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História

O legado da liderança

História de: Edmar dos Santos Viana
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/12/2006

Sinopse

Nasceu em 1982, dentro do rio Iratapuru, estado do Amapá. Mora em uma comunidade que fica ao longo do rio. Sua infância é lembrada por banhos no rio, nadar e andar de canoa. Fez até a quarta série em sua comunidade e concluiu o ensino médio em Monte Dourado. Participou de um programa de formação de lideranças da Fundação Orsa, em São Paulo. Volta para comunidade e desenvolve a cooperativa local, criada em 1992, que produz farinha e biscoitos a partir da extração da castanha. É intermediário na parceria com a Natura e a comunidade. Está se tornando uma liderança local assim como seu pai.

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História completa

P – Então, eu queria começar a entrevista, Edmar, pedindo para você falar de novo o seu nome completo, o local e a data de nascimento sua.



R – É Edmar dos Santos Viana, nasci no dia 28 de maio de 1982, dentro do rio Iratapuru mesmo.



P – Dentro do rio?



R – Aham! Dentro do rio Iratapuru.



P – Literalmente?



R – Sim. Pelas mãos de parteiras tradicionais.



P – Quem que fez o parto seu?



R – Foi uma senhora que morava aqui, ela já está morando no Laranjal agora.



P – Ela não mora mais aqui?



R – Não. 



P – Olha só! E me fala os nomes dos seus pais?



R – Delbanor Mello Viana, Elizabete Freita dos Santos.



P – O senhor Delbanor é conhecido mais como?



R – Arraiá.



P – Isso. E ele é o líder da comunidade aqui?



R – Sim.



P – Então, me fala, Edmar, que você lembra, a tua lembrança mais antiga aqui, de quando você era criança?



R – Eu lembro quando nós morávamos aí, ao longo do rio Iratapuru e que as famílias moravam ao longo do rio e os vizinhos era de um dia de viagem, meio dia de viagem e quando a gente veio morar para cá, a gente chegou aqui só tinha uma casa e a gente foi a segunda casa. A gente fez essa casa aqui, depois veio todo mundo morar para cá. Mas umas lembranças legais é quando a gente morava aí por rio, daqui uns dois dias de viagem.



P – Deixa eu só dar uma nivelada aqui.



P – Mais que lembranças você tem, de nadar que… ?



R – … De tomar banho de rio quando nós morava, aí a gente tomava banho todo dia de rio. E uma das lembranças mais legais é quando a gente descia no rio, de canoa pequena, com o meu irmão e quando a gente veio morar para cá mesmo, quando aqui só era a gente que morava, aqui era tudo mata, não tinha nenhuma casa e a gente veio morar para cá e o pessoal veio todo mundo para cá depois.



P – Porque que vocês vieram para cá?



R – Uma das coisas acho que foi as dificuldades, lá em cima era muito longe da cidade, a gente vinha para cá precisava três dias para vim de lá aqui na cidade fazer compra. E depois que a gente veio para cá ficou mais perto e o pessoal veio também todo para cá por causa da cooperativa depois.



P – A cooperativa está aqui perto?



R – É, a cooperativa é aqui mesmo. Os primeiros funcionou nesses primeiros prédios, nesses que estão dormindo aí, funcionou a cooperativa.



P – Ah, que legal!



R – Foi. O primeiro, aí depois que foi aumentada a estrutura deles.



P – E você é o primeiro, o segundo, o terceiro filho, como é que é?



R – Eu sou o terceiro, terceiro não, o segundo, aí tem uma irmã de 24 anos, tem eu de 22, aí tem meu irmão de 20, aí vai a escadinha voltando.



P – (Risos). Me fala uma coisa, brincadeira no rio, brincava do que?



R – Ah, a gente ficava pulando na água e pegar o outro mesmo, não tinha assim uma brincadeira com nome. Chamavam de pira parece, de brincar de pegar um outro dentro do rio. A gente ficava só nadando.



P – Aprendeu a nadar sozinho?



R – Aprendi a nadar muito cedo e sozinho.



P – É?



R – É.



P – Está jóia, e me fala uma coisa, como é que é o relacionamento, são oito irmãos, né?



R – Sim.



P – Seu pai e sua mãe. Como é que é o relacionamento na casa de vocês, como é que é o cotidiano? Vocês acordam que horas?



R – Ah, a gente acorda oito horas, sete horas, tem dia que a gente acorda mais cedo e a relação com os meus irmãos acho que todos gostam muito um dos outros, a gente trata muito com carinho os pais e os irmãos. E eu e meu irmão a gente dorme até junto tem dia, quando dá frio, assim. Ele vai, (risos) esse meu irmão de 20 anos, a gente dorme, não tem problema nenhum, sempre a gente, desde pequenininho, somos muito carinhoso com o outro, de brincar, de… Foi muito legal isso.



