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História

"O hip hop dá voz aos oprimidos"

História de: Pedro Antônio Alves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/02/2015

Sinopse

Pedro é um jovem músico que gravou sua história no Museu da Pessoa em janeiro de 2015. Em seu depoimento, Pedro recorda a origem de seus pais, pai paulistano e mãe, mineira. Fala sobre o despertar do interesse pela música desde muito cedo, influenciado pelo pai. Descreve os ritmos que gosta e de como começou a se interessar pelo hip hop. Lembra a escolha do pseudônimo e de como começou a participar de batalhas de rima. Fala sobre a faculdade de música que cursa e dos cursos que participou no Espaço Criança Esperança, como aluno e como professor.

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História completa

Meu nome é Pedro Antônio Alves. Eu nasci no dia 3 de julho de 1994, em São Paulo mesmo. Meu pai nasceu no dia 2 de novembro de 1970, aqui em São Paulo também. Minha mãe nasceu no dia 16 de novembro de 1970 no município de Ritápolis, Minas Gerais. O nome do meu pai é Edvaldo Costa Alves e o da minha mãe é Valdete Seflor. O meu pai é comerciante, sempre foi comerciante. Ele trabalha no ramo de material elétrico e a minha mãe é publicitária. Por parte de pai eu tenho uma irmã mais nova. Ela é do segundo casamento dele.  Minha mãe separou do meu pai quando eu tinha três anos, ela precisava trabalhar, então eu ficava com a tia-avó do meu pai, a irmã do pai do meu pai. Foi na mesma casa que ele cresceu, que o meu bisavô que cuidou dele, porque o filho do meu bisavô, o pai dele tinha morrido. E eu cresci na mesma casa que o meu pai praticamente ali, cuidado pela tia dele, minha tia-avó. Ela tinha três filhos e praticamente ela é minha segunda mãe. Ela cuidou mais tempo de mim do que minha mãe. Ela me cuidou dos três aos 12. Depois disso eu comecei a ficar sozinho. Eu sempre gostei muito de futebol, sempre fanático por causa da família, a família do meu pai a grande parte é palmeirense, a maioria é palmeirense.  Eu comecei a gostar do hip hop aos 13 pra 14 anos. Quem me apresentou foram os irmãos da minha mãe que é de Minas, eles gostavam muito. Minha influência daqui de São Paulo, da minha família aqui de São Paulo é samba. Meu pai mesmo era do rock, meu pai tinha banda de rock, tinha bar de rock, tinha um monte de coisa. Os meus tios por parte de mãe me apresentaram o rap, apresentaram-me Racionais e Facção Central que era dois grupos zica da época. E dali eu começava a ouvir as letras, não tinha muito a ver comigo, pelo que eles falavam nas letras não tinha uma vivência detalhada do que eles estavam falando ali, mas eu me identificava pelo ritmo, por causa de poesia, eu sempre gostei muito de ler, de poesia. Como minha mãe é publicitária, mídia ainda, então ela ganhou sempre muito livro, muita revista, quadrinho. Então eu cresci, sempre gostei muito de ler e eu acho que isso foi o que me fez gostar muito do ritmo, ritmo e poesia, que eu sempre escrevi poema, quando eu pequeno eu escrevia uns poeminhas e eu acabei me identificando mais com estilo.

Minha mãe é uma pessoa muito sensível, eu puxei esse lado da sensibilidade dela. Então toda vez que eu ficava muito triste eu escrevia. Às vezes não era nem rima, não era nada, mas eu escrevia. Eu tenho em casa umas coisas guardadas que eu não sei nem quantos anos eu tinha, mas era bem antes da oitava série, bem antes de tudo. Ainda era naqueles caderninhos. Que é bem pequenininho o caderninho de primeira, segunda série. Tinha uns poeminhas, coisinha besta que eu fazia por fazer.

