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História

O inventor do mate com leite

História de: Assis Pereira de Albuquerque
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/06/2005

Sinopse

Infância no interior de Pernambuco. Ocupação dos pais como agricultores. O trabalho e as brincadeiras na infância. Migração para São Paulo e o trabalho de balconista na Casa do Mate. Produtos comercializados e fornecedores. O surgimento do mate com leite. Fundação da Rei do Mate. Lembranças da época do serviço militar. Perfil do consumidor. As franquias e a diversificação dos produtos comercializados. Formas de publicidade e fornecedores atuais. Casamentos, filhos e lazer. Trabalho como vendedor ambulante: "marreteiro" e os produtos comercializados. Vida religiosa. Propriedades e conservação do mate. Autorretrato. Sonhos. Importância do registro de seu depoimento.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO Meu nome é Assis Pereira de Albuquerque, nasci em 1941, em Afogados de Ingazeira, estado de Pernambuco. Meu pai se chama Ismael Pereira de Albuquerque e minha mãe, Maria do Carmo de Albuquerque. INFÂNCIA Eu nasci em Afogados de Ingazeira, uma cidade, mas me criei no sítio. A vida minha foi realmente uma vida cheia de trabalho, de luta, desde os sete anos que eu trabalho! Na agricultura e lidando com animais, gado, ovelhas, cabritos, tudo isso. Plantávamos, lá no sítio, algodão, mamona, milho e feijão. Eu ajudava meu pai com uma enxadinha. Ele não era dono do sítio, ele era... sitiante. Vamos dizer, ele tomava conta dessa fazenda. De quatro cabritos, eu tinha um: três era do dono da fazenda e um era meu. O gado era nessas condições: de oito, eu tinha um, sete era do dono e um era nosso, meu e de papai, que podíamos vender caso precisássemos comprar alguma outra coisa. O nosso, chamávamos de “tira sorte”. É gozado, foi a gente mesmo que inventou esse nome. No dia que eu comecei a ficar rapazinho eu peguei e falei com ele: "Olha, eu acho que era melhor nós fazermos o seguinte, fazer um tipo de uma sorte, aí, um tipo de um tira sorte pra, pra nós. Três cabritos para o senhor e um pra mim." Ele pensou e falou: "Tá bom, é melhor que eu pagar para vocês." Então ficou nisso aí. Não havia salário, era pra compensar. Papai não tinha um pagamento por aquilo que ele fazia. A minha infância foi bem difícil. Onde nós morávamos, não existia casa por perto. Divertimento era brincar com os animais. Eu era aquele garoto sem experiência de vida, criado em condições meio precárias, sem estudo. Lá eu tinha irmãos, mas todos mais jovens. Nós éramos em oito. Éramos, porque um já faleceu. Vizinhos não havia. Minha tarefa dentro de casa, como eu era o mais velho, era carregar a lenha para cozinhar, porque não existia fogão a gás, era tudo na base da lenha, da madeira, cortar madeira. Esse era a minha parte além de ajudar minha mãe, porque as duas irmãs que eu tinha eram novinhas, ainda. Não podiam ajudar minha mãe. Os outros irmãos, que eram mais velhos, já estavam aqui pro Sul. Estavam dois no Paraná e um aqui em São Paulo. MIGRAÇÃO PARA SÃO PAULO A minha vinda para São Paulo foi por causa da seca. Aí é que veio o problema maior. Quando em 1959 começou uma seca terrível, uma seca daquelas que o sulista já conhece, começaram a morrer os animais. Faltou pasto, faltava tudo. Aí eu conversei com meu pai, eu tinha mais três irmãos, duas irmãs e um irmão. Todos ali, para não se criarem analfabetos, o que fizemos? Papai disse o seguinte: "Vamos comprar uma casinha lá na cidade, eu fico só tomando conta da lavoura". E aí eu falei