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História

O homem não pode parar

História de: Carlos Alberto Dantas Santiago
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Infância em Casa de Pedra - MG, em vila mantida pela Companhia Siderúrgica Nacional. Universidade de Ouro Preto. Engenharia de Minas. Controle de Qualidade, na Mina de Conceição, em Itabira, pela Cia. Vale do Rio Doce. Mina do Cauê. Casamento com a Sr. Angélica. Três filhos homens. Mina de Timbopeba. Formação da equipe. Negociação com igreja e sindicatos em Mariana - MG. Superintendência da Mina de Urucum. Experiência com minério de manganês. Privatização da Cia. Vale do Rio Doce. Diretoria do Manganês. Redução da produção devida à crise energética. Mudança para o Rio de Janeiro. Cargo no setor Estratégico, na Administração Central da VRD.

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História completa

P/1 – Primeiramente boa tarde. A primeira pergunta que a gente costuma fazer é pedir para que você dê o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – O meu nome é Carlos Alberto Dantas Santiago, nasci em Teófilo Otoni, Minas Gerais, em 24 de outubro de 1951.

 

P/1 – O nome dos seus pais?

 

R – Meu pai Péricles Santiago de Souza, minha mãe Irene Dantas Guimarães Santiago.

 

P/1 – Carlos, você conhece um pouquinho a história de sua família? Um pouco a ascendência materna, paterna. Como foi esse movimento familiar?

 

R – Meu pai é do sul da Bahia, de Porto Seguro e minha mãe é do norte de Minas, Teófilo Otoni também. O pai de meu pai era comerciante, mascate naquela época. Vivia no sul da Bahia fazendo mascate e mexia com algumas fazendas fornecendo madeira para ferrovia, Ferrovia Bahia a Minas. Minha mãe também, meu avô era comerciante, mexia com pedras preciosas na região de Teófilo Otoni e comércio de um modo geral, até quebrar. Dizem que jogava muito, eu não o conheci praticamente e trabalhava nessa ferrovia, Bahia-Minas, na construção dela. Minha mãe foi criada na fazenda. Meu avô casou pela segunda vez com uma fazendeira da região, foi estudar em Teófilo Otoni. Meu pai também estudava em Teófilo Otoni e vieram a se conhecer lá. 

 

P/1 – Seu pai foi para Teófilo Otoni por quê?

 

R – Foi estudar lá. Ele morava no sul da Bahia, não tinha colégio. O maior centro da região era Teófilo Otoni. 

 

P/1 – Você chegou conhecer algum de seus avós? Tem alguma lembrança?

 

R – Conheci minhas avós. Minha avó materna, do segundo casamento de meu avô e minha avó paterna também. Meus avós eu não conheci.

 

P/1 – E a atividade de seus pais, a atividade profissional deles, como foi um pouco essa história?

 

R – Eu lembro mais recentemente, depois dos quatro anos. Meu pai veio para a região sudeste, região central de Minas Gerais, na zona metalúrgica para trabalhar no DNER, até então ele trabalhava numa pequena contabilidade, meu pai era contador. Ele estudava em Teófilo Otoni, fazendo contabilidade. Mexia com topografia também. Ele veio para trabalhar no Departamento Nacional de Estrada de Rodagem, na construção da antiga BR3, que hoje é BR40, sediada em Lafayete, veio como topógrafo. De lá fez um concurso para a CSN, foi trabalhar na Mina Casa de Pedra, município de Congonhas do Campo. Minha mãe era professora, veio acompanhando meu pai. Era professora do Estado de Minas Gerais.

 

P/1 – Seu pai quando muda, sai de Teófilo Otoni já estava casado?

 

R – Já estava casado com minha mãe.

 

P/1 – Você já tinha nascido?

 

R – Já tinha nascido, morei uns tempos com minha avó e minhas tias no sul da Bahia, que era difícil aquela época, até que ele veio para Lafayete e a família juntou novamente. Lá em Lafayette nasceu meu irmão, somos dois, Paulo, que trabalha na CSN e vínhamos então à Sertão ________ na Casa de Pedra quando ele foi para a CSN, e lá ele trabalhou na CSN até aposentar-se aqui em Volta Redonda. Eu vivi minha infância lá nessa mineração. Daí talvez essa paixão, mais tarde eu vim fazer mineração.

 

P/1 – Você tem alguma lembrança de Teófilo Otoni, você viveu até quantos anos ali?

 

R – Eu praticamente não vivi em Teófilo Otoni. Eu estive várias vezes depois de maior, quando criança. Nas férias normalmente a gente ia para lá, era um a maratona ir para aquela região porque... eu lembro que a gente pegava o trem em Belo Horizonte, fazia uma baldeação em Nova Era, pegava o trem da época da Vale. Ia à Valadares, pegava ônibus até Teófilo Otoni e nossa família, do meu pai principalmente, ia mais para o sul da Bahia. Aí tinha que pegar o trem novamente, ir para o sul da Bahia, levava alguns dias para chegar lá, passava as férias e voltava. Isso nos tempos de criança.

 

P/1 – Esse tempo você passou com suas tias, foi em Porto Seguro mesmo?

 

R – Não. Porto Seguro meu avô que era de lá, meu pai nasceu lá. Mas a família... meu avô morreu cedo e a família de minha avó era mais do sul da Bahia, na região de Caravelas, num lugarejo chamado Helvécia. É um lugarejo muito pequeno e tinha lá uma das estações dessa ferrovia Bahia-Minas, ela era comerciante e ficou por ali até que meu pai veio para Lafayete e ela veio junto com a gente. Ficou lá até falecer.

 

P/1 – E em Casa de Pedra, como é um pouco essa sua lembrança aí, como foi?

 

R – Casa de Pedra era um lugarejo cujo o empreendimento principal era a mineração da CSN, era uma vila operária da CSN e tinha lá uma vila operária dos técnicos e engenheiros e a gente morava lá. Foi uma boa fase da vida porque a gente tinha muita liberdade de movimento porque não tinha carro, uma vila tranqüila, o acesso não era tão fácil e a gente foi um dos primeiros a chegar por causa da primeira expansão da CSN, isso em 1954-1956, não me lembro muito, não recordo exatamente quando. Eu vivi lá a infância, fiz lá o grupo em Casa de Pedra, aí fui estudar fora, fazer o ginásio em São João Del Rei, mas sempre em contato com Casa de Pedra, tenho bons amigos lá na região. Foi uma coisa muito interessante da vida, viver lá naquele momento. Hoje praticamente a vila acabou, não tem mais essa memória desse local que a gente tinha vivido, mas existem muitas pessoas espalhadas que a gente encontra de vez em quando.

 

P/1 – Era uma vila que existia só pela mineração? Não tinha nenhum habitante...

 

R – Só pela mineração, chegou a ter aí perto de 2.000 pessoas morando ali e que se acabou quando ficou mais fácil o trânsito para Congonhas, o acesso ficou mais fácil e também pela própria política da Empresa de acabar com a vila. Isso tinha um ônus para a Empresa. Com isso acabou a vila praticamente. Hoje deve ter uma ou outra casa lá.

 

P/1 – Você ia visitar a mina, conhecer a mina nesse período?

 

R – Não, não, não. Naquela época não havia tanta preocupação quanto ao aspecto de segurança, nem patrimonial nem do trabalho. Acredito eu, pelo menos o que a gente fazia naquela época é inadmissível fazer hoje em dia. Me lembro que a gente ia para as instalações industriais, quando criança. Ia para a carpintaria, que era um recinto perigoso, aquelas máquinas de carpintaria são perigosas. A gente ia, aprendia o ofício de tornearia de madeira, mexer com serra. Ia para a borracharia da Empresa, brincava no meio dos pneus. Pensar hoje em dia é impossível. Mas tinha um grau de liberdade muito grande. Foi um bom período. 

 

P/1 – Tinha dinamitagem?

 

R – Tinha, mas a gente não via isso. Tinha dinamitagem e tinha uma coisa que eu me lembro que era muito marcante: o transporte da mina até o local de embarque da ferrovia era feito por um teleférico, o pessoal chamava na época de linha aérea. Era o teleférico que as caçambas levavam o minério até a plataforma para embarque. Vira e mexe havia algum acidente e essas caçambas caíam no mato. Chegava em casa: caiu a linha aérea. Requisitavam todo mundo, saia todo mundo correndo. Não raro o pai da gente saia para atender aquilo ali. E todo mundo se conhecia, conhecia todo mundo, tinha um ambiente bom. Vivia sem preocupações de segurança, de ladrão, de assalto.

 

P/1 – Como eram essas casas da Companhia, você tem alguma lembrança física delas?

 

R – Você tinha vários padrões de residências, você tinha uma coisa mais ou menos em castas. Você tinha a vila operária, onde tinham as casas mais simples, se não me engano eram casas de dois ou três quartos; alguns alojamentos de solteiros, pessoal que morava em Lafayette ou em Congonhas e ficava lá durante a semana e fim de semana ia embora. Tinha hospital, armazém naquela época, açougue, farmácia, correio. Tinha uma lagoa e do outro lado da lagoa tinha a vila da Administração, onde tinham os técnicos e os engenheiros, administradores, etc. Meu pai era técnico e morava nessa vila. Nossa casa era uma casa de três quartos, uma boa casa. As dos engenheiros eram casas maiores, ficavam numa rua separada.

 

P/1 – E dentro de casa, como que era? Quem exercia a autoridade dentro de casa, o pai ou a mãe?

 

R – A autoridade era dividida, todos dois tinham bastante autoridade senão... Meu pai era uma pessoa ímpar, tenho uma verdadeira admiração por ele, mas ele... quem conduzia mesmo as coisas era minha mãe. A hora que a coisa apertava ele que interferia. A interferência dele era uma coisa para se preocupar porque quando ele entrava na conversa é porque o negócio ia pegar.

 

P/1 – Tinha castigo, esse tipo de coisa?

 

R – Tinha castigo, naquela época o castigo era uma coisa muito marcante. O castigo pior era quando meu pai me batia, isso fazia parte do esquema educacional da época, era o castigo de não poder fazer as coisas. “Não pode fazer isso, não pode fazer aquilo.” Isso doía mais do que a pancada, você ficava impossibilitado de fazer o que queria, principalmente eu que gostava muito de jogar bola. Hoje não posso mais, mas joguei bastante. Morava em frente a quadra e às vezes ficava um mês, 15 dias impossibilitado de ir lá jogar.

 

P/1 – Só olhando da janela? 

 

R – Só olhando da janela, sem poder sair para jogar.

 

P/1 – Tem algum castigo que foi marcante?

 

R – Tem um que eu fiquei exatamente um mês sem poder sair de casa, nenhuma atividade que não fosse a escola. Foi uma travessura da época, uma mentira mal contada.

 

P/1 – Você pode contar?

