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O homem das letras

História de: Entrevista de Mario Bezerra Pontes
Autor: Tayara Barreto de Souza Celestino
Publicado em: 09/07/2021

Sinopse

Natural de Novas Russas com passagem por Crateús, Fortaleza e Rio de Janeiro, Mario é um homem de várias facetas. Após aprender o ofício de tipógrafo laborou, dentre outros, nos Diários Associados, Jornal do Brasil e Editora Vozes. Também trabalhou na Assessoria de Imprensa da Petrobras. É escritor e tradutor.

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História completa

Projeto Memória Petrobras

Realização Instituto Museu da Pessoa 

Entrevista de Mario Bezerra Pontes

Entrevistado por ?

Rio de Janeiro ?

Código: MPET_HV002 

Transcrito por Maria da Conceição Amaral da Silva

Revisado por Daniel Everson da Silva Andrade

 

P – Bom dia, senhor Mário.

 

R – Bom dia.

 

P – Gostaria de começar a entrevista pedindo que o senhor nos diga o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Eu me chamo Mario Bezerra Pontes, e eu nasci em uma localidade, uma pequena cidade do oeste do Ceará chamada Nova Russas.

 

P – Nova?

 

R – Nova Russas, com dois esses.

 

P – Nova Russas?

 

R – É. Isso é toda uma história para saber por que é Russas e não outra coisa, né? Teria que fazer pela Gramática adentro, deixa para lá.

 

P – Mas fala um pouquinho só da onde saiu esse nome.

 

R – Não, vem durante a época das guerras holandesas, um daqueles plantadores de cana e criadores de gado da baixada do, das terras à beira do mar de Pernambuco. Eles saíram fugindo para o interior do, principalmente para o interior do Ceará à procura de terras úmidas onde eles pudessem continuar plantando cana-de-açúcar, que era o que eles sabiam fazer e era o que os holandeses queriam. Ou criar gado, essa coisa toda. Um desses cidadãos ele, ele [riso] ele entrou para o Ceará e chegou nas margens do Rio Jaguaribe - que é o único rio perene que o Ceará tem - e a certa altura ele parou e se restabeleceu. E como era costume da época ele denominou o lugar conforme o santo do dia, né? Então ele não criava boi, ele criava éguas e cavalos ______. Então ficou o primeiro nome durante mais de um século a cidadezinha se chamou, a fazenda, depois cidade, São Bernardo das Éguas Russas. Russo é branco, né? Você vai, sobe para Petrópolis e está um russo danado, né? Eu trabalhei [riso] uns tempos em Petrópolis: “O sujeito está russo, né?” aquele negócio branco. Então o cavalo branco é um cavalo russo. Com o tempo, mas eles chamavam Éguas Russas. Com o tempo a palavra égua foi tomando conotações, é...

 

P – Pejorativas.

 

R – ...pejorativas. A mesma coisa que você diz nos Estados Unidos: Son of a bitch. Então: filho de uma égua, no Ceará, corresponde a son of a bitch nos Estados Unidos. E aí eles cortaram a Égua, foi, cortaram o nome, terminou só chamado Russas, né? E a cidade, que é muito mais nova do que isto, quando - vai estar fazendo 100 anos agora neste ano - quando começou como sempre é o batismo de uma capela, tal. Sempre era assim, né? E o padre que veio batizar a capela, a cidade chamava Curtume, porque ali criaram a civilização do couro no Ceará. É curtume, tal, aquela coisa fedorenta de curtir couro.

 

P – O cheiro do couro curtido.

 

R – Aquilo é um horror, né?  E ele disse: “Não, nós não podemos ter uma cidade chamada Curtume. Então em homenagem à minha terra eu chamo Nova Russas.” então daí [riso] a cidade passou a ter esse nome que requer uma explicação tão grande, né, tão longa.

 

P – O senhor me deu a data do nascimento?

 

R – Não, ainda acho que não. Eu nasci em 28 de março de 1932. Um ano terrível no ceará de secas, das piores secas para o ceará. Quer dizer, eu já nasci predestinado a sofrer com a sorte daquela gente lá.

 

P – E o senhor passou sua infância lá em Novas Russas?

 

R – Passei minha infância lá. Eu fiquei lá até 1945. Porque eu, apareceu nesse meio tempo um senhor do Crato, um professor, um ex-padre, que fundou um pequeno colégio na cidade. Não tinha escola na cidade. Tinha uma escola pública desse tamanho que precisava, tinha mil crianças e ela tinha lugar para cem, eu nunca consegui um lugar. Então era pago esse negócio. Ele chamava-se Instituto Pio XI. E eu tinha um tio que era um abastado, em termos locais ele era um homem abastado. E ele resolveu pagar para eu frequentar. Então eu, ele pagou o primeiro e o segundo ano para mim. E o terceiro ano foi um ano terrível de seca, 1941. Aí ele chegou para o meu pai e disse: “Não posso mais pagar.” Mas sempre ele, eu, o professor já tinha sido substituído por outro. Que esse primeiro professor era um aristocrata, era um ______. O que veio no lugar dele era um filho de um trabalhador, filho de um telegrafista. Naquele tempo as estradas de ferro eram o grande meio de transporte e toda estrada de ferro era acompanhada de uma linha telegráfica. O pai dele era um telegrafista, ele era um homem com uma mentalidade completamente diferente. Ele foi lá onde meu pai trabalhava, com o carro dele, disse: “Olha, seu filho não vai deixar de estudar não. Gosto dele, tal. Mas aí você de vez em quando faz uma cadeira para mim, alguma coisa, e tal, a gente vai botando lá.” E assim eu fui até o quarto ano primário, quando nós fomos embora. E é tudo que eu tenho.  Nunca estudei, nunca fui para um colégio, uma escola, para nada mais no resto da vida.  A única coisa que eu fiz durante esse tempo, o ano passado eu descobri que ele estava vivo ainda, eu peguei um avião e fui ao Crato.

 

P – Esse professor.

 

R – Foi.

 

P – O senhor era filho único, como é que era a sua casa?

 

R – Não, éramos três filhos, três filhos.

 

P – Como é que é o nome dos seus pais?

 

R – Raimundo Evangelista Pontes, mas meu pai era chamado de Mundico. Meu pai era um carpinteiro, um marceneiro. Meu pai era um homem inteligentíssimo. Ele aprendeu a fazer instrumentos. Ele fazia violões e cavaquinhos assim com as unhas. E tinham, funcionavam muito bem os instrumentos. Muito inteligente, muito inteligente.

 

P – Ele fazia esses instrumentos e o senhor tocava também?

 

R – Não, eu nunca toquei. Eu de música só sou um dependente. Eu sou completamente dependente de música. Eu não sei trabalhar sem um negócio tocando um Bach, ou um Beethoven, uma Sonata de Beethoven, um Mozart, ou um Chico Buarque, de preferência. Gente com pouca palavra e baixinho.

 

P – E aí a cidade era pequena?

 

R – Era desse tamanho. Era uma coisinha de nada. E...

 

P – Quais eram as brincadeiras de vocês lá?

 

R – Brincadeira?

 

P – É, de infância.

 

R – Não tinha muita, não. [riso] No tempo que tinha água a gente nadava. Tinha um rio e a gente pulava lá de cima de uma ponte feita pelos ingleses. Aquela ponte, todas as estradas de ferro do Brasil, quase todas, foram feitas pelos ingleses. Então tinha uma ponte de ferro e a gente pulava lá de cima. E um dia eu estava lá em cima da ponte, não sabia nadar ainda, me empurraram e eu aprendi a nadar imediatamente, né? [risos] Aquilo funcionou mais ou menos como metáfora da minha vida: tive que ser empurrado assim para fazer as coisas.

 

P – E aí dessa escola então o senhor falou que depois não estudou mais. Como é que foi essa história?

 

R – Não, aí era o seguinte ele, o professor era considerado louco, porque no quarto ano ele estava dando francês. Isso não podia. Era proibido pelas leis da época e tal. As leis educacionais. Então quando foi 1945 a situação estava péssima lá. Então meu pai mudou, nós, a nossa família se mudou para outra cidade, chamada Crateús. Crateús é uma cidade muito antiga. O Ceará tem três ou quatro cidades que eram chamadas Vilas Reais. Tinha quatro cidades. Crateús era uma cidade chamada Vila Real. Crateús era um pedaço de terra originalmente do Piauí. E o Piauí não tinha porto. Nós demos o Porto de Parnaíba ao Piauí e o Piauí nos deu aquele pedaço do Ceará. Seco que só língua de papagaio, aquele negócio. [riso] Mas nós fomos para lá. Mas lá tinha uma coisa maravilhosa, uma coisa maravilhosa. Tinha uma pequena biblioteca pública que o Instituto Nacional do Livro, criado no final do Governo Vargas pelo Augusto Meyer, ele foi quem criou o instituto. Ele veio trabalhar na biblioteca pública, Biblioteca Nacional que estava em mau estado, e ele criou o Instituto Nacional do Livro. E o que ele fazia? Ele ia aos municípios e se propunha a dar uma biblioteca ao município desde que ele tivesse uma salinha, pelo menos, uma estante assim ______. Ele mandava, não mandava livro ruim, só mandava livros da maior qualidade. As melhores coisas que tinham. Então quando eu cheguei em Crateús tinha uma biblioteca daquela, eram 300 volumes, né? Eu saí em 1949 eu saí de lá, eu li todos aqueles livros, aqueles trezentos  livros, menos os dois que eram escritos em latim. Eu nunca aprendi latim. Eu sou capaz de ler, de traduzir do inglês, do francês, leio um pouquinho de alemão, um pouquinho de grego, italiano. Eu nunca consegui aprender latim. Eu não sei se é porque tinha um, lá umas pessoas que falavam latim eram insuportáveis, daí me inibiram o aprendizado do latim. Mas o resto eu aprendi tudo.

