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"O importante é a união das mulheres"

História de: Maria Carmen Lima Gambetta
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/06/2007

Sinopse

Quando María del Carmen Lima Gambetta nasceu, no ano de 1960, seus pais trabalhavam com criação extensiva de gado e criavam ovelhas na zona rural do Uruguai. Embora tenha se mudado com seis anos e crescido na cidade, as lembranças do campo permaneceram vivas em sua memória. Nesta entrevista, María fala a respeito da condição da mulher rural e sobre a liberdade, e de seu envolvimento com organizações em defesa pelos direitos das mulheres.

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História completa

P – Qual o seu nome completo, o lugar onde você nasceu e sua data de nascimento?


R – Meu nome é María del Carmen Lima Gambetta. Nasci na cidade de Tacuarembó, no dia 7 de julho de 1960, e com quatro dias de nascida me levaram para o campo, em Cinco Sauces, onde vivi até os seis anos.

P – O que você poderia nos dizer sobre a vida cotidiana com seus pais?

R – Meus pais moravam no campo; depois, quando eu tinha seis anos, foram para a cidade. Durante o tempo que estiveram no campo, eles se dedicavam à criação extensiva de gado e criavam ovelhas.

P – E sobre o seu nascimento, você sabe como foi, se houve alguma complicação ou se foi fácil?

R – Eu nasci de parto natural, não tive nenhum tipo de inconveniente. Aos quatro dias fui para o campo e nunca tive problemas de saúde.

P – Onde você passou sua infância e como era o lugar onde você morava?

R – Eu entrei na escola com cinco anos, fui dois anos à escola no campo, onde íamos a cavalo fazendo um trajeto de dez quilômetros entre ida e volta até a escola e era maravilhoso. Eu fazia todas as tarefas da lavoura junto com o meu pai e com os peões e o que mais divertia a gente era a viagem até a escola a cavalo, com os meus irmãos.

P – Com relação ao vínculo com seu pai e sua mãe, o que você destaca, o que poderia nos dizer de cada um deles?

R – Da minha mãe o que aprendi é que ela era muito caseira, muito pela casa, mas era de responder todas as nossas perguntas, todas as dúvidas dos seus filhos. E todas as saídas para o campo eram com o meu pai e eu adorava... Todo o trabalho do campo eu fazia com ele e com os peões e esse era o nosso vínculo, não tanto as minhas perguntas ou dúvidas sobre o campo e outros temas... Isso quem fazia era a minha mãe.

P – Você tem alguma lembrança especial sobre a escola?

 

R – Da viagem até a escola, o que era diferente é que nós fazíamos corridas a cavalo e nos divertíamos muito. A minha mãe esperava até ver a gente passar por uma ladeira e se não nos via ficava preocupada, porque nós passávamos por uma ponte com um rio muito fundo.


P – Da sua juventude, o que você pode nos contar?

R – Nas férias, geralmente íamos para o campo e nos divertíamos muito fazendo as tarefas, mas eu desenvolvi a minha vida na cidade. Tive que ir para lá por questões de estudo, porque o lugar onde meu pai tinha as terras era muito isolado. Na cidade, ia ao cinema – não era de ir em bailes – e foi lá que terminei o colegial, mas senti muita falta da minha vida de campo. A minha vida transcorria entre a cidade, estudar, o cinema e o campo.

P –  Você trabalhou nessa época de juventude? Teve algum trabalho específico seu? Como transcorria seu dia a dia?

R – Não trabalhei, só me dedicava a estudar.

P – Com relação ao seu marido, como foi que você conheceu ele? Conte um um pouco sobre seus filhos...

R – Conheci meu marido na cidade. Ele morava perto da minha casa, também tinha nascido no campo. Nós casamos e voltei para o campo, mas mudamos para o Departamento de Canelones, onde começamos a trabalhar em uma avícola. Foi lá que tive meu primeiro filho, que hoje tem vinte e seis anos. Depois, a avícola fechou e nós começamos a aventura de ter um uma leiteria.

Dai, eu me envolvi com o movimento de mulheres. Meu esposo se ocupava da leiteria e eu me encarregava da criação de porcos e frangos. Desse jeito desenvolvi minha vida até que nasceram os mais novos, que têm doze e treze anos atualmente. Comecei a coordenar o trabalho de campo com o grupo de mulheres, na instituição onde comecei a participar.

P – Exatamente o que motivou você a se envolver com uma organização especificamente de mulheres?

R – A minha grande inquietação, a que me levou a me envolver, é o grande isolamento em que vive a mulher rural, a falta de conhecimento dos seus direitos e, acima de tudo, a submissão em que vive a mulher no campo, que é, como a gente diz aqui: “el último orejón del tarro” (Nota da tradutora: “algo que não vale nada”). Uma vez que eu tinha um pouco mais de conhecimentos e de estudos, comecei a me envolver com gente informada, com técnicos, e tinha muitíssimo interesse em conhecer quais eram os direitos das mulheres e brigar por eles e contribuir para que essas mulheres vivam, e nós vivamos, em uma condição mais digna... e poder chegarmos até a esfera pública, até as instituições.

