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História

O homem do Mappin

História de: Vicente Guastelli Neto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/07/2005

Sinopse

Identificação e infância em São Paulo. Primeiros trabalhos em fábricas de calçados. A escola, o bairro de Higienópolis e as brincadeiras. Trabalho na Jardineira Paulista. Contratação pelo Mappin. A "seção de condições" e o envio de mercadorias. Descrição do interior da loja e a história da fundação do Mappin. As propagandas desenvolvidas. A loja do Itaim e a fábrica do Mappin. A seleção dos funcionários e o cotidiano de trabalho. A aposentadoria e seu trabalho atual. Sonhos.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO Meu nome é Vicente Guastelli Neto. Eu nasci em São Paulo, no dia 30 de setembro de 1914, na Rua Itambé, esquina com a rua que dá para o Cemitério da Consolação. O nome do meu pai é Afonso Guastelli, nascido na cidade de Bizona, na Itália. FAMÍLIA Vieram para cá meus avós e meu pai, que é natural da Itália, veio também com poucos anos de idade. Ele conheceu aqui minha mãe, ela é de nacionalidade espanhola, nasceu em Málaga, aqui se conheceram e casaram. Desse casamento resultou o nascimento de cinco filhos. Sendo eu o mais velho. ASSASSINATO DO PAI O meu pai foi assassinado num campo de futebol. Ele era o presidente do Clube União Minas, e um dos irmãos jogava no time que meu pai era presidente. E às tantas, no decorrer do jogo, houve uma briga entre meu tio e um componente do outro quadro. Meu pai foi separar e levou uma punhalada do pai do que estava brigando com o meu tio. Fiquei órfão com sete anos de idade. E o menor, dos cinco, tinha dois meses e quatro dias. Daí começou a minha infância difícil. INFÂNCIA Minha mãe passou a trabalhar em fábrica de calçados, que é a profissão que ela tinha de solteira, pespontadeira. Depois de casada, não precisou trabalhar mais, mas com o falecimento do meu pai ela passou a trabalhar de pespontadeira na fábrica de calçados Melino e Companhia, que naquela época era na Rua Augusta com a Caio Prado. Eu estudava nessa altura Grupo Escolar da Consolação, hoje é a sede da Nestlé. E com 11 anos de idade minha mãe me tirou da escola para começar a trabalhar e para ajudar no orçamento da casa. Comecei ganhando 500 réis por dia, isso representava três mil réis por semana. Naquela altura, alimentação era bem em conta. Comprava-se feijão, que não era por quilo, era por litro, 200 réis o litro do feijão. Arroz a mesma coisa. Tudo era barato. Depois, minha mãe foi trabalhar no Navajas e Companhia, que também era fábrica de calçados, na Rua do Gasômetro. E eu sempre acompanhava minha mãe, onde ela ia, eu carregava também. EDUCAÇÃO A escola era bem superior à de hoje, havia mais exigência, os professores eram mais dedicados. Eu comecei estudando no Grupo Escolar da Consolação, saí aos 11 anos de idade, depois fiquei muito tempo parado, criança não estava lá muito interessado em estudo, mas em brincar. Mas quando eu comecei a compreender o que ia ser no futuro, se não estudasse, aí fui estudar no Externato Imaculada Conceição, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, esquina com a Rua Cincinato Braga. Era escola de frades. Meu professor do externato tinha um irmão que lecionava na Escola de Assistência Vicentina, que era na Rua Cesário Mota, a rua da Santa Casa. Ele lecionava francês, meu padrinho falou com ele e eu passei a estudar nessa escola, a Frederico Zanna. Depois, essa escola mudou para a Praça Roosevelt, mas nessa altura eu não estava mais estudando lá. EDUCAÇÃO RELIGIOSA Um dia da semana, não posso precisar agora se era uma quarta ou quinta-feira, tinha uma aula religiosa.O frade ia na classe para dar essa aula. Se estivessem praticando hoje aquilo que se praticou naquela época, eu acho que a onda