Busca avançada



Criar

História

O gosto para compras

História de: Leovegildo Motta
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/07/2005

Sinopse

Identificação. Estudos e primeiro trabalho. As brincadeiras e o relacionamento com os padres do colégio. O curso de Administração de Empresas. O trabalho no porto de areia, como despachante e no posto de gasolina. Ida para o ramo de materiais elétricos e contratação pela Vick Farmacêutica. A carreira na Erontex. A venda de carnês, o sorteio de prêmios e os programas de televisão. O Centro Industrial de Distribuição e o investimento em propagandas. A saída da Erontex. A atividade com pescados. Trabalhos atuais. Avaliação do comércio. O gosto para compras e o seu dia a dia. Avaliação de sua vida e seus sonhos.

Tags

História completa

Depoimento de Leovegildo Motta Entrevistado por Residência do entrevistado São Paulo, 08 de novembro de 1994 Transcrita por IDENTIFICAÇÃO Meu nome é Leovegildo Motta, nasci em 12 de junho de 1924 na cidade de São Paulo. O meu pai era Licínio Motta e minha mãe Florinda Caligaris Motta. INFÂNCIA Eu nasci no Belém, onde passei boa parte da infância. Até os nove anos estudava no Sagrado Coração de Jesus, naquela época era interessante, eu tomava um bonde na Rua dos Italianos sozinho e ia até o colégio que era no Bom Retiro. Depois, me mudei para o Cambuci, depois para a Aclimação, onde eu fiquei até os vinte e tantos anos, depois fomos morar no Jabaquara por uns 18 anos e voltamos novamente para o Cambuci. Eu senti muito, depois de um ano lá no colégio, que meu pai não tinha condições de pagar aquele colégio para mim, porque 50% das pessoas ou mais tinham vindo de carro e eu pegava bonde. Era um dos melhores colégios de São Paulo. Foi daí que com 12 anos eu achei que eu precisava ajudar a trabalhar e nasceu a ideia de ser um office-boy à noite, eu recolhia os decretos-lei assinados pelo governo de São Paulo e levava para o Diário Oficial. Lá, eles reproduziam para o jornal e eu pegava as cópias e levava para os principais jornais de São Paulo, do estado. PRIMEIRO EMPREGO Meu pai era jornalista e ele me dizia a dificuldade que era um funcionário de cada jornal ir até o Diário Oficial, que era na Rua da Glória e ficar à disposição até que o governador mandasse os decretos para lá. Ele deu a ideia: se juntasse uma pessoa para fazer a distribuição. Daí eu me dispus e ele me deu o nome de cada pessoa para procurar nos jornais, Estado, Correio Paulistano, Fanfula, Folha da Manhã, Gazeta, Diário Associado, Diário de São Paulo. Eu fui procurar cada jornal e propus. Eles aceitaram imediatamente, então de cada jornal eu recolhia uma importância, e naquele tempo dava para pagar o colégio e ainda sobrava, pude me vestir muito bem, estudar e ainda deixava um dinheiro em casa. Foi realmente uma ideia do meu pai que eu executei e fiquei durante uns seis anos com esse trabalho. O único problema é que eu gostava muito de dançar e daí não podia. No sábado eu ia pegar o baile à meia-noite, 1h, porque era a hora que eu acabava de fazer a distribuição. Eu, garoto de calça curta até os 15 anos andava pela cidade de madrugada, muitas vezes o guarda civil chegava para mim: “Ô, garoto, o que estais fazendo aí na rua?” Ele me levava, fazia a volta comigo pelos jornais e me levava até a Praça da Sé, onde eu pegava o ônibus para ir pra casa. Esse é um fato que marcou muito a minha infância, a satisfação de ver uma ideia fácil de cumprir e ganhar muito bem. Eu ganhava talvez uns 50% do que o meu pai ganhava no jornal trabalhando, e ele trabalhava em três jornais para poder tirar aquele salário. Eu com aquela ideia dele era muito bem remunerado. SÃO PAULI ANTIGA Você não tinha problema de andar preocupado. Andava tranquilo pelas ruas. Eu saía da Rua da Glória, ia n’O Dia, na Folha da Manhã, que era na Rua do Carmo, depois eu atravessava o viaduto e ali era o Estado de S. Paulo, daí eu ia para o Largo São Bento, Rua Libero