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História de: Otavio Demasi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/08/2005

Sinopse

Otavio cresceu no bairro de Santo Amaro, local onde passou sua infância brincando com carrinho de rolimã, bolinha de gude, e jogando futebol. Sua família sempre gostou de estudar música, cada irmão aprendeu um instrumento diferente, no seu caso foi o violino. Otavio relembra das escolas que frequentou e sobre sua dificuldade nos estudos. Com treze anos já começou a escrever no jornal A Gazeta de Santo Amaro. Após voltar do exército entrou no jornal cedo, e também muito cedo foi pra Rádio Santo Amaro. Conta que sua veia jornalística influenciou para que entrasse na área de turismo, e desenvolvesse um curso de turismo no Senac. Relembra também como pensaram para montar o curso e as dificuldades que tiveram para desenvolver o curso.

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História completa

P/1 - Senhor Demasi, o senhor pode nos dizer o seu nome completo, onde o senhor nasceu e quando?

 

R - Meu nome é Otavio Demasi, eu nasci na cidade de São Paulo, no bairro do Brás, na Rua Maria Joaquina 54/56, o casarão ainda está lá até hoje, deve ter uns cem anos e sou de vinte de novembro de 1947.

 

P/1 - E o nome dos seus pais?

 

R - O meu pai chama-se Rocco Demasi, de origem italiana, veio no começo do século com uns doze anos. Tem até uma passagem interessante que passaram pela África, ele nunca tinha visto um moleque preto, ele perguntou a mãe do convés do navio, o que era aquilo ali, a mãe falou: "São crianças pretas." Minha avó já tinha estado no Brasil, casou na Itália e voltou porque gostou muito do Brasil. Papai é da Itália, de Potenza, uma cidade Montemuro, mamãe chama-se Darcy Ferlini Demasi, prendas domésticas, sempre teve muita queda pra comércio e nasceu aqui no Interior de São Paulo, em Ribeirão Bonito, perto de Escalvado.

 

P/1 - E o que o senhor lembra da sua infância no Brás, o que mais o senhor lembra da casa de seus pais?

 

R - Olha, no Brás, é um negócio, até um contra senso. Eu logo cedo estava na escola, embora sempre tive problema como estudante, mas no Brás nós estudamos na Escola Rainha Margarida, perto do Gasômetro, já com dois anos, dois anos e pouco, nós éramos, somos muito filho um atrás do outro, quatro. Então era muita dificuldade mamãe criar sem empregada essas coisas todas. Nós fomos estudar no Rainha Margarida, depois no Externato São José. Eu me recordo do Brás, antes de sair da escola tomava seu leite de cabra, passava na porta, algumas inundações ali que tinha no Brás e você podia sair correndo. Aí o Brás evidentemente era um local que não era muito urbanizado na época, sou de 47, você não tinha áreas verdes, você brincava na rua, não tinha certas diversões que as crianças mais da área rural ou de locais menos urbanizados de São Paulo possuíam. Depois, devido a um problema de papai, tinha um problema... Como chama? Falta de ar, bronquite asmática, esta coisa toda, e o médico, doutor Batistela é até interessante. Uma das filhas dele, depois vamos falar mais pra frente, fez até o curso Técnico de Turismo do Senai conosco, em 69. O doutor Batistela falou: "Olha, o senhor vai para Santo Amaro, porque é um local bom, tem muito verde, tem muita área, não tem tantas indústrias e lá o senhor pode estar melhor." E realmente fomos, em 52, pra Santo Amaro, papai melhorou bastante e ali a gente já brincava com pipa, papagaio, carrinho de rolimã, jogava bolinha de gude na rua, já tinha campos de futebol, ali já dá pra você fazer, ser mais moleque. Então fomos pra Santo Amaro com cinco anos, meu irmão mais velho já tinha um pouquinho mais de idade. Mas o Brás tinha muita coisa, carnaval que a gente fazia lá, o Cine Oberdan, tinha lá o Colombo, coisas que lamentavelmente o nosso progresso destruiu e o Brás hoje já não é mais o que era. O Brás tem uma arquitetura que poderia ser reaproveitada como centros culturais, centros históricos alguma coisa assim. Me recordo bastante, a gente tinha carro, papai tinha telefone e eram coisas já de primeiro mundo, vamos assim dizer, e tínhamos uma chácara no Edu Chaves. É que hoje você falar em chácara na área urbana, não sei se na época era rural ou urbana. Isso foi... Vovô se escondeu em 24 devido a guerra lá em Edu Chaves e até morreu um tio meu, deu um tiro na rua, vovô teve sete ou oito filhos, uma coisa assim, e eles foram pro Edu Chaves. Me recordo que a gente caçava passarinho. Quando aquilo lá atolava, toda a junta de boi vinha lá, dois ou quatro bois tirar o carro, o caminhão, o velho tinha uma simca francesa de cinco marchas, e se você dava um soco na lataria você quebrava os dedos, não é o aço que nós temos hoje em dia. Mas foi bem curtida mesmo. Mesmo em Santo Amaro a gente depois fez uma associação paulista, perdão, Associação Santo-amarense de Aeromodelismo, não chegamos até a nos filiar na União Paulista de Aeromodelismo. Fizemos, eu me recordo, um campeonato no Clube Atlético Indiano e vieram os fiscais lá da UPA e cortaram tudo, não podia fazer nada porque não era oficializado, a gente se divertiu bastante. Depois, naquela época começou já a vida estudantil em Santo Amaro, lá no Paulo Eiró, no Grupo Escolar Paulo Eiró, eu fiz até o quarto ano, depois tomei pau na admissão, depois não entrei no Alberto Conde, fui estudar no Costa Manso no Itaim, estudei no Doze de Outubro por um tempo, na Nossa Escolinha que era aquele método da escola americana do Mackenzie, já bem avantajado pra época. E ali naquela época começou já... Mamãe achava que nós tínhamos que estudar alguma coisa na área de musical, porque era bonito, era diferente, as melhores famílias tinham os filhos estudando música. Então o mais velho, o Vicente, foi estudar piano, o segundo, o Márcio, foi estudar acordeon, eu fui estudar violino e a irmã mais velha piano. Os três, o Márcio só ficou no conservatório em Santo Amaro e nós três no Conservatório Dramático Musical de São Paulo, é na São João, até hoje não passou por uma reforma, prédio muito bonito, muito interessante. E daí surgiu toda essa vivência musical, surgiu muita coisa nessa parte de gostar muito de ler. Em Santo Amaro nós tínhamos lá o Teatro Paulo Eiró, nós tínhamos a biblioteca, fizemos um trabalho grande para instalação de uma biblioteca em Santo Amaro com o jornal lá A Gazeta de Santo Amaro. Eu já nessa época com uns treze para quatorze anos comecei a escrever em jornal. A primeira matéria que eu me recordo era: "O mundo precisa ser reformado", já era anarquista desde aquela época (risos).

