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História

O grande apego à educação

História de: Anita Batista Cação
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

A infância em Novo Cravinho e a relação com a família. Como os pais se conheceram e o seu primeiro dia de aula na escola. A mudança para Lucélia e o trabalho na Pernambucanas. Encontro com o esposo, Manoel, e o casamento. O início das aulas e a vida no interior. Mudança para Santo André e o carinho que os alunos tinham por seu marido. O falecimento de Manoel e a homenagem do nome da escola. Abertura do Colégio ABC Mauá e os principais desafios. A relação com o bairro.

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História completa

P/1 – Bom, Dona Anita, primeiro eu queria agradecer muito a senhora por ter tirado esse tempinho pra contar a sua história pra gente, pro nosso projeto. E pra gente começar e deixar registrado, eu queria que a senhora falasse o seu nome completo, onde a senhora nasceu e quando a senhora nasceu.

 

R – Meu nome é Anita Batista Cação, eu nasci no dia 19 de janeiro de 1931 em Lins, cidade de Lins.

 

P/1 – Qual era o nome dos pais da senhora?

 

R – Meu pai... Papai se chamava Pedro Batista e a mamãe Paula Batista.

 

P/1 – E a senhora sabe dos avós?

 

R – Os avós eu não lembro, Maria... Eu lembro que eu tinha uma avó que se chamava Maria, né, e o meu avô se chamava Pedro também. Os outros avós eu não me recordo do nome.

 

P/1 – Dona Anita, conta um pouquinho da história dessa família lá em Lins, como seus pais se conheceram?

 

R – Olha, eu saí de Lins muito pequena ainda, fui pra uma cidade chamada Novo Cravinho. Era uma cidade pequena perto de Pompéia. Lá foi onde eu fiquei até a idade, mais ou menos, de 13 anos, nesta cidade de Novo Cravinho. Lá que eu fiz o primeiro ano, segundo, terceiro, o quarto ano. E eu ainda era babá, tomava conta de uma criança chamada Otávio, um bebezinho. E lá fui me criando. Depois papai resolveu mudar pra Lucélia. Quando eu cheguei em Lucélia eu tinha, acho que, na faixa dos 13, 14 anos, com 15 anos mais ou menos eu já comecei a trabalhar. Fui trabalhar numa loja, depois passei pra Pernambucanas (risos), Casas Pernambucanas onde eu fiquei bastante tempo, acho que uns cinco anos nas Pernambucanas trabalhando. Vendia, um pouco no balcão, um pouco no caixa, depois passei no escritório, e assim foi.

 

P/1 – Dona Anita, o que os pais da senhora faziam?

 

R – O papai trabalhava com caminhão, quem tinha caminhão trabalhava com caminhão, a minha mãe era doméstica.

 

P/1 – A senhora tem irmãos?

 

R – Eu tenho nove irmãos. Nós somos em nove irmãos, uma família unida demais, demais, demais. Não existe união igual (risos). Família muito boa.

 

P/1 – E dona Anita, me conta um pouco da sua infância, como era esse pai que trabalhava de caminhão, vocês andavam no caminhão com ele?

 

R – Andávamos, que delícia, na carroceria com ele, ia todo mundo sentado, brincando, pulando. Papai levava a gente no riozinho pra fazer piquenique. Era muito gostoso, eu tive uma infância muito boa. Mas só que foi uma infância muito boa, mas a dificuldade financeira dos meus pais foi um pouco difícil, porque chegava o natal, a gente não podia ganhar nada porque os pais não tinham condições de comprar nada. Então o que a gente ganhava? Uma boneca de pano feita de meia, né, meus irmãos ganhavam carrinho feito de lata vazia, rodinha de madeira, tudo confeccionado pelo papai mesmo. Eles que faziam e guardavam pra nos dar no natal porque dinheiro pra comprar o papai não tinha mesmo. Era muito difícil, nossa, nove filhos. Era difícil, viu, meu bem.

 

P/1 – Dona Anita, o que a senhora gostava de brincar?

 

R – Brincar? Eu gostava muito de brincar de boneca, de casinha, comidinha, fazer comidinha, brincar de casinha. Adorava. Sempre gostei muito de boneca, e não tive nenhuma filha, tive dois filhos (risos). Dois filhos. Não tive nenhuma filha. Adoraria ter uma menina, mas não veio. 

 

P/1 – E Dona Anita, com esses nove irmãos, como era a casa da senhora, como era o dia-a-dia da casa?

 

R – Ah, era gostoso, era muito bom. Nós éramos muito unidos, sabe, nossa, demais. A minha irmã mais velha costurava pra fora, e eu era babá dessa criança que se chamava Otavinho, Otávio. Meus irmãos todos ajudando a mamãe, faziam aqui, faziam ali, nós tínhamos horta, tinha vaca de leite, sabe, plantação de mandioca, pomar com bastante frutas. Foi uma vida boa, viu. Não tinha perigo nenhum, ficava até dez, 11 horas da noite brincando na frente da casa, nunca teve perigo de nada, né, o perigo é hoje.

 

P/1 – E a senhora lembra como era o quarto que a senhora dormia?

 

R – O quarto que eu dormia? Ah, eu lembro, o quarto que eu dormia tinha duas camas de solteiro e uma cama de casal. Na cama de casal dormia eu e a minha irmã mais velha. Na outra de solteira dormia a outra irmã, tinha três camas.

 

P/1 – Era um quarto para as meninas e outro para os meninos?

 

R – Era separado, separado.

 

P/1 – Dona Anita, vocês comemorava festa de natal, aniversário?

 

R – Naquela época, quando eu era criança, não tinha tanto essas comemorações. Tinha assim, o seu aniversário a mamãe falava assim: “Eu vou fazer doce de abóbora, é seu aniversário, eu vou fazer o doce de abóbora” (risos). Final de ano: “Vou fazer um curau”, sabe, era assim, não tinha... Como hoje, né, hoje o tempo é bem melhor, do que antigamente, bem melhor, eu acho.

 

P/1 – E a mãe da senhora era boa cozinheira?

 

R – Era, nossa, arroz feijão e polenta, nossa, filé de frango, aquela polenta bem ensopada com bastante molho, sabe?

 

P/1 – Tinha um prato preferido, assim, que a senhora sente saudade?

 

R – Não, eram aqueles pratos brancos, parecia... Não sei como chama aquele material lá, que era latinha assim (risos), não era louça, né, como antigamente, Ágata, aqueles pratos, era aquele que a mamãe tinha, que nós usávamos. 

 

P/1 – E qual a comida que ela fazia que a senhora mais gostava?

 

R – Ah, eu adorava muito polenta com frango, adorava, como eu gosto até hoje, carne ensopada, assim, com polenta (risos).

 

P/1 – E tem alguma história marcante dessa infância, alguma molecagem, a senhora era sapeca?

 

R – Eu não era sapeca não. Era calma, na escola mesmo, eu tinha um entrosamento bom com todos os coleguinhas, os professores sempre me queriam muito bem, eu nunca tive problema de brigar com nenhuma criança, nada. Meu irmão, que estudava na mesma sala, era muito rebelde. Quando a professora fazia alguma coisa pra ele, prejudicava ele, aí eu chorava, chorava muito, muito, muito mesmo, porque ela punha ele de castigo e a mágoa vinha toda em cima de mim (risos).

 

P/1 – A senhora sabe como os seus pais se conheceram?

 

R – Meus pais? Olha, meus pais se conheceram lá em Lins mesmo. O papai era de lá e a mamãe era de lá. Os dois, eles se conheceram lá, casaram e foram... O papai e a mamãe casaram, foram morar com os pais dele. Que eles tinham uma fazenda, e ficaram morando na fazenda junto com sogro, sogra, tudo misturado. Antigamente os italianos eram assim,  (risos). Não existia casar e cada um ter a sua casa. Era todo mundo junto. Aquela casa que tinha 12, 15 cômodos.

 

P/1 – E a família da senhora é de origem italiana?

 

R – Italiana.

 

P/1 – E a senhora sabe um pouquinho como eles vieram parar no Brasil?

 

R – Não, não sei, sobre isso eu não sei mesmo porque o papai já casou aqui no Brasil, a mamãe, tudo...

 

P/1 – E agora, Dona Anita, eu queria que a senhora me contasse se a senhora lembra do seu primeiro dia de aula?

 

R – Meu primeiro dia de aula... Ah, eu nem me recordo, meu bem.

 

P/1 – Mas no comecinho, assim, da escola, a primeira escola...

 

R – A primeira escola era de madeira, tinha um porão muito grande embaixo. Quando as crianças faziam arte, o castigo era pôr em baixo do porão e fechar uma portinha. Punha o aluno lá, e lá ficava o aluno. Inclusive teve uma professora que uma vez prendeu uma criança lá embaixo, eu me lembro como se fosse hoje, fechou a portinha. Ela foi denunciada. O pai denunciou. Aí foi pra delegacia, acusou, fez B.O [Boletim de Ocorrência], e ela ficou afastada três meses por esse motivo, por ter preso as crianças embaixo do porão. Coisa que hoje não tem mais isso. Antigamente os castigos eram muito severos, eram tampinhas de garrafa em cima de uma tábua, todas com a pontinha, assim, pra cima, mandavam ficar de joelho, tinha que ficar de joelho em cima daquela tábua, enquanto a professora não mandava sair tinha que ficar no castigo. Eu, graças a Deus, nunca precisei (risos).