Badaró, Correio Paulistano, atravessava o Viaduto do Chá, ia na Gazeta, que era na Cásper Líbero, descia na Rua do Seminário, onde era o Fanfula, ia na Conselheiro Crispiniano que era o Diários Associados e daí eu voltava para a Praça da Sé, onde eu pegava o ônibus. Era uma boa caminhada, mas tranquila, tinha as boates naturais, eu conhecia aquele pessoal, os cantores da noite existiam, com uma classe, completamente diferente do que é hoje, um pessoal muito respeitador, tranquilo mesmo. Aquilo era uma gostosura e sábado a gente encontrava maior movimento, mas a responsabilidade era aquela, feriado era só domingo. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL Eu não lia nada dos decretos. Era um decreto-lei, normalmente nomeações e eu não tinha curiosidade. Eu gostava muito de ler. Com 12 anos eu ganhei o Tesouro da Juventude e aos 14 anos já tinha lido umas três vezes todos os 18 de livros. Mas os decretos não, eram assuntos que fugiam completamente à minha curiosidade. Conciliar o trabalho com a escola era fácil porque eu estudava pela manhã, entrava às 11h30 no colégio e saía às 16h30, e o trabalho era à noite, então eu tinha tempo de estudar. De manhã, acordava cedo, tinha tempo de estudar, preparar a lição. Ainda dava um tempo de brincar um pouco, ver a troça de amigos na esquina. JUVENTUDE Hoje, o que chamam de paquera, a gente chamava de flerte. Era ficar na esquina, porque as meninas também saíam nas portas, ficavam sentadas e a gente passava olhando. Aquela brincadeira inocente, mas muito gostosa. Tinha no Largo do Cambuci, como tinha no interior. Em São Paulo também tinha o passeio noturno das meninas, elas giravam no sentido do ponteiro do relógio e a gente girava o contrário. Era assim que a gente flertava, na Avenida Lins de Vasconcelos. E tinha brincadeira de rua, empinar papagaio, jogar bola, bolinha de gude, que não se vê mais hoje. Eu era viciado naquilo, eu enchia caldeirões de bolinha de vidro. Então meu pai não podia comprar, eu queria ganhar. Fui numa oficina mecânica e descobri aquelas bolinhas de aço. Entrava e quebrava a bolinha de vidro dos outros e quando quebrava eles pagavam dobrado, tinham que pagar duas bolinhas para mim. Depois eles descobriram que a bolinha era de aço e a deles era de vidro. EDUCAÇÃO Teve uma época no colégio que o padre Edgard de Souza, um padre muito avançado para aquela época, ensinava religião de um maneira muito agradável. E éramos obrigados a ir à missa todos os domingos, tinha a capela para os alunos, que era a Capela Dom Bosco, onde cabiam cerca de 800 alunos e quem não fosse ganhava falta. Mas a turma ia na capela só para carimbar a caderneta, depois dava um jeito e fugia. Ele liberando a presença conseguiu um maior número de pessoas. Depois veio um padre muito mais severo, Padre Arcanjo, que derrubou completamente essa liberdade, obrigava todo mundo a beijar a mão dele quando entrasse no colégio. Rapazes já com 19 anos, já no quinto ginasial tinham que chegar e beijar a mão. O Coração de Jesus tinha perto de 2.500 alunos, sendo que 800 eram internos e perto de 300 eram num regime de semi-internato, vinham de manhã e saíam de tarde e o resto era das 11h às 16h30. O ensino era muito puxado, tinham sabatinas mensais. Eu levei dez anos no Coração de Jesus disputando com dois colegas, um era um italiano, o outro era um judeu, eram superinteligentes, não escreviam nada na classe, só ouviam. Eu precisava escrever tudo, estudava, eu tinha muita força de vontade. Se eles eram os primeiros, eu era o segundo. Mas nos últimos 4 anos eles não conseguiram mais me pegar porque eu estudava quatro, cinco vezes a mais do que eles. Então o padre, como não podia me reprovar por média, ele começou a me suspender por cada vez que eu não beijava a mão dele. No exame final, o padre Arcanjo queria pelo menos me segurar de segunda época, porque ele sabia que, desde o segundo ano ginasial, eu ia ser oficial da Marinha, cujo exame da Marinha