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História

O impacto social de Maria e da Muene

História de: Maria do Carmo Valério Nicolau
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/09/2018

Sinopse

Maria do Carmo Valério Nicolau nasceu no dia 16 de julho de 1932 em Brodowski, São Paulo. Teve uma infância bem humilde, nos conta que após o falecimento de seu pai e consequente adoecimento da mãe passou por dificuldades, pois vivia de doações para sustentar a si e os irmãos. Natural da cidade natal de Cândido Portinari, Maria do Carmo teve de batalhar até para entrar na escola, pois não possuía certidão de nascimento. Conta pro Museu da Pessoa uma história surpreendente sobre ser professora em lugares carentes, a mudança para São Paulo, a jornada tripla que exercia aqui e o acontecimento que despertou nela a vontade de produzir maquiagens específicas para a mulher negra. Fundando assim a Muene, uma ideia de negócio que faria alçar voo não só Maria do Carmo, mas também outras pessoas negras em suas carreiras.

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História completa

P/2 – Qual o seu nome, por favor?

 

R – Ah! Meu nome é Maria do Carmo Valério Nicolau, sabe? Isso é há 68 anos.

 

P/2 – Seu local de nascimento, Maria do Carmo?

 

R – Brodowski. Fica hoje no estado de São Paulo, na cidade de Cândido Portinari.

 

P/2 – Quando você nasceu?

 

R – Nasci no dia da Nossa Senhora do Carmo. Dia 16 de julho de 1932.

 

P/2 – Qual o nome do seu pai, sua mãe e avós?

 

R – Nazaré Valério e Etelvina Domingas Gonçalves.

 

P/1 – Lembra dos avós?

 

R – Ah! José Luis e Dona Eulália.

 

P/1 – Você sabe qual a origem do nome da sua família?

 

R – A origem do nome da minha família ela tem assim, baseada nos santos dos dias.

 

P/2 – Por isso a senhora chama Maria do Carmo?

 

R – Nasci no dia do santo.

 

P/1 – E de onde vieram seus avós, seus pais? São todos brasileiros?

 

R – Eles são todos brasileiros. Alguns que, bem estudados, vieram do Quênia.

 

P/1 – Ah, do Quênia. Quantos irmãos e irmãs você tem?

 

R – Nós somos em quatro.

 

P/1 – Homem e mulher?

 

R – Temos três. Somos em três mulheres. Aparecida: a primeira; a segunda mulher: Iracema; terceiro: Alceu; e a quarta sou eu. A caçula, a arteira.

 

P/1 – E os meninos? Os irmãos?

 

R – Os irmãos. Só um. Valério, o Valério.

 

P/1 – Descreva a casa da sua infância. A senhora se lembra?

 

R – A casa da minha infância?

 

P/1 – Na sua infância. A senhora nasceu e passou aqueles tempos lá dentro.

 

R – A casa da minha infância foi doada de presente de casamento para o meu pai.

 

P/2 – Quem doou?

 

R – Foi uma família do qual meu pai foi criado com eles. Eram pessoas, eram italianos e ele recebeu esta casa de quatro cômodos e ali foi a minha infância. E próximo a esta família do Portinari, os Fabris. E nós éramos muitos felizes enquanto meu pai vivia. Meu pai morreu aos 33 anos de idade.

 

P/2 – Que ele fazia seu pai?

 

R – Meu pai era um verdadeiro bigorrilho na cidade; ele fazia de tudo. Era o eletricista e tinha um tino comercial muito avançado. Então ele comerciava muitas coisas, possuía um animal, um carrinho. E inédito: era o único que tinha um carro na cidade. Que ainda ensinava as moças a dirigir.

 

P/1 – Na infância, quem morava na casa? Você, seus pais e seus irmãos?

 

R – Nós morávamos somente nós enquanto meu pai vivia. Depois que meu pai morreu veio uma prima morar conosco.

 

P/2 – Quando foi que você entrou na escola, Maria do Carmo?

 

R – Vocês não estão admiradas de eu me lembrar de tanta coisa? (Riso)

 

P/1 – Não! Até estamos gostando do que a senhora está lembrando. (Riso)

 

R – Eu comecei a me lembrar das coisas quando eu tinha três pra quatro anos de idade. Comecei a fixar tudo. Então por isso que eu tenho a memória de tudo que aconteceu na minha infância. Isso daí foi bastante explorado por muitas pesquisas. Já respondi essa pesquisa mais ou menos três vezes. E essa última foi muito irônica porque a moça me fez eu repetir três vezes pra realmente testar a minha memória (riso). Espero que não aconteça isso aqui (riso).

 

P/1 – Não! Aqui não.

 

P/2 – Essa iniciativa foi sua? De reter toda a memória, de tudo que se passava com você? É de você mesma ou alguma coisa...

 

R – Não, era porque eram fatos muitos fortes, eram emoções fortes. Por exemplo: era forte pra mim, no final da tarde, quando meu pai era vivo, ele tocar sanfona. Ele tocar a manivela no carro, pro carro andar. Eu nunca via carro, então se descesse do carro e tocasse a manivela e o carro pegasse; achava aquilo extraordinário, né? Aquele pé de bode andar, né? Achava assim: uma coisa inédita a máquina andar sem ter o cavalo puxando, não é? Então essas coisas eram emocionantes. E no final da tarde reunir as pessoas e fazer samba e eu sou muito acostumada com música, né?