 

P/1 – A senhora gostava de ir pra escola?

 

R – Eu gostava, eu sempre gostei, sempre adorei. Tinha muitos livros de história, eu ganhava muitos livros dos professores. Adorava ir na escola. Tinha um bornalzinho do lado, chamava-se picuá, que eles falavam. Parecia aquele que eles levam pra pegar peixe,  colocava aquele bornalzinho nas costas, o lápis, uma borracha, um caderno, e lá ia eu pra escola.

 

P/1 – Tinha uniforme?

 

R – Tinha uniforme, uma sainha de... Ai, pena que a foto não tá aqui, tá... (risos) Uma sainha de prega, blusinha branca, meia três quartos, era até bonitinho o uniforme, saia azul marinho e blusa branca.

 

P/1 – E o que a senhora mais gostava na escola?

 

R – Ah, eu gostava de brincar, de recitar, de cantar, nossa, adorava.

 

P/1 – E como eram as aulas?

 

R – Ah, eu tive muitos professores. Tive uma professora do primeiro ano que eu me lembro muito bem dela. Do segundo eu não me recordo muito não, mas a do quarto eu me lembro bem dela, uma professora muito boa, sabe, eu gostava de estudar.

 

P/1 – Tinha uma matéria preferida? Uma que a senhora ia melhor?

 

R – Eu gostava muito de matemática, nossa, tinha um desenvolvimento muito bom em matemática, adorava, num instantinho eu resolvia tudo sem... Na ponta do lápis eu resolvia tudo. Eu falo, assim, até hoje. Eu não uso calculadora. Eu tenho, mas não sei nem aonde tá. Eu faço tudo na mente, acho que é porque desde criança eu trabalhei nas Pernambucanas e já desde criança sempre lápis, lápis, tudo no cérebro, na cabeça. Eu desenvolvo tudo até hoje, enquanto meu filho faz uma soma na calculadora eu já fiz na cabeça (risos).

 

P/1 – Dona Anita, tinha educação religiosa na escola?

 

R – Tinha, a gente tinha sim.

 

P/1 – Como eram essas aulas de religião?

 

R – Eu me lembro bem da educação religiosa, mais, assim, quando eu fiz o... Que já era mais mocinha, que a professora dava aula de religião pra gente, boas maneiras, bons costumes. Era assim, não abrangia muito a religião não, mas dava uma boa aula pra gente.

 

P/1 – E a escola organizava festas?

 

R – Ah, sim.

 

P/1 – E qual festa era marcante, assim?

 

R – A festa a gente fazia lá no largo da igreja onde tinha um palco bem grande, um tablado, um coreto, sabe, as festinhas a gente fazia sempre lá, eram festinhas boas, os professores participavam, os pais dos alunos, né...

 

P/1 – Qual festa foi mais marcante?

 

R – Ai, quando eu era criança, você diz?

 

P/1 – Sim.

 

R – Ai, não me recordo muito de uma festa, assim, que me gravasse muito não, eu participava de tudo.

 

P/1 – Então, dona Anita, o que a senhora queria ser quando crescesse?

 

R – Eu queria ser professora desde criança, eu só ficava triste quando eu via professora gritar com aluno, beliscar, puxar a orelha, bater a régua na mesa, ai, aquilo me doía o coração. Nossa, eu sentia muito, eu falei que quando ela punha o meu irmão de castigo eu chorava, aquele dia, pra mim, acabava o dia. Eu ficava muito magoada porque eu achava que não deveria ter aquela atitude, com um aluno tão pequeno, pra prejudicar tanto. Eu falei: “Ai, quero ser professora um dia pra eu ser bem amorosa, ser bem carinhosa...” (risos), meu sonho sempre foi esse.

 

P/1 – Qual é a memória mais marcante que a senhora tem dessa primeira infância?

 

R – A história mais marcante da minha primeira... Ah, foi na idade, assim... Eu me lembro muito de uma vez que eu ganhei uma sombrinha de Papai Noel, que eu não sei nem como o meu pai conseguiu comprar aquela sombrinha. Quando eu acordei cinco horas da manhã já abri a sombrinha no quarto (risos) e fiquei desfilando dentro de casa com a sombrinha aberta, isso me gravou até hoje. A alegria, a felicidade que eu tive de ficar com aquela sombrinha, pra mim foi muito marcante aquilo (risos).

 

P/1 – E Dona Anita, a senhora contou que com 13 anos mudou de cidade, foi pra Lucélia?

 

R – Pra Lucélia.

 

P/1 – E como foi essa mudança?


R – Na mudança o papai foi trabalhar lá, papai arrumou emprego lá em Lucélia, foi trabalhar com caminhão. Nós chegamos lá, todos nós fomos arrumar serviço pra trabalhar. O papai alugou uma casa, casa de aluguel. Foi quando eu já entrei logo nas Pernambucanas, trabalhando como vendedora de balcão, empacotando, sabe, mas foi bom. Foi lá que eu conheci depois o meu esposo, em Lucélia mesmo, onde eu me casei e onde os meus dois filhos nasceram.

 

P/1 – Quando a senhora mudou, o que foi mais difícil, assim, de sair da outra casa, ir pra um lugar novo?

 

R – Ah, o mais difícil, que eu achei... Porque nós passamos, sabe, chega num lugar novo, cidade pequena, Lucélia é um lugar pequeno. Mas nós tivemos todos que trabalhar. O papai tava, assim, numa situação muito difícil. A gente ganhava pouco. Eu ganhava, 25, 250, não sei nem se era cruzeiro, o que era naquela época, era cruzeiro. A gente tinha que ganhar e dar tudo na mãozinha do papai, pra pagar as despesas. A gente não ficava com nenhum tostão porque não dava, (risos). Isso eu me recordo bem.

 

P/1 – E qual era... A família da senhora tinha almoço de domingo? Qual era um evento marcante, assim, da família unida?

 

R – Da família unida? Ah, quando reunia todos os irmãos, a mamãe tinha uma mesa bem grande, assim, no quintal, uma mesa enorme. Reunia todo mundo, a mamãe convidada todo mundo pra sentar naquela mesa, almoçar, todos juntos. Eram todos juntos, se não chegasse um ela não servia nada, tinha que esperar os nove lá.

 

P/1 – E a família comemorava natal?

 

R – Sim, sempre comemorávamos. Nós somos religiosos, sempre a mamãe fazia a gente ir à igreja, fazia peça de teatro na igreja, com a apresentação do menino Jesus, aquela coisa toda, né (risos).

 

P/1 – A senhora lembra o personagem que a senhora fez ou uma dessas peças?

 

R – Ah, eu me lembro que eu sempre cantava, eu era sempre a cantora (risos), tudo que eles inventavam lá, quem cantava era eu.

 

P/1 – E como foi essa juventude da senhora? O que a senhora fazia nas horas de lazer, assim, pra se divertir?

 

R – Ah, eu não tive, assim... Eu comecei a trabalhar muito cedo, bem, assim, como babá, eu falei pra você, depois da idade de 13, 14 anos que eu vim pra Lucélia, aí já... Mas não dava tempo de ter um bom... Era batente, né (risos).

 

P/1 – E o que a senhora mais gostava de fazer nessa época?

 

R – Você diz na idade mais... Dez anos...

 

P/1 – Na juventude, dos 13 aos 18 anos, assim...

 

R – Juventude, ah, eu era muito caseira, quando eu não tava trabalhando eu tava em casa com a minha mãe, ajudando a mamãe. Ajudava muito a mamãe, eu sempre fui muito prendada para ajudar a mamãe, sempre.

 

P/1 – E a senhora falou que conheceu o Seu Manoel nessa época. Como era namorar nessa época?

 

R – Conheci. 

 

P/1 – Como era namorar nessa época?

 

R – Eu conheci o meu esposo quando eu tava trabalhando nas Pernambucanas. Na época eu fui numa quermesse, tinha, acho que, 14 anos mais ou menos, 14 ou 15, acho que foi 14 anos. Conheci ele numa quermesse, aí ficamos conversando, começamos aquele namorinho, né, aí foi até nós casarmos.

 

P/1 – Quanto tempo de namoro?

 

R – Cinco anos.

 

P/1 – Como era namorar nessa época?

 

R – Ah, era gostoso, não tinha esse negócio de beijo, abraço, não existia, não existia não. O primeiro beijo que o meu marido foi me dar eu dei um tapa na cara dele (risos). É verdade, verdade, dei um tapa na cara dele. Ele ficou todo desapontado, pediu desculpa, nossa, porque a gente tinha um respeito, nossa, demais. Antigamente a gente casava virgem, não tinha esse negócio de namoradinho, era tudo uma coisa bem... Nossa, meus pais eram muito severos, pra gente ir num baile, qualquer lugar que a gente ia, o meu irmão acompanhava a gente até na porta do salão, ia buscar, ia levar, não deixava a gente sozinho não.

 

P/1 – E a senhora lembra das roupas da época?

