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O filho da terra

História de: Álvaro Fernandes Sampaio (Álvaro Tukano)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/09/2009

Sinopse

Álvaro carrega o sobrenome Fernandes Sampaio em seu registro, mas ele é mesmo Álvaro da tribo dos Tukanos, do Alto do Rio Negro-AM. Sua história se confunde com a história das lutas indígenas brasileiras pela demarcação de terras e contra o projeto de aculturamento promovido Estado e pela Igreja. Álvaro foi um participante muito ativo nas causas de não-integração do indígena na sociedade quando essa integração os fazia perder sua cultura original. Tornou-se, assim, uma liderança no seu povo, e também entre outras aldeias.

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História completa

P/1 - Álvaro, pra gente começar, eu queria que você falasse seu nome completo, o local e a data de nascimento?

 

R – Meu nome é Detrinot, e Detri é um nome sagrado indígena do povo Tukano. Detri foi o primeiro homem na humanidade, segundo o nosso conhecimento. Então esse é o meu nome verdadeiro; agora, em português meu nome é Álvaro Fernandes Sampaio, eu nasci no dia 03 de novembro de 1953 numa aldeia chamada São Francisco no Rio Tiquié, Alto Rio Negro no município de São Gabriel da Cachoeira, fronteira com a Colômbia e a Venezuela.

 

P/1 – E qual é o nome dos seus pais?

 

R – O nome do meu pai original é Arquito. Arquito é um dos grandes sábios do povo Tukano, ele nasceu em outra aldeia chamada Tanquita ou Botaribito, também no Alto Rio Negro; a minha mãe chamava-se Diacarápo, que quer dizer mãe dos patos ou mãe das águas, ela é de outro povo, o Desano, porque o nosso casamento é sempre com as mulheres de outros povos indígenas e vice versa.

 

P/1 – Você podia contar um pouco pra gente o que eles faziam?

 

R – O meu tataravô, ele não conheceu o povo branco, já o meu avô teve seus primeiros contatos, isso por volta de 1850, mas ele sabia falar língua geral na época. O Ingatu, que era uma língua mais usada pra se comunicarem em todo Rio Negro. E ele não estudou e meu pai teve que estudar, porque o pai dele não sabia ler e não sabia fazer a soma, pra poder conviver com a sociedade. Eu já nasci numa época quando era necessário estudar, então eu fui pro colégio com oito anos, no dia 27 de fevereiro de 63 e estudei em Pari Cachoeira no Alto Rio Negro. Então a minha formação é de nível médio, mas isso é suficiente até aqui pra proteger a mim mesmo e defender o meu povo.

 

P/1 – Você pode contar um pouco da origem da sua aldeia?

 

R – A origem da minha aldeia... Hoje nós estamos numa região do Morro de Seis Lagos, a Serra do Demiti, que são lugares históricos dentro de nossa mitologia, nós estamos próximos do Pico da Neblina. Nós tivemos que sair da nossa região Aldeia São Francisco, porque nos tivemos uma confusão com os missionários Salesianos. Meu avô sempre, nós sempre defendemos uma cultura original, eu como aprendi a ler e escrever um pouco de português, eu utilizei a Ciência, a escrita para defender o meu povo e eu acabei desobedecendo as ordens dos padres e do Estado. Nós fomos proibidos de falar em nossas línguas nas escolas e nós fomos proibidos de ter acesso à escola, aos produtos industrializados e então nós resolvemos fundar uma nova aldeia, que é Balaio. A nossa intenção era estar longe dos padres, longe dos brancos, longe de todo mundo, mas também fomos invadidos pela estrada, pelo mesmo sistema. E não tendo como fugir nós hoje somos Tukano, Desano, Taliano, Bania, Baré vivendo nessa comunidade que hoje tem umas 300 e poucas pessoas e nós estamos preparados para enfrentar a fim de defender os valores tradicionais.

 

P/1 – Você tem irmãos?