 

P – A Gramática é complicada, né, com as declinações, tudo.

 

R – É, mas a Gramática grega é tão complicada ou mais do que o latim e eu aprendi com relativa facilidade. Mas o latim é porque tinha, tinham outras razões.

 

P – Mas o senhor chegou a aprender Francês, apesar da lei que proibia? Que eu nunca ouvi falar dessa lei que...

 

R – Então, não havia lei que proibisse, só que os currículos não incluíam Francês no curso primário, né? Só começava no que a gente chamava curso secundário. Os nomes hoje são todos diferentes, né? Então do mesmo modo que no curso primário só se aprendia aquela Aritmética básica, super elementar. As quatro operações básicas e ele ensinava assim certas coisas. Quando eu saí de lá no quarto ano que eu fui embora, eu estava começando a aprender Álgebra, você imagine só? É como se eu estivesse lá no terceiro, terceiro, quarto ano. Por isso eu sou...

 

P – Esse é aquele professor ainda daquela escola lá de Novas Russas que o senhor foi encontrar?

 

R – É, lá daquela escola. Exatamente.  Eu fui encontrar no Crato, mas ele voltou para o Crato, casou com uma moça de lá. E eu encontrei ele no Crato. Do Crato ele passou o resto da vida ensinando Sociologia, Sociologia inclusive no Seminário do Crato. O Seminário do Crato é um, o Crato é uma cidade que tem muita história, né? Aquelas revoluções da Independência brasileira, 1817-1824, foram feitas por padres e padres realmente. Frei Caneca que era do Pernambuco, ele tinha influência, muita influência entre aqueles padres do Ceará. E tinha aquela senhora Bárbara de Alencar, era de origem nobre, mas ela quase morreu na prisão, quando ela mandou que os filhos fossem lutar pela Independência.

 

P – E o Crato tem um clima diferente também, não tem?

 

R – Tem. O Crato é uma cidade que tem uns trezentos anos. Na verdade tem uma cidade em Portugal com o nome de Crato, é a Diocese do Crato, a famosa. Mas as pessoas que fizeram o Crato são pessoas inteligentíssimas. Então você chega no Crato hoje, que é uma cidade longitudinal, que acompanha o rio, então você tem assim uma praça, uma quadra, uma praça, uma quadra, uma praça, uma quadra. Coisa que você não vê, assim as pessoas ocupam, têm a voracidade de ocupar todos os terrenos disponíveis. E ao lado da praça você tem, nesta você tem um colégio para moças, nesta você tem um colégio para rapazes. Mais adiante tinha, foi uma das primeiras faculdades que tinha. Por outro lado você tinha um posto de saúde, mais adiante um hospital. Quer dizer, eram pessoas que tinham visão. Fizeram isso fim do Século 18, começo do Século 19, tal. Então, tinham bastante visão, diferente de hoje. E pertinho, logo adiante, fica Juazeiro, que é quase colado, Juazeiro do Padre Cícero, né? Mas são duas coisas assim como água e vinho de diferença.

 

P – Bem diferente.

 

R – É, bem diferente.

 

P – E aí o senhor então depois estudou, o senhor falou que saiu de lá em 1949 também da...

 

R – Não, em             1949 eu fui para Fortaleza.

 

P – Sozinho, com seus irmãos?

 

R – Sozinho, não, eu sozinho, eu sozinho. Eu tinha aprendido tipografia. Tinha uma pequena oficina de tipografia...

 

P – Isso na escola ou não?

 

R – Não, não tive escola mais não. A escola acabou-se lá [riso] com aquela lá de Nova Russas. Depois disso nunca mais tive escola tipo nenhuma. E que eu aprendi, tinha uma pequena tipografia...

 

P – Espera aí, só, perdão, só para eu entender: o senhor estudou então só até...

 

R – Só até 1944, em 45 nós...

 

P – Em Nova Russas. Quando vocês se mudaram da cidade...

 

R – É, fomos para outra cidade...

 

P – Que se chamava?

 

R – Crateús.

 

P – Crateús.

 

R – Crateús.

 

P – O senhor só fez a sua formação na biblioteca?

 

R – Naquela biblioteca, que eu considero a minha universidade, né? [riso]

 

P – O senhor é autodidata, então?

 

R – Autodidata totalmente, totalmente. Nunca mais frequentei escola nenhuma, nenhuma, nenhuma. Nunca mais.

 

P – Mas aí nesse meio tempo o senhor também trabalhava em Crateús?

 

R – Trabalhava. Não, em Crateús eu, praticamente...não se conseguia um trabalho. Lá era uma época muito difícil. E eu fui trabalhar nessa tipografia. O que eu ganhava era nada, era uma mixaria. Mas eu aprendi a trabalhar compondo, era a antiga tipografia de caixa, né? Chamava caixa francesa a caixa que eu aprendi, porque tinha outras caixas, caixa inglesa. Então você vai tirando cada tipo daquela caixa e pondo aqui num componedor. Depois quando está pronta aquela linha põe lá e tal, aperta, tal, e está composto o texto, né?

 

P – Isso foi o seu primeiro emprego então?

 

R – Isso foi o meu primeiro trabalho. [riso] É, pode chamar um emprego, mas era tão mal remunerado, era tão pouca coisa que realmente, mas tudo bem, chamemos isso de primeiro emprego. Em Fortaleza quando eu cheguei lá eu fui trabalhar na tipografia de um jornal. Mas aí depois de pouquíssimo tempo eu passei, eu saí do, o jornal era um jornal pequeno. Todos, aquela época era uma coisa interessante. Você tinha muitos jornais. Proporcionalmente eu acho que as pessoas liam mais do que hoje. Em alguns, pelo menos em alguns setores da sociedade. Então, e Fortaleza era uma cidade de 200 mil habitantes e tinha oito jornais diários, né? Oito jornais diários. Eu fui trabalhar em um deles, era pequenininho. Todos eram pequenos. Mesmo os maiores, que eram os Diários Associados, todos eles eram jornais pequenos, 16 páginas cada um, no máximo. Pois bem, esse que eu fui trabalhar ele tinha um linotipo. Linotipo era uma máquina de compor já automática, é a primeira máquina automática. E logo, logo eu parei de fazer composição manual e fui aprender a linotipo. E pouco depois, pouco depois eu fui para a Redação. Me tiraram, o cara viu que eu sabia ler e escrever, e essa coisa, saí para a Redação. E aí foi, me transformei em repórter e aí pronto. Aí...

 

P – E qual era o jornal?

 

R – Chamava-se O Democrata. Era um pequeno jornal de, mas aí depois eu passei eu fui, trabalhei no Ceará. Eu fiquei 10 anos em Fortaleza. Nesses 10 anos eu trabalhei em outros jornais. Logo em seguida saí desse jornal, fui trabalhar num jornal chamado O Estado. O Estado era um jornal que tinha sido criado durante o Estado Novo. O Estado Novo. Era um jornal superoficial, aquele jornal que recebia dinheiro dos cofres públicos para, nessa época já não recebia mais. Tinha se acabado. Era jornal pequeno. Eu fui trabalhar lá, mas aí já como secretário de Redação. A Redação era pequena, 10 pessoas. Eu trabalhei como secretário de Redação aí depois, antes de ir embora...

 

P – Isso já era uma promoção, ser secretário de...?

 

R – Era uma promoção, era uma promoção grande. Eu até me admirava, né? Era um pulo eu chefiar gente. Chefiar todos os outros.

 

P – Toda a Redação.

 

R – A Redação, chefiar todos os outros. E em seguida, antes de vir embora, eu trabalhei um pouco nos Diários Associados e um pouco num jornal chamado O Povo. Um pouco assim em cada um. E a gente trabalhava simultaneamente como repórter. Durante certas horas eu era repórter, noutras horas era redator. A imprensa não era essa coisa do tamanho que é hoje e nem tão especializada quanto é hoje. Hoje é muito especializada. Era mais ou menos uma grande bagunça. E aí então eu, bom, uma experiência boa de Fortaleza, é trabalho do Clube de Cinema. Quando eu cheguei em Fortaleza existia o Clube de Cinema, nem se chamava de Fortaleza, chamava-se Clube de Cinema do Ceará. Existiam pouquíssimos no Brasil. Existia um em Salvador, de onde saiu o Glauber, né? O Glauber saiu de lá. Tinha um em Belo Horizonte, de onde saíram aqueles cineastas de Belo Horizonte, e críticos. O Autuoni, que trabalhou comigo aqui depois. No Rio aqui tinha um, tinha um em São Paulo. Então a gente, a gente, a gente pára, uma coisa que a gente fazia era projetar bastante filme. E nunca um filme americano a não ser que fosse um clássico, né? Até porque a única empresa que tinha, a Luiz Severiano Ribeiro, que até hoje eu acho que ainda existe, os descendentes dele, ela só projetava filmes americanos. Então a gente lutava para que alguém criasse cinemas lá e projetasse filmes também de outras. Até que a gente conseguiu, ____. A gente fazia uma campanha danada. Quase todos nós trabalhávamos na imprensa. Aí finalmente quando foi pela altura de 1956, então um cidadão lá abriu um cinema e tal para, aí em compensação só passava filmes europeus. Depois, japoneses.