 

R – Não há problema. A gente tinha um escotismo, a gente era escoteiro e tinha lá na nossa vila mais ou menos 10-12 meninos da mesma idade mais umas 7-8 meninas também da mesma faixa de idade e a gente saia muito junto, saia para nadar, passear muito de bicicleta ali perto. Numa dessas, tinha a reunião dos escoteiros, eu mais um colega saímos para ir e no meio do caminho resolvemos mudar de idéia. Em vez de ir para a reunião dos escoteiros resolvemos ir para o campo de futebol e ficamos lá até tarde. Nós nunca faltávamos. Aí chegamos em casa. “Onde vocês estavam?” “Estávamos no escoteiro.” Coincidentemente a pessoa responsável já tinha passado lá em casa e perguntado porque eu não tinha aparecido. Aí não deu outra... “vamos ver se você sai de casa.”

 

P/1 – E a escola, o grupo era dentro do vilarejo?

 

R – A Empresa, naquela época, mantinha a escola. A gente ficava a sete quilômetros de Congonhas, não tinha transporte diário. Quer dizer, tinha transporte diário mas os horários não casavam muito com os horários da escola. E naquela época, era política da Empresa, manter a escola. Inclusive minha mãe era professora dessa escola. Era uma forma dos próprios empregados... quando tinha ele e a esposa que pudesse trabalhar na atividade ali e atender as necessidades da Empresa, eles davam uma certa preferência. Então a escola era uma escola da Empresa, era uma boa escola. Para aquela época tinha um padrão de ensino bom, inclusive com merenda escolar. Tinha horta, a gente era obrigado a cuidar da horta. Essa horta, os alimentos eram usados na confecção da merenda escolar. O ensinamento já voltado para o coletivo, para ter alguns princípios de organização, de participação e tudo mais.

 

P/1 – Você chegou a ter aula com sua mãe?

 

R – Não, não fui aluno de minha mãe. Meu irmão foi aluno de minha mãe, eu não cheguei a ser.

 

P/1 – Minha mãe era considerada uma professora muito autoritária, sempre foi premiada como uma das melhores professoras ao longo da carreira dela. Eu vivi assim no meio, estudava muito. Eu era meio CDF, naquela época, talvez por exigência dos pais, que a gente estudasse mais, tinha que dar o exemplo. A mãe professora e você tinha que ser bom aluno, nisso não tinha muita reclamação quanto ao estudo. Estudo não era problema.

 

R – No ginásio que você teve que mudar?

 

P/1 – Lá não tinha o ginásio naquela época então eu fui estudar em São João Del Rei, colégio interno do Colégio Santo Antônio, era um colégio de padres franciscanos, estudei então os três primeiros anos do ginásio lá em São João Del Rei. Por uma questão de uma inadaptação alimentar, a alimentação do colégio foi piorando muito durante algum tempo, eu saí no final do terceiro ano e fiz o último ano já em Casa de Pedra, já havia ginasial lá. Fiz a quarta série do ginásio na escola ainda da CSN, já era um colégio estadual, lá em Casa de Pedra mesmo.

 

R – E essa experiência de ter estudado num colégio interno em São João, como que foi?

 

P/1 – Achei muito bom porque você aprende a se virar, a pessoa tem que ser mais independente, então cria desde já uma forma de você se tornar independente. Você não tem ali seu pai e sua mãe para te defender ou pra te apoiar ou pra ajudar a tomar uma decisão. Você acaba tendo que encarar aquilo, isso leva a você diferenciar as pessoas, saber quem é uma pessoa amiga, você vivendo num ambiente de vila de Empresa, é uma coisa muito protegida. Criança é sempre muito briguenta, brigava todo dia. No colégio eu aprendi até a não brigar, porque se brigasse apanhava dos padres. Isso foi se criando uma nova forma de ver as coisas e de aprender as coisa. Mas no quarto ano eu saí, fui para Casa de Pedra. Também nesse período eu aprendi um pouco a moderar o estudo. Eu já não fui assim tão brilhante aluno quanto no tempo de grupo, a gente já aproveitou para fazer as malandragens também, mas era interessante.

 

R – Os padres eram muito rigorosos?

 

P/1 – Eram holandeses, a maioria deles eram holandeses, 99% eram holandeses, tinha um ou outro brasileiro, eles eram muito exigentes. Uma escola européia, padres que viveram a Segunda Guerra, então tinham a dureza de ter vivido a Segunda Guerra então eram duros também no tratar as pessoas. Mas o nível de ensino era muito bom e isso foi altamente positivo pros anos seguintes, para alcançar resultado nos estudos depois.

 

R – Além dessa experiência no colégio de padres, você teve alguma educação religiosa em casa?

 

P/1 – A educação religiosa foi normal, meu pai não é religioso, meu pai não é católico, admite mas não pratica. Meu pai é espírita. Minha mãe é católica mas não é fanática, como se diz, normal, dentro de um esquema normal. Já a avó era bem católica. Então nós fomos acostumados, não havia cobrança. Você gosta, você vai, você tem orientação, o caminho é por aí, a partir daí você faz opção. Então a gente nunca teve, nem eu nem meu irmão, uma cobrança para admitir uma religião. Se você gosta, você vai, encara. Mas a maioria da minha família é espírita, eu sou o único que não sou.

 

R – E política, teve alguma forma de educação política?

 

P/1 – Acho que naquela época, meu pai... a gente se espelha muito no pai. Naquela época meu pai era do PTBista. Em Minas Gerais tinha muito de PTB, PSD e UDN. Meu pai era PSD, PTB, alguma coisa que valha. Mas sempre numa posição muito de direita. Me lembro que na época da Revolução de 1964, eu estudava em São João Del Rei e lá tinha o 11º Batalhão de Infantaria e teve uma comemoração grande quando as tropas voltaram após o dia 31 de março e eu lembro dos padres soltando foguetes, eu tinha uns 12-13 anos de idade. Em 1964 eu tinha 13 anos de idade. Aquilo pra mim não estava muito claro o que era, o nível de informação que a gente tinha, naquela época, era muito menor, a comunicação era muito mais deficiente, principalmente estudando num colégio interno. O que chegava de notícia era o que chegava pelo rádio ou o que faziam chegar até nós. Eu lembro de meu pai exaltado contra a postura do que seria chamada “esquerda” da época. Ele não admitiu muito essa postura do comunismo, dessas coisas. Ele era um socialista não comunista. Hoje ele está mais para socialista do que naquela época, apesar de... Meu pai não teve oportunidade de fazer curso superior, ele assumiu logo a família dele e dos irmãos que eram menores e que ele ajudou a criar. Meu avô morreu, ele tinha 14 anos. Ele só pode fazer curso superior bem depois, já trabalhando em Volta Redonda. Ao fazer o curso superior, ele fez Pedagogia, caiu a experiência dele e hoje ele é uma pessoa mais socialista, mas ainda sem muito enfoque, sem muito radicalismo.

 

R – E seu Segundo Grau, ou equivalente do Segundo Grau?

 

P/1 – O Segundo Grau eu fiz em Belo Horizonte, na mesma rede de colégios, Colégio Santo Antônio, também dos mesmos padres franciscanos. Fui estudar em Belo Horizonte.

 

R – Interno também?

 

P/1 – Não, eu fiquei externo, morei nesse tempo com uma tia, irmã de minha mãe, na família dela, depois fui morar numa pensão mais próximo do colégio. Então fiquei três anos em Belo Horizonte. Perdi o primeiro ano científico por causa de vagabundagem, começando a namorar... Naquela época se namorava um pouquinho mais velho do que hoje. A meninada hoje está mais esperta. Eu lembro que eu perdi o primeiro ano por vagabundagem mesmo, não teve jeito. Depois eu fiz o último ano em Volta Redonda. Meu pai ia ser transferido para Volta Redonda, eu vim na frente. Acabou que ele não foi transferido naquele ano e eu fui fazer vestibular em Ouro Preto. Então eu fiz o cursinho em Volta Redonda, integrado e os dois primeiros anos do científico em Belo Horizonte. Na época era Científico, hoje é Segundo Grau, estudei no Colégio Santo Antônio. Era um bom colégio, é um bom colégio ainda hoje em Belo Horizonte.

 

R – Como vocês se divertiam nesse período em Belo Horizonte?

 

P/1 – Bom eu toda vida fui fanático por futebol, então o número um era o futebol, os outros cinco também da cadeia ali minha maior diversão era jogar futebol, infelizmente não nasci com esse dom de jogar bola bem porque teria sido um craque, tentei bastante. Mas eu jogava, jogava futebol de salão principalmente, futebol de campo. A gente tinha time em Cidade de Pedra, jogava em vários times de lá, no colégio também tinham os torneios. Os padres europeus incentivavam muito o esporte, então a gente tinha oportunidade de praticar muito esporte no colégio, principalmente no colégio interno. E como toda vida eu gostei de futebol, me dediquei mesmo ao futebol, tinha instrutor, tinha tudo. Isso ajudava bastante. Fora isso, baile. Naquela época o bom era baile, festinha, cinema. Vida normal, digamos assim.

 

R – Qual era o grande baile em Belo Horizonte?

 

P/1 – Eu quase não ficava lá, eu era do interior. Quando eu ficava é porque tinha que estudar. Aí ficava estudando. Eu estudava razoavelmente. Ficava para estudar, às vezes ia para algum clube, tinha a Sociedade Jaraguá de Belo Horizonte, eu jogava bola, pegava um cineminha. Baile em Belo Horizonte era muito de festinha. Você tinha um aniversário, tinha a casa de algum conhecido, tinha festa na casa de um ou de outro. Mas eu ia mais em baile na região, meu pai ainda morava em Casa de Pedra e lá tinha um clube. A minha convivência era com aquela turma. Então eu ia muito a baile, eu tinha namorada lá, ia para lá para namorar e dançar. Chegava sábado com o caderno debaixo do braço, punha no lugar, na hora de ir embora pegava o caderno e ia embora (risos). No dia seguinte. O caderno só ia passear. Então quando eu precisava estudar eu ficava em Belo Horizonte mesmo.

 

R – Seu pai tinha alguma expectativa, sua família, em relação a sua profissão, como que era?