 

P/2 – O que ele tocava? Que música?

 

R – Ele tocava aquela sanfona de sete baixos. Esse que usa em tango, né, quer dizer, aquela revisa. Pode tocar o mosquitinho? (Riso) É, eu acho que é o de sete baixos, isso. Então a gente tem essa lembrança. Faça o favor.

 

P/2 – E eu havia perguntado a você sobre a escola. E a escola? Como foi você estudar, ir pra escola?

 

R – Não se tinha documento. Nesta época meu pai havia falecido e não tínhamos certidão de nascimento. Eu fui a última, então fiquei sem certidão. E os meus irmãos embora tenham terminado de fazer o curso; eu não fui aceita na escola. Então a turma da minha idade ia pra escola e eu ficava sozinha, não tinha com quem brincar e eu ficava sentada na porta da escola. E o diretor passava por mim e não me deixava entrar, né? Eu só incomodava o diretor pra ver se ele me deixava entrar. E fiquei metade do ano na porta da escola, depois dos sete anos. E até que mudou o diretor. Quando mudou o diretor, o diretor perguntou: “O que essa menina faz na porta da escola? Se ela não tem certidão então ela não pode frequentar”. Aí ele me pôs pra dentro como ouvinte. E eu surpreendi a todos porque aprendi a ler e a escrever sem ter o material. Porque não me davam o material. Quando foi no dia do exame me deram o caderno e deram o papel pra fazer prova, me mandaram ler sem saber que eu era apenas ouvinte. E fui aprovada. E passei pro segundo grau sendo ouvinte. E terminei o primário sendo ouvinte, sem documento.

 

P/2 – Isso te incomodou um pouco ou não?

 

R – Deu-me força pra entender que eu teria que lutar com a vida sozinha. Que eu teria que saber solucionar tudo porque eu havia perdido não só o pai, quando pequena, mas havia perdido a minha mãe também. Que a mamãe ficou doente com a morte do meu pai.

 

P/2 – Como foi pra você ter perdido os dois assim quase que juntos?

 

R – Sempre me senti feliz. Em momento algum a necessidade me fazia procurar os meus amigos. E os meus amigos achavam muito engraçado quando eu pedia as coisas. Diziam: “Imagina, você ganhou ontem, hoje não vai ganhar de novo”. Mas o padeiro me deixava pão todos os dias, o leiteiro me dava leite todos os dias de graça. E eu dizia assim: “Você não deixou o leite que eu queria!” Eu exigia que eles me dessem as coisas certinhas como se o meu pai fosse pagar. E eles então me adotaram, a cidade me adotou, né? Então quando chegava a tarde, um parente do Portinari me dava marmita de janta, né? Então só jantava e guardava pro outro dia, pro almoço. E assim quase que era a minha família toda que se alimentava com essa comida da janta, né, depois que o meu pai morreu. Então todos na cidade se sentiram, com os favores que meu pai fazia, na obrigação de nos alimentar.

 

P/2 – A senhora continuou vivendo com seus irmãos depois da morte de seus pais, na mesma casa?

 

R – Não. Eu fiquei na mesma casa, os meus irmãos foram dados para outras famílias porque eles já tinham condições de trabalhar. Quando a minha mãe sarou, a irmã mais próxima de mim, a minha mãe foi buscá-la. E essa irmã ela se tornou um problema muito sério porque ela foi doada pra uma família muito rica, a família colocou o nome da família para ela, ela seria uma futura herdeira e a mamãe retirou. Fez questão que ela voltasse a assinar o nosso nome. E subiu no... “Negra! Não dá seus filhos, não acreditem nisso!” (Riso). Ainda me lembro até hoje ela gritando isso: “Porque eu estava doente, por isso eu dei minha filha. Agora eu estou boa, vou pegar a minha filha de volta”. A minha irmã ficou revoltadíssima e deu grandes e sérios problemas na família, pra nós. Ela não se conformava em ser pobre, ela acostumou a ser rica, né? E depois disso eu cresci, eu falei: “Só dando um apartamento pra minha irmã pra ver se passa a frustração dela”. Acabei de dar um apartamento pra ela de três dormitórios e tudo. Só que ela disse: “Aqui você não vem mais que você me lembra que eu fui pobre!” (Riso) “Que eu fui rica!” (Riso) E ela continuou sendo impossível, ninguém conseguiu dominar a raiva dela ter voltado a ser pobre (riso).

 

P/1 – Escuta, com que idade a senhora veio pra São Paulo? Veio sozinha ou veio com alguém? Com irmã, com irmão, com alguma família?

 

R – Não, eu estava, assim que eu me casei não tive trabalho na cidade que eu morava, que era Batatais.

 

P/1 – A senhora casou lá?

 

R – Casei em Ribeirão Preto e depois de casar fomos morar em Batatais porque o meu ex-marido era jogador de futebol. E ele não tinha trabalho, eu resolvi lecionar. Deixei meu filho com minha sogra e fui lecionar em Adamantina. E depois disso eu, lá no sítio não tinha como gastar dinheiro; juntei dinheiro e vim para São Paulo, convidando o marido pra vir para São Paulo.  E ele não aceitou em procurar casa, quando chegou, eu mesma tive que procurar. Quando eu tive que procurar, disse pra ele: “Não, eu vou me divorciar porque você não tem o tino de avançar, né?” Eu acho. E nessa altura ele já gostava de namorar a minha prima e a prima dele. Estava dividido entre três mulheres (risos). Não sabia se ficava comigo ou com as duas primas (riso). Eu disse: “É melhor você ficar com as suas primas, né?” E disse: “Eu não tinha a intenção de me casar mesmo então deixa assim livre, eu sigo melhor o meu caminho”. E prosperei bastante. Depois ele veio me cumprimentar pela minha força de vontade. E acho que uma mulher não é necessariamente, ela tendo saúde, ela não depende de nenhum auxílio do homem. Mulher nenhuma! Se ela sabe se manter, se ela sabe trabalhar pra que ela está esperando a ajuda de alguém, né? A gente tem que saber se cuidar.

