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O gaúcho e o guaraná de Maués

História de: Silvio Proença da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/02/2008

Sinopse

O gaúcho Silvio Proença da Silva precisou se deslocar de uma ponta a outra do Brasil para se encontrar: da região de Esteio, onde nasceu, no Rio Grande do Sul, mudou-se antes dos 20 anos de idade para Manaus, no Amazonas. Apesar de um breve momento de saudade, em que permaneceu por um ano na terra de origem, passou a maior parte de sua história na Região Norte. Sobre ela, Silvio fala de duas fases importantes. A primeira, quando trabalhou por quase oito anos numa grande construtora, e a segunda, quando decidiu morar em definitivo na cidade que há tempos o encantara, Maués. Foi ali que ele desenvolveu o “turbinado”, uma bebida orgânica e energética, de guaraná e mirantã, que passou a comercializar em feiras e festas. 

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História completa

O meu nome completo é Silvio Proença da Silva, eu nasci em 1960, na cidade de Esteio, na Grande Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Eu nasci em Esteio, na Grande Porto Alegre, fui criado em Sapucaia, ao lado, e estudei em São Leopoldo, no primeiro, no segundo grau, e depois em Porto Alegre, na faculdade.

Como meus pais eram separados, eu tinha um tio que eu adoro muito, adorava, porque já faleceu também, tio Gilberto. E eu me lembro que ele me levou a primeira vez no Estádio dos Eucaliptos. E o ingresso era uma saca de tijolo. Então, nós pegamos aquele monte de tijolos, que era para construir o Beira-Rio. E aquilo me marcou muito, no Estádio dos Eucaliptos, aquele jogo, Internacional Futebol Clube. E o Grêmio já existia, então já estava lá com o Olímpico. E de fato o Inter também era um time do “povão”, onde a massa jogava. E eu nunca me esqueço desse jogo que a gente foi nos Eucaliptos assistir e depois ele me levou na inauguração do Beira-Rio, aquele estádio bonito. E que hoje é o orgulho de nós todos gaúchos, principalmente dos colorados. Mesmo estando distante.

Eu abandonei o colégio no terceiro grau incompleto e vim para cá com essa ânsia de vir para a Amazônia, não sei de onde que vinha isso. Eu vim para Manaus, eu vim, na época, para trabalhar numa construtora, uma grande construtora. Meu primeiro emprego aqui no Norte foi a Construtora Andrade Gutierrez. Para mim, que estava saindo de uma escola técnica de desenho, era fundamental trabalhar ali. Eu queria era vir para cá. E a construtora tinha isso, não era trabalhar um ano e ir embora, pelo contrário, ela fazia com que tu ficasse, trabalhando, trabalhando. Fiquei sete anos, quase oito anos na construtora. Aí depois eu voltei. Eu queria voltar para o Sul. E isso aí é uma coisa que, depois, eu conversando com a maioria das pessoas que migravam que nem eu, tem uma fase que dá uma vontade de voltar. Cheguei, fiquei um ano e pouco lá e não aguentei.

Eu resolvi voltar para o Amazonas. E aí eu não vim para o Amazonas empregado. Eu pude sentir, comecei a sentir a burrada que eu tinha feito. De ter saído daquela estabilidade. Morava numa vila inclusive, da construtora. E saí. Nessa época, eu comecei a trabalhar como freelancer. Desenhava para as construtoras, fazia alguns projetos.

Teve um amigo meu, hoje ele está em Natal, tem uma pousada lá. Ele morava aqui na Ilha de Vera Cruz. Veio conhecer Maués, ele conheceu a Vera Cruz e ele voltou e disse assim: “Silvio, eu vou morar lá.” Aí eu digo: “Tu tá brincando, bah, que negócio é esse?” E esse Rogério é interessante, ele é do Rio Grande do Sul, é de Novo Hamburgo, uma cidade calçadista. E ele também, quando ele fez 18, 20 anos, desligou a máquina em que ele estava trabalhando, a máquina de calçado. Foi lá no centro do pessoal, disse: “Olha, eu quero minha demissão!” “Mas tu é doido rapaz, está aqui em Novo Hamburgo, a cidade está crescendo, a cidade têm vários pedidos de calçado.” Ele disse: “Não, eu quero viajar.” Aí viram que não tinha jeito, deram a conta dele. Acho que até por isso houve essa união, o fato de ser gaúcho. Então, até é uma história parecida. E ele veio conhecer Maués. E veio para cá, e eu vim visitar ele. Como eu era freelancer, eu tinha essa facilidade, eu trabalhava quatro meses, seis meses num projeto. E ficava dois, três meses parado, pegava outro. E digo: “Pô, vou visitar o Rogério.” Quando eu cheguei, que eu visitei o Rogério, eu não fui mais embora.