 

P/1 – Eu toda a vida quis fazer engenharia, isso foi uma coisa a seguir. Foi a primeira coisa que veio na cabeça foi fazer engenharia. Só que naquela época eu via engenharia como um... primeiro, engenharia civil, calcular, fazer conta, projetar. Esse conceito de engenharia civil ele viveu na minha cabeça durante muito tempo, até que eu fui parar em Volta Redonda e passei a conviver com outras atividades mais de perto. No mesmo espírito que eu estava morando em Casa de Pedra, apesar de já ter equipamentos, de ter convivido com o pessoal de manutenção, a gente não vivia isso porque já estudava fora, só ia lá nas férias para jogar bola, namorar, etc, quando eu fui para Volta Redonda, tinha a Usina Siderúrgica, tinha um programa de visita às usinas, freqüentemente estava dentro das usinas fazendo visita e tal. Eu gostei daquilo, achei interessante. E quando meu pai não foi para Volta Redonda, demorou a ir, um amigo meu falou “você vai fazer metalurgia?” Eu queria fazer metalurgia, só que eu queria fazer aqui na Fluminense, os dois primeiros anos aqui em Niterói e depois pedir transferência para Volta Redonda para fazer Siderurgia. Ele falou: “Vamos fazer em Ouro Preto?” “Vamos combinar o seguinte: se até tal data meu pai não vier para cá, eu vou fazer em Ouro Preto.” Acabou que meu pai não veio, fui fazer vestibular em Ouro Preto. Nunca imaginava que ia estudar em Ouro Preto. E lá nos primeiros anos eu tive uma das matérias, digamos que foi uma das fundamentais, que tem muita utilização na metalurgia...

 

[Troca de fita/Fita 1 – Lado B]

 

R - ... engenharia de minas. Mas eu não fui para Ouro Preto para fazer Engenharia de Minas, apesar de ter vivido na mineração durante 14 anos, não senti aquela influência de ter vivido ali para escolher a profissão. Foi uma decisão posterior. Confesso que deu certo.

 

P/1 – O vestibular era muito difícil?

 

R – Era difícil, naquela época ainda eram provas escritas, eram poucos matérias. Você não tinha aí sete ou oito matérias diferentes para fazer. Vestibular de Ouro Preto eram quatro matérias: Física, química, geometria e álgebra. Você pega geometria e álgebra que são de matemática, você tem praticamente três matérias. Todas elas eliminatórias e provas escritas. Normalmente tinham 50 – 60 – 80, sei lá quantas vagas, não se preenchia porque a maioria não tinha nota mínima para poder passar. Então eu acho que o vestibular era difícil. Eu me preparei muito para o vestibular, eu estudei, praticamente fiquei um ano estudando, fim de semana... só mesmo de domingo que eu largava os livros. Então me preparei muito para o vestibular. Não sei dizer o grau de dificuldade, se pudesse ser maior ou menor se eu não tivesse me preparado, isso é difícil avaliar, mas eu lembro de muitos colegas que não passaram. Também não havia aquela procura de 20 candidatos por vaga, coisa que o valha, eram cinco, seis, sete, não mais que isso. Talvez nem tanto. A procura para Ouro Preto naquela época era muito pequena.

 

P/1 – A sua era de quantos? 

 

R – Quando eu entrei, no primeiro ano, nós éramos 60 e poucos alunos e formamos mais ou menos o mesmo tanto. Alguns ficaram para trás, nós pegamos outros no caminho, mas mais ou menos o que entrou, saiu. A mesma quantidade 63, 64 alunos, por aí.

 

P/1 – Você foi morar onde lá?

 

R – Em Ouro Preto eu fui morar numa República. A República chamava-se Puleiro dos Anjos, ficava num dos bairros de Ouro Preto, Antônio Dias (?). Nós éramos nove pessoas que moravam lá. Essa república era uma das mais antigas de Ouro Preto, porém ela funcionava em outro local, na Rua da Escadinha e mudou para esse local onde funciona até hoje. Como era pouca gente, era um ambiente bem seleto. Naquela época a gente estudava. Hoje tem muita farra e menos estudos. Mas na hora de aproveitar, a gente aproveitava também.

 

P/1 – Como era essa vida de república, como vocês se organizavam?

 

R – Primeira coisa: era bem democrático. Tinha que ser democrático se não, não funciona. Então cada mês tinha um presidente, a nossa república adotou o presidente vitalício durante algum tempo. O presidente tinha a responsabilidade de pagar as contas, de angariar, de fazer a vaquinha para pagar as contas, prestar contas daquilo que foi gasto, contratar empregada, acertar com as pessoas, ver os problemas da república, negociar com a universidade – naquela época as repúblicas eram da Universidade. Então a manutenção era por conta da Universidade. Negociar, isso também fazia parte. Não tinham maiores problemas. A decisão era por unanimidade, não tinha esse negócio de dois contra, sete a favor. A decisão tinha que ser por unanimidade. Se um votasse contra, estava vetado. Ou todo mundo aprovava, ou não se acertava a coisa, até que se chegasse num acordo. Para ingressar novos alunos na república, ele tinha que ser aprovado por todos. Ele se candidatava... aí ele tinha que fazer média na república, o cara ia ser candidato, ficava freqüentando a república nas horas vagas para ser conhecido. Quem já não era, ia lá para ser conhecido. Às vezes a gente quebrava a cara, o cara fingia que era uma coisa e era outra. E tinha também o processo de eliminação, tanto de admissão quanto de eliminação. Então aqueles que não se adequavam, havia um processo também de eliminação. Eu lembro de um colega, nós tivemos um problema sério com ele, ________ de droga. Naquela época ninguém mexia com droga, bebia, fumava, mas droga era uma coisa ainda pesada. E nós descobrimos que um dos colegas estava mexendo com maconha. Simplesmente nós pedimos para ele ir embora da república. Os outros oito, nós o eliminamos da república. Hoje é diferente, mas naquela época funcionava dessa forma. A pessoa tinha que ter aceitação do grupo. Isso fazia com que o relacionamento, você convivia muito mais com a turma da república do que com a sua própria família, com seus irmãos. Então havia um relacionamento muito forte e democrático. Isso funcionava muito bem. Então esse fato levou que a gente aprendesse mais a comunicar, a se relacionar, ter mais facilidade para algumas coisas para a vida profissional depois.

 

P/1 – E o curso mesmo, como foi?

 

R – O curso de Engenharia de Minas, eles falam que é uma coisa de generalista. Aliás, você sabe a diferença de generalista para especialista? É que o generalista é um cara que sabe nada de tudo e o especialista é o cara que sabe tudo de nada. Nas cadeiras básicas do primeiro e segundo ano, são iguais para todas. A não ser o curso civil que tem uma preparação diferente. A partir do terceiro ano, com exceção do curso civil que já se separava no segundo ano, a gente já tinha as cadeiras específicas. O primeiro e o segundo ano eram muito puxado, muito puxado. Tinha um nível de reprovação muito grande, repetência muito grande no primeiro e segundo anos. Aquela coisa que se fazia na Universidade não era em regime em períodos, era em regime seriado, então era matriculado no primeiro ano, não no primeiro período. Então você tinha as matérias do primeiro período e você tinha que passar no mínimo em nove matérias – você tinha dez matérias. Você podia carregar só uma matéria para o ano seguinte, em dependência. Se perdesse duas, você podia fazer duas do ano que você perdeu mais duas do ano seguinte, desde que as duas não fossem pré-requisitos. Isso eliminou muita gente, você tinha nota mínima por mês. Era puxado. O fato de você sair do científico para a Universidade, o esquema de ensino é completamente diferente. No regime secundário, os professores dão a matéria, checam se a pessoa aprendeu, perguntam mais aos alunos, uma participação maior com os alunos. No nível universitário não, o cara dá a matéria, fechou a malinha e vai embora. Você que trate de aprender. Isso foi um choque muito grande. Eu tive uma dificuldade muito grande no primeiro ano, uma parte. Algumas matérias eu comecei muito bem e outras muito mal. Física e Química, por exemplo, foi umas que me deram muito trabalho. As que eu comecei muito bem, dei uma relaxada. Nessa relaxada eu quase que fui também. Eu quase que perdi algumas matérias por causa disso. Depois foi só regrar a coisa, dosar, saber levar, vai bem. Ouro Preto tinha uma peculiaridade muito interessante porque o clima da cidade, o fato de viver de república, viver de uma forma independente. Muitas das pessoas que tinham ido parar ali, nunca tinham saído de casa, um ambiente que corre muita bebida na cidade, droga hoje muito mais, mas naquela época já tinha. Então se a pessoa não tivesse uma boa estrutura familiar, uma boa formação, não raro a gente via colegas que caíram ao longo da vida. Não souberam conviver com esse tipo de ambiente. E as pessoas não formaram, enveredavam pelos caminhos da bebida, das drogas. Alguns até não sobreviveram nesse esquema. Tinha um ambiente muito perigoso, digamos assim, de sobreviver. Alguns não conseguiram. O fato de você morar em república, de ter os colegas ali, ajuda. Conforme a república que você caísse ajudava ou não o cara a entrar para o caminho certo ou caminho equivocado.

 

P/1 – Tinha essa divisão de república?

 

R – Algumas tinham fama de serem mais fadadas à farra do que outras. Então elas eram conhecidas naquela época. Hoje com certeza tem também. Nem tudo era farra. O pessoal pegou muito a questão da farra nas repúblicas. Mas tudo tem hora certa. Farra na hora certa era até salutar.

 

P/1 – No curso teve algum professor que te marcou mais do que outros?

 

R – Teve uns que marcaram mais. É difícil falar de um que marcou mais ou não. Existe sempre aquele professor carrasco, aquele professor chato. Isso têm vários. Mas alguns marcam pela... ou por serem mais pitorescos, esses são marcantes ao longo da vida, durante a escola, são mais... no dia a dia são mais controvertidos pela sua atitude ou pela sua... e quando você vê essa pessoa até jocosa, essa pessoa falar seriamente, ser a pessoa que é, de bondade, de solidariedade, você não imagina que ela seja assim... Eu estou falando do Professor Calais. Professor Calais era o professor de geometria analítica, primeiro ano, ele é professor há muito tempo. Ele já fazia aquelas contas ali, de cor e salteado. Enchia um quadro numa rapidez, ele tinha aquelas expressões matemáticas enormes. Ele saía simplificando assim, escrevia desse tamanhozinho assim embaixo. Ele já sabia aquele negócio todo. Você acompanhar o raciocínio do velho era complicado. Ele era muito esquecido. O professor Calais era uma pessoa muito esquecida. Eu lembro que a gente fazia aula de analítica no sábado, cinco horas de aula. Tinha sempre os colegas que chegava no último horário. Ele fazia chamada no final do último horário. E sábado era o dia de dar uma espairecida, jogar uma bola. Então todo mundo queria almoçar mais cedo. Tinha uma turma que ia almoçar e voltava para responder a presença no final da última aula. Um dia o Calais descobriu isso e foi lá e fechou a porta. “Hoje ninguém entra no final da aula.” Fechou a porta a chave. Um dos colegas, número um, já falecido, Álvaro Bressan... ao mesmo tempo que o pessoal estava chegando tinha uma turma respondendo presença e saindo para pegar a fila mais vazia no finalzinho da aula. O Alvinho respondeu a presença e não viu o professor fechando a porta e saiu. Quando saiu meteu a mão na maçaneta e a porta trancada: “Professor, a porta está trancada!” e... “eu fechei para ninguém entrar, como o senhor entrou?” (risos) Um querendo sair e a porta estava fechada e o outro perguntou como ele entrou se a porta estava fechada... “O senhor pode ir embora, veio só para responder presença.” Mas era uma pessoa impressionante pela solidariedade dele, quando tinha algum colega em dificuldade... Tinha um colega que morreu o pai, ele estava sem dinheiro. O professor vendo ele preocupado perguntou, deu dinheiro, ele foi. Uma pessoa que tinha uns rompantes. Até hoje é vivo, uma pessoa muito querida. Mas tinha esses negócios de esquecimento dele.