P – E tem coisas que são das meninas fazerem, coisas que são dos meninos fazerem na sua casa, que… 



R – … Não! Assim não tem muito, não. Porque eu faço coisa na cozinha, meu irmão também faz. As minhas irmãs elas gostam mais de trabalhar, não gostam muito de ficar em casa, só tem uma irmã que gosta mais de cuidar de casa, mas as outras gostam mesmo de trabalhar, de estudar, de… Não gostam muito de serviço de casa, não.



P – Jóia! E Edmar você estudou?



R – É, eu estudei aqui, na época era até a quarta série aqui, aí tinha que sair muito cedo para a cidade para estudar. Agora não, já funciona aqui o Ensino Médio completo e antes não, só era até a quarta série. Então, na quarta série eu fui para a cidade morar na casa de parentes e com muita dificuldade consegui terminar o Ensino Médio que foi apareceu a oportunidade de eu estudar em São Paulo.



P – Mas aí você foi estudar em que cidade?



R – Fui estudar em Monte Dourado.



P – Que fica? Para chegar em Monte Dourado, conta para gente. 



R – Ah, daqui… 



P – … Como é que vocês fazem para chegar em Monte Dourado?



R – Daqui para Monte Dourado você vai de canoa até o porto Sabão, que dá em quinze, vinte minutos de voadeira, aí você pega um carro 40, 50 minutos, no máximo, de carro e já está em Monte Dourado e eu sempre estudei lá.



P – Aí você foi morar na casa de um parente… 



R – Aham! Na casa das minhas tias.



P – E me fala uma coisa, aí você fez o curso fora?



R – Foi. Aí sim, quando eu terminei o segundo grau, que foi o Ensino Médio, né, eu participei dessa seleção na Fundação Orsa, que estava enviando jovens para São Paulo, para participar no Programa de Capacitação de Recursos Humanos para América Latina. O objetivo do programa era formar lideranças, jovens lideranças, para atuar em comunidades e eu fui contemplado. A Fundação Orsa escolheu e eu fui. Fui lá em janeiro de 2004 e concluí o curso em dezembro de 2004 e foram seis meses estudando em sala de aula e seis meses estágio.



P – Aí você voltou para fazer o estágio aqui?



R – Aí eu vim fazer o estágio em agosto para cá e foi quando eu cheguei aqui que a Natura estava com um processo de contrato, de contrato do fundo, repassando os benefícios. Eles estavam com um pouco de dificuldade de fazer a comunidade entender, foi na época que eu, digo assim, que eu cheguei na época certa aqui de ajudar e… A gente avançou muito nos últimos quatro meses, agosto, setembro, outubro e novembro, a gente assinou o contrato do fundo, encerrou o contrato de fornecimento de óleo e a gente tem uma boa relação com a Natura.



P – E aí você participou dessa intermediação toda?



R – Foi. Eu era o que liderava essa parte de entender dos contratos, eu ia atrás procurar saber o que era (Cegem?), o que era acesso ao conhecimento tradicional, patrimônio genético, o que a lei dizia sobre isso. Porque a Natura vinha e falava, a gente ia procurar saber, né. Então eu fui atrás disso, eu tenho um monte de apostilas, eu entrei na internet, fui ver o que era (Cegem?). Aí eu fui entender o que era (Cegem?), o que a Natura estava querendo, eles tinham um prazo para cumprir coisas e a gente também tinha que ajudar eles a andar.



P – Então, vamos voltar lá para o seu curso. Você saiu daqui foi morar aonde aí?



R – Eu fui morar em Jacareí, eu cheguei lá, exatamente, no dia 30 de janeiro e começou o curso no dia 4, mas eu pensava que era um curso, assim, de ter pessoas que iam estudar para aprender técnicas, mas só que ao longo do curso…  



P – … Técnicas de manejo, do que?



R – Técnicas de, por exemplo, saber plantar, saber colher e tal, mas eu vi que lá teria jovens formados que estavam lá estudando, tinha engenheiro agrônomo, engenheiro florestal, mas eles tinham uma dificuldade que era desenvolver projetos. Eles faziam excelentes projetos, mas na hora de implantar os projetos não funcionavam, porque não tinham o chamado capital social, aquela parte de conversar com comunidade, aquela relação meio relações humanas de trabalhar com comunidade que é muito difícil. Então eu vi que eles estavam preparando pessoas para atuar em comunidade, não formar técnicos. Então ao longo do curso eu percebi que 70% do curso era voltado para a parte social e uns 30% para a parte técnica.