 

P/2 – A senhora falou que lecionou. A senhora se formou como professora? Como é que foi esse seu trabalho lecionando?

 

R – É, meu trabalho de lecionar foi muito curioso. Porque eu morei uma temporada no sítio quando criança. A minha mãe ela era rural. Bem dizer, né? A cidade de Brodowski ela tinha quatro ruas. Nós morávamos, bem dizer, em sítio. Afastado era sítio. E nós éramos acostumados com répteis, com sapos. Dividia as coisas com a natureza, né? E eu me adaptei a lecionar no sítio com uma imensidão de sapos e todos esses répteis passeando junto com a gente. E eu dormindo, e a parede casa de pau a pique, vendo olhos de jaguatirica me espiando a noite, né? Eu passei medo, assim, terríveis, dormindo sozinha, né? No meio de um sertão, local de uma areia tão intensa que um dia a minha aliança caiu na areia, precisou chamar trinta homens com a peneira! O prefeito, pra coar a areia pra retirar a minha aliança (riso). Veja que lugar eu me encontrava! Totalmente inóspito. Mas, esses dois anos que fiquei lá eu criei, assim, uma certa simpatia e antipatia também com a diretora. Porque aí depois não queriam deixar que eu voltasse, fizeram abaixo-assinado e a diretora ficou disse que... E fiz uma horta na areia. Isso daí foi uma coisa que me deixou muito orgulhosa. Porque eu me lembro que a confusão foi tanta por causa dessa horta. E eu chorava muito, e eu estava sentada à mesa; a minha hospedeira nesse dia disse assim: “Não, espera um pouquinho que eu vou pôr uma salada na mesa”. E pôs uma salada da horta que eu tinha feito na areia. Então era toda a areia assim em volta e eu procurei o solo onde nasceram as plantinhas, né? E ela veio e pôs aquela verdura assim no prato e eu achei aquela emoção muito forte. Disse, foi o momento mais lindo da minha vida. E disse: “Será que algum dia...” Era o mesmo que aquela pose do Pelé fazendo gol com a camisa dez (riso). Eu vendo aquela plantinha em cima da mesa e eu comendo a salada, conseguindo fazer a horta no deserto, né? (Riso) Porque hoje talvez seja muito mais fácil, não é? Mas naquele tempo a diretora disse que eu estava completamente louca, fazer um troço daquilo (risos). Então isso foi a minha maneira de lecionar no sítio antes de vir pra cidade.

 

P/2 – E os alunos? Seus alunos, como corresponderam a isso?

 

R – É, os alunos eles me achavam assim uma heroína. Porque até hoje eles perguntavam assim: um dia eu estava atravessando o Teatro Municipal, encontrei um rapaz e ele perguntou pra mim: “Professora! Eu não me esqueço: um dia a senhora estava dando aula e a senhora subiu na mesa de costa (riso). Como foi que a senhora fez aquilo?” E eu não contei pra ele que estava passando uma enorme cobra (risos) na frente, em cima do meu pé. Porque se eu mostrasse que eu estava com medo da cobra, eles perderiam o respeito por mim (riso). Então me afastei, subi na mesa de costa (risos). Ah! Tão engaçado.

 

P/2 – E a senhora dava aula do quê?

 

R – Primário, no primário. Depois, em Adamantina, eu lecionava Inglês e Francês no colégio comercial.

 

P/2 – Como a senhora aprendeu essas línguas?

 

R – Eu aprendi porque estudava sozinha. E depois no colégio, né? Fazia o ginásio, o ginasial. Tinha essas línguas, né?

 

P/1 – Deixa eu te perguntar uma coisa: dava pra você sobreviver com o seu trabalho?

 

R – O meu trabalho sempre foi triplo. Eu sempre trabalhei em três lugares.

 

P/1 – Como você falou que era sozinha então eu gostaria de saber como que você fez pra sobreviver, né?

 