 

P/1 – E perspectivas profissionais, no tempo que você estava na faculdade, o que você imaginava em termos de futuro profissional?

 

R – Conforme você vai estudando, você vai aprofundando a matéria, começa a fazer estágios, a fazer visitas. Aí você começa a mudar, ter um conceito maior, ter uma idéia vaga do que era mineração, você vai adquirindo conhecimento, aquilo começa a formar na cabeça, você começa a participar de eventos, junto ao BA (?), junto a outras universidades, eu era da entidade dos alunos que organizava  a parte de mineração, na época era chamada de Departamento de Mineração, então eu fiquei três anos lá dentro, cheguei a ser presidente dessa associação, do Departamento de Mineração dos alunos, junto ao Diretório Acadêmico. A gente fazia também, junto com outras escolas, a gente tinha um grupo que discutia simpósio de mineração, realização de simpósio. Quer dizer que se você começasse a participar do âmbito nacional da coisa, discutir problemas específicos de mineração, em âmbito nacional, em fóruns restritos e na época a gente era demandado, havia uma oferta de mercado de trabalho considerável. Então a gente tinha consciência disso, que havia uma demanda, que a gente teria boa oportunidade ao concluir o curso. Não era tanto quanto o curso de metalurgia, porque naquela época, metalurgia especificamente tinha as grandes siderúrgicas integradas, estavam todas em expansão, então houve uma demanda grande de metalurgistas, eles eram buscados já no terceiro, quarto ano já eram recrutados praticamente. Pagavam bolsas para eles, então já no banco da escola o pessoal era buscado. Na época a Escola de Ouro Preto tinha um bom nome, hoje teve alguns problemas, mas ainda é uma boa escola. Então o profissional da Escola de Ouro Preto era procurado no mercado, principalmente metalurgia e engenharia de minas, geólogos. Isso facilitou o mercado de trabalho. Então a gente teve oportunidade e quando eu saí da escola tinha mais de uma proposta de emprego. Naquele momento, a minha preocupação era adquirir o máximo possível, conhecimentos práticos e com isso poder aumentar o meu portfolio para sair para outra oportunidade. Então quando a Vale me chamou, eu já tinha estagiado na Vale no quarto e no quinto ano, já tinha estagiado na VDR (?) e em outras empresas, vendo que aquilo ali era uma oportunidade de aprender, na Vale se aprende muito em pouco tempo. Você tem liberdade de fazer as coisas, você sempre teve isso. Quem tem vontade de fazer as coisas não tem problema. Então eu fui para a Vale com o objetivo de ficar uns dois ou três anos, aprender o máximo e usar isso no mercado depois. Essa foi a intenção.

 

P/1 – Mas o objetivo não era a Vale, inicialmente?

 

R – Meu objetivo era aprender o máximo possível na Vale e aí me colocar num mercado melhor, mas isso foi há 27 anos atrás, quase, 26 anos atrás e estou na Vale até hoje (risos), oportunidades vão aparecendo, você começa a gostar da empresa. Há uma reciprocidade no relacionamento, entre a chefia da Empresa e você começa a não separar mais uma coisa da outra, então eu acho interessante que em pouco tempo apareceu até uma oportunidade de sair da empresa e eu não quis. Em pouco tempo mudou e a perspectiva então foi crescendo.

 

P/1 – Você tinha uma imagem da Vale do Rio Doce?

 

R – A Vale, já naquela época era a grande empresa de mineração do Brasil. Trabalhar em mineração na Vale do Rio Doce acho que, pra quem é do ramo, é um fato único. E só tem evoluído nesse tempo todo. Trabalhar na Vale já era uma coisa representativa. Mas a gente queria... como havia um mercado demandado, demandante de um modo geral naquela época, aproveitar o máximo de conhecimento prático, usar como cacife de uma colocação mais vantajosa em outra empresa, mas eram idéias de recém-formado. A medida que você começa a trabalhar numa empresa, o seu relacionamento também com as pessoas, com a própria direção da empresa vai mudando, você vai se moldando a organização, a cultura da empresa, você se torna quase um partner nisso aí.

 

P/1 – Você foi trabalhar em qual setor, qual foi o seu primeiro contato?

 

R – Eu fui para a Vale como controle de qualidade, na Mina de Conceição, em Itabira. Em Itabira tinha, naquela época, duas minas: a Mina de Conceição e a Mina de Cauê. A Mina de Cauê era a maior mina e eu fui trabalhar no controle de qualidade. Eu havia estagiado no controle de qualidade quando eu estagiei seis meses antes de formar. O pessoal que eu estagiei, eu vim a trabalhar com ele, com _______ Fonseca que foi superintendente em Itabira, foi presidente da Serra Geral, falecido há alguns anos atrás. Eu fiquei um ano na Mina de Conceição quando meu par da Mina de Cauê saiu. Eu era o mais experiente, apesar de um ano, eu era o mais experiente na área, fui para a Mina de Cauê e foi contratado outra pessoa para a Mina de Conceição. Então eu fiquei na mina de Cauê uns dois ou três anos aproximadamente, depois fui trabalhar diretamente com Juarez na coordenação dos controles de qualidade.

 

P/1 – Como funciona essa coisa de Controle de Qualidade em mineração?

 

R – Controle de qualidade em mineração, hoje eu não sei como funciona, funciona um pouco diferente. Naquela época a gente é que orientava a operação da mina, a locar as máquinas nas diversas frentes de lavra de forma a atender a especificação, ou de produtos finais, ou de produtos intermediários, no caso as usinas de concentração. Então tinham as especificações de vários tipos de minério, consistia em fazer o aproveitamento, alocar as máquinas para que a gente tivesse um “blend” adequado à qualidade. Já voltado à qualidade do produto. E orientar o pessoal do embarque no sentido de embarcar os produtos em conformidade com as especificações e atendimento aos diversos clientes. Esse era o papel nosso.

 

P/1 – Mudava muito essas especificações?

 

R – As especificações não mudavam, os minérios é que mudavam. Às vezes havia uma frota de equipamentos grande, então a gente tinha uma certa flexibilidade para isso, mas às vezes uma queda de uma máquina chave, podia dificultar. E na ponta lá, tinha um cliente, a Usina de concentração, o cliente e as usinas de pelotização que dependiam da qualidade desses produtos. Então a queda na especificação poderia ter uma conseqüência muito grande no ciclo como um todo, retenções, pagamento de multas. Uma área vital aí dentro do programa de garantia do sistema de qualidade principalmente.

 

P/1 – Nesse tempo você ficou morando em Itabira? 

 

R – Nesse tempo eu morava em Itabira.

 

P/1 – Onde que você morava ali?

 

R – Eu morei sete anos em Itabira, um ano em cada casa (risos). A demanda, por causa da companhia, era muito maior que a disponibilidade. (pausa) ... quando eu encontrei a Angélica, eu tinha chegado do mato. O Décio, meu amigo, estava lá, nós estávamos bebendo na casa dele. “Olha, hoje eu vou levar minha namorada lá no baile do Iate”. Eu morri de rir, o Décio tinha uma namorada? Ele não era de namorar. “Mas é sério, eu estou precisando de dois bons amigos porque vão duas amigas com ela.” “Amigo é para essas coisas...” e aí foi, uma das amigas era a Angélica. Aí eu conheci a Angélica. Engraçado, o Décio conheceu a Sandra no Réveillon e casou em julho. Era elétrico. Casou muito bem, tem uma filha maravilhosa. Ele morreu tem pouco tempo, há cinco anos atrás. Ele era alemão. Eu batizei esse corpo (?) alemão em homenagem a ele. Ele descobriu Salobro, trabalhou também, o resultado dele deu um lugar na Bahia que deu uma anomalia de ouro que ele encontrou. Mais tarde foi desenvolvido a mina ______ da Bahia, quer dizer, um cara que teve uma participação na pesquisa de Carajás muito grande. Então aí fomos, 10 anos depois eu casei também. Ele foi meu padrinho, ele e a Sandra também. Em 1974. Então eu tive três homens lá em Belém, três filhos homens, o Bruno que nasceu em 1975, está fazendo engenharia civil em Belo Horizonte, o Tiago que nasceu em 1978, está fazendo publicidade e propaganda. Eu quase cai duro quando ele falou que ia fazer publicidade e propaganda (risos) “Eu sei que você é criativo, mas vai ser criativo assim... você está exagerando na criação.” E está lá. E tem o Pedro que tem 13 anos, que está ainda no secundário agora. Todos eles paraenses.

 

P/1 – E moram com você?

 

R – Ah, é uma família, eu sou apaixonado por eles. São sensacionais. É um grupo muito bom. Agora lazer é isso que eu te falei, eu gosto muito de viajar, gosto de dirigir, pé fundo. Agora criaram uns radares que está me deixando muito contrariado. (risos) Quando eu morava em Belém, eu saia de Belém e ia para Belo Horizonte de carro. Os meninos eram pequenininhos e a gente ia de carro, mas não parava para almoçar, não. Então saia de Belém 5.30 hs da manhã, aí a gente ia dormir em Gurupi de Goiás, são 1500, quase 1600 quilômetros. A gente fazia o seguinte: levava lanche, banana etc. E para distrair os meninos eu ia brincando: vamos apostar caminhão. O caminhão meu é azul, outro escolhia. Na época tinha um punhado de caminhão azul. O Bruno pegava o azul, ele era o mais velhinho. Então o azul é seu. Ele ganhava de goleada da gente, contando caminhão. Ele dormia, depois voltava. Vamos contar Volkswagen. Quantos Volkswagen passavam, só valia de lá para cá. E com isso a gente ia... a gente dormia em Gurupi, chegava a noitinha em Gurupi de Goiás e no outro dia ia para Brasília, minha cunhada mora lá, a gente passava uma semana lá com ela depois ia para Minas Gerais. Então eu gosto muito de dirigir. Duzentos quilômetros é ficha para mim, é ali mesmo. 3.000 quilômetros de Belém a Belo Horizonte. Ia para Fortaleza também de carro para passar as férias em Fortaleza. Em Belém você tem as praias lá, mas é muito caro, às vezes valia mais a pena alugar um apartamento montado em Fortaleza do que passar as férias em Salinas, por exemplo que é 200 quilômetros de Belém, uma cidadezinha muito pequena que é muito caro o aluguel de casa. Então a gente ia para Fortaleza. Gosto demais de lá. Praias do nordeste é outra coisa, Natal também é muito bonito. É isso aí, eu gosto de andar, eu gosto de estar aí. Nas horas vagas festejar a vitória do galo (risos).