era em janeiro, e a segunda época que era em fevereiro. E numa hora em que eu estava escrevendo normalmente, ele falou que eu estava copiando, colando e me tirou a prova. Eu prestei exame de segunda época, tirei toda a papelada de transferência, entrei no colégio quando estava cheio o pátio, e quando eu vi o padre Arcanjo eu falei: Vou te quebrar a cara. E saí correndo atrás dele, segurei e rasguei a batina, ele ficou só de calça e camiseta e eu dei um tremendo soco e saí correndo. Perto dali tinha uma polícia e começou policial a correr atrás de mim, mas eu conhecia o colégio, entrava para um lado, saí para outro e nunca mais voltei. Voltei uma ou duas semanas depois para buscar os papéis de transferência e me matricular noutro colégio, o Anglo Latino. Por ter perdido o exame para o qual estava me preparando há três anos, eu fiquei desnorteado, parei de estudar. Mas resolvi fazer o colégio porque precisava de três anos de colégio para cursar uma outra faculdade. Fiz e resolvi ser engenheiro. Prestei exame na Politécnica, entrei, mas era dificílimo, 100 concorrentes por vaga. E larguei, meu negócio não era engenharia. Eu fiquei uns seis meses. Engenharia Naval, naquele tempo não tinha. Aí parei, comecei a trabalhar, e vi que eu tinha uma tendência para organização, eu era muito organizado e gostava de mexer com papel. Mas ainda não tinha Administração. Depois de alguns anos, eu devia estar com uns, eu não sei quando é que começou, mas eu já devia estar com uns 26, começou a primeira escola de Administração em São Paulo, que era a dos padres, que hoje me parece que chama Esan, ficava lá na Rua São Joaquim. Não tinha curso noturno mas eu comecei a mexer os pauzinhos. Formei um grupo de alunos, de 20 pessoas, e falamos com o reitor da universidade. Ele topou, fez umas classes que funcionavam três vezes por semana, à noite, e sábado e domingo nós tínhamos aula o dia inteiro. Conseguimos também, naquela oportunidade, no Ministério da Educação, que em vez de fazer quatro anos, fizéssemos em três. Assim, foi uma classe sui generis, diferente, com três anos. Daí me formei como administrador de empresas, até hoje ainda faço esse trabalho. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL Desde os 19 anos trabalhava em porto de areia. Eu saía do Jabaquara às 3h, pegava o primeiro ônibus, que era o ônibus que ia pegar os motoristas para levar para trabalhar, para chegar na Praça da Sé. De lá eu ia com o primeiro bonde até a Sorocabana, pegava o primeiro trem que ia para Quitaúna levar os soldados, pra eu chegar no porto de areia às 6h, que era em Osasco. Eu descia no porto de areia, na estação de Osasco, andava sete quilômetros para chegar nas margens do Rio Tietê, onde tinha essa descoberta de areia, que a gente chamava. Chegava, fazia extração de areia, de pedregulho, extraía com dragas, jogava em barcos e caminhões que ficavam em construções. Eu tinha um padrinho que tinha muito dinheiro, e ele me viu com vontade de trabalhar e me pôs como gerente. Ele entrou com o capital, que era alto, junto com um italiano que se chamava VicenzePiccioni. Só que esse Piccioni não entendia de areia e depois de seis meses ele fugiu com o dinheiro e com o carro. Até que o meu padrinho me deixou com um monte de dívidas, e eu fui ameaçado, amarrado num castanheiro, pelos operários que com faca disseram: “Ou você nos paga ou nós te matamos aqui.” Eu fui conversando com eles e mostrando que se me matassem não receberiam, se me deixassem vivo eu pagaria. Mas fiquei muito desanimado, ia toda manhã. Eu sabia que tinha areia lá mas eu não sabia sondar, eu estava sentado embaixo do castanhal quando eu comecei a ver umas formigas carregando um grãozinho amarelo. E fui seguindo as formigas, peguei uma enxada e comecei a bater. Depois de quatro, cinco enxadadas eu vi que ali tinha areia, não precisava nem pôr a draga, tinha areia de barranco. Aí eu comecei a tirar areia ali, chamei os empregados. Fui pagando todo