P – E você se decepcionou com o curso ou não?



R – Não! Pelo contrário, eu gostei muito porque a parte técnica que tinha lá quem gostava de horticultura, fruticultura, pecuária essas coisas entrava de cabeça e fazia e eu como o meu trabalho era outro, desenvolvimento sustentável, é trabalhar com recursos naturais, era trabalhar com extrativismo e tudo mais, eu estava lá mais todo o tempo estudando as coisas daqui, acompanhando o processo daqui, a cooperativa, como ela estava, eu estava estudando lá mas fazendo as coisas aqui… 



P – … Pensando...



R – … É, e quando chegasse a época do meu estágio eu disse que eu vinha para cá fazer o trabalho aqui, foi o que aconteceu. Quando foi em julho a maioria dos alunos, os outros alunos todos, ficaram lá fazendo estágio lá na região de São Paulo, aquele interior: Ribeirão Preto, Ribeirão Branco, toda aquela região fazendo estágio com que eles tinham afinidades. Então eu vim para cá atuar pela cooperativa e ajudar eles a conduzir esse processo que era um negócio onde eu aprendi muito. A gente hoje senta com o pessoal da Natura, com os advogados, a Fernanda, muito minha amiga advogada, a Indramara, que é a gerente dos projetos na região Norte… Nossa, quantas coisa a gente aprendeu nesses tempos aí, de vai e vem, de contrato não sei de que, quando a gente pensava que estava acabando tinha outra coisa que o (Cegem?) aparecia. Mas então foi muito legal, a gente aprendeu muita coisa que hoje é bom para as duas partes.



P – Foi bom que você pôde aplicar também.



R – É. Foi bom por isso também.



P – Agora você falou que seus colegas eram todos de fora.



R – Meus colegas era sim. Tinha do Paraguai, tinha cinco alunos do Paraguai, tinha dois do Peru, tinha duas bolivianas, tinha dois colombianos, aí tinha nove cearenses e tinha dois paraenses. Era uma turma bem dinâmica, culturas, coisas que eu aprendi sobre o Paraguai, sobre o Peru e tal. Hoje quando eu estou falando por aí eu falo do Peru, do Paraguai e cara: “Pô, como é que tu sabe das coisas lá?” Mas eu convivi seis meses com pessoas de lá, meus melhores amigos eram do Paraguai, então, por exemplo, a questão da soja que eu cito sempre o Paraguai como um exemplo ruim, porque eles sempre me falavam que a soja era a desgraça do Paraguai, gerando muito emprego a pessoas que não era de lá. Então, a gente aprendeu, é rico o curso por causa disso, a diversidade de cultura que tem e você tem uma noção de tudo o que acontece na América Latina inteira. Hoje eu chego e falo com confiança das coisas do Peru, porque eu vi e vivi lá com pessoas de lá, então é um negócio muito legal isso.



P – Interessante! Qual que foi a diferença, foi a primeira vez que você saiu aqui da comunidade, você saiu de Monte Dourado e você foi para uma cidade muito longe?



R – Não, eu já tinha feito outras viagem, eu tinha andado muito para Macapá e já tinha ido para Brasília também antes.



P – Mas nunca tinha chegado a morar?



R – Mas morar não, passei uma semana só em Brasília, que eu fui participar de um encontro lá do Conselho Nacional dos Seringueiros, mas morar, assim, em outra cidade longe não, nem Macapá eu não tinha ficado tanto tempo.



P – E o que você estranhou mais lá em Jacareí?



R – Senti muita saudade da minha família, senti saudade do rio aqui, de tomar banho e eu ficava agoniado lá. Minha irmãzinha quando eu falava com ela no telefone, eu chorava.



P – Ah!



R – Com a Sabrina, ela perguntava quando eu vinha eu dizia: “Ah, não sei quando eu vou.” Aí tinha dia que eu ficava muito triste, mas tinha dia que não, que a gente brincava procurava brincar mesmo para… Jogar vôlei, dançar com as meninas, que gostavam de dançar. Então, nessas horas que eu estava querendo ficar triste eu arrumava alguma coisa engraçada para fazer e eu sempre estava brincando com os meninos, eu gosto muito de brincar, eu sempre inventava alguma coisa.



P – E o curso ele focava na formação de liderança.



R – Aham!



P – E no desenvolvimento sustentável?



