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História

O homem que escutava

História de: François Moise Bamba
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/04/2020

Sinopse

Em um mundo onde todos estão falando o tempo inteiro chegou a hora de ouvir aquele que escuta. Em uma entrevista com muitas narrativas, reflexões, mitos, conhecemos François Moise Bamba, um contador de histórias africano, de Burkina Faso que cresceu rodeado de Griots, Djelis como se diz na sua língua, grandes mestres da oralidade e do conto, através de sua história de vida, conhecemos não só ele, mas a filosofia e a forma de se estruturar de um povo que nos ensina uma nova forma de ser. A história dele e as histórias que ele conta remodela nossa humanidade e sendo escutada, nos ensina a escutar.

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História completa

Onde eu nasci tinha o fenômeno dos cortadores de cabeça na cidade. Corríam rumores de que as pessoas cortavam as cabeças das pessoas e, com fórmulas mágicas, essas cabeças eram enterradas e viravam ouro ou diamante. Verdade ou mentira, a gente encontrava muitos troncos humanos sem cabeça. Teve até pessoas que foram presas, julgadas e reconheceram que tinham feito isso. Então, eu tinha saído - porque eu tinha pedido permissão ao meu pai. Então, eu voltei bem tarde e encontrei um monte de gente em volta da casa. As pessoas já estavam vindo apoiar a família com as condolências e tudo já estavam apresentando os pêsames à minha família, porque eles achavam que os cortadores de cabeça tinham conseguido me pegar e cortado minha cabeça. Foi quando me viram, que puderam me agarrar, e o meu pai me deu umas palmadas nesse dia. Quando eu terminei de chorar, ele reuniu todo mundo e contou essa história. Essa vez foi a primeira vez que me lembro de meu pai contando uma história..

Na escola de narração do meu pai, a gente começava para todas as crianças; a gente podia começar para três crianças e, antes do fim, a gente já estava em 50 crianças. Como a gente podia começar com 50 crianças, e, à medida que ia passando, alguns dormiam. E a história continuava até que o último que estava ouvindo dormisse. Enquanto tivesse ouvidos para escutar, a pessoa mais velha que está contando, nunca adormece. Ela só pode se calar quando, realmente, todo mundo dormiu. E estar deitado não quer dizer que a pessoa está dormindo. Muitas vezes aconteceu que a gente deitava e a pessoa adulta que estava contando, olhava... Pensava que estávamos dormindo e parava. A gente, deitado, dizia: "Não, não estamos dormindo, a gente está ouvindo". Então, aconteceu algumas vezes e eu tenho imagens que vêm na minha cabeça, onde eu vejo nós todos deitados e ouvindo, simplesmente, a voz da pessoa que contava a história embalando a gente. Isso fazia com que a mesma história fosse contada várias vezes, por diversas razões. Na escola do meu pai isso fez com que as crianças mais velhas cuidassem das mais novas, porque para que ele nos contasse uma nova história, era preciso que todas as crianças - dos maiores aos menores - pudessem contar aquela história sem se enganar. Então, entre as crianças mesmo a gente se reagrupava e tinha certeza de que todo mundo sabia contar, antes de ver nosso pai. Se estivéssemos em dez, seriam dez vezes. Se a gente estivesse em 20, 20 vezes. Se estivéssemos em 30, 30 vezes.

Como eu perdi meu pai bem novo, a partir da idade desses dez anos e meio, duas semanas depois da morte dele, eu comecei a ir para o mercado de Bobo para carregar as compras das mulheres brancas que iam fazer compras lá. Ou então, ajudar quando vinham estacionar e cuidar do carro para receber moedas. Um pouco depois, eu economizei e comprei uma caixa de engraxate. Eu engraxei sapatos durante oito anos, ao mesmo tempo em que ia para a escola, sobretudo para poder comprar roupas e ajudar minha mãe também. Quando eu ia para o colégio, como as aulas terminavam muitas vezes às dez horas, eu me levantava cinco da manhã, engraxava, conseguia um pouco de dinheiro, às sete ia para a escola. Assim que eu saía, às dez horas, eu ia dar esse dinheiro para minha mãe, que comprava os temperos, me dava e eu ia para casa cozinhar e receber meus irmãos menores que iam chegar da escola.

A gente tinha irmãos, pessoas que chamo de irmãos mesmo, que eram como família, onde, durante as férias, se tornavam quase como uma obrigação. Se as férias começassem hoje, e amanhã ou depois de amanhã, você não fosse procurar um ofício para fazer, ele, mesmo não sendo da sua família direta, vinha na sua família e, se você não dissesse: "Ah, não fui na marcenaria porque eu fui ver como é que solda coisas", ele te proibia de comer, e ninguém da sua própria família iria se opor a isso. Então, assim que as férias começavam, não precisavam dizer para a gente: "Vai buscar". A gente ía automaticamente.  Então, se eu fiz marcenaria nessas férias, depois fiz mecânica, depois a solda… O que permite você compreender um pouco o fundamento desses ofícios e também ter noção de todos os objetos que são fabricados por essas pessoas, porque você tem uma noção de como é fabricado, sabe que não é fácil e então vai tomar mais cuidado com as coisas. A marcenaria, a mecânica, a costura, a solda e todos os pequenos comércios, até uma certa idade, todas as pessoas da minha geração fizeram isso.

