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História

O filho que nasceu para ser trabalhador

História de: José de Almeida Melo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Lembranças da infância e da relação com seu pai. O ingresso no Grupo Escolar e a experiência como telégrafo. Aprendizado na fundição e o convite para a construção do barco. O trabalho na oficina e na contabilidade. Início do emprego na Vale. A relação com a família e o trabalho do pai. A dupla jornada com trabalhos extras.Ida para Vitória e nomeação para contador geral. O cargo de superintendente. Trabalho como advogado.

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História completa

P/1 – A primeira pergunta que eu vou fazer para o senhor é pedir para o senhor se identificar, nome completo, data de nascimento e local de nascimento.

 

R – Bom meu nome é José de Almeida Melo, nascido em 24 de março de 1932, na cidade de Abaeté em Minas Gerais.

 

P/1 – O nome dos pais do senhor?

 

R – Pai é José Elias de Almeida e Ercilia ______ italiana.

 

P/1 – A família toda é de Abaeté mesmo ou o senhor sabe qual que é a origem da...

 

R – Não. Minha mãe nasceu em Itapecerica, meu pai em Santa Rita do Sapucaí, eu em Abaeté e ele era agente de estação ferroviária, então ele praticamente mudava todo ano. Para lhe dar uma ideia, nós somos 14 irmãos, éramos que alguns já faleceram e não tem nenhum do mesmo lugar. Cada um nascia em lugares diferentes. Então ele mudava demais. Os primeiros três irmãos eu não conheci, eu fui o oitava filho, sétimo filho aliás, antes todas eram mulheres eu fui o primeira homem e segundo consta meu pai até chorou muito quando eu nasci porque veio a imagem no ato dele, ele quis me vir puxando uma carroça, achando que eu fosse ser um carroceiro. (risos) Não cheguei a tanto mas passei os meus pedaços por aí. Me lembro, meus primeiros tempos eu já tinha aí meus quatro ou cinco anos, minha primeira imagem que eu tenho assim mais antiga é vindo de uma pescaria com meu pai, cansado da pescaria, então ele disse: “Então faz o seguinte já que você está cansado, eu lhe carrego, mas você carrega as varas.” Então eu fui carregando as varas e fui no pescoço dele pendurado, não é, ele segurando meus pés, essa a imagem mais antiga que eu tenho do meu pai. Como eu era o único filho homem e ele, aquela tradição antiga, menino não podia brincar com menina e etc. e etc. eu vivia muito mais em torno dele eu era tão agarrado a ele que ele ia pro banheiro eu ficava na porta do lado de fora esperando ele sair. (risos) E nós... Essa passagem da pescaria era em Engenheiro Berredo, uma estação pequena perto de Itapecerica. Então em função do que eu estava dizendo eu vivia muito em torno dele e lá era uma estação de pouco movimento eu com cinco anos, seis anos já sabia ler e escrever já lia jornal, já fazia as quatro operações então aquilo pra ele era uma vantagem imensa falar que naquela idade já sabia ler e escrever. Todo mundo que chegava em casa, ele mandava ler alguma coisa... Eu adoeci nessa época e me lembro médico insistir pra ele que eu não podia ver lápis na minha frente por um ano ou dois, lápis ou caneta, porque eu tinha que brincar e não ficar escrevendo, lendo, ou estudando. E nessa época eu me afastei um pouco do aprendizado mas chegou aí os sete oito anos tive que ir pra escola. Aí meu pai falou assim: “Vou ter que levá-lo para um local que tenha grupo...” Porque antigamente só tinha aquela escola rural de terceiro ano e até lá  eu já  sabia, não é? Então fui estudar em Itapecerica. Lá minha avó comentou com a diretora que já ler, escrever, etc. a diretora falou assim: “Vamos fazer um teste pra ver se ele pode ficar no segundo ano ou no primeiro” Aí fez pro segundo ano, aí: “Não vamos fazer teste pro terceiro ano.” Então fiz o teste pro terceiro ano, aí minha avó não quis que eu ficasse no terceiro ano porque diz que eu era muito pequeno pra ficar no meio de muitos marmanjos , e tal, marmanjões então que eu ficasse no segundo ano mesmo. “Não tem problema não.” Deixei de entrar direto no terceiro ano pra entrar no segundo, não é? Depois meu pai mudou-se dessa estaçãozinha em Engenheiro Berredo e foi pra Leandro Ferreira que era um arraial que já tinha Grupo regular etc. Então eu voltei a morar com meus pais e lá eu fiquei aos dez anos pouco menos de onze, tirei o Grupo quarto ano. Meu pai disse: “Agora você saiu da escola, você tem que aprender a trabalhar com a Rede. Você tem que aprender telegrafia.” Então me ensinou telegrafia, e eu ali aos dez, onze anos doze anos com os outros trabalhos, na medida que ele me ensinava a fazer um trabalho ele deixava de fazê-lo, não é, então eu fazia despacho recebia telegrama, passava telegrama circulares, etc. e fiquei no aparelho ali até os 13 anos e meio e ele não queria que eu fosse empregado da Rede na época, ele achava que a Rede estava assim em decadência que era melhor eu procurar uma outra coisa pra mim. Eu até não queira porque na Rede eu já  sabia o que tinha que fazer, não é,? “Não, você vai estudar em Itaúna.” Então  eu fui pra Itaúna, lá fiz um exame de admissão que é um exame que existia na época, hoje acho que não existe mais, não é, pra passar do Grupo pro Ginásio a gente tinha que fazer o exame de admissão, eu fiquei lá  estudando uns oito meses. Estudei e fui morar com a minha irmã que era casada, mas não deu certo. Porque minha irmã quando saiu de casa ela era mais velha ela exercia uma liderança sobre os irmãos e eu cheguei e ela quis exercer essa mesma liderança, liderança essa que eu não conhecia porque quando ela saiu eu era muito pequeno. Então  nós tivemos atrito aí: “Olha meu pai, é melhor o senhor tirá-lo daqui porque não está dando certo.” Ele queria me mandar para um internato em Parada de Minas mas quando eu estava com ele na estação ferroviária pra ir embora pra Parada de Minas, meu tio que era gerente de uma fundição, tinha morado com meu pai logo que ele, que meu pai se casou. Então ele disse: “Não, o seu filho não vai sair daqui não. Morei com vocês quanto ou seis anos, está na hora de eu prestar o mesmo favor a vocês. Deixa que ele mora aqui comigo, continua estudando aqui.” Meu pai concordou, mas eu falei com meu tio: “Olha meu tio, eu fico se o senhor me arrumar emprego na fundição.” Porque ele era gerente da fundição. Eu não queira ficar a toa já tinha aí os meus 14 anos. Então: “Tá bom você mora comigo e vai trabalhar na fundição.” Mas na fundição a gente com aqueles trabalhos de faxineiro, esmerilhador, menino que não sabia fazer nada, fazia qualquer coisa, não é, então a gente chegava muito sujo em casa e eu um dia ouvi a minha tia reclamando que a minha roupa estava encardindo a roupa da casa, aí eu cheguei perto do meu tio e pedi pra que eles me deixassem dormir nessa fundição, Fundição  Planeta.  “Mas por quê ?” “Nada não, eu quero ficar lá porque de lá eu saio do Ginásio está pertinho aí eu...” “ Tá bom você que ir dormir lá pode ir pegar uma cama aí e vai dormir lá na fundição.” Então passei a dormir na fundição e trabalhar... Fui aprendiz de torneiro lá  trabalhei uns três anos, saí de lá torneiro. Eu achei que não tinha mais o que aprender naquela empresa, aí apareceu uma vaga de torneiro numa outra firma grande, chamava-se Conrado S/A, eu fui lá fiz teste pra torneiro, passei, ele dispensou da Planeta e fui trabalhar nessa Conrado. Nessa Conrado eu conheci um diretor técnico lá, era um alemão que era padre e diretor técnico. Era jovem, tinha sido inclusive piloto de aviação na guerra e tal, eu como tinha sido telegrafista tinha hábito de pegar a régua, uma régua metálica, enquanto o torno estava dando o passo que era automático, punha a régua ali e eu ficava batendo telégrafo, tec, tec, tec. E esse padre passou perto de mim, ouviu aquilo: “Onde você aprendeu isso?” “Aprendi de menino com meu pai e tal.” Contei a história pra ele, e a partir dali ele ficou mais chegado a mim, todas as vezes que passava por mim, brincava comigo, até que ele um dia falou assim: “Vem cá, você não quer fazer uma viagem comigo não? Largar esse negócio de torno e viajar?” “Mas viajar como? “Eu tenho um projeto de fazer um barco e viajar depois. Montava a gente... Primeiro vai fazer o barco depois fazer uma viagem com ele pelo Amazonas afora e tal fazer filmagem para aqueles jornalzinho que vinha antes dos faroestes antigos passava um filmezinho...A gente vai fazer aquela filmagem etc.” “Mas eu estou estudando e tal.” “Não faz o seguinte, no período em que você estiver comigo nós vamos gastar uns dois anos na viagem eu te ensino inglês e alemão. Se você nos dois anos aprender inglês e alemão você vai ganhar muito mais do que como torneiro.” “Então é uma boa ideia.” “Então eu vou falar com seu pai se ele deixar, você topa ir?” “Topo.” Ele falou com meu pai, meu pai não fez restrição, achou que era uma boa ideia, me liberou, eu saí do Ginásio, fomos fazer o barco. Gastamos uns sete meses fazendo o barco.

 

P/1 – Construindo o barco?

 

R – Construindo o barco. Ele mesmo projetou pegamos lá um outro soldador, um outro ajudante e nós fomos. A gente ficou uns sete meses, cortava as chapas, soldava, fazia, um barco de 13,5 metros de comprimento, 2,5 metros de largura, tinha cinco _______ flutuantes, movido de três formas. Ele tinha um mastro de 10 metros de altura, com vela, não é, tinha um motor de caminhão de 100 cavalos que a gente dizia HP, com a hélice dentro da água e tinha uma torre com motor de avião também com motorzinho de avião puxava o barco. Bom no decorrer desses sete meses, esse padre teve que desmontar o barco e montá-lo na Pampulha em Belo Horizonte pra fazer exposição para o representante da Marinha que na época a Marinha lá era representada pela Exército se não me engano. Então tivemos que desmontá-lo, montamos o barco na Pampulha ficamos lá uns dois meses tendo a exposição etc. e no final o padre não teve a concessão, autorização pra viajar. Se desesperou quase se apaixonou e por quê que ele não foi?  Ele tendo sido padre, tinha sido padre em Uberlândia e ele tinha uma estaçãozinha de rádio amador e na época os alemães sofreram um pouco de pressão logo após a Guerra, eu estou falando de 1946, 1948 por aí ele... Foi movido contra ele um processo de espionagem do qual ele se saiu livre porque aquela estaçãozinha dele alcançava 2, 3 km era coisa amador mesmo, com aquilo ele não fazia espionagem em lugar nenhum. Mas o certo é que ficou o processo registrado, ele tendo saído livre, mas ele não conseguiu a autorização. Então acabou ficou frustrada a minha viagem, sete meses de trabalho, nem alemão nem inglês. Aí fui, peguei o meu calibre, fui morar no porão de um prédio onde ele tinha oficina em Belo Horizonte. Ele me chamava de meu ‘pé de feijão’. Ele: “ Olha você querendo, fica morando aí no cômodo aí, alugado em cima, você fica onde era oficina e pode procurar emprego, você fica à vontade.” Pus o calibre na correia e fui procurar o  emprego. Passando pela... Em frente a oficina lá, parece Avenida Oiapoque se não me lembro mais, se eu não me engano, eu vi dois tornos parados lá um funcionando e um parado. Aí eu perguntei, fiquei parado olhando assim, assim ainda meio inibido, garoto de 16 anos e tal. Aí chegou pra mim o mecânico, chefe da oficina, chegou assim escuro de óculos, gostava de um óculos: “Que você quer menino?” “Eu estou procurando emprego.” “De quê?” Aí também veio chegando o italiano que era o dono da oficina. “Eu quero emprego de torneiro.” Aí o italiano fumando seu cigarrinho perguntou pra mim: “Mas pra quem você quer pra você ou pra seu pai?” “Não é pra mim mesmo.” Aí o chefe da oficina: “Então você não quer o serviço pra torneiro você quer serviço é pra ajudante de torneiro.” Fiquei chateado com aquilo: “Não senhor, eu estou pedindo pra torneiro é porque é pra torneiro.” Aí ele disse: “Além disso é malcriado.” Aí o italiano: “Não, eu gosto é de menino que fala o que pensa mesmo. Você é torneiro?” “Sou.” “E onde você trabalhou?” “Conrado S/A .” “Então você conheceu lá o padre Oscar?” “Conheci. Ele era o diretor técnico lá.” “Você trabalhou com ele?” “Trabalhei com ele.” “Quanto tempo?” Contei um pouquinho do tempo do barco e tal. “Você quer fazer um teste no torno que está parado?” Fui aí fiz o teste passei e tal. Aí ele perguntou: “Quanto você quer ganhar?” “Olha eu preciso de dinheiro pra pagar o quarto pra dormir, pensão e voltar pro Ginásio que eu preciso...” Ele disse: “Olha aquele torneiro ali ganha 5,50 cruzeiro, sei lá a moeda da época por hora, mas eu te pago 5 reais, cruzeiros por hora. Tá bom pra você?” Aí perguntei pra ele: “Dá pra comer e dormir e ir pro Ginásio?” Ele: “Não, não precisa de pra dormir você não vai pagar nada.” “Mas como eu tenho que sair lá da casa do padre.” “Nós estamos mudando daqui, vamos mudar pra Augusto de Lima e lá tem dois quartos, um vai ser o almoxarifado e o outro você pode morar lá.” Eu disse pra ele. “Mas o senhor tá me conhecendo agora, vai me deixar dentro da oficina?” Ele: “Olha, se você trabalhou com Padre Oscar, gosta dele, chato como ele é, você deve ser um menino muito bom.”(risos) “Pode morar lá.” Eu fui lá saí do quarto dele já fui pra oficina morando, uma beleza fiquei de 1950 até 1954 lá nessa oficina, passei a chefe de oficina depois, etc. Teve um ano de intervalo nisso porque fui convocado pelo Exército em 1950, pro Exército. Aí no Exército fiz curso de cabo rádio-telegrafista foi fácil pra mim porque já era telegrafista. Passei a cabo com quatro meses, de 90 mil réis, reais por dia, cruzeiro por dia, por mês, não é, passei pra 900, ainda tinha o quartinho na oficina porque Sábado e Domingo era onde era a minha casa, não é, meus pais não moravam lá. Bom, saí do Exército voltei pra oficina e em 1954, 1953 por aí eu ganhava 2200 cruzeiros por mês e o salário mínimo passou pra 2200 cruzeiros por mês. Eu estava fazendo o penúltimo ano em técnico em Contabilidade, então pensei assim é a oportunidade que eu tenho pra mudar de profissão ou eu mudo agora ou não mudo mais porque eu já estava acostumado a viver com 2200, então vou mudar. Aí pedi pra sair, o dono da oficina: “Pelo amor de Deus, você não vai sair eu vou te passar agora por uns 4 ou 5 mil cruzeiros e tal.” “Mas eu, meu pai sempre achou que eu devia ser contador e eu não vou ser mecânico não. Mecânico foi uma passagem boa na minha vida porque me ajudou a chegar até aqui mas eu tenho que mudar. Eu  quero ser contador.” Não teve jeito ele ofereceu outras vantagens, acabei saindo, fui trabalhar num escritório de contabilidade que os meus colegas de colégio já estavam me chamando mesmo pra ir pra lá. Aí eu fui ser operador de máquina de contabilidade, seis meses depois me passaram pra chefe de um setor, chamado setor de análise que era um dos melhores setores que tinha na contabilidade, era o setor responsável por fechar o balancete com todas as análises prontas com as correções etc. e esse escritório tinha por hábito faturar os honorários do escritório só com a apresentação do balancete. Então aquele setor era muito cobrado, porque era dali que saía o faturamento. Aí me dei bem ali. Aí eles precisaram de um elemento pra tomar conta de um escritório que era de uma pedreira, de cujo capital participava o dono do escritório. Ele disse: “Olha, você podia ir tomar conta desse escritório, dessa pedreira pra mim lá. Eu fui. Mas eu não sabia que ele era sócio da pedreira lá. Estava indo muito bem, trabalhando uns oito ou dez meses lá quando essa pedreira financiou uma compra de um caminhão a um motorista, dando a ele 4 mil cruzeiros por mês, mas o resto da receita do caminhão ficava pra pagar as prestações. E esse motorista andou pisando na bola lá e eles quiseram acabar com aquele lá. Eu disse assim: “Vocês não querem fazer negócio comigo? Eu estou noivo, estou querendo, precisando ganhar mais.” Eu ganhava 3 mil  cruzeiros. “Aí você faz o seguinte. Eu faço a escrita da empresa, vocês pagam dez mil. Vocês estão pagando hoje, vocês passam a me pagar 4 mil eu faço a escrita, mas depois das seis horas e eu pego esse negócio desse caminhão aí. Vou ser motorista do caminhão e a receita do caminhão fica 100% pra pagar o caminhão. E eu vou viver do serviço da contabilidade que eu fizer depois à noite, depois das seis horas.” Aí o dono do escritório: “Por mim eu topo, vou fazer isso sim, eu topo. Te ajudo, vamos até gastar menos.” Mas quando ele foi falar com o sócio dele que era o dono do escritório da contabilidade, ele não deixou que eu saísse. “ Não, eu não posso perder esse rapaz não, ele está indo muito bem e você não vai levar ele não, não vai poder fazer isso não.” Aí eu fiquei chateado, pedi conta do escritório de contabilidade e saí da pedreira e não tive o caminhão. Bom mas tinha um senhor lá que era dono de uma indústria de malhas, muito amigo do dono da pedreira, que vivia me pedindo pra arrumar um funcionário igual a mim pra ele. Ele dizia: “Você não tem um funcionário assim igual você pra tomar conta do meu escritório, etc. e tal?” Eu dizia: “Ah é meio difícil, porque tem que unir responsabilidade, dedicação e tal eu não tenho coragem de indicar nenhum não, porque é meio difícil.” Mas como eu saí, estava saindo da empresa, eu disse: “Ah, eu vou lá.” Telefonei pra ele: “Vem cá, você ainda está precisando daquele contador e tal?” “Eu estou sim, muito.” “ Você me disse que se eu arrumasse um igual a mim você disse que pagaria aí uns 3 mil, 3 mil e quinhentos, não é isso? “É 3 mil e quinhentos.” “ Olha eu tenho o candidato.” “Ah mas não é possível! Mas é bom igual você?” “ Não sei se é bom, é igual a mim.” “Então faz o seguinte, vem com ele aqui amanhã cedo. Pode vim?” “Posso.” Aí cheguei lá na firma, eram umas oito horas, cheguei sozinho, ele já estava lá esperando. “ Vem cá, cadê o rapaz, você não ia me trazer o rapaz?” “ O rapaz sou eu mesmo.” “Nossa Senhora, eu não posso tirar você da pedreira, da britadeira. Não faz isso, não. Não te aceito não. O Zé Miguel...” que era o diretor lá “... é meu amigo, não posso...” Aí mostrei a carteira. “Já saí.” “ Por quê que você saiu?” Contei a história, ele ficou chateado de eu ter saído de lá. “ Então está bom, você está admitido. Pode começar hoje.” “Então vamos traçar as regras e coisa. Eu quero o seguinte, eu fico responsável pelo escritório, mas não quero ter horário. Eu sei que eu vou começar as 7 horas, vou largar mais tarde, mas eu quero ter a liberdade de se seu tiver que sair durante o horário não ter problema. Ele: “Não tem problema. Você tem que ter me dá o serviço em dia.” “Tá bom.” Fiz, o sistema dele lá, folha de pagamento, sistema de controle, de produção, etc. ia muito bem, só não me dei com um diretor lá que... Não tenho nada  contra baiano mas, eu não fui com a cara do baiano e ele então não foi com a minha também, a gente vivia em atrito. E eu fiz o levantamento lá da produção dele, tivemos uma reunião onde o presidente disse que a gente tinha que falar o que quisesse de cada setor. Então falou comigo: “O quê que você tem a dizer?” “Olha, o que eu tenho a dizer é que...” Era uma indústria de malhas, não é, “ que o nosso diretor técnico aí tem que fazer uma mudança na sua escala de produção.” Aí o baiano deu até um tapa na mesa. “Que escala de produção, você entende é de contabilidade, não é da minha produção.” Eu disse: “ Não, os dados que eu tenho me mostram que o senhor tem que modificar.” “ Por que?” “ Por exemplo, o senhor tem mil punhos de uma determinada camisa  e tem só 200 costas daquela camisa. Então não adianta ter mil punhos! Quer dizer, está a produção precisando faturar, o senhor com produção encalhada com várias coisas, tem que coordenar isso de maneira que a quantidade de punhos seja igual às mangas, quantidade igual. Não é proporcional a produção, é trabalho...” Aí o presidente mandou que... Estendendo demais a coisa, mandou que mudassem mesmo, etc. que eu estava correto, que ele não sabia que estava assim e que tinha que faturar mesmo, aí o baiano passou a ter raiva de mim mesmo. Pois bem, eu nessa época eu ainda não era contador mas estava no último ano. E eu podia fazer aquela escrita porque eu ainda assinaria aquela escrita do ano com base num certificado provisório que era tido à época, que era possível à época. Então no final do ano em dezembro, um dos professores meus que era de contabilidade industrial, ele dava aula baseado... Deixa eu fazer uma pausa, eu estou falando assim você quer uma... 