 

P – E tinha público? Como é que vocês faziam a divulgação também?

 

R – Tinha público, tinha público sim. E ainda fizemos uma coisa, que era ensinar, a gente queria ensinar as pessoas a verem cinema. Quer dizer, o filme não era do nome do ator, o filme é do diretor. Então lá no Clube de Cinema que funcionava no, tinha o Instituto Brasil-Estados Unidos, e tinha um pátio grande onde a gente realizava as sessões naquele pátio. Projetava na parede. A parede era branquinha a gente projetava os filmes. Os filmes que vinham sem legenda, achamos pessoas ali que sabiam inglês muito bem, que eram professores de inglês, eles ficavam traduzindo. E então a gente criou, resolvemos fazer uma série de conferências para que o público começasse a aprender o que era cinema. Então um alguém fazia uma conferência sobre o que era direção. O que é que era direção? Outro sobre o que era montagem. Coube a mim falar sobre montagem. Então eu passei assim meses, eu li todos os livros possíveis e imagináveis onde existisse alguma coisa de montagem. E fiz uma conferência sobre montagem. Expliquei o que era montagem, as diversas formas de montagem. Ilustrando assim com pedaço: “Olha, isso aqui é uma montagem simultânea, você pega esse filme do [Alfred] Hitchcock você vai ver um cara está com um revólver na mão, o outro vai bater com os dois pratos. E tal. Isso é montagem simultânea.” E enfim, se fez isso e foi bom. A gente publicava aquelas conferências na imprensa. Um dia desses eu achei a que eu fiz assim, praticamente no, o tempo já comeu aquela meia página de jornal, praticamente já comeu. Mas aí os outros fizeram também...

 

P – E vocês divulgavam esse Clube de Cinema no jornal também? Como é que vocês faziam para promover também?

 

R – Ah, foi com, a gente conseguia promover praticamente em todos os jornais. Porque tinha, tinha gente, cada um de nós trabalhava num jornal, outro jornal. Então isso foi, fazíamos uma coisa que é uma das coisas mais positivas que eu acho que foi aquele trabalho no Clube de Cinema. E fazer ele, uma coisa ótima. Aí tinha, por exemplo, para ler literatura, e principalmente literatura francesa, a gente se atualizar com aquele pessoal da época, que eram os grandes autores: Sartre, Cami e, tinha, sempre tem um anjo pelo meio do caminho da gente. Sempre baixa um anjo. Uma figura providencial. Era um professor de Matemática do Liceu do Ceará. O Liceu, vamos dizer que fosse o Pedro II de lá, né? O Liceu. Ele era professor de Matemática mas ele, a coisa que mais ele gostava é que as pessoas lessem. Então ele importava livros franceses e na casa dele ele vendia livros franceses. Aquelas brochuras francesas. Se você não tivesse dinheiro não tinha importância: levava o livro, pagava quando pudesse. Então eu me empanturrei de todos os Sartres e Camis e toda, todos os franceses [riso] modernos que estavam em dia, não é verdade?

 

P – E esse vendedor acabava também criando uma rede de leitores, né?

 

R – Ah, sim.

 

P – Vocês se...

 

R – Era, era uma rede de leitores. E nem todos nós íamos conversar com o outro sobre o que tinham lido, mas sempre havia. A cidade era muito pequena. A gente se encontrava diariamente, né? A gente, muitas vezes, o mesmo, tinha duas pessoas no mesmo grupo que iam fazer as mesmas tarefas. Mas duas horas da tarde dois ou três de nós estávamos na Assembléia Legislativa fazendo a cobertura. Para gravar _______ que os deputados diziam. Depois quando saíamos dali íamos fazer a da Câmara Municipal que era muito pior [risos], muito pior do que a da Câmara Estadual, da Assembléia Estadual. É isso aí.

 

P – Seu Mário, aí o senhor veio para o Rio quando?

 

R – Eu vim para o Rio em 1959. Eu vim para…maio de 1959 eu vim para cá.

 

P – Por quê?

 

R – Resolvi vir embora, né, tal. Resolvi. Eu acho que Fortaleza estava começando a ficar pequena para a gente. Então eu vim embora. Deixei a minha família lá, só trouxe algum tempo depois. E eu fui trabalhar...

 

P – O senhor já estava casado, não?

 

R – Já era casado e tinha três filhos, que tenho até hoje. E...

 

P – Mas veio sozinho ou veio com a família?

 

R – Eu vim sozinho primeiro e trouxe depois. Alguns meses depois. Depois que eu consegui me instalar, né, a família. Eu fui trabalhar no Diário Carioca. O Diário Carioca era um jornal pequeno, mas extremamente bem feito, bem cuidado. Era um jornal de doze, dezesseis páginas no máximo. Então tinha um pequeno suplemento literário onde, por exemplo, Graciliano Ramos brincava com frequência. Os contos dele, aqueles contos de, de, e nessa época ele já estava, ele tirava páginas, capítulos do Memórias do Cárcere, dava as, e publicava como contos ali dentro daquele suplemento. Eu estou dando um exemplo assim. O jornal era extremamente bem feito. Eu já fui para o Copy Desk. E aí tudo era copidescado. Tudo passava. Não era que só a primeira página passasse. Normalmente só a primeira página vai para o Copy Desk. Não, tudo passava, praticamente. Artigo, editorial. A não ser o escrito pelo diretor, o dono do jornal, o resto tudo passava. Até coluna de, sobre arte, coluna de artes plásticas. Então sempre a gente dava uma... E, agora, o jornal já não pagava direito, né? Já estava bem no fim de carreira, e já começava a atrasar o pagamento. Agora, a gente sentia, a gente ficava meio ruim assim porque sentia orgulho de trabalhar lá, mas as...

 

P – Mas o Diário, perdão, esse Diário Carioca era dos Diários Associados também, ou não?

 

R – Não, não, não tinha nada com os Diários Associados não.

 

P – Não tinha nada a ver.

 

R – era da família Macedo Soares, que era muito ligada ao Governo Juscelino, na época. E ficava no finzinho da Rio Branco, ou no começo, conforme a perspectiva. Na esquina de Dom Gerardo com Rio Branco. O nosso contínuo, que foi demitido no Natal daquele mesmo ano, 59, eu vim a saber o nome dele, chamava-se Cartola. O Cartola era o nosso contínuo lá. [riso] E vivia lá sempre morrendo de calor ____. As oficinas eram embaixo, assim.

 

P – Ele foi demitido por?

 

R – Foi demitido por, o secretário do jornal, que era a autoridade daquela época, era um sujeito de maus bofes. Então um dia ele não gostou de alguma coisa que ele disse, demitiu. Coincidentemente era um dia de Natal.

 

P – Fez um bem para a vida do Cartola para ele compor.

 

R – É, mas o Cartola demorou ainda para deslanchar. Porque olha...

 

P – Precisava do emprego.

 

R – ...uns seis meses depois eu encontrei o Cartola em Copacabana saindo de dentro de uma garagem. Ele cuidava dos carros ali, lavava carro lá dentro, lá embaixo. Tempos depois eu já tinha carro, ele tinha carro, e uma vez eu passando - isso naquele começo do que depois se transformaria na Linha Amarela - e estava ele com a mulher dele. A pista era alta e os dois estavam lá embaixo engolindo todo aquele negócio. Depois os amigos, depois ele conseguiu alguém, os amigos se juntaram e conseguiram fazer com que ele lançasse o seu primeiro LP, que era chamado na época, Longplay, aquele negócio. E aí, realmente, ele se tornou conhecido. Depois disso ele teve um restaurante ali na orla carioca, né? Mas os amigos comeram o restaurante todo, rapidamente, e ele voltou... [risos] Bom, aí dali...

 

[pausa]

 

R – Pois bem, e aí...

 

[pausa]

 

R – E aí eles não pagavam, era problema. E logo depois de um mês depois que eu estava lá, eu continuei trabalhar mais um tempo. Mas um mês depois um amigo disse: “Olha, eu soube que a Assessoria de Relações Públicas da Petrobras está precisando de uma pessoa que saiba escrever, que seja redator.” E aí ele mesmo, ele conhecia gente lá e tal. Aí foi, eu fui lá, fiz uma entrevista com, não tinha política de pessoal, daquele jeito mesmo, do mesmo jeito que não tinha política de relações públicas. Não tinha nada, né? E eu fui lá e ele disse: “Ó...” Improvisou uma prova para mim, o diretor lá da Arpub, era Assessoria de Relações Públicas, Arpub. E _______ a prova, disse: “Tá bem, está aprovado. Pode vir trabalhar amanhã.” Então eu fui trabalhar.