de bandidos que nós temos aí não seria tão elevada. Naquele tempo, nem se falava em bandido. A gente andava tranquilo pelas ruas, as senhoras podiam já usar as suas joias tranquilas. Isso ajudou na minha formação, que hoje eu me considero um homem digno, responsável. Eu fui um bom chefe de família, dei uma boa educação para meus filhos, e, graças a Deus, meus filhos estão transmitindo também aos meus netos, e, se Deus quiser, os meus netos também vão passar isso para os filhos, que eu já tenho dois bisnetos. SÃO PAULO ANTIGA – AVENIDA ANGÉLICA E PACAEMBU Eu morei na Avenida Angélica muitos anos, era uma rua que sempre foi famosa. E eu diria que era uma rua de elite. Naquele tempo, 1924, foi a época da revolução, que os revoltosos se alojaram ali no alto do Pacaembu, atrás dessa Avenida Angélica. Era um asilo, eles se alojaram lá porque atacavam o bairro do Cambuci com os canhões que estavam lá na base. Mas é o que eu digo, a Avenida Angélica era uma avenida como a Avenida Paulista, por exemplo. Era só mansões, a elite paulistana morava na Avenida Paulista e Avenida Angélica. A gente brincava na rua, era tranquilo. SÃO PAULO ANTIGA – PRAÇA BUENOS AIRES A Praça Buenos Aires existia, mas não como hoje, era bem mais simples. Eu morava aqui, na Avenida Angélica, entre a Coronel José Eusébio e Rua Maceió, e a Praça Buenos Aires fica mais ou menos na altura da Rua Piauí, Rua Maranhão. BRINCADEIRAS Eu jogava bola, que isso era tradicional; desde que a gente se considera capaz de chutar uma bola. Depois jogava bolinha de gude, tinha bolinha de gude de vidro e tinha de aço também. Brincava de amarelinha com as meninas. Hoje não se vê isso, hoje os meninos já começam a vestir calça comprida, já pensam logo em namorar. Aquela época era brincadeira até 15, 16 anos. Brincava de carrinho de rolimã também. Muitas vezes caí, me machuquei, mas naquela altura eram brinquedos sadios, sempre machucava, mas logo depois fazia lá um curativo, lavava com água e sabão e resolvia o problema. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – FÁBRICA DE CALÇADOS O cotidiano era o seguinte: levantava cedo, tomava meu café, ia pro serviço, naquela altura era às sete e meia da manhã. Depois trabalhava, almoçava mesmo na fábrica, tinha lá um salão e a gente levava lanche. Depois, saía às cinco horas, ia para casa e ainda dava tempo de brincar um pouquinho. Comecei na fábrica com 11 anos. Criança podia trabalhar, não existia legislação. A legislação veio depois, acho que 1943, foi criada pelo ex-presidente Getúlio Vargas, que, no meu entender, foi um grande presidente. Pelo menos se preocupou com o trabalhador, criou a Consolidação das Leis do Trabalho, que já era hora de sofrer alguma alteração. ATIVIDADES NA FÁBRICA DE CALÇADOS Minha mãe era pespontadeira. Por isso, ela me levou lá e o primeiro trabalho após a montagem do corte, que nós dizemos é a parte já de cima de couro, depois de montada ela vai para uma forma, nessa forma é aplicada com umas tachinhas, e aí era colocada num carrinho e vinha então para a seção de amarração, amarrava com um barbante. Naquele tempo não existiam esses mocassins, era tudo amarrado. E o meu trabalho era esse, era amarrar o barbante no corte, depois ia para a montagem. Minha mãe me levava, porque, afinal de contas, eu era menor e ela queria que eu estivesse sempre junto dela. Trabalhava para ajudar. Embora ganhando pouco, naquela altura o pouco representava muito. FÁBRICA DE CALÇADOS NA RUA DO GASÔMETRO Naquela rua tinha a Navajas e Companhia, tinha o Arbulo e Companhia, que eu lembro, tinha uma fábrica de balas. E tinha uma cantina, que era a Balilla, tinha uma padaria italiana, tanto que para me alimentar na hora do almoço, na Rua do Gasômetro, comprava lá 200 réis de pão, vinha quatro pães italianos. E tinha na esquina, o Gasômetro, que fornece gás para São Paulo. CINEMAS Tinha um cinema na Rua Piratininga, que era uma travessa da Avenida Rangel Pestana. Era mais ou menos próximo da Rua do Gasômetro. Tinha outro na Avenida Rangel Pestana, Brás Politeama, era o nome do cinema. Mas era bem diferente dos cinemas de hoje, eram uns cinemas mais simples. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – JARDINEIRA PAULISTA Antes de ir para a Jardineira Paulista, eu trabalhei numa cerâmica De Camille. Houve uma época em que fomos morar em Poá, porque as casas eram mais baratas. Mas não foi muito tempo. Fui trabalhar nessa fábrica que era em Carmão Viana, uma estação adiante de Poá. Depois saí, isso já por volta de 1930, fui trabalhar numa loja de flores, que era a Jardineira Paulista, na Rua Líbero Badaró. Depois mudaram o nome, hoje é Rinaldi Flores, está localizada naquele Shopping Iguatemi, na Faria Lima. Hoje Faria Lima, que antigamente foi Iguatemi. Eu fazia o serviço de boy, era entregador. Foi bom, porque hoje eu conheço muito as ruas em São Paulo e devo, naturalmente, à época que eu trabalhei lá, como entregador. Nas horas vagas também ajudava os floristas a fazerem rolamento das coroas. Antes de colocar as flores tem uma planta chamada taboa, dá no brejo, e era enrolado aquilo para poder espetar o arame com a flor. EMBALAGENS Quando era, por exemplo, um ramo de flores, eles confeccionavam o ramo e embrulhavam em papel branco com as bordas prateadas. Eles davam um certo charme ao pacote. As cestas eram mais ou menos como hoje, só que naquela época era mais simples. Hoje aperfeiçoaram muito essas cestas, hoje a gente vê ramo de flores, hoje se tem também os vasinhos com plantas naturais, que naquele tempo não existia. PREÇOS Naquele tempo não se falava em inflação, não se falava em juro. O juro naquela época era de 1%, quem cobrasse acima de 1% já era taxado como agiota. Então, é difícil a gente fazer uma comparação daquela época com a de hoje. Acredito que em matéria de preço tudo era mais acessível. CLIENTES E RUAS DE SÃO PAULO Tinha clientes fixos. Na Rua Lopes de Oliveira tinha uma cliente que o noivo todo sábado mandava uma cesta. Eu já esperava aquilo com uma ansiedade, porque recebia sempre uma gorjeta e boa. Tinha outra cliente na Rua Pamplona. Eu não sei se era de nacionalidade síria ou se era turca. O fato é que também entregava flores lá e recebia gorjeta. Tinha muitas outras ruas que eu conheci que fazia entrega. A balconista verificava pelo guia e me dava as coordenadas todas. Não tinha erro: chegava lá. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – MAPPIN Eu trabalhei na Jardineira de 1930 até 1932, foi quando eu entrei pro Mappin. Em 28 de novembro de 1932 eu fui admitido no Mappin, depois da revolução, porque a revolução tinha terminado há pouco. Tanto que todos os dias havia tiroteio lá na Praça do Patriarca, parece que era a praça escolhida para se reunirem. O Mappin abaixava as portas, a gente se escondia atrás de coluna para não receber uma bala perdida. Comecei como auxiliar do secretário do diretor comercial. Naquele tempo não se falava em boy; boy veio depois, era auxiliar, no Mappin. Eu comecei como auxiliar. Mais tarde, com o falecimento do secretário do diretor, ele fez uma experiência comigo para ver se eu podia tomar conta do lugar. Felizmente deu certo, eu fiquei no lugar como secretário dele, e tomava conta de uma seção, hoje não existe mais esse serviço, chamava-se Seção de Condições. Mandávamos as mercadorias em condições para o cliente, o que agradava, ficava, o que não agradava, devolvia, e eu que fazia o controle. Não tinha o pagamento. Mandava tudo sem cobrar um tostão! Tinha casos em que o cliente recebia, por exemplo, meia dúzia de maiôs, para escolher um ou dois, não agradava, voltava tudo. ANÚNCIOS Tinha os anúncios de jornais, revistas, já