R – É, tinha essa ideia de falar sobre o desenvolvimento sustentável, de mostrar que é possível fazer as coisas. Lá era difícil falar sobre o desenvolvimento sustentável, que só era eu que falava, né. Outras pessoas não tinha muito conhecimento, que não tinha quase ninguém da Amazônia lá, tinha só três alunos da região Norte inteira, então só tinha o Amapá e o Pará representado, era a segunda vez que ia um aluno do Pará. Tinha muita gente do Ceará e tudo mais, mas só que eles já trabalham com aquela ideia da agricultura sustentável, que é uma coisa parecida. Eles usam adubação orgânica, usam o pirolenhoso, que é feito de madeira, usam não sei o que mais. Eles têm toda uma técnica lá para reduzir ao máximo o uso de fungicida, de produtos químicos em geral, eles também já trabalham isso, esse negócio de sustentável, de fazer as coisa mais assim.



P – Para você o que é o desenvolvimento sustentável?



R – Olha…  



P – … Para você, assim?



R – Para mim, eu acho que desenvolvimento sustentável é o que nós vivemos aqui, porque a gente utiliza os recursos naturais de maneira sustentável, muitos estudos vieram aqui e falaram o que nós fazemos é sustentável, é tirar castanha, é manter sempre aquilo. Porque se você derruba uma floresta, tira, já não é mais sustentável, porque aquela floresta não vai voltar como ela era antes, agora se você tira castanha todos os anos, todos os anos vai dar castanha do mesmo jeito, você não tirando de maneira… Que a castanha varia, mas é muito pouco, o que nós tiramos aqui é menos de 1% do potencial da reserva, então o que nós vivemos é sustentável. E eu acho uma definição boa de desenvolvimento sustentável é a correta utilização dos recursos naturais, da fauna, da flora, como turismo. Você pode usar desenvolvimento sustentável para tudo, para explorar o turismo, tem que ter todo os cuidados, né, mas eu acho que de uma maneira geral é a correta utilização dos recursos naturais.



P – Aqui é uma reserva, então.



R – É uma reserva com 806 mil hectares de terra.



P – Como é que chama a reserva?



R – Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru.



P – E quem que pode morar nessa reserva?



R – Bom, desde o ano da criação dela, o ano de 1997, ficou que só quem morava aqui que tinha direito de usufruto dos produtos, dos castanhais que tem aí dentro, então só esta comunidade que tem dentro dessa reserva, só nós que podemos utilizar o recurso de lá e nossos parentes, se vim para cá trabalhar.



P – Familiares. Por exemplo, pessoas de fora não podem querer vim morar aqui… 



R – … Não…



P – … Para fazer esse trabalho?



R – Não. É complicado, mas a gente não quer muito. Sempre vem os parentes e na época de castanha a gente sempre contrata gente, mão de obra fora, da cidade, porque, às vezes, dificulta muito só para a gente tirar a castanha, então a gente sempre contrata mão de obra de fora.



P – Oh, Edmar, desde quando, qual a tua lembrança mais antiga que você foi fazer uma coleta de castanha, você tem lembrança disso?



R – Eu lembro, foi eu acho em 1994 ou foi 1995, eu era pequeno do tamanho daquele _____, eu tinha uns 7 anos eu acho, não, eu tinha mais, eu tinha uns 11 anos e foi a primeira vez que eu fui com o papai para o mato coletar castanha. A gente encontrou um bando de queixada que colocou a gente para subir, nós “passou” quase a metade do dia trepado num pau esperando os queixada ir embora.



P – Foi perigoso?



R – Era que eles queriam atacar a gente, os queixados, então a gente correu, eu e meu irmão a gente subiu na árvore ficou lá em cima e de lá nós “veio” para cá. Eu fui outras vezes, mas só no período de férias, eu ia lá com meu pai ajudava nas férias e tinha que volta sempre que tinha que estar estudando.



P – Então, me conta como é que é? Quando começa a colheita, sai os homens da comunidade? Conta como é que é todo esse processo.



R – Bom… A gente começa a coletar mesmo castanha, assim, mais forte, a partir de março, de final de fevereiro e março, aí começa. Aí vão os homens, alguns que leva só a mulher, mas a maioria os homens que vão e coletam castanha. Quando chega no meio de maio, final de março e maio, tão descendo a castanha toda, então têm pessoas tirando, tem pessoas descendo a castanha, que demora muitos dias para trazer castanha, do castanhal mais longe dá quatro dias de viagem, três dias, então demora para escoar essa castanha do alto do rio Iratapuru, que é mais longe.



P – Então pega sai daqui de barco… 



R – … É …



P – … Os homens saem… 



R – É. Aí fomos sempre assim no mês de janeiro, na segunda quinzena de janeiro alguns já vão para preparar barracos, que eles chamam de tapiri, outros chamam de barracos mesmo, para armazenar a castanha e para ficar lá hospedado até terminar de coletar a castanha. Então, vão arrumar o barraco, limpar igarapés, fazer canoas se preciso, vão deixar tudo arrumado, tipo um aquecimentozinho, quando a castanha cai que aí só vão começar a tirar castanha quando cai o último ouriço, porque é muito perigoso coletar castanha quando está caindo um ouriço.