 

P – Esse era o diretor da área?

 

R – Ele era o diretor da Arpub.

 

P – O senhor se lembra o nome?

 

R – Me lembro. Era Gualter Gontijo Maciel. Ele era um mineiro, um intelectual mineiro, uma família de intelectuais mineiros. Conhecido. E pouco depois ele deixou porque o Juscelino estava fazendo Brasília, ele levou ele para lá, e tal, e depois eu não sei mais. Eu sei que ele foi para lá a chamado do Juscelino. Era amigo do Juscelino, conhecido.

 

P – Aí o senhor fez essa prova e...

 

R – É. E aí eu comecei a trabalhar...

 

P – Isso foi em 59 ainda?

 

R – ...imediatamente. Hum?

 

P – Isso era em 1959, que o senhor falou?

 

R – 1959. Deve ter sido junho de 59, maio, junho. Foi assim rápido. E aí era um grupo muito pequeno lá da Arpub.

 

P – Pequeno mais ou menos quanto?

 

R – Assim, oito, nove pessoas, dez, por aí. Não tinha _____, porque tinha uma pessoa, o único que sabia, que era capaz de escrever uma matéria, um texto, uma legenda, um texto legenda, alguma coisa, era o, era, eu não consigo me lembrar o nome todo dele. Era Nassif, Carlos Nassif. Ele era um jornalista. Ele tinha vindo, se eu não me engano, você me desculpe as minhas falhas de memória. Primeiro que eu estou velho, e segundo que [riso] faz cinquenta anos que as coisas ocorreram, né? Era Nassif, ele era a pessoa que fazia lá, que tinha. E tinha um boletim que saía, eu acho que quinzenalmente. Um boletim de seis, oito páginas assim. Era a publicação periódica que havia lá. Então fui ajudar ele a fazer aquele negócio. E, mas logo começaram a aumentar as tarefas. Logo começaram a criar outras, e aí... Agora, tinha o resto das pessoas que trabalhavam não entendiam absolutamente nada de divulgação, de qualquer coisa disso.

 

P – E o que é que essas pessoas que não entendiam nada faziam? Era, como é que era esse quadro, desses funcionários.

 

R – Olha, eu não sei de onde as pessoas vinham. Como e por que é que elas tinham sido admitidas. Agora, eu sei que a maioria dessas pessoas, na medida que a gente começou a dinamizar aquele problema, elas se mostraram interessadas. E na medida das suas capacidades se mostraram interessadas em ajudar, né? Digamos, nem todos. Digamos dez, oito se mostraram. Estou fazendo uma proporção só para, aproximada. Só para mostrar que um grupo tinha, por exemplo, cinco pessoas que todas eram subaproveitadas. Não tinha nada. Que trabalhava, praticamente, o único que trabalhava era o Nassif que fazia aquele negócio. E as outras pessoas faziam coisas administrativas, cartas. Respondiam a coisas administrativas. A, tinha uma coisa que fazia, acompanha um visitante, por exemplo. Grupo de visitante ia a uma refinaria, tinha alguém. Mas eram subaproveitados.

 

P – Só um minuto. Então as atividades dessa Arpub era só o jornalzinho ou como é que o senhor descreveria? Tinha um pouco mais? E Arpub quer dizer o que?

 

R – Assessoria de Relações Públicas da Petrobras. Mas a Petrobras nem aparecia, né? Era Assessoria de Relações Públicas. Era a sigla. E a gente funcionava ali na esquina da Teofilo Otoni com Rio Branco, naquele prédio. E...

 

P – Era só a Comunicação ali?

 

R – Era só a CMC, acompanhava as pessoas. Um grupo de visitantes, né? Ia, saíam, iam visitar uma refinaria. Estavam começando. No Rio não tinha refinaria ainda, estávamos começando a construir. Só tinha refinaria na Bahia, estávamos começando a construir a Reduc [Refinaria Duque de Caxias]. Era isso.

 

P – E qual era a periodicidade do jornal?

 

R – Olha, se não me engano, era mensal ou quinzenal. Agora, realmente, eu não consigo ter certeza. Bom, aí ainda naquele local, pouco depois, quando Gualter Gontijo foi embora, ele foi substituído por uma pessoa chamada Oto. Eu não me lembro o nome, não me recordo o sobrenome.

 

P – Oton?

 

R – Otonh. O-T-O-N-H. E ele, o Otonh era uma pessoa assim, era um típico administrador. Daqueles administradores bem de pessoal e nada mais. Era um homem que tinha vindo daquele Serviço de Administração, que o Governo Federal tinha criado desde o tempo do Getúlio. Aí foi só uma passagem, foi rápida e também sem, nada demais aconteceu. A não ser um conflito dele lá com outra pessoa que apareceu, que eu não vou contar esse negócio. Não vou me referir a isso. E depois dele aí veio o Fernando. Como é que é o sobrenome do Fernando? Esqueci. Desculpe, né? Está...

 

P – Mas aí eu queria entender também mais. Nessas trocas mudava alguma atividade desse...?

 

R – Olha, por exemplo, no caso do Otonh, não mudou praticamente nada, né? Não mudou. Foi criado naquele momento, se eu não me engano, assim, uma seçãozinha. Não sei se foi ele, ou se foi ainda no fim do outro, né? De Documentação. A documentação consistia em cortar pedaços de jornais e colar, rubricar a coisa e ir guardando, acumulando. O que depois, anos depois, foi tudo jogado no lixo. Alguém que chegou depois de 1964 mandou jogar tudo aquilo no lixo: “Isso aqui não tinha a menor importância, nem nada.” Tinha essa, não houve uma ampliação, não consideraram a...

 

P – Vocês faziam feira também, nessa época? Acompanhavam?

 

R – Bom, quando nós, quando foi mais ou menos por 61,62, mais ou menos nessa faixa, nós mudamos para a Rio Branco. Rio Branco, cento e dez. Que é a esquina, a esquina de Ouvidor com Rio Branco. É um prédio grande. Nós ocupávamos, ali o espaço era muito maior. E ali apareceu mais gente e as atividades começaram a ser expandidas. Uma delas era exatamente o que você acaba de perguntar. Quer dizer, a Petrobras começou a participar de feiras e exposições realizadas primeiro só em São Paulo, depois para o resto do país. Por causa disso foi trabalhar lá conosco um cara que era arquiteto, João Camelo. Arquiteto João Camelo. E ele desenhava os stands, e toda essa coisa que era feita. Desenhava.

 

P – João Camelo?

 

R – João Camelo.

 

P – Camilo ou Camelo?

 

R – Não, Camelo.

 

P – Camelo como o animal?

 

R – É, Camelo, camelo, aquele do deserto. João Camelo. O João Camelo desenhava...

 

[pausa]

 

 

P – Retomando então, senhor Mário, o senhor estava falando então das feiras, que foi contratado até um arquiteto.

 

R – É, as feiras já foi uma ampliação assim de, ninguém participava de nada. Vivia ali aquele grupo meio enclausurado ali. Nas feiras, só que tinha dificuldade nas feiras. [riso] Por exemplo, você ia para São Paulo, aquelas feiras, São Paulo um estado industrial. Aquelas firmas participavam com muitas coisas para vender. A Petrobras não tinha nada para vender assim, a gasolina a gente vendia, tal. Mas a única mercadoria que a gente tinha para expor assim, e para dar preço de venda era fertilizante. A gente fazia fertilizante de Nitrogênio. Começamos pelo fertilizante. E depois a coisa cresceu. Só que era sempre se ampliar pelo país afora, Recife. Foram fazendo, foram ampliando. Foi uma coisa interessante. Quando nós chegamos na Rio Branco, realmente, o âmbito de trabalho se ampliou bastante. Foram criadas outras coisas. Por exemplo, aquele boletinzinho de nada, ele se transformou numa revista mensal. Numa revista com trinta e seis páginas, quarenta e duas, por aí. Era um múltiplo sempre _____. Era uma capa com cores, a primeira página, desenho. E dentro já eram reportagens, longas, bem, não era mais aquela coisa pequena, acanhada. Essa...

 

P – Quem propôs essa mudança? Como é que foi proposta essa mudança para essa ampliação da...?

 

R – A gente começou a discutir, eu não me lembro mais quem propôs. Eu sei que a gente discutiu. Discutiu o diretor comigo, com outros, a gente discutiu e, depois disso foi levada à Presidência lá da Petrobras. Eles concordaram e a revista começou a ser editada, a ser editada. E chegou naquela, ela alcançou _____ uma popularidade muito grande. Ela chegou a ter cem mil exemplares assim no mês.

 

P – Ela era distribuída?

 

R – Ela era distribuída de graça pela Petrobras. Mas aí...

 

P – Para o público em geral? Quem era o público dessa revista?

