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História

O índio artesão

História de: Naílson Macedo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/02/2008

Sinopse

Naílson relata a chegada de seus tataravós em Maués e como o novo trabalho com o guaraná o fizeram entrar no mundo do artesanato, ofício já conhecido quando moravam no Ceará. O processo da colheita até a obtenção do pó para modelagem é descrito pelo artesão, que também apresenta suas peças mais vendidas.

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Digo que sou índio, sem preconceito nem nada. Sou índio. Uma origem de Mura, de Sateré-Mawé e de cearense. Quando a gente viaja por aí, a gente é índio. Eles botam o olho na gente, dizem: “É índio!”.  Mas o que eu faço é trabalho de caboclo. Os índios não sabem fazer o artesanato do pó do guaraná. Eles podem até fazer colar da semente furada, mas esse aí não, esse aí foi a minha família que criou aqui dentro de Maués.

 

O artesanato chegou com meus bisavós, tataravôs, faz uns 200 anos mais ou menos. Eles vieram do Ceará no tempo da Revolta dos Cabanos. Era aquela revolução que queria matar os imigrantes, aquele negócio que vinha de um país para outro. Aí eles foram trabalhar na pilação de guaraná. Como no Ceará é cheio de artesanato, pilando o guaraná aqui em Maués, acho que eles viram que dava para trabalhar com aquilo. Começaram a modelar. Modelaram na cera de abelha, de lá eles modelaram na fruta de favo, daí voltaram para o guaraná de novo. Como viram que dava liga, eles foram moendo mais fino e foram fazendo as peças.

 

Não sei como que eles tiveram a idéia de fazer a orquestra de macaco. Contam que eles resolveram fazer a orquestra porque sabiam fazer o macaco! E como tinha a história, que antigamente o povo contava, que o macaco era inteligente, fazia festa, eles usaram a criatividade deles. Para você ver que naquele tempo eles tinham criatividade! Quem que viu macaco tocar? Eles tiveram essa idéia.


Os animaizinhos estão custando cinco reais a unidade. O mais trabalhoso está custando dez, outro 20, e aí vai embora. Já o xadrez está custando 200, são tudo miudinho, mas é trabalhoso. Tem a peça da colheita do guaraná, que é o processo todinho da cadeia produtiva do guaraná. São oito elementos, tá custando 400 reais. Tem a peça da seringueira, com o seringueiro cortando, com as folhas de seringa no chão, os galhos. Mesma coisa a castanheira, cheia de castanha, fiz castanha no chão. Ele com a castanha, o facão na cintura, a espingardinha nas costas do castanheiro, chapeuzinho na cabeça. Tenho feito peças que os antigos não faziam. E também acho que eu não tenho feito peças que os antigos também fizeram! Aí eu fui ficando alegre, via logo a bufunfa, o dinheiro, sem fazer muita força, sem sol na cabeça.

 

A peça da canoa é feita por causa do pescador. Os turistas, quando vêm, compram muito a canoa, para guardar uma lembrança daqui da Amazônia, de pescador. E olha, eu trabalho só com animal amazônico. E diz: “Faz leão?”, “Posso fazer”, “Faz elefante?”. Elefante eu já fiz, de encomenda eu faço. Eu faço por causa dos turistas que pedem. Eu não vou fazer pinguim, não vou fazer baleia. Faço pirarucu, o sapo, que é aqui da Amazônia, o boto, que eles dizem que é animal em extinção, o peixe-boi que não tem aí, a tartaruga. É o que vende muito, é negócio vendável. Quanto mais trabalhar em cima de lenda da região mais saída tem. 

 

O processo do guaraná é assim: você vai tirar do mato, da árvore do guaraná, a colheita dele.  Aqui em Maués, a parte branca, a bactéria, é chamada remela do guaraná por causa do olho! A casca é uma nódoa, uma tinta que se pegar numa camisa, nunca mais sai! Você pode colocar água sanitária, o melhor sabão do mundo, que não sai mais. Aí você vai limpar, lavar ele bem lavado, aí você vai torrar no forno. Isso dura mais ou menos umas quatro ou cinco horas ou mais. Quanto mais ficar no forno, bem torrado, melhor fica o guaraná. Depois de torrado ele fica marrom. Ele é preto quando tá na árvore, depois ele fica meio marrom, torrado. Aí que eu vou pegar, eu compro o guaraná, eu vou bater o guaraná, todinho ali, ele fica misturado, pego uma peneira, peneiro, aí eu escolho. Trabalho demorado. E por isso que às vezes a pessoa acha meio caro o artesanato de guaraná, mas é um trabalho bem demorado.

Sem dúvida nenhuma, o guaraná orgânico é o melhor que tem. O clonado não pega essa liga que esse aqui pega.

 

A peça da colheita do guaraná é feita de oito etapas. Uma que está colhendo o guaraná, na árvore de guaraná. Está colhendo, metendo a mão, com o paneirinho nas costas. O outro tá limpando o guaraná abaixado ali; o outro está torrando, no forno; o outro está pilando o guaraná; o outro está fazendo o bastão; o outro está ralando o guaraná; o outro está tomando o guaraná; e o outro está fazendo artesanato. São oito elementos. É uma peça linda, mas eu só faço por encomenda. Aquilo é caro. Dá uns 15 dias para fazer uma peça daquela! Vou fazendo essas peças pequenas aqui, sai uma, duas, três, quatro, cinco. Dia eu vendo, dia não, assim dá para vender. Agora essas peças aí, de 20 para lá fica mais caro para qualquer um comprar.

 

É bom contar assim, bem lentamente, para vocês terem uma noção de como é que foi criado o trabalho do guaraná. Para chegar no artesanato de onde veio, que é tirado do mato, passado por cima de cobra, uma formiga, tucandeira, sapo, bicho peçonhento, carapanã, para chegar no artesanato. Então o pessoal é capaz de dar valor, mais valor ainda, o trabalho. Não é como uma madeira. A madeira chega, corta ali, já vai trabalhar em casa. O guaraná não, chega na beira do forno, ficar mais de quatro horas, cinco horas na beira do forno, suado que só. Tenho um prazer grande de ter contado essa história para vocês. 


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