com papai: "E eu vou tentar a vida lá no Sul", porque aqui já tinha alguns irmãos meus. Tinha dois irmãos que já moravam aqui em São Paulo. Aí vendemos o restinho que tinha para não acabar com tudo, entregamos a fazenda pro dono dela e eu vim para São Paulo tentar a sorte. A minha viagem do Nordeste para São Paulo, por incrível que pareça, naquela época não existia asfalto, era tudo por terra, até o estado do Rio. Essa BR-116, que cruza até o Paraná naquela época era só barro e mais nada. Passei 14 dias na estrada em cima de um caminhão com uma carga de rede! E chegamos aqui no Brás. Aqui no Brás era onde descarregava os caminhões que vinham com aquelas cargas de rede. Nós reunimos um grupo de rapazes e viemos tocar a vida em São Paulo. Como eu já tinha um irmão aqui, dois irmãos aqui em São Paulo, aí eu vim tentar a sorte! Eu estava com 19 anos. A primeira vez que eu vim aqui eu era menor de idade. E vim acompanhado com a família porque não podia viajar sozinho. Esse meu irmão já estava aqui em São Paulo. Chegando em São Paulo, as coisas ficaram difíceis, porque eu era menor e além de tudo não tinha estudo. Aí era muito difícil, para mim, arrumar trabalho. Passei uns dois meses e retornei à minha cidade, para o convívio dos meus pais. Aí fiquei mais uns dois anos lá, quando em 1959 eu retornei a São Paulo. PRIMEIROS ANOS EM SÃO PAULO O meu primeiro trabalho em São Paulo foi o seguinte: no dia que eu cheguei, um irmão meu, que trabalhava na Casa do Mate, estava saindo dessa casa, e tinha uma vaga. E o ex-patrão dele pegou e me convidou, disse: "Quer ficar na vaga do teu irmão?" Eu falei: "Quero!" E daí por diante iniciei minha vida de trabalho. Lá eu fazia o chá mate. Comecei a aprender, não tem muito segredo. Ele me ensinou aquilo que era realmente necessário e eu comecei a fazer o mate. Também atendia e trabalhava no balcão. Essa Casa do Mate foi fundada em 1950 por Hermes Bueno de Morais, um senhor lá de Amparo e outros lá do Rio. Eram amigos e eles começaram. O Instituto Nacional do Mate, na época de Getúlio Vargas, ele que fornecia o mate para divulgação, e aí eles colocaram essa casa. Eles cobravam chá, o litro, para você tomar no balcão, então era pago. Mas se oferecia um pacotinho de mate, só um pacotinho se dava, para a pessoa levar pra casa, pra ela fazer, e a gente ensinava como fazer. Porque naquela época quase ninguém conhecia o mate, a não ser o chimarrão lá no Sul, porque o gaúcho, desde que o Rio Grande do Sul é Rio Grande do Sul, sempre toma o seu chimarrão. Mas o mate, ele realmente foi divulgado de 1950 pra cá. Antes, você comprava um pacotinho de mate numa farmácia, você comprava como se fosse remédio! Um chá comum se comprava na farmácia. Não tinha em mercado - apesar de que naquela época quase nem existia mercado também. Existiam uns mercadinhos, hoje é que, com toda essa evolução, qualquer coisa você encontra. Nesses mercados tinha arroz, feijão, farinha e outras coisinhas assim, mas naquela época, se comprava era nas feiras. As feiras livres, que até hoje ainda tem. Naquela época, diziam que o mate era meio calmante, quando na realidade ele não é tão calmante, ele é uma bebida gostosa, saudável, geladinho. Eles tomavam mais quente. Depois é que foi inventado pra tomar ele geladinho. E por ser gelado ele se tornou ser um refrigerante. Na Casa do Mate tinha o quente também, mas a força maior era o gelado. Lá eu fiquei 19 anos como empregado. REI DO MATE Tem um historinha interessante e muito agradável. Chegaram dois rapazes, que eram da minha cidade, e perguntaram para mim: "Assis, você não