 

R – Eu lembro, a minha irmã, como costurava pra fora, ela costurava muito bem. A gente comprava aquele tecido bem baratinho, chitinha que fala. Antigamente era chita, como aquele tecido TNT hoje. E ela mesma fazia aqueles vestidos lindos pra gente, todo de babado, babado na manga, babado na saia, a moda que hoje tá voltando tudo novamente (risos).

 

P/1 – Dona Anita, depois desses cinco anos de namoro, casaram, como foi o pedido de casamento?

 

R – Ai, cinco anos de namoro, meu esposo, ele se formou. Quando me casei com ele, ele tava estudando, faltava um ano pra ele se formar professor. Ele tava estudando, nós casamos em 1950. Em 1951 ele se formou. Foi legal, a família dele me queria muito bem. Inclusive tinha um moço, Alcides, que trabalhava nas Pernambucanas junto comigo. Nós éramos colegas de serviço, e ele me adorava, o Alcides. E ele ficava no meu pé, não queria que eu casasse, queria que eu fugisse com ele, é. Na véspera do meu casamento eu recebi uma carta dele me convidando pra ir embora, que ele estava disposto, que nós íamos sumir, tal. Mas como a família do meu marido me queria muito bem, eu jamais ia fazer uma desfeita dessas, falei: “Não, vou casar com quem eu estou namorando há cinco anos”. Me casei. Depois nasceram meus dois filhos, tive primeiro esse que estava aqui, o Luís Antônio. Ele está com 63 anos, Luís Antonio. E depois de quatro anos veio o outro, Luís Alberto. Dois homens.

 

P/1 – E como foi a festa do casamento?

 

R – Ah, a festa do casamento foi um barato (risos).

 

P/1 – Conta pra gente um pouquinho.

 

R – A casa da mamãe era de madeira, né, e no dia que eu casei choveu muito. Fizeram uma barraca com um cheirado, puxaram uma lona, pra fazer uma cobertura. Então fizeram aquela mesa com um cavalete pra servir salgadinho, alguma coisa, bolo, meus pais fizeram. E choveu tanto, tanto, foi um temporal tremendo, nossa senhora, parecia que ia desabar, e na hora que eu fui sair da minha casa pra entrar no carro, meu vestido ficou todo na lama, porque até chegar no carro, nossa senhora. Aí consegui chegar no carro, quando cheguei lá dentro, meu vestido tava todo molhado. O sapato, tudo. Mas deu tudo certo. Casei (risos). Quando eu voltei...

 

P/1 – E a senhora lembra do vestido?

 

R – Eu lembro. Eu lembro, o vestido inclusive foi a minha irmã quem fez. Muito bonito, a blusa era de renda, manga comprida, com luvas, e a saia era um tecido que parecia um cetim, sabe, bem rodado, com uma calda, muito bonito. Muito bonito.

 

P/1 – Dona Anita, queria falar um pouquinho da trajetória profissional da senhora, a senhora começou trabalhando nas Pernambucanas, também trabalhou como babá, e como foi essa coisa de casar e trabalhar?

 

R – É, depois eu me casei, primeiro nasceu o Luis Antonio. Aí nessa época, quando o Luis Antônio nasceu, eu não era formada ainda, não tinha me formado. Eu dava aula, lecionava como eventual, mas não dava aula. Dava aula, assim, mas não era formada, naquela época eles pegavam como professora leiga. Leiga, né. Dava uma classe e a gente trabalhava com aquela classe; mas eu criei meus filhos assim, trabalhando, andava de... Ia lecionar no sítio, ia de charrete, pegava uma charrete, tinha um professor que ia tocando o animal e eu e a esposa dele íamos junto, chegava lá, dava aula na parte da manhã. Quando dava uma hora pegava o cavalo, punha na charrete, preparava, voltava pra casa. Eu deixava uma babá em casa tomando conta do pequeno (risos), pra mim poder trabalhar.

 

P/1 – E essa escola, como era?

 

R – Eu me formei numa escola estadual.

 

P/1 – E a escola que a senhora dava aula, essa que a senhora ia de charrete, como era a escola?

 

R – Essa que eu dava aula, eu lecionava no sítio. O Grupo Escolar mesmo era um grupo grande, bem preparado, tinha uns 30 professores ou mais, uns 36. Agora eu nunca pegava escola lá... Sempre pegava escola isolada, nos bairros da cidade. Sempre pegava, quando eu não pegava num bairro, pegava no outro, mas pegava classe pro ano todo. E quando o inspetor ia lá pra visitar a escola ele adorava, ele adorava tanto que eu fui numa reunião uma vez, teve uma reunião, e quando foi bem no final, assim, da reunião, a dona Francisca, eu me lembro como se fosse hoje, ela falou assim: “Agora nós vamos homenagear a professora Anita”, eu pensei: “Homenagear por quê? Não fiz nada”. Aí ela disse assim: “Nós vamos homenagear a Anita porque o Sebastião”, que era o inspetor, que era o... Como se falava naquela época? Não era diretor, tomava conta de toda a região, “...ele foi visitar a escola onde a Anita trabalhava e foi uma das melhores escolas que foram apresentadas”. Ele fez aquele elogio comigo. Mandou todo mundo ficar de pé, bater uma salva de palmas pra mim, e eu não tava... Aquilo pra mim foi um surpresa, eu fiquei até com vergonha, né, pra você ver, eu gostava tanto de criança que a minha sala de aula era sempre com toalhinha, enfeitada, com flores que os alunos traziam da casa deles. Cartazes na parede pra todo lado, era assim. Já era uma coisa que vinha de dentro pra fora, tudo que eu gostava.

 

P/1 – E essa primeira fase, assim, de dar aula, teve algum aluno que marcou a senhora, ou alguns alunos?

 

R – Olha, da fase de dar aula teve um aluno que me marcou muito, foi aqui em Mauá, Visconde de Mauá, Viscondinho de Mauá. Eu tava com uma classe com quase 40 alunos e tinha um menino chamado Murilo, um aluno, Murilo. Esse menino era muito rebelde, muito, muito rebelde. Eu tava explicando a matéria na lousa, dando problema, tal, explicando, e ele sempre com a mão embaixo da mesa querendo acender cigarro, riscando fósforo. E eu não podia falar nada porque eu não gostava de mandar aluno pra direção. Eu acho que eu mesma tinha que resolver na sala de aula. Quando foi um dia ele me chamou e falou aquele palavrão, sabe: “Filha da...”. Ele me chamou de palavrão, e eu já tinha uma certa idade, gente, né, puxa vida! Cheguei perto dele, bati nas costas dele, falei: “Murilo, você tá acostumado a falar isso pra sua mãe? Que coisa feia, nunca esperava de você falar isso pra mim, eu te quero tão bem e você me tratar desse jeito”, aí ele abaixou a cabeça e pediu desculpa. Isso me marcou até hoje, até hoje, tinha me chamado de um palavrão feio, a professora, na frente de todos os colegas, alunos, e os alunos: “Dona Anita, a senhora não vai fazer nada?”, eu falei: “Não, deixa ele, calma”, não mandei pra diretoria não, nem mandei. O diretor, o Paulinho ficou sabendo pela boca de outra pessoa, mas eu achei... Não adianta, adolescente, a gente tem que saber conversar.

 

P/1 – A senhora começou, lá atrás, dando aula de quê? Como era a aula que a senhora dava?

 

R – Eu sempre peguei classe mista, masculina, feminina. Tinha vez que era segundo ano, tinha vez que era terceiro, tinha vez que era quarto ano.

 

P/1 – E era português, matemática?

 

R – Eu dava toda matéria, quando pegava uma classe mista, naquela época, era toda matéria que você trabalhava, quando pegava numa escola isolada, como eu falei pra você que eu ia de charrete, dentro da sala de aula tinha aluno de primeiro ano, de segundo e de terceiro, então você tinha que separar, cada fileira de um grau...

 

P/1 – E como eram as carteiras?

 

R – As carteiras eram umas carteirinhas antigas, tinha um buraquinho onde punha o tinteiro, e canetinha de ponta, né, molhava a caneta pra escrever, como a caneta da Princesa Isabel (risos).

 

P/1 – E o Seu Manoel Cação também dava aula ao mesmo tempo?

 

R – Ele dava aula...

 

P/1 – Aonde ele dava aula?

 

R – Ele começou a lecionar num bairro perto de Flora Rica, foi o primeiro bairro que ele foi lecionar. Ele se formou e nós fomos pra esse bairro. Chegamos lá nesse bairro, eu ainda dava aula como eventual e ele já era formado, então durante o dia ele trabalhava com os alunos e a noite ele dava aula pro admissão. Naquela época era o admissão. Tinha o livro, que eles estudavam. Eram todos alunos assim. Não tinha luz. Tinha que pôr lampião, dava aula com o lampião. Um lampião só bem no centro da sala de aula, né, e foi assim. Naquela época ele lecionava só pra ganhar pontos. São pontos, não ganhava salário. Nós ficamos um ano sem ganhar um tostão, sem ganhar um tostão, eram só pontos. Então o que aconteceu? Como ele dava aula durante o dia e dava aula à noite, ele conseguiu muitos pontos. Quando ele foi ingressar, quando ele foi se efetivar como professor, ele tinha tantos pontos que ele podia ceder um pouco dos pontos dele pra irmã dele. Porque ele tinha uma irmã que não era efetiva, e ele queria ajudar a irmã, e por lei pode, né, o irmão pode passar pontos. E aí o que ele fez? Ele dividiu os pontos dele, a quantidade de pontos, metade pra ele, metade pra irmã dele. Os dois se efetivaram lá no Planalto do Sul. Os dois se efetivaram lá, o meu esposo e a irmã. Os dois foram lecionar lá. Lá que eu falei que era casa de chão, de barro. Lá a gente comia só banana e ovo frito, porque não tinha outra coisa. Lá não existia verdura, não tinha nada, nada. Pra você comprar um quilo de carne você tinha que ir de ônibus, que passava só uma vez por semana, não era nem todo dia que passava.