O hip hop dá voz aos oprimidos. Tem aquele poema do Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor que finge tão bem a dor, que chega a parecer dor a dor que deveras sente”. Como eu sempre gostei muito de escrever poema e o hip hop foi meio que a válvula de escape daquela raiva juvenil, daquela vontade de aparecer, todo mundo tem isso determinada época da vida. Já fiz um monte de bobagem, já saí pichando parede, já quis falar que era de torcida organizada pra arrumar confusão, a gente passa por várias coisas durante a vida. Mas no hip hop eu me encontrei. Primeiro eu conheci o rap, eu cheguei no Espaço Criança Esperança, que era perto da minha casa, quem me levou no Espaço Criança Esperança foi um amigo meu, o Diego, ele é grafiteiro, a gente sempre morou na mesma rua, estudou até na mesma escola um tempo. Ele me levou e falou: “Então, tem um estúdio aqui, tem o pessoal”. Eu cheguei no espaço, que eu não conhecia, só passava por lá, mas não sabia o que tinha, não era ali da região, eu era da Freguesia, o Espaço Criança Esperança já fica na Brasilândia. Eu não ia muito pra ali. Eu comecei a conhecer o pessoal, conheci o Douglas, que era o cara que operava o estúdio, conheci o Bonga que era o grafiteiro que meio que era o coordenador do espaço que foi o meu melhor professor no hip hop. Um cara que me ensinou muita coisa, que me ensinou o que era hip hop. Foi um cara que pegou, chegou em mim, estava tendo um show ele falou: “Pega o microfone e rima”. Porque eu não queria fazer isso, estava com vergonha, foi a primeira vez que eu peguei no microfone e rimei, foi ele que deu o espaço, ele que mandou eu fazer isso,  eu fiz. Foi um evento que estava tendo no Espaço. Foi o segundo encontro da juventude, eu não lembro o ano, acho que era 2009 ou 2010. 2010. Eu cheguei, estava ajudando no evento, tal, queria começar a conversar com o pessoal e é gravado o estúdio que tinha no espaço. Estava tendo uma banda tocando, chamamos um pessoal pra fazer freestyle e eu estava começando a fazer freestyle na época, e eu peguei o microfone e comecei a rimar, falei um monte de coisa. Nem lembro o que eu falei, foram muitas rimas depois dessa, eu não faço ideia do que eu falei no momento, mas foi um incentivo maior. A partir dali, daquele espaço, eu comecei a ir às oficinas que ele dava de grafite e assistir a aula dos B-boys. Eu entendia a cultura em si, que o rap era um gênero que representava a cultura, mas não só o rap, o R&B também está ali envolvido também, o jazz, o soul é a raiz do hip hop, mesmo que o hip hop começou na Jamaica depois foi pro Bronx e tal.

Eu estava no centro procurando emprego, tinha acabado de preencher um formulário, saí desapontado porque tinham me oferecido 600 reais pra trabalhar um período integral. Você sai desanimado.  Estava ainda começando a faculdade que eu estava realmente... Que eu entrei num curso que eu queria, produção fonográfica, e eu estava na porta ali passando ali pela Ação Educativa eu vi o Bonga. Ele: “Você está indo onde?” “Eu estou indo pra casa. Estava ali vendo um trabalho, eu não arrumei.” “É? Então entra no carro que você vai ali com a gente.” “Pra onde a gente vai?” “Não, a gente vai num lugar, tal.” “Então beleza, vamos lá”. O Bonga falou. O cara é meu professor, vou falar não pro cara? Estamos indo: “Então, onde que a gente vai?” “A gente vai na Fundação Casa, tal, vou dar umas oficinas, que não sei o que”. Na hora: “tu tu tu tu tu tu”. E agora? Pra onde que eu vou? Pra onde que eu vou? Vamos lá. Chegamos eu nervoso pra caramba, comecei a falar no microfone, chamei os meninos, os moleques tudo se juntaram, começaram a rimar também comigo, começaram a curtir, começaram a gritar, começaram a pular, respeitando, sempre o respeito ali, nunca me desrespeitaram ali dentro. Fiz o que? Fiquei umas duas semanas fazendo ali direto. Nada te difere dos meninos a não ser o fato de que um preferiu fazer uma coisa errada. Nada te difere. Você pode morar na mesma região, às vezes é o cara que está ali com você na Vila, está jogando bola com você, que teve uma opção errada e caiu ali na Fundação, está ali pagando o que ele fez pela sociedade.

Meu primeiro nome de todos foi MC Foca, porque me chamavam na escola de foca. Era depois eu virei o Liu Fox, que na Rimologia eu precisava de um vulgo. MC Foca não era legal, todo mundo me zoava por isso. Liu Fox eu achei legal até por causa do Sonic que eu jogava com ele, tinha um personagem do Sonic que era o Fox. Eu era seco, baixinho, beleza. Eu achei também Liu Fox que era meio ruim, eu precisava de uma coisa mais minha cara, mais... Eu procurando um vulgo, tal, eu catei e escrevi meu nome ao contrário. Eu falei: “Ordep”. No momento eu falei: “Meu, Ordep só, falar que é meu nome ao contrário, vão me zoar”. Eu fiz uma sigla, era: “Outra Razão de Expressar Poesias”. Ficou mais ou menos isso. Só que hoje é o meu nome ao contrário mesmo.

No Santa Cruz eu conheci um cara que chamava Scott, Reinaldo Scott. Esse Scott foi também um grande professor pra mim, ele me ensinou as malícias da rima, tal, mostrou muita maldade do mundo, ensinou-me vender. Até pouco tempo atrás eu estava trabalhando com vendas, quem me ensinou a vender foi o Scott. Ele me apresentou o grupo de rap Duck Jam e Nação Hip Hop que era um pessoal dali de onde eu moro, do Guaimim mesmo, da Freguesia do Ó, apresentou-me o pessoal. E nesse pessoal ele me apresentou o Rodrigo Mendonça que era um cara que na época postava no blog coletivo MTV e tal. Ele estava escrevendo o disco dele, eu estava com as bases, eu tinha 15 anos, eu vendi um disco inteiro pra ele, eu acho que tem 20 músicas, 16 músicas, 300 reais. Hoje eu cobro 300 reais em três bases. Sabe, mudaram as coisas, mas foi o primeiro passo, um dos primeiros passos. A gente produziu o disco pelo MSN, eu mandava as bases, ele ouvia, ele falava: “Eu quero que você mude tal coisa, mapeie de tal forma” eu ia fazendo isso. Foi assim que foi.