tem uma vitamina, uma coisa assim para matar a nossa fome? Nós realmente estamos com fome, estamos desempregados..." E eu respondi pra eles: "Olha rapaz, eu infelizmente só tenho chá. E mais nada. É só chá". Aí me veio em mente fazer uma vitamina para eles. Eu peguei uns trocados, pedi para eles irem ao lado, na Avenida São João, onde tinha uma padaria por nome de Radiação. Pedi para eles irem lá comprar uma latinha de leite Ninho de 200 gramas, e ao lado tinha uma casa de fruta. Eles compraram lá também umas maçãs, bananas, e me trouxeram. Fizemos uma vitamina. O líquido, eu coloquei o chá. Também tomei e achei muito gostoso! Eles tomaram um copo, tomaram mais meio copo, e todo o mundo ficou satisfeito. Pegamos, daquele restinho daquela lata, da latinha de leite que ficou, colocamos um cartazinho na parede: 'Temos mate com leite.' O pessoal chegava, olhava: "Mate com leite? Mas isso presta?" Mas assim mesmo a gente fazia um pouquinho para o cara experimentar, "Puxa, é gostoso, muito bom!" e daí pra frente começou. Em 1979, houve uma mudança na Casa do Mate. Eu, nessa época, era gerente da casa. Quando chegou a década de 1980 começou a surgir na minha mente que eu tinha capacidade. Porque o dono saía de férias e eu tomava conta, eu comprava, eu fazia de tudo, quando ele chegava de férias seu dinheirinho estava lá. E eu coloquei na minha mente: "Meu Deus, por que eu vou ficar a minha vida toda de empregado?" E ele me prometia uma sociedade, só que essa sociedade nunca chegava. Aí eu me propus a procurar um sócio, e o pior é que eu não tinha dinheiro. Mas eu tinha, vamos dizer, o know-how do trabalho. Eu falei: "Eu acho que com esse know-how de trabalho eu posso conseguir alguém que possa me dar uma mão." Eu procurei e, para minha surpresa, encontrei quatro pessoas que me aceitaram. Inclusive pessoas de quem eu era vizinho. A nossa primeira loja do Rei do Mate, quando foi fundada, era vizinha da Casa do Mate. Este, que hoje é meu sócio, sr. Kalil, eu conversei com ele se ele queria, naquela casa, montar uma casa de mate. Ele achou meio chato porque ele também era amigo do dono da Casa do Mate. Aí ele pegou e falou pra mim: "E se gente convidar ele? Eu topo ir você como sócio, entramos nós quatro como sócios, e a sua parte você toca através do seu trabalho. Eu entro com o dinheiro e você com o trabalho." "Tudo bem!" Foram convidá-lo, só que ele começou enrolando, embrulhando e não dava uma decisão. Aí eu chamei ele e falei: "Bom, o senhor vai entrar de sociedade com a gente? " "Assis, tenha paciência, depois nós montamos uma outra casa." Aí ficou naquilo e eu me decidi e falei para eles: "Olha, ele não quer, quer topar, vamos mudar a casa." Fizemos, conversamos, sentamos, fomos conversar sobre a sociedade. Ele topou a sociedade, só que eu ia trabalhar, eles me entregavam a casa, e chegava no fim do mês eu passava toda a parte da documentação, a parte burocrática para eles. Graças a Deus tivemos sorte, começamos vendendo bem, trabalhando bem. Aí surgiu outra oportunidade, outra casa, com esse mesmo senhor, sr. Kalil. Em 1986 entrou um filho dele. Aí entrou com idéias novas, fez uma revolução em tudo e hoje, ao todo, são 15 casas, entre franquias e casas próprias. ORIGEM DO NOME – REI DO MATE O meu irmão, que hoje é falecido, pensou... "Assis, vamos colocar Tiara do Mate". Falei: "Tiara do mate? O que é que significa isso?" Ele falou: "Tiara é o que as rainhas usavam, é o tipo duma coroa na cabeça." Eu falei: "Mas fica meio esquisito. E rei? Em vez de rainha, rei, Rei do Mate!" Aí surgiu o Rei do Mate. Aí fomos abrir a