 

R – Tenho. Nós somos quatro irmãos e três irmãs, eu sou o único índio que está fora da aldeia, porque eu sou primogênito da nossa família e geralmente o primogênito é aquele que é chefe ou será chefe quando nosso pai morrer. Então minha responsabilidade é muito grande, porque eu tenho que dialogar com outros primogênitos para manter a nossa língua, as nossas tradições, e meus irmãos, eles são guerreiros, eles estão lá para participar dessa defesa no local. E o nosso desejo é viver diferente do passado, não correr assim das brigas, das guerras, mas é preciso saber conviver com as diferenças. Que aqui chegaram depois da gente através de costumes da televisão e de outros costumes não indígenas.

 

P/2 – Deixa eu te perguntar uma coisa, voltando um pouquinho nessa experiência que você teve com os padres na infância, eu queria que você falasse um pouco mais sobre isso: eram os padres que depois os impediram de entrar em contato... os impediram de se comunicar na sua própria língua, da sua nação, do seu povo, como é que foi isso? Explica um pouco melhor essa passagem?

 

R – Bem, essa passagem é que nós somos antigas civilizações. Segundo os geólogos nós temos uma idade entre 150 mil anos na nossa região; na nossa região nós temos 23 línguas e na década de 60 a 70 nós éramos alunos internos e nós fomos proibidos de nos expressar em nossas línguas, fomos obrigados a falar português, forçados. Então quem não falava português, ele não recebia merenda ou então na hora do almoço ele ficava pra capinar ou rachar lenha, isso foi uma coisa muito dura; e também nós passávamos durante uns oito meses no colégio interno e naturalmente nós não tínhamos o tempo pra aprender os ritos e outros cânticos cerimoniais como era no passado.

 

Então nós fomos proibidos de viver como antes, nós fomos obrigados a ser cristãos apostólicos romanos e o que na verdade não era uma salvação para as populações indígenas que hoje vivem, mas essas comunidades, esses povos, 23 povos que tem línguas e histórias próprias mereciam um tipo de advocacia que foi essa linguagem de resistir. Então nós hoje continuamos falando por isso. Então foi importante a gente dizer não ao Estado Vaticano e o Estado brasileiro também que também foi dirigida pelos coronéis. E a FUNAI era responsável e é responsável para cuidar de assuntos indígenas. Na época os militares, eles queriam nos eliminar nos integrando... E nós deveríamos ser cidadãos brasileiros. Isso também foi interessante porque nós obtivemos documentos como certidão de nascimento, reservistas militar, título de eleitor, facilitando a nossa comunicação com a sociedade nacional. Então isso era uma igualdade que nós conquistamos através das escolas, implantado pelos salesianos e foi com esses documentos de brancos que eu saí fora do Brasil e fui a Holanda no tribunal aberto para defender as culturas da minha região e denunciar o etnocídio que era praticado pela congregação salesiana e a morosidade do Governo brasileiro pra defender a demarcação dos territórios no Alto Rio Negro.

 

Então eu acabei criando a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro justamente para congregar 23 tribos indígenas e defender o grande território tradicional que é nosso. E hoje isso é uma realidade, o povo hoje está com as terras homologadas, outras estão em vias de demarcação e o nosso grande território continua como sempre. Intacto, esse é um bolsão de culturas naturais de nossos povos.

 

P/2 – Vamos voltar ainda um pouco pra sua infância e daqui a pouco a gente chega nessa fase da sua vida. Eu fiquei curioso de toda essa sua experiência ainda lá na década de 60, eu fiquei curioso de visualizar a sua infância, qual uma lembrança assim mais remota da sua infância? Seus hábitos? O local onde você vivia?

