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O importante é estar e ser presente

História de: Karina Silva dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Infância em busca de trabalho. Experiência traumática no trabalho. Internação compulsória num hospital psiquiátrico. Faculdade de Letras no Piauí. Primeira experiência morando sozinha. Retorno para São Paulo. Curso técnico de Administração de Empresas. Outros trabalhos. Preparativos para o casamento. Faculdade de Jornalismo. Descoberta de um aneurisma cerebral. Ótima recuperação. Planos para o futuro.

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História completa

A minha rotina era de estudar, eu tinha muita vontade de estudar, fazer faculdade, eu me dedicava bastante. Eu procurei muito emprego, foi muito muito muito difícil pra eu conseguir o meu primeiro emprego. Então eu procurava emprego em todos os lugares, mandava o meu currículo em todos os lugares, de tudo quanto era jeito, mas foi bem complicado. Foi uma época bastante complicada por conta dessas cobranças e por eu não estar dando conta, de estar dando as respostas que esperavam que eu devia dar nesse período de cobranças. 

A cobrança de você ter o seu primeiro trabalho. O meu pai sempre teve uma questão complicada em relação ao trabalho, porque ele não dava certo em nenhum lugar que ele estava. Então às vezes a minha mãe falava: "Cadê o trabalho? Você vai ser igual o seu pai?”. E na verdade não é que eu não quisesse trabalhar, não era uma questão minha, da minha parte, era uma questão que eu realmente não conseguia encontrar emprego.

O meu primeiro trabalho mesmo eu consegui aos 16 anos. Eu fui trabalhar num restaurante e eu não me adaptei, eu não gostei, porque eu levei algumas cantadas. Eu era a moça das balanças. Então as pessoas vinham, colocavam o prato e eu marcava quanto dava. E aí veio um rapaz e me deu uma cantada e eu fiquei muito constrangida, eu não queria mais voltar para esse lugar. Eu falei para minha mãe que eu não queria mais trabalhar lá, mas eu senti que a minha mãe me repreendeu, que ela se decepcionou comigo. Nisso como eu estava sendo muito pressionada, eu passei mal e tive um surto psicótico agudo. Aí eu já não sabia qual era o meu nome, quantos anos eu tinha, não sabia quem era mais a minha família e eu fiquei um período hospitalizada. Eu parei num hospital psiquiátrico, fiquei um mês internada. Esse período eu não considerei esse trabalho, porque eu fiquei uma ou duas semanas e aí quando aconteceu esse episódio eu adoeci e fiquei um bom tempo quieta e me recuperando.

Esse episódio foi horrível, foi um teatro de horrores, ainda hoje eu me lembro. É uma coisa assim que vai ficar gravada… Não gravou na minha mente, não gravou no meu corpo, gravou na minha alma, porque eu sofri todo tipo de abuso, negligência, eu quase morri nesse hospital por excesso de medicamento. E eu fiquei muito triste, porque eu me vi naquela situação, porque eles tinham um procedimento que é a contenção. Então se o paciente está muito agitado, você contêm ele, amarra os pulsos, amarra os tornozelos na casa, e fica amarrado o paciente. E uma vez eu tava amarrada, e eu não sei se eu estava amarrada e eu percebi isso, se eu estava na cama, e eu pensei: "Poxa, a minha vida acabou, então eu não vou me formar como eu queria, eu não vou fazer faculdade como eu queria, os meus anos de estudo não valeram de nada, eu não vou ter filhos”. Eu já tinha contato com pessoas com doenças mentais de uma vizinha e já tinha contato de pessoas quando eu frequentava a igreja também tinha uma pessoa que tinha problemas mentais, e uma prima distante, e eu via que essas pessoas eram segregadas, ninguém falava com elas se referindo ao agora, era sempre um passado. então eu pensei: "Agora eu vou me tornar uma sombra de mim mesma, só vai ter uma pessoa aqui, mas essa pessoa vai ser como se ela não existisse mais. Eu vou ficar num quartinho escuro, e quando falarem de mim vão falar: “Olha, ela era muito estudiosa, ela era muito dedicada, ela era muito feliz, e era como se eu tivesse morrido, estando vivo, como se eu me tornasse um zumbi”. E isso me entristeceu muito. E a família toda ficou muito abalada, porque dos três irmãos e de toda família eu sempre fui muito espuleta, sapeca, sempre fui muito comunicativa, então foi um baque pra todo mundo.