firma, deu para se registrar o nome como Rei do Mate e hoje é patenteado também. Quando abrimos, o produto mais vendido era o mate com leite. Até hoje, esse é o campeão de vendas. O quente sai, mas é bem menos. O puro também sai, porque tem aqueles que gostam de saborear o mate, só o mate. Mas a maioria prefere com leite. Às vezes a pessoa não está disposta a almoçar, então ela toma, porque o mate com leite é uma vitamina. Você tomando um mate com leite ao meio-dia, que é a hora que você vai querer almoçar, consegue ir até às 18h tranqUilamente sem precisar almoçar e vai direto depois pra casa jantar e faz uma refeição só, é um alimento. SERVIÇO MILITAR Eu tinha a maior vontade de fazer o serviço militar. Para mim, era uma coisa que ia abrir a minha mente. Mas ao chegar lá, a coisa foi diferente. Apesar de que lá eu encontrei muitas coisas que abriram também a minha mente, que me esclareceram. Eu não tinha aquele conhecimento por não ter estudo. Inclusive, quando eu cheguei lá, fui para a escola, no próprio quartel. Tinha horário de escola, apesar de que para mim era difícil estudar, não sei o porquê, mas encontrei uma grande barreira, uma grande dificuldade na parte do estudo. Mas devagarinho aprendi alguma coisa. E dentro do quartel, eu comecei sendo ordenança de um coronel. Na Hípica de Santo Amaro eu treinava a cavalo. Como eu já vinha do sítio, já conhecia cavalos e eu treinava para hipismo, para saltar. Inclusive, fui convidado para ir ao Japão com ele, pra fazer um torneio, mas na época eu já estava prestes a dar baixa. Ele pelejou comigo para me engajar, queria que eu fizesse um cursinho de cabo e ficasse no quartel. Mas eu fiquei muito indeciso porque eu já trabalhava na Casa do Mate e o meu ex-patrão, que era o seu Hermes, para mim foi um pai, um amigo. Me educou, me esclareceu, me ajudou muito! Foi uma pessoa que me deu um entusiasmo na vida! Então ele pediu para mim que retornasse. E eu fiquei naquela dúvida, não sabia onde é que eu ficava, se eu ficava no quartel ou se voltava para a Casa do Mate, até que eu decidi voltar para a Casa do Mate. Eu fiquei no quartel cerca de 11 meses, quase um ano. Vida de militar é um pouco privada. Você tem que ter um certo respeito, tem que obedecer às ordens. Para mim não houve dificuldade porque eu era um caboclo da roça, disposto a tudo. E na época em que eu servi, o Jânio Quadros tinha renunciado. Então estava quase como pé de guerra, foi aquela confusão toda, o Jânio Quadros tinha renunciado e o João Goulart tinha retornado ao poder. Então ficou aquele clima meio difícil. FRANQUIAS A Casa do Mate abria às 8 horas e ia até às 23. Nós trabalhávamos em dois turnos de pessoas, um trabalhava até às 16 horas e o outro até fechar. No Rei do Mate a abertura também é às 8 horas, o pico começa ao meio-dia e até umas 20 horas sempre tem um bom movimento. Onde eu estou não servimos lanches, mas em outras casas que nós temos, tem três casas na Praça da Sé, lá tem lanche também. Tem uma na Barão de Itapetininga, essa também é só o mate. Na Dom José de Barros também, além de umas polpas de frutas. Das quinze casas, 4 são franquedas e 11 pertencem ao grupo. Eu sou sócio só de seis casas. Porque eu dei uma abertura para aqueles que realmente queriam deslanchar mais. Como eu me senti muito acarretado de trabalho, eu abri o leque e deixei que os outros que quisessem montar outras casas pudessem montá-las. Aquele que quiser participar, participa, o que não quiser, não participa. Cada loja é individual, pertencente ao mesmo grupo. Quem cuidas dessas seis, é o Antônio Carlos, que é filho