 

R – O local onde eu vivia muito bem, nessa aldeia São Francisco, e como criança pequena eu aprendi a pescar. E, curioso, eram as técnicas de sobrevivência que aprendi com meu avô, que ele se chamava Erimilin - Erimilin é rouxinol na tradução literal, mas cultural ele era grande cantor, grande sábio, ele é grande guerreiro. Eu aprendi a conviver com meu avô que era grande curandeiro, um grande cantor, esse era avô paterno; eu também tinha o materno, que era grande Pagé e eles não se entregaram, mas eles deram lições durante o dia ou então durante as grandes festas que eles faziam sempre orientando meu pai para resistir, e repassar esses segredos das tribos para que um dia ele pudesse me passar. Essa foi a marca que sempre eu tenho na minha idéia. Eu tive melhores momentos de minha infância na minha aldeia e os piores momentos também quando sentia e chorava de noite no dormitório sentindo a falta da minha avó, da minha mãe, porque eu não sabia deitar na rede... Eu não tinha roupa quando eu fui pela primeira vez na escola, mas hoje aqui estou falando em português, eu já sei como foi difícil a gente viver. Então hoje eu não quero que meus filhos ou de ninguém passem esse tipo de sofrimento que nós tivemos.

 

P/1 – Pensando um pouco mais na sua infância com seus irmãos, você se lembra do que vocês gostavam de brincar? De comer?

 

R – A brincadeira era espontânea. Era tomar banho livremente no porto, pescar e caçar, acompanhar os pais - os pais não eram aquelas pessoas que davam tarefas, eram pessoas que faziam tarefas cotidianas. As meninas iam com suas mães aprender as regras pra vida delas. E os meninos na roda dos homens. Então esses grandes encontros, por exemplo, a festa de Dabucori é a festa de oferendas, troca de informações. Quando um grupo que vai pescar para outro povo, por exemplo, eu sou Tukano, então eu vi o meu pai, o meu avô sair do lugar pra pescar e depois voltar e dar o recado pra outra tribo pra eles prepararem muita bebida. Então nesse dia nós estávamos bem enfeitados, participando ativamente da festa de nosso povo. Então desde pequeno, eu sabia tocar os instrumentos musicais que meu pai e meu avô tocavam. Então isso pra mim foi uma grande marca também, o que hoje não acontece porque muitos índios não aprenderam mais a tocar seus instrumentos sagrados, porque nós fomos trocando os instrumentos sagrados pra cantar ou tocar os instrumentos de brancos, instrumentos que nós não fabricamos. E aqueles instrumentos que eram do nosso povo, muita gente não sabe mais fazer. Então essa foi a confusão que se criou na nossa cabeça. Hoje é mais fácil a gente tocar violão do que tocar instrumento indígena, mas na nossa concepção principalmente na visão de nosso povo, nós temos músicas lindas e isso deve ser preservado. Então é isso que estamos defendendo aqui.

 

P/1 – E com quantos anos você foi pra escola? Como é que foi isso? Vocês conversaram na aldeia antes de ir?

 

R - O meu pai achou interessante pra continuar a luta. Quando foi na última semana de fevereiro de 63, ele me disse: “Agora você vai pra escola” foi muito chato isso, porque eu não tinha roupa, eu não conhecia ninguém, eu era o único da família, na minha aldeia, eu brincava com outros alunos que eram Maku, que trabalhavam pra nós. O Maku é outro povo que vive na floresta. Então eu falava na minha tribo Tukano, que é minha língua. Eu falava a língua do meu avô materno, que é Desano, eu falava muito bem a língua dos Maku, que eram meus colegas de infância.

 

Na minha aldeia, como as mulheres vinham de fora pra fazer casamento, então na minha aldeia nós tínhamos várias línguas. Então eu vivia naquela universidade diferente, aprendendo línguas e costumes que são parecidos. E na igreja, quando foi no dia 27 de fevereiro de 63, eu entrei... O meu pai me entregou lá nos padres. Era um padre italiano muito forte, muito diferente, eu não falava português, ninguém falava português e foi muito chato isso, a comida era diferente. Depois de três meses eu fiquei muito doente, porque meu espírito não era adaptado para aquele tipo de civilização. Na aldeia, o meu espírito foi pra ser um grande curandeiro, um grande cantor, um grande sábio e não estar sujeito a uma civilização onde a nossa dieta era totalmente diferente, comer comida pobre, arroz podre, carne enlatada, um regime que nós não conhecíamos. Então meu pai me entregou com duas calças e duas camisas, um caneco, uma colher e eu fiquei num dormitório no meio de tantos alunos.  Porque nós éramos na época 180 alunos, éramos classificados pela faixa etária, eram maiores, médios e menores. Eu fazia na época a segunda pessoa da turma dos menores na fila, porque foi uma educação militar, tudo na base da fila, tudo dominado pelo horário, foi muito chato isso.

