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História

O homem das seis profissões

História de: José Souza de Araújo (Bode)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/09/2013

Sinopse

José Souza de Araújo, mais conhecido como Bode, mora em Laranjal do Jari. Em seu depoimento conta como foi a sua infância pobre, nascido numa numerosa família de 19 filhos. Com tristeza lembra que seu pai abandonou a família quando ele tinha 12 anos e nunca mais o viu. Relembra a responsabilidade que ele e um outro irmão tiveram quando se transformaram em arrimo de família. Fala com orgulho sobre as suas seis profissões: agricultor, construtor de casas, construtor de barcos, operador de máquina, pintor e reflorestador.

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História completa

Eu nasci na comunidade da Boca do Braço, no Pará, localidade de Monte Dourado. É uma comunidade igualzinha essa minha aqui, que é a Padaria, que hoje faço parte. Saí de lá com nove anos de idade e fomos para outras localidades, conhecida como Bom Jardim, no Pará também. Lá eu fiquei baseadamente uns 15 anos. O nome do meu pai é Nilo Ferreira de Araújo. Foi ele que me deu este apelido de Bode. Ele acostumava torcer minha orelhinha devagarzinho, esquentar orelha ela chamava: “Bodinho, vamos esquentar a orelhinha”. Fui crescendo e me adaptei com esse apelido e hoje se tornou um nome. O nome da minha mãe é Luciana Souza Carvalho.

 

Meu pai sempre com a minha mãe trabalharam na agricultura, com a roça, eles faziam a farinha. Produziam também abóbora, milho, essas coisas. Eu sou o quarto filho, somos 19. Morreu o Rosevaldo só. O meu pai e a minha mãe eles não conhecem letra nenhuma, são leigos mesmo de verdade. Não tiveram oportunidade de ir para a escola. O sentido da agricultura é que a criança já nasce sendo agricultor, a criança vê o pai com a mãe trabalhar, os outros irmãos sente desejo de fazer a mesma coisa. Comecei a trabalhar na agricultura desde criança. Quando a minha mãe ia com o meu pai buscar mandioca no roçado nós não ia. Mas na hora de descascar a mandioca ou lavar, porque já está dentro de casa de forno, a gente mete a mão na massa. Até as minhas irmãs faziam aqueles pedacinhos de roça para elas, para ver.

 

Quando eu tinha 12 anos o meu foi embora por conta própria mesmo. O mais velho era um outro meu irmão, com 15, nós ficamos responsáveis por tudo. Os outros todos mais novinhos, e ainda a minha mãe ficou grávida! Meu pai foi para Porto Grande, em Macapá. Ele só voltou com uns três meses após ele ter ido para vir me buscar, mas infelizmente não me encontrou em casa. Porque eu sempre gostei trabalhar com o meu tio, que era seringueiro. Ele gostava muito de mim, porque sempre a gente era obediente. A minha família era bem pobrezinha mesmo. Onde nós morávamos o esteio da nossa casa, ou seja, a madeira completa era açaizeira. A coisa mais fácil do mundo, ir no mato tirar açaizaira, cortar, apontar e colocar e pronto. O telhado era de ubim, uma palmeira que dá umas folhas largas, que a gente acostuma fazer as casas do interior com isso. O chão nós rachava paxiúba, que é o açaizeiro e fazia as tábuas. Nós dormíamos na rede. Cada um tinha uma rede, mosqueteiro, porque onde nós morávamos dava muito carapanã. Geralmente dava malária.

 

Eu com o meu irmão maior fazíamos a roça, a atividade da agricultura, e a minha mãe, como ela é uma mãezinha muito guerreira, se ajuntava com as vizinhas e ia pescar de caniça no igarapé. E olha que de onde nós morava para o igarapé eram 40 minutos para chegar. Ia pescar e trazer o peixe, e nós ficávamos cuidando das outras responsabilidades como da roça, atividade da agricultura. Muitas vezes nós poderíamos almoçar bem, mas jantar, às vezes, não podia jantar, tomava um mingau de arroz, ou até mesmo de tapioca. No café da manhã sempre a gente costumava comer uma macaxeirazinha.  Eu tinha mais duas irmãs, essas também eram parceiras nossas. A mais velha tinha 18 anos e tinha uma com 21 anos.