do sr. Kalil. Ele fez com que dentro de três anos ela tivesse essa explosão. Porque antes a gente tinha, quando ele entrou, só tinha duas casas. E dentro de três anos passou pra esse montante todo. Ele é um rapaz bem preparado, é advogado, é formado em economia e entrou com muita força de vontade, muita vontade de trabalhar! Antes, nós só tínhamos o mate, o mate com leite e uma polpa só, que era a polpa de cacau. Aí depois ele começou a criar. Começou também essa invasão do Norte, das polpas de frutas tropicais de lá, que vieram para o Sul. Aí começamos a adaptar todas. E ele ainda tem outras idéias que vai colocar. A propaganda maior que tivemos foi através de jornal. São matérias que não foram nem pagas nem nada, as pessoas que se interessaram em divulgar cada vez mais o mate. Porque o mate é uma bebida nossa e saudável. A abertura de uma franquia fica em torno de dez mil reais, para usar o nome da casa. Mas para montar uma casa dessas, gasta-se em torno de 30 mil reais. Numa franquia, você entrega a casa pronta, completa! Treinamento de funcionário, como preparar, nós fornecemos tudo, inclusive o mate. Ele vem de Santa Catarina, é Delbi Machado, Mate Ouro. Antes era o Mate Munhoz, do Paraná. E antes ainda, no início, na época do Getúlio, era do Rio Grande do Sul, era o Instituto do Mate que fornecia. Com o mate é o seguinte: fazendo o chá sem colocar o açúcar, ele dura de 15 a 30 dias e não tem problema. Se você colocar o açúcar, de um dia pra outro, se ele não estiver dentro do congelador, ou dentro da geladeira, ele fermenta e estraga. O mate, segundo pesquisas que já fizeram, tem muitas proteínas, ele é muito rico em muitas coisas! Essas qualidades ainda não foram divulgadas. SÃO PAULO ANTIGA Quando eu cheguei em São Paulo, fui morar na rua Paim, ali ao lado do Cemitério da Consolação. Depois eu me mudei muitas vezes, mas só no Centro mesmo. Atualmente eu moro em São Miguel Paulista, estou lá junto com meus conterrâneos. Hoje, a cidade de São Paulo está completamente diferente! Eu acho que desde a época de Jesus sempre existiu o marreteiro, desde que o mundo é mundo, sempre existiu. Essa invasão que hoje existe, na época em que eu trabalhava na rua, não existia. Você tinha uma ganho a mais e era perseguido, mas não como hoje! Porque hoje a coisa já se tornou um comércio clandestino, a cidade está invadida por isso aí! A coisa era uma possibilidade de ganhar algo a mais, hoje é realmente um comércio. Naquela época as coisas eram completamente diferentes. A São João era frequentada por todas as classes. Uma das personalidades de quem eu me recordo muito foi o finado Adhemar de Barros, que chegou a tomar mate lá, na Casa do Mate. Jânio Quadros também já passou lá em frente. Era uma casinha pequena frequentada por pessoas de todas as classes além de amigos, advogados, militares. Esse meu ex-patrão, sr. Hermes, tinha servido na base aérea da aeronáutica, então ele tinha um contato muito grande com os militares. Era quase um ponto de encontro daquela turminha. Um lugar muito bacana. CASAMENTO E FAMÍLIA Infelizmente no meu primeiro casamento tivemos que cada um tomar o seu destino. Conheci minha primeira esposa em Afogados de Ingazeira, Pernambuco, lá na minha própria cidade. Eu estava com 17 anos, mais ou menos, e estava saindo da igreja, por ser muito católico, foi numa praça que nós nos encontramos e nos conhecemos. Todos os rapazes e moças se encontram na pracinha, pra ficar ali batendo papo. Com ela, tenho três meninas que, inclusive, vivem comigo. Hoje elas só estudam e todas estão pro lado da medicina, não