P – O que acontece?



R – Se despencar um ouriço de um quilo e meio de 50 metros de altura na cabeça de um, só outro.



P – (Risos). Edmar, explica para a gente, que eu sou de São Paulo, né, o que é um ouriço?



R – O ouriço é onde a castanha vem armazenada, ela vem numa embalagem que dá quase um centímetro de grossura e fica o ano todinho se formando para ficar aquele ouriço grande e lá vem em torno de 13, 14, 15 castanha, no máximo, dependendo do tamanho da castanha. Se for uma castanha grande tem uns que vem 6, 7, mais o ouriço grande. Tem que rachar com machado é muito duro para você poder desbandar e tirar só a castanha de dentro. Você racha ao meio e vira e tira a castanha de dentro.



P – E deixa o ouriço lá.



R – Deixa o ouriço ficar no mato. Hoje já tão comprando os ouriços nossos para fazer velas e estão querendo comprar para um festival que vai ter lá, festival Fashion Week de moda, em São Paulo.



P – Aham!



R – Então, eles estão querendo comprar ouriços a gente não sabe o tanto, imagino que seja muito.



P – (Risos). Tem que trazer então agora o ouriço.



R – É, tem que trazer, está sendo reaproveitado os ouriços. A castanha se você for utilizar não estraga nada, você usa a casca, você usa o pó que cai, não estraga nada, das podre você consegue fazer sabão, tirar óleo para fazer sabão, então na castanha você não perde nada.



P – Jóia! E me fala uma coisa, como que começou a cooperativa?



R – Bom, a cooperativa começou em 1992 e os primeiros apoios institucionais que a gente fala foram da prefeitura, auxiliou a gente na construção de barracões e a gente começou a produzir farinha de castanha, aquela castanha ralada, a gente torrava no forno comum de torrar farinhas, torrava e vendia. Aí tem uma feira em 1992, a gente começou a vender produtos derivados da castanha, vendia doce, biscoito, paçoca, farinha e quando foi meados de 1994, aí começa com o governo Capi, tiveram a ideia de fazer biscoito de castanha, então a gente começou a fazer o biscoito artesanal. Aqueles barracões ali, que a gente estava falando que foi aquela estrutura física que a prefeitura ajudou a construir, então a gente começou a vender o biscoito artesanal.



P – O Capi, o nome dele? E ele era o que?



R – Em 1994, ele veio aqui na época da campanha. O Capi foi assim, ele planejou umas ações para o estado, então quando foi em 1994, quando ele fazia a sua campanha, ele tinha tanta certeza que ia ganhar que ele foi em cada comunidade vendo as necessidades de cada uma. Então, aqui na região Sul ele viu que tinha um potencial muito grande de castanha, ele disse: “Nós vamos utilizar a castanha.” Ele era candidato a governador e disse quando ele fosse governador ele ia apoiar aquilo. Então, lá no Bailique era peixe, lá não sei aonde era açaí, então ele fez um programa que atingia todo o estado, que era PDSA, Programa de Desenvolvimento Sustentável para o Amapá, todo o Estado foi atingido por esse projeto dele, aqui a região Sul foi a castanha. E quando ele se elegeu governador, ele voltou e veio ajudar a gente a produzir o biscoito, com técnicos do Ipea, que é o Instituto de Pesquisa do Estado, a formular o biscoito. Ele comprava para distribuir na merenda, o biscoito era vendido, distribuído nas escolas, foi esse tipo de apoio que deu. E quando foi em 1997 foi que ele começaram a construir a fábrica e tinha potencial de 8 toneladas por mês de biscoito. Aí atacaram fogo na fábrica e a gente começou toda aquela história, foi que entrou a Natura pelo meio. Em 2002, a Natura começou os primeiros contatos. A cooperativa começou em 1992, de lá para cá dá para escrever um livro das coisas que aconteceram aí.



P – (Risos).



R – Teve os altos e baixos e mas é… 



P – O que você acha do mais importante da parceria com a Natura?



R – Eu acho que… 



P – … Bom, retomando a entrevista, eu ia perguntar para você qual a importância da parceria com a Natura para a comunidade?



