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História

O inventor da bicicleta foi o Junqueira

História de: Arthur Visconti
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/12/2013

Sinopse

Arthur Visconti relembra em seu depoimento as histórias do Palmeiras, ainda na época do Palestra Itália. Filho de italianos, recorda alguns jogos e antigos jogadores que envergaram a camisa palmeirense. Conta sobre a mudança da mascote do time, trocando o periquito pelo porco depois de uma provocação do jogador Viola, na ocasião jogador do Corinthians. 

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História completa

Eu nasci em São Paulo em 1918. Meus pais eram Marcos Visconti e Josefina Sapia Visconti. Meu pai era um vendedor ambulante e minha mãe fazia costura para lojas, os dois calabreses, da Itália. Eles vieram fazer vida aqui. E formaram a família, uma bela família, dez filhos. Um só morreu novo, os nove vingaram. Eu sou o penúltimo dos filhos. Eu morei no Bixiga, morei no centro da cidade, morei no Ipiranga, casado já. E agora moro em Moema.

Eu só tinha um irmão que era são-paulino, o resto todos palmeirenses. A gente acompanhava os jogos pelo rádio. Naquele tempo não existia televisão. Quando era pequeno, não frequentava jogos. Mesmo porque naquele tempo havia muito cuidado com os filhos, não é como agora que ele vai para rua e tal. A gente vivia muito em casa. Isso aí começou quando eu já era mais ou menos adulto. Eu gostava do time do Palmeiras. Eu me lembro sempre do Romeu, que era o Romeu Peliciari que era o centroavente, tinha jeito característico de atuar, ele ia passar uma bola, ficava meio inclinado e tal, jogava com um gorrinho, era um belo jogador. Tinha lá aqueles jogadores antigos, de alguns eu me lembro. Me lembro do Romeu, o Edu, Leivinha, César, o Gabardo, Imparato, tinha muitos.

Eu preferia assistir em casa porque estava em casa com minha mãe, meu pai. Eu fui o último a casar, então eu ouvia pelo rádio. Frequentei relativamente pouco o campo de futebol, fui várias vezes. Houve depois uma fase que eu ia mais, porque tinha companheiros de trabalho que iam também. Ultimamente não vou mais. A gente ia de bonde, porque eu ia lá no campo do Palmeiras na Água Branca. Ia geralmente com dois irmãos que também frequentavam, íamos assistir lá.

O campo do Palmeiras tinha o apelido que era o Jardim Suspenso porque ele ficava mais alto. Então lá que eu ia assistir, ficava geralmente na arquibancada. Eu tinha um irmão que frequentava muito a sede do Palmeiras, então ia com ele lá. Tinha mais irmãos chegados que ia junto, nunca ia sozinho. Ia de bonde, num bondinho que nos levava lá no Parque Antártica. Mais recentemente ia com o companheiro da empresa que eu trabalhava, palmeirense também. O estádio tinha cadeiras e a arquibancada era de cimento. Às vezes quando tinha cadeira, mas muitas vezes no cimento levava jornal até para por para sentar.

Eu ficava lá torcendo, gritando quando fazia um gol, reclamando quando via uma jogada assim, assado. Vi várias coisas lá. Tinha um ponta esquerda chamado Imparato, ele se machucou, começou a sair sangue, tiraram ele, mas tiraram à força, ele não queria sair do campo, queria ficar. Mas tiraram ele à força para sair, era assim, tudo por amor! E naquele tempo não tinha grandes ganhos para o jogador, ganhava uma pouca coisa. E jogadores célebres não tinham uma vida, nada. Naquele tempo era duro mesmo para o jogador, não ficava rico nem nada, não havia substituição, não ficava reserva. Se o jogador se machucasse o time ficava com essa falta. Então, era duro mesmo. E dificilmente o jogador trocava de clube, porque ele era do Palmeiras, era do Palmeiras, era do Corinthians, era do Corinthians, ia até o fim. O clube era dono do jogador, não é como hoje. Tinha jogador que quando parava, saía já com muitos anos depois ele morria praticamente na miséria. Tinha gente que era ajudado, porque estava passando fome e tal. Jogador célebre. Tinha, porque não tinha lá ganhos enormes, nada disso, como é hoje.

A bola hoje é toda enfeitada, naquela época era de couro, cor cinza. Agora não, virou uma coisa gozada, tem quatro, cinco cores. Ainda estava observando isso outro dia, engraçado. Era uma cor só. O mascote do Palmeiras era o periquito. O porco, um jogador imitou, acabou um dia imitando um porco. E até foi um jogador, parece que o Viola, que depois foi jogar no Palmeiras. Ele marcou porco lá. Então, como chamava de porco, a torcida resolveu acolher para acabar com a gozação, a própria torcida dizia que era: “Porco, porco”. Ainda hoje fazem isso. Mas antes era o periquito. O emblema do Palmeiras era periquito, acabou virando porco. E o Viola se arrastou um dia lá imitando o porco. E depois de uns tempos o Palmeiras contratou ele para jogar no Palmeiras.

Eu fiquei muito aborrecido quando o time mudou de nome de Palestra Itália para Palmeiras, foi uma mudança imposta de uma maneira muito baixa, porque o Palmeiras ficou numa situação inferior, porque era o time dos italianos, e a Itália estava lutando junto com a Alemanha. Aproveitaram para que o Palmeiras mudasse de nome. Então, o Palmeiras disse, vamos tirar o Itália, fica Palestra. “Não, senhor. Nem Palestra”. Era uma perseguição em cima do Palmeiras, era uma pequena inveja sobre o trabalho do Palmeiras. Então, mudou para Palmeiras. Eu achava que depois que acabou a guerra tudo, podia mudar de novo, podia tirar o Itália, mas ficou Palmeiras. Foi imposto. Foi uma pressão que fizeram.