sei realmente se vão seguir com o mate. Uma quer ser médica, a outra quer ser dentista. Depende delas. Eu gostaria que elas trabalhassem comigo. E tem o meu caçula, do segundo casamento, que está com três aninhos, quem sabe se mais tarde esse não pode assumir o lugar do seu pai, porque daqui pra frente só Deus sabe. Quanto à minha atual mulher, parece que é a força do destino que fez com que a gente se encontrasse. Um amigo meu iria se casar e me chamou para ser padrinho de casamento. Na época eu estava separado, não tinha a companheira para realmente ser o casal. Eu falei: "Olha, só que eu estou sem namorada, não tenho ninguém, como é que a gente faz?" Ele falou: "Gozado, a prima da minha noiva é uma moça muito bacana, quem sabe? Eu vou convidá-la para ser madrinha junto com você." Aí eu falei: "Tudo bem." Só que gente não se conhecia nem nada, nos conhecemos por sermos padrinhos desse meu amigo e começamos gostar um do outro, e daí nasceu o namoro e depois veio o casamento. Fazia quase seis anos que eu estava separado. Depois que conheci minha primeira esposa, dez anos que se passaram até que nós encontramos aqui em São Paulo e tivemos relações. Ela engravidou e eu não queria deixar alguém no mundo sem pai e casei-me com ela. LAZER Minha vida foi um pouco difícil porque a pessoa quando trabalha de empregado, o salário dela é pequeno, como todos sabemos. Então, nas minhas horas de lazer eu ainda ia marretar, como se diz, pegava um bilhetinho, pegava confecções e ia vender, essa foi minha vida de lazer. Por quê? Nessa época eu era solteiro, mas eu tinha três irmãos que estavam na escola e eu queria que eles estudassem. Eu não tive a oportunidade de estudar, mas eu queria que eles estudassem. Aí me esforcei para isso. Não chegaram àquele ponto de se formarem, mas uma se formou como professora, outra como pedagoga e assim por diante. Cada um teve uma base. Hoje, graças a Deus, já estou tendo um pouco desse lazer. Hoje eu estou usufruindo um pouco daquilo que eu plantei. Foi um plantio difícil, uma luta difícil, mas hoje da para eu ter um lazer, já da para passear um pouquinho. Eu gosto muito de praia, de piscina. Eu gosto mais de ir pro litoral, tenho uma casinha lá em Peruíbe. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL Eu trabalhei com bilhete de loteria, eu trabalhei com confecção, eram roupas femininas. Eu vendia. Era difícil, porque vida de marreteiro depende muito de cada prefeito. Tem uns que são mais liberais, tem outros que são mais difíceis, então sempre era aquele corre-corre. Mas dali eu sempre ganhava alguma coisa e nunca deixei de trabalhar registrado, inclusive, estou para me aposentar. Com as confecções eu trabalhei de 1964 até 1975, mais ou menos. Eu vendia na Praça da República, no Viaduto do Chá, Santa Ifigênia, nesses locais. E depois que eu casei, a vida continuava difícil porque eu não tinha uma casa para morar. E o senhor que foi o meu padrinho de casamento me ofereceu uma casa pra morar e eu cuidar da casa deles. E aí eu trabalhei como caseiro. Trabalhava no meu trabalho e trabalhava como caseiro, pra poder conseguir dinheiro para comprar uma casinha para nós. A vida foi difícil. Os bilhetes de loteria eu comprava diretamente lá na Caixa Econômica, lá na Praça da Sé, e as roupas eu comprava na José Paulino, no Parque Dom Pedro, aí nos atacadistas, por conta própria. Minha freguesia era o público da rua mesmo. Todos que passavam, como é até hoje. RELIGIÃO Minha família tinha por obrigação toda noite rezar um terço. Isso quando nós estávamos no sítio. E eu continuei por muitos anos