Que não pode contar...

 

R – É, que não pode contar. Olha, uma das piadas: o cara disse que a sogra é feito macaxeira, as boas estão enterradas. É. Agora tem uma que é assim, que eu não acho muito...

 

P/1 – Então, é melhor deixar. Senhor Ita, tem alguma coisa que a gente não perguntou?

 

R – Ó, eu me lembrei agora essa normal. Que um mentiroso queria mentir mais do que o outro. Um disse: "Rapaz, eu vim do Rio de Janeiro de navio..." Olha, um queria mentir mais que o outro: "Eu vim de navio do Rio de Janeiro e veio um cara atrás do navio do Rio de Janeiro até o Recife nadando". Aí, o outro assim: "Rapaz, tu me viste, foi?" (risos). Isso é que é mentiroso, né?

 

P/1 – Escuta senhor Ita, tem alguma coisa que o senhor gostaria de perguntar que a gente não comentou? Tem alguma coisa que o senhor gostaria de contar para gente, que a gente não perguntou?

 

R – Coisa assim que você não perguntou, né? Ah, eu queria perguntar o seguinte: essa entrevista minha, isso vai para onde?

 

P/1 – Ela vai para o site do Museu da Pessoa e nós vamos fazer um livro com a história da Rede Ferroviária.

 

R – Eu vou dizer: eu gosto muito de Chico Anysio, ele disse que a palavra RFN, que é Rede Ferroviária do Nordeste, né? Ele disse que não é isso não, ele disse que RFN significa: “Reunidos Furtaremos a Nação.”

 

P/1 – Deixa eu perguntar uma coisa para o senhor, o que significou para o senhor trabalhar na Rede Ferroviária?

 

R – Olha, foi muito legal mesmo. Primeiramente, a minha mãe dizia que eu era um filho abençoado e sou mesmo. Eu sou um filho tão abençoado... Eu estou deixando de jogar no bicho agora. Meu pai jogava bicho direto, aqueles bichos, ele dizia que não gostava nem do domingo, nem do feriado. "Pai, por que é que o senhor não gosta nem do domingo, nem do feriado?" "Porque não tem jogo de bicho". Aí comecei a aprender a jogar bicho. Eu sabia bicho tudinho. Eu aprendi tudo, os bichos todinhos eu botava na cabeça. Avestruz se chama se chama Ana, águia se chama Enriqueta, burro se chama Anselmo, Bela Rosa é borboleta, cachorro se chama Paulo, cabra se chama Sofia, carneiro se chama Antônio e camelo, Jeremias; cobra se chama Teresa, coelho se chama Manuel, cavalo se chama José Antônio e elefante, João Manuel. Eu sabia os bichos todinhos. Pronto. Ainda jogo bicho. Agora, eu tirei uma vez um dinheiro que eu nunca tinha tirado, naquele tempo tirei quase três mil reais. E tinha um detalhe: uma vez, esse meu amigo que é da Fifa e ele foi para o Benfica. Benfica é um dos times mais ricos da Europa, principalmente de Portugal. Ele comprou um blusão italiano para mim em Lisboa. Sabe quanto? 100 mil dólares. Como eu sou louco por perfume, ele me deu três mil dólares para eu comprar coisas. O perfume que eu gosto é Paco Rabanne, é um espetáculo, entendeu? Eu andei por muitos lugares, viu?

 

P/1 – O senhor viajou muito para a Europa?

 

R – Eu fui simplesmente, sem mentira nenhuma, porque meu pai dizia que a pior coisa do mundo era um cara mentiroso. A minha mãe dizia que quem mente muito rouba. Já fui 30 vezes.

 

P/1 – E o senhor foi para quais países da Europa?

 

R – Olha, Portugal, Espanha, França, Áustria, Bruxelas. Já tive na Alemanha...

 

P/1 – Na Itália, o senhor foi?

 

R – Na Itália, não. Estive em Frankfurt, Munique, Stuttgart. Tive na capital da Hungria que é...

 

P/1 – Budapeste.

 

R – Budapeste, entendeu? Agora, lá a gente vive mesmo. É tão educado o pessoal que eu vi muitas vezes, com licença da palavra, em Barcelona, nas praias e também em Portugal, as meninas novinhas, elas estão nas praias somente de biquíni, não usam essa parte do sutiã e elas vão para o restaurante junto da praia sem sutiã, sem nada e ninguém liga para isso. Na França, em Bordeaux, em Mônaco, a coisa que eu achei mais linda até hoje foi eu ficar na fila para ver Grace Kelly. Rapaz, você é jovem ainda e linda, mas a coisa mais linda que eu vi no mundo de mulher foi a Grace Kelly e olha que o marido era 20 e tantos anos mais velho que ela.

 

P/1 – Ela estava fazendo o que?

 

R – Ela? Era o dia da visita aos príncipes. Para falar com Grace Kelly, a senhora tinha que abaixar a cabeça, que ela era uma princesa e ele, príncipe. Eu fiquei na fila somente para ver. Mas eu não sabia que podia, como jornalista, visitá-la pessoalmente. Ela tinha aquela filha linda, linda, linda mesmo. Mas ela era bonita, bonita. Mônaco...

 

P/1 – Deixa eu fazer uma pergunta de outra coisa: o que é que o senhor achou de ter participado dessa entrevista?

 

R – Eu achei espetacular e tem uma coisa. Agradeço a todos vocês, à senhora agradeço de todo coração, entendeu?

 

P/1 – Bom, eu queria agradecer o senhor por ter participado em nome do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e em nome do Museu da Pessoa, obrigada.

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