 

P/1 – Quando o senhor chegar na Vale a gente retrocede aí...

 

R – Então eu perguntei... Ele tinha sido contador da Vale do Rio Doce no Departamento das Minas em Itabira, então ele conseguiu lá que a Vale patrocinasse uma viagem dos formandos daquele ano, como aliás, ele fazia todos os anos e eu fui nessa turma pra lá. Era um Sábado, Domingo a gente ia passar em Itabira e nessa época a gente gastava umas oito horas de viagem, porque era estrada de terra, não é, hoje gasta-se de Belo Horizonte a Itabira gasta uma hora de viagem. Mas aí passamos Sábado, Domingo e no Domingo que teve a exposição lá, o contador fazendo exposição pra nós alunos de contabilidade, falando  como é que era o sistema, etc. etc., sistema esse que a gente já sabia que era o da contabilidade industrial que o professor dava aula com base naquilo lá. Aí ele saltou uma fase de produção lá e eu perguntei a ele: “Meu senhor, aí não tem uma fase de produção. O senhor não saltou uma fase aí?” Ele disse: “Qual é?” Eu disse: “ É aquela através da qual o senhor apura os custos das máquinas pesadas, veículos e máquinas pesadas e depois com base em boletim de apropriação onde foi prestado o serviço se faz a apropriação daqueles custos.” Ele: “Muito bem, é isso mesmo etc. Parabéns é isso mesmo.” Tocou o barco. Passado mais uma meia hora de palestra, ele dando por encerrado o assunto, eu disse pra ele: “Meu senhor mas aí também tá faltando ainda uma complementação, não é? “ Faltou?” Olhou pra mim assim não é, “ É aí também está faltando a outra fase, não é?” Ele: “É sim. Qual é?  “ De apuração das faturas finais.” Porque quando a Vale exporta, embarca o navio, ela tem uma análise baseado na qual ela fatura. Mas quando chega no exterior, o comprador lá faz as suas análises e aí então é ajustado o teor do minério, o preço, etc. Ele: “ Muito bem é isso mesmo, é isso que o seu colega explicou aí.” Bom, eu fui embora. Fomos pro baile, etc., no Domingo, o ônibus quebrou no meio do caminho e a gente chegou lá em Belo Horizonte, 4 horas da manhã. Eu não ia trabalhar às 7 horas de Segunda-feira. Aí fui pra casa dormir, naquela Segunda-feira eu não fui ao trabalho e despreocupado porque meu compromisso era ter o trabalho em dia mas não que eu estivesse que estar lá, não é? Aí quando eu cheguei lá no dia seguinte, o baiano tinha deixado uma determinação lá pra eu marcar cartão. Aí eu falei com o rapaz que veio me dar o recado: “Não, não vou marcar o cartão.” “ Mas por que? Tem que marcar pois é ordem.” “É que eu não combinei isso. Meu horário é livre. Eu não tenho que marcar cartão.” Aí o baiano veio atrás: “Pô, mas o senhor não recebeu ordem de bater o cartão? O senhor não bateu.” “Não, não vou bater, eu não combinei.” “Tem que bater.” “Não tenho, eu não vou bater meu senhor. Eu não combinei. Eu bati cartão meus seis, oito anos pra trás na vida. Eu não tenho restrição nenhuma ao cartão não. Mas eu combinei que não teria que marcar.” “ Ah, vai ter que marcar.” “Não vou bater, eu não combinei meu trabalho com o senhor, o senhor é um diretor, mas eu combinei meu trabalho foi com o presidente. Eu não vou bater.” “Ah, vai ter que bater.” Eu falei: “Oh, quer saber de uma coisa? O senhor é o diretor, eu sou contratado aqui há pouco, não vou criar polêmica nenhuma. Eu vou embora. Estou com a minha carteira, vou dar baixa na minha carteira, o senhor assina e eu vou embora.” Aí peguei minha carteira, dei baixa nela, estou saindo. Eu disse: “Oh, eu vou ligar pro presidente.” Liguei pra casa dele e falei: “Olha, o senhor podia, teria condição do senhor chegar mais cedo no escritório aqui?” “Pra quê?” “Não, é porque eu estou saindo da empresa.” “Saindo por que?” “Ah, tem um problema aqui tem que bater cartão e eu não combinei isso.” “Não, que bater cartão, tem que bater nada, você combinou foi comigo, não vai sair não. Eu estou indo pra aí.” Quando chegou lá eu disse: “Olha não teve jeito não. Eu até já assinei a carteira. O senhor me desculpa mas não vai ter clima pra eu trabalhar aqui. Se eu ficar vai criar um clima desagradável, entre o senhor e o diretor e eu reconheço o meu lugar. Eu é que tenho que sair. Eu não estou combinando com ele, ele não foi com a minha pinta e estou saindo.” Bom, enquanto eu estou falando isso o telefone bate. Era o meu professor telefonando pro meu escritório, lá pro escritório dizendo o seguinte, que tinha recebido um telefonema de Itabira desse tal contador que era Amarílio Domingos da Costa dizendo que precisava admitir, levar pra ele lá um aluno que ele não sabia o nome. “Mas como é que é esse aluno?” “Ah, não sei como ele se chama não. Ele é assim meio arrepiado parece um burro aguado.” Burro aguado é o animal quando está anêmico, fica com o pelo todo... Eu usava o meu cabelo raspadinho e tal, não é? “Parece burro aguado, burro aguado.” (risos) “Parece burro aguado é você, deve ser você.” “Mas o quê que aconteceu com você lá? Que ele me contou um negócio...” “Não, não aconteceu nada.” Aí eu contei aquelas duas fases e tal e ele: “Então é você mesmo. Ele está querendo que você vá pra lá o mais rápido possível.” Eu disse: “Olha mas eu já posso ir de mala e cuia? Ou vou chegar lá ainda e fazer teste, pra ver se serve ou não serve?” “Não, pode ir e tal.” Mas o contador lá tinha falado lá que a companhia dava casa pros empregados, não é, então eu falei assim: “E o salário?” Eu ganhava 3.500. “E o salário?” Ele disse: “É de 4 a 4500.” “Tá bom, não é, quanto ao salário está bom, agora pra ir, eu estou noivo, eu pretendo me casar logo no início do ano eu pra ir pra lá...” Eu já tinha barracãozinho meu em Belo Horizonte, meu mesmo, aí eu falei assim: “Eu só vou se ele me der casa pra morar.” Achei que ele estava interessado, não é? “Só vou se ele der casa pra morar.” “Isso eu tenho que falar com ele.” “Então o senhor fala e me dá o telefonema de volta porque sem casa não tem jeito de eu ir não.” Aí ele telefonou 20 minutos depois eu ainda estava no escritório, o telefone bateu. “Olha, aquelas casas que estão ficando prontas que ele comentou lá, 36 casas, delas já está comprometido, não pode te dar não. Mas daqui a 4 ou 5 meses termina outro conjunto de casa que ele pode te garantir uma.” Aí eu perguntei: “ E eu posso confiar na palavra dele lá, que ele vai me dar a casa? Porque eu vou casar em Abril.” Ele: “Olha, ele manda lá igual... Depois do superintendente ele é que manda. Você pode ir por minha conta.” Então fala com ele o seguinte: “Eu sei lá 20 de Dezembro eu vou passar o resto do ano aqui dia 2 de Janeiro compareço, eu apareço por lá, me apresento.” Assim foi, 2 de Janeiro entrei pra Vale, fiz exame médico e tal, consta na minha ficha, 6, 3 de Janeiro de 1956, mas foi assim que começou. Vou dar uma paradinha pra ver se vocês querem fazer uma pergunta desse trecho aí. Enquanto isso eu tomo uma água. Aí eu comecei na Vale. 

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho. 

 

R – Falei muito depressa?

 

P/1 – Não, está ótimo.

 

P/2- O senhor fez contabilidade em que faculdade?

 

R – Fiz Ciências Contábeis na Universidade Federal do Espírito Santo mas eu tinha feito o curso de técnico em contabilidade na Escola de Comércio Brasileira, aqui em Belo Horizonte. Era na Av. Paraná.

 

P/1 – Eu queria voltar um pouquinho lá para o pai do senhor. Como é que era? O pai do senhor era funcionário da Rede era isso?

 

R – Da Rede.

 

P/1 - Agente de estação.

 

R - Agente de estação.

 

P/1 – E como é que era esse contato? Ele levava o senhor pras estações...?

 

R – A estação tinha casa, a estação era como se fosse o alpendre da casa. Tinha um corredor, tinha uma porta que da estação já passava pra dentro da casa. Eu não sei se você já andou aí pelas ferrovias afora, tem a estação, onde tem um armazém ao lado, normalmente é um armazém para carga e descarga e a casa do agente é anexo ao armazém e a agência é um comodozinho, um terço disso aqui, um prédio só. Então da cozinha pra agência era dois metros, três metros, não é? 

 

P/2 – E a sua mãe como é que ela era?

 

R – Em termos assim de beleza ela era linda! Tipo italiana, minha avó era italiana, ela era brasileira, não é, mas minha mãe era uma mulher bonita, enérgica. Mas enérgica do que o meu pai. Meu pai era o que batia, mas a energia vinha dela. Fazer não fazer etc. E difícil da gente enganar. Meu pai, eu, às vezes, conseguia fazer algumas coisas trapaceadas e não... Dava uma enrolada nele. Mas minha mãe, às vezes, meu pai estava “Que foi isso menino?” Uma arte qualquer que menino fazia da época, não é? “Quê que é isso e tal?” Aí estudava a maneira de contar pra ele, contava e convencia de uma maneira favorável a mim, minha mãe, às vezes, ficava atrás dele e fazia assim no olho pra mim assim, como quem diz...

 

P/2 – Tô sabendo...

 

R – Passava aquilo ali meia hora, uma hora depois, ela: “Vem cá, como é que foi a história mesmo?” “Eu já contei pro meu pai, a senhora não...” “Não eu quero saber a verdadeira, aquela você enrolou seu pai.” Ela era difícil. Mas muito nervosa, teve 14 filhos, não é, cansada, aquilo nascia um por ano. Teve ano de nascer dois, um assim em Janeiro, um em Dezembro. O pessoal antigamente não tinha televisão, não é, morava na roça. (risos) Mas eram todos os dois muito amigos da gente, muito responsável. O legado que o meu pai deixou foi exatamente a honestidade que ele tinha... Pra vocês verem ele morreu em 1995 o que eu mais falava lia ali no, na cabeça do caixão dele, passando a mão nele eu dizia assim sempre o seguinte: “Meu Deus, por mais que eu me esforce eu não conheço, eu não me lembro de um erro do meu pai, eu não conhecia um erro sequer do meu pai, uma desonestidade, uma falta com um amigo, uma falta em casa. Ele era o exemplo da pessoa que eu gostaria de ter sido.

 

P/2 – E ele com os seus irmãos?

 

R – Ah, tudo muito... Bravo como todo pai antigo não é? Da faixa etária sua que antigamente o pau quebrava mesmo, não é, era correada, vara de marmelo e o pau quebrava. Agora a gente sabia o que o pai falava pelo olhar dele, não é, era daquele que não admitia retrucar não. Mas era amicíssimo de todos nós, filhos e muita... Mas era bravo. Pisou fora da linha não admitia, não admitia.

 

P/1 – Que tipo de tarefa ele ensinou para o senhor? 

 

R – Na Rede? Era praticamente tudo o que um agente de estação fazia. Depois vai chegar na frente, na Vale tem uma passagem que eu me vali muito desse aprendizado. Por exemplo, o sujeito chegava na estação e estava fazendo um despacho de mercadoria. Era o agente que tinha que fazer. O guarda-chave pesava a carga, ia lá e dizia: “Olha, é feijão, é arroz, é isso e aquilo. São tantos quilos, tantas caixas, etc.” Então aí ia, passava pro agente, o agente fazia o despacho, cobrava, recebia o valor do frete correspondente e tal. A estação antigamente, nesses lugarejos todos, não tinha correio. Correio era a estação tinha a composição ferroviária tinha um carro, uma parte de um vagão, numa parte do vagão era o chefe do trem que eles falam, aquele que vai ticando bilhete pra ver se tinha comprado passagem e tal estação etc. e do outro lado era o correio. Então o sujeito chegava nas estações entregava aqueles montes de carta para o agente. E o agente ali é que distribuía, ou então... Distribuía não só... A pessoa passava ali, conhecida: “Olha tem essa carta pra fulano, essa pra sicrano, beltrano...” Fazia aquela distribuição. Mas recebia telegrama pro exemplo, tinha que chamar o  médico era o agente não tinha esse negócio de telefone, era tudo Morse aquele de Rede e tal e os fios. Então esse era o trabalho do agente de estação. No final do dia tinha o que eles chama, de fechar o expediente, fazer tudo aquele tipo de receita, demonstrativo de quanto que tinha de carga, de encomenda, despacho rápido, a receita de telegrama que passou, quantos telegramas recebeu, era fechar o expediente. E aquilo era empacotado, ia numa bolsinha lacrada, esquentava o lacre e batia como eram aqueles reis antigos e batia aquele carimbo assim, não é, era assim que fechava. Ele ia com dinheiro e tudo ali dentro pra Rede em Belo Horizonte. Quer dizer ele é que fechava, esse era o expediente. Então agente era isso. Fazer despacho, receber telegrama e vender passagem, pedir licença pra trem. Por exemplo, pra você mandar uma composição ferroviária pra outra, você tinha que telegrafar pra outra pra saber se aquela última composição que tinha saído se já havia chegado, aí o de lá falava pelos códigos, prefixos que tal trem saiu, chegou tal hora etc. que podia mandar. A gente preenchia a licença pro maquinista pra ir de uma estação a outra, ele levava aquele papelzinho que era a licença pra ele trafegar naquele trecho de uma estação pra outra. E você perguntou como é que seu pai era? Eu achava que ele nunca tinha cometido erro nenhum, mas já estou quase pedindo desculpa porque ele me deixava com 11, 12 anos fazer esse serviço pra ele, quer dizer, confiava em mim o suficiente pra fazer mas seria um pouco de irresponsabilidade. Eu hoje não confiaria no meu filho fazer um negócio desses. Eu não sei se é por que eu era mais responsável pelos meus filhos...

 

P/2 – O senhor falou que tinha um filho.

 

R – Eu? Eu tenho cinco.

 

P/2 – Seus pais tiveram 14 filhos...?

 

R – 14 filhos. Eu fui o sétimo filho, primeiro homem

 

P/2 – E cada um dos seus irmãos nasceu numa cidade diferente. Como é que foi a fase da educação, a adaptação nas novas escolas?

 

R – Bom, os meus irmãos assim como os meus filhos, que eu também mudei muito, sempre reclamaram que não tem aqueles amigos de escola, de ficar muitos anos etc. por causa das mudanças que tinha. Mas em parte, ficou suprido porque meus avós moravam em Mateus Leme que era uma cidade maior, e as meninas que nasceram antes de mim, elas faziam até o terceiro ano naquela escola rural, depois vinham pra Mateus Leme ficavam, faziam lá, completavam o curso primário lá. Mas mesmo assim dividia. Aquela amizade antiga de escola, não é, coisa que meus meninos também reclamam porque não tem esses amigos antigos de escola de pegar durante o Grupo e ir até no Ginásio não tinha. Agora sofria muito com essa questão de mudança, não é, mas o ensino antigamente era bem mais simples do que hoje. Hoje ensina-se muito mais coisas com muito menos eficácia, mas é muito mais coisa que se joga na cabeça da criança do que antigamente. Antigamente o importante era saber ler e fazer as quatro operações: subtrair, multiplicar, somar, dividir. Sabendo isso saía lá na frente, era muito pouco ensinamento na época. Mas tinha essa dificuldade de relacionamento quando mudava... Eu mesmo tive de Itapecerica pra Leandro quando eu cheguei a turma era completamente diferente. Itapecerica era uma cidade, Leandro Ferreira era um arraial. Então o nível, a linguagem era completamente diferente mas...

 

P/1 – Por que o agente de estação mudava tanto?

 

R – Normalmente por classificação porque quando a pessoa entra pra Rede nessa linha de agente de estação ele entra como conferente, como se fosse um auxiliar de escritório, não é, ele entra como conferente. Conferente começa a fazer a substituição das folgas dos agentes. Cada dia ele vai para uma estação, dá uma folga naquele agente, fica 24 horas, ia pra outra. Esses eram os conferentes, não é? Até que de tanto ser conferente nas estações apanhava-se prática e habilitava-se a ser um agente de estação. Aí agente de estação ele primeiro ia lá naquele fim de mundo não tinha muito movimento. À medida que o tempo passava e o sujeito mesmo naquela estação pequena mostrava-se eficiente porque não apresentava erros, serviço sempre certinho e tinha... Assim como nas empresas grandes tem auditoria lá também tinha. Na época chamava-se fiscal. Fiscalização chegou! Era da própria Rede, um carro que ia com dois, três especialistas pra fazer verificação, se tudo que tinha passado naquele período se estava correto, não é? Com essas verificações também se avaliava o titular da estação. Aí se merecesse estar numa posição melhor, eles o transferiam para uma estação de mais movimento. Mas aí ganhava uma gradaçãozinha  a mais. É igual exército: é cabo, sargento, primeiro tenente, segundo e vai por aí afora. Então ele mudava por isso porque ele ia galgando posição e ia mudando de estação pra melhor.

 

P/1 – Cada mudança era uma melhora no padrão de vida?

 

R – Padrão de vida porque ganhava mais, sempre ganhava mais um deltazinho. Eis a razão da mudança que também implica em família. Por exemplo, eu não conheço o meu padrinho porque... Meus padrinhos eram sempre os guarda-chaves, fazendeiro da região, depois a gente sumia. Não conheci meus padrinhos.

 

P/2 – E a relação com seus irmãos mais novos?