 

R – Era o, aí o público era muito variado. Porque você tinha escolas, sindicatos, desse tipo. E tinha um sistema de distribuição da revista. Aí você tinha o, era, fora tinha uma, sei lá, na direção do Cais, São Cristóvão para lá tinha _____ uma pessoa que cuidava dessa distribuição. Bom, essa revista. Ao lado dessa revista fazia-se outras coisas. Por exemplo, foram, a gente foi, publicou vários, toda série de folhetos, folhetos populares assim. E que as ideias sobre o petróleo, as diferentes linhas de ideias sobre o petróleo eram, eram, eram reduzidas e tal e impresso alí. Um sobre exploração, por exemplo, outro, enfim, outro sobre navios. A Petrobras começava a ter uma frota de mais importância. Refinarias, borracha sintética, naquele tempo estávamos...começava-se a produzir borracha sintética a partir de gases do petróleo. E cada um desses negócios ia merecendo. Daquele tempo havia um, o Brasil dispunha de muito pouco petróleo. Nem se imaginava que se pudesse encontrar tanto petróleo a tantos quilômetros no mar, e a tantos quilômetros de profundidade. Isso era uma coisa muito utópica ainda. Então a produção, consequentemente, praticamente se limitava à Bahia, depois um pouquinho de Sergipe, né? E se pensava como ampliar a produção de petróleo no Brasil. Uma das ideias perseguidas pelos técnicos e _____, era a exploração do xisto betuminoso. O xisto betuminoso é uma, é uma placa de, é um minério que dá em placas, assim. Muito parecido com a ardósia, essa que a gente usa em casa para, é parecido com a ardósia, assim, certo. E então você pega aquela placa, tritura e põe dentro a, dentro de caldeiras e coisas parecidas. E até transformar em óleo. Tudo bem, transformar em óleo, o óleo não era de... O Brasil tem grandes reservatórios de xisto betuminoso. Um dos maiores do mundo. Tem um reservatório que começa no sul do Paraná, atravessa todo o estado de Santa Catarina e vai terminar lá na fronteira do Brasil com o Uruguai. Então aquela época se imaginava, os nossos técnicos imaginavam que podia produzir 100 mil barris já de petróleo daquele negócio. O que era uma...

 

P – A partir do xisto?

 

R – A partir do xisto. O que era uma quantia realmente respeitável. A gente produzia vinte mil barris de petróleo por dia, trinta, alguma coisa assim. O problema é que o xisto produziu uma quantidade enorme de resto. Você para tirar um litro de xisto você produz dois litros de coisa que é resíduo. Desse resíduo você pode tirar outra coisa muito...pode tirar uma coisa muito rica, muito proveitosa, que é o enxofre. O Brasil vivia importando enxofre no, importava todo enxofre que nós consumíamos. Então isso ajudava. Mas mesmo assim a quantidade de [riso] a quantidade de resíduo era uma coisa monumental. Então, primeiro em Taubaté - uma cidade do interior de São Paulo - bem juntinho da casa do Monteiro Lobato, bem juntinho da casa que ele descreve, ao lado mesmo, tinha um pequeno, uma pequena usina. Desse tamanhinho assim. Uma coisinha muito pequena. Foi a primeira que se fez para fazer experiência com o xisto. Depois, com a descoberta da grande jazida que ia do Paraná ao Rio Grande do Sul, então se fez aí uma espécie de refinaria de xisto bem maior. Ainda experimental, mas muitas vezes maior do que a de Taubaté. E aí pode ser fazer medições melhor, essa coisa toda. E, mas o problema permanecia, o problema dos resíduos. Então se tinha que criar lagoas e encher de água e o resíduo ficar dentro d’água para não poluir tudo. Era muito, um problema sério. Depois o fato é que os técnicos da Petrobras estavam interessadíssimos, coisa e tal. A Petrobras sempre teve, os técnicos sempre foram pessoas maravilhosas. Sempre admirava as pessoas, sempre de olho no futuro. E então conversando com um deles ele disse, ele começava a falar de uso do xisto pelo mundo afora. Ele disse: “Ah, rapaz, porque se usa xisto, os alemães usaram no final da guerra eles usaram xisto.” e até um xisto, a grande mina de xisto é a Lituânia ou Estônia, não me lembro agora. Mas é muito perto de Leningrado que hoje é São, voltou a ser São Petersburgo. E ali os soviéticos tiravam o xisto dali e levavam, produziam gás e levavam para abastecer a cidade de São Petersburgo toda com aquele gás. Aquele gás lituano ou estoniano, eu não me lembro bem. Faz cinquenta anos que isso aconteceu... [riso]

 

P – [riso] Tudo bem, vamos adiante.

 

R – E enfim, outros lugares. Então eu disse: “Por que é que não se faz um livro acerca desse negócio?” Ele disse: “Pois é.” pegaram a ideia, resumiram, então se fez cada engenheiro que conhecia aquele negócio escreveu um artigo sobre o xisto da Alemanha, o xisto da França, o xisto da Irlanda, o xisto da Rússia, o xisto da Romênia. Enfim, cada lugar. E as possibilidades, um capítulo maior para as possibilidades do xisto do Brasil, o que é que era essa coisa. É claro que eu, fazer um livro, eu tive que reescrever, copidescar, porque eles escreveram, eram engenheiros, não eram, não sabiam se comunicar. Eu copidesquei todo aquele negócio. Pus em condição de ser lido. Depois as ilustrações. Enfim, eu fiz o trabalho de edição daquele livro todo. E depois imprimimos na gráfica do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística]. O IBGE tinha uma gráfica muito boa para livro na época. Era, você saía da simples linotipo ia para uma máquina interessante chamada intertipo, que era muito boa para produzir livro. Porque com linotipo é dificílimo de você fazer, por exemplo, tabelas, essa coisa. Mas com a intertipo era mais fácil eu fácil tabela, certos jogos, gráficos era possível fazer com aquilo lá. Então se...

 

P – O senhor estava me contando também, enfim, todo um processo era um pouco todo mundo fazia tudo, né?

 

R – Era.

 

P – Não tinha essa especialização. O senhor acompanhou a edição também?

 

R – Ah, toda.

 

P – Copidescou?

 

R – Essa eu ia lá, e tal...

 

P – Como é que era?

 

R – Eu ia lá constantemente lá no IBGE, que era lá no começo da Via Dutra, para lá. Até sair o livro. E, modéstia à parte, o livro saiu muito bem feito. Eu nem tenho mais nenhum exemplar. [riso] O meu exemplar me roubaram. Mas saiu muito bem feito o livro, saiu muito bem feito. Agora...

 

P – Isso já era 1960 e poucos?

 

R – Isso era, devia ser 1961, 1962, por aí. Creio que foi em 1962, mas eu não posso garantir. Bom, nesse mesmo, se não em 1962, nós fizemos outra coisa. Isso sem prejuízo da revista, né? Quer dizer, a gente ia acumulando tarefas assim, e grande parte ficava nas minhas costas. [riso] porque eu era o que tinha mais experiência de qualquer maneira.

 

P – E quais as outras tarefas?

 

R – Bom, eu continuava fazendo a revista, né, 90% do trabalho da revista eu fazia. E as outras pessoas ia ensinando a escrever, ensinando como ir buscar, ou como sair, como ir buscar. Por exemplo, o país, a Fronape ia comprar, ia comprar alguns navios superpetroleiros. Naquele tempo um navio de trinta mil toneladas era um superpetroleiro. Hoje precisa ter cento e cinquenta mil toneladas para ser um superpetroleiro. Mas, naquele tempo... Então aí compraram não sei quantos. Mandaram fazer pela Nippon Kokan Kabushiki Kaisha, que era a empresa que fazia isso lá no Japão. Então mandava lá uma pessoa dali que tivesse boa vontade, falava: “Vai lá na Fronape, faz estas e estas e estas perguntas.” Aí ia, fazia e voltava, trazia as perguntas. Era pouco ainda.  Enfim, é um processo de ensinamento. Quando as pessoas tinham boa vontade era ótimo, porque a gente sentia a pessoa crescer, essa coisa. Alguém tinha má vontade é chato, mas... Pois bem, nessa época a gente fez, ao lado de muitos folhetos e toda essa coisa, a gente fez alguma coisa que foi interessante. Um belo dia chegou um, chegaram uns papéis da Bahia e os operários lá do Recôncavo Baiano tinham inventado uma figurinha, uma figurinha que eles chamaram, deram o nome de Petrolino. E conversando assim com os outros, digo: “Olha, isso aqui a gente podia fazer coisa muito melhor, Petrolino. Podia fazer...” Um disse: “Podia fazer um folheto.” “E por que não um filme com o Petrolino?” “Ah, Mario, mas um filme?” Eu disse: “Olha, eu achava que a gente podia fazer um filme de animação, um desenho animado.” Aí: “Mas, rapaz, aqui ninguém entende.” “Bom, eu não entendo também muito não, mas eu vivi negócio de cinema, Clube de Cinema do Ceará, eu vi muito tempo.” Aí conseguimos convencer os chefes lá, os donos da coisa a tentar fazer um filme de, de, de desenho animado. E pouquíssima gente era capaz de fazer desenho animado, desenho animado. Se tinha um pequeno grupo assim ligado ao Jean Manzon, que fazia os desenhos animados de, muito, muito estereotipados, aquela coisa muito. Tinha um cidadão que eu não me lembro mais o nome dele, ele tinha produzido um filme longo sobre a Amazônia. Sei lá, quarenta minutos, uma hora. Filme longo,  mas disneyano, puro Disney, aquela coisa. E descobrimos um rapaz que era discípulo dele, mas que tinha mais liberdade, né? E ele não fazia nem aquela coisa de baixa qualidade do Jean Manzon, que tudo que o Jean Manzon fazia era do mesmo jeito. Você podia fechar os olhos que vinha com a mesma música, a mesma imagem, as mesmas frases tonitruantes, e todo aquele negócio. E então eu senti que ele tinha talento. Então eu disse: “Vocês eu não sei como é que vocês resolvem o problema aí, financeiro é com vocês.” Mas ele finalmente foi contratado.