Eu fui para um hospital, e na verdade foi compulsório, porque eu estava tentando sair de casa. Eu já não reconhecia mais a minha família, falava que eles tinham me raptado e eu estava tentando fugir de casa, e também eu não sabia muito bem quem eu era, tava perdida, não sabia quantos anos eu tinha, então eu tive que ser internada compulsoriamente. 

A em relação amorosa foi bem complicado. Porque nesse hospital eu também passei por abuso, sofri um episódio de abuso sexual e eu fiquei muito travada, me traumatizou muito. Aí sair do hospital foi um misto de alegria e de desespero ao mesmo tempo, um misto porque eu tinha saído de um lugar horrível. 

Aí quando eu saí eu terminei o meu ensino médio, me formei. E voltar para as aulas após tudo isso foi um enfrentamento. Eu falei para mim mesma: Karina você vai, com a cara e com a coragem. Vou com enfrentamento. No final eu continuei na mesma escola e as pessoas não tiveram apontamento, todas me trataram com muito respeito.

E aí eu consegui me inscrever no Curso Técnico de Administração de Empresas, e aí foi quando eu consegui o meu primeiro trabalho. E aí eu deslanchei.

Um dia, recentemente, eu comecei a sentir muita dor de cabeça, a dor de cabeça não passava e fomos ao médico. Aí eu comecei a achar que eu tava ficando doida de novo. Aí fizeram uma tomografia e o médico falou: “Essa menina tá com um aneurisma cerebral e já rompeu, ela tem que ser internada agora”. E aí eu fui internada com um aneurisma cerebral semi rompido na cabeça. Fiquei no hospital um mês, aí deu trombose nesse meio tempo também, aí teve que fazer em dois procedimentos. E falaram assim: “Ela pode morrer”. Na verdade se eu não internasse eu ia poder morrer e se eu internasse eu ia poder morrer, era aquela coisa: é o que tem para hoje. E aí fiquei. E por incrível que pareça, para surpresa de todos eu sofri esse aneurisma e continuei falando antes, durante e depois. Eu me mantive lúcida, andando, tomando o meu banho, porque eu já vinha com aquela lembrança de lá do primeiro hospital e falei: “Não, dessa vez não, dessa vez eu vou me portar, dessa vez não vai ser como da primeira não”. Então eu ia lá, tomava o meu banho, eu mesma fazia tudo que eu podia fazer, eu tinha essa autonomia, embora eles falassem que eu tava com um quadro super complicado, mas eu falava: “Eu tô me sentindo ótima”. E aí eu saí do hospital e teve essa questão da pandemia. Aí eu tô vivenciando essa pandemia.  

Hoje as coisas mais importantes pra mim são viver, amar, fazer as pessoas felizes. A coisa mais importante pra mim na verdade é ser, a mais importante, ser. Ser amiga, ser compreensiva, ser uma pessoa melhor, ser uma pessoa virtuosa. O legado que eu gostaria de deixar é que eu estive, eu fiz as pessoas felizes, eu estive perto, seja pra dar um abraço, seja pra dar um conselho, seja pra varrer um chão, seja pra dar um dinheiro, mas eu estive perto, eu fiz elas importantes, felizes de algum jeito. Isso pra mim é o importante. 

Há tempo para tudo, inclusive de contar a minha história. Eu sou uma pessoa que vive intensamente, tem aquelas pessoas que sobrevivem, as pessoas que vivem e as pessoas que vivem intensamente, e eu sou uma pessoa que vive intensamente. Às vezes porque eu me lanço muito e às vezes porque a vida me coloca e me expõem em situações que me fazem viver muito. E acaba que eu tenho muita história pra contar, mesmo tendo poucos anos de vida.

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