 

A gente estava muito novo, na verdade, nem percebia que meu pai estivesse ido embora, porque antes isso acontecia pelo um segredo talvez, “Cadê papai?”. Minha mãe dizia assim: “Teu pai está trabalhando só vem daqui um mês”. Talvez para não machucar dizer que tinha ido embora de verdade. Nunca mais eu encontrei ele, mais de 30 anos. A última informação que eu soube, que ele tinha ido para o garimpo e o barranco tinha caído em cima dele e ele faleceu. Eu chorava bastante, porque era um pai que dava vontade da gente estar perto, pela brincadeira. Um pai que não tomava cachaça e estaria oferecendo para os seus filhos. Porque isso eu considero um grande respeito da pessoa que não oferece um copo de cachaça, seja para que idade for, não é meu parceiro se ele oferecer. Nós ficamos pobre. Nós tínhamos escola, nós morávamos no Amapá e estudava no Pará, no município de Almeirim. Eu estudei até a segunda série, meu maior grau hoje é a terceira etapa, a quinta série, ou sexta série. Já vim concluir aqui na Padaria. A condição era precária, quando a gente parou de estudar, foi essa correria chegamos num ponto de adolescência.

 

Em 91 foi a minha primeira viagem para cá, para o Alto do Jari. Eu estava com 21 anos. Eu tenho seis profissões. Primeiramente a profissão civil, que hoje o calendário do Bode, eu construo as casinhas aqui na Vila Padaria, hoje eu estou completando 12 casas. Eu tenho um total de 80, 90 casas já concluída no Jarí. Nós ficamos na adolescência aonde nós praticamos a profissão naval, de brincadeira, o meu irmão era guerreiro, eu apanhei muito dele, apanhei no sentido de correr atrás para ver se eu alcançava a profissão que ele tinha. Meu irmão resolveu parar e ficar só na reforma e eu resolvi construir.

 

Foi quando eu me casei com a minha esposa, voltamos para o interior, onde eu morava. Tentei me localizar e não deu certo. Chegamos aqui planejamos de fazer um barco de nove metros, era o suficiente para a gente, uma capacidade para três toneladas. Batalhei, consegui o dinheiro e mandei o serrador tirar a madeira. Fui e passei um ano para construir um barco de três toneladas. Fiz para vender. Voltei para a cidade e morei sete anos na cidade. Vendi esse barco por mil e 500 para o seu Raimundo, da Ilha de Marajó, pertinho de Belém. Isso foi me incentivando. Hoje eu voltei novamente aqui para Padaria, estou aqui 10 anos fechado aqui na Padaria e já construí mais nove barcos. A terceira profissão temos é como operador de máquinas, ou seja, motosserras, nós desfia, nós derruba. Essa era uma das profissões que eu não queria. Eu acharia que fosse uma coisa muito acidental.

 

Quando eu cheguei aqui, a gente morava em casinha alugada, enquanto a gente planejava fazer um barco de 35 toneladas, então, foi um período que passei muito apertado. Vim casado, com dois filhos. Depois nós temos o segundo grau de pintor letra boa mesmo, também a gente mexe com agricultura familiar. Os melhores pintores que hoje nos encontra seja qualquer parte do Brasil, são os pintores de embarcação, tanto na parte de letra, tanto na parte de pintura mesmo. Eu aprendi onde eu morava. Tinha um rapaz que ele calafetava, reformava barquinho, e a gente sempre gostou de meter a mão na massa, ajudar, só por causa do almoço. A gente ficou ali praticamente uns dois anos nessas coisas. Era em torno dos 15 anos. Ainda vai aparecer mais uma que a gente está querendo ingressar, a sexta mesmo nós estamos trabalhando na agricultura. A agricultura para mim hoje é o sustento da minha família.

 

Nós trabalhamos em parceria com a Fundação Jari, reflorestamento de eucalipto, estamos completando já seis anos, vai fechar seis anos em fevereiro. Planta eucalipto, o cará, a macaxeira, o açaí, que a gente hoje está entrando no ramo do açaí, que está difícil hoje na nossa região. Mas o impacto da barragem veio afastar o nosso açaí. A chegada da empresa acabou 90% dos açaizais que tinha que o pessoal, não só eu, mas de forma geral o pessoal do Laranjal do Jari, Monte Dourado fazia parte dessa coleta. A área religiosa veio da escola. No período que eu estudava nós tínhamos que rezar, que se concentrar com Deus, primeiramente, para nós poder pegar no lápis. Era a religião católica.