 

P/1 – Como foi criar os filhos assim, nessa época?

 

R – Foi duro, lá foi duro. Não tinha farmácia, não tinha nada. Olha, tinha um homem que tinha um livro de receita médica, ele era dentista e tinha o livro de receitas. Então quando uma criança tinha febre ele procurava naquele livro qual medicamento que ele ia dar. Uma vez, esse meu filho que tá aqui, teve aquelas bolinhas que dá no corpo, sabe, varíola. Deu uma febre no meu filho a noite, quase 40 graus. Eu comecei a chorar, não sabia o que fazia, não tinha transporte, não tinha nada. Cheguei na janela da casa dele, bati na janela, de madrugada, nem me lembro mais o nome dele, aí eu pedi pra ele que olhasse no livro porque meu filho tava com muita febre, não tinha nem termômetro, a gente não tinha essas coisas. Ele olhou e falou pra mim assim: “Olha, você procura lá no seu quintal que deve ter pé de sabugueiro, você faz um chá de sabugueiro que vai arrebentar todas as bolinhas do corpo dele”. Aí era fogão de lenha, acendemos o fogão de lenha à noite, um pouco de água quente na panelinha, fiz o chazinho, demos pra ele, quando foi no dia seguinte ele tava com o corpinho todo empipocado de bolinha no corpo, não sei se era sarampo, catapora, mas saía tanta, até na boca, nos lábios, no olhinho, nossa senhora, ele ficou todo marcado, mas graças a Deus superamos tudo isso.

 

P/1 – E por que vocês saíram de lá, quanto tempo vocês ficaram lá?

 

R – Nós não ficamos muito tempo não. Um ano só. Ficamos um ano e de lá nós viemos pra Pacaembu. Ele veio pra um Grupo de Pacaembu como efetivo já. Ele pediu remoção, ele veio pra um Grupo de Pacaembu. Chamado Grupo Escolar do Córrego Olímpio, lá que ele foi ser diretor, lá tinha, acho que, umas 12 classes mais ou menos, lá era uma colônia japonesa. Noventa por cento de japoneses, 90% dos alunos eram todos japoneses, lá eu lecionei muito também como eventual, lecionei muito.

 

P/1 – E os filhos da senhora, eles estudavam na mesma escola também? Como era isso?

 

R – O Luis Antonio? O Luis Antônio não, o Luis Antônio estudava em Lucélia; não, quando nós estávamos no Pacaembu, eles estudavam em Pacaembu, no estadual, ele sempre estudou no estadual. Os dois filhos. Nunca tiveram escola particular, sempre estadual.

 

P/1 – E como foi essa experiência lá na outra cidade, de novo, mudar de casa?

 

R – Ah, todo aquele transtorno. Sai de lá, volta lá pro Córrego Olimpio onde tinha a nossa casa. Eu lembro da casa. Era uma casa muito pequenininha, tinha uma paineira, uma vez caiu um raio, partiu a paineira na metade, caiu metade da paineira em cima da nossa casa, e eu tava dentro da casa, eu e meus filhos. Foi muito duro, nossa senhora, é bom nem lembrar (risos).

 

P/1 – E como o Seu Manoel Cação gostava tanto de trabalhar com escola?


R – Ele sempre gostou, sempre, o Manoel gostava.

 

P/1 – E a senhora sabe como ele decidiu seguir essa carreira, por quê?

 

R – Então, ele era professor efetivo, e começou a estudar pra ser diretor. Ele queria ser diretor de escola. Todos os colegas dele tinham condições financeiras e compravam as apostilas pra estudar, e o meu marido não tinha condições de comprar apostila. Porque, como eu falei pra você, a gente ganhava pouco, né, o que a gente queria mais eram os pontos pra ele poder subir. E aí ele emprestava, durante o dia o colega dele estudava, e a noite ele pedia emprestado e estudava à noite, até amanhecer o dia. Passava a noite estudando quase até duas, três horas da manhã estudando com a apostila emprestada do colega. Quando foi no dia da prova, que foi aqui em São Paulo, que nós viemos pra ele prestar o concurso, nós viemos, e ele teve muita sorte, foi o primeiro concurso que ele prestou, e ele já passou. E esse rapaz que emprestava a apostila pra ele estudar repetiu. Meu marido que não tinha apostila, não tinha nada, estudou com a apostila emprestada, conseguiu passar na primeira prova que ele fez. Isso foi uma vitória. Porque nossa, me lembro que foi... Aí eu tava em casa, a diretora, dona Francisca, ligou assim: “Oi Anita...”, eu não tinha telefone, eu corri, atravessei a rua, fui na telefônica, onde tinha o orelhão. Ela falou assim: “Ai, eu vou dar uma notícia pra você, pode pegar uma cadeira e sentar”, eu falei: “Por que dona Francisca?”, “Ah, o seu esposo passou no concurso”, eu falei: Nossa, dona Francisca, eu não acredito, ele passou?”, “Passou”. Eu perguntei: “E o Babão?”, Babão era o colega que emprestava o livro, a apostila, e ela: “Não, ele não passou, ele ficou”. Eu fiquei magoada, né, eu fiquei sentida, claro, serviu um e ficou partido.

 

P/1– E ele passou pra...

 

R – Ele passou pra diretor, diretor de escola.

 

P/1 – Já aqui?

 

R – É, ele passou lá no interior. Como os meus filhos já eram adultos, já estavam os dois bem grandes, crescidos. A gente queria que os meus filhos fizessem faculdade, e lá no interior naquela época não tinha. Não é como hoje. Hoje tem tudo no interior, antigamente não tinha nada, era tudo em São Paulo, cidade grande. Eu incentivei meu esposo a vir morar pra cá, falei: “Manoel, vamos embora daqui porque assim os filhos vão fazer faculdade, a gente vai dar um estudo melhor pra eles”. Foi quando nós viemos pra Santo André. Viemos direto pra Santo André. O Luis Antonio, esse que estava aqui, ele fez o Tiro de Guerra em Santo André, o mais velho, com 18 anos.

 

P/1– E aí, essa mudança?

 

R – Essa mudança foi boa, como eu falei, nós chegamos em 1968, já à noite, bem à noite, de carro. Meu esposo tinha um fusquinha, viemos de carro, de fusquinha, ele não conhecia muito bem São Paulo, mas coitado, sofreu muito pra chegar. Aí chegamos em Santo André, já fomos pra casa. No dia seguinte um colega aqui, Seu Tarcísio, que era um professor muito bom aqui do Sílvia Maria, aqui em cima, do [colégio] Josefina [Escola Estadual Professora Maria Josefina Kuhlmann Flaquer], já foi na minha casa e falou assim pra mim: “Olha Anita, você já vai pegar uma classe, a partir de amanhã você vai pegar uma classe”. Aí eu já fiquei feliz porque eu já cheguei e já fui direto trabalhar aqui em cima no Josefina, e o meu esposo já veio com a direção do Jardim Sonia Maria, onde ele escolheu, já veio com diretor efetivo.

 

P/1 – E como era o Josefina naquela época?

 

R – O Josefina era a coisa mais linda, o prédio. Era muito bonito. Era um prédio modelo, tinha jardim na frente, jardim todo em volta, roseira, aquelas rosas lindas. Era a coisa mais linda o prédio do Josefina, tinha... A minha sala era a número nove. Do número um até o número 11 eram classes só de primeiro ano. Você acredita quantos alunos tinham ali no bairro, tudo primeiro ano. Eu peguei primeiro ano pra alfabetizar, nossa, adorava. Tinha uma professora que se chamava Cassilda, lembro dela também. Ela trabalhava na classe do lado, né, aí o Seu Tarcísio, que era diretor. Falava assim: “Anita, na hora do recreio vai ajudar um pouquinho a Cacilda, que ela não tá se saindo bem com os alunos” (risos). Eu saía da minha sala e ia lá fazer o risco da lousa com a régua. Mandar ela fazer a letra bem pedagógica, porque se não ela começava a escrever lá em cima e quando ela ia ver ela tava lá embaixo. As crianças não iam entender. Coitada. Ela chamava Cacilda. Eu lembro disso até hoje (risos). Tudo o que é bom a gente lembra, né.

 

P/1 – E como era o colégio Jardim Sônia Maria?

 

R – O Jardim Sônia Maria, aqui? É como o meu filho falou, a classe era de madeira, poucas salas. Não era aquele grupo bonito com é hoje. Hoje tá bem montado, tem muitas salas. Tem um pátio bom, antigamente era tudo pequenininho, né, era bem... Aquelas casinhas... Do lado de fora você enxergava do lado de dentro, a madeira toda separada uma da outra. Não era bonito não.