R – É. Eu lecionava, da receita, das sete e meia às onze e meia eu lecionava no Sesi. Era na São Judas Tadeu com um padre. Westrupp, eu lembro só do sobrenome dele. Até tem uma praça com o sobrenome dele lá no São Judas Tadeu. Das onze e meia a meio dia e meia tinha um horário e em meia hora eu fazia meu cabelo, eu me arrumava, passava no cabeleireiro, né? (Riso). Almoçava com o meu marido. E vivi também com um italiano, um coronel da polícia militar. Vivi quase 28 anos com ele. Então ele vinha me apanhar de um serviço, me levava pra casa pra almoçar, eu fazia o cabelo porque à noite nós íamos sair pra jantar. Então o jantar era o quarto serviço, né? (Riso). Então eu saí. Depois à uma hora eu entrava pra trabalhar no serviço público onde eu dava atestado pras viúvas, né? Que elas iam requerer pensão. Então eu atendia da uma até às seis e meia, sete horas. Depois eu lecionava português pra guarda civil até às nove horas, nove e meia. E assim fazia esse período na Igreja Nossa Senhora do Rosário que era ali na Vila Mariana. Que era tudo perto, né? Das nove e meia. Esse era o terceiro serviço já que eu fazia, né? Eu já fazia os atestados, atendia mais ou menos umas cinquenta pessoas da uma até às seis. Depois eu ia, lecionava pra esses guardas, que era no número de 35, que a gente lecionava português pra eles. E às nove e meia meu marido me espera pra nós irmos jantar. E às onze horas íamos pra casa dormir porque senão não levantávamos cedo, né? Então nós saíamos, íamos pra conhecer os restaurantes da cidade e passamos alguns anos assim enquanto meu filho crescia. Até o dia que eu resolvi ir fazer faculdade.

 

P/2 – E a senhora foi fazer faculdade do quê?

 

R – De Ciências Sociais. Aí eu tive que deixar de lecionar pros guardas civis. E, vocês continuam a perguntar...

 

P/2 – Escuta, e esse trabalho, quanto tempo durou na sua vida assim? Esse tipo de trabalho, esses três?

 

R – É, eu fiz isso 31 anos.

 

P/2 – E hoje?

 

R – Hoje eu sou, recebo muitos prêmios. Tive o ano 2000 com grandes emoções que quase não pude caminhar porque a raça negra me colocou entre 50 pessoas de ouro pelos produtos cosméticos que eu fiz pra raça negra de altíssima qualidade. Porque uma vez, 1966, 67, por aí; nós fomos ajudar uma turma lá na zona leste que havia um hospital pra... Falamos assim: “Olha, vamos ajudar esse pessoal da zona leste? Fazer um hospital pra eles, alguma coisa”. E de repente nós fomos pra televisão pedir as coisas, acho que vai mais depressa, né? Fomos à televisão, chegamos lá e daí pra fazer nossa maquilagem? E nos passou uma coisa branca no rosto, e ficamos mascaradas. Falamos: “Jesus, que coisa horrível!” Já diria minha amiga doutora Maria da Penha, que hoje ela é famosa lá na Ordem dos Advogados, e ela é bem escurinha. Falei: “Doutora! Como a senhora ficou horrível!” Ela falou: “Maria do Carmo, você também está medonha! Nós vamos assim pra televisão?” E tentamos tirar, lavar e não saía. E pra não perder o programa nós fomos pedir com aquela cara mesmo. E os nossos amigos (risos) falaram assim: “Vocês ficaram com vergonha de pedir e mascararam de branco?” (Risos). “Vocês passaram máscara branca pra pedir?” (Risos). Mas aí choveu tanto donativo, sabe? E era um pedreiro só e de repente apareceu gente pra ajudar. Nós fomos lá, subimos... Valeu. Mas passado isso eu fiquei traumatizada com aquilo. Eu falei: “Mas não tem maquilagem pra negro! Não é possível!” Eu não tinha entendido isso. Nós fomos pesquisar e aí eu me dediquei à pesquisa disso. Fiz um levantamento, fiz um trabalho muito bonito. “Ah! Porque negro não tinha dinheiro pra comprar então ninguém... Negro não era estudado como pessoa pra comprar, pra pele”. Ninguém se especializava em estudar. Então descobri umas coisas lá. Juntei uma turma. “Ah é! Maria do Carmo vai fazer... Estuda nos Estados Unidos, estuda lá na Itália. Vamos ver se nós fazemos. Gastamos um dinheiro!” Um dia fizemos um desfile no Maksoud Plaza , quando vi a negra estava desfilando; ela ficou com o rosto todo branco. Não tinha descoberto coisa nenhuma (riso). E lá foi nosso dinheiro embora. “Ah! Que horror!” Nada disso. Começamos tudo outra vez, né? “Ah! Nós temos que acertar”. E acertamos, né? Depois de muitos anos, quando chegou em 83. Mas nesse trilhar eu fui fazendo muitos amigos, né? Amigos gostosos, sofredores como eu, né? (Riso). Passamos fome juntos. “Ah! Gastou tudo! Não tem! Não tem os químicos!” E quando foi em 83... Ah meu Deus! Apareceu um gênio lá, acertou tudo. Nossa! Deu certo. Aí nós começamos: pusemos um nome; lá, nos Estados Unidos, começamos a fazer e quando viu a sociedade não deu certo. A gente ficou uns quatro anos. Aí nós trabalhamos, fiz umas oitenta negras empresárias; e elas ficaram bem, né?

 

P/2 – Fizeram um curso do quê? Que elas faziam essas empresárias?

 

R – Não! Fiz com o produto, com a qualidade do produto. Aí elas começaram a vender, né? Despertou o tino comercial delas. E hoje elas vendem, né? Elas continuam aí trabalhando com cosmético. Se não trabalha comigo é porque não querem trabalhar. Elas: “Maria do Carmo, você ensinou pra gente trabalhar sozinhas, nós vamos trabalhar com outras pessoas. Com você não. Nós trabalhamos muito com você”. E agora eu cheguei a conclusão que não dava certo a mistura de branco com negro trabalhando junto. Eu falei: “Vou ter que fazer os cosméticos sozinha”. Então em 1987 eu fiz a minha empresa sozinha.

 

P/2 – De cosméticos?