A cidade, na época, só para ter uma ideia, eu avisava que eu vinha era pelo rádio. Tinha uma rádio cabocla, avisava: “Olha, por favor, avisar a Ilha de Vera Cruz, a quem ouvir este recado, avisar para o Piró que o Silvio está chegando no barco tal.” Aí ele ia lá, com o São Pedro, nunca me esqueço, um barquinho todo de palha. E eu ficava lá, devido a essa facilidade de trabalhar como freelancer, eu ficava dois, três meses. Aí vinha, plantava o próprio aipim, que é a mandioca. Plantava, colhia, fazia o arroz de carreteiro, vinha aqui. Era muito bom.

Como aquilo que eu te falava: “Olha, quando eu me aposentar, eu vou aí para Maués.” “Quando eu me aposentar, eu vou ir para Maués.” “Quando eu estiver ganhando bem, eu vou ir para Maués.” Nem me aposentei, nem estou ganhando bem, e vim para cá. Aquela coisa de tu estar postergando. E não tem aquela coisa de tu ficar postergando a vida toda? E, às vezes, a vida passa, tu está com 80 anos e tu diz: “Puxa, eu não fiz nada daquilo.” Porque, para o ser humano, parece que postergar faz parte da cultura dele. E principalmente nós, brasileiros. E foi quando eu disse: “Não, vou largar tudo e vou vir para cá.” E larguei tudo e vim para cá em 89. Tive felicidade de ser acolhido. Porque, quando tu nasce num lugar, é bom, claro que é bom. Eu nasci na minha terra, adoro. Agora, quando tu é acolhido, tu é aceito, como a gente foi aqui. Bah!

O turbinado é o seguinte: ele já existia, só não tinha esse nome. Mas já existia, que era a mistura do guaraná com mirantã. Só que as misturas, na época, elas eram misturas que não tinham muito a ver. Por exemplo, eles colocavam canela em pó. Então, como é que tu vai fazer um energético: o guaraná, que é um estimulante, com a canela, que é um calmante? Então, a gente foi colocando, tirando um pouco daqui, um pouco dali. Hoje a gente coloca muito pouquinho amendoim, que é justamente por ser calórico demais. O leite, a gente já diminui um pouco, que é por causa da lactose, que a lactose é problemática. Enfim, a gente foi dando aquele toque. Acertando algumas coisas, como o “suco do amor”. Por quê? Devido a essa junção do guaraná com o mirantã. Então, o guaraná por si só, que já é um energético, é cafeína. A gente costuma dizer: “É o Viagra do índio.” “É o Viagra.” Não tem aquela função imediata por quê? Porque tudo que é natural, tudo que é homeopático, ele leva tempo.

O turbinado é diferente porque, como a nossa função é energizar a pessoa, é deixar a pessoa ligada, deixar a pessoa acordada, nós só usamos esses dois tipos de coisa: o guaraná e o mirantã. São dois bioativos extraídos da floresta. Quer dizer, é de forma tradicional, direitinha. Faz cinco, seis, sete anos, desde que eu estou aqui, que a gente está fazendo essas feiras e vendo esse resultado dessa coisa que é a mistura isotônica que a gente mistura ali.

E, quando a gente trabalha com mercado, com um produto que é ecologicamente correto e justo... Bah! Sustentável. Quer dizer, aquilo parece que te dá mais vontade de continuar. Eu, quando eu chego de uma feira, que eu encontro as pessoas que me vendem os grãos, ansioso para saber se eu vendi dez quilos, se eu vendi 100 quilos, se eu vendi 400 quilos, quando a gente vê esse brilho no olho do guaranalista, do caboclo, minha Nossa Senhora! É fantástico! Porque eu estou como beneficiador, eu não sou produtor. Eu compro dele, passo essa reciclagem que a gente, às vezes, aprende lá fora. Eu fui aprender tudo sobre o guaraná orgânico. Então, é tão bom quando tu engloba essas três coisas: o social, o econômico e o ambiental.

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