Começamos um projeto que foi formado na batalha do Santa Cruz, que começou como FDP. Todo mundo pensa: “FDP, palavrão...”. Não. Chama Fora dos. A ideia era o Chaveiro, o Lucas, Lucas Orishima ele é japonês, e eu, a gente montou o grupo, a gente era amigo do Santa Cruz, montou o grupo no MSN mesmo. Todo mundo usava o MSN. Todo mundo fala de Whatsapp hoje, mas antes era o MSN, era um negócio legal, todo mundo falava por ele. Eu tinha até contato com cara de fora do país, eu tenho contato com um cara de fora do país que eu conheci no MSN, isso é bem legal. O Lucas a gente falou: “Vamos fazer um grupo.” “Vamos”. O Scott que deu a dica, o Scott foi o MC que eu conheci lá. E a gente montou o grupo e eu chamei um amigo meu dali perto de onde eu morava e ele chamou o Kevin. O outro é o Projeto Essência. Já é com o Beto Cruz, que é um amigo meu, que mora bem perto de mim ali na Cruz das Almas também, na Freguesia do Ó. Ele é um cara muito legal, a família dele inteira gosta do rap. Um cara do meio. Sempre estudou muito rap, cresceu ouvindo rap praticamente e ele começou a rimar há pouco tempo atrás e quando ele começou a rimar eu fiquei muito feliz, porque a primeira música que ele escreveu, ele me chamou pra participar. Eu catei, fui na casa dele, tal, a gente trocando ideia, escrevia a letra no verso de uma capa de livro, aqueles livros, sabe, que tem a capa brancona, inteira branca. Escrevi a minha parte da letra ali, a gente falou: “Meu, como que vai chamar o projeto?” “Não sei. A gente quer preservar a essência, então Projeto Essência”. Ficou. Está até hoje. Vamos ver se vai mudar o nome, mas a gente também está na produção do primeiro disco. O FDP demorou muito tempo pra gente lançar alguma coisa, mas agora é certeza que vem. O Projeto Essência a gente começou a se formar agora, mas também vem o trabalho que já tem bastante música gravada.

Eu cheguei no Espaço Criança Esperança em 2009, 2010 praticamente. Em 2012 eu tive a oportunidade de trabalhar lá. Nesse tempo inteiro de 2010 a 2012 eu sempre no lugar, sempre fui aos eventos, nas oficinas, no dia a dia. Em 2012 no segundo semestre o Douglas virou supervisor, que era o cara do estúdio, ele virou supervisor, entrou outro cara, o David, David Maderit, que é um cara muito legal também. o David ia sair e ele me indicou pro lugar dele, pra tomar conta do estúdio. Eu fiquei um tempo tomando conta do estúdio, que foi o tempo que no começo de 2013 eles começaram a quebrar tudo pra reformar, que hoje tem uma reforma bonita fizeram, pista de skate e tal. Onde era uma pista de skate era uma piscina, as quadras eram descobertas, onde tinha o ginásio era quadra lá embaixo. O campo bonitão que está lá hoje era um campão de areia, tal. Muita coisa mudou, ficou muito bonito lá, ficou um lugar... É uma ferramenta cultural aquele lugar, que tem um miniteatro, tem pista de skate, quadra, ginásio poliesportivo. Lugar na comunidade é muito legal. Eu fiquei não foram nem seis meses. Foi o segundo semestre de 2012. Eu acho que foi a partir de setembro, outubro que eu comecei, que eu cheguei lá só pra tomar conta desse final, virou o ano, trocou a coordenadora, tal, eu saí. Eles dispensaram todos os oficineiros, os monitores, os professores, que lá tinha uma equipe que tinha mais de 30 educadores, porque ia reformar o lugar.

Eu acho que é extremamente necessário. Seria importante ter uma casa de cultura em cada bairro, ter uma biblioteca em cada bairro, um sarau em cada bairro, uma atividade cultural em cada bairro. Às vezes nem sempre tem. Ali a gente tinha tudo isso, tinha oficina, tinha aula de circo, aula de capoeira, aula de futebol. Tinha tudo. Hoje não tem mais isso lá. Hoje tem uns eventos que acontecem de sexta-feira. O dumb agora tem. De vez em quando tem evento lá dentro, eu acho que voltou... A capoeira está tendo de novo, muay thai está tendo, mas os professores não estão sendo remunerados, isso é uma coisa que... Como o Sou da Paz está saindo dali, eu já estou sabendo disso.

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