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História

O homem tem que ter gratidão

História de: Roberto Antonio Gonçalves Dias
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/02/2021

Sinopse

O paranaense Roberto Antonio Gonçalves Dias narra sua trajetória profissional até ingressar como propagandista do Aché, fazendo referências aos pais e experiências anteriores. A partir daí descreve as dificuldades, fatos engraçados da carreira em venda, da relação que forjou com a empresa, como seu trabalho se relaciona com a sua família, além de sua visão sobre a vida profissional.

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História completa

P/1 – Roberto, queria começar pedindo para você me dizer o teu nome completo, data e local de nascimento.

R – Meu nome é Roberto Antonio Gonçalves Dias. Eu nasci no dia 20 de agosto de 1960, em Londrina.

P/1 – Onde você vive até hoje?

R – Onde eu vivo até hoje.

P/1 – E foi lá que você conheceu o Aché?

R – Sim. Minha esposa trabalhava em um consultório médico, aí eu já tinha.... Não sabia como era o trabalho, mas via aquele pessoal de pasta, em bons carros e eu pensei comigo: “Puxa, é nisso que eu quero trabalhar”. Eu perguntava para ela. Ela se informou e eu fiquei um ano correndo atrás. Tinha muitas deficiências assim, para os requisitos na época, porque precisava ter carro e nem carro eu tinha. Mas, deu certo.

P/1 – Qual foi a data de entrada no Aché?

R - 02 de maio de 1988.

P/1 – E você foi trabalhar em que área?

R – Em Londrina mesmo.

P/1 – Você lembra dos teus primeiros dias de trabalho?

R – Lembro.

P/1 – Como é que foi?

R – Porque, na época que eu entrei, estava... Entrou a ... Começou a Prodome, um outro laboratório. Quem era o meu chefe não pôde me acompanhar. Foi uma época muito tumultuada, assim, porque ele estava... Ele era supervisor da minha divisão e da Prodome. Diferentemente, como as pessoas hoje têm um acompanhamento, uma boa orientação. Não que na época não fosse, mas como foi muito rápido, é uma dificuldade tremenda. “Como é que é? Quem são os médicos?” E eu lembro que, na primeira semana, a pasta pesada e eu estava muito nervoso. Eu deixei, coloquei na mesa do médico, na hora que eu me despedi, eu estava na porta, ele falou: “Ô, deixa a cadeira.” A pasta tinha enroscado na cadeira e eu saí de costas, puxando... Você vê, que aquela semana, eu falei: “Meu Deus, que eu estou fazendo? Onde eu entrei?”

P/1 – Qual que era a dificuldade maior?

R – A dificuldade era entender todo o processo, porque também tudo era novidade... Concorrência, os remédios, o endereço do médico, consultório. Tudo foi novidade.

P/1 – E aí você ficou vários anos trabalhando. Nesses anos essa rotina do propagandista mudou muito?

R – Ah, muito. Muito.

P/1 – Em que sentido?

R – Até na própria qualidade do trabalho. O pessoal fala às vezes: “Papagaio de pirata”, a gente falava, nem sabia o que estava falando. Hoje, a gente tem uma noção muito maior, conhecimento maior. Houve uma evolução em todo o sentido. E também tinha, por exemplo, para você viajar... No começo também era carro próprio, carro velho... Então você empurrava o carro várias vezes… [risos] E, enfim, mudou muito.

P/1 – Você viajava por qual região?

R – Depois de um tempo eu passei a viajar na região do Norte Velho.

P/1 – Como é essa região? É de Londrina?

R – De Londrina. É.

P/1 – Tá. Mas, é uma região mais pobre?

R – Sim, tinha lugares lá bem pobres mesmo. Mas, basicamente, concentra o que uma cidade comporta.

P/1 – E nesses anos de trabalho, algum remédio, alguma campanha te marcou mais?

R – Olha, eu trabalhei uma época com Mylanta Plus e nós entregávamos, assim, um vidrinho que tinha pimenta. A gente ouvia história do médico esquecer e dar para o paciente como se fosse amostra, e chamou bastante atenção. Depois, nós entregamos iodo, quer dizer, com aguardente. Tive também outros medicamentos em cada campanha que até hoje o pessoal comenta.

P/1 – E em relação aos médicos, tem algum relacionamento com médico que tenha te marcado de forma especial?