 

R – É. Nós temos o alvará de fabricação e eu fabrico cosméticos que é famoso! Então tem na Suíça, tem na Alemanha. Então eu fiz pra raça branca, eu tinha feito pra raça negra. Quando um dia eu abri os olhos estava cheia de japonês na sala. Falei: “O que é isso? Está invertendo as coisas aqui?” Aí eu chamei a Magali do Camisa Verde: “Magali, está cheio de japonês aqui dentro, Magali! Me traz as negras! Onde estão as negras?” Aí a Magali chamou a turma do Camisa Verde e levou as mulheres tudo lá. Você não estava nesse meio não? (Riso) A Magali levou a turma lá desbancou as japonesas porque estava havendo a inversão das coisas, né? Mas as japonesas bateram pé: “Você vai fazer também pra japonês! Não é só pra negro!” Eu falei: “Está bem!” Então nós fizemos pra japoneses, fizemos pra gente branca (riso). Porque estava começando a haver um tumulto (riso) pra japonesas.

 

P/2 – Como chama a sua empresa?

 

R – Muene. Está aqui no chão. Aí nos fizemos pra alemães, pra japoneses, pra pele branca, pra sete cores de negros. E vamos vivendo calmamente. Sem grande coisa de ganhar muito dinheiro.

 

P/1 – Eu queria perguntar uma coisa pra senhora: voltando um pouco, a senhora disse que o ano 2000 foi maravilhoso. Qual é a coisa que mais marcou a senhora então no ano 2000 de coisa boa?

 

R – Foi uma volta de limusine que nós demos na cidade (riso). E ao chegar ao Teatro Municipal nós recebemos um troféu de honra ao mérito pelos serviços prestados à coletividade. Então foi assim uma coisa que eu nunca imaginei estar junto com pessoas de tanto valor e eu estar junto com eles. Então eu achei aquilo estupendo. Não era o que eu estava recebendo, mas era estar igualada junto àquelas pessoas de tanto brilho e orgulho que eles são pro país.

 

P/2 – E a sua contribuição também está sendo, né, nesse sentido. De valor, né, pelo menos pra raça negra justamente, né?

 

R – Eu sinto que está sendo porque eu estou vendo os artistas da Globo se encontrando e fala assim: “Não chega perto de mim com outra maquilagem não que eu só uso da Muene” (Riso). Quando um artista negro fala assim, não deixa a maquilador botar outro produto na pele dele, eu sinto recompensada. Quando alguém chega e diz: “Eu fui promovida no meu serviço pela minha aparência”. Eu sinto recompensada. Quando uma moça passa na Muene e fala: “Me faz uma maquilagem que eu vou procurar um serviço”. E ela volta e fala pra mim: “Maria do Carmo, a minha amiga não quis passar maquilagem, não aceitaram ela. Aceitaram a mim porque eu estava maquilada”. (Riso). Eu me sinto recompensada. Quando vem um casal e eles falam: “Maria do Carmo, eu olhei pra ela e não resisti esse batom que ela está usando. Vou ficar com essa moça! Olha que batom! Que boca mais linda que ela tem por causa do batom!” Ainda ontem uma moça falou: “Maria do Carmo, esse batom aqui me conquistou mais! Olha, fulano é uma riqueza! Me fez feliz! Me deu a maior felicidade! Eu acho que eu cheguei onde eu quero com esse batom que você fez”. Então eu acho que...

 

P/2 – E qual é a diferença dos produtos? Das cores? Fala um pouco disso. Como e que eles são? Qual é a diferença? Por que eles ficam mais bonitos?

 

R - É uma coisa assim: nós vamos responder de uma maneira que a gente só um dia deixamos um químico sozinho e ele não estava medindo as coisas certas. E estava pondo produto, matéria prima de má qualidade. Nós fazemos questão da boa qualidade. E resolvemos que lá dentro não entrava nada de ruim pra colocar nos nossos produtos. Nós pomos tudo de bom e nunca colocamos química. Ele é purinho, ele é natural.

 

P/2 – E as cores?

 

R – As cores também porque até a própria cor do sabonete ela é da irritação, né? As cores também nós selecionamos, é comível. Então é puríssimo. Por isso que vem sheik de Marrocos, vem gente de fora por causa dessa pureza. Nós trabalhamos com o coração, nós não pensamos no dinheiro. Chega lá: “Ah! Vamos fazer de montão, vamos espalhar por aí”. Tanto é que ninguém sabe quase da Muene. É um amigo que conta pra você que existe a Muene. Porque ele não faz publicidade. Se uma amiga te levar lá é porque é sua amiga, senão você não fica sabendo. E essa composição de bons produtos e a ciência desse nosso amigo químico que nós temos também, né? Nós temos que valorizar o químico. Agora: a Química (riso). Que agora é nossa mulher. Então além de curar; você passa, cura. É lecitina de soja, nós usamos muito, né? A base também ela rejuvenesce, ela faz uma série de coisas maravilhosas pra pele. Então você se sente muito bem. E esse benefício que causa também é um pouco assustador. Um dia nós estávamos fazendo demonstração na loja em Jundiaí; e passou uma moça com um problema tão sério no rosto e nós também tínhamos trabalhado pro Hospital do defeito da face. Nós vendíamos fósforos, nós éramos professoras. “Ai, vamos vender pra defeito da face. Nós temos umas crianças que têm problemas, queimadura na face.” Precisava aceitar, ajudar essas crianças. Vendemos pra esse hospital ali. Olha, daí eu peguei, a moça passou. “Puxa! Que coisa, meu rosto assim, né?” Eu falei: “Vem aqui que a gente vai passar alguma coisa pra você”. Passei um creminho, dei uma limpadinha e passei maquilagem. Ela se viu maquilada, ela sentiu uma alegria tão bem, né? Deu uma cobertura assim. Quando foi no outro dia ela voltou. Olha, estava tão ruim que o material que eu usei nela precisei jogar fora, não podia usar em ninguém. Aí no outro dia ela voltou lá, ela falou assim: “Ai, daria pra senhora fazer aquela maquilagem que a senhora fez ontem?” Eu falei assim (riso): “Parece que eu te conheço. Você não veio aqui ontem?” “Ah! Vim! Estive aqui ontem sim. A senhora não lembra que a senhora fez...” Olha, estava quase sã o que havia passado. Num dia só! Então eu fiquei assim encantada. Problemas sérios que tem assim na face e o curativo; o que nós colocamos pra sarar pra pessoa se sentir bem.