mundo, paguei empregado, paguei as dívidas todas, mas meu padrinho estava na Europa. Fiquei muito cansado, sozinho, garoto ainda, 19 para 20 anos. Eu estava cansado, vinha daqui para ali, já namorava. Eu fiquei uns três anos assim, mas sem aguentar. NEGÓCIO PRÓPRIO Chegou meu padrinho e vendemos o porto de areia. Nesse mesmo prédio onde meu padrinho tinha escritório, eu montei um escritório de despachante no trânsito. E um outro rapaz cuja mãe era funcionária do DSV, Departamento de Serviço de Trânsito, então nós tínhamos facilidade em conseguir carta rapidamente, mas não com trambicagem. Eu criei um serviço em domicílio, eu ia na casa dos clientes, dos Matarazzo, dos Crespi. Eu telefonava e oferecia o serviço. Comecei a ganhar muito cliente, comecei a ser copiado por outros despachantes. Mas, infelizmente, meu sócio faleceu uns meses depois que nós tínhamos escritório. Era uma tuberculose e ele faleceu em poucos meses, então eu fiquei desanimado, a mãe dele ficou muito mal, eu também. Fechei o escritório de despachante. TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – POSTO DE COMBUSTÍVEL Então, fui convidado por um alto funcionário do Palácio da Justiça que queria comprar um posto de gasolina, mas não podia tomar conta. Eu o conhecia porque eu fiz um serviço de despachante para ele. E ele comprou um posto, era bandeira Atlantic, naquele tempo tinha já seis bombas de gasolina e duas de óleo diesel, na Rua Clélia esquina com Cipião, na Lapa, e aquela rua era saída para o interior. Então, vi a possibilidade de pegar freguesia de caminhão, Comecei a fazer clientela de caminhão e aquilo em poucos mesespassou para 150 mil litros de gasolina e óleo diesel. Eu comecei a criar com muitos caminhoneiros um vale que eles pagavam na volta, quando recebiam o frete. Eu entrei lá como empregado com a promessa de sociedade caso eu pagasse a dívida em dois anos. Em um ano e seis meses nós pagamos o posto, daí o Dipp estava satisfeito, só que eu não aguentava, eu saía do Jabaquara para chegar às 6h, e voltar às 22h. Me deram sociedade, mas eu pedi um outro sócio que dividia comigo o trabalho, ia muito bem. Mas eu tirei umas férias, daí mudou. Foi a primeira rua de São Paulo que mudou a mão. A Clélia passou a ser mão de subida, a saída para a estrada passou a ser descida e clientela acabou. Era muito difícil fazer manobras nesses caminhões, então eu passei de 100 menos de 30 mil litros por mês. Começamos a trabalhar com carro de praça, particular. Mas meus sócios queriam usar uma série de desonestidades, começaram a querer viciar a bomba. Eu tinha óleo importado, mas era fácil de apertar uma latinha e trocar por óleo de lata que custava menos da metade. Desconfiei e um dia vi os meus dois sócios fazendo isso. Abri o cofre, tinha oito mil e poucos cruzeiros, e com esse dinheiro saí da sociedade. Fui para maternidade, minha esposa estava tendo os meus filhos gêmeos. Eu falei: “Vou ficar contigo uma semana aqui de férias vendo o meu filho nascer, tenho dinheiro para pagar, não vai faltar. E fiquei 4 ou 5 dias com ela na maternidade. Quando saí de lá eu já tinha convite, eu nunca parei um dia, tinha sempre algum convite. INSTALAÇÕES PREDIAIS Uma pessoa que eu conheci na Lapa tinha um cunhado ou um primo, não me lembro, precisando de alguém para tomar conta uma empresa de instalações elétricas e hidráulicas. Fui pra lá. Chamava-se J. Reinaldo Lima, ele fazia instalações mas não vendia material. Então começamos, fui aprendendo aquilo, fui organizando aquilo. Tinham engenheiros, muitos operários. Fazíamos serviço para os maiores construtores da época. E tínhamos um armazém na Praça Marechal Deodoro fechado, cheio de material. Então eu organizei uma loja com todo o mostruário para vender aquilo, passamos a ter a loja aberta na frente e depósito atrás e fizemos uma freguesia. Nessa época, Brasília estava começando nós fomos pra lá fazer as instalações elétricas do Palácio da Alvorada, depois foi