R – Isso que eu estava dizendo no começo, que tudo que é estranho, com o tempo, você vai vendo que você dando... São seres humanos também… E consegui fazer algumas amizades. Mas, tem uma coisa que me chamou a atenção, eu lembro isso. Eu trabalhava, eu fui em Londrina. Eu fui no hospital numa cidadezinha perto de Londrina visitar um médico, me anunciei para a secretária, para a enfermeira, e ela pediu para que eu aguardasse. Aí, ela: “Pode entrar.” Só que eu estranhei porque era uma pessoa nova que estava ali. Passou no corredor, eu perguntei do médico, ela entrou, falou: ‘Pode vir.” Eu vi que eu estava indo para um lugar e falei: “Eu nunca visitei para cá” Ela confundiu, ela não sabia que eu era um representante, porque na verdade ele estava internado. E foi uma segunda de manhãzinha, estava internado. E a hora que eu cheguei, fui chegando, fui percebendo, perguntei para ela como é que ele estava e ela falou: “Está aqui há uma semana, o estado dele não é muito bom.” Aí, eu não podia chegar ali e fazer: “O senhor está bem e tal. Eu estava aqui na cidade, aproveitei, vim lhe visitar.” Porque realmente, além do lado comercial, eu gostava muito de falar com ele. Eu aprendi muito. Ele era uma pessoa de muita experiência na vida. E nós começamos a conversar. Aí, eu falei para ele, eu estava com a pasta na mão, falei: “Eu vim lhe visitar, tal, doutor. Eu não sei se o senhor gostou.” Eu vi que ele começou a me dizer umas coisas assim... Eu estava... ele tinha mandado eu sentar. Aí, me aproximei do leito dele e ele falando... E nós conversamos coisas ali que normalmente não se conversa em consultório. E ele disse da alegria dele de ficar ali sozinho, ele estava lendo um livro, contou do livro, contou passagem da vida dele e eu então percebi que ali não era o médico. Porque mesmo que a gente converse algumas coisas um pouco mais, você tem um maior conhecimento, nem sempre você consegue ter uma intimidade. E eu fiquei muito feliz naquela conversa e percebi que ele também. Aí, falei que eu estava trabalhando, tal, de remédio, fiz a exposição, a gente conversou. Ele foi muito gentil, me dizendo o seguinte: “É, mas você está aqui para trabalhar, né?” Eu falei: “Poxa, doutor, eu fiquei tão feliz, né?” Foi uma.... Eu saí lá fora e segui viagem. Até hoje me lembro que aquilo me fez muito bem, foi muito bem. Foi uma coisa que me tocou muito. Faz alguns anos, mas...

P/1 – Que cidade foi? Você lembra?

R – Foi em Jaguapitã.

P/1 – Jaguapitã?

R – É.

P/1 – Norte do Paraná?

R – Norte do Paraná.

P/1- E você tinha muitas saudades de casa? Como é essa relação da família com o Aché? Você me contou de um presente que foi dado para a sua esposa?

R – É. Uma vez, nós ganhamos do Aché um prato em homenagem às mães. Eu entreguei para a minha esposa e ela colocou na sala. Aquilo está lá até hoje. Porque, na verdade, como eu te disse no começo, tudo é novidade, a dificuldade inicial, a família se envolve… Depois vieram os filhos, os filhos participam, a esposa participa.

P/1 – Quantos filhos são?

R – Dois garotos. Eles sabem do meu trabalho, a esposa sabe até a semana que tem reunião, quer dizer, muda o humor, quando não vende bem… Ela convive bastante, participa bastante.E estando no Aché, não tem como a família não participar porque você assim, com a tua vida, o Aché faz parte. Não é... Eu percebo assim, não sei se acontece com todos, a relação que você tem com o trabalho não dá para dividir. Às vezes eu vejo as pessoas falarem assim: “ Ô o trabalho, trabalho em casa.” Não que eu leve problema, não é questão de levar o problema. A questão é que o trabalho faz parte da minha vida. E a gente se identificou tanto com a empresa, porque eu consigo aqui aproximar assim, às vezes, a razão do coração. Eu acho que não saberia também só trabalhar para o lado financeiro, porque se conquistei também alguma coisa foi através do Aché e o próprio desenvolvimento. Eu, como disse para você, tive muita dificuldade de entrar porque eu, quando era adolescente, falaram para mim que nessa área de vendas eu era condenado porque eu era gago. Fui gago muitos anos. E eu ficava: “Puxa vida, mas por que foi acontecer isso comigo?” Graças a Deus, entende? Aprendi bastante, lutei muito, mas o Aché deu oportunidade. Eu me desenvolvi muito como pessoa, né? Não dá para você separar somente quando tiver na empresa, dizer assim: “Olha gente, eu trabalhei, entendeu?” O meu crescimento... Porque eu entrei no Aché com 28 anos. Você vê pessoas de 21, 22 anos. E daí a pouco, até os 28 anos, eu demorei muito para desenvolver. E a partir dos 28 anos, eu entrei no Aché, tal, eu caminhei nesses últimos anos o que eu não fiz. A gente era... Quer dizer, não tinha condição financeira.