se fazia naquela altura. Então, o cliente via. Hoje tem esses encartes de jornais. O Mappin chegou a ter catálogos, e fazia venda por correspondência também pros outros estados, cidades do interior, através de correspondência. Naquele tempo anunciava n’O Estado de S. Paulo, era um dos veículos muito usados. Tinha também o Correio Paulistano. Existia a Gazeta, hoje tem a Gazeta Esportiva, mas a Gazeta era um jornal muito lido. O jornal era uma folha só, dobrada, uma folha grande dobrada, então representava umas quatro páginas de hoje. Alguns anúncios estavam na primeira página, quando era para chamar a atenção de clientes. O Mappin trabalhava com muitos artigos estrangeiros. O setor de compras era em Londres, na Inglaterra. Era tudo por navios, que vinham de lá da Inglaterra. CLIENTES O Mappin trabalhava com o sistema de conta corrente. Era só a elite paulistana que o Mappin servia. A elite paulistana naquela altura era considerada de forma tal que as firmas, naturalmente, a tratava com muito carinho. Era uma honra para a empresa ter a nata paulistana como cliente. DISTRIBUIÇÃO Os produtos eram enviados via correio, as peças pequenas. Agora, peças grandes iam por estrada de ferro e mesmo estrada de rodagem, tinha essas companhias transportadoras. MAIS VENDIDOS As vendas eram de acordo com os anúncios que saíam no jornal. Saía muito era roupas de banho, por exemplo, maiôs, saídas de banho, lingerie. E também perfumaria. O Mappin tinha uma perfumaria completa MAPPIN – PRAÇA DO PATRIARCA Tinha o andar térreo, onde era a seção de tecidos, naquela altura se confeccionava muito, tinha muita costureira, hoje é tudo industrializado. Tinha a seção de armarinhos, onde se vendia toda a miudeza, novelos de lã, agulhas, botões. Tinha a seção de meias para senhoras, tinha a seção de cavalheiros, roupas feitas. Tinha alfaiataria, confeccionava roupa sob medida. Hoje o Mappin não tem mais roupa, trabalha com tudo industrializado. Eu, por exemplo, não mando fazer roupa. Toda a minha roupa é feita, compro no Mappin. Tinha a seção de fotos, artigos de fotografia, também era no andar térreo. Depois tinha a primeira sobreloja, onde eu trabalhei, meu escritório era debaixo de uma escada que subia para o primeiro andar, todos os espaços eram ocupados. Na sobreloja tinha a seção de modas em geral, seção de chapéus, confeccionava chapéus também. Lá tinha os desfiles do Mappin, no salão de chá, que era famoso. Tinha a seção de bebês, era muito bem frequentada, vendia bem. A seção de lingerie era também nas proximidades. Depois da sobreloja tinha o primeiro andar, onde funcionava a seção de móveis, seção de tapetes, cortinas. No segundo andar, tinha seção de artigos domésticos, tinha seção de calçados e também seção de meninos. MAPPIN – SALÃO DE CHÁ No terceiro andar, era o salão de chá, que era famoso, até hoje se fala: "Uma tradição que desapareceu!" O chá não era chá só no nome, porque era um jantar. Eu ia tomar chá, saía de lá ia para o cinema, depois ia dormir, porque já tinha jantado. Tinha uma confeitaria lá dentro do Mappin, tinha uma cozinha que era de causar inveja a muitos restaurantes de hoje. O chef era um suíço, me lembro o nome dele, era Gustavo Burle. A comida do Mappin não havia quem não conhecia. Todos os grandes personagens, quando chegavam a São Paulo, já vinham com a recomendação de comer no Mappin. As reuniões dos políticos eram lá. Prestes Maia, que eu conheci, Adhemar de Barros, esses grandes políticos. Depois, mais tarde foi criado o bar, o Bar América. A frequência no bar começava mais ou menos às 10 horas da manhã. Sabe quem se reunia ali? Eram os fiscais de impostos, porque eles só começavam a trabalhar depois do meio-dia. Iam lá, tomavam seus aperitivos, almoçavam, depois saíam para o trabalho. Lembro com muita saudade, porque eu era um assíduo