 

P/1 – E no que era mais difícil de ser diretor, para ele?

 

R – Ele adorava, ele gostava, ele gostava dos alunos. Na hora do recreio ele só ficava no pátio. Ele adorava ficar no pátio, e passando a mão no cabelo das meninas. As meninas brincavam muito com ele, nossa, adoravam, todas as alunas adoravam ele e ele também gostava de todos os alunos, ele se dedicava muito à profissão dele. Tanto que no dia que ele faleceu, eu me lembro como se fosse hoje, uma aluna que se chama Rosa, hoje ela é enfermeira, a Rosa, quando foi se despedir dele no caixão, porque ele foi velado na minha casa, né, naquele tempo a gente não levava pro necrotério do Sônia, velava a na sala mesmo, foi velado na minha casa, a Rosa não aguentou, coitada, ela desmaiou. Nossa, ela adorava meu marido, a Rosa, gostava muito dele, ele brincava muito com ela. E ela custou pra voltar. Eu me lembro que eu tava lá presente. Tiveram que levar ela lá pra cozinha, abanar, e ela custou muito tempo pra voltar, ela sentiu muito. Depois a Rosa casou-se, a filha dela foi aluna daqui. Ela mora aqui em cima, a filha dela foi professora aqui da pré-escola, de natação, dando natação pras crianças, é tudo uma sequência, né (risos). 

 

P/1 – Dona Anita, eu queria que a senhora contasse pra gente como era o bairro que a senhora chegou, o que já tinha, o que não tinha...

 

R – Ah, o bairro, pelo que eu me lembro, não tinha muita coisa, não tinha quase nada, não tinha luz. Acho que nem luz não tinha, ou tinha poucos postes, não era como hoje. Asfalto, muitas ruas não tinham asfalto. Era tudo terra, né. Não era muito bom não. A igrejinha era uma igreja bem pequena, agora fizeram uma matriz nova. Era uma igreja era bem pequena...

 

P/1 – E como era a casa da senhora? Aonde a senhora veio morar aqui no bairro?

 

R – Eu nunca morei aqui no bairro, eu sempre morei em Santo André. Quando nós chegamos aqui eu fui pra Avenida Dom Pedro Segundo, em Santo André, e morei lá. Nossa, faz cinco anos só que eu saí porque fui assaltada, duas vezes. Eu saí e agora tô morando em um apartamento que é só virar a esquina, já o meu prédio do apartamento. É encostado na Avenida Dom Pedro Segundo. Eu vendi o sobrado e comprei o apartamento. Pra ter mais segurança.

 

P/1 – E eu fiquei curiosa porque a senhora falou que o Seu Manoel era muito... Brincava com as crianças, era muito querido, e como ele fazia pra manter disciplina na aula, como era essa outra parte de trabalhar como diretor?

 

R – Eu lecionei muito tempo à noite, com ele. Eu como professora e ele como diretor. E naquela época os alunos eram mais educados. Não era como hoje, nossa senhora, à noite eu dava aula de quinto até o oitavo ano. Hoje que tem o nono ano, antigamente era só até a oitava. Agora já passou pro nono ano. Os alunos eram muito bons, nossa, não era como hoje, bem diferente, bem diferente. Era uma educação, parece que era uma educação que já vinha de casa, sabe, bem diferente.

 

P/1 – Se a senhora puder contar um pouquinho da trajetória dele como diretor, as conquistas, o que ele foi fazendo na escola, o que foi mudando...

 

R – Ah, ele foi fazendo... Como eu falei pra você, ele foi fazendo através de festas pra lucrar, né, assim, donativos, fazia uma festa da pipoca, uma festa da rainha da primavera. E com esse dinheiro ele sempre procurava melhorar. Tinha essas indústrias aqui perto, todas as indústrias. Ele se comunicava muito com eles, com todas as pessoas. Eles colaboravam muito, sabe. Mandavam, assim, muito material. Mandavam material escolar, e o meu marido era desse, que tinha uma prateleira enorme cheia de cadernos, todos com propaganda das firmas, caixas de lápis, ele não deixava um caderno de um ano pro outro. Ele não era que nem em hoje em dia que deixam o estoque lá até apodrecer, que nem a gente vê sempre (risos). Ele não. Ele distribuía. Chegava o fim do ano, você chegava lá, tava tudo vazio, tudo vazio. Ele distribuía mesmo. Ele falava: “O ano que vem é outro ano”. Não deixava os alunos... Ele ajudava muito, nossa, olha, tinha uma senhora que eu me lembro, uma morena, ela não tinha o braço, era pobre, muito carente, carente mesmo, e ele era tão bom, ele mandava todo dia ela vir fazer um caldeirãozinho pra levar a merenda que sobrava pra casa, não deixava jogar fora, todo dia ela vinha com o caldeirãozinho, toda merenda ela levava pra casa dela, ajudava muito, coração muito bom ele tinha.

 

P/1 – E Dona Anita, essas festas que ele organizava, qual era a festa mais bacana, mais divertida?

 

R – Ah, nas festas da escola dele eram os professores que colaboravam. Tinha professores muito bons também, né, os professores dele... Eu tenho um álbum na minha casa que era o álbum dele, é só dele, lá tem todas as fotos dele, de toda a vida dele. E a gente vê os professores daquela época aqui do Sônia Maria, eram todos professores nota dez. Professores bons mesmo, colaboravam muito com ele. Hoje eu não sei mais se... Porque agora é outro diretor, né, mas o Grupo do Manoel Cação ainda é uma escola muito boa. Ainda é. Os pais elogiam muito, por ser estadual. Porque tem escola estadual que não se preocupa muito...

 

P/1 – Dona Anita, até quando ele ficou, até que ano ele ficou?

 

R – Olha, nós viemos pra cá quando ele ingressou, ele veio pra cá... Em 1968 nós viemos, em 1969 ele já tomou posse, ele faleceu em 1976. Num domingo ele saiu de casa, ele ia resolver um problema, um negócio da mãe dele, né. O meu sogro era engenheiro, e ele comprava os terrenos, lotes grandes, depois ele picava pra vender por pedaço e formar chácaras. Lá em Itapevi, perto de Osasco. E aí o meu marido ficou responsável por tudo que era do pai dele, pra não deixar a mãe tomar conta. Meu esposo ficou responsável por tudo, e num domingo, coitado, ele levantou cedo e foi pra... Aí lá no escritório onde ele tinha os compradores, dos terrenos lá, que compravam os lotes. Ele saiu de casa sete horas da manhã, eu me lembro, ele pegou a jaqueta, eu dei umas balinhas pra ele e ainda falei: “Leva umas balinhas pra você chupar no caminho”. Ele foi embora, deu ré, saiu de carro, um carro novo que nós tínhamos comprado, era um Chevette, eu me lembro como se fosse hoje, não tava nem no seguro, a gente nem tinha colocado, naquele tempo não tinha muito roubo de carro como tem hoje. Aí ele foi. Ele chegou lá no escritório, atendeu todos os compradores, fez tudo que tinha que fazer. Quando ele vinha voltando, dez horas, dez e meia, nesse horário, um cruzamento livre de trem, passagem de trem. Um trem encolheu o carro. Ele teve morte fatal, na hora. Ele morreu na hora. Mas eu só fui ficar sabendo à noite porque os que ficaram sabendo, ninguém queria me contar. Quando foi oito horas da noite eu fiquei sabendo. Foi muito duro pra mim. Nossa, não é fácil não, né...

 

P/1 – E como os alunos reagiram?

 

R – Ah, foi muito duro. Nossa, foi muito triste pra todos os alunos. Foi como o meu filho falou, no velório dele encheram chega não sei quantos ônibus. A escola ficou fechada por uns dias. O velório foi na minha casa. O velório saiu da minha casa. Eu fui até muito forte, eu tive muita fé, sabe, eu fui muito forte. Eu ajudei até a levar o caixão dele, eu e meus dois filhos. Nós que levamos, carregamos o caixão lá no cemitério até chegar no jazigo onde foi sepultado. Lembro tudo como se fosse hoje. Foi muito duro. Mas Deus dá força pra gente. A gente tem que confiar muito Nele.

 

P/1 – E aí como veio a homenagem de dar o nome dele à escola?


R – Então, aí depois que ele faleceu, dali uma semana mais ou menos, o delegado de ensino foi na minha casa. Fazer uma visita. Aí ele chegou e conversou comigo. Falou que o Grupo do Manoel Cação tinha o nome de Grupo Escolar do Jardim Sonia Maria, Mauá. E o que eu achava de colocar o nome do meu esposo na escola, se eu consentia. Se eu ficaria feliz, eu falei: “Ah, eu fico feliz, é uma homenagem muito...”, né, “só que é duro”, eu falei “...porque depois que morre que vem as homenagens. As homenagens tem que ser feitas enquanto a pessoa tá viva”. Mas em todo caso, não tem problema. Eles pediram pra mim autorizar, eu fiz toda a documentação direitinho. Dentro de uma semana já foi publicado no Diário Oficial que a escola passaria a ter o nome de Professor Manoel Cação, como ficou até hoje. Eterno. Não é fácil não.