 

P/1 – E quanto tempo você ficou nessa escola? Como é que foi?

 

R – Ah, eu fiquei... Nesses três meses eu já fiquei doente. Eu comecei a inchar minha bochecha, eu não queria comer... Davam na escola umas coisas que eram violentas, aí eu fiquei totalmente inchado. Aí no quarto mês o meu avô veio me visitar com meu pai, aí ele esculhambou o meu pai. Aí ele fez cerimônia pra mim. Pra eu desinchar, pra eu me enturmar, isto é, ele desfez aquela cerimônia que era idealizada pra tribo, aí eu fiquei bom. Aí comecei a correr atrás da bola, eu comecei a dar chute nos outros, eu comecei a encarar a realidade, eu fiquei de 63 a 65 em Pari Cachoeira, aí depois eu vim pra São Gabriel da Cachoeira que fica bem distante de Pari Cachoeira, em 67. Estudei no colégio interno, eu fiz o segundo grau, aliás, o ginásio e o segundo grau até 73 em São Gabriel e depois 82, 83 nós fizemos o segundo grau em São Gabriel.

 

Depois eu vim pra Manaus, voltei pra minha comunidade pra ser professor primário em Pari Cachoeira e Tracoá. Eu precisava de documentos... Eu prestei serviço militar em 87 em são Gabriel... aliás, em 86, e eu vi que estava sufocado, porque era uma pressão muito diferente. Em agosto de 87 eu vim pra São Luís com a vontade de ser um médico clínico, porque a questão da saúde era muito difícil e continua difícil.

 

Eu cheguei aqui em São Paulo em abril de 81, eu vim aqui com aquela mesma visão pra estudar. Mas eu não tive tempo pra cuidar da vida acadêmica, mas o que eu aprendi ficou na minha imagem, aquela experiência amarga do colégio sempre sujeito a doutrina dos outros. Eu me sinto ainda assim preso, porque eu não vejo que todos os índios têm liberdade ainda. Nós temos que libertar muita gente, isto é, nós temos que acreditar na nossa capacidade pelo fato de sermos povo diferente muita gente pode nos apoiar, mas eu tenho certeza que padre, pastor ou o Estado brasileiro, eles não podem continuar nos dando diretrizes, mas podem nos ajudar a promover a nossa cultura é o que estamos fazendo hoje.

 

P/2 – Naquela época ainda da escola lá no começo em meados da década de 60, como era a sua relação com os colegas lá na escola nesse período de adaptação que você estava vivendo? Todas essas dificuldades que você estava enfrentando?

 

R – A pior coisa de relação que eu tinha é que o aluno de outra tribo ou mesmo da mesma tribo que era maior pegava a carne do meu prato, eles tomavam dos outros e comiam. E nós não tínhamos outra saída, era chorar calado. Sem proteção de ninguém. E outras vezes nós disputávamos a enxada pra trabalhar, quem corria mais pegava a enxada mais leve e os menores, que nós éramos, nós sempre levamos desvantagens pra pegar enxada feia, pesada ou mesmo a padiola. A nossa convivência lá era indescritível, nós sofremos muito, quando tinha uma farinha boa. A farinha dos menores era tomada pelos mais velhos, eles tomavam a carne, tomavam a farinha e quando a farinha era ruim, eles enchiam o nosso caneco ou a comida também e nós não tínhamos como nos defender.

 

Então a língua que nós falávamos lá era Tukano, a língua era mais assim de maioria absoluta até hoje, então os padres utilizaram a nossa língua pra catequizar, domesticar outros índios. E com isso se perdeu muitas línguas e hoje nós temos muitas tribos que não falam mais línguas próprias, eles continuam falando o Tukano. O resultado de tudo isso é que em São Gabriel hoje nós temos três línguas oficiais através da Lei Orgânica Municipal; uma Lei hoje pra falar Tukano, que é a nossa língua, depois Banilla, que é outro grupo e língua geral, mas tem outras línguas que tem o mesmo nível ou então o mesmo valor.