 

P/1 – Nessa sua trajetória de vida, nessa sua história, se você pudesse começar de novo, pudesse mudar alguma coisa, o senhor mudaria? 

 

R – Não, não posso me queixar de nada, aquilo que eu falei no inicio, eu me considero uma pessoa de sorte, primeiro que a vida profissional comecei como recém formado e cheguei a diretor, numa empresa sensacional. Só tive coisa boa lá, amizade. Não tem nada de relacionamento dentro da Vale, só tenho amigos. Na vida profissional eu estou mais que realizado. E na vida afetiva também. Estou casado já há 26 anos, tenho três filhos que não têm vícios, são...

 

[Troca de fita/Fita 2 – Lado A]

 

P/1 – Você estava comentando das casas.

 

R – Por que eu fiquei os sete anos em Itabira, eu morei um tempo na República dos engenheiros solteiros, seis meses que eu fiquei lá. E quando eu casei fui morar na casa. Mas a demanda por residências em Itabira era muito alta, sempre tinha uma expansão, sempre tinha uma obra qualquer que levava o pagamento de aluguéis muito caros na época. E com isso os proprietários faziam contratos de curta duração, um ano, dois anos. Nessa brincadeira eu morei sete anos em sete residências. Mas tudo ali próximo num bairro chamado Pará, um bom bairro. Dava para fazer as coisas a pé.

 

P/1 – Você casou em Itabira mesmo?

 

R – Eu casei em Ouro Preto, minha primeira mulher era de Ouro Preto, eu estudava lá, conheci e casei lá.

 

P/1 – Como era a relação de vocês, pessoal da Vale com a população de Itabira?

 

R – Eu acredito que naquela época não era uma relação muito amigável, a gente era aturado pela comunidade. É claro que algumas pessoas nutriam mais essa antipatia do que outras, tinham mais dificuldade nessa relação e se isolavam. E o fato da direção da Empresa viver em vila, facilitou a não integração com a comunidade. Se a Empresa tivesse suas casas dentro da cidade, poderia ter havido uma maior integração. Isso posteriormente acabou. Em Itabira ainda tem a vila. O fato do Dummont ser de Itabira e nos seus relatos ser muito contra a mineração, contra a presença da mineração na cidade, muitas pessoas tradicionais e conservadoras da comunidade, se colocaram com o pé atrás com relação à Empresa. A operação era uma coisa efêmera, com o tempo ia ficar um buraco e tal, tal, tal. Mais tarde a própria relação da Empresa com a comunidade veio a mudar, com nova forma de relacionar que mudou um pouco essa relação. Mas acredito que há um certo ranço do pessoal local para com as pessoas que vem de fora, pessoal da _______ é muito conservador, extremamente conservador, isso leva a um certo senão nessa integração. Mas a partir do momento que você se enfronha na sociedade local, você flui mais facilmente, como em qualquer sociedade.

 

P/1 – Você se integrou?

 

R – Relativamente sim, em algumas famílias mais, outras menos. Mas há uma dificuldade muito grande no relacionamento com a comunidade de forma em geral, o pessoal é muito fechado.

 

P/1 – Você começou em Conceição, depois Cauê, como que foi?

 

R – O escritório geral, o escritório da superintendência era perto da Mina do Cauê, então eu trabalhando nas instalações da Mina do Cauê, já coordenava a parte das várias minas no setor de controle de Qualidade, até que eu saí de lá. Eu saí de lá como gerente do setor de Controle de Qualidade onde toda a Mina de Cauê, Conceição, Dois Córregos eram ligadas a mim. Fui para Timbopeba, município de Ouro Preto, e apesar da gente ter vivido em Mariana que era a cidade mais próxima da mina, onde praticamente todos os empregados foram para lá. É outra fase.

 

P/1 – Conta um pouquinho dessa fase, como que foi... Timbopeba já existia?

 

R – Timbopeba estava em obra, Timbopeba começou a obra em 1979, numa época que o mercado estava baixo, estava fraco e começou a operar em 1984. A obra demorou muito exatamente por causa da queda do mercado do minério de ferro. Começou um projeto integrado com a Mina de Capanema, uma mina da Serra Geral, uma controlada da Vale. A Mina de Capanema começou em 1982 e a Mina de Timbopeba começou em 1984. Eu fui para lá para cuidar da parte de produção, mexer com a parte produtiva. Na época só funcionava a parte de Capanema. Então eu fui para dar um Start up na planta de Capanema. Foi uma coisa muito curiosa porque a formação da equipe foi uma coisa muito difícil porque ninguém queria sair de Itabira. Um fato curioso porque você convidava as pessoas para ir “Não, não vou sair de Itabira, aqui tem hospital, etc.” e ninguém queria sair de lá. Foi difícil formar uma equipe para ir para lá. Mas formamos. A equipe foi muito heterogênea. Quando terminou a obra, o pessoal passou para o núcleo de Timbopeba, então foi o pessoal da área administrativa, de manutenção, alguns na área de mineração como topografia, desenho. Tem um pessoal de Itabira que veio convidado, como eu. Convidado com a oportunidade de crescimento dentro da Empresa. Meu caso, eu era gerente de setor em Itabira, fui como gerente de divisão de produção em Timbopeba. Pegamos pessoas com alguma experiência e levamos para lá. Algumas meio a laço porque ninguém queria ir. Naquela época estava fechado a Mina de Piçarrão, uma mina perto de Nova Era, onde tem a Nova Era Silicon hoje. Nós também paramos um túnel em Nova Era e pegamos essa turma do túnel e levamos para Timbopeba. “vocês estão indo compulsoriamente”, foram na marra, como alternativa. Posteriormente viemos a recrutar pessoas em Timbopeba. Naquela época o nosso gerente era o César Rolim, ele era da Acesita, que a Vale tinha comprado há cerca de dois anos atrás. E com ele foi um grupo de pessoas que trabalhavam com ele na Acesita. Quando a Vale comprou a Mina da Acesita, o pessoal que trabalhava na mineração foi incorporado pela superintendência das minas. Algumas foram junto com ele. Então a nossa equipe era um time misto de Vale-Itabira, Vale-Nova Era, Departamento de Obra, Acesita e tinham algumas da geologia da parte de pesquisa e algumas que foram recrutadas na região. Essa identidade separada se manteve durante muito tempo, então existiam classes dentro da unidade.

 

P/1 – Classes dentro da unidade?

 

R – É, porque você tinha a turma da Acesita, turma da Timbopeba, turma de Itabira, turma de Nova Era, turma do Departamento de Obras. Isso eram grupos dentro de uma unidade só e foi com muito custo que conseguimos fazer uma identidade local. Fazer com que a turma tivesse uma identidade, a turma da Vale em Timbopeba.

 

P/1 – Como vocês fizeram isso?

 

R – Isso foi com o tempo, foi criando justamente o espírito de equipe, trabalhando principalmente isso. E ali foi um local interessante, todo mundo que trabalhou na parte de mineração pode aprender muito porque as condições eram muito adversas em termos de topografia, de índice de pluviometria, que num ambiente de mineração a céu aberto eles dificultam muito. O fato de ser muito acidentada a topografia, tem muita obra de arte, muita obra de engenharia e a gente que trabalhou ali, vivenciou isso, pode aprender bastante a buscar soluções nem sempre tradicionais, não muito comuns, buscar soluções de problemas.

 

P/1 – Você se recorda de algumas dessas soluções?

 

R – Uma coisa que marcou muito em Timbopeba foi o projeto inicial para disposição de estéril de mina: previa uma área montante da mina onde deveria durar para os três primeiros anos de lavra. Quando nós começamos a desenvolver o acesso para chegar a essa área, simplesmente tinham vários cursos d’água. Como você vai depositar um material estéril em cima de curso d’água. Aí nós desenvolvemos localmente, um sistema de drenagem, e pudemos drenar todo esse vale, coletar essas águas em drenos profundos, e com camadas drenantes do próprio minério, do próprio estéril. E fizemos um depósito que está até hoje, intacto, em cima desses cursos d’água. A água passa por baixo e o depósito está em cima. Tem várias outras soluções, mas essa foi mais marcante porque foi desde o início. É uma mina que começou zero quilômetro com muita dificuldade, tanto para formação da mão de obra, experiência das pessoas, queimamos muito a cabeça. Minério difícil de trabalhar, o de Capanema. O minério de Capanema era beneficiado em Timbopeba. A Sergeo vendia o minério para a Vale, vinha através de uma correia transportadora e a gente beneficiava o minério lá. Quando começou a atividade foi pra beneficiar o minério de Capanema, Timbopeba só veio entrar um ano depois, a mina só veio entrar um ano depois. Mas foi um local muito interessante. Eu saí de lá como Gerente Geral da unidade, fiquei cinco anos como Gerente Geral, muito aprendi ali. Tanto no trato com as pessoas como no trato com sindicatos, comunidades, jogando bola também.

 

P/1 – Sindicato lá era atuante?

 

R – Sindicato lá, cá entre nós (risos), era meio cri-cri. Uma turma muito atuante. Naquela época era muito atuante, nos deu muito trabalho. Tivemos uma greve em 1979. Com uma série de inexperiência culminamos com essa greve, ficamos uma semana praticamente, prejudicou muito a produção, mas não parou, aprendemos muito com isso, a equipe toda aprendeu com isso e esse sindicato atuou muito, dificultou muito as ações nossas, fez repensar muito a forma de fazer as coisas, a forma de relacionar com os empregados, com o próprio sindicato. A gente aprendeu muito com isso.

 

P/1 – E a comunidade? Vocês tinham alguma relação com Mariana, Ouro Preto?