 

P/1 - Em que jornal que foi?

 

R - Era A Gazeta de Santo Amaro, jornais de bairro, era um negócio meio assim, não é visto como... Mais do que... Não eram nem alternativos, eram panfletários, eram talvez nem considerados, vamos dizer, marginais realmente por assim dizer e você tinha o Shopping News. Depois eu fui trabalhar no Shopping News, fiz algumas matérias, trabalhar não, fiz algumas matérias no Shopping News, nós tínhamos o grande Dante Constantino, o Sacchetta e fiz matérias também sobre a mulher na arte, por exemplo, a mulher na cidade de São Paulo dentro da arte, isso sempre me levou muito para esta parte artística, cultural. Eu lamentavelmente tive uma defasagem muito grande na área de esporte. Embora papai fosse sócio da Sociedade Esportiva Palmeiras, no Palestra, como todo bom italiano, nunca foi, nunca foi ao Palestra, mamãe é que levava a gente nos bailes lá, nas festas de carnaval e eu também nunca fui assistir um jogo de futebol. Meu irmão mais velho não, ele chegava lá, começava às três horas da tarde, meio-dia estava sentado lá. Eu gostava, às vezes, de nadar um pouco, jogar um pouco de basquete, mas o esporte não era muito o meu forte.

 

P/1 - Senhor Demasi, o que é que o senhor dizia nesse artigo, esse primeiro artigo "O mundo precisa ser reformado"?

 

R - Olha, eu não sei, mas dizia que tinha que ser reformado muita coisa, talvez aquela revolução da juventude já na década de sessenta com todos os movimentos que nós tivemos no mundo todo, a própria participação política do estudante. Eu fui presidente numa época difícil de, 66 a 68, logo no começo da década de sessenta nós fazíamos, inclusive, não só em Santo Amaro como fiz no Interior, palestras sobre fundação de grêmios estudantis, fiz inclusive jornais da escola, uma escola particular, Costa Braga, fiz um com o Cyrela, o Carlos Alberto Cyrela. Estudava na escola, então eu falei para ele: "Vamos fazer um jornal na sua escola, eu consigo essa parte de publicidade." Essa parte de publicidade é interessante, eu aos oito anos, a senhora minha mãe, embora papai hoje em 95 tenha 84 anos e mamãe 73, vai fazer, ela ainda tem muito ciúmes, então papai tinha a Agência Eureka de Publicidade, com o meu primo, o Enzo, que já faleceu, era químico e morreu por causa de um problema de tintas essas coisas todas, e mamãe tinha muito ciúmes e o velho... Não sei, eu nunca vi nada do velho, mas ela achava que eu tinha que ir junto com ele. Saía da escola e ia à tarde para a Rua Barão de Itapetininga, onde ficava, no 140 - 11º andar, coisa assim, e lá muito cedo com oito pra nove anos, tomei contato com jornais do Brasil todo, com revistas de muitas partes do mundo com a publicidade, via o pessoal fazer, trazer provas de fotografia, fazer texto. Isso me ajudou muito em termos de redação, embora eu sempre fui reprovado, eu fiz, por exemplo, no Costa Manso, eu fiz duas vezes a primeira série, três vezes a segunda série e uma vez a terceira série, duas vezes a quarta série e ainda saí. Quando eu fiz a quarta série eu estava com dezoito anos, fui para o Exército, fiz dez meses e dois dias na quarta CSM, ali na São Joaquim, num prédio tomado na Segunda Guerra pelo governo brasileiro, que era Teatro Alemão, hoje é do lado ali de onde tem o Instituto Cultural Brasil-Japão, lá embaixo no bairro da Liberdade. Essa vivência me possibilitou que eu pudesse fazer o jornal cedo, também muito cedo eu fui pra Rádio Santo Amaro, que era... A Rádio Santo Amaro era no largo também, na Liberdade. A gente fazia alguns programas. Essa veia jornalística me fazia, me fez, inclusive depois na área de turismo, me ajudou bastante porque eu fazia muita pesquisa, eu gostava muito de pesquisa. Eu, na escola, era reprovado em quase tudo, mas eu achava que história tinha que ser feita na rua, estudada na rua, no Museu do Ipiranga, por exemplo, ou num Gasômetro ou coisa assim parecida, e geografia você tinha que ir ver lá o Rio Tamanduateí, o Tietê, tinha que ver o Pinheiros, tinha que ver o Pico do Jaraguá, o que é um pico, o que é uma serra, são coisas desse porte assim. Quer dizer, já era um negócio meio difícil, inclusive eu tive uma polêmica séria na época de... Acho que no ginásio. A Folha de S. Paulo, naquela coluna do leitor, eu falei que a nossa história deveria ser reformulada, dizendo até para parâmetros da época, porque Duque de Caxias, por mais que ele tenha sido uma grande pessoa, o nosso patrono do nosso Exército sofreu muito. Os soldos eram difíceis, então dizem isso, dizem aquilo, mas nós então temos que reestudar, nossa história não era essa que é contada, tinha muitos movimentos populares, tinha lido Leôncio Basbaum, História Sincera da República, já mostrava todo um outro processo, já tinha lido muitos, Émile Zola, uma série de outros escritores estrangeiros, Otavio Ianni, o próprio general... Agora eu me esqueço... O Werneck, inclusive foi também domado aí pela redentora em 64. Então eu tinha uma linha muito, vamos dizer, muito nacionalista, não era xenofobia mas eu achava que nós tínhamos uma necessidade. Inclusive nesta área do jornalismo eu tive muito problema porque normalmente os jornais não deixavam escrever. Do Shopping News eu passei pro City News, foi uma ruptura. Fiz na Gazeta de Pinheiros algumas matérias e daí ia para o Jornal da Tarde, mas o Exército me pegou no dia quinze de janeiro de 66 e só fui liberado em dezessete de novembro, no final do ano. A equipe do Jornal da Tarde já estava montada, aí parei. Aí veio logo em seguida o curso de Técnico de Turismo do SENAC, uma coisa assim que... E a minha idéia, já que eu tinha essa inserção no jornalismo, era entrar no jornalismo turístico realmente. A minha idéia, quando eu vi o anúncio, o SENAC publicou no Estado de S. Paulo, na Folha, o SENAC vai abrir um curso de Técnico em Turismo, duração de um ano, vai ter isso, isso, isso, uma pesquisa turística, história da arte, relações humanas, geografia turística, folclore, artesanato, aí eu me encaixei dentro do programa e me vi. Só que eu tinha muitas dificuldades porque naquela época eu não tinha nem ginásio e diga-se de passagem que eu já tinha montado em Santo Amaro, com apoio até do senhor meu pai, com alguns outros colegas, o Ed Simões, na área de que era professor, um outro colega, o Rui Dememberg, e mais um, o Oswaldo Paulino, nós fizemos o Instituto de Ensino Paulo Eiró. A nossa idéia era fazer uma faculdade em São Paulo, em Santo Amaro, porque não tinha, e para poder tirar o diploma, inclusive, em 69 ou um pouco antes, acho que foi em 69, eu prestei vestibular da USP de Geografia e História, com opção em História, passei, tive vaga em História, mas não tinha condições porque não tinha diploma, não tinha nada, então isso também me afetou bastante. Nessa época fiz muitos cursos, fiz curso de teatro com o Ziembinski, fiz curso de fotografia aqui na Água Branca, fiz escultura industrial com um colega, Eugênio Herlan, já falecido. Lançamos aí inclusive na época do Mug, nós fazíamos os modelos industrias, lançamos todos os produtos do Maurício de Sousa e velas decorativas e aqueles bonecos pra parede, os bonecos em vinil para a Trol, foi algumas passagens, fiz curso de Fotografia no próprio SENAC. Quando abriu lá na Tiradentes, nosso curso de Técnico de Turismo foi na Avenida Tiradentes, 822, no prédio. E tem muita coisa, quer dizer muitos cursos, o violino, vários cursos ligados a área de música, na área de folclore, muita coisa nesse sentido. Mas não fiz a parte pedagógica que deveria ter feito e até hoje não terminei nem conclui faculdade. Aí veio o curso de Turismo, fizemos lá uma centena de cursos que o SENAC mesmo ofereceu, e outras entidades, a Embratur e em geral.