o Hotel Nacional, os primeiros prédios que foram construídos. Eu fiquei aqui, mas mandava material, mandava os empregados, fui algumas vezes de teco-teco, de ônibus, de carro. Cheguei a dormir no Catetinho. O nosso material ia de avião e embalagem era fácil porque o avião era lotado por material de construção, então a gente tinha umas caixas de papelão, umas caixas de um produto que era um tipo de fibra, a Light que as fornecia. A gente pedia emprestado para eles e punha o material lá. Embarcava no aeroporto de Congonhas, que tinha pista de terra, e ia lá para Brasília. Numa viagem dessas a gente pousava em uns quatro ou cinco aeroportos, a gente ia assim pingando, pingando, até chegar em Brasília. Nessa empresa eu fiquei uns 12 anos. A firma cresceu muito, mas não cresceu o suficiente que nós precisávamos. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – ERONTEX Aí apareceu um convite e eu entrei numa multinacional, onde eu aprendi muito, aprendi como é que se administrava um negócio. Era a Vick Farmacêutica, depois ela comprou os laboratórios Moura Brasil e depois ambos foram comprados pela Merrell, que era o maior laboratório dos Estados Unidos. Em todas essas junções a administração foi sendo unificada e eu e muitos outros funcionários fomos embora. Quando eu já saí eu tinha um convite do Francesco Coppola, ele tinha sido meu gerente no laboratório e estava trabalhando na Eron, e ele me convidou para ser assistente dele. Aí que eu comecei a minha carreira lá. Eu estava sempre muito insatisfeito, eu queria sempre mais trabalho, então eu procurava trabalhar mais, e sempre levantei muito cedo. Comecei a me destacar pelo esforço e trabalho, daí me ofereceram uma gerência que eu recusei porque achava que ainda não estava preparado. Esperei mais um ano e novamente veio um convite, pra ser gerente da Erontex em São Paulo. Aí era um cargo maior e eu aceitei, fazia parte da administração desse grupo todo. A Erontex era antiga, era uma venda domiciliar de porta. Foi o primeiro carnê que apareceu em São Paulo. O pessoal pagava durante 12 meses e no final desse período retirava um corte de tecido com dois metros e oitenta, que era para fazer o terno tradicional. E aí dava prêmio, dava carro, começou o programa de televisão, programa de prêmios. E São Paulo era o maior departamento do Brasil, eu tinha 600 vendedores divididos em equipes e cada equipe tinha de oito a dez pessoas que saíam nas kombis com roteiro para vender de porta em porta. Nosso departamento era na Rua General Jardim. Você tinha tudo a mão, tudo era controlado. O pagamento era controlado por fichários, picotava-se com o furador que tem em estrada de ferro, aquilo que controlava os pagamentos dos carnês. CLIENTES A clientela era mais classe B e C. Geralmente a compradora era mulher e comprava muito escondido do marido, que no fim do ano ganhava um corte de tecido. O pagamento do carnê era feito através de banco e das lojas, nas principais capitais. Como os bancos seguravam muito o dinheiro, e às vezes eu não podia vender em determinada cidade do interior porque nem todos os bancos recebiam o carnê, eu via a minha venda limitada. Fui ao governo federal pedir autorização para que os Correios também recebessem, mas eles não permitiram. PROMOÇÕES A pessoa comprava o carnê e tinha um cupom, que era colocado numa urna. Os sorteios eram programas ao vivo na televisão. Eu não achava justo que pegassem somente 20 mil cupons para sortear, eu queria todos os cupons no palco. Mas foi se tornando uma coisa absurda porque eram milhões. Então a gente ia na casa do cliente sorteado para saber se o carnê estava em dia, e se o carnê não estava em dia ele não tinha direito ao prêmio. A Bibi Ferreira chegou a apresentar o nosso programa, no sorteio através de quadros com números, com letras. Atrás deles tinha um prêmio ou então tinha um quadro par que ele perdia. O programa era domingo por alguns motivos: era mais barato e a própria