 

P – O senhor se lembra o nome desse rapaz?

 

R – Não, não me lembro agora. Ele está no filme. O filme ainda hoje existe. Ele era chamado Um Rei, Um Rei... Meu Deus, como é que era? (riso)

 

P – Como é que é?

 

R – Um Rei... Porque era o rei petróleo, então Um Rei... Bom, não me lembro, que o adjetivo realmente eu esqueci. [riso] Bom, e foi feito. Era quinze minutos. Pegamos aquele personagem criado lá pelos trabalhadores lá da Bahia e demos vida a ele. Demos um passado a ele. E ele quem passava a explicar como é que o petróleo tem origem dentro da terra, e tal, enfim, aquelas coisas. Depois ele faz como se transporta, como se põe dentro, o que é uma refinaria. Tudo isso em poucas linhas, poucas imagens, mas de qualquer maneira se fez isso.

 

P – Quem fez o roteiro?

 

R – [riso] Roteiro? Foi um roteiro mesmo, não foi só um, não foi só um, aquela pequena descrição não. Foi um roteiro mesmo feito assim no papel com: isso aqui, aqui se move, enfim. O possível para fazer alguma coisa como realmente um roteiro, né? E funcionou. Funcionou.

 

P – E onde esse filme foi passado, seu Mario?

 

R – Ah, foi passado, eu acho que ele nunca passou no cinema. Mas ele foi usado centenas de vezes pela Petrobras nos seus encontros, nas escolas. Eu me lembro que alguns anos atrás numa bienal, numa bienal ali perto da área da bienal que se realiza, um belo dia eu ia entrando lá e vi assim, estava lá o, estavam exibindo o filme ainda. Quer dizer, puxa, caramba, quase quarenta anos depois ainda estava lá o filme sendo exibido, né? O filmezinho. Quer dizer, prestou um bom papel. Desempenhou um bom papel. Quer dizer, então eram muitas coisas que a gente foi fazendo, foi fazendo. Quer dizer, a carga, grande carga caía em cima de duas ou três pessoas, uma delas era eu. Mas a gente conseguiu aos poucos, eu acho que a gente conseguiu entusiasmar um pouco mais as outras pessoas que estavam lá, que não, que chegaram lá não tinham o que fazer. Não sabiam o que fazer __________. Porque você vai falar: “Faz isso.” _________ vamos, vamos. Tinha um desenhista, ele nunca tinha desenhado nada para revista, jornal. Eu fazia o raff, dizia: “Olha, faz essa ilustração desse jeito assim, mais ou menos assim.” E aí ele fez até que fez a capa de março de 1964 com a esfera de gás. Esfera de gás porque a fábrica de borracha sintética ia ser inaugurada muito em breve. E aí já viram tanta coisa naquela capa, viram bomba, [riso] arma de fogo, presença do mal. Porque predominava, aquelas armas eram todas amarelas. Enfim, uma porção dessas bobagens que aconteceram por aí.

 

P – Esse era o Assis?

 

R – Era o Assis Fortes. Ele hoje é um empresário muito bem sucedido lá em Teresina. Ele voltou para lá. Ele tem, ele tem, mais ou menos associado a isso, coisa de Relações Públicas. De trabalho de promoção de empresas. Enfim, está lá...

 

P – Mas aí o que é que aconteceu com o Assis depois da capa?

 

R – Foi posto para fora da empresa imediatamente, né? E eu fui alguns anos depois. [riso] Eu não fui em 1964 não, eu fui em 1967. Em 1967 eles me dispensaram.

 

P – Eu queria chegar nesse momento. Como é que foi também, com o golpe?

 

R – É, ficou um ambiente muito pesado. Porque todas as pessoas que foram lá para chefiar a gente eram todos militares. Eram todos militares.

 

P – Mas foi logo em 1964, já entraram os militares...?

 

R – Logo em 1964, imediatamente. Era uma política daquela época que todos os cargos e tal que tivessem alguma importância fossem ocupados por militares. Então lá, tanto o assessor como o sub-assessor, sei lá como é que se chamava, eram militares. Dois brigadeiros da Aeronáutica que foram para lá.

 

P – O senhor se lembra o nome deles?

 

R – Não, um era Ari, o outro eu não me lembro mais, não me lembro. Eu já não me lembro os nomes não. Então era...

 

P – O Barros Junior foi mais tarde?

 

R – É, daí para diante eu saí, não sei mais, daí para diante eu não sei mais só que é que aconteceu não. Por que eu saí e voltei para jornal, para todo...

 

P – Mas o senhor saiu por quê?

 

R – Olha, um belo dia eu fui demitido. Fui demitido já em 1967. Eu não soube por que. Depois, aos poucos, eu fiquei sabendo que alguém tinha ido ao Ceará e tinha voltado com a notícia de que eu era um, [riso] um comunista militante feroz. Eu sei lá, sei lá. Por isso eu fui demitido.

 

P – E o senhor não era filiado ao PC, nem tinha...?

 

R – Não, eu era, eu participei de campanhas assim, por exemplo, Campanha do Petróleo, né? Centro Nacional de Defesa do Petróleo. Quer dizer, eu nunca assinei nem meu nome lá, mas eu participei daqueles comícios, em toda parte se realizaram. O país inteiro viveu os comícios. E, ironicamente, o centro, a Campanha de Defesa do Petróleo foi feita, os dirigentes eram quase todos militares. O General Francisco Cardoso, inclusive, tio do Fernando Henrique, né? Era um dos dirigentes da Campanha.

 

P – E essa pessoa que, dessa história, essa pessoa era ali do departamento mesmo, da Arpub? Ou...

 

R – Olha, eu não vou dizer...

 

P – Tá bom.

 

R – ...mais nada além disso.

 

P – Tudo bem, o senhor não quer falar...

 

R – Não, eu não quero.

 

P – ...não tem problema.

 

R – Não, não quero falar.

 

P – Mas é, enfim, se eles viram até uma bomba na esfera da refinaria, eles também tinham o direito de ver qualquer coisa, né? E, enfim, mas é, dessa época também do, do, mudou quando eles entraram? Ainda só para tentar recuperar, eles deram alguma outra diretriz para o trabalho lá da área de vocês?

 

R – Eles não mudaram grande coisa, porque eles não sabiam absolutamente nada do que eles queriam. Eles só queriam impedir que, sei lá, impedir não sei o que. Eles não traziam tanto, do mesmo modo que antes o problema anterior era falta de uma política clara e definida do que a gente ia fazer. Isso nunca existiu. A gente [riso] praticamente inventava a política de Relações Públicas da Petrobras e submetia a quem de direito. Mas não tinha um plano, não tinha nada. Quer dizer, era uma coisa que surgia no dia a dia, era uma coisa cotidiana. Era coisa que a gente, todos nós inventávamos.

 

P – Como é que eram as pautas da revista, senhor Mário, como é, o que é que vocês...

 

 

[FIM DO CD 01]

 

 

R – A gente, a maior parte eu fazia, né? [riso]

 

P – Diz uma que o senhor se lembre?

 

R – Olha, foram...

 

P – De gostar de ter feito.

 

R – Sempre tinha uma matéria principal, que estava relacionada sempre com alguma realização da empresa. Por exemplo, a empresa resolvia comprar uma boa quantidade de petroleiros. Então isso dava uma matéria de capa. Quando a empresa resolveu fazer borracha sintética, é um negócio importantíssimo. A gente não tinha, mas você sabe a história da borracha do Brasil é uma história dramática. A gente no começo do Século 20, a gente tinha borracha. Depois acabou-se o sonho da borracha, os ingleses chegaram, levaram o sonho da borracha para a Malásia. A Malásia transformou-se, aquela titica desse tamanho da Malásia, transformou-se na imensa produtora de borracha. Daí não tinha, nós vivíamos comprando pneu do exterior. Então quando a gente, quando a Petrobras resolveu começar a fazer a sua fábrica de borracha sintética, evidentemente que aquilo era uma matéria de capa, com uma grande reportagem. E o resto era o esquema de uma revista, mais ou menos. Claro, não tão bem, como qualquer desses magazines semanais, né? Não tinha, mas eles, cada um deles tem sua redação. Nós não tínhamos nada.

 

P – Tinham outras matérias além das matérias ligadas à Petrobras?

 

R – Não, em geral era, era só mais ligadas à Petrobras. Às vezes até eu queria por, mas havia muito: “Não, não pode botar. Isso daqui foi criado para falar da Petrobras.” e era muito ainda, era muito estreita ainda as cabeças, né? Não tinha, faltava experiência, faltava visão de...não tinha. Então a gente tinha que fazer as coisas, tinha que fazer as coisas apesar dessas estreitezas e dessas dificuldades. E eu acho que nós fizemos o possível, né? Eu acho. Quer dizer, e eu acho uma coisa interessante, porque pessoas que chegaram lá sem saber absolutamente zero de nada, depois de alguns anos elas sabiam. Sabiam das coisas. E sabiam fazer alguma coisa. Isso eu acho coisa boa. Sabe Deus como, mas se fez.