P – Quanto à Rede LAC, como foi que você conheceu? Como foi sua primeira participação nela?

R – Dado que nós fundamos a Red de Grupos de Mujeres Rurales del Uruguay e devido à grande proximidade que tínhamos com Kika, fomos nos envolvendo, contribuindo com ideias e apoiando o trabalho de Kika... E assim nos envolvemos com a organização e em realimentar o trabalho que ela realizava lá.

P – Como incidiu na sua vida esse vínculo com a Rede e o que ela te deu?

R – O vínculo foi tremendamente importante, porque nos fez conhecer realidades muito diferentes à do nosso país, ver outras realidades que nós não vivemos – como outros tipos de violência, como a guerra – coisas que nós não conhecíamos e, encontrando com mulheres de outros países, começamos a conhecer e vivenciar isso de modo diferente. Inclusive, trazer as outras formas de organização que tinham as mulheres mais organizadas de outros países e que nos ajudavam a avançar e complementar com o trabalho que nós fazíamos.

P – Você acha que alguma coisa mudou na sua organização a partir do vínculo com a Rede LAC? Vocês sentem que na Red de Grupos de Mujeres Rurales del Uruguay surgiram inquietações a partir dessa relação?

R – Na minha opinião, tem fortalecido, aprendemos a trabalhar com problemas diferentes, com mulheres diferentes, e ainda tendo os mesmos problemas e tendo diferentes realidades, saímos enriquecidas com o intercâmbio, nós contribuindo com nossa realidade de país pequeno e os países mais desenvolvidos, que estão mais avançados nas organizações de mulheres, deram sua contribuição para que nós fiquemos mais ricas e para que possamos crescer como pessoas, grupo e instituição.

P – No futuro, como você vê a Rede LAC?

R – Para mim, é fundamental e muito importante o trabalho que ela realiza e que é imprescindível que tenha continuidade. Independente dos nomes que nós possamos dar às Redes, o importante é a união das mulheres. E deveríamos estar nos meios de comunicação, difundindo o trabalho que está sendo realizado, porque além de obter mais apoio a nível governamental, seria fundamental dar a conhecer o trabalho maravilhoso que a sociedade civil organizada faz e, mais ainda, o trabalho da mulher rural, que, depois das suas longas jornadas de trabalho, ela possa se organizar e ser parte desta Rede latino-americana, que é igual em todos os países, algumas vezes com melhores ou piores condições que outros, mas o trabalho da mulher organizada é o mesmo, com muitas jornadas de dedicação à organização em forma honorária. O melhor que podemos fazer como sociedade civil organizada, independente dos organismos, é continuarmos nos unindo, contemplando as diferentes realidades e trazendo soluções para os nossos países.

 

P – O que você sonha para a Rede no futuro?


R – Sonho principalmente com transformar a educação das nossas gerações, acho que é importantíssimo educar diferente e cada dia ter uma ação em favor da mulher e em favor das organizações, mudando a educação. Para mim, tudo depende disso, a transformação da cabeça do homem é fundamental. Já cansamos de falar de gênero e acho que deveríamos materializar em ações, porque independente do que a gente diz que faz, fazemos pouco. É preciso aterrissar o discurso e isso só se consegue através da educação.

P – Quais são os seus sonhos para as mulheres?

R – Muitos. Transformando nossa mentalidade, nossa cabeça, tanto homens como mulheres, será a maneira de ter uma vida melhor, mais digna, mais solidária, com pessoas que pensem... no campo ou na cidade, mas que pensem que seus cidadãos devem viver daquilo que gostem ou daquilo que querem. E que tenham a possibilidade de escolher. Para muitos, nos nossos países, é uma utopia poder viver onde queremos, muitas vezes vivemos onde querem outros; para mim é fundamental viver no campo e desenvolver a vida dos meus filhos no campo.

P – E o que sonha para você?

R – Para mim, será morrer no campo. Eu adoro. E que as mulheres tenham a mesma possibilidade de ter um pedaço de terra que um homem, que tenham a mesma possibilidade de educar seus filhos, de criá-los sem ter a atadura de ter uma pessoa do lado, poder ter um crédito que ela mesma gerencie... Que ela não seja só uma ferramenta de trabalho. Que também possa ser produtora em todo o sentido da palavra, de levar sua empresa adiante, porque a mulher é muito capaz. E não que seja sempre o homem que tem todos os privilégios, porque isso faz com que a auto-estima da mulher vá se deteriorando e que ela vá ficando sempre “para trás”. Pessoalmente, eu encontrei o meu lugar, adoro o que faço e vou continuar brigando pelo que quero e, acima de tudo, pelos direitos das mulheres.

P – Como última pergunta, como você se sentiu com esta entrevista, falando da sua vida? Você gostaria de acrescentar alguma coisa da qual não tenhamos falado?

R – Adorei a entrevista porque tenho poucas possibilidades de comentar a minha infância. Pouca gente das organizações às quais pertenço sabe que eu tive uma infância no campo, que venho de uma origem de campo e que meus avós e meu pai tinham terra e, talvez, isso seja o que me levou a gostar tanto.

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