 

P/2 – A senhora tem alguma outra participação em movimentos, em grupo de negros além de fazer todo esse trabalho dos seus cosméticos?

R – É, acho que não. Eu vou visitar a Afrobras (Sociedade Afro-Brasileira de Desenvolvimento Sócio Cultural). A Afrobras fez esse movimento maravilhoso, eu estou encantada com a Afrobras.

P/2 – O que eles fazem?

 

R – Eles ajudaram sete mil negros, com bolsa de estudos este ano. A Afrobras fez esse evento que foi sensacional. Está com uma agenda maravilhosa pra repetir esse ano. Gente muito decente, eu estou orgulhosa de falar da Afrobras que estão seguindo uma coisa muito lícita, muito bem feita em favor do negro. E eu só visito, eu não participo. E eu tenho assim feito, inclusive eu escrevi um livro sobre as empresárias. E tenho a associação de empresárias: Meunacor – Mulheres Empresárias Unidas na Cor. Que a gente ajuda as empresárias que, às vezes, elas estão com problemas e a gente fala: “Você não tem uma conhecida? Então a gente vai tirar todos os produtos e vai pôr a sua criatividade aqui”. Aí ela passa os convites pros amigos e eles vêm no local ver o que elas produziram lá no centro da cidade.

 

P/2 – Pra você isso é enriquecedor também, né, esse ato. Porque de uma certa forma você está, você diz que não está assim envolvida diretamente com esses grupos negros, né? Mas indiretamente você está. Envolvida com os produtos, com o trabalho também de abrir esse espaço, né, pra empresária negra estar ali junto ao seu estabelecimento.

 

R – Ah, isso. Estou, sim. Estou também na Associação de Negros Progressistas, né? Eu faço parte, eu sou vice-presidente da Associação. E sou da Associação de Mulheres, eu sou presidente, eu digo assim: “Vocês precisam tirar essa presidente, ela não faz nada! (Riso) Não faz nada pela Associação de Mulheres! Porque eu não posso fazer tudo, então vocês têm que me substituir”. Daí elas falam: “Não! Tem que ser você mesma!” “Não, mas vocês precisam criar coisas, né?” E temos mulheres assim, coisas inéditas. Elas têm uma criatividade, mulheres negras assim, que criam coisas... Elas são muito brilhantes, né? Que são verdadeiros patrimônios nacionais. Nessa daqui de criar Associação de Mulheres eu encontrei assim as talentosas que foi uma coisa deslumbrante pra minha vida. Também me emociono muito. Tem mulheres fantásticas.

 

P/2 – E a Associação tem por princípio fazer o quê? Que tipo de atividades ela tem?

 

R – Ela tem por princípio colaborar com a empresária. Ela tem que despertar o tino comercial da empresária. Às vezes, ela não está assim bem direcionada pra fazer um negócio. Ela está lá em casa, costura. Ela faz costurinha pra fora; vem uma cliente tudo mais. “Escuta, mas você não queria fazer umas peças a mais e mostrar que você faz e ver se aumenta a sua clientela?” Então a gente mostra pra ela. Aí ela tem um cachorrinho que outro dia nós fizemos uma exposição de roupinhas de cachorrinhos. A turma lá fez as roupinhas de cachorrinhos lá. Todo mundo lá tinha cachorro; falei: “Chegou o frio, os cachorrinhos estão sem roupa”. (Risos) Apareceu um monte de gente pra comprar roupa pros cachorrinhos. Aí: “Ah! Põe um enfeitinho no cachorrinho”. Tudo é criatividade, né? Olha, elas fazem coisas assim belíssimas. E o objetivo mais é esse. A gente não tem mais essa ligação com uma outra. Eu acho que mais do meu lado, né? Que eu faço, do que propriamente frequentar uma outra sala lá. Por exemplo, vou nos ensaios da Vai-Vai, eu vou na Associação tal, frequento tal. Isso eu não faço. Mas a gente está ligado de uma outra forma, né? Como você percebeu, né Cida?

 

P/2 – Você abre espaço pras pessoas.

 

R – É.

 

P/2 – Isso é importante.

 

R – Acho que isso é um espírito maternal que a gente tem, né? Que a gente quer oferecer mais coisas se possível.

 

P/1 – Posso fazer uma pergunta fora disso aqui? A senhora teve alguma grande decepção na vida?