 

R – Bom de acordo com a idade de cada um, antigamente os mais velhos mandavam nos menores. O menor não tinha muito direito não. Mas eu tinha um problema com as minhas irmã porque... As primeiras eram só mulheres. Meu pai quando viajava, ele tinha mania de falar: “Olha, você é o homem da casa agora. Você toma conta, etc.” Então ele falava que eu tomava conta, eu queria tomar conta e elas não aceitavam. (risos) Então havia sempre um atritozinho, mas que sempre se contornava as coisas. Mas é  sempre amistoso, a gente brigava, briga de menino e tal mas não tinha inimizade entre irmãos apesar de ter 14. Quatorze não chegava a ter mesmo porque uns casaram antes, não é, mas a casa sempre cheia, não tinha muito problema não. Era bom. O relacionamento era bom.  

 

P/1 – Depois que o senhor mudou e foi morar com a irmã mais velha aí...

 

R – Aí é que foi porque ela quando saiu, acho até que lhe falei. Ela quis mandar muito e eu não aceitei. Não aceitei a liderança dela. Me dava muito bem com os filhos dela, me dava muito bem com o cunhado, que até hoje, morreu o mês passado. Ele falava que a minha irmã é que era errada, que era muito geniosa, não sei o quê. Que eu era muito bom. Ele era  seleiro, ia levar almoço pra ele. Chegava lá ficava ajudando na selaria. Eu gostava de trabalhar, não é, pedi pra ser cobrador do clube de esporte que tinha lá pra não ficar a toa em casa. Minha irmã gostava de mandar, eu não aceitava a liderança dela.

 

P/1 – E o senhor com seus irmãos mais novos?

 

R – Eu vivi pouco com eles porque a diferença... Quando eu saí de casa com 14 anos, não tinha nenhum dos homens ainda. Eles nasceram em outra estação depois que eu já tinha mudado pra Itaúna. Então a minha convivência com eles era de quando em férias eu ia em casa. Então a nossa convivência foi muito pequena, muito pequena. Mas eu os adorava. Sempre que eu ia, eles não sabiam nadar, porque menino de roça sempre nadava em córrego, aqueles ribeirões, não é, a gente sempre que ia nadava, ia brincar. Brincadeira de antigamente era coisa completamente diferente das de hoje, nada de computador, jogar bola, jogar peteca, brincava de pique, esconder, caçar, pescar, nadar. Era agradável. 

 

P/1 – Brincava na linha também não?

 

R – Na linha? A gente namorava era na linha! Porque não tinha estrada... Na linha, quer dizer, não era corretamente não. (risos) A gente dava a mão a outra pessoa, menina, ela andava no trilho de lá e a gente no trilho de cá. A gente ia quilômetro pra lá quilômetro pra cá. Namorava assim no trilho, era assim mesmo, não é brincadeira não. Namorava dando a mão no trilho.

 

P/2 – Quando é que começaram os namoricos?

 

R – Ali é que começaram os namoricos. Tinha o negócio de passar anel, não é, o anel você deixava na mão da menina, com quem está o anel, etc. Você brincava com a mão da menina. Ih, por aí afora. Era um tempinho gostoso. Não podia nem ver o joelho das menina que... (risos) Hoje você vê o corpo inteiro e não...

 

P/2 – A vestimenta também era...

 

R – Ah, era _________ lá embaixo, estava tudo tampado. Vestido ia quase no meio da perna.

 

P/1 – E o aluno? Como é que era o aluno Melo? Como é que o senhor era na escola?

 

R – Na escola? Eu achava os menino muito burro, sabe? Porque... (risos) Muito burro, nesse período que eu tinha um domínio maior do Português, da Matemática e tal. Eu por exemplo, menino não sabia Matemática, eu achava um absurdo. Eu aprendi Matemática,  tabuada, que era o horror dos meninos, não é, eu aprendi tabuada contando peixe. Meu pai fazia assim: “Eu peguei quatro peixe, você pegou quantos?” “Eu peguei três.” Então temos quanto? “Sete.” “E se a gente pegasse o dobro?” “Quatorze.” “E se fosse três vezes mais? Po, você pegou três, se você pegasse três vezes mais, quatro vezes mais...” Foi pescando que eu aprendi a tabuada, aquele negócio, aquela doença da tabuada... Não sei se você... Como é que você aprendeu tabuada? Você se lembra de tabuada de... Dois vezes dois igual a quatro, dois vezes quatro, dois vezes três igual a seis, aquela coisa chata, não é? Eu não passei por essa fase, eu aprendi aquilo pescando! Então... Inclusive eu aprendi a nadar também, eu não sei como rapaz!. Não sei como eu aprendi a nadar. Acho que foi tão pequeno que eu já ia pro ribeirão, pra aqueles _____inho vendo aquelas outras coisa que eu aprendi a nadar. Me lembro de uma passagem, que meu pai caçava muito e pescava na época, ele então parou um dia numa pescaria, uma caçada na época, eu ia num toco lá no chão. “ Você fica aí que nós vamos tomar um banho.” Aí eles tomaram. “Você fica com a cachorra...” Que chamava-se, não me lembro o nome da cachorra, Suzete, Zulu, sei lá.... “Você fica com ela aí. E nós vamos nadar. Você não sai não.” Meu pai entrou na água com os outros, foram atravessar o rio, não é, ter uns 40 metros de largura, eu devia ter aí uns seis anos nessa época. Aí o cachorrinho, meu pai entrou, logo que ele entrou o cachorrinho foi também eu fiquei sozinho. “Ah, não vou ficar aqui não.” Quando o guarda-chave olhou pra trás e falou com meu pai: “Seu Zé, seu Zé...” Esqueci de falar eu tinha o apelido de Zé Nosso. “ É o Zé Nosso que vem.” Ele olhou pra trás. “Nossa Senhora! Tá vindo e acaba de chegar. E atravessando do outro lado veio meu pai. “Como é que você aprendeu?” “Não sei ô, eu aprendi? Nadando.” Tinha córrego, ribeirão passava por perto, não é, quando tinha enchente a gente descia na várzea andando, caçando bagre assim no meio dos capim e tal, mergulhava não sei quando eu aprendi a nadar. Não sei nadar direito até hoje por isso. Nado, mas não tenho aquela classe de natação. Mas eu esqueci de falar do Zé Nosso. Era o meu apelido em casa tanto quando eu cumprimento meus parentes todos cumprimentando pelo aniversário, casamento, etc. passa um telegrama e ponho Zé Nosso, porque se puser Zé de Almeida, ninguém sabe quem é, não é? O quê que era? Meu pai se chamava José, eu José, o guarda chave chamava José, tinha um filho que se chamava José também. Chamava Antonio, José, Vicente, esses eram os nomes da época, não é? O fazendeiro que era uns 100, 200 metros ao lado, também chamava José, tinha filho José, empregado José. Então minha mãe, eu saía por ali e tal e ela: “Ô Zé.” Aí todo mundo gritava: “Oi, oi.” “Não, é o nosso.” Aí minha mãe passou a falar “Ô Zé nosso.” Porque já não perdia tempo na comunicação. Então fiquei com o apelido de Zé Nosso por causa dessa história e até hoje em casa é Zé Nosso. Não tem nada de Melo, José de Almeida, é Zé Nosso mesmo. Mas e aí você me fez olhar pra trás e a história? (risos)

 

P/1 – Vamos continuar.

 

R – Não sei se estou te deixando à vontade ou se você está me deixando mais à vontade. Porque eu sou meio relaxado mesmo.

 

P/2 – Queremos deixar o senhor a vontade.

 

R – Eu estou. Fique à vontade.

 

P/1 – Quando o senhor caçava, caçava na região ali?

 

R – Isso é Liliano Ferreira. Não era em Engenheiro Berredo. Caça que tinha lá era paca. Tinha aqueles cachorro, chamava basset, bons para... Cachorro baixinho, não é, parecia até uma _____ os cachorros . Então matava muito paca, capivara, veado meu pai não gostava muito de matar não porque tinha que correr muito, não é, paca e a capivara era na base do cachorrinho que ia lá, latia atrás deles, saía a gente atirava, matava. Era esse tipo de caça. Eu me lembro também uma vez que o meu pai... Eu disse que ele ia pro banheiro eu ia atrás, ele ia caçar não tinha jeito dele não me levar. Aí quando ia andar mais, assim atrás da caça ele mandava eu ficar sentado assim e falou comigo assim: “Você vai ficar com esse facão aqui e a paca vai pular aquele pau ali.” E de fato o animal quando tem muita... Ele tem um local que ele pula em cima daqueles ramos e aquilo fica liso. Então ele disse:“ Olha, vai pular ali. Hora que os cachorros vierem, você fica aí se vier você mete o facão, não é?” Mas eu nunca cheguei a matar nenhuma paca não, ele falava aquilo pra eu ficar atento ali pra não fazer outras besteiras. Era golpe sujo dele. Não vinha paca coisa nenhuma. Mas me lembro, eu tinha meus 4 anos, 5 anos sei lá, eu me lembro... Se eu fosse pintor eu pintaria direitinho essa forquilha lisa assim do bicho pular ali. Me lembro perfeitamente daquilo lá numa cerca de arame. A mente é gozada, não é, outra coisa que eu me lembro de quando pequeno, tinha muito passarinho na época, não é, todo tipo de passarinho de gaiola. Ele mesmo fazia as gaiola com aquelas timbaúba, parece bambuzinho, não é, fazia as gaiola, alçapão, fazia gaiola tipo igreja, eu também fazia a minha, mandava desmanchar porque estava mal feito, tornava , tinha que fazer direito, não é, e aqueles passarinhos todos por ali. Então a gente... Pelejei pra pegar um canarinho chapinha que estava chocando num pé de eucalipto lá, passei o dia inteiro pra cá, pra lá. Aí eu ia o alçapão não estava lá e ele percebendo. “Olha você quer pegar pra quê? A gente já tem aqui, deixa o passarinho chocando lá.” “Não aquele é muito bonito. Ele canta direitinho, eu quero aquele passarinho pra mim.” “Faz o seguinte. Vai brincando lá vê se você pega. Se você não pegar, de tarde eu vou pegar pra você.” Pelejei o dia inteiro. Passarinho ia brigava com o outro na gaiola, mas não caía. Até que de tarde: “Olha, já está escurecendo. Vou pegar ele pra você mas com uma condição. Vou pegá-lo você vai deixá-lo dormindo na gaiola mas amanhã cedinho você solta. Porque a mulher dele está chocando o filhote lá.” “Então vamos embora, o senhor pode pegar.” Aí meu pai foi com o alçapão... Você conhece alçapão de coisa? Ele foi pegou uns três grãozinho de alpiste, pôs assim na ponta onde o passarinho pisa, aí chegou lá, beliscou naquele, comeu um, dois grãozinhos e puff! Foi lá comer o resto, não é? Não é possível, o dia inteiro. Me lembro desse passarinho até hoje. No dia seguinte eu não queria soltar não. “Vem cá eu não combinei com você que eu pegava mas tinha que soltar? Agora não vai querer soltar? “Po papai tão bonitinho, não?” “Solta o passarinho, tem filhote lá pra ele tratar.” Aí abri a gaiola, deixei ele sair, chateado mas deixei sair.

 

P/1 – Quando seu pai trabalhava fica na casa do tio do senhor e resolve trabalhar na fundição? Por que essa decisão de trabalhar naquele momento?

 

R – Porque quando, ainda lá morando em Leandro Ferreira, com muitos filhos, a gente não ganhava tanto assim. Então meu pai requereu autorização para ter uma mesa de café para servir café pros passageiros ali na hora que o trem passasse, não é? Então minhas irmãs tomavam conta desse, vender café ali. Vender café quer dizer, tinha bolo de queijo, biscoito de polvilho e tal, fazia doce. De manhã eu tinha que buscar leite nas fazendas, levar pra fazer aquela coiseira toda e a gente comprava laranja nas fazenda e eu vendia na hora do passageiro passar, do trem passageiro. Então meu pai incentivava que cada um de nós tinha que ganhar dinheiro pra custear a própria roupa, calçado, etc. Quer dizer, ele ensinava isso. “Não, você tem que se virar. Você está crescendo está virando homem, tem que começar a ser virar.” Então eu começava eu vendia o doce, vendia laranja, banana e etc. e tal. Quando eu fui pra Itaúna, eu fiquei sem aquela renda e eu ficava pedindo dinheiro era um negócio que me constrangia. Aí eu preciso trabalhar, peguei e pedi o serviço na fundição. Desde o primeiro mês que eu recebi o meu salário, eu não mais pedi ao meu pai dinheiro pra pagar pensão e nem o Ginásio, sem ele mandar dizer que eu tenho que pagar. É um negócio que eu falava com satisfação de tê-lo liberado daquele encargo porque com dez filhos porque quatro já tinham morrido era muito pesado pra ele pôr comida pra dez pessoas dentro de casa. Então aprendi a ganhar dinheiro assim. Ele me incentivava comprar minha botina meu sapato quando estava ainda na estação vendendo as coisa. Então eu tinha um interesse em ganhar dinheiro. Não que eu tivesse ganância nele, mas a ansiedade que era não ter que pedir, era um negócio que me satisfazia.

 

[Fim da fita 01]

 

P/2 – De Leandro Ferreira o senhor vai para Belo Horizonte?

 

R – Eu fui pra Itaúna pra estudar. De Leandro Ferreira eu fui pra Itaúna estudar e depois de alguns meses eu passei a trabalhar na fundição. De Itaúna então eu fiquei lá de 1946 até 1950, início de 1950 aí fui pra Belo Horizonte, a história do barco, não é, e em Belo Horizonte eu...

 

P/2 – Já conhecia Belo Horizonte?

 

R – Eu tinha ido lá pequeno com 10 anos, 12 anos, por aí, 11 anos, me lembro que eu tinha estado lá com meu pai, uma vez só, mas...

 

P/1 – Nunca chegou a pensar: “Eu vou morar aqui, eu vou...”

 

R – Não, não. Foi por acaso mesmo porque o padre levou o barco pra Pampulha e tinha lá o tal cômodo de oficina dele e esse cômodo de oficina, nós ficamos uns dois meses, era eu e um outro colega, na mesma condição ia viajar conosco e dali arrumei emprego, fui dormir na oficina não tive maior problema aí reiniciei os estudos no ano seguinte nessa Escola Técnica de Comércio Brasileiro. Não tive problemas em Belo Horizonte.

 

P/2 – E a opção profissional dos estudos para a...

 

R – Contador?

 

P/2 – De onde vem?

 

R – Bom veio do meu pai. Que meu pai falava assim: “Meu filho vai ser perito contador.” Antigamente chamava-se perito contador. Não era contador, nem técnico de contabilidade nem nada era perito contador. “Meu filho não vai ser agente de estação, vai ser perito contador.” Quer dizer me meteu isso na cabeça que eu ia ser perito contador, perito contador e aí...

 

P/1 – Carroceiro não.

 

R – Não carroceiro não. (risos) Carroceiro não. Mas aí acabei indo ser torneiro, acabei chefe de oficina e quando mudou o salário mínimo eu falei assim: “É agora ou nunca.” E foi bom aí entrei pra Vale em Janeiro de 1956.

 

P/1 – E o curso de Contabilidade? Quando senhor estava fazendo qual que era a expectativa do senhor fazendo aquele curso? O quê que o senhor imaginava que ia fazer?

 