 

Então essas coisas que nós não tínhamos antigamente. Então essa relação de infância foi muito pesada, nós tínhamos horário certo pra comer, pra rezar, pra estudar, pra dormir. A pior coisa era de noite, porque já tínhamos apanhado durante o trabalho, depois na escola, depois não falar a língua do padre. O pior ainda era quando nós apanhávamos de nossos padres ou de nossas freiras também, porque elas batiam na gente e nossos pais não podiam reclamar nada e quando um aluno índio reclamava do padre, ele era expulso. Então daí foi aquela emigração maciça de Pari Cachoeira, muitos índios que não concluíram seus estudos vieram pra Manaus ou pra São Gabriel, não pra serem tratados como tais, eles vieram em busca de uma vida melhor e acabaram trabalhando nas embarcações de comerciantes. E assim o meu povo foi dispersado, outros foram pra Colômbia, outros pra Venezuela, mas o meu povo está na região de Alto Rio Negro, na Colômbia e na Venezuela. Então essa é a experiência amarga que a civilização nos trouxe.

 

P/2 – Mas e uma amizade? Nesse período todo você teve algum amigo assim marcante no meio de toda essa dificuldade que você viveu no começo da  escola? Teve alguém que era uma pessoa mais próxima assim com quem você podia compartilhar um pouco essas angústias?

 

R – Tivemos sim, porque nossos primos que nos davam... Falávamos baixinho entre nós pequenos, falando a nossa língua e os maiores nos vigiavam, a obrigação dos alunos médios que já sabiam falar português era pra dedurar quem estava falando língua própria. Então todos os dias ao final de cada semana, tinha um boletim no quadro dizendo que o aluno que mais falou língua indígena foi tal. Então nossa nota era controlada, “Esse aqui tem que estudar mais, então merece mais.” Mas a melhor coisa que nós tivemos também pra descontar, digamos assim a porrada que os grandões nos davam, era na hora de tabuada, nós tínhamos que decorar os cânticos todos, as poesias todas e inclusive a tabuada. Então tinham aquelas grandões que não sabiam tabuada, era uma época de palmatória, então nós descontávamos dando porradas nas palmas dos grandes. Essa foi uma didática da época; hoje não, na época não tinha Conselho Tutelar, não tinha nada, todo mundo tinha que estar alinhado, é duro dizer isso.

 

P/1 – Álvaro, antes de você ir pra escola, só pra você contar só mais uma história e depois a gente passa pra juventude. Eu queria saber de um momento pra você que foi marcante? Que você tenha aprendido a construir alguma coisa com seu pai ou passado alguma festa, sabe? Alguma história que tenha sido bacana pra você assim com sua avó, com sua família?

 

R – A grande coisa que marca é que meu avô, ele passou mais de 40 anos - nos primeiros tempos de contato com os brancos -, ele passava contando esse sofrimento e depois contando também os valores culturais. Na época eu era pequeno, eu não sabia, mas quando eu fui pra escola, aí que eu perdi o contato com eles. Sempre que eu voltava pras férias, eu sempre ouvi e sentia falta dessas histórias, aí nós começamos a pesquisar, depois que eu voltei do colégio, eu comecei a pesquisar o que meu avô dizia, meu pai dizia. Então nós começamos a pesquisar a nossa botânica, todos os conhecimentos tradicionais e hoje nós temos um programa para o nosso povo, par nosso clã, porque o povo Tukano... Nós somos divididos em clãs, cada clã hoje tem que defender a sua história, a sua sabedoria, cada nação indígena tem que fazer o mesmo. Isso era proibido antigamente, então isso marcou.