 

P/1 - Senhor Demasi, como que o SENAC era visto na época em que o senhor escolheu fazer o curso de Turismo?

 

R - Olha, perante a minha família, perante o pessoal da casa, o senhor meu pai, a senhora minha mãe, meus irmãos mais velhos era um... O Senac era visto como uma atividade ou cursos que quem ia fazer eram balconistas, era para moças fazer, balconistas, atender uma loja pra fazer lá um empacotamento, fazer um pacote numa loja, quer dizer, era pra pessoa, vamos dizer assim, de baixo nível. Minha família, que ninguém é rico, mas tinha assim uma certa definição econômica, não era nem rico, nem pobre, mas era uma classe média, vamos dizer assim, talvez alta, e não era bem visto alguém como eu, que estudava violino, fazia isso, fazia aquilo e ser estudante do Senac. Foi meio difícil, fiz à revelia porque desde os meus dezoito anos achava que o que papai e mamãe me deixaram de bom era não roubar, não matar, não fazer mal ao próximo, os princípios básicos da vida. Agora, em termos de filosofia de vida era questão minha, filosofia de vida, filosofia política, filosofia econômica em geral. Isso aí era problema meu em geral e tanto é que eu logo cedo, e isso nós não temos hoje, você vê muita molecada aí com uma certa idade que nem pensa em trabalhar ou os pais nem deixam, às vezes, mas na parte da nossa família eu já logo cedo, quatorze anos, sei, estava na rua ganhando o meu.

 

P/1 - E, senhor Demasi, na época existiam outros cursos de turismo em São Paulo?

 

R - Nunca existiu nenhum curso, existia o de guia de turismo, já antigo, inclusive o curso de guia de turismo era já citado no livro feito pelo Professor Luiz Fernando Fuster, lançado na Espanha, pelo Ministério de Informação e Turismo, inclusive no tempo do Franquismo, como uma das entidades de maior ressonância a nível de América do Sul.

 

P/1 - Senhor Demasi, quem é que dava esse curso de guia turístico em São Paulo que já existia?

 