R – Não, como técnico em contabilidade a vantagem que tinha na época era o curso que já lhe dava autonomia fácil de você ganhar e se defender, em termos de dinheiro. Porque advocacia você fica sempre na... Assim a mercê de ter a causa aparecer pra você atuar, não é, outro emprego não. Toda firma precisava do contador. Então meu objetivo era eu vou ser contador mesmo como meu pai queria porque eu vou arrumar dinheiro. Agora quando eu estava faltando um ano mais ou menos pra sair, pra me formar, eu tive a chance de trabalhar nesse escritório de contabilidade em Belo Horizonte que era um dos melhores que tinha lá escritório mecanizado, era muito avançado. E eu tinha uma escola espetacular. Ali me serviu de base pra chegar em Itabira mesmo tendo me formado naquele mês anterior, apesar de ser novato eu já tinha uma bagagem de uns dois anos de escritório de contabilidade que fazia escrita de várias naturezas: comércio, farmácia, drogaria, empresa de construção, industria e eu naquele setor que eu mencionei que era o setor de análise, ali me permitia analisar vários tipos de atividade no ramo da contabilidade, não é, então contabilidade comercial, industrial tudo isso ali me foi facilitado por trabalhar nesse escritório. Quando cheguei em Itabira não tive dificuldade porque o professor lecionava com base no plano de contas que era o mesmo que a Vale usava no departamento das Minas. Então eu cheguei já falando a mesma linguagem dos que já estavam lá há tanto tempo. Aí tive um acesso bom, era esforçado sempre tive uma dedicação  muito grande, uma vontade de subir nunca me satisfazia ficar só lá embaixo, entendeu? Tinha ganância, tinha ambição, não é, e eu fui bem. Tive o meu período que de funcionário, logo depois passei a chefe do setor de contas a pagar, depois fui ser chefe de seção de custos, depois fui sub-contador do departamento tive umas passagens lá que marcaram um pouco. Saiu um contador de lá e puseram um elemento vindo de Vitória. Um senhor contador antigo, só pela idade já merecia o respeito de todos nós etc., mas o pessoal lá não aceitou bem porque tinha profissionais ali que podiam ser o contador. O de lá tinha sido transferido para Belo Horizonte por questão de família e tal pediu transferência para Belo Horizonte era antigo e a Vale deixou. E o que foi substituído não foi bem recebido por uma parte daqueles que se achavam no direito de ser o contador, não é? Dos quais eu não me incluía porque eu era até novato lá. Aí começou com oito, dez dias o contador chegou perto de mim... E eu tinha nessa função lá eu ainda tinha uma função de conferente que eles criaram lá. Eu era, tudo antes de ir pra mesa do contador passava pra eu verificar se estava de acordo. Se podia pagar se não podia, etc. Então tinha o meu visto ali, era o conferente. Eu conferia o que os outros faziam antes do contador homologar pra pagar. Aí o contador chegou, eu continuei trabalhando direitinho, tinham outros dois ou três que não estavam de acordo em fazer sujeira nenhuma contra o coitado que tinha acabado de chegar, aí uma determinada tarde ele me perguntou se eu podia esperar pra ficar mais tempo ali pra conversar com ele. “Pois não.” __________ que eu estava aí ele me falou: “Vem cá eu estou sentindo que a turma não me aceitou, mas eu não vou voltar pra Vitória não. Essa turma pode... Se for preciso vamos mudar a turma toda, mas eu não vou voltar pra Vitória.” Ele tinha as costas quentes porque o superintendente geral de controle era cunhado dele, então ele falou assim pra mim: “Eu estou vendo a sua forma de trabalhar aí, queria saber o seguinte. Como é que eu ando aqui?” Eu disse: “Olha é meio difícil dizer pro senhor, como o senhor mesmo disse o senhor tem uma bagagem profissional muito grande, o senhor tem muito mais anos de vida profissional do que eu, pra dizer ao senhor como é que o senhor deve andar aqui.” “Não, mas eu quero mesmo você sendo novo você me fala.” Eu disse assim: “Então o seguinte, o senhor sabe já ouviu falar daquela história que a gente deve andar com um pé no mato, outro na estrada?” “Já!” Ele falava grosso.” Bom então aquilo não serve pra aqui não.” “Como não serve?” “Aqui o senhor tem que andar com os dois pés no mato e a estrada no meio.” (risos) Ele achou gozado aquele estilo, não é, ele: “Nossa! Então eu estou fodido.” “Eu estou exagerando um pouco. Não está tão ruim assim não.” Aí ele disse: “Olha, eu estou querendo fazer o seguinte. Eu vou oficializar que nada vá pra minha mesa sem passar por você e gostaria de saber com quem que eu posso contar aqui.” Aí eu disse assim: “Olha garantido o senhor pode contar com uns três ou quatro. O resto tem uma parte que pode prejudicar o senhor e tem uma parte que está pouco ligando, mas também não vai somar muito, vai fazer o deles e tal mas também não está torcendo pro senhor cair nem subir. Agora tem aqui uns três que esses eu posso dizer pro senhor que são profissionais que independentemente de quem fosse o chefe, eles estarão fazendo o máximo pra fazer a coisa bem feita.” “Eu posso falar o nome deles?” “Pode, se o senhor acertar.” Aí ele falou: “Fulano.” “É esse pode.” “Sicrano.” “Pode. É esse.” “Terceiro.” “É esse aí que o senhor falou eu tenho minhas dúvidas.” “E qual é o terceiro?” Eu falei o terceiro qual que era. Ele: “E o quarto?” “O quarto, ele está meio indefinido, mas esses três o senhor pode... O que eles falarem pro senhor, o senhor pode fazer.” E ele se apoiou muito nesses três que e os outros nós fomos aos poucos demovido da ideia de prejudicar o velho que estava ali era um senhor já que podia ser nosso pai e foi aos poucos nós fomos mudando o clima e com isso eu ganhei até uma liderança no setor que... Aí é que houve um impasse. Quando chegou pra lá ele foi para contador. Um chefe de seção foi pra sub contador, mas esse sub contador não aceitava o outro. “Olha eu vou tirar esse daqui.” “Olha isso aí é com o senhor.” Aí ele tirou e pôs um outro no lugar dele, mandou esse pro armazém. Tomar conta do armazém. Mas esse contador velho que foi pra lá, ele assinava a ‘Tribuna da Imprensa’ que era do Carlos Lacerda, não sei se vocês já ouviram falar dele, vocês são tão  jovens, não é, é o Carlos Lacerda era o dono, o jornal era dele e estava na época isso já era 1960 se não me engano, acho que é 1960, tinha que... Estava o Lott e o Jânio Quadros pra eleição, não é, acho que é 1960 eu não me lembro. O certo é que o superintendente de lá foi demitido e até desagradou muito a comunidade porque era um homem muito bem quisto, mas foi demitido e foi pra lá um superintendente chamado Major Galvão e ele foi pra fazer campanha mesmo. Ele não escondia não. Ele major e era pra fazer campanha mas quando sobrou uma vaga de sub contador, ele queria me indicar pra sub contador e não pode, esse contador. Eu vim a saber por quê? Porque o Presidente da Câmara lá na época era sogro desse que foi pra sub contador e disse que se o Major arrumasse pra ele ser sub contador que ele como Presidente da Câmara mudava de partido da UDN pra PTB na época. E ele arrumou então. Passou o chefe pra lá e ainda arrumou o negócio de frente de minério para ele trabalhar com empregado para vender minério pela Vale e tal. Então disseram na época que esse cidadão trocou a Frente Popular que tinha chamado Frente Popular pela frente de minério, não é, e ainda ganhou o sub contador de... Bom mas o certo é que eu fui indicado para ser o sub contador. Esse contador resolveu sair. “ Quer saber, quer saber de uma coisa? Eu vou voltar pra Vitória porque a barra está pesando.” Pediu transferência para Vitória e aquele sub contador que foi pra lugar dele e ele me indicou pra ser o sub contador. Aí a carta foi lá pro Major Galvão e ele não soltou minha nomeação. Passado um mês e tanto ele me mandou chamar lá e estava com a carta pedindo a minha nomeação e falou assim: “O senhor sabe que o senhor foi indicado para ser o sub contador?” “Sei, sim senhor.” “Pois é, eu chamei o senhor aqui pro senhor me saber se eu posso contar com a colaboração do senhor.” Eu cheguei a ficar até meio vermelho, sabe por quê? Porque ele ia me pedir pra deixar de ser da UDN pra ser PTB. “Aí eu falei com ele assim: “Major, com licença, saindo ou não saindo isso aqui...” Empurrei a carta sim pro lado de que estava me indicando. “...o senhor pode contar com a minha colaboração total. Mas é a colaboração  profissional. Porque esta eu darei a qualquer que seja o superintendente aqui. Porque eu não estarei fazendo pelo senhor eu estou fazendo por obrigação porque eu sou um empregado da companhia  e estou fazendo porque eu tenho ambição dentro da empresa. Eu preciso fazer o melhor pra que um dia eu chegue a galgar posições dentro da empresa.” “O senhor não pensa que eu vim chamar o senhor aqui pro senhor mudar de partido que eu já sei que o senhor não muda. Eu tenho a sua ficha todinha. O senhor é assim é assado é assim tal e tal , não é?” “Sim senhor, o senhor está bem informado.” “Mas eu quero saber, se eu posso contar com o senhor?” “Pode contar comigo.” Ele: “Olha, eu só prometo ao senhor...” Ele era formal. “...eu só prometo ao senhor que vou fazer justiça.” “Se os senhor vai fazer justiça, sou eu mesmo o sub contador.”(risos) Ele disse: “Não estou falando que não vou nomear o senhor não, estou falando que vou fazer justiça.” “Muito bem.” Aí achei que não devia insistir mais. “Continuo contando com o senhor. Continue comandando aquilo lá que eu sei que o senhor exerce liderança lá, o cargo de sub contador não vai ser nomeado. E o senhor manda brasa naquilo lá. Não quero erro não quero falha continua...” “Tudo bem.” Fui pra lá. Isso passou de Abril até Outubro que foi a eleição e ele não me nomeou. Aí ele veio votar no Rio aí quando ele voltou dia seis ou sete de Outubro, a eleição já tinha passado, já se sabia que o Lott perdeu naquela época da vassoura do Jânio Quadros. Aí ele chegou lá passou na secretaria, ele já estava... Ia sair mesmo de lá passou na secretaria e pediu ao Fernando que era o secretário: “Olha, traz o processo do senhor Melo e manda chamá-lo. Aí quando eu passei na secretaria o Fernando ainda falou assim: “Ih Melo, você está fodido. O homem sabe que você é da UDN, perdeu...” “Paciência, aí quando eu cheguei lá ele cumprimentou todo formal mandou sentar e disse: “Olha eu chamei o senhor aqui, eu queria agradecê-lo pela forma como o senhor se portou aí nesse período, conduziu a contabilidade como se o senhor fosse o titular, cumprindo a sua promessa de fazer o melhor no período e eu estou... Eu lhe prometi fazer justiça. O senhor não sabe a pressão que eu tive pra por outros no lugar.” “Eu sei, eu sei até de cartas do Gabriel Passos pedindo o senhor para indicar pessoas eu sei disso.” Ele: “ Pois é, a minha justiça foi não nomear ninguém nesse período, mas eu estou soltando hoje a sua nomeação porque agora já não tem mais problema.” Ele me nomeou a partir daquela data. Passei a ser o sub contador, passei a ganhar de 4700 pra 9300! Você vê o prejuízo que eu tive na época. Passei sete meses, dobrou o meu salário, mas foi uma passagem que valeu a pena ganhei experiência com aquilo ali, tive muito trabalho na liderança porque o pessoal misturava política com trabalho foi uma fase meio difícil. 

 

P/1 – Tinha muita política ali na Vale?

 

R – Não, na Vale hoje não tem porque ela é entidade privada, mas na época 1970, 81% do capital dela era do governo. O governo punha lá quem quisesse, quem queria. A Vale teve a sorte de ter excelentes profissionais porque apesar da coisa ficar na mão do governo, pelo menos no tempo em que eu convivi, a escolha era sempre de profissionais de carreira dentro da companhia. Uma vez só, eu me lembro, que foi  pego gente de fora pra ser presidente, mas o resto era tirado dentro do corpo profissional da própria empresa e aí justificava-se aquela... A gente fala que o pessoal vestia a camisa da empresa porque era uma corrente de profissionais formadas ali, não é? A não ser essa época que eu me lembro, 1960, mas eu lá em Itabira também não sabia a repercussão aqui em cima como é que era, não é, era um reles funcionário lá então... Mas essa passagem ocorreu lá. Aquilo foi política mesmo e não teve choro. Pra você vê engenheiro do departamento das Minas foi sempre pela própria natureza um engenheiro de Minas que era o superintendente e ele não era engenheiro de Minas era Major. Nem sei de que profissão que era e foi chefiar lá... E quem que gritava? Ninguém, pô. Não tinha jeito.

 

P/1 – A promessa foi cumprida? A casa do senhor chegou três meses depois?

 

R – Ah, chegou! Aquela do contador? Chegou! Fui pra lá fui pro hotel, fiquei no hotel uns três ou quatro meses, depois o seguinte, eu tinha um colega lá de trabalho Carlos Vieira, ele... O meu professor o tal que tinha dado a aula no plano de contas da Vale, ele quando esteve em Itabira, ele era solteiro morava na casa desse Carlos Vieira. E assim que eu cheguei lá ele falou: “Pô, você que é o afilhado do Omar de Brito Silveira?” “Ah não sei se eu sou afilhado, eu gozava da simpatia dele, da confiança.” “É, não mas eu sei que ele gosta muito de você. Ele esteve aqui na época que vocês vieram, ele veio, ele passou lá em casa e falou muito dos alunos, eu me lembro que ele falou em você várias vezes e tal.” Aí o seguinte... “Ele morou lá em casa.” Morou lá na casa, um amigo dele, está me chamando de afilhado dele, vai dar samba. Minha cabeça funcionou logo, não é. Aí um dia eu conversando com ele lá, falei com ele: “Vem cá, eu vou ganhar uma casa aí você sabe, não é, você vai ganhar uma dessas nova, está saindo agora em Fevereiro ou Março, sei lá, você vai ganhar uma casa nova. Você disse que só tem móveis de quarto. Ele já tinha casado e tinha alugado um quarto na cidade, esperando a casa sair pra poder comprar os móveis. Você diz que só tem quarto. E eu olha, já tenho móveis de sala, de cozinha, de copa e de quarto. Você vai ganhar uma casa de três quartos e sala. Você não quer deixar eu morar junto não? Nós dois somos casadinhos de novo. Vou casar agora, você também casou agora.” Ele era descendente de português. “Eh (risos) tenho que pensar!” Então você pensa e depois você me fala.” Passou uns três dias. “Como é?” “Eu falei com a mulher e ela disse que você tem que ir lá falar com ela pra ela ver como é que é o seu jeitão.” “Tá bom vou lá pode ser hoje?” “Não, não. Vou marcar com ela.” Aí marcou num Sábado. Eu fui lá, almoçar na casa dele. Muito extrovertido, molequezinho que eu era, todo solto, não é, eu sei que a mulher dele ficou simpática a mim... Eu não perguntei nada. Não falei nada com ela. No dia seguinte eu fiquei ansioso, não é, “ Como é ô Carlos Vieira?” “Ah, rapaz. Se você tivesse conversado antes com a minha mulher acho que você é que ia ser marido dela. Ficou seu fã.” (risos) “Então está ótimo. Eu quero saber podemos morar junto?” Ele: “Pode. Ela disse que pode. Ela só quer saber mais ainda é o negócio da sua mulher. Com você ela acha que nós não vamos ter problema não. Mas e sua mulher?” “Já falei lá aquele jeitão e tal. Você não precisa se preocupar, muito simples filha de fazendeiro e tal. Aí fomos e convivemos quase um ano nessa casa porque a obra, a casa atrasou não saiu com três, quatro meses mas saiu ali com sete meses. Sei que moramos ali uns sete meses. Meu fogão era um fogão a querosene. Pra você ver como é que era a dificuldade. Não existia fogão a gás na cidade.

 

P/2 – Geladeira?

 

R – Não. Geladeira já tinha, mas fogão a gás não tinha. Então quando eu fui eu comprei um fogareiro de duas três bocas era aquele de bombacha assim pro fogo a querosene. Uma comida saía até com gosto de querosene que aquilo pega rápido, não é, mas foi uma vidinha meio difícil. Início da carreira lá. Minha mulher ficou grávida logo e ficou logo com gêmeos, não é, e passou mal e acabou perdendo tendo que fazer curetagem, perdeu os dois menininhos. Gastava quase tudo de remédio, dinheiro que eu ganhava gastava com remédio pra ela porque ela enfraqueceu-se e tal. Foi até... Houve uma passagem difícil eu precisando de dinheiro acostumado a trabalhar, ganhava bem porque eu fui numa fase, chamado pra lá, eu entrei acima da média de salário até, achavam que eu era apadrinhado salário por alto. Salário mínimo era 2200, eu fui com 4250, 4300 sei lá e o salário mínimo era representativo. Com o salário mínimo você conseguia pagar escola, aluguel, hoje não, é essa miséria danada, antigamente era representativo. Eu sei que o salário não era ruim não, mas a gente consumia quase tudo em remédio. E eu passei soube que tinha um empreiteiro de minério lá... O quê que era o empreiteiro de minério? Era minério de rolamento aquelas pedra, eles pegavam aqueles marreteiro, quebrava as pedra no tamanho máximo de sete polegadas que era pra vender e punha no caminhão e entregava pra Vale. Era terreno da Vale mesmo. Chamava empreiteiro de frente de minério. Então eu soube que tinha uma firma lá que o contador saiu. Aí eu procurei um dia eu me encontrei com ele saindo da contabilidade pro almoxarifado eu me encontrei com ele e falei, ele chamava-se Mário Pires. “O senhor que é Mário Pires?” “Sou sim, por quê?” “Não é porque eu soube que o senhor está precisando de um contador e eu sou contador. O senhor não quer que eu faça o trabalho pra o senhor lá?” Ele: “Olha eu estou com tanta raiva de contador que eu não quero nem saber de contador. Contador esteve lá na minha firma ou me roubou ou esculhambou o trabalho então agora eu estou indignado eu vou falar com o superintendente negócio de contador depois mas, não quero nem ver contador agora.” Mas que diabos! Precisando tirar uns trocados. Aí bom passados uns dois meses isso foi logo em Fevereiro, quando foi mais ou menos em Abril por aí... Ele avisou para o superintendente... Ele era o maior empreiteiro de minério da companhia, quer dizer era o que tinham a maior produção de minério da companhia. A companhia estava ainda na fase de mecanização, a primeira ainda, embrionário, e ela com expansão aquela instalaçãozinha dela não estava dando vazão, então ela esparramou empreiteiro pra catar minério pra tudo quanto é lado. E ele era um empreiteiro importante na companhia. Ele foi ao superintendente e falou que ia deixar de ser empreiteiro de minério porque não achava contador pra ele. Todo contador que prestava, acabava entrando pra Vale e ele começava com outro lá embaixo. Aí o superintendente falou:  “Não, você não vai deixar de ser empreiteiro por causa disso. Eu mando arrumar um contador aqui pra você.” “Não, mas eu não quero tirar ninguém da companhia pra ir pra lá, pô. Depois eu acabo com a minha frente de minério e o emprego pro outro?” “ Não, o sujeito faz o serviço pra você depois da hora. Não, mas não pode. Eles não deixam contador trabalhar pro empreiteiro daqui.” “Não, mas eu mando pô!” O certo é que ele chamou o contador esse tal Amarilio que era o contador lá, chamou... Não era o tal que veio de Vitória esse antes lá. “Olha você vai arrumar um contador pro Mário Pires. Mas com a seguinte condição. Ou ele arruma aquilo lá e dá certo ou sai de lá e da companhia. Você vai me arrumar um que seja bom pra fazer aquilo lá. Pra ele não ter problema. Ele diz que está com problema de Imposto de Renda, antigamente tinha IAPI e o Iapetec – Instituto Nacional de Transportes de Cargas-  Iapetec- produção não sei o quê de transportes e cargas e tinha além disso IAPI que era Instituto Nacional da Produção  Industrial -  um nome que eu já esqueci. Então eu tinha quatro meses de casa e tinha contador lá de oito anos de casa, dez anos e tal, não é, e eu até hoje eu tenho minhas dúvidas por quê que ele me indicou. Eu tinha só quatro meses. Aí ele me chamou e falou assim: “Vem cá você está trabalhando aí direitinho estou vendo que você sabe trabalhar, você trabalhou em escritório de contabilidade, Omar de Brito mandou você como sendo um excelente elemento e eu te vi aí naquelas palestras e tal, deu tudo certo. Você não quer trabalhar no empreiteiro aí?” “Mas como?” “Depois da hora.” “Mas posso, eu posso trabalhar com empreiteiro sendo contador aqui?” Ele: “Pode. Você tem que trabalhar direitinho, não vai fazer marmelada que você... Mas o empreiteiro lá é enrolado. São três firmas que ele tem Mário Pires Filho, Pires Cabral e um autoposto que é gasolina e auto peças. Ele é dono das três e você tem que fazer a escrita das três.” “Mas eu vou...” “É depois da hora do trabalho. Você se vira e faz lá. Agora tem uma condição. Superintendente já autorizou que você como contador pode fazer o serviço dele, mas com uma condição se não der certo lá sai de lá e daqui. Então você fique sabendo se você não acertar aquilo lá, você vai sair daqui.” Aí perguntei pra ele assim: “Mas o quê que ele tem mesmo que o senhor falou?” “Ele tem a frente de minério, deve ter uns 400 empregados, 300, 400 empregados, quebrando pedra, tem o posto de gasolina e a auto peças com oficina junto. São três firmas, ele é quem manda.