televisão não tinha audiência no domingo à tarde, então havia interesse em saber números de clientes que a Erontex tinha e o próprio Baú da Felicidade também. Então eles tinham interesse em carrear esses clientes para levantar a audiência e era a oportunidade de a dona de casa estar mais sossegada ver o programa que começava geralmente às 13h ou 14h. Eram duas, três horas de programa que eles faziam e tinha sorteios dos mais variados, por exemplo, “Erontex bate a sua porta”, é o que até hoje fazem com caminhões, a gente ficava uma semana antes anunciando as equipes Erontex, nós vamos fazer um sorteio domingo no bairro tal, na cidade tal, e as equipes iam vender, e no domingo de manhã ia uma pessoa da confiança da gente, batendo nas casas: "Tem carnê Erontex? Não, então a senhora acaba de perder a chance de ser premiada." Quando tinha o carnê, se estava em dia, ela ganhava um prêmio. Ele se comunicava pelo telefone. Então aparecia o nome, a gente fazia uns cartazes, aquela brincadeira de auditório, no domingo seguinte o ganhador aparecia no programa para ganhar casa ou apartamento. É como é hoje, não tem muita novidade, nesse campo não modificou muito, é o mesmo sistema, só que muito mais moderno hoje, com mais possibilidade de execução. E dava-se mais prêmios, era um negócio muito sério, não havia porque não ser honesto, se fosse desonesto era ser burro porque se vendia tanto e se ganhava tanto dinheiro que era uma estupidez deixar de dar o prêmio. O que era um carro? Eu comprava, eu fazia contratos com as empresas e comprava 15, 20, 30 carros. Eu não podia ter carnê da Erontex, não tinha e nem comprava. Depois que eu saí da Erontex minha esposa comprou, mas eu não tinha na época, nem podia ter, de jeito nenhum, era proibido, se pegasse o funcionário com o carnê era mandado sumariamente embora, era despedido por motivo de honestidade. Existia, às vezes, muitas pessoas que eram mesmo sorteadas e não tinham pago o carnê, então isso aconteceu dezenas de vezes e a pessoa procurava um gerente de banco porque como o programa era domingo ou a loteria era sábado e não tinha pago, ele precisava pegar um gerente de banco que carimbasse com a data de sábado ou sexta-feira o carnê dele, que ele tinha pago. Nos trabalhos de gincana formava-se equipes e davam determinadas tarefas para as equipes fazerem, como buscar espada, aquela bobagem toda. Quando chegamos em Porto Alegre sentimos que o clima estava de uma euforia. Começou a ser feito dentro de um teatro mas o número de pessoas querendo assistir era tão grande que fomos obrigados a transferir para uma praça pública. Terminou às dez horas da noite, mas mexeu com Porto Alegre, foi uma barbaridade de promoção, acho que foi a maior promoção que fizemos com sucesso de vendas e de público de toda televisão. Mas foi muito trabalhosa, os fiscais eram o pessoal da cidade, confiança dos homens públicos da cidade, um grande evento esse. DISTRIBUIÇÃO O CID, que ainda existe hoje, vende calçados, cama, mesa e banho. Nasceu de uma ideia do Eron de fazer as indústrias venderem mais barato, diretamente da indústria para o consumidor. Então, ele montou o CID, que era Centro Industrial de Distribuição. Então as indústrias punham os seus produtos em um tipo de banca de feira mesmo, era um armazém que tinha na Barra Funda, na Avenida Pacaembu. O galpão, um depósito de sacarias, era enorme, devia ter seguramente uns 800 a mil metros quadrados, então punha banca, um cavalete, negócio de banca de feira, punha um monte de roupa, não tinha luxo nenhum, mas era barato e para esse evento foram convidados alguns ministros, foi uma grande promoção em São Paulo e ficou famoso. O Eron começou a pedir para abrir o comércio aos domingos à tarde e era grande o número de pessoas que iam para comprar porque a gente não comprava das indústrias, elas davam em consignação para a gente, era a fábrica que vendia lá, as indústrias que queriam participar podiam entrar lá. A