 Uma coisa que fica muito marcada para mim no meu percurso é essa qualidade da escuta, porque isso me segue em todo o meu processo. A escuta de mim mesmo, a escuta da mulher que escrevi para viver com ela, a escuta com as crianças que eu tive dessa relação. Antes disso, a escuta que tive com meus pais, a escuta no trabalho que faço hoje, a escuta que eu tenho num momento de encontro assim; então, essa qualidade de escuta me foi transmitida pelos contos. Por essa qualidade que é valorizada pela escuta. A partir do momento que isso foi o fundamento da minha educação, eu posso ter momentos de contornar a verdade, alguns momentos de mentira, mas a qualidade da escuta eu tenho. Essa escuta faz com que tudo que aprendo me sirva. Porque essa escuta me permite ver: "Isso me interessa, isso não me interessa". Para mim, se eu tivesse que aprender uma coisa fundamental que aprendi na minha infância, nessa educação, é essa escuta, essa escuta que leva a uma dimensão da tomada da palavra.

E por causa dessa qualidade de escuta mesmo tendo feito só um ano de contabilidade, eu cheguei nessa livraria onde tinha mais de 3.000 artigos diferentes e eu soube organizar,  criando fichas de estoque, entrada e saída e muitos documentos assim. O meu patrão, então, decidiu que eu não precisava de uma outra formação, que eu já tinha as capacidades de contador. Eu trabalhei sete anos nessa livraria como responsável pela loja, até encontrar o sobrinho do Sotigui, que montava essa peça de teatro. Essa consciência da escuta me levou a dar uma identidade ao personagem que eu deveria interpretar na peça. Então, isso me levou a receber o prêmio de melhor interpretação masculina em 1998. Foi então que formações e oficinas se seguiram e eu encontrei o Asani Koyaté, que estava montando a segunda edição do Festival do Conto, em Bobo. Como todas as pessoas que vinham participar do festival eram suíços, pessoas belgas, pessoas brancas, então, eles pensaram: "Não é possível que a gente vem para a África para trabalhar com conto e não tem nenhum contador negro junto conosco, uma pessoa para aprender a arte do conto conosco". Então, imediatamente, decidiram que eu que estava ali na equipe da organização iria participar da formação. Eu fui o primeiro cidadão de Burquina negro a seguir formalmente uma formação de conto. E durante essa formação, eu contei aquela primeira história que meu pai me contou. E todos os grandes contadores que estavam lá disseram: "Não só você conta bem, mas a gente também nunca ouviu nenhuma variação dessa história. A gente acha, então, que você pode realmente fazer disso o seu ganha pão".

Um dia que realmente me marcou foi o dia em que levei os livros dos contos coletados no meu vilarejo e que meu tio - irmão mais velho da minha mãe - pegou os livros na mão e falou "Ê! São nossas palavras que estão no livro aqui? Ele virou de novo, e disse: "Ê! São realmente as nossas palavras que estão aqui dentro". Esse momento é muito expressivo para mim, porque se tornava um momento de conclusão que ía para além da minha esperança. Eu não pensava fazer livro com essas histórias que me foram dadas, e a realização desses livros me abriu caminhos na minha prática... Então, para a gente concluir, esses livros de papel voltando para o vilarejo. É como se alguma coisa tivesse começado, tivesse dado toda a volta e voltado ao ponto de início.

Meu pai me disse que: Era uma vez um homem, e esse homem sempre viveu na rua, não sabiam como ele tinha chegado lá, quando, aliás, se perguntavam se ele mesmo sabia. Ele sempre viveu pedindo esmola, sendo que esse homem tinha um tio que não tinha tido filhos, e esse tio era extremamente rico. E ele tinha passado toda a sua vida buscando o seu sobrinho… Até a sua morte. Ele tinha deixado instruções para que continuassem buscando o seu sobrinho, para que ele se tornasse o único herdeiro de todos os seus bens. A história diz que ele acaba encontrando o sobrinho e levaram-no ao palácio. Ele se viu, de repente, no palácio com vários serviçais servindo-o, e tudo que ele queria como comida, ele tinha. Com a grandiosidade da casa, ele vivia bem. Mas para ele, ele estava sonhando. E toda noite, antes de se deitar, ele pedia que ele não acordasse desse sonho. Toda manhã quando ele se levantava, ele dizia: "Espero que eu não vá acordar desse sonho". Os empregados tentaram fazer ele entender que ele não estava sonhando, que ele estava na realidade, e ele continuava dizendo que estava sonhando. Então, eles decidiram adormecê-lo, levaram-no até a rua, pensando que levando-o até a rua, eles poderiam levar ele acordado até o palácio. Foi o que eles fizeram, eles então o adormeceram e o levaram de volta para a rua, exatamente no lugar onde ele sempre tinha vivido. No dia seguinte, quando ele acordou, ele disse que preferia que a sua vida terminasse com as lembranças dos bons momentos passados no palácio, e se deu então a morte. Com a surpresa, e sem que eles pudessem fazer nada  todos esses serviçais que o estavam servindo. Meu pai me contou essa história e viu que eu fiquei triste. Ele me falou: "Sim, François, essa história é, sim, triste. Mas eu te conto para que você vá além da tristeza"... “Não quebre o sonho de ninguém, qualquer que ele seja, porque um sonho nunca faz mal a ninguém".

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