 

[Pausa]

R - ... continuo, continuo... bom então... “Você está ________ de cueiros ainda, pô, fraldas...” Não acontece o seguinte, brincadeira minha que eu vou ter emprego por muito tempo, mas é que no escritório que eu trabalhava de contabilidade, nós fazíamos serviços lá de várias natureza, citando o nome de empreiteiras grande que tinha em Belo Horizonte que eram clientes do escritório de contabilidade, lá, _________ Araújo e outras coisas mais, então pra mim não tem dificuldade desde que ele admita fazer o que eu pretendo se eu for pra lá, o quê que é? Eu quero mecanizar o escritório dele, porque é escrita manual, não é produtivo, não tem a mesma clareza que a escrita mecanizada que é o que tem no escritório e existem umas máquinas de contabilidade que chamava-se até __________ e ela permite a alimentação da folha de diário, ao mesmo tempo em que a gente está fazendo o diário em si, o livro principal da empresa, não é, já estaria fazendo razão, que é aquele conta por conta, etc. ao fazer uma por decalque fazia o diário e isso agiliza além de não ter erro de transcrição de dados de um lado pra outro. “Não, isso aí ele faz pra você, você vai lá, qualquer coisa que você precisar você me pergunta, e etc., etc.” “Não, mas se for só essa atividade o senhor pode estar descansado que eu não vou enchê-lo com nada pra perguntar não, mas se precisar e coisa. Agora o salário...” Ele falou assim. “Agora o salário, você me fala que eu vou discutir o salário lá com você.” “Não, o salário eu pediria o seguinte, deixa eu chegar lá ver qual o movimento da empresa, das três empresas dele e deixa que eu resolvo meu salário com ele lá, se ele estiver pegando, eu falo com o senhor.” “Tá bom, se tiver dificuldade, você me fala.” Aí eu fui já naquele dia mesmo fui lá, já estava doido pra pegar o serviço, fui, cheguei lá no escritório, ele me apresentou ele foi com o amigo lá me apresentou e logo saiu e o moço falou: “Olha eu tenho um escritório que está aqui. Esta bagunça é o meu escritório. Agora contador dos ________ que estava aqui...” Voltou a repetir o que ele falou lá. “...me roubou, que tudo porcaria, estou com problema de imposto de renda, sujeito me cobra coisa que já paguei, às vezes, vem cobrar aquilo que eu já devia ter pago há muito tempo, não recebe o que tem que cobrar, então tá uma porcaria isso aqui.” Aí eu expliquei pra ele: “Olha, eu trabalho, mas nessa fase é assim, tem que comprar uma máquina, tem que mudar, eu tenho que fazer os impressos, desenhar, diário, razão, entrada de caixa, saída, eu tenho que modelar tudo, aí, eu vou ficar uns dez dias em casa brincando de desenhar os impressos para poder fazer e tem que mandar numa gráfica em Belo Horizonte, rápido e a máquina nós temos que comprar...” “Não, isso vocês podem comprar, não tem problema e tal. Quero que você comece logo, esses dez dias estão muito tempo. Vê se diminui isso aí, não sei o quê. Tá bom e o salário?” “Não, o salário eu vou dizer ao senhor, deixa eu ver o trabalho primeiro e depois a gente discute não tem problema.” “Mas e se depois eu não combinar com você?” “Aí o senhor não me paga nada.” “Tá bom.” Então começamos e ele tinha lá um arquivo daqueles Blindex assim de puxar com umas 600 pastas e tudo ele punha a documentação em ordem alfabética, que era o jeitão dele controlar as coisas. Aí eu disse pra ele assim: “Olha, no meu ________ não tem esse tipo de documento não. Documento fica anexado à ficha de lançamento. Então eu vou acabar com esse arquivo do senhor aí.” “Mas e depois o documento a hora que eu precisar de um documento?” “Nós vamos entregar o documento rapidinho ao senhor. Agora o senhor vai me dar um prazo pra eu começar a fazer a escrituração, porque eu só vou ter condição depois de escriturado.” “Então tá bom, não vou te encher o saco, mas cuidado com isso aqui.” “Tá bom.” Aí peguei duas mesas, encostei num canto da sala lá e falei tinham três meninas, três funcionárias. “Olha, você tira tudo que tem destas pastas aí que seja de 1956. O que é de 1955 pra trás não me interessa. Tira tudo, tudo que for de 1956 e vai jogando em cima dessa mesa aqui e amanhã de tarde eu venho aqui pra gente separar isso.” Aí chegou de tarde estava aquele montão de documentos lá em cima das duas mesas. Eu falei pra elas: “Agora seguinte, cada uma de vocês vai responder por uma das empresas, porque quando ele precisar de informação eu não quero que ele ligue pra Vale do Rio Doce me perguntando, porque eu trabalho lá eu não quero receber nada daqui, não vou atender nada. Então vocês é que vão ter que responder, cada uma de vocês vai ser responsável por uma das empresas. Então vamos fazer agora. Ao invés de ter duas mesas aqui, vamos puxar mais uma de lado, vamos dividir em três. Separa por firma.” Aí separou por firma, aí depois.... Enquanto isso eu estava na gráfica, ajeitando os negócios de gráfica. Bom resumindo, ele, passados uns 4 meses, eu não tinha recebido nada, ele apressado com o trabalho, o serviço era muito, eu, tinha um colega meu de Belo Horizonte que era operador de máquinas de contabilidade, ele me perguntou se eu não tinha emprego pra ele. “Eu tenho, mas é periódico. Você se quiser pode vim, você trabalha pra mim mesmo num escritório de contabilidade que eu, uma contabilidade que eu peguei aqui, está atrasado você me ajuda a pôr em dia.” “Quanto você me paga por hora?” “Negociei por hora e tal, você pode pegar um ônibus, você pode trabalhar umas 10, 15 horas por dia.” E ele foi, me ajudou lá a meter bronca no trabalho, pusemos a escrituração em dia e lá com uns 4 meses o empreiteiro foi lá na companhia reclamar: “Oh, não tem jeito não. Contador lá tirou aquelas porcariadas, aquele serviço todo, acabou com meu arquivo, agora eu estou precisando do documento, não acho e não sei o quê, eu acho que ele não vai dar certo.” “Não, não. Vem cá, você combinou salário com ele?” “Não, ele não quis falar.” “Mas como não quis falar?” “Não, ele diz que só vai dar o preço a hora que tivesse noção do trabalho todo e se eu não combinar com ele não precisa pagar nada.” “Tá bom. Então ele não está servindo?” “Não, não está não.” “Eu estou com medo, dá uma olhada lá.” ________ me chamou: “Pô, você falou que era _______ aquele dia, que não tinha problema, o homem já está aí reclamando. o quê que é que está havendo lá?” Eu contei pra ele: “Olha, está assim, ele quer documentos, documentos têm que ser arquivado, estou até pagando um operador, com dinheiro meu, já estamos em tal mês, assim, assim, mas eu quero entregar o balancete tudo junto em tal dia, mais um mês ou dois ou três no máximo eu estou com a coisa em dia, o serviço está sendo feito assim, assim, assado e tal, está tudo certinho, balancete conferido, extrato de conta bancária... Ele costumava vender vaca na fazenda com dinheiro da fazenda pagar duplicata da firma... Ele tirava dinheiro da firma e comprava fazenda, terreno e o diabo, foi difícil. Tá em ordem, já tem conta pra ele, ele não pega mais cheque da empresa, cada uma das meninas que emite cheque, cada uma pra pagar. Tá certinho, _______ vai bem. Não posso de uma hora pra outra pegar uma bagunça que estava atrasada...” Fui pra lá em maio. “...peguei desde janeiro, março aliás, desde janeiro parado, não é?” “Então tá assim? Posso garantir?” “Pode garantir. Me dá mais dois ou três meses que vai...” Bom sei que lá pro dia 8, 10 de Setembro, de Outubro daquele ano, eu tirei um balancete das três empresas, analisado, conciliação de banco fechado, direitinho e tudo, cada uma das meninas sabendo falar pela empresa, aí ele chegou lá eu falei assim: “Oh, o senhor está apressado aqui, eu sei que o senhor teve pela companhia reclamando, o senhor em toda razão porque realmente demorou, mas demorou porque era muito serviço, e eu sei que a sua preocupação maior é achar um determinado documento. O senhor pode perguntar que tipo de documento o senhor quer e qual que o senhor quiser.” Ele disse: “Então tá bom. Tirou a carteira assim do bolso, tirou uma relação que tinha feito, já estava até dobrado quase que  rasgando de tão velha, eu quero ver esse documento aqui desse trator que eu comprei.” Eu disse: “Olha, o senhor quando, eu quero agradecer ao senhor porque o senhor não ligou nem uma vez pra mim, pra companhia caso eu continue aqui eu gostaria que assim continuasse. Então o seguinte, quando o senhor precisar de alguma coisa é uma das meninas que vai atender. Quando o senhor precisar, o senhor fala que empresa que é.” “Não sei que empresa que é, não. Só sei que eu comprei um trator.” “Bom, pra facilitar eu sei de que empresa que é o trator. O trator é da firma Pisa e Cabral e Pisa e Cabral é essa menina aqui que é responsável. O senhor então pergunte a ela e quero que ela dentro de dois minutos no máximo, mostre o documento pro senhor, inclusive vai falando pro senhor como é que acha.” “Ah, tá bom. Seu Mário esse aqui é o escaninho que tem a razão da Pisa e Cabral o equipamento faz parte do imobilizado. O imobilizado está na conta máquinas e  equipamentos, é a conta 114. Trator é 114/05, por exemplo. Aqui está. Trator adquirido de fulano de tal, tal data, tal documento. Documento tal está por mês e tal na ordem de compra, está aqui. É esse?” Ele: “É. Mas trator também foi só um, não é, eu quero ver a nota promissória de não sei o quê, mas isso não sei o quê.” É dessa menina, é daquela, fez umas quatro ou cinco perguntas lá, aí pegou o chapéu dele todo sujo de minério, não é, botou na cabeça e chispou o carro e saiu. Eu falei: “Pô, cadê o homem?” As meninas falaram: “Ah, ele é doidão, não liga não que ele é doidão assim mesmo.” Passados uns 40 minutos ele voltou com o superintendente e o gerente do banco no carro. Você vê a importância dele lá. Como é que ele mandava. Aí chegou e disse o seguinte. Chegou e jogou o chapéu assim num canto que ele tinha hábito de jogar, não é? Posso falar besteira?  “Agora quero saber se aqueles filho da puta daquele fiscal de INPS chegar aqui e dizer que eu estou devendo INPS, que eu estou devendo Iapetec, não sei o quê. Aquele camarada lá que está acostumado a me cobrar a hora que ele vier me cobrar, esfregar recibo na cara dele e não sei o quê.” E falou assim pro Dr. Fonseca que era o superintendente geral lá. “Olha e tem mais. Minha escrita está absolutamente em dia. Nem a Vale está em dia, vocês ainda não tem o balancete de Setembro, ô Fonseca, eu já tenho. Meu já está aqui balancete de Setembro. E já está em dia e pede o que você quiser Fonseca, eu te dou dois minutos (risos) dois minutos, eu te entrego qualquer documento. Aí eu de lado ali assistindo aquela cena toda, aí o Dr. Fonseca: “Não, eu fico satisfeito de você está contente com a sua contabilidade e tal, e quem é que é o contador?” Eu ainda não tinha conversado com o superintendente das minas, já estava lá uns nove meses, não é? E ele: “É esse aí, o Melo, é seu funcionário.” “Mas ele é funcionário da contabilidade, eu não mexo lá, muito prazer e tal, parabéns, você o Mário estava com dificuldade e tal. Muito bem, parabéns. Fico satisfeito. Continue tomando conta aí que ele é um empreiteiro importante nosso e tal.” Aí o empreiteiro não, o _________ que era o gerente: “Pede aí um documento. Eu quero que você pede.” “Não, então me dá aí, mostra minha conta.” “Qual é a firma? Você tem que saber qual é a firma que você quer.” “Pode ser da Pisa e Cabral?” “Então é com fulano. Fulano mostra pra ele aí, mostra pra ele aí. Dois minutos. Dois minutos eu te dou o documento.” Aí chegou, pegou a conta e tal pra conciliar o cheque não apresentado e tal e etc. “É  muito bem, parabéns, estou gostando de ver, etc. e tal.” Aí falou assim: “E você aí, quanto é que eu tenho que te pagar?” “Bom eu estava pensando o seguinte, eu ganho na companhia 4300 para trabalhar o dia inteiro. Aqui eu tenho trabalhado às vezes até a meia noite, uma hora, como o senhor tem visto aí na madrugada, onze hora da noite. Então é quase que igual lá. Então o senhor me paga 4 mil por mês de escrito, são nove meses dá 36 mil cruzeiros, reais, sei lá o dinheiro na época, cruzeiro não é?” Aí foi metendo a mão no bolso assim. “Então vou te dar 40.” Começou a assinar. “O senhor não pode me pagar por esse cheque seu aí, isso é cheque particular, eu tenho que dividir meus honorários nas três empresas.” “Ah é, é? Então faz assim. Paga aí tira os cheques seu aí, eu já não mando mais nessa merda aqui.”(risos) Bom e assim eu ganhei o meu dinheirinho. Nesse dia eu cheguei em casa com os 40 mil em cheque das três empresas, não é, dividi ali de acordo com o tamanho delas, aí quando cheguei em casa minha mulher, contei pra ela, mostrei pra ela os cheques que davam dez salários meus, não é, quase dez, ela chorou, me abraçou e disse assim: “Ô Zezé...” Me chamava de Zezé. “Ô Zezé, hoje passou um menino vendendo couve e tomate aqui, custava dois mil réis...” Coisa assim. “... eu não comprei, porque a gente só tinha dez e eu sei que você está gastando muito com farmácia e eu não comprei a couve e o tomate dele, e você chega com 40 mil, não sei o quê.” Abraçou, chorou. Quer dizer é um negócio que marcou muito na minha vida e tal. E a partir dali pra outras empresas surgiram que eu não dava conta de trabalhar. Chegou uma época que eu, uns dois ou três anos depois eu cheguei a pesar 57 kg. Desse tamanho, não é, estava magrelo, magro mesmo, magérrimo. Aquele troço... aí eu nervoso e brigando e discutindo com funcionário e tal. Aí o médico falou comigo: “Olha.” Os três médicos eram três médicos da companhia se reuniram lá no hospital, mandaram me chamar. Ele disse: “Olha, nós mandamos chamar você aqui, tomar o café conosco.” Que eles tinham um café. “Você vai tomar o café conosco, nós não vamos falar como médico não, como seu amigo. Você pára com seus trabalhos fora da companhia que você está no último ponto de estafa, você pode morrer, pode ficar inutilizado. Você pára de trabalhar, esse negócio de ficar até meia noite você, já sei que você está brigando com os colegas seus, já vieram aqui falar que você anda muito nervoso, sua mulher já está preocupada com você, você vai ter que parar e tem mais, nós não vamos te atender mais, nós somos seu amigo, nenhum de nós três vai te atender mais no hospital. Não adianta você vir falar que está com isso, está com aquilo, tá com asma, tá com bronquite, não adianta, você tem que parar de trabalhar.

 

P/1 - Como é que era o dia a dia de trabalho, já que estamos falando nisso?

 

R - No da Vale?

 

P/1 - É o seu.

 

R - O meu trabalho na Vale? Bom na Vale... 

 

P/1 - Chegava que hora, como é que era?

 

R - Não, eu chegava sempre na hora, chegava cedo, só saía... A gente tinha um ônibus. O ônibus saía... tinha hora de entrar, hora de sair. Eu morava na vila do campestre que era uns 200 metros do escritório, eu chegava cedo não chegava atrasado não. Mas é que eu realmente estava cansado, estava exausto, não é, e meu próprio chefe chegou a falar comigo: “Meu, você tá nervoso, você deu um esporro aí no funcionário tal que não precisava ser tanto assim, não sei o quê. Modere e tal.” Bom, devo ter tido as minhas falhas assim num tratamento mais agressivo, e tal mas não teve nada muito sério. O certo é que cheguei lá na firma e pedi demissão, da outra, dos meus biscates, parei. Eu realmente cheguei a conclusão que eu estava no fim. Aí parei. Fiquei dois anos sem trabalhar pra ninguém. Só na companhia. 

 

P/1 - Isso sempre em Itabira?

 

R - Sempre em Itabira, trabalhei lá dez anos. Aí fui e tal. Aí o empreiteiro um dia foi lá em casa. Já tinha tomado uma cachacinha, esse mesmo Mário Pires. Chegou lá em casa umas dez horas da noite, nove horas: “Melo, hoje eu vim aqui pra te tirar da companhia.” Ficava pedindo que eu voltasse não sei o quê, eu não podia. “Eu vim te tirar da companhia.” “Ô senhor Mário, é meio difícil porque eu gosto um bocado da companhia, estou numa ascensão muito boa, sou respeitado lá, tenho os meus amigos, o meu trabalho, me envaideço de ser funcionário da Vale, eu não estou pra sair da Vale, não.” “Não, mas você vai sair, você não vai aguentar.” “Mas como não vai aguentar?” Nessa época eu já ganhava uns 10 mil cruzeiros sei lá o quê, já tinha passado pra subcontador, não é? Aí ele disse assim: “ Eu te pago o dobro do que você ganha lá.” Olha que o dobro de um salário bom é um bocado bom, não é? É bom. Então, aquilo me deu até uma tremedeirazinha. “Pô, mas  não é questão de salário, você vê aqui eu tenho casa. Uma casa da companhia, pago aqui 25 cruzeiros de aluguel.” Era simbólico. “Não eu faço a casa, você me dá um prazinho pequeno eu faço uma casa lá no bairro do Pará.” Que era o melhor bairro que tinha lá em Itabira. “Eu faço uma casa dentro de uns quatro meses pra você. Do jeito que você quiser. Te pago o dobro e dou a casa, você não paga nada.” “Eu não, sabe como é... aqui eu não tenho carro da companhia mas tenho o carro a hora que eu quero. Eu requisito carro pra ir na cidade, não tenho comigo mas a seção de transportes eu tenho direito de requisitar a hora que eu quero.” Ele: “Não. Eu te compro um carro pra você.”

 

P/1 - Nossa Senhora!

 