clientela era de todo tipo, classes A, B e C, as indústrias, Artex, Teka, tudo de cama, mesa e banho estavam lá, e tecidos, Santa Branca, Santa Isabel, e também confecções, a José Paulino queria ir lá porque sabia que vendia mesmo. Uns quatro anos depois que eu saí ele fechou a empresa, ele não soube escolher os homens e eu estava cansado de lutar contra a maré, gastar mais de propaganda do que a venda. Ele era um homem de promoção, achava que propaganda então era um negócio, aparecer, então tudo que era oportunidade ele não deixava de aparecer, mas isso custava muito dinheiro e ele também tinha muita vontade de aparecer nas colunas sociais. Gastou com colunista social. SAÍDA DA ERONTEX A cada novo tecido que era lançado, o presidente da empresa dava para os gerentes e para a diretoria, todo mês ele dava dois, três, quatro cortes de tecidos. E mandava um alfaiate ao escritório tomar a medida da gente, então a gente tinha dois, três ternos, quatro ternos, todo mês. Eu cheguei a ter mais de 120 ternos, não tinha mais onde por terno, vestia os ternos para aparecer na reunião. Era um capricho dele, a gente andava realmente bem vestido. Também pudera: dava o tecido de graça, camisa era fácil comprar, a gravata também. O dia que chegasse ao topo de uma empresa, presidente, pararia de trabalhar e na Erontex já tinha atingido o máximo. Estava desgostoso porque chegava no final do ano nunca tinha dinheiro para distribuir para a diretoria, para os meus gerentes, de prêmio, tudo porque era investido muito em propaganda, então, um pouco cansado disso pedi demissão. Eu fiquei dois anos, ele rasgou umas oito cartas de demissão minha, eu entregava a carta, ele rasgava, eu dizia que entregaria outra. Até que registrei uma carta no cartório, o cartório foi entregar para ele, essa ele não pôde rasgar, teve que pegar a carta, mas pediu que eu ficasse por mais seis meses. Disse que ficaria até que ele arrumasse outro homem para eu treinar e por no meu lugar, me substituir, mas iria sair. Ele me ofereceu um cheque, mas falei que não queria, estava saindo por princípios e não por dinheiro. Depois que saí me ofereceram sociedade em uma indústria de pesca, eu fui para o canal da Bertioga fazer sardinha, filés de anchova e sardinha enlatada e por lá fiquei também dois anos, passei para um ramo completamente diferente, mas eu sabia administrar, e no meu caso era saber administrar, e o que eu gostava. Fiquei dois anos e pouco, mas também saí e organizei tudo, não queriam crescer, eu queria exportar sardinha e a anchova, era muito trabalho e não queriam fazer isso. Saí porque tinha vontade de crescer. Larguei tudo e comecei a fazer assessoria de empresa, que é o que eu faço até hoje, organizar empresas que estão com problemas de estrutura, quer financeira, quer de pessoas, quer funcional, problemas funcionais, tudo. Qualquer tipo de empresa porque trabalhei em muitas. Até pouco tempo eu entrei em uma indústria de laticínios, de muçarela, de queijo, porque tinha visto isso, aí entrei, em Guarulhos. Fiquei lá um ano e pouco para organizar a empresa, eles têm uma indústria em Minas, não me lembro da cidade. Também organizei banco de sangue em hospital, em São Paulo. Era responsável naquela época por cerca de 80% do sangue de São Paulo. Eu me adapto a qualquer tipo de produto e é fácil porque gosto, precisa gostar do que faz. Gosto de coisa nova, para aprender mais, com toda a idade que eu tenho eu gosto de aprender, gosto de ver produto novo. É sempre um novo desafio, quanto mais idade mais você precisa ter esse desafio. MUDANÇAS NO COMÉRCIO O que mais modificou no comércio esses anos todos, sem dúvida nenhuma foi a propaganda, principalmente de televisão, e a evolução que teve o próprio empresário de criar promoções, prêmios e estímulos para se vender. Além disso, o balconista de antigamente era rigorosamente treinado para atender a clientela. Hoje você encontra muito balconista bom, mas encontra muito mal