R - Olha, alguns nome eu não sei, era o professor Paulo Ramos Machado, era História da Arte, o José Canizares Filho, eu acho que era Pesquisa de Rua mesmo, e a Professora Laura Della Mônica, era de Folclore. O Senac já dava isso há alguns anos, já mantinha essas partes de cursos na área de Hotelaria, inclusive logo depois até fez um trabalho muito grande em 72, um perfil da hotelaria paulistana, uns trabalhos bonitos. Mas eu não conheço bem essa parte dos guias de turismo. Eu sei que eram cursos de gabarito, bem gabaritados, o empresariado escolhia esses guias, embora não houvesse regulamentação, nada. Mas a regulamentação que tinha era junto ao Ministério do Trabalho, o Ministério do Trabalho tem até hoje. Você forma-se no Senac, você pega a sua Carteira Profissional e leva a uma delegacia regional do trabalho, eles carimbam a profissão, fulano de tal. Foi o que eu fiz como técnico em turismo. Como técnico em turismo nós tivemos, na área de Planejamento Turístico, na área, a matéria, nós tivemos 522 horas de aula, foi o ano todo de 69. Era diariamente de segunda a sexta-feira à noite lá na Tiradentes, no 822. Professor Domingo Hernández Peña, o professor veio da Espanha, não sei se teve algum problema lá com o regime Franquista, e quis vir pro Brasil, contatou com o Senac, alguma coisa assim, não sei; professor Edenir Machado, era o Diretor de Formação Profissional e quem montou esse quadro de professores. Trouxeram também a professora Laura Della Mônica para dar essa parte de Folclore, Artesanato. Em História da Arte continuou com o senhor Paulo Ramos Machado, nós tivemos um professor de relações humanas que era o Paulão, um cara muito bom, ele dizia o seguinte: "Não existe ‘não’, existem alternativas. Você dizer ‘não’ sem fazer, não posso fazer, não dá", ele dizia realmente isso: "Vamos abolir a palavra ‘não’ e vamos colocar alternativas", inclusive interessante. E uma professora de Geografia, o sobrenome dela era Rossi, parece que ela... Uma questão não por nada da família do Cardeal Agnelo Rossi, mas não por uma questão de parentesco que ela entrou lá não, o Senac nesse ponto tinha e tem até hoje muito rigor nesse setor de colocação. E a nossa querida professora Clice Mendes Carneiro, já falecida, jornalista do Estado, uma das precursoras do Jornalismo Turístico, e ela era professora de Pesquisa Turística. Evidente que a professora Clice tinha... Eles trabalhavam um pouquinho antes com CEETE, o Centro Estadual de Excursões de Turismo Estudantil e na época, um pouquinho antes, em 66 me parece, foi o governo do Estado, acho que era a gestão Paulo Egydio Martins ou Abreu Sodré, me parece. Não, Abreu Sodré, perdão, abriu-se então a Secretaria de Esporte, Turismo e Cultura, e o primeiro secretário foi o Orlando Zancaner. O Zancaner deu muito apoio aos nossos cursos através de convênio, e nós fazíamos nossas idas ao interior, estivemos em Piraju, onde fazíamos pesquisa turística, estivemos em Itapetininga, lá comemos um douradão muito bom, tem um outro colega, o Teoguines Dias, brincávamos muito; nós tínhamos o Zé Canizares Filho, que além de ser professor também foi ser aluno de Técnico de Turismo; o Zeca Caparros Garcia, também nosso colega, era espanhol; o José Eduardo Vinícius Carvalho, e tem outros colegas, nós éramos em 25.

 

P/1 - Como foram selecionados os alunos dessa primeira turma, senhor Demasi?

 

R - Bom eu... Foi rigoroso, já falamos do anúncio no Estado, na Folha, e vinha uns pré-requisitos violentos. Você tinha que ser maior, tinha que ser formado ou estar cursando de segundo pra terceiro ano da faculdade, precisava dominar, falar, escrever, ler, essa coisa toda, um a dois idiomas, o inglês ou o francês, precisava ter uma vivência turística, conhecer, relatar algum tipo de viagens feitas e passar por exames lá meio rigorosos mesmos, bem rigoroso mesmo. Tanto é que não tenho números exatos, mas eu sei que, na minha cabeça ficam aí mais ou menos durante a realização dessa prova, eu calculo entre setenta, oitenta e cem pessoas inscritas, me parece. Isso em 69, para uma profissão que, diga-se de passagem, ninguém sabia o que era Técnico de Turismo, o que você vai fazer ou como é isso num país que estava, tinha uma década de doze ou treze anos de industrialização. Nós não falávamos em serviço nesse país, nós falávamos em agricultura e indústria, porque não tinha nem idéia de prestação de serviço. Você não tinha idéia de agroindústria de nada, o serviço era um negócio ainda muito difícil, prestava serviço um médico, isso sim, um advogado, mas não um técnico em turismo. Você tinha ainda os agentes de viagem, ainda empresas pequenas, a maioria dos agentes eram pessoas físicas, já tinha algumas empresas mas não tinham assim... Nós já tínhamos a Embratur também em 66, algumas unidades em geral, o Senac me parece que na época já tinha alguns hotéis-escola, não sei o Grogotó, depois teve lá em Águas de São Pedro, mas eram poucos, eram mais cursos voltados para a parte de cozinha, de restaurantes, esse foi o primeiro. O teste foi rigoroso, teve história, geografia, conhecimentos gerais, idioma, inglês ou francês à escolha do cidadão, e teve ainda uma avaliação com psicólogas. O negócio foi meio bravo, vem duas ou três etapas, redação, e eu na época com a idade que tinha, mal tinha o ginásio, falamos que levamos dez anos para completar o ginásio. Só completei o ginásio por ter conhecido a minha esposa, Clarice, então não tinha, quando estava aborrecido à noite, de ficar um pouco em casa, saía para namorar, mas a exigência dela era que eu terminasse o ginásio e o colégio. E realmente a gente fez isso, até depois eu fiz o primeiro ano de faculdade de administração de empresas. Embora tenha feito vestibular na escola, na Faculdade Renascença que estava, não sei a época agora, foi o primeiro vestibular de hotelaria no país e jornalismo na Cásper Líbero. Então o teste foi rigoroso. O professor Edenir Machado era o responsável, professor Oliver Gomes da Cunha era o encarregado geral, doutor José Papa Júnior era o nosso Diretor do Senac na época, e a Secretaria de Turismo e Fomento que a prefeitura tinha feito me parece que o doutor Amedeo Papa estava lá também prestando serviço. E nós fomos lá fazer, mas fui reprovado redondamente. Talvez tenha ficado lá na terceira, na quarta ou na quinta lista possivelmente. Mas não sei se é por ser escorpião, ou ser chato, ou ser anarquista, ou ser contra tudo, não é, eu fui junto ao professor Edenir Machado e disse: "O senhor me desculpe, mas eu discordo em gênero, número e grau desse tipo de avaliação." E o professor, dentro do seu rigor: "Olha, se o senhor me provar por que o senhor quer participar do curso eu lhe abro uma vaga." Bom, eu lhe falei que vinha há muito tempo no jornalismo e queria ligar o jornalismo turístico. Disse a ele também a minha parte cultural, tinha feito muita coisa na área de cultura e via isso uma atividade interessante na área do turismo. Via também um processo importante de integração nacional e inclusive até quando o meu trabalho foi sobre turismo e folclore e o outro o segundo trabalho de pesquisa, de planejamento turístico, desculpe, de teoria e técnica de turismo, de Domingo Hernández Peña, foi mercados turísticos brasileiros onde eu falava da importância da integração. Hoje nós temos o Mercosul, o Mercotur, de você conquistar os turistas na América do Sul. Era muito mais barato, muito mais fácil você trazer gente possivelmente da Venezuela, da Argentina, do Paraguai, do Uruguai, do que buscar na Europa ou nos Estados Unidos ou no Japão. A tese foi contestada. Nós tivemos outros colegas também, por exemplo, o que fez que me lembro que eu ajudei, fizemos um trabalho com Eduardo Vilitos, foi para se usar os postos de gasolina como locais de informação turística.