R - “Te dou o carro com tudo pago.” “Êta, tá danado! Você está querendo me levar mesmo, não é? Mas eu tenho meta na companhia, rapaz, eu vejo falar no Rio de Janeiro e tal, como é que é lá, eu tenho meta de ir pro Rio de Janeiro. Eu não quero sair da Vale, não. Você vai me chamar de burro, mas eu não vou sair. Por dois salário eu não vou sair não. E tem hospital.” “Ah, hospital, vamos fazer assim eu te pago três salários e estamos conversado.” Minha mulher me apertava o pé e tal. (risos) “Ô Mário, não, não. Eu não quero sair da companhia, eu estou satisfeito na companhia, eu quero fazer carreira dentro dela, tenho muita área pra percorrer, não quero sair dela não.” “Eu estou precisando de você. Eu peguei uma empreitada na Usiminas...” A Usiminas estava naquela fase de expansão, iniciando o quadro ali. “... eu preciso de gente como você. Você vai ser o meu, vai ser mais do que eu lá na empresa. Eu preciso de você. Eu te pago três salários.” “Mário, eu tenho duas gratificações por ano...” A companhia dava duas gratificações por ano. Uma em Dezembro, uma em janeiro. Ainda não existia o décimo terceiro, mas ela dava uma gratificação em Julho, Junho, outra em Dezembro. “Ô Melo, eu ponho na sua carteira e te dou uma gratificação, uma em Julho outra em Dezembro. Eu vim pra te tirar da companhia. Eu não saio daqui ou então saio seu inimigo.” “Ô Mário não faz isso. Não vai sair meu inimigo, eu também não quero sair, não, eu não posso sair.” “Ô Melo, eu estou desesperado, eu vou acabar suicidando, eu não aguento, não aguento aquele escritório. Eu tenho um movimento tão  grande e não acho gente pra trabalhar, Melo. Depois de você, não veio ninguém que presta. Eu não aguento aquilo lá. Pelo amor de Deus, vai fazer alguma coisa por mim lá.” Eu já tinha dois anos que eu estava parado. Eu disse: “Mário, vou fazer o seguinte.” Já ganhava bem, nem sei quanto eu ganhava naquela época. “Vou fazer o seguinte, você me dá os três salários, eu vou tomar conta do seu escritório, como eu tomava, mas eu vou levar gente, pagar gente pra trabalhar comigo à noite, porque eu não vou trabalhar como eu trabalhava. Ele: “Tá bom. Você toma conta do meu escritório a partir de hoje. Já vou dormir essa noite. Você ganha os seus três salários. Você leva quem você quiser, mas você é o responsável.” Aí eu voltei a trabalhar pra ele mais uns dois ou três anos, levava dois ou três funcionários lá da companhia, trabalhando comigo à noite, trabalhava lá até dez horas da noite e assim eu fiquei até que resolvi, por questão de asma... Eu fui tirar umas férias porque tinha muita asma em Itabira, eu fui passear em Vitória, fui tirar umas férias. Aquele tal contador que saiu que voltou pra Vitória, ele me convidou pra passar umas férias lá na casa dele que ele tinha alugado em Vitória, lá em Guarapari. E fui pra Guarapari. E durante os 15 dias que eu fiquei lá, eu não tive asma. Na noite que eu voltei, cheguei em Itabira, eu já tive asma. Ah, vou sair, vou mudar de Itabira. Eu tinha uma proposta pra vim pro Rio, pra ser adjunto na Contadoria geral, de controle, era o  general, era o _________. Não sei se ele era general, o quê que ele era, não sei ele era uma patente alta, acho que era general ________ que eles falavam. Ele era superintendente de controle, e eu tinha feito a correção monetária, a primeira que saiu, acho que em 1953, 1954, como eu já tinha feito a correção monetária lá nessas firma, eu tinha já interpretado a lei e os seus efeitos, suas exigências e a companhia precisou que fizesse a correção, então mandou que fizesse a do departamento. Eu fiz a do departamento na base de um telex que eles tinham mandado e o elemento que eles tinham mandado, chamava-se Eduardo _______ , por sinal um excelente contador, ele mandou pedir umas certas trabalho e esqueceu um determinado trabalho, que eu fiz porque eu já sabia que precisava. Então quando eu cheguei lá, ele estava... fui o primeiro a chegar no Rio com o trabalho pra apresentar no departamento. E ele: “Como é que você fez isso? E aquilo? E isso? e tal. E isso é assim.” Aí ele começou a explicar como é que era. Aí eu falei com ele: “Meu senhor...” “Vem cá, tem umas duas horas que eu estou te falando, você não perguntou nada.” “Não, é porque eu já sei como é que faz. Eu trabalho numa firma lá que eu já fiz essa correção e tal.” “Porra, eu estou vendo que você não perguntou nada.” Ele era meio descendente de alemão, meio brutão, não é? “O quê que você trouxe? Mas isso aqui eu não pedi isso.” “Mas isso aqui o senhor vai precisar, vai ter que pedir até o outro.” Aí eu ganhei uma certa ______ com ele, ele me pediu até que eu fizesse o da administração central e ajudasse a fazer o do Departamento da Estrada, pediu pra estender o meu prazo, me levou pra casa dele, me tirou do hotel. Eu deixei de pagar hotel ganhando diária, fiquei quase que um filho dele. Eduardo (Prange?). Já faleceu. Então com isso eu ganhei muita... Mas acabei indo pra Vitória, a Vale surgiu com a implantação do Centro de Processamento de Dados, então viemos a algumas reuniões no Rio, que era pra fazer a unificação do plano de contas e Estrada tinha uma certa dificuldade porque ela tinha que obedecer o Departamento Nacional de Estradas de Ferro que naquela época ela era estrada de ferro, não é? O certo é que nós implantamos o sistema, chamava-se ________ Sistema Integrado de Contabilidade Orçamento e Custo. Nós implantamos aquilo em Itabira dentro do prazo e tal  e eu não pude ir pra contador, pra subcontador porque o superintendente não estava deixando. O superintendente das minas e eu gostaria de ser adjunto do superintendente geral de controle. O certo é que, o departamento da estrada está demorando a implantar o sistema. Aí eles precisaram de alguém que fosse ajudar lá. Como nós tínhamos implantado com um certo sucesso lá em Itabira, eles pegaram o engenheiro de economia que tinha em Itabira que ganhou os louros da implantação e o transferiu pra Vitória e Vitória não o recebeu muito bem. É um negócio que... fica difícil de explicar isso. O ferroviário não se misturava com o pessoal das minas. Era uma outra família. Família de ferroviário, família do departamento das minas, entendeu? Não tinha um visitar a casa do outro em Itabira, apesar de ter gente dos dois departamentos. O certo é que ele ficou lá, passados uns 15 dias, um mês mais ou menos, esse engenheiro voltou pras minas, porque a família dele ficou lá, não é, ele falou comigo: “Melo, se eu tivesse um outro Melo lá na Estrada pra me ajudar, rapaz. Que lá tem um sujeito bom, chama Ewerton, que eu também não conhecia, tem um outro lá e tal, mas acho que o resto não tá colaborando, rapaz. O resta está dificultando. Aquilo lá era pra estar implantado. Você implantou aqui, por que quê não implanta lá? Eu sei que você não teve dificuldade. Você não quer ir pra lá, não?” Eu falei assim: “Olha, eu não tenho vontade de ir pra Vitória, não. Eu tenho vontade de ir pro Rio. Se o senhor...” A gente nessa época chamava o pessoal de senhor mesmo assim, não é? “ ... se o senhor quiser fazer um compromisso. Acho que com uns três meses a gente implanta aquilo lá, porque não tem mistério, não. Eu tenho participado das reuniões no Rio, que eles vão, os probleminhas que eles falam que têm... Isso a gente teve aqui e nem perguntava ao Rio como é que resolvia e foi feito. São três meses, se o senhor quiser eu vou pra lá como estagiário. Porque se eu for pra ajudar a implantar, eles não vão me aceitar. Eles vão esconder coisas, não vão abrir o jogo comigo. Agora se eu for como estagiário, um elemento que vai ser transferido para o Rio...” Isso era malandragem minha que eu queria fazer o meu caminho, não é? “... aí eu vou ter as portas abertas. Eu como estagiário e no meu estágio eu vou falando o quê que é preciso fazer.” Ele diz: “Uai, então está feito. Vou falar com o João Carlos.” João Carlos era o diretor de operações que mandava ali naquela época. “Aí eu vou falar com o João Carlos.” Falou, ligou pra ele, ele tem que falar com o superintendente de controle que é pra onde eu deverei ir ao término do estágio lá. Aí marcaram lá que eu seria transferido pra lá como estagiário, mas que por 90 dias de passagem pro Rio de Janeiro, onde eu ia ser adjunto de controle, assinado pelo diretor de operação da área de controle. Aí eu recebi o telex. Aí, oh, me mandei pra Vitória. Fui sozinho e a família ficou em Itabira...

 

[Pausa]

 

P/1 - Continuação da entrevista do Senhor José de Almeida Melo, dia 11 de Setembro de 2000.

 

R - Então acho que eu estava na entrada como é que eu fui pra Vitória. Fui como estagiário. Decorridos os meus três de estágio, onde a gente... eu passei por setores, seção por seção,  sempre falando com o pessoal que eu era estagiário, que estava ali pra aprender o quê que era que tinha, que nós tínhamos implantado o sistema já em Itabira, que eu poderia ajudar no que fosse possível ali, por exemplo, o sistema poderia facilitar isso, facilitar aquilo e ia vendendo, ajudando a vender a imagem da implantação, porque há sempre uma resistência não é, quando você vai implantar um sistema computadorizado numa firma que não era assim. Há uma resistência normal, não é, mas a gente foi vendendo aquela ideia e cada setor eu fazia, cada seção era uma semana, uma semana que eu passava ali com o chefe. E eu relatava quantos os funcionários que tinha, avaliava os funcionário, dizia se eu achava mal dimensionado pro setor, e puxava um pouquinho a sardinha pro lado do chefe, que foi muito bom, que ajudou nisso, ajudou naquilo, tal e etc. Bom e assim eu fui em vários setores, várias seções, exceto na Contadoria da Receita. E cada seção dessas eu também tinha um contato muito próximo do elemento que era o de ligação com o pessoal da ______ que era a firma que estava implantando o CPD lá e depois de tarde eu conversava com ele, “Oh, você tem que fazer isso, lá você tem que tirar fulano, tem que botar sicrano, tem que tirar gente tá sobrando, tá faltando... No meu relatoriozinho eu mascarava um pouquinho, porque eu tinha que abrir a frente pro outro chefe de seção lá, porque senão eu não ganhava mercado, não abria frente. Não que eu fosse falso, mas eu procurava ser profissional também na coisa. O certo é que acabado, passando nas Contadorias todas, me pediram se eu podia ir pra Contadoria da Receita. E o que é Contadoria Receita? Nada mais é do que o fechamento de todo o trabalho das 52 estações que mandavam o trabalho pra lá ela fechava aquele trabalho todo pra ir pro CPD e ainda tinha o trabalho do tráfego mútuo com as outras ferrovias, de contas com o Departamento Nacional de Estradas de Ferro e era um setor meio complicado e a maior parte dos funcionários ali eram agentes que já cansados de trabalhar na estação gozavam de um certo prestígio e acabavam sendo transferidos pra Contadoria da Receita. Devia ter seguramente uns 80, 90 funcionários extra Contadoria da Receita. Dentre os quais uns 30 ou 40 podiam ser até meus pais que eram agentes antigos. Certo é que tinha uma briga entre o contador e o subcontador da Receita. O contador queria ajudar na implantação, queria ser útil e o contador não deixava, impedia, dificultava. Então eles me perguntaram se seu queria chefiar aquilo lá e seria um negócio de começar amanhã. Quem me chamou foi o Dr. Luiz Amaral de França Pereira, aquele tal engenheiro das Minas que ia pra lá voltou pra Itabira, ele não aguentou continuar lá, eu fiquei como estagiário, foi pra lá o Luiz Amaral de França Pereira, que foi também diretor da Vale, respondeu pela presidência, muito tempo... Nem sei se ele já foi entrevistado por vocês. O certo é que ele era jovem, estava com um fogo total, não é, e foi lá com a carta branca do João Carlos Linhares, porque o outro não tinha dado conta e etc., O certo é que ele me chamou na mesa dele lá pra implantar, pra_____ Receita. E na semana seguinte, uma funcionária tinha ameaçado o chefe de seção lá até com revólver, pra você vê como é que era o clima lá. Então ele falou: “Você vai pra lá...” E ainda estava naquele calor daquele negócio da menina que arrancou o revólver, queria matar o chefe, não sei o quê... “Aquilo lá precisa de um sujeito que nem você. Me falaram que você é de saco roxo, não sei o quê.” “Mas o senhor quer que eu fique onde?” “Na Contadoria da Receita.” “Na Contadoria da Receita?” Ele: “Isso, pensei que você era doidão mesmo, já vi que você é moleza, tá com  medo da Contadoria da Receita, e tal?” Aí eu muito irreverente: “Não, não tô com medo da Receita não.” Ah não ele perguntou assim: “Você não confia nos seus não?” Eu disse: “Olha, nos meus eu confio, mas não confio nos do senhor.” Aí ficou puto ________ . “Mas no meu você pode confiar, se você pode confiar nos seus pode confiar nos meus. Você pode ir pra lá porque eu estou com a bola branca. Eu faço o que  mandar. Dr. João Carlos disse que eu tenho que mecanizar isso aqui e aquilo lá tá me enchendo o saco. Tem que mecanizar aquilo lá. Você confia no seu pode confiar no meu.” “Tá bom. O senhor aguenta as ponta.” Levou lá, no dia seguinte eu cheguei o chefe foi apresentar pra ele lá: “Olha a partir daqui agora esse aqui vai ser o contador da Receita.” Aí o chefe da Receita, contador falou comigo assim: “Mas, o senhor, você está chegando das mina?” Aquele desdém, não é? “...aqui é Contadoria da Receita, você...” Aí o chefe dele: “Não, mas já está decidido, vai ficar mesmo e tal.” “Bom então vou ficar com ele aqui uma semana pra passar o papelório pra ele.” Eu disse: “Meu senhor, não precisa do senhor ficar. O senhor não se encabula é a minha autorização, está aí a carta, o senhor saia a partir de agora. Não é de hoje não, é de agora. E eu vou assumir a Contadoria da Receita agora. E não precisa do senhor fique.” “Ah, mas como é que eu faço?” “Larga do jeito que esta.” “E os processos que estão aqui?” Eu já tinha lido. Ah, eu tinha pedido três dias de prazo pra ler o relatório das denúncias que estavam lá, de fofoca, de briga lá dentro. Eu já fui com o nome das pessoas já na cabeça, o negócio esquematizado. Quem que era criador de caso e quem que não era. Aí eu falei com ele assim. Ele chamou os chefes de seção. Os chefes de seção tinham uma birra com ele de não poder usar o banheiro, que era privativo dele. Ele pôs como privativo dele, sabe? Aí ele falou assim: “Então está bom, então eu vou embora. E essas pastas?” “O que tiver de particular aí, de dentro da mesa, o senhor tira. Deixa as gavetas vazia e pode fechar o birô. E tudo que é pasta de emprego o senhor deixa dentro da, por cima da mesa. Particular o senhor leva.” Aí ele disse assim: “E a chave do banheiro?” Me fiz de bobo. “Que chave de banheiro?” “Esse daqui. Esse daí é do contador da Receita.” Eu disse: “Não, mas eu acho que não fica bem eu ficar com o banheiro só pra mim. Eu... faça o seguinte. O senhor deixa a chave na porta e aproveita que estão aí os chefes de seção da Receita, ficam autorizados a partir de agora a usar o banheiro daqui. (risos) E foi uma beleza. Ah bom, o certo é eu peguei tal e aí eu me lembrei de todo o serviço da ferrovia que eu tinha aprendido lá com 10, 11, 12 anos lá com meu pai. Pegava o processo. Ah isso é assim, assim. Hum, aquilo que meu pai falava! Aquilo que eu fazia, não sei o que. Isso é assim e tal. Aí eu chamei os chefe da seção e falei com ele assim: “Olha, vamos fazer o seguinte. Vocês tem hábito de dar parecer no processo e vem aqui pro chefe fazer a carta que o contador do departamento vai assinar. Dá uma perda de tempo nisso aí. Nós vamos fazer o seguinte. Nós vamos sair daqui, a carta datilografada pro contador assinar.” “Mas se ele não quiser assinar?” “Ele que mude. A minuta já vai nos termos da carta pra ele assinar. Vou pegar até uma numeração própria para aqui.” Ah mas ele não vai querer.” “Vai, ele está aqui. Pode deixar que ele vai aceitar, sim. Eu estou tirando serviço dele. Aí e outra coisa. Esses que estão aqui com despacho pra você, pra eu fazer a minuta da carta. Vamos fazer o contrário. Vocês levem essas pastas de volta, me fazem a minuta e eu vou trabalhar em cima da minuta de vocês. Então é só vai ser datilografada depois que eu ver a sua minuta. Daqui uns dias vocês passam a fazer tudo. Mas por enquanto vocês trazem a minuta.” E assim foi. Bom passado, vou contar só um casinho aí. Passado uma semana, eu tinha um mês para acertar aquilo lá, passado uma semana o sujeito da frente que era um senhor mais velho pegou a  régua e deu a imitação de telégrafo e então emitiu pro outro assim: “Atenção, atenção.” O outro: “Ok, ok.” Aí ele disse assim: “Não é que esse arrepiado...” Meu cabelo era o tal do aguado, não é? “...o arrepiado está indo muito bem?” (risos) E quando vi ele pegando a régua no atenção, atenção, eu já pus a minha na posição também, não é? Assim que ele acabou de dar o recado, eu disse: “Atenção, atenção. Cuidado também sou telegrafista.” (risos) Ah rapaz  o velho saiu da cadeira amarelo, rapaz. veio falar comigo: “O senhor me desculpe. Eu não quis ofendê-lo. O senhor pode ser até meu filho. Eu estou gostando do jeito do senhor. O senhor senta aqui deixa eu contar um pouco e tal. Mas como é eu ia saber que o senhor lá das minas ia saber telegrafia?” Aí eu contei pra ele da história e tal. Bom fiquei amigo dele, fiquei amigo dos outros. Ih rapaz, o pessoal me abriu aquele troço ali dentro de um mês, aí implantamos, modificamos aquele troço todo, aí pronto, aquele nosso negócio deu certo e aí eu fui lá pro tal do engenheiro, do roxo, disse que precisava que eu fosse dar uma ordem, por a Tesouraria em ordem. Porque o tesoureiro estava vendendo relógio a prestação e não sei o quê e carro de trem, aquela confusão... “Puxa vida eu estou querendo ir pro Rio. Você me combinou...” “Não mecaniza aquilo lá, vai arrumar que depois você vai embora.” “Não, não estou gostando a Tesouraria vai ser trabalho para uns quatro ou cinco meses, eu estou achando que vocês querem é que eu fique aqui?” Ele falou: “É.” “Então vamos negociar. Vamos negociar? O senhor faz um salário condizente pra eu vim pra cá, pagar aluguel, etc. etc., me arruma minhas coisas aqui com a condição. A hora que acabar de mecanizar tudo, se me aparecer outra chance de eu ir pro Rio, vocês me liberam. Não prendam. Fechado o negócio?” “Fechado.” “O que precisar me classificam em tal nível que me deram mais uns trocados, passei a um ‘f’ não sei o quê que tinha de classificação além do mais mudei pra Vitória e invés de ficar três meses acabei ficando três anos. Quando o Costa e Silva, não sei se vocês já o entrevistaram, aliás um profissional de excelente linha, ele foi nomeado contador geral. Contador geral saiu e ele foi nomeado contador geral. Contador geral era o tal que era imediato lá em Vitória que também por ter mecanizado lá acabou sendo contratado pra ser o contador geral. Certo é que ele saiu, foi ser outra coisa lá, foi ser adjunto, Costa e Silva pra contador geral, me chamou pra ser o sub. E eu: “Topo, topo agora. Aqui já está mecanizado, já está funcionando.

 

P/1 - Por quê que o senhor queria tanto ir pro Rio?

 

R - Porque eu tinha meta de ser contador geral. Eu tinha vou te falar depois. Aí ele disse o seguinte: “Mas eu tenho pressa.” Conclusão ele não deixou ele... Aí veio um dia ele me falou: “Melo, olha não dá mais pra te esperar. Tem três meses que eu estou sem o subcontador, não aguento mais. Eu estou vindo agora do gabinete do Dr. João Carlos Linhares, ele disse que o França Pereira não tá deixando você sair daí. Que por ele, ele diz, que você pode ir mas o França não está deixando.” “Vem cá você pode me esperar meia hora, Costa?” Falou: “Posso. O quê que você vai fazer?” “Vou lá falar com França Pereira.” “Você pode me esperar? Você disse que não pode esperar mais, mas pode esperar meia hora?” “Posso.” Eu fui lá. Puto da vida. Aí passei pela secretaria, que ele tinha a exigência de mandar a secretária anunciar fulano quer falar... Eu vou entrar que eu estou. “Seu Melo, seu Melo.” “Não, eu estou puto. Deixa eu ir lá.” Abri a porta, ele lá todo pavonado. “Pô o que foi Melo?” Ele achou ruim de eu entrar assim. Eu disse: “Olha, antes de mais nada eu quero lhe pedir desculpas se eu não souber lhe tratar com a educação e o respeito que eu devo, porque...” “Você está nervoso, Melo?” “Não, não estou nervoso. Eu estou puto, estou puto.?” “Mas com quem?” “Com o senhor.” “Comigo? Logo comigo?” Eu falei: “É. O quê que nós combinamos quando foi pra eu ficar aqui? Que quando eu tivesse chance de ir pro Rio, que vocês não só me liberariam como me ajudariam. E pô o senhor está me segurando. Tô acabando de saber do João Costa Linhares através do Costa que eu não estou indo porque o senhor não quer deixar!” “Não Melo mas é porque eu vou te por como chefe de divisão e você vai ganhar muito mais, você vai ter carro com motorista, não sei o quê!” “Quem é que disse que eu estou querendo um carro, França Pereira? Eu tenho carro. Não quero carro da companhia eu quero é ir pro Rio. Você sabe disso a minha meta que lhe falei há três anos atrás! Eu fui o funcionário...” Ele tinha mania de fazer assim quando a rolha entrava, não é, (risos), ele fez assim... O quê que mordeu aí. “É Melo, você, se você não tivesse vindo pra cá nós não tínhamos tido o êxito que tivemos na implantação, devo reconhecer isso. Você foi um funcionário exemplar pra mim, vou lamentar perder você. Mas você foi tão bom que eu não tenho condição de te prender. Boa viagem!” “Posso ir?” “Pode tirar sua passagem. Agora com uma condição. Você vai ainda ganhando diária mas ocupando a vaga aqui, porque eu ainda vou escolher quem vai ficar no seu lugar.” “Pô, mas eu vou ficar ganhando diária lá tem um limite de diárias, lá eu ia ganhar mais.” “Não você ganha 21 diárias por mês que é o limite e compensa o que você ganharia mais lá.” “Nessa condição então eu vou falar com o João Carlos.” Ele passou, recebi a passagem. Aí liguei pro Costa e Silva. “Costa e Silva, estou chegando aí às 9 horas da manhã.” E assim foi o meu período lá que eu vou saltar que eu vou saltar porque vocês estão com pressa. Aí cheguei no Rio, no dia seguinte, não é? Fui chegando, Costa e Silva chegou: “Puxa Melo, mas que dificuldade te trazer pro Rio que coisa. E aí afinal você está satisfeito?” “Eu estou Costa e Silva porque estou mais perto de ser o contador geral.” Ele: “Puta merda, eu estou te chamando pra sub, você já está querendo meu lugar rapaz?” “Você sabe que é a minha meta. Eu quero ser o contador geral da Vale!” “Ô Melo, você sabe que você já me contou isso outras vezes e é exatamente uma das coisas pelas quais eu estou te trazendo é essa sua ambição de ser o contador geral, porque você vai ser o melhor subcontador possível.” “Ah, isso não tenha dúvida. Eu vou ser o melhor possível pra você. Então está bom, está ótimo e você saiba que eu vou querer que você seja rápido.” Então ficamos dois anos e meio depois, esse tal engenheiro França Pereira saiu de lá veio a ser o superintendente de controle e passados uns 5 ou 6 meses o Costa recebeu convite pra ser adjunto do superintendente de finanças ganhando mais do que contador e eu passei pra contador geral uns três anos depois e aí depois cansei uns quatro anos, antecipar um bocadinho, a minha meta como contador foi um pouco difícil porque substituir o Costa e Silva não era fácil, é um contador de primeira linha, um excelente profissional, como pessoa também muito bom, então foi difícil substituí-lo. Mas eu tinha outras vantagens que eu achava que eu podia fazer. Nós estávamos atrasados com a contabilidade em quarenta dias. A gente fazia o balancete no dia 10 do outro mês e a gente ouvia dizer dos auditores externos que as grandes empresas apresentavam o balancete no dia 6 do mês seguinte. Quer saber uma coisa minha meta vai ser essa. Desgraçamos a trabalhar, aliás essa meta nós já tínhamos com o Costa mas ele não estava conseguindo muito porque era muita coisa que a gente... Ele era muito sobrecarregado com outras tarefas, não é? Bom no fundo a gente acabou, nós conseguimos fazer com que saía dia 6. Me lembro do primeiro telex que saiu para Bolsa de Valores dia 6 de um determinado mês, o contador da Petrobrás me telefonou: “Puxa Melo, dia 6 você já tem o resultado do mês passado na Bolsa?” “Essa é meta, você sabe que as grandes empresas no mundo todo é dia 6 que solta. E a gente tinha essa meta aqui na Vale com o Costa e agora a gente está conseguindo colocar em dia.” Aí ele disse: “Ô Melo, eu posso ir aí pra saber como é que você faz? Você deve ter largado coisa pra trás.” “Não eu posso te dizer que a passagem vendida às 24 horas do dia 31 lá na 52a. estação, já está aí no nosso balancete, que o frete feito naquela estação, naquele dia também já está. Tudo no dia, está absolutamente em dia.” “Ah não Melo, precisamos ir ter uma reunião aí com você. Por favor.” “Pode ser a hora que vocês quiserem.” Aí foi ele lá marcou uma reunião umas 5 ou 6 elementos dele lá, tivemos a coisa e aí mostrei pra ele: “Olha não tem nada difícil,  primeira coisa é a turma encampar que tem que fazer porque você só contador querer não adianta. Tem que fazer e outra coisa pra fazer isso eu saía daqui no dia do fechamento e ia fechar lá em Vitória, balancete, passava lá dois ou três dias e os problemas a gente resolvia lá com minha autoridade de contador, lá com os contadores de cada departamento. Resolvia lá. Assim que foi feito contava com a área de sistema e você pode conseguir isso melhor do que nós.” E assim foi, passou meu período. Eu estou falando mais rápido pra ... é isso aí.