 

Hoje o Rio Negro tem bons líderes, nós temos índios que estão na universidade preocupados com a ecologia para não perder os conhecimentos tradicionais, foi uma lição o nosso sofrimento. E também nós fomos frágeis, certa época, porque nós não sabíamos ler e escrever, mas esse instrumento que nós temos hoje de saber ler e escrever nos dá certa segurança de: como é que nós vamos poder nos comunicar. Essa comunicação antigamente nós não tínhamos, nós fomos obrigados a confessar os pecados quando era sábado ou sexta feira, fazer o jejum e ouvir histórias de santos, tantos santos que a igreja tem. Nós fomos obrigados a praticar o calendário católico apostólico romano e seguir os grandes exemplos de brasileiros, decorar as poesias de Olavo Bilac, conhecer como foi Getúlio Vargas, como é que foi a civilização no país. Acatar de maneira calada como é que foi a entrada de Bandeirantes pra matar os índios ou a chegada dos missionários como uma grande salvação pra população indígena e tudo isso foi uma mentira. Então hoje quem faz história somos nós.

 

P/2 – Álvaro, a gente aqui no sul, a gente não fica muito ligado na nossa forma de se localizar no nosso mapa, as estradas, as cidades, a gente é muito ignorante na maioria das vezes pela forma de se locomover pelos rios na Amazônia, por exemplo, pela forma como as nações indígenas se distribuem lá por aquela região. Então eu queria que você me contasse da maneira mais visual possível, se eu quisesse sair aqui de São Paulo e ir lá visitar o seu povo, como eu faria pra ir lá? Por quais paisagens eu passaria? Qual seria o caminho? O trajeto que eu precisaria tomar pra ir lá pro seu povo? É só pra gente conseguir visualizar qual esse universo do qual a gente está falando?

 

R – Não entendi a sua pergunta, mas eu quero colocar o nosso caminho. O nosso povo veio dos grandes rios, dos grandes mares, o nosso povo chegou aqui trazido por um barco mágico que nós chamamos Pamani Ioquisá, é canoa de transformação. A nossa chegada aconteceu aqui na Baia de Guanabara, que nós chamamos de Elpercunitará. São Paulo hoje é conhecida pra nós como Decapur Ditá que é terra da mandioca. Então aqui o nosso povo conhece e depois nós fomos subindo do Rio de Janeiro, nós temos hoje Bahia. Chama-se Dacept Caranditá, são terras de camarões grandes e depois nós temos Moanditá, terra de sal, aí nós temos Mipim ol Neitaté, terra das palmeiras onde é a atual Amazônia.

 

Então nosso povo fazia esse trajeto subiu de Marajó a procura de linha imaginária do Equador e nossa navegação depois de muitos anos terminou na Cachoeira de Ipanuré, Ipanuré fica no município de São Gabriel no distrito de Taracuá. Então foi lá que terminou a nossa navegação, aquele navio que nos levou, aquele barco grande voltou com os marujos, voltou com o primeiro descendente... O maquinista, que era simples, lá ele se transformou em cor branca, ele trouxe a toda civilização daquele barco, trouxe as armas de fogo, de lá também veio o negro, eles voltaram para os lugares de origem. E nós ficamos ilhados, e nós tivemos essa transformação. Então essa era a educação que nos davam, esse é o roteiro nosso, o roteiro antigo, então nós estamos assim divulgando esses conhecimentos antigos dos nossos povos. Então nós temos um conhecimento próprio, são valores próprios e as nossas crianças têm que saber esses roteiros. Existem muitos lugares sagrados onde nossos antepassados fizeram Dabucuri, que são essas festas grandes pra tocar as flautas sagradas, tomar Ayahuasca, trocar informações, fazer o casamento de seus filhos. E esse território que faz ainda o casamento é esogâmico, lá no Rio Negro, eu sou de um povo de casamento esogâmico, onde eu sou de uma educação patrilinear. Por exemplo: se eu casar com uma japonesa o meu filho tem que ser Tukano, se eu casar com uma judia, ele tem que ser Tukano, mas se minha filha casar com um judeu, eu terei um neto judeu, é assim que nós pensamos. Essa foi uma educação que nossos pais nos colocaram, mas com a chegada dos padres alguns índios mais obedientes queriam casar tukano com tukano, o que pra nós é contra a lei, contra a nossa lei. Isso não é civilização, então nós mantemos esse padrão, nós nascemos e vivemos com nosso pai, nós nunca nos separamos.