P/1 – E nesses anos você sentiu muita diferença e como é que o trabalho vai mudando?

R – Sim. Relação de você com o médico… Já vai chegando uma maturidade profissional mesmo. Não que antes eu não fosse, mas você trabalhava e você fazia propaganda. E hoje... Nós tínhamos outras atribuições, você vendia, vendia em farmácia, cobrança, tal. E hoje, você também é responsável, você sabe o resultado final. Porque antes era mais geral. Hoje, as informações, assim, a própria modernidade, então está mais específico, entendeu?

P/1 – Você falou que se identificou com o Aché, né? O que mais te agrada na empresa, qual que você que é a característica mais marcante?

R – Olha, eu vejo o seguinte: eu sempre falei, e algumas pessoas discordam, tal, nós somos do ramo, tem uma concorrência, sem criticar ninguém. Mas o pessoal do Aché tem um algo mais que não é que trabalha mais que outra empresa, não quero desmerecer ninguém, mas nós somos profissionais. A pessoa quando é profissional, ela é profissional. E no Aché, eu percebo que tem um algo mais. Ele coloca, faz coisas além do profissional, entende? Tem... Eu acho que coloca mais o coração, parece que a empresa é dele. Ele tem um amor nisso tudo e você pode pesquisar. Eu já fui em outras regiões, conversei. A coisa fica diferente… O pessoal trabalha mais, é mais humilde, não sei exatamente se são essas palavras.

P/1 – Mas de onde você acha que vem esse amor?

R – Eu acho que vem o seguinte, porque é uma empresa nacional. Os meus amigos que estão no Aché... Os que saíram, até muitos falam, que se arrependem, porque é outro esquema. Você fez, produziu, recebeu e acaba ali. E no Aché, a maioria foi dada oportunidade, porque para muitos laboratórios, eu tinha que ter experiência, é ou não é? Eu confesso, não tinha, acho que... Não seria aceito, vamos dizer assim. O Aché é assim, a mim e a muitos, deu oportunidade. Eu corri muito para ter oportunidade, eu precisava. Eu cheguei uma vez em uma empresa que eu trabalhava interno, depois eu fui bancário, mas eu queria trabalhar na área de vendas. E “não, você não tem experiência.” Eu precisava de uma chance. Precisava ter comigo o seguinte: “Eu pelo menos tentei” E no Aché o cara falou assim: “Não, eu vou te dar uma chance”. E estou aí até hoje. Eu aprendi, desde cedo, com o meu pai o seguinte: o homem tem que ter gratidão. E independente de emprego, de salário, não sabe o futuro. Mas isso aí, eu faço questão. Foi dada essa oportunidade e com essa oportunidade, além de eu cuidar da minha família, mas você fala: “Mas podia estar em outra empresa.” Mas foi o Aché que me deu essa oportunidade e também eu fui desenvolvendo os meus horizontes, as minhas perspectivas. Você passa a ter contatos com profissionais liberais assim de boa cultura. Isso te força a ler mais, aprender outras coisas, não fico fechado em um lugar. Tem contatos com diversas pessoas. Isso é muito rico. Lógico que o dinheiro é importante, mas o valor disso é inestimável.

P/1 – A tua experiência anterior de trabalho qual era?

R – Olha, eu fiz de tudo um pouco. Eu, desde os 9 anos, trabalho. Eu fui engraxate, trabalhei em uma série de coisas. Depois, eu já estava.... Eu cheguei até a ser bancário, ser bancário que parece que era o nível máximo que eu ia. Houve uma intervenção na época no banco que eu trabalhava, aí trabalhava aqui, ali. Trabalhei em confecção, fui pacoteiro, mas eu queria trabalhar com vendas.

P/1 – Por que esse seu sonho de trabalhar com vendas? Teu pai era dessa área?