 

P/1 - Não se preocupe.

 

R - Tive um problema sério na área fiscal porque minha deficiência era a área fiscal que o Costa cobria com toda segurança. Agora vou pegar o regulamento de Imposto de Renda e mastigar isso dia e noite. Peguei o regulamento de Imposto de Renda e li todinho. Eu quero entender dessa porcaria. E deu pra entender. Passados uns três anos eu cansei. França Pereira saiu foram outros pra lá e tal. O superintendente geral passou a ser o _________ que depois foi ser diretor na RDA e conclusão tinha a Mineração Amazonas estava querendo me levar pra ser adjunto lá do diretor de controle. Mineração Amazonas é a _________ é o departamento de mineração lá de Carajás, era uma empresa da qual participavam os americanos, chamava Companhia Meridional de Mineração. Bom, eles queriam me levar pra lá e eu falei com o __________ que era o superintendente de controle: “Ô _______ eu sonhei tanto pra vir pra contabilidade mas eu envelheci uns cinco anos nesses quatro anos que eu estou aqui e eu estou tendo uma proposta de ganhar 30% a mais, gostaria que você me liberasse. Tenho convite pra ir pra Mineração Amazonas como adjunto do diretor de controle que é o americano tal.” Ele disse: “Não Melo, eu assumi a superintendência aqui e estou com planos de você vir ser meu adjunto e é o mesmo salário que você vai ter lá. Por favor nós precisamos que você continue aqui comandando o controle. Você não pode sair daqui não.” Ia ser adjunto, ia sair da contadoria, topei na hora. Aí fui ser adjunto com ele. Trabalhamos uns dois ou três anos juntos daí mudou a diretoria alguns anos depois uns quatro, cinco anos depois, aí fizemos vários trabalhos que eu vou deixar de falar aqui porque outros já devem ter falado então. O Costa já esteve aqui? Já em contabilidade ele já deve ter falado quase tudo. Então o seguinte na área de... Me de um branco aqui agora. Não. Mudou a diretoria, mudou a diretoria, ficou só um parece dos diretores e a gente eu e o (Samir?) continuamos nas posições de...

 

P/1 - Aquela mudança do Roquete Reis?

 

R - É do Roquete Reis. Do Roquete Reis com uma turma de fora e a gente ficou lá um ano rapaz, segurando. Eu era o coordenador, eu tinha sido nomeado coordenador do sistema de, do _________ que eles chamam, do sistema de controle, pra criar qualquer código, seja pra folha de pagamento, pra contabilidade, pra orçamento tinha que pedir a mim e eu concordar, junto com o sistema com quem eu tinha um relacionamento muito fácil com o titular David Rosemberg que já faleceu, então o seguinte, eu tinha tudo nas mãos, os códigos todos, eu que sabia o emaranhado dos dedos com a mão, não é? Então a gente ficou segurando aquilo e o diretor que chegou querendo mexer, a gente tinha um estilo de aproveitar os elementos da casa pra subir quando tivesse uma promoção, promover os  debaixo pra ir subindo e tal, ele queria demitir gente de qualquer forma e eu segurando, vai virar uma bagunça, vai desprestigiar a equipe, vai desmanchar toda uma filosofia de trabalho que a gente tem, a gente aguentou um ano até que os diretor pegou o superintendente geral e o transferiu. Transferiu mesmo ou vai e foi Rio Doce América.

 

P/1 - ____ o Samir?

 

R - O Samir. Um excelente elemento. Foi pra lá e eu fiquei e puseram outro superintendente que era meio debilóide. Um engenheiro também debilóide o camarada. (risos) Debilóide mesmo ele ficava assim...(risos) O senhor está de acordo?” “Hein?” Debilóide o cara. Com sete dias, eu briguei com ele, tinha quatro brigas com ele no sétimo dia “Olha, não dá pra trabalhar com você. Nós vamos nos desgastar e o nosso desgaste vai prejudicar a qualidade da equipe, pô. Vamos manter essa equipe. Você fica  à vontade, eu vou te falar eu arrumo qualquer outra posição na companhia, você bota outro adjunto aqui. Eu não quero ficar aqui. Aí não tem que  falar com o ___________ primeiro.” Aí o _______ ponderou: “Não, deixa ele ficar a vontade, você bota o adjunto que você quiser...” Que ele queria botar um tal de Gilson, muito boa pessoa, mas não conhecia a Vale, ainda não estava preparado pra ser... mas era uma boa pessoa, por sinal muito educado, muito cortês, se tornou até amigo de muita gente. Ele foi pra minha posição e eu na mesma hora passei um fax pro departamento todo que a partir daquela hora eu ia manter minha secretária, meu gabinete mas não era mais o assistente de controle, o assistente era tal, que eles se dirigissem a ele sobre o trabalho na contabilidade. E ele passou então a me pedir que eu fizesse determinados trabalhos ainda pendentes, fiquei fazendo até que me ofereceram ser, criar um órgão em Belo Horizonte ou em Itabira ou em Vitória, onde eu quisesse que se intitularia Apoio Técnico às Contabilidades Subsidiárias. Então ia criar esse órgão em Belo Horizonte. Por que em Belo Horizonte? Porque eu era de lá e queria voltar pra lá, queria sair do Rio. Aí o ___________ falou comigo: “Ô Melo nós vamos criar e você vai ter quatro funcionários. E você pode escolher os quatro que você quiser levar.” Aí eu falei pra ele assim: “Vem cá vamos fazer uma coisa? Ao invés de eu escolher os quatro, por que vocês não falam, o senhor não fala os quatro que vocês gostariam de tirar aí da jogada porque assim eu limpava a casa pra vocês ia ver se eles me serviam e eu levo.” Aí: “Não, não vou falar não. Você escolhe.” Aí eu como sempre meio irônico: “Vem cá você quer... eu vou tentar adivinhar quem que vocês não querem. O Elcio Guerra?” “Pode levar.” Aí eu: “Fulano de tal.” “Pode levar.” “Fulano de tal.” “Pode levar.” Desses três eu tinha certeza, agora vou te falar um quarto, mas que eu não tenho muita certeza. “________________. “Não esse aí nós estamos pensando, não sei o quê, tal, tal, tal.” “Tá bom esse aí eu tinha certeza. Então tá bom fico aí com esses três. E depois eu admito um por lá. Então posso me ajeitar pra ir pra lá?” “Pode. Pode falar com esses aí que você vai levá-los e tal.” “Então vou tirar férias. Posso ter certeza que a companhia vai aprovar a criação desse órgão e que eu vou ser o titular? Vou pra lá?” Era Dezembro fui pra Belo Horizonte, comprei apartamento novo, mandei instalar lá, comprei telefone, etc., etc., os meninos foram, fizeram prova lá nos colégios, naqueles principais ali, pra passar, matriculei, paguei. Quando voltei de férias nada do órgão ser criado. Puta merda. Nada do órgão ser criado. E eu nervoso. A mulher não sabia como é que ia ficar e tal, aí o _______________ que era superintendente da __________________ aí ele me falou assim: “Você tá aí às voltas com esse pessoa. Você não quer vir aqui trabalhar aqui não?” “Mas eu vou ser o quê aí?” “O quê você quiser nas três ______________. Tinha ________________________________e _______________ . Você pode ser diretor, funcionário, contador, o quê você quiser, mas você tem que vir rápido. “Ô Elder, eu faço negócio com você. Meu negócio aqui, eu não quero nem ir pra Vitória, nem... Meu negócio é sair do controle. Eu vou pro primeiro que sair. Se Belo Horizonte sair eu vou pra lá, se Vitória sair eu vou pra aí.” “Você vem? Topo.” “Topo.” Então você vai ser diretor da ___________ de início. Tá bom? Salário?” “A gente combina. Tô indo. Vem aqui no Rio.” “Eu vou aí pegar a circular.” Porque tem que transferir, tinha que sair uma circular da companhia. Aí ele veio no Rio, conseguiu dois, três dias fui pra Vitória ser diretor da _____________ depois fui da ___________, da __________ e etc. E lá trabalhei três anos, fiz um meio de campo muito bom, as empresas tinham dúvidas sobre implantação do sistema lá também a Vale não podia impor aí eu acabei com meu jeitinho, minha habilidade acabei implantando o _______ também lá nas três. Fui ao Japão vender a ideia do ___________ pros japoneses lá, mostrar lá pra turma como é que eles teriam, eles tinham dúvidas de como é que eles seriam atendidos no General _________ aqueles dados e tal. Fui lá, passei lá uns dez dias com um intérprete do lado. Você imagina eu falando sobre sistema de controle pra brasileiro já era difícil, ainda mais sistema de controle falando lá pro Japão, traduzido por um ainda mais que não era contador, rapaz tinha hora que eu até suava, viu? Mas fiquei lá uma semana, oito, dez dias foi excelente e tal. Depois eles me chamaram pra ser superintendente geral de controle. O próprio França que tinha saído da companhia foi trabalhar no (Banco Simonsen?) voltou como diretor de controle, mandou me convidar se eu queria ser adjunto de controle. Eu disse: “Olha, nunca mais. Adjunto? Nunca mais. Tô fora.” Aí o rapaz lá  __________ era também diretor (industrial?) nessa época disse: “Ô Melo, não aguento mais o França. Ele está querendo te levar. “Ô Elder você é diretor, ele é diretor, eu sou empregado, eu não tenho como dizer que não posso ir, que eu não quero ir. Eu não quero ser é adjunto, adjunto eu não vou ser pra ninguém, pô. Fazer igual o debilóide que eu ficava atendendo ele lá eu não. De jeito nenhum.” Aí o Elder falou que adjunto eu não aceitava. Aí ele falou assim. Aí não, eu falei com o Elder. “Ô Elder, se o França me convidar pra ser superintendente geral de controle, se for convite eu não vou aceitar eu só vou, se ele falar tem que vim. Você vai ser, tem que vim, precisamos de você. Então você decida.” Aí o Elder falou com ele. Ele disse que superintendente ele ia pensar, ainda mais adjunto.” Aí o França: “Não eu estou é ele pra superintendente mesmo. Você fala com ele, eu vou falar com ele se ele quer vim.” “Então você fala com ele.” Aí o França me ligou: “Melo, estou convidando formalmente pra ser o superintendente. O Elder sabe que você é mais importante pra nós como superintendente geral de controle do que como diretor das coligadas que já está tudo funcionando de forma que você precisa vir pra cá.” “Ô França, é convite ou é ordem?” “É ordem.” “Pô tô indo. Que dia?” “Tal dia.” Embarquei pra ser superintendente geral do controle. Fiquei de 1978 até 1982 quando me aposentei. Aí eu quis me aposentar, ia me aposentar ia até pro projeto Jari, já tinha até feito meio de campo pra ir pro projeto Jari, já tinha feito uma entrevista com o sujeito que estava selecionando gente pra lá, aí o Elezer me convidou pra... Não era Dr. Mascarenhas que era o presidente na época... Não era Dr. Eliezer. “Não, Melo não vai sair do grupo não. Ele pode até se aposentar, mas nós estamos precisando de um diretor financeiro na ____________. Aí eu aposentei na Vale ganhando como aposentado e fui pra ____________ ganhando como diretor. E fiquei até 86, gostaria até de ter tempo de falar da ____________  mas a gente não tem muito tempo. Mas 1986 achei que estava prejudicando, tomando lugar de funcionário de carreira, sabe? Já aposentado, tô aqui pô. O França tinha ido trabalhar no Monteiro Aranha, no grupo Monteiro Aranha, pra ele ir trabalhar lá com ele. “Ah França, eu vou fazer o seguinte, eu vou. Discuti lá, acertei um salário lá com ele e fui trabalhar no grupo Monteiro Aranha que era Monteiro Aranha e Roberto Marinho, Monteiro Aranha e a British Petróleo de Mineração. Trabalhei lá de 1986 até 1992.

 

P/1 - Aqui no Rio?

 

R - Não. Quatro anos no Rio e dois anos em Cuiabá. Em 1992 acabou a mina porque ela se exauriu antes do tempo até e pra exaurir antes do tempo a gente que estava programado pra trabalhar 8 horas, passamos a trabalhar em quatro turnos de 6 em 6 horas pra antecipar porque não estava descobrindo outra mina de nível razoável aí antes de acabar mesmo o grupo Monteiro Aranha me convidou pra ser diretor financeiro de uma indústria de extrusão de alumínio aqui em Campo Grande. Já estava acabando lá, eu fiquei, já era o último diretor que tinha, aí eles me pagaram 6 meses pra eu ficar aqui no Rio respondendo por lá e ganhando também aqui da outra empresa. Teve uma época que eu fiquei ganhando três salário, o de aposentado, o de lá e o daqui. Foi um período gostoso. Bom acelerado um pouco, o período da Vale falar do Zé da Lagoa a pedido do Walter aí. 

 

P/1 - Zé da Lagoa e depois a gente faz umas perguntinhas aí.

 

R - Do tempo lá do meu pai ainda, é que minha mãe era muito boa mas eu disse que ela era nervosa e tal muito enérgica e ela passou por um período mental que teve que ser internada, assim como, a gente falava na época manicômio, manicômio...?

 

P/1 - Manicômio.

 

R - E ela esteve internada em Barbacena e voltou pra casa. Passados uns tempos tornou a ficar ruim e meu pai não queria mais interná-la, achava que era espírito que tinha encarnado não sei quê, aquela onda toda e procurou um curador que tinha em Lagoa Santa. Esse curador se chamava Zé da Lagoa. Então eu contei pro Walter um dia essa história do Zé da Lagoa e que ele o seguinte, ele... Isso eu presenciei quando eu ainda tinha os meus 12 anos, 14  por aí, eu presenciei. Ele chegou, minha mãe ficou encantada com o crioulo rapaz. Um crioulão danado e minha mãe adorava o crioulo e queria fazer doce e isso e aquilo e falava assim pro meu pai: “Olha eu não tenho ação enquanto ela não tiver raiva de mim. Eu tô chamando ela de feia de isso e daquilo e ela não tá ligando. Ela tem que ter raiva de mim. A hora que ela tiver com raiva de mim é que eu tenho que agir.” Isso é o que eu me lembro pode até não ter sido bem assim. Até que um determinado dia ela apareceu lá querendo bater no cidadão, no curador lá e tal etc. e ele deu lá as bezenção dela, ela desmaiou e tal e sarou. E essa é a história do Zé da Lagoa que o Walter queria que eu contasse. Resumidamente, mas foi isso. Bom de ____________ tinha mais umas outras coisa mas o seu tempo...

 

P/1 - Eu queria só que o senhor contasse um pouquinho essa história desse centro que foi instalado nos anos 70, esse centro...

 

R - Sistema Integralizado de Controle? SICOC

 

P/1 - SICOC isso. Queria que o senhor nos contasse um pouco o quê que foi essa iniciativa.