 

Eu sou coordenador de setores, mas a minha parte preferida é fazer o comentário inicial. Precisamente eu vou completar três anos e isso foram as três comunidades que dirigiram esta responsabilidade para cima de mim. Com 21 anos foi a minha primeira viagem para cá. Como eu tinha parente que moravam lá, mas fazia parte daqui no período de castanha, essas coisas, então o pessoal comentava: “Rapaz! Vamos para o São José, vamos para Cachoeira, Padaria, lá é muito bom, no período da castanha dá para ganhar dinheiro”, e era isso que eu queria, ganhar dinheiro. No período a questão era facilitar o quanto antes a vida. A castanha fica na área do São José, foi uma comunidade pequena ali da Dona Antônia, que eu fui localizar. Eu parei, vim direto do Bom Jardim e fiz o meu estabelecimento na casa da minha vó e do meu tio. Quando a gente chegou na região, certas casas eram cobertas de plástico, ubim, outras palhas, muito pobrezinhas. Então, hoje a gente já vê a diferença na vida daquela comunidade.

 

Eu tirava as minhas castanhazinhas, agora eu fazia juntar e carregar para mim, que quebrar mesmo eu não sabia, eu não sabia nem como colocava, eu ia aprendendo essa atividade com eles. Com o prazo de um mês eu já comecei produzir o meu produto e jogar mesmo no doze, vamos fazer produção.  A gente entrou nesse primeiro ano, fez sucesso. Nós não mexia ainda com barco grande. Então, o que acontecia nós mexer com a castanha mesmo, no período. Passei uma safra de castanha e tornamos voltar para lá. Nesse mesmo período a minha mãe também veio para castanha também tirar, sabe o que ela arrumou aqui? Aquele velhinho que ela mora até hoje. Ele acabou de criar mais três meninos que veio pequeno.

 

Hoje a gente considera ele como um pai mesmo, porque acolheu a minha mãe e está acolhendo toda a família. Ela tem a casinha deles. Ela foi trabalhar comigo na castanha, eu ajudava a quebrar para ela, ela ajudava juntar, então ela trazia o dela, eu trazia o meu. Na castanha nós estamos até hoje, não como tirador, mas como comprador. Hoje nós representamos a compra da castanha aqui no Vale do Jari. A gente compra para uns patrãozinhos na cidade, eles fornecem o dinheiro para a gente e a gente sai atrás da castanha para comprar. Faço reflorestamento de eucalipto.

 

Uma parceria, que a Jari é responsável pela compra do empreendimento. O que eu faço é atividade inicial, limpar a área, segundo é a gente coviar, terceiro é fosfatar, quarto plantar, quinto capinar as mudas. A empresa entra com recurso para a gente dependendo para que vai ser beneficiado, se nós vamos trabalhar no plantio, vem um certo total de dinheiro para plantio e será esse investimento todo será descontado na hora da venda do eucalipto. A gente começou com cinco pessoas e por falta de animação, falta de conhecimento, falta de interesse a gente foi buscando o sucesso, enquanto os outros foram deixando de lado.

 

Hoje somente eu que estou exercendo o cargo de reflorestador. Depois que entrou o empreendimento ficou escasso funcionário aqui, eu tenho que trazer de Laranjal do Jari. Os meus parceiros que eram também empreendedor deixaram de mão. Eu fui comprando as ações deles na empresa, eu comprei ação de três pessoas. A empresa é só minha. O maior trabalho hoje é reflorestamento de eucalipto, e a construção civil e a naval. Continuo fazendo barcos. Eu estava com 22 anos quando eu me casei, arrumei família, então o que veio trazer tudo essa responsabilidade eu ter casado cedo. Ela morava aqui na vila. Ela passou três anos para arrumar o primeiro bebê e a gente ficou nesse vai e vem, procura local para se arrumar. Eu vim para Laranjal e morei sete anos, depois vim para a Padaria, no interior. Nós temos sete filhos. Nós temos um com 16 anos, outro com 14 e aí vai baixando até chegar em quatro anos.

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