 

R – Eu tive decepções, acho que todo mundo tem, né?

 

P/1 – Mas uma que tenha marcado.

 

R – (Pausa) Eu acho que está pra vir uma que vai... Dentro dos cosméticos eu tenho tido assim fortíssimas decepções.

 

P/1 – Então é dentro do seu trabalho?

 

R – Dentro do meu trabalho. É, eu tenho dormido com o inimigo. Eles deitam lá comigo querendo saber tudo, de que maneira me derrubar, acabar comigo, o que faz, porque não pode, está atrapalhando, né? Uma coisa assim impressionante. Isso é uma coisa assim decepcionante. Esse é...

 

P/2 – Você sente decepção nesse ponto?

 

R – É. Eu sinto.

 

P/2 – Mas o que é que te causa mesmo essa decepção?

 

R – O que me causa, por exemplo, eu vou procurar um... Como eu estou no momento. Eu procuro um designer para mudar linha das embalagens. Ele vai fazer as embalagens. Olha, essa decepção foi uma coisa terrível e isto está acontecendo muito na nossa política, né? Então ele disse pra mim: “Traga teus produtos todos pra eu ver. Pra gente mudar as embalagens”. E é normal; você leva. Então é um negro, ele é um médico dermatologista, é um designer famoso, é uma pessoa de respeito. Você leva os produtos lá pra ele ver; aí depois finalmente ele diz pra gente assim: “Olha, eu fiz uma linha igual a sua”. (Pausa) “É. Em vez de eu fazer os produtos de designer pra você, eu fiz pra mim”. Aí ele falou: “Eu não tenho nada pra falar pra você. Você pode levar seus produtos que eu já copiei tudo”.

 

P/1 – Ai isso foi uma grande decepção isso?

 

R – É muito frio isso! Eu achei muito frio. Aí eu estava assim tão inconformada; daí um dia eu estava sentada assim conversando com a minha gerente no banco, ela falou: “Maria do Carmo, eu aumentei seu limite”. Eu falei: “Que bom que você aumentou meu limite”. Eu falei: “Você aumentou meu limite”. Fiquei parada assim, olhei, e vi esse fulano que fez isso pra mim sentado lá no fundo. Eu falei: “Olha, aquele fulano lá me aplicou uma. É um fulano que fez uma linha”. Olhei pra ele, fez assim. Ela falou: “Ah! Que bom! Ele está passando por uma! Ele está afundado que não vai se levantar nunca!” Ela me falou isso (riso). Eu falei assim: “Pode ser que não seja verdade, mas que isso aí me confortou”. (Riso) Isso me confortou porque não ajudou ele em nada ele ter me feito isso, né? Foi muito frio!  Me falou assim: “Não tenho nada pra conversar com você”. E agora nós conversamos, eu falei: “Eu precisava de um designer pra fazer a linha dos meus perfumes”. Falei: “Não, preciso fazer um desenho”. Aí, infelizmente eu tenho que passar, eu tenho quinze fornecedores, eu tenho que passar pra um pra fazer o designer, a linha de um perfume. Eu não tenho o vidro certo pro perfume. “Olha Maria do Carmo, fui lá em Minas Gerais, Belo Horizonte; fui lá no Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro eu sorri até aqui pros produtos. Não põe defeito nenhum. Pro Rio está uma beleza”. Lá no Rio de Janeiro, na casa do barbeiro: “Você tem que procurar um designer lá em São Paulo que é esse o homem, tem que ser esse o homem que é pra poder botar nos produtos aqui”. Então nós fomos procurá-lo; antes de ontem nós fomos. “Você marcou comigo cedo, você chegou atrasada, Maria do Carmo!” Eu falei: “Não, eu deixei um recado falando que eu não podia vir cedo porque eu estou com um problema; eu não podia vir cedo então avisei que eu vinha às onze horas”. “Pois é, me deram o recado só agora, às onze horas”. Então ele estava mal humorado. Falei: “Tudo bem, né?”  Mas ele é um gênio o homem. Aí ele fez a mesma coisa do designer. Pegou e falou pra mim: “Nós vamos escrever primeiro o que vai ser feito”. Aí ele falou assim: “Nós vamos fazer assim, assim, assim, assim”. Falei: “Nós não íamos ter uma pessoa aqui pra escrever o que nós íamos fazer?” Falou: “Não! Primeiro nós vamos fazer isso aqui e depois nós vamos escrever.” Aí, vamos cair na mesma, né? Eu vim decepcionada. Aí ele diz assim: “Como é que você faz esses produtos?” Essa pergunta me gelou. “Como é que você faz esses produtos?” Então ele quer saber como é que eu faço, o que tem no produto. Quer como? Porque eles ficam desesperados porque querem fazer igual. Querem também a mesma qualidade. E é essa qualidade que cria o clima assim de competitivo de uma forma impressionante. A gente precisa ter muito equilíbrio porque vem de todo lado a coisa. A qualidade é embaraçosa. Bem, falei demais.

 

P/1 – Agora a última pergunta: O que fez a senhora vir fazer a entrevista com a gente?

 

R – Eu vim porque tudo que é pra registrar, uma coisa que possa beneficiar alguém, eu estou sempre disposta. E achei que se for pra guardar alguma coisa que sirva de exemplo, e eu acho que eu tenho alguns exemplos que possa servir pra alguém. Eu falei: “Se for pra eu deixar algum exemplo eu iria até lá”.