 

R - A Vale tinha as contabilidades, cada um tinha o seu plano de conta. Obras tinha um, Estrada tinha outro, Minas outro, _________ outro e tinha que ser o balanço consolidado porque ela era uma sociedade anônima. A consolidação demorava muito porque ainda não era mecanizado, não é, então era na mão, montava essa conta aqui equivale aquela outra e tal e ficava que o balancete mais um mês quase pra centralizar porque pra consolidar. Daí nasceu a necessidade da Vale... E também questão de orçamento, saber o quê que estava gastando, como gastando e onde e com quê e tal, com que recurso financeiro, etc. então surgiu a necessidade da Vale se deslanchar, ampliar o seu controle. Então foi contratada uma empresa, se não me engano chamada Ecotech que por sinal era do Dias Leite que depois foi até ministro de Minas e Energia, ele que era o dono dessa empresa. Ele não tinha sido ainda engenheiro na Vale, que ele foi, não é? Engenheiro não, presidente, mas então ele que era o dono dessa empresa, o principal. Então saiu com reuniões aqui no Rio pra lá e tal dizendo que ia fazer o orçamento, ia fazer a contabilidade, apuração de custo, ia implantar o centro de processamento de dados, cuja máquina era maior do que essa sua sala na época, não é, e então foi vendendo a ideia, mas aquilo ali cada departamento reagiu de forma diferente com a implantação porque já se poderia admitir que com a mecanização, com a informatização haveria dispensa de pessoal, era o quê todo mundo achava, que ia ser demitido, então havia aquela resistência natural. E daí foi contratada essa empresa, eles foram em cada departamento, tinha umas reuniões aqui, o quê que tinha que fazer, cada um de nós do departamento vinha e aí vinha eu e não o contador do departamento, eu era sub mas ele acabava pedindo pra eu vir porque eu dominava mais do que ele na época, falsa modéstia mas era assim mesmo, então o seguinte eu é que vinha e eu participava das reuniões e captava o que era preciso, chegava lá, eu tinha uma liderança muito boa, eu gozava de uma amizade grande no departamento das Minas com o pessoal todo, não é, então eu vendi a ideia de que vai ser muito melhor e implantamos o negócio lá. Esse é o sistema que propiciou a Vale conhecer orçamento, orçamento financeiro, orçamento econômico, custo e a contabilidade toda uniformizada, falando-se a mesma linguagem. Antigamente por exemplo, pra você ver o Rio pagava tudo, depois passou também a pagar nos próprios departamentos que ela mandava os recursos pagava por lá. Quando ela pagava aqui ela fazia avisos de lançamento que dava duas horas de registro cada lançamento, imagina aquilo a mão, datilografado sei lá o quê e mandando. Daí a necessidade de mecanizar, de implantar o sistema. Começou nas Minas implantando a folha de pagamento onde eu também ajudei muito. Tinha um outro colega Elcio Guerra que ajudou muito mais na folha de pagamento até do que eu... Almoxarifado, depois a contabilidade com todo o ativo imobilizado que é um negócio que tinha correção monetária, um negócio complicadíssimo. Corrigia o bem, corrigia a reserva, corrigia a depreciação e tinha correção da correção. Aquilo pra você dar baixa de um bem era uma história, uma maquininha, uma miséria, um inferno. Costa e Silva deve ter te falado sobre isso. Era um inferno, negócio de ativo imobilizado pra cadastrar aquilo. Na própria Estrada que eu saltei mas vale a pena ressaltar, um dos trabalhos que custei a conseguir implantar lá, era a implantação do sistema de patrimônio. Era conhecer todos os bens existentes, não é, o dia que foi comprado, adquirido, documento tal, aplicar correção monetária dependia do dia em que foi adquirido e a gente não conseguia implantar aquilo no sistema porque era tão precário o trabalho que o sistema recusava. O rapaz do sistema falou: “Não vou por essa porcaria no sistema, vocês têm que primeiro levantar os bens e não sei o quê.” E aquilo era o item que mais demorava pra fazer o fechamento do mês. “Eu não aguento mais.” Até que um dia eu falei com França Pereira: “Ô França eu não aguento mais fazer correção monetária na mão e com uma insegurança danada, a gente não tem qualidade. Isso dá até cadeia, deve ter coisa errada. A reserva de correção monetária pode dar... Vai pro Imposto de Renda. A gente não tem segurança nisso daí. Tem que mecanizar.” Aí ele chamou... “Você é o chefe do sistema em última instância, você tem que dar um jeito nisso aí.” Reuniu a turma e o rapaz do CPD falou assim: “Olha eu vou mecanizar isso aí, vou jogar isso no CPD, mas estamos mecanizando uma merda. É isso o que você quer? Uma merda. “É. Só que ao invés de ser uma merda demorada na mão, vai ser uma merda no sistema. Vai me liberar.” E foi assim que a gente conseguiu implantar aquilo lá. Aí depois de implantada o tempo que a gente gastava na mão fazendo o trabalho, gastamos fazendo uma equipe pela estrada afora levantando os bens, identificando e tal e conseguimos mecanizar na Estrada foi duro. A Estrada representava 80% da companhia. Mas foi isso, foi difícil. Mas o sistema foi esse que propiciou a Vale... Depois teve impressos que exigiam a qualidade de trabalho, empréstimos externos tudo isso teve influência desse sistema que mudou a mentalidade de controle da Vale. Antigamente não tinha.

 

P/1 - Que foi gradativa... Quanto tempo mais ou menos?

 

R - Foi gradativa. Uns três anos ou quatro que pra ela ficar esse pente fino que está aí hoje gastamos lá seis oito anos. Só a Estrada gastou quase três anos pra mecanizar.

 

P/1 - Mecanizava um setor...

 

R - Era pra mecanizar tudo junto. Departamento de obras era pequetito, era... Tinha Estrada Minas foi rápido, a Estrada no ano seguinte é que a gente conseguiu estar com ela 100%. Uns dois ou três anos gastou a Estrada. E depois mesmo de mecanizada ainda foi depurando porque muitas vezes é como isso, a merda mas está lá dentro depois foi apurando e tal. Hoje em dia deve ser um pérola o trabalho da Vale. Tem micro pra tudo quanto é lado, eu saí da Vale em 1982, quer dizer tem muita diferença pra 2000, quer dizer nem sei como é que  é lá hoje, não é, mas deve estar uma pérola aquilo lá porque ela chegou a ser a segunda empresa do Brasil mecanizada do jeito que era passando na frente de velocidade da própria Petrobrás que eu contei. Uma beleza aquilo. 

 

P/1 - Seu Melo, o período do senhor na Superintendência de controle como é que...

 

R - Eu como superintendente? Em primeiro foi uma surpresa espetacular porque foi a primeira pessoa não engenheiro que foi superintendente de controle. Foi o primeiro elemento não engenheiro a ser superintendente geral de controle. Mas eu não tive... Muita gente podia pensar assim: “O Melo vai ter dificuldade no departamento.” Não tive nada, nenhuma. Por que? primeiro eu tinha vindo das minas, o ________ era o menino do coração dele, na Estrada eu tinha sido três meses lá saí chorando e deixando muita gente chorando apesar de ter demitido gente, transferido o diabo, que eu era da linha meio dura. Mas saí de lá, no dia que eu sai de lá muita gente chorou. Eu saí que parecia menino pra você ver eu não aguentei, quando eu estava pra sair, eu vou falar isso, falar aquilo. No dia seguinte, eu não vou aguentar falar eu vou fazer vexame. Eu vou datilografar porque eu leio. Aí no dia, eu não vou aguentar ler. Você sabe que eu não aguentei ler o discurso que eu fiz. Eu pedi a um colega pra ler em lágrimas. Em lágrimas saí de lá chorando e chorando de tristeza não. Eu estava vindo para onde eu queria. Eu gostava tanto porque aquilo eu me dediquei tanto, puxa vida! Mas está aí eu sei que o seu horário está acabado.

 

P/2 - Esse aí é o momento mais feliz dentro da Vale da tua carreira profissional?

 

R - Quando eu vim pra ser superintendente geral não, foi quando eu vim a ser o contador geral. Superintendente geral já foi uma circunstância que eu já achava que devia ter sido há muito tempo porque eu conhecia tudo da área, eu não tinha... Eu fui ser superintendente de controle não teve restrição nenhuma porque eu tenho uns negócios escritos que não sei onde está hoje, o pessoal que me cumprimentava falando que até que enfim a justiça foi feita. Muita gente achava que eu devia estar ali há muito tempo. Então o seguinte, não teve dificuldade, as pessoas eram as mesmas o trabalho eu entendia, eu não tive dificuldade. Foi muito bom mas a minha meta não era ser superintendente de controle era ser contador geral. Porque era a minha profissão básica, não é, essa eu tive. Eu não te falei porque que eu queria ser contador geral, você me perguntou e eu falei depois falo. Só mais uns cinco minutos. Quando eu vim aqui trazer um balancete das Minas, um balanço de final ano do departamento das Minas, não sei de que ano, lá pra trás e cheguei fui o primeiro. Eu tinha prazer de ser o primeiro dos departamentos. Cheguei uns três dias antes da marca, do deadline ali. Aí eu cheguei, entreguei pra o contador geral: “Pois é o senhor está vendo aí a gente lá está trabalhando com esforço, está cumprindo as suas determinações e tal.” E ele disse assim: “É os outros não trouxeram ainda não ah, mas Minas é uma pedreira...” Que decepção que eu tive rapaz. Aí quando falamos lá com ele querendo explicar balança: “Balança é o seguinte, ativo de um lado passivo do outro.” “Meu Deus a quem que nós estamos subordinados?” Se chamava Jamil não sei o quê, esse camarada. Era uma alma boa mas de contabilidade eu estava lá no curso técnico de dez anos atrás. Eu disse: “Eu vou ser contador geral disso aqui.” Aí meti na cabeça que eu ia ser, foi assim e tive que... Minha meta era lá. Não te contei que um dia o Costa, chegando pra ser subcontador: “Tô satisfeito que eu estou mais próximo de ser contador geral?” Era meta mesmo, depois o resto foi contingência, ser diretor financeiro da __________ foi contingência, depois eu fui diretor dessas empresas de mineração por aí e tal do grupo Monteiro Aranha, mas o que me deu mais satisfação mesmo foi ser o contador geral. É gozado, não é, você se satisfaz com menos, não é, o outro foi contingência. E eu tinha uma liderança muito boa, tinha um jeitão avacalhado como vocês estão vendo aqui, gostava de prestigiar o bom funcionário, promoção tinha que ser dentro da minha área seguido, às vezes, pulava um e explicava porque que pulava eu gostava de prestigiar. Mas tem inimigos também, eu esqueci de falar. Eu trouxe um elemento pra ser subcontador aqui pensando que ele ia me dar uma força danada o sujeito avacalhou, ruim de serviço pra danar, me enganou o danado. Eu trouxe porque o meu inglês era pequeno como é ainda hoje e ele sabia o inglês muito bem, sabe? “Bom nós estamos precisando apresentar a versão em inglês do balanço ele vai ajudar.” Nada. Foi uma negação rapaz. Um tal de Jofre Moraes passava por mim na rua, no corredor passava pro lado de lá pra não se encontrar comigo. Foi o único inimigo patente que eu deixei na Vale, o resto eu deixei muita amizade. Tá bom? No mais...

 

P/1 - Seu cotidiano hoje como é Seu Melo?

 

R - Bom hoje eu tenho eu trabalho no campo do Direito.

 

P/1 - Direito?

 

R - É eu me formei em Direito. Eu fiz Administração de Empresas falei aqui não? Fiz técnico em Contabilidade, fiz Ciências Contábeis em Vitória, fiz Administração de Empresas aqui no Rio e depois quando eu estava, já estava aposentado, eu vou parar qualquer dia e não quero trabalhar mais na minha área financeira, nem nada. Aí eu fiz o Direito na ________ aqui Instituto, aqui na Senador Vergueiro, na...

 

P/1 - Marquês de _________?

 

R - Marquês de __________ aproveitei dispensa de algumas matérias que eu tive por causa dos outros cursos e mesmo assim eu não conseguia formar o currículo ficava, às vezes, assistia duas aulas ficava uma parado, ou duas parado. Acabei quatro anos e meio pra me formar em Direito, me formei. Todos os trabalhos em grupo fui eu que fazia sozinho, porque o primeiro que eu fiz ninguém ajudou em nada eu falei assim: “Ah, quer saber de uma coisa? Agora eu que faço sozinho e o sujeito chegava e assinava junto os trabalhos como se tivesse feito e eu fazia minhas pesquisas sozinho e apresentava o trabalho. Procurei fazer um trabalho bom. Briguei com o professor que chegava... o horário era 10h20 pra sair, não é, chegava 10h00 ele queria ir embora. “Ô Professor, olha meu cabelinho branco aqui pô, eu vim pra assistir aula. O senhor está todo dia querendo ir embora.” Tive problema com ele. Ferrar aquele velhinho, ferrou nada. Bom é isso aí.

 

P/1 - E o senhor trabalha com Direito hoje?

 

R - Trabalho com Direito. Ganho meu dinheirinho lá, já tive com algumas ações que ganhamos lá na comarca, ganhamos no tribunal, ganhamos... Agora está no Supremo Tribunal, no superior pra decidir eu estou tocando o barco. Mas agora já estou recusando serviço porque estou achando que estou ganhando algumas antipatias lá, porque você defende um, uma facção que é contra, sabe, e morar no interior é muito difícil, é melhor você estar de bem com todo mundo porque... Eu já tenho minha aposentadoria, minha pensãozinha e tal.

 

P/1 - O senhor mora com quem hoje? Qual é a sua casa?

 

R - Eu tenho, eu construí um prediozinho lá de três andares onde embaixo... Eu sou casado segunda vez. Minha primeira mulher morreu de aneurisma quando eu era diretor de mineração aqui do grupo Monteiro Aranha em 1987 e eu em 1990 me casei outra vez. Então eu construí uma casa lá, ela tinha uma loja, eu construí uma casa, um prediozinho três andares, embaixo é uma loja eu aluguei pro ______ é uma entrada pro escritório segundo andar que são cinco salas de escritório, uma entrada de carro com rampa circular que vai até no terceiro andar e outro lado a loja que ela pôs a loja dela lá transferido de outro lugar. Uma das cinco salas eu ocupo com o meu escritório, duas outras, uma aluga pra médico, outra aluga pro escritório de contabilidade, tem duas agora que estão até fechada e o terceiro andar é meu apartamento. É o terceiro andar todo, dá uns 300 m2 e vivo lá brincando de coisa, uma pequena... Eu tinha um dinheirinho e não querendo ser agiota, abri uma ______ pequena lá, tinha um capital de cento e poucos mil Reais, hoje tem 180 mil, brinco com uma ________ me dá uns trocadinhos...

 

P/1 - Tem filhos?

 

R - Não. Tem um enteado lá, filho dessa minha mulher, vai até se casar agora sábado e ele trabalha comigo lá, quer dizer, ele faz e eu confiro. Tem o salariozinho dele, não é, como é uma limitada eu o coloquei como sócio, porcaria lá só pra dizer que é o segundo sócio que não pode ser _________ e brincamos lá com essa ___________.

 

P/1 - O senhor tem filhos do primeiro casamento também.

 

R - Tenho, tenho cinco.

 

P/1 - Cinco?

 

R - Dois engenheiros civil, uma é médica dermatologista, uma é fonoaudióloga e uma é tecnóloga em processamento de dados, que por sinal está me “decepcionando” porque ela está fazendo Psicologia, não quer saber de área de sistema, está achando que não está muito voltada, que quer Psicologia, quer dizer eu fico meio aborrecido, mas... Tá com ela, não é?

 

P/1 - Claro!

 

R - Está estudando.

 

P/1 - Seu Melo, o senhor avaliando a sua trajetória de vida ___________ como pessoal se o senhor pudesse mudar alguma coisa nela o senhor mudaria? Se fosse começar de novo.

 

R - É eu gostei de tudo o que eu fiz. Eu gostei de ser telegrafista e ajudar meu pai ali tanto que eu queria ir pra Rede. Torneiro mecânico, não lhe contei, eu tive várias passagens, por exemplo numa oficina que eu trabalhei em Belo Horizonte, o dono da oficina chegou a falar o seguinte: “Tem um camarada que eu vou te falar ele nasceu pra ser torneiro, eu acho que se o capeta aparecer pra ele, ele faz o capeta no torno.” Quer dizer, eu vibrei com o torno, eu tinha... Esse padre, esse alemão, ele vibrou comigo, era menino ali de 15 anos, passei no teste com vários torneiros de oito, dez anos, eu tinha uma habilidade gostava de peça precisa, pressão pra fazer e tal, quer dizer, gostei demais de ser torneiro, até nem pensava mais de ser outra coisa. Meu pai até reclamava: “Pô, você agora vai ser torneiro, não vai ser perito em contador.” Depois quando eu passei pra Contabilidade, esse escritório de Contabilidade, eu tinha trabalhado um pouco com um colega que tinha um escritório de Contabilidade quando eu cheguei lá eu tinha já aliada a prática ao estudo. Os professores de área de Matemática, eu sempre gostei de Matemática, por sinal ele se chamava Almeida, ele sempre chamava, gostava de brincar comigo: “Se você não fosse tão bom de Matemática eu ia mandar você trocar de nome, porque Almeida tem que ser bom não sei o quê.” Brincadeira de professor, não é? Esse que chegou a ponto de me facilitar a entrada na Vale, etc. esses contatos lá com o pessoal. Ah, acho que eu gostei de tudo que eu fiz. Não tinha nada que mudar não, gostei de tudo. Até do tempo que eu tive problemas na Vale, eu gostei fui parar em Vitória ser diretor de três empresa. Eu deixei de ser adjunto de superintendente de controle daqui, fui ser diretor das três empresa, tive excelente relacionamento com japonês, espanhol e italiano. Três facções difícil, cada um pensa de um jeito, não é, ih rapaz, me fiz amigo deles... Chegaram a escrever pra Vale pra demovê-la da ideia de ser superintendente geral, você imagina! Que sensação você pode ter, depois de você passar três anos lá, revirando a Contabilidade deles e tal. Uma beleza! Como superintendente uma beleza também! Contador, uma realização muito boa! Eu não faria nada diferente, não. Se acontecesse isso que aconteceu comigo, pudesse acontecer com meus filhos, eu diria que estava satisfeito. A Vale pra mim, rapaz, é um negócio que se eu falar muito sobre ela, eu choro. Eu gosto dessa Vale do Rio Doce até hoje. A gente trabalhava com camisa, com garra, eu virei noites na Vale na área de sistemas eu e um tal de David Rosemberg que era doidão também ele na área de sistemas. Quando a gente pegava um programa que a gente se entusiasmava: “Melo isso vai ser espetacular!” Utilizar o computador, a gente virava noite ele e o programador e tal viramos noite. Burrice lá e eu virava satisfeito. Mudava nada, nem com o meu primeiro casamento nem com o segundo, todas as duas estão ótimas. Se eu pudesse viver com as duas! É que uma morreu. Muito bom. Não mudava nada, nada. Pra te ser franco nada. Teria talvez... agora eu me descuidei do inglês, eu devia ter me dedicado ao inglês. Uma certa época, __________ quis me por... Era o diretor financeiro da ________ saiu um zumzum que eu ia ser o diretor financeiro da Vale, eu não fui e eu tenho a impressão que foi por causa do inglês. Então isso aí se eu pudesse voltar, eu teria me aperfeiçoado no inglês. Aconselho todo mundo que puder, fazer. Agora duas línguas inglês e espanhol, não é? Agora são as duas necessárias. É o que eu falo com os meus filhos esse... global aí tem que ter o espanhol e o inglês, senão não vai saber. Vocês que são jovens, não sei qual é o domínio de vocês nessa língua, mas se puder aprendam e falem

 

P/1 - Então vou fazer uma pergunta pro senhor. O quê que o senhor achou de participar do projeto de memória da Vale do Rio Doce ter dado o seu depoimento.

 

R - Bom primeiro diz ter agradecido vocês desde o começo essa oportunidade de falar um pouco sobre a minha vida e sobre ela em si, não é? Isso aí mexeu com a minha cabeça, lembrei dos meus amigos, isso quanto a mim e a Vale, não é? Eu não sei o que isso pode servir mas pelo menos é uma parte da história da Vale, o depoimento da gente, não é? É muita coisa eu teria que falar com vocês ainda, quatro, cinco horas pra contar a história toda mas eu sei que não é possível. Então o seguinte, agradecer vocês, vocês me deixaram totalmente à vontade, cheguei até a me extravasar um pouco. Foi muito bom. Gostei de ter vindo.

 

P/1 - O senhor lembra o telégrafo ainda?

 

R - Lembro perfeitamente. 

 

P/1 - O senhor não mandaria uma mensagem?

 

R - Só me dar uma régua.

 

P/1 - Tem uma régua aí? 

 

P/2 - Não, tem _______ de fita.

 

P/1 - __________de fita serve?

 

R - Não, não. Tem que ser uma régua, porque ela tem que dar tec, tec. Não assim não dá porque tem o tempo. Uma régua você bate daqui ela volta.

 

P/1 - ___________ serve?

 

R - Talvez. Tem que ter uma tábua pra fazer o som de volta.

 

P/1 - Será que dá? Ia ser ótimo! O senhor manda uma mensagem pra gente.

 

R - Vamos ver. Porque é o seguinte, ela tem que dar o retorno aqui. Ah, vai ser tão baixo. Ah, não vai dar. Vou dizer adeus. Aí oh. Pega aí? Pegou não, não é? Adeus por exemplo. A, d, e, u, s. Adeus. 

 

P/1 - Pegou.

 

R - (risos) Obrigado, viu?

 

[Fim da Entrevista]





 






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