frequentador. Não no início, quando era auxiliar, depois fui galgando outras posições no Mappin, segui a gerente de pessoal, gerente de relações trabalhistas, aí eu já frequentava, já me era permitido. Almoçava lá todos os dias. E uma vez ou outra ia tomar chá. As madamas, também, no aniversário dos filhos, tinha lá um salão que chamava salão verde, eles preparavam uma mesa para um determinado número de crianças e festejavam lá o aniversário. Meus filhos também lembram com saudades até hoje do salão de chá. Mas tá certo, porque o espaço em metro quadrado é tão caro que não comporta hoje ter um restaurante que o lucro é limitado, seções de venda sempre dão um resultado maior. FUNDAÇÃO E CRESCIMENTO DO MAPPIN O Mappin foi fundado em 1913, começou na XV de Novembro, pegado ao Mappin Webb. O Mappin Webb era uma firma que trabalhava só com prataria e cristais. Aí foi indo, o Mappin foi crescendo, tornou-se pequena a loja, aí mudou para a Praça do Patriarca. Isso foi por volta de 1918, 1919. E foi até 1939, quando passamos para a Praça Ramos de Azevedo. Praça Ramos de Azevedo e a Barão de Itapetininga, Largo do Arouche, o Mappin levou o comércio para lá! E do lado de cá, na Praça do Patriarca, ficou mais uma zona bancária. Hoje é um centro mais moderno, que quem quer comprar calçado vai lá na Rua do Arouche. Temos outras lojas, no Itaim, que é uma belíssima loja, loja de departamentos, lá no passado funcionou o depósito. Eu também trabalhei lá um ano, fui gerenciar o depósito. O depósito se transformou nessa grande loja do Itaim, que a turma diz que leva uma vantagem porque tem estacionamento próprio. Depois veio a loja do ABC, sem contar a loja da São Bento, a loja da São João. Tivemos também na Xavier de Toledo, a mercearia. O prédio da mercearia passou a funcionar na loja central, na Praça Ramos. Mas o termômetro das lojas ainda é o Mappin Praça Ramos de Azevedo, porque é a que mais vende! Não tem estacionamento e, entretanto, tem aquele movimento. PUBLICIDADE Nós sempre tivemos um setor de propaganda. Toda a propaganda era feita no Mappin. Depois começaram aparecer essas empresas todas de propaganda e o Mappin começou a distribuir uma parte. Mas tinha o setor de desenhos, tinha a parte de jornalismo, a parte de televisão. Tem um diretor de propaganda, tem gerente de propaganda, gerente de redação, que trabalha com essa parte de jornais. Mas hoje eles distribuem. Tem várias agências que trabalham. O Mappin cria um negócio e passa para eles. Tem lá um desenhista que prepara tudo, depois para o setor de propaganda. TRABALHO NO DEPÓSITO A João Cachoeira hoje é um centro comercial, tem aquela C&A, tem muitas lojas de moda, de calçados. Fui pra lá por volta de 1958, 1959, trabalhava meio dia lá e meio dia aqui na loja. Tinha mais casas residenciais, aos poucos foram vendendo, derrubando e construindo lojas. Tinha uma confeitaria muito boa, que eu me servi muito, era um suíço especialista em doces. O Mappin tinha um terreno na Rua João Cachoeira, porque precisavam de um depósito. Depois é que foi resolvido transformar numa loja, porque a Avenida Juscelino Kubitschek se tornou uma grande avenida, se tornou um centro de comércio, com restaurantes, pizzarias. Onde vai o Mappin, ele carrega os outros atrás. O Mappin, em qualquer canto que se estabeleça, garanto que dá resultado. Agora o Mappin chegou na hora da expansão, pelo menos essa diretoria atual, são jovens, gente jovem e que enxergam bem lá para a frente. Quando falo nós vamos ter é porque ainda me sinto integrado ao Mappin, apesar de ter me beneficiado da previdência privada, continuo prestando serviços ao Mappin. Dou assessoria à frota de caminhões, à frota dos carros do gerente. Depois, quando se desligarem da empresa, eles ficam e pagam o resíduo ou então entregam o carro. Mas a maioria prefere pagar o