 

P/1 – Quem que indicou pra senhora o Museu da Pessoa?

 

R – Quem indicou a mim? É a mesma pergunta que eu faço (risos).

 

P/2 – A gente está no final, tem algumas coisas que ficaram lá pra trás que eu fiquei muito curiosa. A senhora falou lá do princípio de uma convivência sua com o Portinari. A senhora chegou a conhecê-lo? Ele já pintava lá em Brodowski? E como é que foi isso?

 

R – O Portinari ele costumava, nos finais do ano, ele vinha e jogava moedas pra criançada de pés descalços, né? (Riso) Na rua. Então a gente ia no final do ano lá no portão: “O Portinari está aí!” Então dia tal e ele vinha, jogava as moedas pra nós. E moedas, eram balas, e uma outra eu vinha e trazia bonecas pras crianças da cidade. Nós íamos lá retirar. Então a gente conhecia o Portinari. E a tia dele era minha madrinha. Essa tia do Portinari era madrinha de quase todas as crianças da cidade. Ela tinha uns noventa e eu era a nonagésima nona afilhada dela (riso). E esta que dava a janta que servia pro almoço. A gente já fazia o suficiente pra dar almoço e janta pra minha família. Então a gente conhecia.

 

P/2 – Lá atrás também a senhora falou do carro do seu pai que ele rodava a manivela e fazia ele andar. Como é que esse carro chegou na mão do seu pai? Era só esse carro que tinha na cidade? Como é que foi essa história?

 

R – É. Essa história era de um mecânico. Meu pai se dava demais com o mecânico Biju, chamava-se Biju. E aí passava carros lá pra consertar e então deixavam o carro e o Biju ia ficando lá com as peças. E meu pai também mexia com a mecânica. E montaram o carro. E meu pai então ficou com o carro pra ele porque o Biju não tinha tempo pra estar porque ficava na oficina e quem ficava com o carro era o meu pai. Aí quando meu pai morreu o carro ficou totalmente abandonado aí todo mundo ia lá buscar a peça. E o carro foi novamente desmontado outra vez.

 

P/2 – Eu também queria perguntar pra senhora em que ano a senhora chegou em São Paulo?

 

R – 1960.

 

P/2 – Qual foi a impressão que a senhora teve da cidade quando a senhora chegou? Como é que era São Paulo em 1960?

 

R – Era tumultuada. Muito cheia; não se conseguia entrar em ônibus, né? Apavorante. Deixa a gente completamente insegura. É assim, comparável a se estar lançada no espaço. E nada te segura. Completamente insegura de tudo.

 

P/2 – E mesmo assim a senhora resolveu ficar.

 

R – É, eu resolvi ficar porque eu tinha minhas primas aqui. Eu acho que sem parentes fica bem difícil pra qualquer um que chega.

 

P/2 – E como é que era seu lazer nessa época em São Paulo? O que tinha aqui? Aonde a senhora passeava? Que cara tinha essa cidade pra senhora?

 

R – Esta cidade, a gente fazia a mesma coisa. Era só um passeio a pé, a gente ia olhar as praças como a gente fazia no interior e também ir a um cinema.

 

P/2 – O que a senhora assistiu? Que filme a senhora lembra?

 

R – Não, isso eu não vou me lembrar. Eu acho que eu fui pouquíssimo ao cinema.

 

P/2 – E as praças eram quais?

 

R – As praças era assim... Nós riamos muito porque falava assim: “Ah! Você já tirou fotografia lá na Estação da Luz?” (Riso). Era aquela Praça da Estação da Luz.

 

P/2 – Entendi. Então esse era um passeio normal de ir.

 

R – É.

 

P/1 – Museu do Ipiranga e a Praça da Luz, não é isso?

 

R – Isso mesmo.

 

P/1 – Eram os passeios.

 

R – Exatamente. A gente andava ali. Ali no Ipiranga, inclusive, eu tinha uma prima que morava lá praquele lado.

 

P/2 – Mais alguma coisa, Maria do Carmo? Tem alguma coisa a mais?

 

R – Não, é que ficamos essa resposta: eu não ouvi falar do Museu da Pessoa. É muito curioso porque ainda por telefone a Clarissa me falou e eu falei: “Meu Deus! Museu da Pessoa? Isso é muito interessante. O que será?” Eu sinto o coração... Meu coração está assustado como todos os corações da nossa época desde o dia que eu li o livro “1984”. Já leu esse livro? (Riso). Que a gente já não tem mais privacidade, né? E que todo mundo entra nas nossas coisas. Então eu digo assim: “Talvez queiram adentrar nas minhas coisas, ver minhas coisas”. Mas de perto eu acho que já não há mais sigilo em coisa nenhuma. Então não tenho mais também temor de mais nada. E eu digo sinceramente: eu gosto de viver perigosamente (risos). Eu gosto do desconhecido (riso). Também tem isso.

 

P/2 – Certo. E o que você achou? Qual a sua posição assim diante dessa entrevista? Como é que você se sentiu durante todo esse desabafo assim?

 

R – Eu me senti assim na esperança de conhecer outras pessoas através daqui. Espero conhecê-los.

 

P/2 – Certo. Resta agradecer a você.

 

P/1 – Muito obrigada. A senhora foi muito simpática.

 

R – Ah! Vocês também. Foram simpáticos em ouvir tanta asneira (risos).

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