 

R – A nossa dificuldade começou justamente com Mariana. Mariana, você imagina o seguinte, de repente chega uma turma em 10 ônibus, uma turma que vem de Itabira, Nova Era, etc., pega lá um monte de alojamento, hotel, tal e veio para operar uma planta e chega de repente na cidade. Parece um bando de turistas chegando. É uma cidade que já vinha, o próprio pessoal da obra, que é uma relação temporária. Uma obra maior que teve por lá foi um projeto da Samarco, que é uma vizinha da Mina de Timbopeba. Em relação à empreiteiros da cidade, eles fazem, eles aprontam muito. Mariana é uma cidade pequena, e naquela época era muito menor ainda. Pessoal muito tradicional, muito conservador, muito religioso. Eu sei que quando a gente chegou em Mariana, ninguém aceitava cheque, você ia no posto pagar, tinha que ser a dinheiro. Não tinha esse negócio de você fazer conta, no interior é muito comum isso, faz a compra, marca na caderneta e paga no final do mês. Não existia isso em Mariana. Crédito bancário, os empregados chegavam no banco, não tinha crédito. Os empregados também nunca viveram fora de casa, rapaziada nova chegavam lá, começavam a aprontar, iam para boates. Tinha muita dificuldade. Para você mudar esse relacionamento, no próprio hotel não tinha frigobar. Aí, um dia nós chegamos da mina, na época não tinha calçamento, asfalto, chovia muito naquela época, era um barro do cão. A gente chegava da mina para começar a montagem, chegava todo sujo de barro, de graxa. Chegava no hotel “Vocês não podem entrar assim.” Aí entrava de qualquer jeito. Até um dia que resolveram expulsar a gente do hotel, porque não podia entrar daquele jeito. “Se você expulsar um de nós, nós vamos todos embora.” Aí no dia seguinte ___________ na porta. Mudou completamente a relação. Convencemos os caras a tratar a gente melhor. Foi um processo de mudança gradual, que se conseguiu de conquistar uma comunidade que estava “arcando com o ônus de suportar um grupo que estava chegando naquele momento”, novo empreendimento que era Timbopeba e os impostos convergiam para outra comunidade, que era a comunidade de Ouro Preto, no caso do minério de Timbopeba e a comunidade de Santa Bárbara, que era o caso do minério de Mariana. As minas estão localizadas respectivamente nesses municípios. Então havia uma cobrança da Empresa participar de alguns empreendimentos na comunidade porque nenhum imposto dela ia para ali. E você exigia água, luz, escola, hospital, moradia. Exigia da infraestrutura, tudo isso, da comunidade, sem ter uma contribuição em termos de impostos, a menos da circulação de dinheiro na cidade. O que foi mais beneficiado foi o comércio. Mas houve muita dificuldade nisso.

 

P/1 – Vocês negociavam com o bispo, com os padres? 

 

R – Negociar com o bispo era necessário. Eu não me esqueço de um dia que... isso já foi em 1991, 1992, num programa de _________ de pessoal, eu era gerente geral na época. Fizemos uma redução de 700 empregados, cento e poucos empregados foram demitidos de uma vez, programa de aumento de produtividade e tal. O bispo tem a equipe de jogar pedra dele lá. O pessoal foi para a TV de Belo Horizonte, aprontou na Assembléia Legislativa dizendo que a comunidade de Mariana estava sofrendo, que não sei quantos pais de famílias tinham sido mandados embora pela Vale... “Vamos ver o que a gente pode fazer.” Eu achei por bem, sair e ir a Câmara, à Prefeitura, ao Bispo de Mariana e Ouro Preto, que eram as duas comunidades que a gente tinha relacionamento pra explicar o fato. Feito isso, faltou o bispo para conversar com ele. Marquei a entrevista com o bispo. Quando cheguei estava o representante do sindicato, estava esperando. “eu queria falar com o bispo, não queria falar com o representante do sindicato.” Fiquei alí, na boa, conversando com o cara. O bispo chamou para entrar, chamou o representante do sindicato. “Ele vai ficar me acariando com o cara.” Não deu outra. O bispo atende o telefone, “era fulano, um figurão, eu posso falar com quem eu quiser, pedir a quem eu quiser as coisas que eu tenho acesso.” Aí, lá pelas tantas, virou para mim, depois de acariar muito com o representante do sindicato. “Olha, eu queria saber com quem a gente conversa na Vale para mudar esse panorama.” Aí foi igual jogo de truco, judeu joga muito jogo de truco. Eu não tinha autoridade para falar, “o senhor pode falar com quem o senhor quiser, o telefone do presidente da Companhia está aqui, o senhor pode ligar para ele agora, porque isso não vai mudar.” A decisão já está tomada. Mas muito difícil, um relacionamento muito difícil. Exatamente porque ele apoiava os movimentos de classe, sindicatos. A Igreja Progressista, digamos assim. Mas tudo bem, funcionou assim. Tinha seus lados bons também.

 

P/1 – E a relação Mina Timbopeba, dessa equipe sua com a Vale? Como era esse intercâmbio, essa estrutura?

 

R – A gente era subordinado à superintendência das minas em Itabira. Então eram várias gerências gerais. Na época foi criado um departamento e em Itabira ele era segmentado por atividade, Departamento de Manutenção Elétrica, Manutenção mecânica, Tratamento de minério. E Timbopeba, como estava mais distante, foi criado um Departamento de Timbopeba. Ali tinha manutenção, operação, todas as atividades. No caso de Itabira você tinha uma divisão de mina, uma divisão de tratamento, uma divisão de manutenção. Quando a gente voltou a estrutura foi diferente, foi criado uma divisão de produção, que era eu, uma divisão de manutenção, Haroldo e a divisão administrativa, ligada a um departamento que cuidava de tudo. Então esse modelo, mais tarde, passou... com a primeira reestruturação da superintendência, passou a prevalecer nas outras unidades. Foi criado o Departamento de Timbopeba, Departamento Cauê, Departamento Conceição com todas as atividades. Foi um primeiro modelo que funcionou bem e depois foi estendido às outras unidades e veio prevalecer por muito tempo. Só mudou de nome para Gerencia Geral mais a estrutura era a mesma. Então, dentro da superintendência, foi a primeira unidade que trabalhou de uma forma um pouco diferente. O fato de estar um pouco distante de Itabira e das outras unidades, acho que levou a gente a buscar mais, criar um pouco, pensar um pouco diferente, mas isso no futuro veio a culminar para uma maior integração da unidade. No inicio, houve uma certa segregação, acredito eu. Porque é como se um bando de gente tivesse indo para lá, ninguém queria ir. E quando viu que a coisa começou a funcionar bem, houve um certo ciúmes, isso é natural. Mas com o tempo isso foi se ajustando, a administração começou a tomar conta da situação e voltou. O próprio espírito de equipe, justamente por essas adversidades relativas à administração de Itabira. Isso foi importante para implementar aquele espírito de corpo. Isso a gente notava principalmente no esporte, quando tinham jogos em Itabira com Timbopeba, a rivalidade era latente. Tudo isso foi altamente benéfico, a medida que com essa competitividade, cada um queria melhorar aquela coisa. Não era uma competitividade que prejudicasse o desenvolvimento da empresa, no desenvolvimento do local, mas no sentido de crescer, buscar alternativa para o crescimento. Isso foi bastante válido.

 

P/1 – Você ficou em Timbopeba até quando?

 

R – Eu fiquei até 1994, quando a Vale comprou as minas de Urucum. A Urucum foi uma empresa formada em 1976, através de uma associação da Vale, do governo de Mato Grosso, que naquela época era um estado único e a Convap, na razão de um terço para cada um. Passado um tempo houve uma chamada de ______ de capital, a Vale aportou com dinheiro, o estado de Mato Grosso aportou com jazida, que ele era dono da jazida, e a Convap não teve como aportar e teve reduzida a sua participação. Então ficou 42,8% da Vale, 42,8% do estado de Mato Grosso e a Convap caiu para 6 pontos uma coisa assim. Só que houve uma divisão dos dois estados, do estado de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e a sócia nesse empreendimento era a METAMAT, que era uma empresa governamental do governo de Mato Grosso. Em 1994, a Vale comprou as ações da Convap, em junho aproximadamente. Em agosto, comprou as ações dos dois estados. Isso teve uma polêmica muito grande na época, houve ação popular contra a venda, alegando que o valor estava irrisório, que houve falcatrua na venda e tal. Mas certo que a Vale comprou e criou, naquela época, a superintendência de mineração de Urucum. Eu fui convidado para ir para lá. Fui. Cheguei lá estava aquele clima de tensão local. O que se falava é que a Vale ia para lá, demitiria todo mundo, fecharia a mina. A ideia era fechar lá para beneficiar o minério de Carajás, lá do Azul. Aquele clima de guerra foi o que a gente encontrou quando chegou. Os políticos locais, a sociedade, os empregados, todo mundo contra. Fizemos um trabalho grande de convencimento da sociedade local de que a gente não tinha ido para isso, a gente tinha ido para dar outra ________ melhor. A gente iniciou um trabalho de refazer essa relação, de remodelar a Empresa Urucum, não foi possível incorporar a empresa à Vale por causa dessas ações. Então permanece a Empresa Urucum até hoje e foi essa relação aí, a empresa foi melhorando. De empresa deficitária, passou a dar lucro. Dá lucro até hoje, houve então uma expansão da atividade, passou a produzir minério de ferro também numa escala muito pequena, mas é uma empresa com suas limitações. Está dentro da área de manganês, que na época que a Vale comprou, ela competia com a própria Vale porque tinha a Comercial da Vale que vendia ainda a de Azul. Urucum tinha sua área comercial que vendia ______. Urucum competia com a Vale. A medida que a Vale comprou Urucum, começou a participar de um negócio só e começou a alavancar as vendas de Urucum e melhorar o pessoal de Urucum também, e mais o minério de ferro, a empresa pode crescer. Claro que tivemos problemas judiciais, políticos. Isso só com o tempo é que pode evoluir para a situação que a gente encontra hoje de estarmos em namoro com a política, com os status dominantes nos estados, mas isso é outra fase.

 

P/1 – Ninguém perguntava para você, Carlos, essa transição, do minério de ferro para o manganês. Tinha algum significado?

 

R – Isso para mim foi um choque cultural muito grande porque a primeira coisa: minério de ferro a gente só fala em milhões – milhões de dólares, milhões de toneladas, os números são muito grandes. Então da mesma forma que você lida com muito dinheiro, orçamentos, investimentos, a gente também tem um “custeio” alto, tem uma receita grande também, para um volume de dinheiro. Os custos relativamente baixos. Quando a gente parte para um manganês, primeiro você já divide por 10 a terceira, por mil, seu volume de produção. Invés de produzir milhões, vai produzir milhares de toneladas. Também a receita cai assustadoramente apesar do valor agregado ser maior no produto e no caso de Urucum, toda vida trabalhei em mina de céu aberto...

 

[Troca de fita/Fita 2 – Lado B – fita com um pouco de chiado, voz um pouco sem definição]

 

R - ... peguei temperatura lá de 46 graus.Morar num lugar a 100 quilômetros de Belo Horizonte e o outro a 430 da capital. Isso levou você a buscar alternativas, locais de lazer, de ________. Isso não deu certo também, por outro lado contribuiu para o lado pessoal. Mas em termos profissionais foi uma experiência interessante.

 

P/1 – Tinha mão de obra boliviana, por exemplo?