R – Acho que eu falo demais, acho que é isso. [risos] Não sei. Eu gosto de... Porque no banco, um pouquinho antes de entrar a intervenção, eu trabalhava em uma área nos fundos lá, ficava sentado ali, escriturário. Aí, um gerente lá me colocou no atendimento ao público, num balcão na frente, que o banco era separado, e eu gostei tanto de conversar com as pessoas, gosto de fazer amizade. Conheci aqueles senhores, aqueles velhinhos ali, aposentadoria, que eu atendia eles… Eu tinha isso comigo. Eu achei que eu ia me dar bem com isso, entende? E eu gosto muito de conhecer, de conversar com as pessoas.

P/1 – O teu pai, por exemplo, ele trabalhou com o quê?

R – Meu pai, ele trabalhou muitos anos como motorista do Inamps [Instituto Nacional de Assistência Médica e Previdência Social]. Mas, ele foi... Trabalhou muitos anos na rádio. Ele, nos anos 1960 e pouco, gravou disco, ele tocava violão. E, talvez, foi daí, não digo porque ele tinha muita amizade, as pessoas gostavam demais dele. O fato é que, infelizmente, ele faleceu.

P/1 – A família é grande, de muitos irmãos?

R – Não. Foi daí. Eu via, eu andava com o meu pai e era a maior dificuldade lá em Londrina, porque ele tinha a maior atenção com as pessoas. Ele conversava com todos, as pessoas procuravam ele. E minha casa era cheia de gente. Eu falava: “Poxa, o meu pai não é um homem culto, não é homem rico” Mas tinha essa riqueza de amizade, de... Até hoje, as pessoas ligam, querem falar da saudade dele, você imagina eu? Eu tive essa convivência. Vai ver que a minha mãe também é assim… Vai ver que é daí… Eu, eu sou... Isso me encanta. E trabalhando, você trabalha, conhece pessoas, ajuda as pessoas. Eu tenho certeza que com o meu trabalho ajudei muita gente.

P/1 – E falando em futuro, o teu sonho como propagandista qual é?

R – Olha, eu acho que não para por aí. Eu tenho que dar sequência a essa riqueza, que eu consegui acumular nesse tempo todo, nessa experiência. E eu volto a estudar agora. Em Arte e Propaganda para me melhorar como representante e o meu trabalho também, dali que eu tiro o sustento da minha casa, tem que ser bom para mim, bom para a empresa. E também é você poder ajudar, contribuir. Porque tem pessoas que você fala: “Presidente da República, tal, são pessoas estratégicas, pode fazer algo por alguém.” Eu não penso assim. Eu penso que, qualquer pessoa em qualquer setor que ele esteja, ele pode, além de se ajudar, ajudar a família dele, ajudar alguém. Porque se cada um fizesse assim, com certeza, seria diferente.

P/1- Lá em Londrina vocês têm um grupo de voluntariado, de ação social?

R – Eu participo com um pessoal lá.

P/1 – Mas não é ligado ao Aché?

R – Não, não. Isso já vem faz tempo. Faz tempo, quando eu fiquei esse ano passado. O Aché é bom porque não dá para você acomodar. Quando você acha que... Aí, eu vi o ano passado, eu nem sabia o que era voluntariado. Um pessoal que eu participo, eu acho que eles nem sabem assim exatamente que a gente é voluntário, mas a gente tem um trabalho num lar com as crianças. A gente serve um café, domingo sim, domingo não. E quando veio o ano passado, foi aquele trabalho do Aché, nossa, foi um dia inesquecível.

P/1 – O que vocês fizeram nesse dia?

R – Nós fomos lá na maternidade e as crianças que nasceram naquele dia, a gente presenteou com um kit, um kit da esperança. E entrou em contato com as mães e elas ficaram... Eu fui num lugar muito, muito humilde, muito carente, mas foi uma felicidade muito grande. Foi um dia assim, se eu contar em casa, contar para os amigos, as pessoas ficaram te olhando: “Pô, mas a empresa, vocês não trabalharam hoje?!” “Não, nós trabalhamos, mas foi de maneira diferente.” Porque foi numa segunda-feira. E foi outro dia marcante. A gente vai falando, vai lembrando.

P/1- Por último, eu queria perguntar sobre a decisão da empresa de contar a sua história. O que você acha disso?