 

P/1 - Mas senhor Demasi, como que o senhor acabou entrando no curso?

 

R - Sim, sei, o problema é o seguinte: ele levantou três fichas, levantou três fichas e falou: "Olha, eu não sei o nome das pessoas, mas esta pessoa é médica, é assim, assim", citou o nome, eu falei: "Olha, me desculpa, esta pessoa vai querer se aperfeiçoar para fazer a próxima viagem ao exterior com maior visão ótica do turismo. Essa pessoa não vai se profissionalizar." Pegou uma segunda, a pessoa era dentista, me parece, eu falei: "Olha, não tem cabimento, ela preenche todos os requisitos, mas quantos anos tem de profissão esta pessoa, quinze ou dezoito?" "Então este também está de fora." E uma outra senhora, já com uma certa idade, eu falei, bom, eu não vou dizer que seja, para não ser antifeminista, eu falei: "Olha, é uma pessoa ótima, bacana, deve ser uma pessoa bacana, mas o que eu estou vendo aí é que é uma pessoa que tem bom poder aquisitivo e rodou o mundo todo, então do ponto de vista de desenvolvimento turístico brasileiro nenhum dos três vai fazer nada." Ele ficou meio pensativo, dei algumas ideias, falei sobre algumas coisas e depois de uns dias, acho que uns dois dias antes, ligaram em casa e disseram que tinham uma vaga pra mim. Realmente procurei dar o máximo de mim, fiz o máximo que eu pude fazer, retribui da melhor maneira possível, quando foi no final do ano que nós nos formamos fiz uma matéria pros jornais. Quase todos eles publicaram que tinha se formado a primeira turma de Técnico em Turismo de São Paulo, a primeira vez no Brasil e a primeira vez que se fazia isto na América do Sul toda, com a carga horária desse porte, um curso com trabalho de pesquisa. Mesmo a professora Clice Mendes Carneiro, também nos deu muita divulgação. E até nós tivemos um caso interessante, problemático, um caso muito sério, a professora Clice abriu uma matéria, umas matérias grandes, por exemplo, uma para Piraju. Piraju, naquela época saía na sexta-feira, saía jornal na sexta-feira, no sábado e domingo. Piraju nem sequer mais peixe tinha no rio de tanta gente que foi pra lá. Monte Verde também fizemos, estivemos em 69, Monte Verde e falar em Monte Verde em 1969 era nada, tinha lá um cabeça de boi, El Brujo, uma coisa assim, o pessoal queria fazer turismo, mas ao mesmo tempo não queria, não tinha aquela idéia: "Pô, turismo aqui?" Quer dizer, eles queriam preservar, queriam faturar mas preservar aquilo, então é meio difícil, não que você possa mas você tem que abrir evidentemente dentro de normas. Assim, nós tivemos um professor de Legislação Turística, ele era bom, um advogado sim, mas eu esqueço o nome dele, me perdoe ele, mas também tivemos em Legislação Turística não sei se era ligado à Embratur ou à Secretaria, alguma coisa assim de Estado e Turismo. E nós fomos também à Itapetininga, por exemplo, falar em turismo em Itapetininga. Meu, era brincadeira: "O que é que vai fazer o turista aqui?" Então nós tivemos a professora Clisa Bria, do Estadão, pra nós foi muito bom, começou aí, então aí o pessoal começou a ver. Nós tínhamos um fotógrafo no Estado, qual era o nome do rapaz? Me perdoe, depois acabou entrando na área de turismo, até foi fundador daquela faculdade de Belo Horizonte, Faculdade de Turismo, trabalhava com a professora Clice no Estado, era fotógrafo, se interessou bastante e não sei os cursos que fez ou não, mas acabou fazendo lá. Nós, inclusive, fomos até... Muito de nós foi convidado pra participar, alguns dos nossos colegas formados pelo Senac fizeram a Faculdade Anhembi Morumbi, era lá no Morumbi, na época foi em 71, parece que foi abril, em 69 ou 71, me recordo que o professor Gabriel convidou-me para fazer parte do curso, me daria até o curso de graça, eu falei pra ele: "Olha, professor, pelo que eu sei, pelo que eu já estudei, pelo que eu tenho de livros, porque é um negócio muito interessante, eu posso ser o formulador de aulas para os seus professores", então o que nós tivemos no Senac, nós tínhamos lá. Você tinha um professor de economia, mas ele não sabia o que era a economia voltada, o que era a econometria, o que você mede do ponto de vista econômico é ligado ao turismo. Nós tínhamos um professor de Geografia que ele não te dava, ele te dava da era mesozóica, paleozóica, mas o que nós queríamos, o que nós precisávamos era a Geografia dentro do campo turístico, do ponto de vista de produto, como você utiliza, por exemplo, um produto turístico, seja agrícola, por exemplo, ou como você utiliza um atrativo turístico para transformá-lo num produto turístico.

 

P/1 - O senhor preparava aulas depois para os professores do Senac?

 