 

R – Não, quando eu cheguei lá tinha um boliviano. Logo depois saiu. Mas eram várias empresas dentro de uma empresa. A Urucum tinha uma estrutura comercial aqui no Rio de Janeiro, tinha um escritório na cidade de Corumbá, onde trabalhavam umas trinta, quarenta pessoas e tinha a mina que ficava isolada ________ há 30 quilômetros da cidade. Cada um vivia sozinho, não tinha contato. O pessoal da mina não sabia porque fazia as coisas, o pessoal da administração vivia na cidade, fazia muita política, naquela época Urucum tinha muita coisa política, era coisa de governo, tinha muito relacionamento político. A mina ficava lá abandonada. [Trecho incompreensível]... o importante é você criar o espírito de corpo, _______ não pode ter uma equipe pulverizada, cada um pensando de um jeito, cada um fazendo a coisa de um jeito. Foi a forma de fazer com que aquilo, cada um buscasse o crescimento da empresa para poder crescer dentro dela. Sem o espírito de corpo você não tem como fazer isso.

 

P/1 – Você chegou a fazer algum enxugamento?

 

R – Ah sim, isso é a primeira coisa que faz. Tem que fazer, você não pode conviver com pessoas improdutivas, com pessoas que estão ali simplesmente porque é uma empresa. Isso é natural. Infelizmente é parte do trabalho que você tem que fazer, não tem outro jeito. Agora quem está lá, está melhor do que estava.

 

P/1 – E as barcas? Até hoje vocês utilizam as barcas

 

R – A gente embarca o minério nas barcaças. Minério de ferro, 100% quase vai para a Argentina e Paraguai, são 600 – 700 mil toneladas por ano, são embarcadas em barcaças e parte do minério de manganês, um pouco de liga hoje. Voltou a produção de liga em Corumbá, que a Vale arrendou a fábrica de ferro liga e está empreendendo a produção da liga, também ligada à pesquisa de manganês. Com isso tem um movimento razoável de barcaça na região, fora a indústria turística, de pesca, ecológica. É uma região muito bonita. Realmente é uma coisa que eu nunca imaginava morar no pantanal, visitar o pantanal era uma coisa tão longe, de repente vivi lá cinco anos, tive oportunidade de conhecer ___________, barco, pescar. Tudo foi muito interessante.

 

P/1 – Você morou lá até quando?

 

R – Morei até que se criou a Usina de manganês, em 19999 que eu vim para cá.

 

P/1 – Você viveu a expectativa da privatização lá.

 

R – Eu estava lá quando a Vale foi privatizada, eu vim para cá início de 1999.

 

P/1 – Como foi essa ansiedade?

 

R – A gente está mais longe, as informações custam um pouco a chegar nas áreas mais longínquas, então ______ no jornal, a própria privatização da Vale foi um pouco conturbada porque havia uma posição grande contra a privatização, a nível político, a nível de sindicato, grupos nacionais. Era tida já como uma coisa certa e que necessária. A Vale como estatal não poderia nunca chegar onde está. A competição no mercado internacional, não dá para conviver sendo uma empresa estatal como ela era. Para nós era importante que ela fosse privatizada.

 

P/1 – Mudou muito? O que mudou da Vale que você conheceu, estatal para essa Vale?

 

R – Eu acho que a Vale estatal havia uma proximidade maior da direção da empresa com os níveis intermediários e os níveis mais baixos. Acho que houve um afastamento da alta direção da empresa, das unidades operacionais. Não sei se a direção anterior, antes da privatização, toda ela veio de áreas operacionais, essa proximidade era mais fácil. Eu acho que houve um certo isolamento. Por outro lado, o que a gente vê, é inegável que a empresa melhorou. As coisas são muito mais rápidas. Muito mais ágil. A Vale não depende do governo para poder crescer. Depende da direção da empresa tomar as decisões certas e isso ser aprovado rapidamente ou não no conselho da companhia. No meu entender também, houve uma certa burocratização interna, talvez pelo fato das pessoas que assumiram a direção da empresa não conhecerem, ou não terem o nível de confiança necessário, ou mesmo terem constatado alguns vícios dentro da empresa. Foi levado a ter mais controle. Isso levou uma certa burocratização de tomada de decisão dentro da companhia. Mas no geral, foi extremamente benéfico, tanto para o empregado quanto para a empresa como um todo, acho que foi muito bom.

 

P/1 –A diretoria de Manganês foi criada em 1999? 

 

R – Foi em 1999.

 

P/1 – O que levou a essa criação?

 

R – A verdade é a seguinte: o negócio de manganês da Vale começou com as minas de manganês, com a Mina do Azul, 1997 aproximadamente. Tinha a mineração de Urucum que a Vale tinha participação, uma coisa que ficava lá em Mato Grosso, não tinha muita relevância dentro da Vale. Quando a Vale comprou a Urucum, aí ficou a Azul e a Urucum, com minas de manganês e nós éramos ligados à diretoria do minério de ferro. E as ferro-liga, em 1995, a Vale mais a Usiminas se associaram, com a Vale com maior número de participações e compraram 100% das ações ordinárias do Grupo Ferro-liga ___________- que estava falindo. E passaram a administrar as Ferro-ligas. E também não foi bem, essa administração não deu certo. O grupo começou a amargar prejuízo e dívidas e tal. Até que em 1998 a Vale resolveu colocar a venda todos os ativos de manganês, inclusive para agregar valor ao negócio, a Vale, para facilitar a venda, colocou as minas de manganês também. E estabeleceram um preço mínimo que não foi alcançado. Houve uma proposta de inicio de venda, a Vale e a Usiminas não fecharam e então a privatização da Vale _________ “olha, eu continuo o negócio, mas eu quero continuar sozinho.” Pelo preço que ofereceram ou eu compro sua parte ou você compra a minha parte. Em dezembro de 1999, a Vale acabou comprando as ações da Usiminas e um pouco antes disso foi criada a Diretoria do Manganês. Então a diretoria do manganês foi criada para cuidar dos ativos de manganês, tanto de mineração quanto de metalurgia, fabricação de liga.

 

P/1 – Inclusive a comercialização?

 

R – Inclusive a comercialização.

 

P/1 – Antes era ligada ao minério de ferro.

 

R – A diretoria de comercialização de minério de ferro que estava dentro da diretoria de minério como um todo, antes da privatização e tinha lá um grupo responsável só para o manganês. Então, logo que foi privatizado, manteve esse sistema de diretoria comercial com um responsável pela área de manganês e ________ de manganês, a área comercial de manganês e liga já foi desmembrado da área de minério de ferro.

 

P/1 –Como compõe hoje essa diretoria, quais as empresas que compõe ela? 

 

R – Tem uma empresa na França que é a Rio Doce Europa, antiga _________ fábrica ferro manganês óxido carbono, uma sinterização, um dos maiores fornos do mundo; tem a Urucum Mineração; a Mina do Azul que hoje é da Sibra – Siderúrgica Brasileira, que mantém na Bahia; Companhia Paulista ________- Tem algumas subsidiárias de mineração, uma delas Sociedade Mineira de Mineração em Lafayette e a ___________ na Bahia. Companhia Ferro-Liga tem unidades em Santa Rita do Jacutinga, sul de Minas, Barbacena e  ______ de Ouro Preto ferro-liga e manganês. Uma unidade em São João Del Rei de liga de cálcio-silício. E a Sibra tem uma unidade de liga em Simões Filho, perto de Salvador.

 

P/1 – E a sua função é...

 

R – Minha função é a parte operacional de todas essas unidades produtivas de mineração e de metalurgia.

 

P/1 – Teu cargo é?

 

R – Na Vale eu sou Gerente Geral nas empresas sou diretor de produção.

 

P/1 – Quais são as perspectivas do manganês...

 

R – O manganês, eu vou aqui usar as palavras de um colega: “Manganês é igual ao sal, quem usa não quer nem saber se tem na dispensa, tem que ter o sal para fazer a comida na hora que precisa. E você compra em qualquer lugar.” Então não tem valor. Apesar de pra nós ter valor, pra quem compra, é uma coisa que não pesa muito na hora que vai fazer a comida, o sal pesa muito pouco. Mesma coisa é a liga, ela pesa muito pouco na hora de fazer o aço, mas todo mundo quer ter na despensa na hora de usar. É uma coisa que você compra em qualquer empório, manganês é como moddes, tem no mundo inteiro. A liga de manganês, manganês não, poucos têm, o minério. Então o mercado de manganês, alguns tipos de liga é muito fácil fabricar. Outros tipos de liga, só quem tem minério de alto teor é que pode fabricar. Aí que é a vantagem competitiva da Vale de ferro de mina de manganês, de Azul e de Urucum que são minérios de alto teor. São uma das poucas reservas no mundo de manganês de alto teor. Então a nossa competitividade está muito calcada em termos desse minério de alto teor com baixíssimo custo de produção. Ao passo que nossa concorrência, a própria produção mundial tem enormes reservas de manganês. Carajás em manganês, Carajás em ferro, nós temos em manganês.

 

P/1 – Quem é?

 

R – A Samancor. Nós temos reservas grandes, mas não tão grandes quanto as deles. Eramet que era a francesa, que _______ as minas de Gabão, as minas na África do Sul e nós. As quatro maiores produtoras. Temos a Autlan, no México, com minério de baixo teor. Quando falamos de minério de alto teor, temos quatro produtores mundiais. Minério de baixo teor tem mais espalhados pelo mundo. A liga de alto carbono só pode ser feita com minério de alto teor. Então, ou compra da gente ou somos nós que fabricamos. Já o círculo (?) manganês você pode fazer com minério de baixo teor, então o círculo manganês é mais ofertado no mercado. China é um grande produtor, e avacalha (?) o mercado. O manganês, aqui em Minas vai operar também, há mais certa regra de jogo, antigamente era mais desordenado esse mercado, um mercado onde hoje o preço está assim amanhã está assado. Hoje há mais regularidade nos preços. Por outro lado, o crescimento da economia americana verificado nos últimos anos fez com que houvesse um aquecimento na produção de aço, conseqüentemente uma maior demanda por liga de manganês. O preço do minério de alto teor estando mais alto faz com que poucos possam produzir economicamente. E o preço da energia elétrica estando mais cara, diminui a competitividade das empresas fabricantes de liga. Então o segredo da fabricação da liga de manganês é você ter primeiro uma condição favorável de localização em termos de situação geográfica para lhe permitir menores custos de transportes. A liga de manganês é vendida colocada no cliente, o frete está incluído. Você tem que ter energia a um preço competitivo, você tem que ter minério de qualidade pra fazer. Os outros custos são mais ou menos os mesmos. Quem tem essas três condições leva vantagem em relação aos outros. Nós temos minério, nós temos energia ainda hoje em preços razoáveis e nós temos uma posição geográfica. E tem que ter mercado. Nós temos hoje pelo menos 60 – 70% do mercado doméstico, que é um grande mercado. O mercado brasileiro é um grande mercado. Então nos coloca numa posição favorável, pelo menos para a gente defender o nosso território, tem uma boa parte de nossa produção garantida. O preço vai depender da oferta e da demanda desse mercado. Há uma preocupação que se avizinha, da questão do atentado em Nova York, própria queda da economia americana, conseqüentemente uma queda da economia mundial, isso pode levar uma retração no mercado, principalmente no mercado de aço. Quão significativo vai ser isso, vai ter que esperar uns tempos para ver. Mas a resposta não é tão rápida, vai uns três meses para se ter uma idéia disso. Agora tem um detalhe: eu sou da teoria que é na crise que você cresce. Então você tem que buscar, crescer na crise. Se vem uma crise é porque está na hora de pensar em crescer. Vai depender das oportunidades, vai depender de uma série de coisas. 