R - Olha, eu acho maravilhoso porque, às vezes, eu não... Eu falo o lado pessoal, eu não tinha essa preocupação. Esse dia, como falei do meu pai, eu fiquei, falei: “Meu Deus, cadê tal foto? Não tem uma foto, não tem um vídeo!” E você falar assim, igual a um balanço de uma empresa, não é a história da empresa porque são números, são frios. Não estou falando dessa história, falando isso porque a empresa é feita de pessoas. E cada um aqui tem uma história. Que confunde a vida dele com a história da empresa. Se você fica o maior tempo com a empresa e você ali tem emoções, tem alegrias. Aconteceram fatos engraçados, aconteceram coisas tristes. Nem sempre é um mar de rosas. E passou um ano, já vai para 14 anos que eu estou na empresa. Eu fico muito feliz de alguém ter tido essa preocupação e registrar tudo isso, Não é questão de um depoimento que é melhor que o outro, não é. Mas está lá, entendeu? É bacana mesmo, parabéns, quem teve essa iniciativa.

P/1 – Gostaria de concluir com alguma outra colocação?

R – Olha, eu tive... Esses dias que nós estávamos conversando um pouco. História engraçada. [risos] Não sei se dá para falar ainda?

P/1- Claro.

R - Têm muitas. Rapidamente, uma vez eu praticamente fiz propaganda para um cachorro. [risos] Porque eu fui numa casa numa cidade pequena, o médico não estava, eu fui na casa dele. Aí, ele de longe, eu não sei se ele acenou para entrar, eu peguei, abri o portãozinho e fui. Nisso, vem duas feras. Duas cachorras enormes. E eu tentei correr, mas aí sabe? Estava muito perto, só que os cachorros vieram e foram parando e eu segurando a pasta, fui afastando, falei: “Eu sou do Aché”, num nervoso ali, coisa que o cachorro fosse entender alguma coisa… [risos] Poxa vida, mas eu consegui chegar ao portão e me safar daquilo. Depois eu fiquei pensando: “Puxa, o que será que os cachorros entenderam que sou?” [risos] Depois eu ri muito sozinho. E outras histórias assim, do dia a dia.

P/1 – Pode contar mais alguma?

R – No começo, eu visitei um médico, e tinha uma brasília muito velha. Eu saí do consultório, já na hora do almoço, quase 13:00, tinha outro médico às 13:30 e eu vi que o médico veio atrás, mas ele parou no portão da clínica para conversar com outra pessoa. E eu sabia que eu tinha que dar um tranco no carro, mas fiquei com o médico ali, achei chato. “Pô, o cara vai me ver empurrando o carro?” Fiquei fazendo uma onda ali e tal, mas ele não saía, o papo ali foi demorando, tal. Aí, ele saiu, falou, conversou: “Você por aqui?” Aí, eu falei: “Doutor, ajuda a empurrar o carro?”[risos] Foi muito engraçado.

P/1 – E ele ajudou?

R – Ajudou. Foi engraçado, mas eu pensei: “Puta vida, imagina que o cara vai...” Mas, depois, a gente conversou, tal. Não tinha outro jeito, eu tinha que sair dali. Não passava ninguém, eu falei: “Sinto muito. Pois é, foi pifar logo agora.” Só eu sabia que, durante o dia todo, eu tinha que parar na descida, para na hora de sair, pegar no tranco. E uma vez, nessa mesma brasília, eu estava na clínica, chegou uma pessoa e falou: “De quem que é uma brasília bege?” Era minha brasília, eu fiquei quieto. Ele falou: “Não, porque está descendo lá.” [risos] Aí, eu tive que sair correndo...

P/1 – Tinha esquecido de puxar o breque?

R – Não, entrei no carro, tudo, olhei estava de freio de mão puxado. Eu falei: “Pois é, esqueci de puxar o freio.” Não sei o que aconteceu, ela começou vagarosamente a querer descer… Eu sofri muito no começo, por causa desse carro. O cara falou: “Você vai andar, você tem carro?” Eu falei: “Eu tenho.” Se é que pudesse chamar de carro, ele não perguntou que ano, que nada. [risos] Aí, um sufoco, viu? Passei uma BR , eu fui frear antes da BR e a Brasília parou depois da BR… [risos] Foi, nossa... caía tudo. Então, eu fui... O começo foi com esse carro aí, foi... Tem história, viu?

P/1 – Hoje, a gente ri, mas na época...

R – É, hoje o pessoal que entra, eu falo: “Nossa, mudou muito, mudou muito” Hoje é uma facilidade muito grande. E você... Acho que eu falei bastante.

P/1 – Não, não.