atendimento. Não é tão atencioso, tão delicado como era naquele tempo. CONSUMO E LAZER Eu sou comprador de tudo, mas o que eu mais gosto de comprar é roupas para mulher. Depois que noivamos, minha mulher nunca mais comprou nada para ela. Eu comprava tudo. Eu trabalhava em loja de departamento, tinha facilidade e vivia no centro. Por uns dez anos acho que todo dia eu levava um presente para minha mulher. Eu me lembro até hoje de quando eu entrei na loja Cisne, que era na Praça do Patriarca, e pedi calcinha para mulher. A moça fugiu da minha frente. Precisou vir uma senhora, que devia ser a gerente,e me atendeu. Até isso eu comprava e levava para ela. Eu não gosto de supermercado. No começo eu ia porque era rápido, era fácil comprar, não tinha muita gente, não tinha fila. Mas agora não, é muito cansativo Se eu entrar e for pondo no carrinho o que me da vontade, daí eu gosto, mas comprar para minha mulher não da, ela começa olhar preço e marca aí não da.Hoje só vou ao supermercado por causa da saúde dela e se o dinheiro da, eu compro para três, quatro meses, pra pôr em casa e ficar sossegado, não ter que voltar. Também não gosto e não tolero feira, apesar de ter ido algumas vezes com ela, por ser obrigado.Eu saio da feira azucrinado. Hoje eu faço assessoria, 90% do trabalho eu faço em casa, os mapas e controle eu trago para casa, examino, dou novas ideias de organizações. Uma ou duas vezes por semana vou nas empresas, dou uma olhada. Agora, a diversão é andar no parque, nadar. Eu gosto muito de nadar, apesar de gordo e tudo. Também sou vidrado em gravar vídeo, orquestra sinfônica, jogo, esporte, gosto de gravar filme e música, o resto não. Não gosto de programa de auditório, isso eu não consigo ver. SONHOS Eu tenho pensado que com 70 anos, por que eu não fiquei rico trabalhando oquanto eu trabalhei? Eu trabalhei sempre um mínimo de 12 horas.Então eu me pergunto se eu errei em alguma coisa. Eu podia até ganhar dinheiro sendo desonesto, sendo um pouco maleável, talvez tivesse enriquecido. Mas eu acho que é uma coisa que vem de infância, é um negócio que vem por dentro, é uma escola em que você aprendeu, mais da mãe do que do pai. Eu acredito que a mãe é quem traça o caráter da criança. Eu acho que eu não mudariaporque eu construí uma família. Riqueza eu não tenho, mas tenho uma família, tenho quatro filhos que são homens, que se casaram.Eles se reúnem, os quatro, uma vez por mês. As mulheres não participam dessa reunião, nem pai e nem mãe. Eu sei que um troca ideia com o outro e um ajuda o outro, e isso é muito gostoso, é muito gratificante ter quatro filhos desse quilate. O sonho que eu não realizei, não caberia a mim, caberia a Deus, ter uma filha. O outro seria ter uma casa de campo e uma casa de praia, ou de campo ou de praia, ou os dois, se possível. Eu comprei um terreno em Campos do Jordão, num morro, uma coisa fabulosa, levei anos indo de madrugada e vendo o amanhecer, entardecer. Comprei também um terreno em Suarão, perto de Itanhaém, fiz até projeto da casa. O melhor projetista de casa fez isso aí, eu paguei 20 mil cruzeiros pelo projeto. Mas não veio o resto, foi uma desilusão na minha vida, não consegui construir. Depois acabei vendendo para investir na educação dos meus filhos, eles foram estudar no exterior, Estados Unidos, Alemanha. Eu investi tudo nos meus filhos, mandei todos eles estudarem e se formarem bons profissionais. Essa foi uma coisa que gostaria de ter realizado, mas agora meus filhos vão completar isso para mim, eu vou para o interior ou vou para a praia. REFLEXÕES SOBRE A ENTREVISTA Para mim isso aqui é gratificante, eu ter transmitido a vocês toda uma vida de um trabalho gostoso, feito com satisfação. Só o contato, esse convívio com vocês foi muito gratificante mesmo. Tomara esse trabalho frutifique, porque outras pessoas poderão ter essa alegria que eu estou sentindo hoje, é uma satisfação muito grande.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+