R - Não, não cheguei a isso, mas eu tive um caso até interessante. Eu ficava meio deslumbrado com Domingo Hernández Peña, de onde ele tirava tanta coisa da cabeça dele, ele vinha lá com fichinha mas ele tirava coisas que eram brincadeiras. Aí esse outro colega, o José Caparros Garcia, também espanhol, ele falou: "Olha, vamos ao consulado que tem uma oficina de turismo espanhol", e por ser espanhol ele conseguiu que se abrisse a biblioteca do consulado, porque o consulado distribuía folhetos, nós não queríamos isso. E lá estavam, na prateleira, o livro de Luiz Fernando Fuster, estava o Arepasco Chagua, Umzequer, toda uma coleção de livros da onde ele tirava, evidentemente ele tinha o seu marketing a fazer, não ia dizer: "Olha, está aqui, vocês vão lá buscar." E isso deu margem para eu ler muito e me aprofundar bastante. Nós questionávamos, por exemplo, a parte de História da Arte, nós queríamos saber o que você, por exemplo, o que era o movimento barroco, o que era Minas Gerais, por exemplo, do ponto de vista de atração turística, como você podia criar roteiros turísticos culturais, o que você podia fazer no Embú, chamada terra das artes, para levar turista pra lá. Eu não queria saber se o faraó, o Egito, a Roma, nada disso. Precisávamos saber do Brasil, o próprio Peña nos trouxe a história turística da Espanha. Nos falavam do Languedoc Roussillon, lá da Costa Brava, a divisa lá de 180 quilômetros que o governo francês fez, o que o governo fazia lá eram idéias interessantes, boas pra você aqui, mas não se aplicavam muito. E um outro problema, nós não tínhamos só São Paulo, nós tínhamos o Brasil, quer dizer, o curso de Técnico em Turismo não era feito, na minha ideia, pra você sair, fazer e entrar dentro de uma agência, não sei o que, nós não tínhamos, por exemplo, nada da área hoteleira.

 

P/1 - Qual era o mercado para esses primeiros formandos da primeira turma, mercado de trabalho?

 

R - Primordialmente eram pras agências de viagem, alguma coisa de transportadoras, mas, diga-se de passagem, até hoje é uma briga que fica, até hoje, são 25 anos entre o empresário que se formou no dia-a-dia e as pessoas que se formaram através de cursos. Os empresários acham que têm a vivência prática e evidentemente temos que analisar essa vivência, porque você ter vivência e ter uma vivência errada não vale nada. Você ganhar dinheiro pode ser uma, pode ser o quê? Pode ser uma sorte, e o estudante de uma outra parte querendo a regulamentação da profissão. Nós tínhamos um carimbo no Ministério do Trabalho como técnico de turismo profissional, essa coisa toda, mas também não nos dava uma... Eu não podia entrar numa faculdade por causa disso, não podia fazer uma série de coisas. Então não sei se a legislação hoje, até hoje como está, mas mudou bastante. Você tem hoje um CEATEL, já mudou bastante. Então você tinha essa dificuldade. De outro lado quando vieram as faculdades o pessoal achava que só podia ter uma empresa de turismo quem contratasse um bacharel, e não era por aí. Livre mercado, você está num mundo capitalista, você não está no mundo socialista ou comunista, não tem porque. Então você tinha dos dois lados as verdades unilaterais. Até hoje você vê que são 25 anos de formação do curso do Senac e nós não temos uma regulamentação da profissão de turismo, do bacharel ou do tecnólogo, seja lá o que for. E havia um outro aspecto muito interessante também, nós não tivemos, tivemos alguma coisa de comercialização muito pequena, então o mercado, na época, não estava ainda, tá certo que foram 25, depois da segunda turma mais 25, e o Senac parou o curso Técnico de Turismo.

 

P/1 - Como parou o curso técnico?

 

R - Parou, porque veio uma regulamentação que você tinha que fazer em três anos, era o colegial técnico.

 

P/1 - E eles fizeram isso?

 

R - Não, não, o Senac só reabriu o turismo agora há pouco tempo, o Técnico de Turismo.

 

P/1 - Então só houve duas turmas?

 

R - Duas turmas só, formaram cinquenta. Desses cinquenta, olha, tem uma mocinha, a Maria Helena eu não sei o nome dela, até troquei o nome dela no jornal, ela ficou até meio chateada comigo, eu sei que era Maria Helena, professora de Geografia, depois eu sei que estava na Embratur; o Cláudio Bloch, o Cláudio Bloch também estava na Embratur depois parece que abriu uma agência de viagem no Rio, mais esses colegas nossos que nós fundamos logo de início o GTT, Grupo Técnico de Turismo, e o espanhol sócio nosso, era tão espanhol que as cores da nossa empresa eram as cores da bandeira espanhola. Aí depois de algum tempo eu abri o Centro Técnico de Turismo e coloquei o verde das nossas matas, eu falei: “bom, vamos ser nacionalistas”, chamou-se CTT, Centro Técnico de Turismo e o GTT, Grupo Técnico de Turismo.

 

P/1 - Eram empresas que prestavam serviço na área de turismo?

 

R - É, nós começamos, o curso em si foi muito bom, não existe uma reprovação, não vamos é falar mal da onde nós comemos, da onde nós nos formamos, mas por ser pioneiro, por ser alguma coisa altamente inusitada, embora tivesse uma fundamentação muito grande, porque por Edenir Machado convenhamos, ou não era uma pessoa muito rígida na sua... O curso foi muito bem estruturado, mas não se conhecia mais pra frente, não se falava em mercadologia, não se sabia o que era produto. Hoje você não sabe se é um produto turístico de um núcleo receptor, você não vende subprodutos, você vende alguma coisa, um nome de uma cidade ou o nome de um hotel, mas não vende um macro trabalho. Nós começamos a fazer um trabalho de relações, você começou a entrar através de leituras na área de relações públicas, na área de propaganda, na área de marketing principalmente. Aprofundar todos os conhecimentos a nível de Brasil, porque você não tinha isso aí, mas o próprio Senac depois sentindo, ouvindo com essa regulamentação a nível de governo de educação ele deu uma parada e entrou realmente forte, muito forte na área de Hotelaria e depois com o surgimento do CEATEL, que foi ali no bairro da Bela Vista me parece, me parece que primeiro foi na própria sede do Senac, na Dr. Vila Nova, depois num prédio grande ali na Bela Vista, ali como quem sobe na Treze de Maio. Lá em cima eles já estavam com alguma coisa mais de eventos nessa área de cursos de Buffet. Nós fizemos o curso e saímos verde vai, realmente saímos assim, foi uma experiência interessante, importante, mas nós tivemos que cavar, abrir os caminhos da profissionalização.

 

P/1 - O senhor continuou colaborando com o Senac depois por muitos anos?