 

P – Sr. Mario, e aí o senhor foi demitido, o senhor falou 1969 ou 1968?

 

R – Não, em 1967.

 

P – 1967 ainda. Antes até da, do AI-5.

 

R – É.

 

P – E o senhor...

 

R – É, daquele terrível AI-5, daquele que, dentro daquele mesmo ano. É, o AI-5 foi em 1969, né? 1967. Acabou com os partidos, acabou com tudo, né?

 

P – E o senhor foi trabalhar aonde?

 

R – Eu imediatamente, uma semana depois, eu estava trabalhando na Editora Vozes. A Editora Vozes e a Vozes de Petrópolis é uma editora muito antiga no Brasil. Ela é, foi criada pelos frades franciscanos. E sempre foi assim muito conservadora, aquele negócio, mas eles são super bem instalados lá em Petrópolis. Tem um prédio imenso que nem bomba atômica destrói aquelas paredes, desta espessura e tal. E durante, ela foi criada no início do século, por exemplo, 1903, 1904, por aí. E eles tinham alguma coisa assim, como a maioria deles eram alemães, eles, todas as máquinas de imprimir eram alemãs. Eram Heidelberg, da maior à menor. Da maquininha de prova desse tamanho, onde a gente fazia experiência com, para ver a capa, a gente, tudo eram Heidelberg. Tudo máquina alemã. Era muita sorte. As máquinas Heidelberg são máquinas de primeiríssima qualidade. São mais caras do que as outras, é claro. E eram máquinas de offset. Não tinha, só chegava até offset. Eles tinham uma pequena máquina holandesa. Essa máquina só existia duas no Rio. Tinha uma empresa que fazia, naquela época, imprimia, imprimia, negócio telefônico, lista telefônica na época. E ela, essa máquina eles tinham uma e lá a Vozes tinha outra. A Vozes tinha aquela pequena máquina, ela fazia algumas coisas, best-seller deles. Todo mundo tem seu best-seller, né? O Brasil tem o Paulo Coelho, né? O Brasil tem o Paulo Coelho. O best-seller era um calendário assim ____.  Passavam-se meses e meses, quando a máquina ficava pronta fazia cadernos e vendia à garotada aquele negócio.

 

P – Agora, a Vozes empregou muita gente que estava...

 

R – Empregou, empregou.

 

P – ...que teve problema com a ditadura.

 

R – Empregou. Foi muito interessante.

 

P – Tinham outras pessoas lá. Professores também, não?

 

R – Outras pessoas, várias outras pessoas. E então quando eu fui para lá, bom essa máquina era curiosa, porque, vamos chamar assim, os clichês delas, as matrizes de impressão eram feitas de borracha. Borracha na máquina holandesa. E a tinta não era uma tinta oleosa, era uma tinta d’água, feita com anilina. Então uma máquina muito interessante. Pequena, mas rodava meses e meses fazendo aqueles calendários. A que tinha aqui no Rio de Janeiro, da outra empresa que eu não me lembro o nome agora, ela fazia os catálogos telefônicos. Milhares e milhares daquelas coisas desse tamanho. Bom, então eu quando fui para lá os frades lá me deram a tarefa de, de ser inicialmente encarregado do, vamos dizer, do setor de Arte, assim. Que era melhorar a qualidade, na verdade era assim, melhorar a qualidade gráfica dos livros. Embora eles tivessem tudo ali para fazer bem feito, mas não tinha ninguém para planejar um livro, para nada. Então foi por um pouquinho ordem naquele negócio, consegui melhorar a qualidade dos livros. Depois disso eu passei mais a ser editor da área de Livros Leigos. Porque tinham os livros religiosos, que eu não ia meter meu focinho lá, e tinha o livro leigo, que eu fiquei nessa área. Eu editei muito livro de Linguística, Psicologia, Sociologia, Filosofia. E existia uma revista que tinha começado a ser publicada também em 1903, 1904, chamava-se Revista Vozes. E aí Frei Clarêncio que hoje, teve muito tempo no Vaticano, hoje dirige o convento ali em cima, no Centro, no Largo da Carioca, Frei Clarêncio passou a dirigir aquela revista. Mudamos completamente a revista. Passou a ser uma revista mensal mas voltada para as realidades do mundo.

 

P – O senhor se mudou para Petrópolis também?

 

R – Não, eu só fiquei em Petrópolis um ano, depois voltei para cá, e aí comecei a trabalhar no Jornal do Brasil. Então o seguinte, eu trabalhava da...era ali no Largo da Carioca. Tinha um prédio português, eu trabalhava ali até duas horas da tarde, depois eu ia para o Jornal do Brasil e ficava lá até a noite. E então a gente deu umas grandes mudadas naquela revista. E ninguém, a gente usava, por exemplo, a gente fazia coisas assim muito complicadas com o velho e bom clichê de zinco, né? A gente fazia coisas assim que você não imaginava que podia ter sido feito com... Por exemplo, uma vez lá tinha uma figura que na época estava em grande, que era o Padre Teilhard de Chardin. Conhecidíssimo o Padre Teilhard de Chardin. E se publicou uma série, era um livro tamanho livro de bolso com coisas sobre ele ou dele, né? De 30 páginas, 40 páginas, 60. E a capa era sempre a mesma. Na verdade era uma foto dele em alta, quer dizer, reduzia traços da luz e ficavam dois clichês. E a gente passava a fazer experiências de cor, subcor e tal, como é que ia fazer. Então cada capa era diferente da outra, mas na verdade era o mesmo dois clichês, né? Mas a gente fez com outras coisas lá e tal. Tem uma porção de coisas. Depois...

 

P – Seu Mario, e aí no Jornal do Brasil o senhor foi trabalhar na parte quê?

 

R – Eu fui lá para o Jornal do Brasil, eu fui, eu tinha trabalhado um ano na Bloch. Eu tinha trabalhado antes um ano trabalhando na Bloch, e um pouco na Vozes. Mas era, na Vozes eu fui para o Jornal do Brasil. Eu fiquei nove anos na Vozes. E Jornal do Brasil quando eu comecei ainda era aqui na Avenida Rio Branco, né, naquele prédio velho, que hoje é o prédio do Banco de Boston. Eles venderam a sede para eles. E eu chegava lá duas horas, três horas da tarde e ficava até a noite. E...

 

P – Mas na área Geral...

 

P – ...no Jornal do Brasil fui trabalhar especificamente, na época existia uma coisa chamada Departamento de Pesquisa. O Departamento de Pesquisa era uma seção onde você, você ali era, você escrevia nunca assinava. Assinava através de pesquisa, matérias que originalmente eram matérias para calçar a notícia, como a gente chama. Então você tinha um fato internacional, você tinha coisa e tal, você pesquisava dentro do próprio jornal, nos livros e nas revistas. O jornal assinava muita revista estrangeira. Então a gente fazia aquela matéria que era o que explicava aquela situação. Por exemplo, a guerra entre a Rússia e a Geórgia, tinha embaixo quando é que tinha começado isso: começou em 1802, mais ou menos. O Tolstoi, grande Tolstoi de Guerra e Paz tem um conto lá muito interessante quando ele era cadete e brigava lá. Então essas coisas a gente trazia e tal. Trabalhei lá. Esse era um negócio. Ficamos dois anos lá até que saiu um editor, que era o Dines. O Dines era o editor do...

 

P – Alberto Dines.

 

R – Alberto Dines, que era um senhor editor. Aí quando o Dines saiu entrou outro editor. Ele disse: “Ah, isso não vale nada, bota isso fora. Só interessam números. Só interessam números, que é para a Economia. _____” Agora, para você ver, a visão do Dines, eu me lembro que um dia o Dines me chamou lá na sala dele: “O que é que você quer, Dines?” ele estava com um livraço assim. Falou: “Ah, eu quero...” Isso era segunda-feira. “...eu quero que você vá para casa leia este livro, sexta-feira você volta e me faz uma página dupla do Caderno Especial.” Que era o caderno dedicado assim à ideias e toda essa coisa. O livro chamava-se The American Way of War, quer dizer, o modo americano de guerrear. Era um livro todo sobre as idéias, a ideia de estratégia militar e política dos Estados Unidos, da Independência até a guerra do, desde a Independência, 1600, 1700 e quanto, até a Guerra do Vietnã que estava se desenrolando naquele momento. Então fui, fui para casa, fiquei lendo. Li aquele livro e voltei sexta-feira. Quer dizer, é difícil você encontrar um chefe de Redação com essa visão assim, te tira da Redação e te manda para casa e diz: “Leia este livro e faça uma matéria.” O Dines, realmente, é uma figura excepcional.

 

P – Seu Mario, a gente está também já com o tempo também mais ou menos em cima, eu queria antes de terminar que o senhor me falasse sobre os livros que o senhor escreveu também. O senhor estava me falando ali antes, de uma forma mais também...