R – Ah, sim, era. Eu estava falando da importância das mudanças que ocorreram depois que a Natura veio. Primeiro que nos auxiliou na reconstrução da fábrica que tinha incendiada, agora voltada totalmente para produzir óleo, que antigamente o produto principal era o biscoito, agora já é o óleo de castanha e a confiança que a gente tem na Natura. Nós, comunidade, devido a Natura estar tanto com a gente, todo o tempo, quase todo mês eles estavam aqui, acho que mês de dezembro só que eles não vieram, mas a gente foi lá na Natura, em São Paulo ,e essa confiança muito grande, assim, acho que é muito importante acima de tudo confiança entre a comunidade e a Natura.



P – E qual é o trabalho que a Natura faz aqui? Como que essa parceria se desenvolve?



R – Bom, a Natura além de ter o contrato de compra e venda que a gente chama, que é o contrato que a gente tem com a Cognis, que é uma empresa terceirizada que refina os produtos para a Natura, que tem o… A gente entrega o produto e recebe; e tem um outro benefício que é o fundo, que é um percentual do lucro deles que vem para cá em forma de fundo: meio por cento da receita líquida das venda dos produtos, cuja matéria prima sai da comunidade, então é mais um benefício para a comunidade, também.



P – E aí esse fundo permite para vocês estarem fazendo o que?



R – É, esse fundo, é qualquer coisa que vá beneficiar a comunidade, que não é cooperativa que nem o contrato comercial, que é a cooperativa e a Natura. O fundo já é bem mais aberto é para toda a comunidade, então tem que ser uma coisa que vá beneficiar toda a comunidade. Como em 2004 a gente deu prioridade a reconstrução da fábrica, a gente usou uma parte do dinheiro do fundo para reconstruir a fábrica, agora esse ano a gente vai utilizar para fazer outras coisas, a gente não fez o projeto ainda.



P – Você estava falando do fundo, como é que é usado o fundo?



R – Sim. Mas é como eu estava falando a comunidade agora os próximos recursos do fundo que vai ser acessado pela comunidade num projeto que a comunidade apresentar.



P – E você acha que esse projeto vai ser o que? O que você gostaria que fosse?



R – A gente está pensando ainda, aí o que a gente vai fazer, se vai fazer uma oficina para a comunidade. Para ver o que é prioridade, eles estam querendo, parece, uma creche, outros querem fazer, apresentar um projeto para comprar um carro para a comunidade, um caminhão. A gente está precisando fazer um centro cultural, não sei o que a gente vai fazer, uma quadra poliesportiva para os jovens, não sei.



P – Agora, você começou com trabalho de consciência ambiental, do lixo reciclável, do lixo, foi você que começou… 



R – … Ah, é… 



P – … Eu queria que você falasse… 



R – … A gente… 



P – .. Em pouquinho disso… 



R – … Começou a trabalhar com o pessoal, mas é um pouco complicado. 

Mas a gente foi lá em Laranjal, conseguimos empresas de reciclagem que ela compra o lixo que a gente faz aqui. Então, a gente remediou o lixão, fez uma limpeza na margem do rio e fez um trabalho nas casas de ir falando a importância da coleta seletiva. A gente está se organizado, fizeram uns lixões assim, mas só que não está bem, que é um trabalho de conscientização é um trabalho muito… Demora um pouco, não é rápido, não é assim que a gente vai conseguir que todo mundo colete o lixo seletivamente. Coleta seletiva é uma coisa difícil de fazer.



P – Mas vocês estão implantando aqui?



R – Ainda está… Tem dois jovens da comunidade aqui que está mais na frente, porque eu sempre saio, passei a responsabilidade para dois jovens, eles estam cuidando assim mais de perto dá coisa aqui.



P – Aí eles vão nas casas, como é que eles fazem?



R – É, eles vão nas casas falando, vendo como é que eles estam fazendo, se estão cuidando do lixo. E também a gente fez, além de fazer este trabalho assim do lixo, a gente também está a noite se reunindo, agora não que o final de ano e tal. A gente estava se reunindo para falar o que é RDS, o que é reserva extrativista, reserva de proteção integral, o que é Rebio, que é uma reserva biológica, o que é… Sabe? Explicar e ver quem é o seu vizinho, quem é que tem aqui a cima, o que o Parque Nacional das Montanhas do Tumucumaque, o que é… Então a gente estava falando isso, tanto é que esse ano, agora que nós estamos, estou querendo dar aulas não só disso, de outras coisas que eu aprendi lá em São Paulo, estou atrás de patrocínio, estou escrevendo um projeto para ver se eu consigo, é coisa pequena, não é… Para mim dar aulas das coisas de lá, que eu aprendi sobre meio ambiente, sobre ISO 14000, o que é ISO 14000, certificação, esse tipo de coisa.



P – Tá legal.



R – Eu estou pretendendo dar aula.



P – Me fala uma coisa, você esteve lá na Natura, na fábrica.



R – Sim.



P – Qual foi a primeira impressão sua?