R – E você disse para eu concluir, eu queria dizer o seguinte porque tem coisa que você fala quando está na empresa. Eu tenho.. Você falou de sonho. Eu tenho um desejo, se um dia eu sair do Aché, porque nós temos também uma relação comercial. Eu tenho consciência disso. De repente, amanhã, depois, não é interessante para a empresa e tal, eu não misturo as coisas. Eu sou profissional, eu gostaria de nunca sair brigado e levar, poder falar isso aí: “Olha, um dia...” Ou me aposentar aqui, falar: “Um dia, eu trabalhei”, porque eu tenho certeza que eu melhorei de situação, como gente, como vida. Eu era um gago condenado e a minha vida mudou muito...

P/1 – Esse problema foi sendo resolvido com tratamento ou foi com a vida mesmo?

R – Foi com a vida. O único tratamento que eu tive foi uma vez que eu conversei com... O cara disse que tem um orador grego que colocava umas pedrinhas debaixo da língua. Demóstenes, um negócio, coisa assim.

P/1 – Demóstenes.

R - É. Por isso que eu venho, tem uns do Aché que vão na frente falar, eu fico admirado das pessoas que falam bem. Nosso patrão mesmo, fala bem, muito bem. Então, eu fiz: “Puxa vida.” Talvez a cura partiu daí.

P/1 – Que quando você entrou no Aché ainda tinha uma dificuldade?

R - Tinha, se ficasse nervoso... Se eu discutia, brigava contigo agora, eu... Depois tinha que ir lá na frente falar, era muito difícil. Quando adolescente, isso fez muito mal para mim. E eu não sabia que eu ia melhorar porque quando a gente fala melhor, o cara só pensa no lado financeiro. E isso na minha vida não é a primeira preocupação, por incrível que pareça. Hoje em dia, a gente fala tanto em dinheiro. Estou aqui, estou na empresa porque eu preciso também, mas... Então, o meu sonho é isso aí. Conservar isso porque eu consegui mostrar para mim que eu era capaz. Eu sou... Meus filhos, minha família, eles me respeitam. Alguns médicos que eu achava, que eu acho: “Puxa, o cara faz tantos anos de faculdade, é um doutor” Eu cresci com essa “puxa, um médico!” E eles me chamam, alguns me chamam pelo nome… Isso para mim é muito significativo. Pode alguém falar: “E daí?” E daí, que a minha realidade há uns anos atrás era muito distante disso aí. E hoje, eu sou feliz no que eu faço, sou feliz em saber que eu também sou útil, que eu posso ajudar outros colegas que estão iniciando. E eu passei muitas horas envolvido com as coisas do Aché. E nessas horas, a minha família esteve presente. Nós tivemos bons momentos de lazer com outras famílias que são do Aché. Nos finais de ano, durante o ano, a gente se reúne na casa de alguém, colega. E o Aché predomina nas conversas. Junta as pessoas, a gente quer falar do setor, das histórias, porque todo dia tem história. Você convive a maior parte do tempo com essas pessoas, não dá para falar da família... Para mim, é junto. Os amigos, a família, o Aché… Eu vivo isso, eu respiro isso e isso me fez bem, me faz bem. Assim, como a família vai continuar, embora até quando eu não estiver aqui, tomara que eu continue para eles, o dia que eu não tiver no Aché, isso vai continuar. Porque ser profissional, eu aprendi aqui, tal, se não for profissional aqui, vou ser em outro lugar. Porém, esse aprendizado, esse carinho, esse progresso que eu tive, eu devo à empresa. Eu não consigo tratar o Aché assim, como uma coisa fria, como uma... Uma empresa, entendeu? Se eu falo Aché, eu nem conheço as pessoas, mas foi alguém que me ensinou. Tem alguém que eu sou grato. Que me deu oportunidade, que teve paciência, me deu bronca, que... Eu sou uma outra pessoa. Você vai lá ver meus pais, ver professora e ver o Aché. Não pode ser uma empresa, deu baixa e acabou, embora eu não queira isso, entende? Estou falando para separar bem as coisas. Eu queria dizer isso aí, a minha gratidão. E se estou aqui também, faço por estar também, porque também a empresa não é uma casa de caridade. A empresa é uma relação comercial, como eu te disse. Mas, a gente falando em profissionalismo, as pessoas que entendem mais que eu, eu entendo eles, mas eles não vão me tirar o direito de eu dizer que... esse outro lado. Porque, não sei se a sua intenção era essa, eu estou contando coisas que eu sinto, não o que eu tenho, embora eu tenha uma casa, um carro melhor hoje, com o que eu ganhei no Aché. Mas, eu queria falar mais do que eu sinto.

P/1 – Ótimo.

R – Está ok?

P/1- Está ótimo. Muito obrigada pela sua participação.

R – Obrigado a você. 

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