 

P/1- A crise energética atingiu de alguma forma?

 

R – Sim. A gente teve uma redução significativa na produção, apesar de não ser refletida nos custos porque nós tomamos uma série de medidas internas para minimizar esse impacto, mas houve uma queda significativa na nossa expectativa de produção para esse ano. Principalmente na Bahia, na Sibra, nós tivemos uma redução muito grande, nós tivemos que parar uma unidade de silício-metálico que é altamente demandada de energia para compensar e reduzir as perdas na produção de liga de manganês. Reduziu também a produção de cálcio-silício que consome mais energia para manter um certo nível de produção em Minas Gerais. Tivemos uma perda significativa de produção.

 

P/1- Isso não implica problemas com clientes?

 

R – Nós fizemos uma priorização para mercado interno, não deixamos de abastecer o mercado interno, segundo o mercado sulamericano, também a gente deu uma prioridade. Nós cancelamos algumas previsões de exportação para outros mercados não tradicionais nossos de forma a manter nossa clientela usual abastecida. Sacrificamos alguns mercados não tradicionais. Teremos que ir buscar esses mercados depois, adiar a busca desses mercados não tradicionais de forma a manter os clientes tradicionais nossos.

 

P/1- Quem é o cliente tradicional?

 

R – No mercado interno temos grandes siderúrgicas integradas, a Usiminas, a CST, Açominas, Belgo-Mineira, Cosipa. Na Argentina a Siderar, a Sibra, a (Siberca?), no Paraguai a Acepar, alguma coisa para o Peru, alguma coisa para a Venezuela, Canadá tem também alguma saída para lá. São esses os clientes mais tradicionais nossos. A Gerdau.

 

P/1- Carlos, conta um pouquinho como que é um dia seu de trabalho, como é o seu cotidiano hoje.

 

R – Bom, cotidiano é uma coisa chata porque o próprio nome já diz cotidiano. (risos) Para mim é uma coisa muito diferente porque eu trabalhei vinte e tantos anos em área operacional, diretamente na mina, apesar de ter cargo de chefia na mina, mas você está lá, do lado da mina. Você está na área operacional, vivendo os problemas operacionais, resolvendo os problemas a nível _______ que são operacionais e o estratégico, ajudando a montar o estratégico. Hoje de uniforme, botina, a meia hora de casa, ou seja, você saiu do serviço, precisa só de meia hora e está chegando em casa. Aí de repente veio para o Rio de Janeiro, tendo que trabalhar de terno e gravata, sapato que não estou acostumado, moro na Barra, ou seja, duas horas e meia de trânsito, pelo menos, por dia e trabalhar no prédio da Administração Central, trabalhando no estratégico, buscando o crescimento da Empresa. Apesar de ter uma grande responsabilidade do lado operacional, eu estou  responsável pela parte operacional propriamente dita. Eu tenho que ir a campo, tenho que ver como vão as coisas.

 

P/1- Viaja muito?

 

R – Viajo muito para várias áreas operacionais. Então é completamente diferente. A minha vida mudou muito desde o momento que eu vim parar no Rio de Janeiro, mas tudo é questão de adaptabilidade. A pessoa ou se adapta ou não adapta. Fiquei tanto tempo rolando por aí. 

 

P/1- E o cotidiano fora do trabalho, como é sua vida familiar?

 

R – Bom você imagina o seguinte: para eu ficar duas horas e meia no transito você imagina que sobra pouco tempo para ficar dentro de casa. Eu gostaria de ter um pouco mais de tempo para dedicar a gente mesmo, a praticar um esporte. Eu toda vida fui praticante de esporte e por questões de joelho tive que parar, mas sinto falta de praticar um exercício físico, estou completamente sedentário aqui no Rio de Janeiro, o que não é bom. Por outro lado, morar na Barra dificulta isso. Então eu tenho que encontrar uma forma de achar um tempo de fazer exercício qualquer, andar, caminhar, botar uma bicicleta em frente a televisão para assistir o jornal fazendo bicicleta. Vou ter que achar alguma coisa. Fora isso, vai muito bem, estou casado há pouco tempo, uma família muito boa, muito tranqüila. Na realidade o importante é estar em harmonia. Você estando em harmonia...

 

P/1- Seus filhos, quantos você tem, o que eles fazem?

 

R – Bom eu tenho... vamos considerar cinco filhos. Três do primeiro casamento, dois enteados do segundo. Do primeiro, o mais velho estuda em Ouro Preto, faz engenharia civil, se forma o ano que vem. A primeira é a Viviane, a segunda é a Jaqueline, ela estuda em Belo Horizonte, faz Relações Públicas nas UNBH, o André Luis, que é o terceiro, faz Escola Técnica Federal em Ouro Preto, o mais velho dos meus enteados, o Marcelo, mexe com hardware, rede de computação, ele teve montando e desmontando rede por aí, presta serviço para dois escritórios de contabilidade do Rio de Janeiro, manutenção dessas redes, ele é autônomo. A Ivana estuda, se preparando para o vestibular de Direito, a mais nova dos cinco. A minha mulher é comerciante, tem uma rede de lojas, largando esse negócio, passando para o Marcelo e estuda. Até hoje estuda, está fazendo designer, que é o que ela gosta de fazer.

 

P/1- Carlos, pensando um pouquinho nessa sua trajetória, tanto profissional como pessoal, se você pudesse começar de novo, você mudaria alguma coisa?

 

R – Vamos começar da engenharia para cá porque para trás estava muito bom. Eu diria que eu faria a mesma coisa, eu faria Engenharia de Minas de novo, só que eu iria fazer um curso de civil também. A frustraçãozinha é de não ter feito um curso de civil. Quando eu fui para Urucum, a minha grande frustração profissional, até então, era nunca ter trabalhado em algo relativo a mina subterrânea. Essa oportunidade eu tive em Urucum, então profissionalmente acho que não tenho nenhuma frustração. Dizer que eu me sinto realizado não, eu acho que eu tenho mais coisa para fazer, mas não tenho frustrações. Realização, acho que ainda tem muita coisa para fazer para se sentir realizado. Agora a frustração em termos de estudo, uma coisa que eu gosto, aquela engenharia que eu imaginava, do calculista, eu não aprendi, para mim era o calcular, ser um engenheiro de projeto ali. Eu queria ter aprendido. Mas fica para a próxima encarnação, meus pais acreditam nisso, quem sabe um dia...

 

P/1- E projetos futuros, sonhos?

 

R – Meu sonho é muito simples, eu acho que o homem não pode parar. Eu não penso em aposentadoria por pensar. Está longe dos meus planos aposentar. Acho que você tem que garantir o seu futuro, pensar o seu futuro. Quando esse momento chegar, você tem que estar preparado para ele e não deixar que sua vida mude tão substancialmente a ponto de ficar inativo. A pior coisa que pode acontecer é ficar inativo. Eu quero ter um canto meu no alto da Serra, um lugar no campo, que é o que eu gosto. O Rio de Janeiro é muito bom. Quando você está trabalhando no Rio de Janeiro, você não vive o Rio de Janeiro. Se um dia eu me retirar dos negócios, eu quero ter um canto sossegado fora da cidade, aí eu vou vir aqui curtir, passear, cinema, teatro, coisa que eu gosto. Morar no interior você não tem essas oportunidades de curtir essas coisas. Nesses últimos anos curti muito aqui no Rio, essa parte social, digamos assim. Lazer social, lazer cultural. Nas _______ não tem muita oportunidade de fazer isso. Mas e querer fazer alguma coisa de útil, é importante você pensar em ensinar alguém aquilo que você aprendeu. Alguma coisa vai tem que ser relacionada a isso. A maior forma de transmitir o que a gente aprendeu para outras pessoas. Faz parte do processo de crescimento da gente. Viver harmonicamente. 

 

P/1- Vamos fazer uma última pergunta… (interrupção)

 

R – A Vale é uma empresa que sempre teve ação no mercado, era uma empresa estatal, tinha controle do governo. O governo tinha 51%, mas era uma estatal que tinha ação no mercado, não era totalmente governo. Era tratada como uma empresa qualquer. É lógico se você perguntar isso para uma empresa estrangeira, eu ache que não, muito pelo contrário, o DNPM sempre foi muito rigoroso com a gente. Engraçado, você tinha muita conversa, mas a gente sempre fez as coisas dentro da lei também, isso aí nunca, nós somos estatal, dá um jeitinho, isso não. Foi com muita luta que a gente consegui manter esses direitos minerais, porque ajuda mesmo não teve não. Tivemos muito problema com o DNPM, muito rigor, nossas áreas sempre foram muito vistoriadas...

 

[Fim da fita/Fita 3 – Lado A]

 

R - ... eu acho vital o projeto de uma Empresa que tem tanto de sua história na cabeça de muita gente, a estrutura da Vale sempre foi uma estrutura muito informal e por essa informalidade, muito da memória técnica, memória dos fatos da empresa ela se foi, ou está na cabeça de algumas pessoas que não estão mais na Empresa. A gente que ainda está na Empresa ainda consegue reativar isso, ou de uma certa forma fazer participar os demais, passar para os demais. Os que estão fora tem muita coisa “perdida” e efetivamente perdida por aí. Resgatar não só a história, mas a cultura da Empresa, os fatos que marcaram, até mesmo os fatos relevantes e o conhecimento dela acho muito importante. Tem muita gente por aí que sabe de tanta coisa que você, num momento de dificuldade, “liga com fulano que está lá não sei onde, está aposentado num sítio não sei aonde.” “Eu quero falar com ele. Essa pessoa que sabe.” Aí é verdade, a gente mesmo lembra de determinados fatos que poucas pessoas viveram e se elas têm oportunidade de passar isso aí, certamente nós criaremos um acervo grande, não só do aspecto cultural da empresa mas também no conhecimento tecnológico que possa ser resgatado.  Acho muito importante essa parte cultural mas no aspecto tecnológico nós temos muita coisa perdida também, tem muita coisa na cabeça das pessoas. Pela informalidade que a Vale trabalhou no passado.

 

P/1 – Tem mais alguma coisa?

 

R- Não, quero agradecer a oportunidade e desejar sucesso na formação do livro, da coletânea que vocês vão fazer. Me colocar a disposição também para qualquer outra coisa e eventual, se eu possuir alguma outra coisa, eu vou dar uma verificada.

 

R – Então, muito obrigado, foi ótimo.



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