 

P/1 – Dona Anita, depois de passar por tudo isso, como foi pra senhora, então, encarar agora sozinha...

 

R – Aí eu fiquei sozinha, viúva, era nova. Tinha, acho que, 40 anos, por aí, ai eu falei: “Gente, vou jogar com a sorte, o que eu faço, né?”. Eu abri a escola em 1972, em 1976 ele faleceu. Depois de quatro anos que eu tava com a pré-escola, ai eu falei: “Ai, Jesus, o que eu faço, vou jogar com a sorte”, vou continuar dando continuidade porque aqui no Sônia Maria só tem a minha escola. Eu pus uma faixa de pano lá em cima, na sede: “Matrículas abertas”, tal, tudo, e fui dando continuidade na escola. Comecei a todo ano ter bastante alunos. Aqui dentro tinham umas 12 professoras. Só que o prédio era uma residência pequena, era uma casa. Depois eu mandei demolir e construí o prédio. Fui tocando. Aqui não tinham escolinhas. Eram poucas escolas que tinham. A minha foi a primeira, ai abria uma, fechava, abria outra lá, fechava. Abriu a da Josefina aqui, a mulher do farmacêutico, fechou. Eu falei: “Poxa vida, todo mundo fecha, eu não vou fechar. Vou tocar. Tô indo bem, pra que eu vou...”. Aí sempre tinha... Chegava uma: “Dona Anita, vamos fazer uma parceria? Eu vou abrir uma escola. Não quero prejudicar a senhora, gostaria de nós trabalharmos juntas”. Eu falava: “Junto? Será que vai dar certo? Falei: “Olha, Josefina, vamos fazer uma coisa, você trabalha com a sua escola, eu fico feliz por você porque Deus fez o sol pra todos, num bairro tem muitas escolas, muitas farmácias, muitas padarias, não tem problema de ter duas, três escolas, eu não fico triste, eu fico contente, você pode continuar com a sua escola e eu continuo com a minha. Como eu tô sozinha mesmo, deixa eu ir tocando”. Aí ela, dois anos, um ano e meio já fechava escola, punha os alunos, dali uma semana os alunos já saíam de lá e vinham pra baixo, aqui, pra escola aqui, se sentia, acho que... Não sei, eu tive muita sorte aqui no Sônia Maria, viu. Eu tive. Graças a Deus. Eu acho que eu nunca vou esquecer do Sônia Maria (risos). Porque eu tive muita sorte, e depois que eu tava com muitos alunos os pais começaram a pedir pra eu abrir ensino fundamental. Eu: “Meu Deus do céu, como eu faço?”, sozinha, pra tocar tudo... Aquele tempo era só máquina de escrever, não tinha celular, não tinha aparelho pra nada, máquina de xerox. Hoje tem tudo, gente, hoje, digitou, tá tudo na hora. Antigamente era tudo na caneta, tudo na esferográfica aqui, né. Aí eu resolvi abrir a escola, o ensino fundamental. Abri com 16 alunos, primeiro ano. Mas como eu tinha muitos alunos no pré, o que eu ganhava no pré eu cobria a despesa do ensino fundamental. Eu contratei uma pedagoga, deixei do lado de lá, que é uma moça de Mauá, tinha as professoras. O primeiro ano já foi pro segundo, já foi entrando mais criança, e assim fui tocando. Tá aí até hoje. Agora hoje tem ensino médio. Vai até o nono ano, tem o Retec [Rede Ensino Médio Técnico], informática, esse curso que o governo paga. O governo paga para a escola e os alunos estudam de graça. Dentro de Mauá três escolas foram sorteadas pra esse curso, uma foi a Renil, a outra foi a nossa, Colégio ABC, e teve mais uma que eu não me recordo. Só três sorteadas, e nós tivemos sorte porque a gente tá tendo bastante alunos do Retec. Tem aluno de manhã, à tarde e à noite, classes formadas. Eu deixei meus dois filhos pra tomar conta, né, que assim eu vou descansando um pouco, logo, logo eu me aposento...

 

P/1 – Dona Anita, eu queria saber agora, como foi lá atrás, em 1972, quando a senhora abriu a escola, como era o espaço?

 

R – Quando eu abri a escola, em 1972, primeiro eu abri na rua aqui de baixo, onde era a igreja, tinha uma igrejinha, era do lado na residência, eu tava com as fotos aqui até ontem. Abri a escolinha lá e comecei a ter bastante alunos. Depois o dono da casa precisou da casa, como ele precisou da casa, aqui tinha uma residência. Era uma residência, uma casa. E o dono daqui morava em Borda da Bata. Eu e o meu filho fomos lá na Borda da Bata pra ver se ele alugava a casa pra nós. Ele falou: “Ai, Anita, alugo sim, se é pra você abrir uma escolinha eu vou alugar pra você”, aí nós alugamos na casa aqui. Eu fiquei muitos anos. Nossa, porque essa daqui, esse prédio aqui faz só cinco anos que nós fizemos, era a escolinha velha, e daquela casinha pequena que eu tinha que eu fui enchendo de aluno. Tinha mãe que vinha fazer matrícula, eu falava: ‘Não tem vaga”, ela falava: “Dona Anita, por favor, eu trago uma cadeirinha, põe meu filho sentado num cantinho aí”. É. Tinha muitos alunos. De manhã tinha o pré e a tarde tinha o pré, tinha nada, nada 60 alunos só da pré-escola, porque vinha aluno do Ana Maria pra cá. Do Ana Maria, vinha de perua. Hoje não, hoje já tem muitas escolas, do Parque São Rafael, nossa. Lá em cima só tinha a Santa Izildinha, não tinha essas escolas, a Pôr do Sol, Paulista, não tinha nenhuma delas, não tinha.

 

P/1– E qual era o nome da escola, o primeiro nome?

 

R – Aqui sempre foi Recanto Infantil Branca de Neve. Foi o nome que o meu esposo pediu. Ele que me pediu pra colocar esse nome. Aí do lado de lá nós colocamos Ensino Fundamental da Branca de Neve, e quando passou para o quinto ano, antes disso, nós achamos que Branca de Neve, do lado de lá não ia pegar bem: “Ensino...”. Por causa dos maiores, né. Aí fizemos uma votação e começamos a estudar que nome a gente ia colocar. Escolhemos Colégio ABC Mauá, só que ABC vem do meu nome, você tá vendo, porque eu me chamo Anita Batista Cação, ABC, mas ninguém sabe, eu não comento isso com ninguém (risos). Só quem é muito inteligente fala: “Nossa, o colégio aqui tem o nome da Dona Anita”, né, as três primeiras letras. Mas no dia que escolheram, a Ana, que é uma professora, a Ana, que hoje ela tá até aí, ela falou assim: “Gente, vamos pôr ABC, que é um nome tão pequenininho, tão bonitinho, Colégio ABC Mauá”. Todo mundo aprovou, foi votação, e eu fiquei bem quietinha (risos), só que dentro de mim eu pensei: “Puxa vida, o meu nome elas estão escolhendo: ABC”.

 

P/1 – Dona Anita, a senhora lembra do seu primeiro aluno matriculado?

 

R – Eu lembro, lembro.

 

P/1 – Conta um pouquinho.

 

R – O primeiro aluno que eu matriculei, em 1972, a mãe dava aula de balé. Era uma professora de balé, como ele chamava? Espera um pouquinho, deixa eu lembrar o nome dele, era Julia... Maurício. Era Maurício. Foi a primeira matrícula que eu fiz. Ele tinha três anos de idade. Três aninhos. Depois dele foi um que o pai tinha uma casa aqui subindo nessa rua, ele foi o segundo aluno que eu matriculei. Hoje já são casados, os filhos deles já vieram aqui pro colégio, já estudaram no colégio, nossa, quantos anos, né, meu bem.

 

P/1 – E a senhora lembra a primeira salinha que a senhora conseguiu montar?

 

R – Eu lembro. A gente desenhava tudo a mão. Naquele tempo não tirava xerox, a gente comprava os desenhos, colava na cartolina pra fazer aqueles cartazes pra deixar a sala bem decorada. Ficava bonito. A gente sempre deixava a sala bem enfeitada, fazia flores, varalzinho com flores, tudo de acordo com a idade da criança. De acordo com a idade.

 

P/1 – Qual foi a conquista mais marcante da escola?

 

R – Acho que tem tantas. Nossa senhora. São muitas, várias. São várias, a mais mesmo eu nem me recordo, assim, porque todo ano a gente faz aquela festa, formatura, nossa, todo ano eu faço formatura. Os pais mesmo elogiam muito, viu. Chegam e falam pra mim: “Dona Anita, não parece formatura de pré-escola, parece formatura de alunos de ginásio”. Mas é que a gente gosta.

 

P/1 – E eu queria que a senhora também contasse um pouquinho, porque conforme a escola foi crescendo, o bairro também foi crescendo, então conta isso.