resíduo porque sai bem mais em conta que comprar um carro. MUDANÇAS NOS PRODUTOS O Mappin fechou em 1938, se não me falha a memória, a fábrica da Rua da Várzea. Começaram a aparecer essas indústrias confeccionando móveis em grande escala. Saía muito mais em conta, e a clientela, naturalmente, preferia comprar os móveis industrializados. Com as roupas feitas, a mesma coisa. Acho que foi questão de economia que houve essa transformação. Eu diria que o forte da roupa deve ter começado depois que o Mappin foi vendido, porque antes o controle acionário era inglês, depois passou para brasileiro, mineiro, isso foi em 1958. CARGOS Em 1938, eu já era o gerente de pessoal e gerente de relações trabalhistas foi mais adiante. Até então eu cuidava das questões, mas não existia um departamento especializado. Aí criaram o cargo de gerente de relações trabalhistas e eu passei a acumular os dois. Eu representava a empresa na Justiça do Trabalho. PROCESSOS SELETIVOS Eu entrevistava os funcionários e dava uns testes, de acordo com a função que o funcionário ia ocupar. A vendedora, por exemplo, que estava dentro do balcão, desde que ela soubesse bem as quatro operações e soubesse como proceder um desconto, não precisava ter curso de matemática, essa coisa toda. Na prova a gente via o desembaraço e a dicção, que é muito importante, e a apresentação do candidato, isso era muito importante. Por exemplo, vai pedir um emprego para balconista e não se apresenta, no traje, com maquiagem. Quando é homem tem que ser bem barbeado, com gravata. Depois, com o decorrer do tempo, o número de contratações foi crescendo, aí foi criado um departamento de relações trabalhistas. Contratamos psicólogos, entrevistadoras com gabarito e assim foi indo. Sempre fui feliz nas contratações. Vários que foram contratados como funcionários da classe média chegaram até a diretores, fizeram carreira dentro do Mappin. Eu mesmo fui um que fiz carreira. Fiz uma carreira muito bonita, modéstia à parte. Comecei como auxiliar no Mappin, cheguei a gerente de pessoal e relações trabalhistas. E eu não tenho curso universitário. Hoje, no Mappin, os cargos de maior importância, a maioria é ocupada por quem tem curso superior. ALEX PERISCINOTTO O Alex Periscinotto entrou quando eu era gerente de pessoal. Ele foi contratado na minha época. Está ali uma inteligência, um grande homem da propaganda. Fez uma carreira muito bonita no Mappin, e depois ele se tornou personagem de renome. No Mappin, ele sempre cuidou da propaganda. Ele idealizava as coisas, trabalhou com a Volkswagen também. Ele é amigo nosso até hoje, amigo do meu filho. COTIDIANO NO TRABALHO Eu não era rigoroso, mas como gerente de pessoal eu era exigente! A gente tem que fiscalizar. Então eu chegava às sete e meia da manhã, ficava na portaria apreciando a entrada dos funcionários. Então, passava, passava, e eu dava uma olhadela. Tinha uma moça lá que a blusa dela não estava muito legal. Passava lá, estava com o rosto sujo, barba por fazer. Aí abria a loja, dava o sinal, eu saía da loja, ia até o meu escritório, e avisava minha secretária: "Muito bem. Vou começar as minhas andanças agora." Descia, ia até a loja e aí eu começava andando tudo. Aqueles que eu já havia notado na portaria qualquer irregularidade, chegava com o chefe deles: "Seu fulano hoje não fez a barba. Ele vai dar uma desculpa, levantou tarde ou não dormiu bem. Você faz uma permissão, manda para casa para fazer a barba." Balconista tem que se apresentar bem em ordem pra atender um cliente. É o cartão de visita da loja. Mandava para casa, dava uma permissão, não tinha prejuízo nenhum para o empregado, mas ele voltava barbeado. Tinha outro que dizia: "Ah, mas eu saio às dez e meia para almoçar, já são nove horas, até eu chegar em casa e voltar." "Então, hoje, adianta o almoço dele. Ele sai