 

R - Sim, nós temos até um caso interessante. Em setenta, a ideia era fazer alguma coisa prática, eu senti, talvez pelo meu faro, pelo meu faro mais comercial que o campo era ilimitado, realmente difícil, diga-se de passagem, pra quem quer entrar na área de turismo, na área de hotelaria é um campo dificílimo, muita concorrência, tem que ter muita criatividade e tem que ter muita capacidade técnica profissional, senão não dá. É um negócio empresarial, econômico, e precisamos faturar. E nós tivemos um grande incentivador, nessa parte não pode se falar, o Peña dizia: "Turismo é grana, ninguém vai brincar com turismo, vocês vão sair daqui e vão entrar num mercado que não existe, pô, não existe mais ninguém, só vocês, vocês se virem aí". Tanto é que ele até criou uma empresa, fizemos um trabalho com a Clice, com ele, até sobre Piraju foi um primeiro trabalho, a gente participou um pouquinho assim. Aí vendo esse lado de necessidade empresarial, de faturar, nós, no começo do ano de 72, eu particularmente consegui uma entrevista com o doutor José Papa Júnior, e falei um negócio lá meio gozado para ele, dizendo: "Olha, você, os senhores puseram, fizeram o seguinte: nós somos técnicos em turismo, nós somos otimamente tratados durante o parto, veio muito bom, vocês deram tudo de excelência pra nós, aí as crianças nasceram", até nem falei crianças, falei: "os bezerros nasceram, aconteceu o seguinte, no final de 69 no começo de setenta vocês tiraram a vaca e nós não temos como nos alimentar." Ele ficou meio assim: "Esse cara é doido, que raio que esse cara quer, que negócio de vaca de bezerro?", daí chamou o professor Oliver Gomes da Cunha e falou: "Olha, vê o que esse pessoal quer aqui." "O que vocês querem?" "Olha, é o seguinte: nós estamos sem serviço nenhum, temos uma ideia de um seminário que era um seminário de orientação turística, de conscientização ao comércio, a professores e a comunidade." Eles acharam interessante, gostaram, disseram: “bom, nós vamos ver quanto custa isto", e parece que tinha dificuldade de orçamento e eu falei: "Mas por que o Senac não cobra? Porque não tem cabimento, nós fizemos um curso de um ano, com toda essa gama de professores, e pagamos, vamos dizer o relativo hoje a vinte reais, é brincadeira, não tem cabimento." Falou: "Olha, não sei se vai dar." "O senhor cobra." "É, não podemos fazer porque o estatuto não permite." "Muda o estatuto." Esse cara além de fazer, ser doido, quer mudar tudo isso aqui. Então nós acabamos, depois de um papo rapidinho, sentando com o professor Oliver, mostramos o programa pra ele que tínhamos feito, aprovou e nós saímos pelo Interior do Estado de São Paulo com o Senac regional São Paulo fazendo esse curso para estudantes, professores e comércio em geral. Muito difícil, muito, e é interessante que o pessoal mais receptivo que deveria ser, que seriam os empresários voltados para a área turística, hoteleira, de transportes, de eventos ou que seja de animação, eles não apareciam. Então tinha estudantada, porque as professoras soltavam e as próprias professoras mais interessadas que vinham. Realmente nós tivemos Santos que foi um pouco mais diferente, nós tivemos uma platéia já um pouquinho melhor, embora nós tínhamos um problema sério, porque você envolvia questões muito localizadas e que nós não tínhamos uma experiência ainda e depois entrava problemas políticos, picuinhas locais entre associação A e associação B, ou entre grupo A e B que iam lá se digladiar e você ficava numa situação um pouco delicada, você estava lá pra dar aquele programa, nós éramos meio autômato, não sabíamos aquilo, quer dizer, você não tinha um leque de abertura muito grande. A gente tinha saído um ano, dois anos só, você não tinha um know how, o seu background ainda era pequeno.

 

P/1 - Agora, senhor Demasi, o senhor chegou a trabalhar depois com Senac de vários Estados também, né?

 

R - Sim, nós fizemos então Campinas, Santos, Bauru, Taubaté. O professor Diretor do Senac local achou que tinha só quatro ou cinco pessoas, dispensou, nós não fomos, até aproveitei a primeira vez que eu conheci lá aquele trenzinho de Pindamonhangaba a Campos do Jordão, fomos fazer passeio turístico no Vale do Paraíba, e logo em seguida, antes de sair para os Senacs do país eu fiz muitos cursos pelo Senac. O Senac trouxe Marx Swing da Suíça, fizemos um curso de administração de hotéis e restaurantes, foi muito bom; trouxe um pessoal para falar sobre eventos, também muito bom; fez alguns outros cursos sobre turismo e folclore; fizemos uns eventos sobre relações públicas no turismo, aí abriu as portas lá do auditório, da Dr. Vila Nova, para fazer um curso de turismo e comunicação, alguma coisa assim, com a USP, turismo e desenvolvimento. O SENAC fez, ele complementou bastante mesmo setenta, 71, 72, 73, abril nós fizemos um curso com o pessoal da Cornell University, vieram aí pro Brasil três professores, de sessenta horas, com aquele aparelho aqui assim no ouvido, eu não entendia nada de inglês, você sessenta horas com aquilo no ouvido, você ficava meio doido. E os caras falando sobre informática, falando de hotel de 250 apartamentos. Quer dizer, você com hotelaria aqui familiar, caseira, é lógico que você tinha aí hotéis no Interior, não tão grandes. E a gente primeiro foi aprender, mas houve um caso interessante, um caso político interessante, eu devolvi sem querer ao professor Edenir Machado a gentileza que ele me fez de abrir as portas, o governo era Laudo Natel, o prefeito na época, 72, era o Figueiredo Ferraz, não tinha sido escolhido o secretário de Turismo e Fomento do município de São Paulo. E através de uma amizade que eu tinha jornalisticamente com Boris Casoy, cheguei a Boris de quinze minutos de papo, ficamos três horas de conversa e nessas três horas saiu o nome do professor Edenir Machado, respaldado ficou 29 meses no cargo. Aí veio 73, eu trabalhava na Tribuna de Santos, fazia uns artigos sobre turismo e conhecemos, através do Gilberto Adrien, da Tribuna, o prefeito de Águas de Lindóia, o doutor Adolfo Mantovani, entusiasta da parte de turismo e saúde. Ficamos quatorze meses em Águas de Lindóia, aí logo em 74 é que eu saí. O primeiro curso foi dado sobre o curso de Hotelaria no Senac de Curitiba depois estive no Senac de Florianópolis e Caxias do Sul.

 

P/1 - Dando cursos?