 

R – Então, como a escola foi crescendo o bairro também foi crescendo, né. Muitos açougues já têm aqui, escolinha particular tem a Tigrinho, lá embaixo, tem a Pôr do Sol, tem a Gasparzinho aqui da rua de trás, que é da prefeitura. Que eu saiba tem três. E eu estava com a unidade I aqui. Uma professora fechou uma escolinha que ela tinha lá em cima, se chamava Lua Azul. Ela chegou e falou assim: “Ai, Anita, vamos fazer um acordo, você não quer trabalhar comigo? A minha escola não vai pra frente, ela falou, eu perguntei: “Quantos alunos você tem?”, ela falou: “Seis alunos”, eu falei: “Seis alunos não dá pra tocar uma escola, né, mas eu não quero sociedade, eu sempre trabalhei sozinha...”, e a dona da casa falou: “Ai, Dona Anita, eu queria que a senhora ficasse  com a casa, deixa a casa aberta e a senhora toca a escolinha. Fica com a escolinha”. Eu não quis fechar. Eu toquei a escola por três anos. Deixei essa moça que trabalha aqui comigo na secretaria, a Angélica, que é pedagoga, também, ela cuidou muito bem lá em cima. Aqui ficou unidade I e lá em cima ficou unidade II, tava indo muito bem. Só que agora eu acho que a situação financeira tá muito difícil, então a gente tá tendo poucos alunos lá em cima, muito pouco, então o que a gente tem não dá pra cobrir pra pagar todas as despesas. Professores, aluguel, encargos. Talvez eu vá fechar lá em cima, fico só com essa. Vai ser melhor pra mim, trago os professores de lá pra cá, que a gente tá precisando aqui e fecha lá.

 

P/1 – Eu vi que a senhora tem essa linha do Piaget, e eu queria saber como a senhora fez essa escolha, nessa escolha de linha educacional.

 

R – Essa escolha foi o seguinte, nós trabalhávamos Lápis na Mão, que era um livro integrado muito bom também. E o outro era... Nós trabalhamos mais com esses livros integrados, todas as matérias num livro só. Tivemos uma reunião com essa moça do Piaget, ela fez uma entrevista, veio aqui, expôs tudo, como era o trabalho. Eu vi as apostilas, muito boas, todas decoradas, tamanho grande, pras crianças. Eu achei ótimo porque tendo as apostilas você não precisa se preocupar tanto com “xerocar” folha, a gente tava “xerocando” demais, demais, era muita folha “xerocada”, aí a gente falou: “Vamos entrar na apostila Piaget”, porque a criança com até três anos de idade já vai trabalhar com a folhinha, né, já vai ver o que ela vai fazer na folhinha da apostila. E nós gostamos muito porque acompanha o CD [Compact Disc]. O CD vai pra casa, os pais podem assistir, e se deu bem com essa apostila, e o colégio também acabou gostando, então o primeiro ano, segundo, terceiro e o quarto já estão com a apostila Piaget também. Os demais trabalham com a apostila Sigma. Eu gosto dessa apostila.

 

P/1 – E no começo era só a senhora que dava aula? Quem foram os outros professores?

 

R – Não, eu dei desde que eu tive a pré-escola eu sempre tive professora, eu sempre só dirigia, orientando tudo, tudo passando pelas minhas mãos. Tudo. Mas pegar uma classe, assim, e dar aula eu nunca dei. Nunca. Eu vou de porta em porta, vejo como tá, como não tá, vou acompanhando, vejo o que tá certo, o que tá errado (risos)...

 

P/1 – E o que é mais difícil em dirigir uma escola?


R – Ah, eu acho que é mais difícil trabalhar com os professores, viu, eu acho que os professores hoje em dia, de modo geral, eles visam muito o salário, eles querem saber do salário, mas se não você ficar coordenando totalmente, olha, vou te falar, vai à fundo, viu, você tem que estar sempre alerta, sempre em cima. Precisa anotar tudo que você vai vendo pra estar sempre chamando, conversando, tal.

 

P/1 – E os pais dos alunos, teve alguma história marcante?

 

R – Não, os pais até que são bons, são muito bons, qualquer coisinha eles vem, falam. Eu até agradeço quando eles vêm contar algo que acontece porque a gente já fica a par, pra poder conversar. Saber o que tá acontecendo. Eu não acho ruim não, acho que os pais devem... Se a criança chegou em casa e contou algo, eu gosto que os pais vem aqui expor o que aconteceu pra gente ficar sabendo e corrigir a falha pra que não aconteça mais (risos).

 

P/1 – E acontece de algum pequenininho fazer alguma molecagem e vir parar na diretoria?

 

R – Você sabe que é difícil vir pra diretoria. Eu tive um aqui no ano passado, agora, esse ano, ele tá no colégio, se chama Felipe, e ele foi mandado embora de outra escola, uma escola aqui do Parque São Rafael, Escola da Tia Daiane. E a Daiane, foi minha aluna, você acredita? A Daiane foi minha aluna do pré, ela se formou, fez magistério e montou uma escola no Parque São Rafael. Pra você ver como eu sou velha aqui. E aí o que aconteceu? Ela tinha esse aluno chamado Felipe, e ela não quis mais o menino, expulsou o menino, disse que não queria mais, que o menino mordia todo mundo. Aí o menino veio, o pai veio, conversou comigo, tal, a mãe, choraram, sentaram, aquela coisa, e eu falei: “Gente do céu, o que eu vou fazer pra ele não morder?”. Eu expliquei pro pai, falei: “Olha...”, eu tô acostumada, já tenho muitos anos de magistério, lido com muita criança, e eu sei que criança tem o hábito de morder, mas quando a criança vem pra morder a gente não pode deixar uma criança morder outra, porque pode causar um problema gravíssimo. Porque o pai do filho que recebe a mordida não vai gostar. Eu falei: “Olha, eu tenho um costume muito bom. É um costume meu, é uma coisa que eu não vou passar na boca do seu filho, mas eu vou assustar o seu filho pondo pimenta na língua. Eu vou comprar um vidro de pimenta, essa bem ardida e vou trazer o vidro e vou mostrar pra ele, e vou deixar aqui: ‘Ó, o vidrinho de pimenta tá aqui, o dia que você morder uma criança eu ponho pimenta na sua língua’”, aí chamei o menino, na frente do pai, falei: Jamais eu vou fazer uma coisa dessas, o senhor pode ficar ciente que o vidro não tá nem aberto, isso é só pra...”. Aí o Felipe veio, todo gentil: “Felipe, você viu quantos coleguinhas”, bati aquele papo com ele, tal, falei que papai do céu não gostava, que não podia morder, que é só cachorrinho que morde. Mostrei o vidrinho de pimenta pra ele e falei: “Olha, se você morder um coleguinha a tia Anita passa pimenta na sua língua, você vai morder?”, ele falou: “Não”, “então, você não morde que aí eu vou ficar muito feliz com você”. Ele nunca mordeu uma criança. Nunca mordeu uma criança. Isso foi uma vitória pros pais. Você entende, nossa. Os pais ficaram, assim, elogiando, falaram: “Dona Anita, como que a senhora tirou de uma hora pra outra?”, porque diz que lá precisaram até chamar os dois pais, teve até discussão porque o pai que o filho recebeu a mordida não gostou. É claro, né. E o que deu também é inocente, mas vai fazer o quê? E na minha escola eu nunca tive criança que morde não. Nunca. Quando fala que vai morder, falam: “A tia passa pimenta na língua”. Pronto. Acabou. Só isso. E ele agora foi pro colégio, esse ano foi pro colégio, se perguntar pra ele, ele lembra, ele fala: “Não, tia, tá doida, não vou morder não” (risos). Divertido. A gente se diverte muito com a criança. Você não calcula como é bom, viu, conviver com criança. Você aprende muita coisa, você aprende muita coisa.

 

P/1 – Então, eu queria perguntar pra senhora, Dona Anita, quais foram os maiores aprendizados desse seu tempo trabalhando com educação?

 

R – Como você diz, aprendizado?

 

P/1 – O que a senhora guarda com a senhora, o que marcou mais?

 

R – Ah, eu guardo muita paz, eu me sinto, assim, bem contente, satisfeita com o meu trabalho. Pela idade que eu tenho, fiz 82 anos. E eu tô aqui de manhã até à tarde. Eu vejo que eu nunca tenho nada, não sinto nada, se for cantar eu canto, se tiver que brincar eu brinco com eles. Eu tô participando de tudo, não é... E graças a Deus eu me sinto realizada com eles, com a minha escola. Realizada.

 

P/1 – E por que a escola se chama Branca de Neve?

 

R – Ah, esse nome eu nem sei porquê. Eu acho que por causa da história da Branca de Neve, da historinha dos livros. O meu marido sempre comprava livrinhos de história. Ele falou: “Olha, Anita, Branca de Neve e os sete anões, põe esse nome na escola”, tanto que logo que eu montei a escola, em 1972, uma mãe me trouxe esse quadro de presente, olha lá, tem até o nome, Dunga, todos eles estão aí, Soneca, Atchim. Ela me deu, quando ela me deu tava... Nossa, quantos anos tem? (risos) Bem velho, ela me trouxe de presente, coitada, ela decorou e me trouxe.

 

P/1 – E qual é o público de alunos, assim, eles são mais ou menos da região?

