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História

O importante é trabalhar e acreditar

História de: Vera Nascimento
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/02/2021

Sinopse

Nasceu e cresceu na Zona Norte de São Paulo. Filha mais velha entre 7 irmãos, que ajudava a cuidar. Quis começar a trabalhar cedo. A mãe sempre estimulou os filhos a estudar; Participou da Fanfarra para poder sair; Fez magistério, mas não queria ser professora; Trabalhou na biblioteca do Banco Mercantil; Depois na biblioteca da Itautec; organizou cursos de empreendedorismo no Sebrae.

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História completa

Eu comecei a trabalhar com 16 anos e tinha desespero para ir trabalhar, porque eu não aguentava ver aquilo em casa, a dificuldade, e aquele monte de irmão, a hora do banho… Minha mãe falava, "vai dar banho nas crianças", eu enfileirava e depois era banho para todo mundo, ajeitava, dava comida, ajudava minha mãe a fazer... A vida foi bem difícil, mas a gente passou. Eu resolvi fazer biblioteconomia e não me arrependi. Eu parti para a biblioteca técnica, porque tinha as bibliotecas escolares, as públicas… As públicas eram quase impossíveis. Você fazia um teste, ia lá, e eram todos nomes conhecidos. Eu não conseguia passar. Fiz três vezes para a biblioteca pública e fui para a biblioteca particular. A primeira biblioteca em que eu fui trabalhar foi a Villares, que era uma biblioteca técnica, e eu fiquei meio perdida naquilo. Depois eu fui para a biblioteca de banco, fui trabalhar no mercantil primeiro e depois fui para o Itaú, onde me aposentei. Fiquei 30 anos no Itaú, biblioteca técnica de informática. Nossa, foi maravilhoso, foi uma escola para mim. Fiz muitos cursos, eles me incentivaram muito na época a fazer cursos, viagem… Fiz viagens, fui para São Carlos e ficamos lá uma semana, por aí foi. Foi muito bom para mim. Eu já estava recém-formada, não tinha um ano quando eu fui para lá. Eu entrei quando tinha 25 anos. Não, 26. Eu me formei com 25 anos em biblioteconomia e depois eu fui para lá. Nessa época, eu estava trabalhando no Banco Mercantil, na biblioteca de informática também. Estava começando e eles queriam uma pessoa para arrumar, porque estavam trocando as normas das bibliotecas, modificação, então eles me contrataram. Em outubro mais ou menos, "olha, vamos colocar no jornal, porque a gente está precisando urgente de gente", e eu perguntei, "qual o salário?". Era o dobro do que eu recebia. Aí já mexeu em uma área complicada. Eu falei, "bom, vou pensar mais um pouquinho", e dei a resposta, comecei a trabalhar lá dia sete de dezembro de 1977 e fiquei esse tempo todo com o mesmo chefe, mas mudando de prédio. A cada dois anos, eu mudava de prédio, porque o Itaú trabalhava em um crescimento fantástico. Depois surgiu o Itautec e eu fui para lá, e fiquei todo esse tempo. Já estava na época de me aposentar e acabou a biblioteca. Eu comecei e terminei a biblioteca do Itaú. Depois que eu saí do Itaú, fui ser voluntária e trabalhar em uma ONG perto de casa. Isso foi uma das lições que o doutor Olavo dava para gente. Ele era uma pessoa muito amiga. "Você nunca deve esquecer do lugar que você se formou", ele falava, "sempre volte lá no seu bairro, olhe para ele. Eu que sou empresário, nunca deixei de olhar para Poli, eu me formei lá. O que eu sou hoje, é graças a Poli". Às vezes tinha essas palestras lá para gente, e aquilo ficou. Eu pensava, "quando eu parar de trabalhar, vou fazer alguma coisa. O que eu posso fazer para ajudar meu bairro?", mas já foi se encaminhando. Quando eu estava no Itautec, me colocaram em um grupo de voluntariado, porque isso no Itaú era muito forte, e ainda é hoje. O doutor Olavo incentivava, tanto que tem um centro cultural lá na Paulista e ele sempre se empenhou nesse instituto cultural. Eu ficava pensando, "interessante a gente olhar no bairro o que você pode fazer, no quê você pode ajudar". Como eu já estava quase perto de me aposentar, eu já estava pensando. Alguém falou, "você não quer ser voluntária?". Eu sempre passava ali na igreja de Santana, que era perto do metrô, e alguém me abordou. Eu falei, "olha, eu penso sim, mas não agora, porque ainda trabalho, agora eu não tenho tempo", porque era aquela velha história, a gente acha que para ser voluntário tem que ficar ali o tempo todo, "ah, mas é uma hora do dia que você pode", "eu vou pensar". E aí, quando veio, eu falei, "não, eu vou fazer". Fiquei conhecendo essa ONG, fui até lá ver como era, fui fazer um curso que existia e hoje acho que não tem mais, o Centro Voluntariado de São Paulo. O Itaú cedia um lugar para eles para fazer cursos e tal. Eu fui fazer o curso para entender melhor o que era o terceiro setor e aí me encantei. Eu parei de trabalhar e fui lá me oferecer, fizeram ficha e começaram a me chamar para ir lá. Tinha festa, tinha passeio com as crianças em que precisava ir alguém para ajudar a olhar e monitorar e tal… Eu estava fazendo um curso de informática para melhorar meu conhecimento. Falaram assim, "a gente está precisando de alguém para vir umas duas vezes na semana", como eu estava aposentada, eu falei, "ah, eu posso vir, só que tenho meus filhos, ainda estou estudando", "ah, mas você vem…". É aquela história, pé de grude, você coloca o seu pé lá e não consegue sair depois. Comecei a ir mais vezes, e trabalhar ali na secretaria. Eu vi que em um cantinho lá tinha uma caixa escrito "Itautec", esse nome era bem familiar para mim, né. Perguntei, "o que é isso?", "nós ganhamos, foi doado", "por que não usa?", "não tem ninguém que saiba mexer, montar esse computador", e eu falei, "ah, vamos começar a mexer com esse negócio", porque era minha praia, Itautec. A minha prioridade era arrumar a biblioteca deles, porque tinha uma biblioteca lá. Biblioteca?! Era um acumulado de livros, vamos dizer assim. Eles chegavam de doação e o pessoal colocava naquela sala e chamava de biblioteca. Eu queria arrumar, e nunca conseguia, porque ficava na secretaria atendendo, fazendo coisas no computador e ali fiquei. Depois me colocaram na captação. Na época era telemarketing que falavam, depois veio a ser a captação de recursos. Eu me identificava bem. Por exemplo, "vamos fazer uma feijoada para ter verba para fazer uma cobertura e para pintar o prédio?", para mim era tranquilo. Eu ligava, ia ao mercado, pedíamos fornecedores das coisas da feijoada, e ligava para eles, "eu sou uma ONG, aqui da periferia da Zona Norte, preciso das coisas", e o pessoal trazia. Acabamos ficando amigos, "quando vai ser a feijoada?", nem precisava pedir mais, o pessoal já trazia as coisas para gente. Foi muito bom, uma experiência boa. Hoje está tudo parado por conta da pandemia. As crianças não estão indo. Como eu sou do grupo de risco, não sei como vai ser esse retorno. Estou aguardando para ver como fazer, mas eu quero continuar fazendo, e no bairro, como foi passada essa mensagem para mim, de fazer onde você mora, onde você se formou.

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