R – Bom, quando eu cheguei lá, eu fui lá com o papai a primeira vez, então a gente foi com a Fernanda, foi visitar. Eu já imaginava que era um negócio bem organizado, só que lá é muito grande, é uma fábrica muito grande, a gente andou para caramba lá e a gente não conheceu ainda toda a fábrica, fui lá quatro vezes e ainda não conheci toda a fábrica, queria muito ter ido visitar o composto orgânico, mas toda vez que eu vou lá o tempo é curto.



P – Mas você viu onde é processado o óleo da castanha, onde a linha Ekos é fabricada?



R – Eles mostram lá onde é feita embalada e tal, mas não mostram muito assim, para a gente ver a parte de processamento do produto assim.



P – É tudo automatizado.



R – É, não dá para ver a olho nu assim.



P – Daqui que eles estão comprando da comunidade?



R – Eles estam comprando a castanha, óleo da castanha, copaíba, um óleo também e o breu, por enquanto.



P – Que é o breu? Breu branco?



R – É, o breu branco é a resina de breu branco que tem o perfume de breu branco, é o perfume do Brasil de breu branco, da Natura.



P – O que é que é, explica para gente?



R – O breu?



P – É, o que é que é o breu?



R – O breu é uma resina que através do processo natural todo ano as árvores estouram e ficam assim, tipo uma vela queimada, assim quando queima escorre uma vela, daquele mesmo jeitinho fica o breu. A gente só faz meter assim e tirar com (téssalo?), ou com a mão mesmo.



P – E aí vocês usam para alguma outra coisa aqui?



R – Aqui a gente usa para consertar barco, para fazer fogo mesmo, a gente usa muito para fazer fogo também e para consertar o barco. Derretido ele, as nossas canoas de arriar castanha é consertada tudo com breu.



P – E agora também é um perfume, é uma essência?



R – E agora é uma essência, um perfume.



P – (Risos). Você imaginava, Edmar, que essa parceria fosse dar tão certo, fosse ser tão bacana?



R – Olha!



P – Eu acho bacana, não sei se você acha, mas assim, parece que é uma parceria muito bacana.



R – É, quando a gente começou, depois que a gente foi vendo que era um grande parceiro, que estava com esforço de ajudar a gente, apesar de todas as dificuldades. Tinha hora que estava meio difícil as coisas, mas a gente ia, hoje a gente acha que está muito legal, a gente se dá super bem com o pessoal da Natura, com a Cognis. Teve um tempo em que a Cognis estava meio ausente, a gente reclamou, eles vieram, agora a gente se dá super bem com o pessoal da Cognis, o setor jurídico da Cognis, a gente se dá super bem com todo mundo agora. Então a gente está, acho que está, ambas as partes estão felizes, né. Engraçado que eu estava lembrando um dia desses com a Fernanda com o contrato do fundo, o fundo estava dando a palestra lá. A gente disse que o contrato foi bom porque a gente questionou, que não foi um contrato que eles chegaram aqui a gente assinou, a gente questionou e se a gente questionou era porque a gente estava entendendo a coisa. Então, a gente questionou algumas reivindicações da Natura, a Natura foi e aceitou as reivindicações da comunidade, alteraram o contrato e a gente assinou. Foi um dos contratos mais importantes que foram assinados e foi assinado com o pessoal entendendo, com alguém da comunidade dizendo: “Aqui eu sei do que eu estou falando.” Entendeu? Não era aquele negócio meio vago, eu entendia o contrato de ponta cabeça, eu dormia sonhando com o contrato (risos).



P – (Risos), Oh, Edmar, me fala uma coisa, você acha que a Natura é uma empresa verdadeiramente brasileira?



R – Ah, olha, a Natura acho que ela por ser uma empresa brasileira, eu acho que ela é, agora não, que já está com ações na bolsa, tem um pouco de gente de fora que é dono também. Mas eu acho que a Natura foi uma das empresas que tiveram a coragem de apostar, eu não sei, acho que o presidente deve ter isso nos ideais dele de querer apostar num negócio assim, porque é muito complicado a gente ver uma empresa hoje querendo apostar. Na época, isso aqui não tinha certeza de retorno, então ele foi lá e apostou e hoje é o exemplo de que outras empresas, outras comunidades fazem esse tipo de parceria, que é muito difícil também ter uma empresa de iniciativa privada querendo repartir benefício.



P – E valorizando aquilo que é brasileiro… 



R – … Valorizando aquilo que é brasileiro, falando lá fora com orgulho: “Isso aqui é lá do Brasil.” Perfume do Brasil, eu acho que é muito legal isso.



P – Você fica orgulhoso disso?



R – Eu fico.