agora, vai almoçar, depois volta, justifica o tempo dele." Mulher a mesma coisa: tinha mocinhas que não cuidavam nem da sua blusa. Então, eu corria duas horas e meia por dia, porque eu chegava no meu escritório, a loja abria às oito e meia, e eu chegava no meu escritório às dez, às vezes dez e meia. Agora, funcionário relapso eu tinha que punir mesmo. Primeira advertência era verbal, a segunda era por escrito – não tinha preguiça de escrever não! Todas as minutas eu guardava comigo, porque quando ia aplicar uma outra, para um outro funcionário, uma medida que era a mesma que aquela, já tinha a minuta. Dava pra minha secretária, era só mudar o nome. Então a primeira era advertência verbal, a segunda era por escrito, a terceira era suspensão por um dia, às vezes dois dias, e outras vezes, se o empregado era jovem na empresa, mandava embora! Não sei se é ser rigoroso, estava sendo até um conselheiro. O verdadeiro gerente de pessoal é assim que tem que agir, tem que ser humano com os funcionários. Mas não pode relaxar na boa ordem e disciplina. Eu tenho certeza de que cumpri honestamente. Porque eu sempre gostei daquilo que estava fazendo, não fazia por obrigação e outra coisa: nunca tive uma falta! Graças a Deus. Nem por doença, nem por motivo nenhum. Tinha prazer em trabalhar. Sábado e domingo, para mim, ficava em casa, não via a hora de chegar segunda-feira. A minha mulher chegou a dizer: "Você é um fanático, não conheço ninguém igual. Caxias!" TEMPO DE SERVIÇO Fui trabalhando no Mappin até antes de ser criada a previdência privada. Quando começou a se falar da previdência privada, já comecei a sofrer. Porque eu dizia: "Vai chegar, vou ter que me aposentar e eu não quero." Porque eu li muita coisa a respeito de executivos que se aposentaram. Ele fica deslocado, não sabe mais como viver. Ele estava acostumado com uma série de mordomias. E esse convívio que eu tenho com todos os funcionários, até hoje sou muito bem recebido. Eu faço uso do refeitório do Mappin, que é frequentado por diretores e gerentes. Não me considero aposentado. Estou sempre lá, junto com meus companheiros. Essa é a razão de eu me conservar assim, com essa vitalidade, com essa disposição e com essa boa vontade. Comecei a trabalhar em 1932 e fui até 30 de setembro de 1989, mesmo porque fui obrigado. Eu já tinha ultrapassado a idade limite para a previdência privada, que a idade limite é de 65. Trabalhei 56 anos ininterruptos, com vínculo empregatício, e mais seis anos sem o vínculo empregatício, prestando serviço ao Mappin. Total de 61 anos. TRABALHO DEPOIS DA APOSENTADORIA Tenho um escritório de despachante, porque em 1945 eu prestei exame na escola de polícia para despachante. Porque fazia alguns serviços lá que a diretoria pedia para mim. Desde que trabalhei, 61 anos, me aposentei porque fui obrigado. Mas eu digo: não senti muito porque a diretoria me concedeu regalias como um gerente na ativa tem. Faço uso do refeitório junto com os diretores e gerentes. Estou recebendo um salário como se fosse um salário de um gerente na ativa. Tudo o que eu ganhei no Mappin eu soube aproveitar. Eu não fui um esbanjador e procurei economizar, pensando sempre numa família que eu constituí. SONHOS Com a idade que estou, eu tenho a impressão que já realizei tudo o que poderia. Sempre gostei do Direito. Eu não consegui título de advogado, mas estou feliz porque tenho um filho que conseguiu, tenho uma neta que conseguiu e tenho outros dois que são administradores de empresa, todos estão encaminhados. Eu sou muito emotivo. Qualquer coisa me emociona. Meu filho recebeu o batismo de advogado, eu abracei e tirei do bolso um anel que eu mandei fazer sob encomenda para ele, com pedra natural de rubi. Quando coloquei a pedra no dedo dele, correram lágrimas

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