 

R – [riso] Tá bom. Eu fui trabalhar no Jornal do Brasil, mas eu trabalhava demais no Jornal do Brasil, né? Para você ter uma ideia eu fiquei assim os primeiros três anos eu não tirei férias porque eu trabalhava, eu fazia sozinho o meu trabalho. Isso a partir do momento, no meio dos anos 70 existia um suplemento chamado Livro. E o editor do Livro teve lá um problema com o, já com o sucessor do, com o sucessor do Dines e tal, era o Remi Gorga Filho. Eu acho a pessoa muito competente, e tal, não era mole você fazer um Suplemento do Livro, seis, oito páginas por semana, naquela situação de completa [riso] de completa censura. Aquelas dificuldades da época. Então ele foi, sei lá, foi demitido porque não se entendeu aí com o chefe. E eu fui imediatamente jogado _____. Sozinho. Eu não tinha nenhum auxiliar. Passei quase vinte anos fazendo aquilo, não tinha auxiliar não, era sozinho. Então, para você ter uma ideia, nos primeiros 3 anos eu nunca tirei férias. Eu fui tirar férias já no terceiro ano, tal, essa coisa. A partir daí eu consegui. Tinha um amigo, um amigo que trabalhava noutra, noutra seção, no caso era o Cícero Sandroni, hoje presidente da Academia Brasileira de Letras. E o Cícero então me substituía, eu substituía ele. A gente fazia uns arranjos assim. E eu ia para o _____. E de preferência eu ia para a Europa, sempre para a Europa. Eu ia mesmo passar quase todas as férias eu ia para a Europa. Eu dava um jeito de, ele me dava uns dólares, eu dava um jeito de chegar lá e, chegar, por exemplo, em Roma, entrevistar uma pessoa e o resto do tempo eu ficava lá. Eu ficava viajando naqueles trens pela Europa...

 

P – E aí dos seus livros?

 

R – ...dormindo nos trens, então é ótimo.

 

P – E aí os seus livros o senhor escreveu também...

 

R – Bom, por isso eu demorei a escrever, o primeiro livro eu publiquei em 1977. Que era um livro de ficção, 10 histórias que...

 

P – Qual é o nome?

 

R – ...que foi chamado Milagre na Salina. É um título irônico. Tem um conto que se chama Milagre na Salina é todo, não tem nada de milagre coisa nenhuma. É um título irônico. Depois disso eu publiquei mais alguns livros de ficção. Um deles chama-se Andante Com Morte.  Na verdade é um título tirado da música, né? Quer dizer, andante con motto, né? Quer dizer, só que eu tirei o motto, andei com morte. Porque realmente o conto, que é muito longo, que abre o livro, que abre o livro, é realmente um andante com morte. Que vai um assassinato cometido assim num dia inteiro. Você vai matando o outro. Os caras vão matando o outro assim _____, e tal. Por razões políticas, sociais, aquela coisa. Depois disso eu publiquei mais um livro, eu publiquei mais um livro de contos, chamava-se O Homem Chamado Noel. O pessoal pensava que era Noel Rosa e não tinha nada com Noel Rosa. [riso] E, bom, esse Andante Com, o primeiro, ele foi traduzido, uma parte dele foi traduzido na argentina, outro pedaço foi publicado na Itália. E o livro inteiro foi traduzido na Rússia, né, aquele negócio. Os russos não davam a menor bola para você, traduziam e anos depois mandavam a cartinha dizendo: “Traduzimos e tal.” Eles nunca deram a menor bola para o direito autoral de ninguém, né? Zero.

 

P – E não mandavam, zero de direitos autorais?

 

R – Nada, nada. Você, anos depois eu consegui um volume. Porque era uma volume em que eram cinco livros. Era um volume grande e isso era muito feito na Rússia. Desde o tempo do império. Eles juntavam vários livros assim, que tinha alguma afinidade, e publicavam num volume e distribuíam para as bibliotecas. Aquele imenso _____, um negócio gigantesco. Eu fui publicado junto com o João Ubaldo, né, o João Ubaldo. Um romance antigo do João Ubaldo. Aquele negócio do Sargento Getúlio, que é uma das coisas _______. E Homero Homem, que era um poeta escritor. Um mineiro que é um cara muito talentoso, como é o nome dele? Enfim, fomos cinco ali, e eu fui um deles que estava traduzido, estou lá no russo, naquele negócio.

 

P – E o senhor tem trabalhado também fazendo traduções?

 

R – Muita tradução. Agora eu estou parado, agora eu não estou fazendo não. Mas eu fiz, eu traduzi, eu fiz trinta, nesse período eu traduzi trinta e dois livros. O primeiro livro que eu traduzi foi ainda quando estava na Vozes. Era um romance sobre a Espanha. A Espanha em plena época do Franco, né? E então tinha lá uns padres que faziam a oposição ao Franco, aquela história. E o título do livro, é engraçado porque é tirado de um verso do Eurípedes, de uma das peças do trágico grego Eurípedes. Em francês é ____________, traduzido em francês. E o título que eu dei é Contudo Existe o Mar. Contudo Existe o Mar, e enquanto existir o mar vocês não vão me vencer, não vão acabar comigo, e tal. Então era uma tragédia de Eurípedes. E esse, bom, esse, deste Andante Con Morte são quatro histórias. Eu fiz inicialmente o livro só com três histórias. São histórias assim de um mundo que eu não defino que é, mas parece com o interior do Ceará e tal. Essa primeira história, que é a própria Andante, chamada Andante Con Morte, foi traduzida na França numa revista chamada Caravane. É uma revista anual, sai assim mil páginas, sei lá quantas. E aí pública ficções e poesias de todo o mundo, _______ eles publicaram traduzida pelo Didier La Maison. E bom, a última, o último conto, que não é bem um conto, novela pequena, eu improvisei um negócio porque a editora pediu para eu improvisar. Eu tinha uma história na cabeça e mandei, A Nova Rota da Seda. Então é um negócio meio conto de ficção científica, com as suas quarenta páginas assim. Eu descrevi o mundo onde chega um momento que tem carro demais, e os automóveis, o pessoal dos automóveis começa a matar quem está na calçada e os caras da calçada começam a matar quem está no meio da rua. Quer dizer, uma situação desse tipo. Uma situação desse tipo. E a Nova Rota da Seda porque aí eles, algumas empresas e tal, dentro desse negócio, ficou, criam uma imensa estrada, uma gigantesca estrada que sai do centro da Europa e vai, passa pela Turquia, o Irã, o norte da Índia, o norte da Indochina, inflete para dentro da China e vai parar lá junto da Muralha Chinesa. A função daquela estrada é que você viesse para ali, trouxesse o seu carro e você andasse à velocidade que quisesse. Morresse ali como quisesse. Tudo dessa impossibilidade de você dirigir o seu carro na cidade. Então os ricos vinham naquela estrada. E ela foi, cumpriu isso durante alguns anos ela cumpriu esse negócio freudiano, né, [risos] de você se soltar. Mas um belo dia o petróleo acabou mesmo de vez e ficaram lá milhões de cadáveres de automóvel. E, mas pediram para substituir, para fazer por uma que se passasse por um clima semelhante a outra. Então eu fiz, está sendo traduzida lá na França, que eles querem. Tem um professor da Universidade de Lion que quer traduzir o livro todo lá. E eu fiz a história que chama-se Muralhas. O Muralhas é um livro inspirado em Josué, o Livro Josué da Bíblia, né? Que é o sexto livro da Bíblia. Josué, lá no segundo capítulo de Josué tem uma história muito interessante...

 

P – Seu Mário eu vou pedir até para a gente só, enfim a gente está com o nosso tempo também, bastante já estourado. Queria saber: dos seus livros então foi o, foram quantos livros?

 

R – Uns doze, mais ou menos, devo ter uns doze. Eu tenho de várias coisas, eu tenho livro de, eu tenho livro, assim por exemplo, são poesias do Nordeste. Um livro, chama-se Doce Como o Diabo, né? São ensaios sobre, não é. Ensaios. E tenho um ensaio sobre Eça de Queiroz, autor de ficção científica, que é o Mandarim, né? Enfim tem...

 

P – Então tem um pouco de tudo?

 

R – É, um pouco de tudo.

 

P – Ficção, poesia.

 

R – E como tradutor eu traduzi alguns de ficção, alguns de Filosofia, traduzi vários livros de Filosofia e vários livros de História, Literatura mundial, enfim. Coisas assim.

 

P – Seu Mário, antes de terminar eu queria perguntar se o senhor queria deixar algo mais registrado, alguma coisa que, enfim?

 

R – Não, eu só quero dizer [riso] para aqueles velhos amigos que ainda estejam vivos, que eu sou muito grato pela companhia deles. Eu gosto muito, né? Gostei muito de ter sido companheiro deles naquele momento em que a gente estava começando nem sabia o quê, nem ia para onde, né? _____. Gosto muito deles.

 

P – Queria saber o que é que o senhor achou de ter contribuído também para o Projeto Memória própria da Petrobras?

 

R – Eu achei ótimo, eu achei ótimo que tenham me chamado para contribuir. Não deu para ficar rouco ______. Alguma coisa.

 

P – Tá certo, senhor Mário, eu queria agradecer a sua participação, tá bom?

 

R – Obrigado.

 

P – Muito obrigada. 

 

 

--- FIM DA ENTREVISTA --- 

 

 

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