 

R – Eu tenho alunos aqui de toda a redondeza. Tem alunos do Parque Savoy, tem aqui do Jardim Valquíria, Santa Adélia, que é do lado de cá. Agora do Ana Maria eu já não tenho mais. Aqui do Ana Maria, porque tem uma escola infantil bem pertinho do Sesi [Serviço Social da Indústria], então não tá vindo aluno de lá pra cá não. Mas aqui dessa redondeza, do Sônia Maria, Sílvia Maria e Parque São Rafael tem bastante. Eu tenho alunos de Mauá que vêm aqui porque o pai ou a mãe trabalham em firmas aqui perto. Então quando vem pro serviço traz a criança e a tarde quando vai retornar pega a criança e vai embora.

 

P/1 – E, Dona Anita, e você pode contar pra gente um pouquinho quais os trabalhos que eles fazem, assim, na aula, dos pequenininhos.

 

R – Ah, eles de trabalham de acordo com a sua faixa etária. Os pequenininhos tem que dar muita atividade se não eles não param. Você da folhinha, bolinha, chuvinha, apostila, que todo dia tem uma folha da apostila. É pra pintar, pra circular, pra marcar, procurar o macaquinho em cima da árvore, por exemplo. Eles têm que procurar, visual, pra fazer o x onde está o macaquinho. A gente dá muita massinha, muita história, muitos brinquedos, a gente tem muitos joguinhos de montagem. Dá muita montagem pra eles brincarem. Parados você não pode deixar, viu. Quatro horas parado não dá. Tem que dar sempre atividade. Silêncio tendo atividade... Agora a pré-escola, que é aqui, eu trabalho mais com esse método mais antigo, sabe, neoconstrutivismo. Então eu gosto que já desde o início já entra logo na leitura, porque eu acho que a leitura é muito importante pras crianças, as crianças já entram na coordenação motora, depois já entra nas sílabas e das sílabas já vai formando as palavras. Por exemplo, boa, boi, boca, e assim por diante, então eles aprendem a ler num instantinho. Eu gosto que quando chega no final do ano a classe já esteja quase toda alfabetizada. Eu gosto. Toda alfabetizada. Se você dá qualquer coisinha o aluno sabe ler, porque eu falo, os pais pagam, né, fazem sacrifício, e a evolução do tempo hoje é muito ampla, então por que a criança não aprende? Aprende. Eles tem cabeça boa, só não aprende se não der, se deixar só brincando.

 

P/1 – E tem uns que passam o dia inteiro aqui?

 

R – Tem, período integral tem, tem uns 16 mais ou menos.

 

P/1 – Eles almoçam aqui?

 

R – Almoçam, entram às sete da manhã e ficam até às seis da tarde porque as mães trabalham, quando a mãe o pai trabalham aí tem que deixar o dia todo, integral, na escola.

 

P/1 – Dona Anita, agora eu só queria fazer umas perguntinhas, a gente tá quase encerrando, eu queria que a senhora falasse o que esse bairro significa pra senhora, a região...

 

R – O bairro Sônia Maria, é o que eu tô falando, eu adoro aqui. Eu não moro aqui, moro em Santo André, mas a minha vida toda foi aqui, das sete da manhã até a noite. Toda a vida foi aqui, desde que eu vim pra cá, desde 1972. Eu como de marmita até hoje, minha filha. Eu trago marmita de casa (risos). É. Todo dia. Almoço aqui, 40 anos que eu almoço aqui. É tudo aqui.

 

P/1 – E o que a senhora tem de expectativa pro bairro, pra escola?

 

R – Ah, expectativa, como, você diz?

 

P/1– Ah, o que a senhora acha que pode melhorar, ou quais são os próximos passos, o que a escola quer fazer?

 

R – Ah, eu acho que o bairro pode melhorar muito pelo tempo que... A gente, você vê, eu abri a pré-escola, depois a pedido dos pais abri o colégio lá em cima. Só que as autoridades, que eu digo, de Mauá, fazem muito pouco pelo bairro. Muito pouco. Essa rua são duas mãos, duas mãos, já teve uma mãe que foi atropelada. Mãe de aluno do colégio, atropelada por um carro. Nós já fizemos quantos ofícios. Os pais assinaram. Eu fiquei lá na porta pra todos os pais assinarem, já foi entregue lá na prefeitura pra eles tomarem uma providência, eles que tem que ver, mão única, só sobe, pode só subir e não descer, porque quando solta cinco horas, solta aqui e solta lá. Então são muitos pais que vêm buscar os filhos e os pais não se respeitam. Tem pais que respeitam. Mas tem pais que chegam a discutir, um pai com outro. Já teve briga aqui na frente de pais de alunos porque um encosta o carro muito pra lá, o outro não quer estacionar, dá uma buzinadinha, quer que o filho vem correndo e já vai entrando no carro. Eu gostaria que as autoridades... Mas não adianta, isso já foi pedido quantas vezes... Não peço mais, filha. Não adianta. Política entra, prefeito entra, sai, entra outro, sai, e continua a mesma coisa. Mesma coisa. Ônibus, quantos anos eu já pedi um ônibus pra fazer um passeio porque eu acho que a prefeitura pode fornecer um ônibus gratuito, puxa vida, dentro de tantos anos. Um ônibus de graça pra levar esses alunos pra fazer um passeio. Nunca deram, nunca, nunca, nunca. Quando faz qualquer coisa, tudo é pago, tudo os pais que... Os pais falam: “Dona Anita, faz ofício, pede um ônibus”, não adianta. Já to cansada de pedir. Nem em época de política a gente não ganha. Mas eu adoro o Sônia Maria. Gosto muito daqui, gosto mesmo. Eu sou muito conhecida aqui, nossa senhora, igual carne de vaca (risos). Todo mundo... Muito conhecida, também o tempo todo.

 

P/1 – E, Dona Anita, queria saber como foi pra senhora ser mãe, ter dois filhos, criar os dois filhos.

 

R – Pra criar eles foi um pouco difícil porque quando eles eram pequenos. Como eu expliquei pra você, a gente tinha aquela vida meio apertada. Mas como mãe, eu fui uma mãe muito presente. Nossa senhora, sempre colaborei muito com eles em tudo. Horário pra sair à noite, horário pra chegar, a gente marcava e eles cumpriam. Nunca foi de passar daquela hora não. Chegava dez horas eles sempre estavam em casa, não tinha esse negócio de discoteca pra lá, pra cá, não. A gente não deixava, nem eu e nem meu esposo.

 

P/1 – E fala um pouco dos seus filhos pra gente.

 

R – Dos meus filhos... Ah, meus filhos são tudo (risos), são tudo pra mim, nossa senhora, tenho um amor muito grande por eles. São muito bons, todos eles, muito amorosos, tanto um como o outro. Eu queria ter tido uma menina. Quando eu fiquei sozinha, que o meu esposo faleceu, eu fiquei louca de vontade de adotar uma menina, cheguei a pedir pra Mauá me arrumar uma menina. Meus filhos não me deixaram, falaram: “Mamãe, não adianta, a senhora vai arrumar uma menina, nós não demos trabalho pra senhora, talvez a senhora arrume uma menina aí que depois vai causar problemas, a senhora vai...”. E fiquei. Mas eu tinha loucura pra ter adotado uma menina porque não tive filha.

 

P/1 – E a senhora tem netos?

 

R – Tenho. Tenho seis netos, três bisnetos e um tataraneto. Meu tataraneto já tá no primeiro ano. Porque o meu filho casou novo. A filha dele, Andrea, casou nova. A Tatiane, que é a filha da Andrea, casou nova, mora em Natal, Rio Grande do Norte, e ela trouxe um tataraneto pra mim, com 17 anos ela foi mãe lá em Natal. Você já pensou, lá no Norte eles casam cedo, minha filha.

 

P/1 – E a família se reúne?

 

R – Não, eu fui em Natal duas vezes só. Agora já não vou mais. Agora eles que vem pra cá ver a gente, aqui, né. O Luis Antônio foi agora no final do ano. Mas eu não fui não, eu falo pra Andrea, que mora lá a minha neta, a bisneta, eu falo: “Venham vocês aqui, vocês são mais jovens”, “Venham pra cá” (risos).

 

P/1 – E agora, Dona Anita, antes da gente encerrar eu queria perguntar o que acha da gente fazer essa exposição, de gravar essas histórias de vida no bairro?

 

R – Ah, eu acho que isso fica a cargo de vocês, eu acho que não tem problema. Acho não tem...  O que eu to falando são os fatos acontecidos. Não tem nada mais nem menos. É isso mesmo, a vida real.

 

P/1 – Tem mais alguma coisa que a senhora queira dividir com a gente, algum outro fato marcante que tenha acontecido na sua vida?

 

R – Não, o que mais me marcou foi perder o meu esposo muito cedo, que eu fiquei sozinha muito cedo, e as pessoas: “Ah, arruma um companheiro”, eu falei: “Não”, pra quê? É tão bom a gente independente. Eu me apeguei muito às crianças, muito à escola, então a gente se dedicava totalmente a aqui, o tempo da gente não dava pra pensar em nada a mais do que isso, só aqui mesmo, foi muito bom, eu acho.

 

P/1 – Muito obrigada Dona Anita.

 

R – De nada, meu bem, tudo de bom pra você.

 

[Fim da Entrevista]


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