fazendo esse tipo de oração. Ao chegar a São Paulo eu continuei, só que, de repente, surgiram idéias novas na minha mente. Eu procurei sentir algo mais. Procurar o porquê da vida, o que é que significa a vida, o que é a vida após a morte, será que era simplesmente só aquilo que eu aprendi na infância? Aí me interessei pela doutrina espírita, hoje eu sou espírita. Não desmerecendo nenhuma das religiões, mas o espiritismo, para mim, foi uma nova ciência que inclusive abriu a minha mente para as coisa do mundo espiritual. Hoje a minha visão é outra sobre a imortalidade. Eu acredito piamente que nós não estamos aqui pela primeira vez, que existe um retorno para todos nós e que através dessa lapidação que a gente vai adquirindo é que a gente vai realmente conhecendo a si mesmo. O porquê de tanto sacrifício, o porquê de tanta luta, nada é por um acaso. Toda a minha infância, toda a minha batalha de viver, hoje eu sei qual foi o significado e o porquê. E continuo batalhando, lutando pela minha reforma íntima. Hoje, através dos conhecimentos que eu tenho, por tudo o que eu possuo eu agradeço a esses dois rapazes a quem eu ajudei a matar a fome, eles vieram trazer uma luz para mim! Então a gente nunca deve perder a oportunidade de fazer algo de bom, quando tivermos a oportunidade de fazer algo de bom, que façamos, sem olhar a quem estamos fazendo. Eu creio em tudo isso. Eu freqUento o Centro Espírita Bezerra de Menezes. Mas vou em qualquer igreja, não sou contra religião, não. Porque o tronco é um só. SONHOS É claro que cada dia da vida pra gente é um verdadeiro aprendizado. Quanto mais se vive, mais se tem que aprender. Nem os professores dos professores chegam ao teto, todos nós somos verdadeiros aprendizes. No campo, talvez eu possa passar alguma coisa para aqueles que queiram batalhar e lutar. Já estou com 53 anos, então eu acho que eu tenho que usufruir um pouquinho do meu sacrifício. Mas continuo trabalhando. A gente tem na mente: "Ah, se eu tivesse feito isso quando eu tinha certa idade, hoje seria bem diferente". É claro, o que mais me faz falta, e talvez a única coisa que me da inveja de alguém - eu não tenho inveja de nada -, mas talvez a única coisa que ainda prende lá dentro de mim, é de não ter estudado. Me fez bastante falta, para que eu pudesse caminhar junto com o progresso. Porque hoje, no mundo em que vivemos, para aquele que não tem estudo, ele se sente meio brecado. É difícil. Então nessa parte eu me sinto ainda meio oprimido, meio inseguro, preciso analisar bem aonde eu estou me colocando. O maior sonho da minha vida era o sonho de pobre, de adquirir a sua casinha para morar. Esse realmente foi um dos sonhos que no dia que eu consegui ter a minha casinha, ter o meu teto para morar, eu chorei de alegria, porque aquilo parece que preencheu um vazio que tinha dentro de mim. Porque hoje, principalmente hoje, com a dificuldade que nós nos encontramos para pagar aluguel, não é fácil! Hoje, graças a Deus, eu tenho mais de uma, mas naquela época foi o maior sonho da minha vida. Agora, a única coisa que sonho realizar minha reforma íntima. REFLEXÕES SOBRE A ENTREVISTA Eu me senti contando algo que talvez estivesse dentro de mim e que eu gostaria de um dia pôr para fora. Talvez isso me fez sentir contente em alguém poder me ouvir. Talvez eu não saiba me expressar por falta de conhecimento, de estudo, porque essa parte faz muita falta para alguém. Talvez mesmo com o pouco conhecimento que tenho eu possa dar alguma coisa a alguém! Simplesmente isso. Muito obrigado.

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