Eu já falei do caso do Imparato que se machucou, tiraram ele a força do campo, e ele: “Não, quero ficar”. Teve jogadores excepcionais, inclusive alguns estrangeiros. O Palmeiras ele não usava jogador de cor, sabe? Não contratava. E depois acabou com isso, o Og Moreira foi o primeiro de cor, belo jogador. Então, daí para frente como, por exemplo, o Corinthians não contratava jogador estrangeiro, só brasileiro. Os outros times contratavam, o Corinthians não, depois resolveram também. São coisas que não tem nada, preto e branco é tudo. E quantos jogadores de cor o Palmeiras teve e tem e que fizeram bonito. É isso aí.

A maior rivalidade é com o São Paulo. São Paulo trabalhou muito contra o Palmeiras. Esse negócio do nome do Palmeiras, tudo, trabalhou muito. Eu não gosto do São Paulo. Não tenho nada contra o Corinthians, não tenho nada contra o Santos, eu tenho contra o São Paulo, que trabalhou muito em prejuízo do Palmeiras.

Quando o Palmeiras mudou de nome, o próximo jogo era um jogo contra o São Paulo, se não me engano. O Palmeiras tinha mudado de nome e ele entrou com a bandeira do Brasil deitada, os jogadores segurando. E na frente tinha um soldado do Exército palmeirense, que vinha na frente. Isso tudo está escrito. E entrou no campo. Ganhou, se não me engano foi esse jogo que o Palmeiras ganhava do São Paulo por 3 a 1, já era disputa final do campeonato e o juíz apitou um pênalti contra o São Paulo, eles abandonaram o jogo e fora para o vestiário. Se não me engano foi esse jogo aí.

Uma vez o Palmeiras estava jogando bem e tinha um jogo para fazer da seleção, resolveram por o time inteiro do Palmeiras e o Palmeiras ganhou, se não me engano, de 1 a 0, mas ganhou, se saiu bem. Foi, representou a seleção brasileira, com o uniforme da seleção, o time do Palmeiras.

Todo campeonato, todo ele é importante. Os times fazem força para ser campeão. E foi campeão várias vezes. Dos grandes times o Santos tinha o time do Pelé, era uma máquina! Porque não era só o Pelé, mas tinha um belo time e ganhando o campeonato. A sequência era cortada pelo Palmeiras, que de vez quando ganhava. Porque senão o Santos seria uma carreira sem fim e o Palmeiras era o time que de vez em quando cortava a série do Santos.

Eu fico na memória um jogo que nós perdemos de 6 a 5 do Santos. Fazia um gol, eles repetiam, foi 6 a 5. Eu estava lá. Inclusive eu fui com um amigo que ia comigo lá da empresa que eu trabalhava. Tinha a torcida enorme lá e nós ficamos assistindo embaixo, encostado na rede divisória, assistindo o jogo lá. 6 a 5. Eu me lembro, por exemplo, de uma jogada que hoje tem a bicicleta. Gol de bicicleta. Nós tínhamos um back chamado Junqueira, Carneiro e Junqueira. E o Junqueira era um belíssimo jogador, deve ter uma estátua dele lá no Palmeiras. Um dia jogaram uma bola aérea que cobriu o nosso goleiro, ia indo para o gol e o Junqueira saiu correndo lá, quando ela ia entrar ele deu uma puxada, uma bicicleta. Para mim ele é o inventor da bicicleta, porque ele deu uma bicicleta na bola! Mandou ela para cá. Gravei bem. O inventor da bicicleta foi o Junqueira.

Eu ia ao jogo de futebol e até recentemente. Eles, inclusive, fica aquela fila de soldados lá para ver se alguém está levando arma, tudo, então o sujeito disse: “O senhor eu não vou revistar”, por causa da idade e tal. Mas já faz muito tempo que eu não vou assistir. Como agora tem a televisão eu assisto sempre pela televisão. Mesmo quando é pay per view, meu filho tem, meu genro, o Rui, a gente assiste juntos. No campo não vou mais. Meus filhos são palmeirenses, então conversamos. Eu tenho um filho homem e quatro mulheres, e esse filho conversa muito sobre futebol comigo, assiste junto comigo. Ele tem pay per view e eu vou na casa dele que é pertinho da minha, assistimos juntos.

Eu vi grandes jogadores. No Palmeiras mesmo, Palmeiras teve até jogadores estrangeiros. Teve jogadores bons mesmo. Tinha time bom. O Dudu e Ademir da Guia. Ademir da Guia é um emblema do Palmeiras, todo mundo fala do Ademir da Guia. Têm grandes jogadores, eu assisti ele jogando, os grandes jogadores. Eu ficava contente de ver ele na seleção, e às vezes eu ficava aborrecido, porque ele não estava na seleção. Chamou fulano e não chamou aquele do Palmeiras e tal, mas não tem nada. Sempre torci pela seleção, nunca, jamais contra, porque é o Brasil.

O Palmeiras depois de 1950, em 51 foi considerado o time das Cinco Coroas, ganhou cinco campeonatos em 51. É bom você anotar aí, o time das Cinco Coroas, em 1951. Depois de termos perdido o campeonato de 1950. Significa uma distração boa ainda, me distrai bem. Eu, por exemplo, leio jornal todo dia e leio a seção de esportes, do Palmeiras. Porque não me interessa o que fala do São Paulo, do Corinthians, eu leio a do Palmeiras. É Palmeiras, é Palmeiras até o fim. Não tenho sabido de algum que mudou de time, nada disso. É Palmeiras. Eu espero que ele me dê só alegrias. É isso que eu espero (risos).

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