P – Pensar que sai daqui.



R – É, que sai daqui, porque tem tanta coisa que vem de fora que o pessoal leva daqui, depois a gente compra e hoje tem gente investindo em pesquisa daqui. Bom, a gente está na região mais rica do planeta e a gente não dá valor a isso, depois que os caras leva, por exemplo, o cupuaçu lá para fora é que a gente vai querer brigar para querer o cupuaçu de volta, antes de ter pesquisado aqui que o cupuaçu é bom, que aquele importante que é divulgar o cupuaçu.



P – Edmir, uma última pergunta, é… 



R – Edmar.



P – Edmar (risos), e dessa coisa toda que, o que é beleza para você, a beleza feminina, a beleza masculina, quando você vê esses produtos que… Que você acha que isso contribui para a beleza da mulher, do homem?



R – Olha, eu não sei não o que realmente contribui, eu sei que as mulheres gostam muito. Eu uso o perfume, eu gosto muito dos perfumes, então o negócio de xampu, creme, essas coisinhas ganhei um monte de coisa, dei para a minha namorada, ela amou a massa da castanha, as mulheres gostam muito disso, mas eu acho que é legal também, porque é muito cheiroso, né.



P – Aham.



R – E ter alguém cheiroso do lado da gente é legal. A polpa da castanha é uma coisa assim… O xampu também faz bem para os cabelos. E beleza, assim, não sei.



P – A mulher brasileira é bonita?



R – A mulher brasileira é bonita!



P – Ou a mulher aqui da região é bonita, essas meninas que estão bonitas de mais.



R – É, as meninas são bonitas, você vê. Tem muitas meninas bonitas aí, morena assim, do cabelo liso, com aquele característica indígena, aquele jeitinho assim de povo amazônico mesmo, diferente. Recentemente eu também estive nos Estados Unidos, porra, a gente vê como é diferente as pessoas, o jeito de tratar. O Brasil é muito gostoso, o pessoal dá atenção para você é muito diferente, assim.



P – Só vou fazer uma última pergunta, prometo. É… Vendo assim, seu pai, que é um líder comunitário e você parece que está seguindo um caminho bem… 



R – … Parecido, né?



P – É, parece que está assim seguindo os passos, o que você acha da importância do trabalho do seu trabalho com o seu pai?



R – Bom, eu desde quando começou a cooperativa sempre estava nas reuniões a convite de meu pai mesmo e na época o Capiberibe, que era o governador, falava que eu ia ser o líder igual o meu pai. Então, eu estudei, estudei e disse que um dia eu ia ser e hoje eu estou tendo a oportunidade de estar aqui, eu já sou um líder aqui da comunidade, já represento a cooperativa, a comunidade lá fora, como você deve ter ouvido falar por aí. E o meu pai, eu já falei para ele, eu tenho orgulho de dizer que eu sou filho dele e já falei isso para ele um monte de vezes, porque eu estou seguindo o que ele está fazendo, então os cara fala: “Você é o filho do Arraiá.” Tem pessoas que olha assim: “Tu era aquele molequinho que eu conheci em 1994 hoje já está trabalhando e ajudando a tua comunidade.” E o que eu acho mais prazeroso é isso, poder estar aqui na minha comunidade, ajudando a minha comunidade, trabalhando pelo pessoal daqui, eu poderia estar em outro lugar, depois que eu me formei, esse curso, lá, a Fundação Orsa estava me chamando para ir trabalhar por lá, eu disse: “Não, vou trabalhar lá na minha comunidade que eu quero ir trabalhar lá, gosto de morar lá, gosto de tomar banho no rio de lá, então eu quero ir para lá, vou fazer a minha casa lá.” Então… 



P – E você está fazendo a sua casa… 



R – Estou fazendo, é … 



P – É um sonho seu?



R – É um sonho meu ter a minha casa no meu cantinho, guardadinho.



P – Você vai casar?



R – (Risos). Todo mundo pergunta isso quando eu falo que eu estou fazendo a minha casa (risos). Não, é que eu quero ter um lugar meu, simples, até vim para cá eu até acho difícil, casar agora, só que eu tenho muitos amigos eles sempre vem para cá, né.



P – Ah!



R – Aí eu quero ter um lugar para receber os meus amigos, para a gente fazer as nossas festinhas e brincar, ter o meu espaço, dizer que é meu e eu chamo quem eu quiser para vir aqui.



P – Ah, esta legal, Edmar, obrigada pela entrevista.



R – Nada.



P – Em nome da Natura e do Museu da Pessoa eu agradeço.



R – Nada.

 

--- FIM DA ENTREVISTA ---



Dúvidas

 

Cegem

Téssalo

 

 

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