 

R - É, cursos. Natal. Eu rodei doze Senacs no Brasil. Agora, embora a minha participação no Senac de São Paulo tenha sido pequena, modesta, quase incipiente, eu fazia um trabalho muito grande de merchandising, onde a gente ia, onde eu ia, particularmente sempre falava: "Olha, sou formando de 69 num curso...", mesmo nos artigos de jornais sempre colocava isso para poder valorizar a profissão. Fizemos também de 73 para 74, com apoio da Edições Aduaneiras que não tinha nada a ver com o peixe, mas o proprietário, hoje está o filho Carlos Serra, o Carlos pai, fizemos um Manual de Conscientização Turística, rodamos isso para o Brasil todo. O manual dava noções iniciais sobre o que era o turismo. Depois, esse manual… Em 89 eu estava em Ubatuba à noite, às vezes não tinha muita coisa pra fazer, tinha insônia, então comecei a reescrever o manual, mas muito mais do ponto de vista econômico, macroeconômico, quer dizer, o que é o turismo do ponto de vista macroeconômico, o que é o turismo do ponto de vista de negócios e na área de profissionalização. Esse primeiro foram muitos desenhos e era baseado para o estudante. Saindo daí nós rodamos os Senacs de Macapá, Manaus, Belém, o Senac de Aracaju, nós estivemos em Aracaju. Olha, foram doze, doze Senacs pelo menos e outras, no total foram dezoito Estados do país, além de assessorias: Águas de Lindóia, São Sebastião, Ubatuba, Goiânia, tivemos em muitas cidades.

 

P/1 - Senhor Demasi, infelizmente o nosso tempo está começando a se esgotar, então eu queria fazer só uma última pergunta pro senhor. Qual é seu maior sonho, seus projetos ainda na área de turismo ou em geral, enfim, outros sonhos?

 

R - Olha, eu não diria sonho, eu digo que nós temos uma realidade altamente palpável. Nós temos um problema sério, nós temos que deixar o colonialismo cultural nosso arraigado, de mais de quatrocentos ou quinhentos anos de lado, temos que valorizar a nossa cultura, valorizar a nossa gente, profissionalizarmos, mudarmos a questão de postura cultural. Acabar realmente com o jeitinho, acabar com só ter vantagem em ganhar e realmente nos profissionalizarmos. E o brasileiro lamentavelmente ele é individualista. A atividade turística é coletiva, é de parceria, é de junção de esforços. No momento que nós tivermos, não só a iniciativa privada, mas também os governos estaduais, o governo federal num processo de fomento, exclusivamente de fomento a atividade turística, seria na área de conscientização, de apoio mercadológico, mas em junção com a iniciativa privada e realmente reformulármos muita coisa, as nossas faculdades têm que ser reformuladas, talvez as posturas que o Senac tem trazido nesses anos todos devem ser revistas, fazermos uma autocrítica, uma análise, mas essa autocrítica segmentada, ou seja, os diversos dentro do trade turístico, nós analisarmos e confiarmos, principalmente confiarmos em nós e sabermos trabalhar no turismo. Porque lamentavelmente nós temos um produto turístico muito caro, altamente elitista, não sabemos vender nossos produtos como não criamos "n" subprodutos, como não abrimos mercados para pequenas empresas, empresas familiares, micro, quer dizer, tem muita coisa. Eu acho que o importante é confiar no potencial que nós temos nesse país, é astronômico. E evidentemente nós temos que saber que o que nós temos não é só faturar, faturar, faturar, nós temos que saber que nós temos que ter qualidade, nós temos que ter competitividade e realmente produtos à altura, segmentados para os mais variados tipos de pessoas, e sabermos, eu acho que primeiro conquistar o mercado interno realmente, forçarmos o mercado interno para aprendermos a fazer turismo, porque turismo são 365 dias ao ano e se for ano bissexto 366, e são 24 horas que nós temos que trabalhar. Se o brasileiro se imbuir disso, porque ele tem que prestar serviço da melhor qualidade e diariamente, diuturnamente durante séculos, durante séculos ele vive, enquanto ele estiver vivendo, a empresa dele estiver no mercado, e nós vamos mudar a nossa postura, mas eu creio que é um problema de cabeça. Nós temos um problema de crise mental, muita vaidade, muito jogo rasteiro, muita politicalha, muita divisão, todo mundo querendo ser o pai da criança e a roda já foi inventada, a pólvora já foi inventada. Nós temos que valorizar esses produtos seja lá desde Roraima até o Rio Grande do Sul, seja aí Fernando de Noronha, temos que saber faturar preservando este país, temos que treinar, temos que reciclar, temos que conscientizar, saber criar uma política de desenvolvimento turístico nesse Brasil. Temos que abrir mercado, temos que gerar oportunidades através do fomento, oportunidades econômicas, nós temos milhares e milhares de possibilidades. Hoje o Brasil poderia reverter todo esse processo econômico que nós estamos passando através do turismo. Podemos exportar nosso artesanato, podemos exportar nosso folclore, podemos exportar essas belezas desse país e trazer muita gente de fora pra cá, desde que nós sejamos profissionais, não adianta trabalhar: "Oba, vamos lá, vamos abrir, acho que turismo é um negócio bacana, gostoso, vou viajar muito." Não, profissional, com responsabilidade, com ética, muita ética, bastante mesmo. Acho que a gente pode chegar num denominador, fazendo esse resgate que vocês estão fazendo aqui através do Museu da Pessoa, acho muito necessário esse processo de preservação histórica, cultural, esse aspecto de valorização antropológica, sociológica e da nossa cultura em geral. Acho que a gente pode faturar e tirar esse país de um processo amargo, inclusive abrir frentes pra muita juventude que vem aí, muita garotada nova que pode entrar, é duro, difícil, árduo. Às vezes, você tem que deixar a família como eu deixei minha senhora nos três partos praticamente sozinha no hospital, dando curso nesse país todo, mas você tem que ser profissional, antes de mais nada o profissional tem que ter qualidade, tem que ter preço, tem que ter ética, tem que ter muito trabalho em conjunto pra gente poder chegar lá e realmente faturar com o turismo no país e realmente reverter esse quadro que nós estamos hoje.

 

P/1 - Muito obrigado, senhor Demasi, em nome do Museu e do Senac.

 

R - Eu que agradeço.

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