 

Então nós sabemos a história do nosso povo. Por exemplo, eu sou tukano de tal clã, ele vai dizer: “Eu sou de tal clã.” Então o povo do Rio Negro, eles são tukano, desano, tuiuca ou arapaças, nós somos famílias com subdivisões. De vários clãs, de irmão maior a menor, então nós defendemos o nosso território. Agora, hoje se você quiser conhecer o Rio Negro, você pode pegar o vôo daqui pra Manaus, que é longe, pode chegar a Manaus e pegar outro vôo, nós moramos a 850 quilômetros de Manaus, aliás, até São Gabriel. E chegando lá perguntar onde mora o Álvaro Tukano que todo mundo sabe, nós vivemos a 100 quilômetros de São Gabriel na Região do Morro do Pico da Neblina, na região do Morro dos Seis Lagos próximo ao Pico da Neblina. Então lá nós continuamos fazendo a defesa de nossas teses, de nosso modo, na região nós temos várias outras tribos. Como eu falei são 23 povos, são mais de 750 comunidades, lá vivem mais de 45 mil índios, ou seja, 10% da população indígena no país se encontra no Rio Negro. Então por isso é muito importante defender essas culturas antigas, lá é o espaço brasileiro e o Brasil deve ter orgulho de dizer que ainda nós temos esse mosaico cultural.

 

P/1 – Álvaro, quando foi que você percebeu que seria importante você contar a sua história para os homens brancos? Álvaro, você contou dessa experiência toda que seus próprios avós e pais contavam essas histórias da origem do seu povo e contou que quando você foi pra escola você achou muito difícil, porque foi uma coisa autoritária, teve uma diferença muito grande cultural e tudo. Quando é que foi que você percebeu que seria importante você começar a contar a sua história para os outros?

 

R – Para os outros? Em primeiro lugar, entre nós eu sempre questionava com meu pai, até quando eu ia nas férias, por que a gente tinha que fazer. Então ele me contava, ele sempre fazia aquela revisão e também me fazia lembrar. Eu tinha um professor bravo chamado Padre Casimiro Bakster, ele era lituano, ele tinha participado da Segunda Guerra Mundial, ele tinha varizes nas pernas, ele sofria muito. Esse padre foi o padre mais bruto que Pari Cachoeira conheceu, eu apanhei dele, muitos apanharam dele, a porrada física mesmo. Ele batia, mas foi um bom professor, ele sempre falava dessas guerras, ele falava de uma maneira clara que tínhamos que defender os valores, porque ele não gostava dos alemães e não gostava dos russos e de modo geral, ele não gostava dos comunistas, aí quando ele não agüentava, ele chorava. Aí nós éramos pequenos não poderíamos fazer nada, mas ele “rezava”, ele sempre via a fotografia da namorada dele que foi morta nessa guerra, aí depois ele sempre nos dizia: “vocês têm que defender os valores.”

 

Então ele foi um camarada que nos ensinou a ensinar a técnica para escrever tukano, pra falar uma coisa diferente. Então aquilo foi ótimo. Ele era ruim, mas ao mesmo tempo ele foi bom dando introdução de como é que nós deveríamos registrar os nossos conhecimentos; ele usava um gravador, ele tirava os segredos dos alunos e depois, eu acho que... não sei com quem ficou ou se desgastou ou se perderam. Então nós tivemos um quadro interessante quando nós começamos a registrar as nossas histórias.

 

Depois, quando vim pra cidade em Manaus, por exemplo, eu cheguei acho que foi em agosto de 86, quando eu tive pela primeira vez em Manaus, e lá eu conheci o Museu do Índio, que era dos salesianos e muitos gringos visitavam aquele museu pra conhecer o índio. E também foi quando eu entendi que o padre pensava diferente pra ensinar o índio a religião, a matemática tudo bem... Também até aquele momento, até aquela época ninguém nos ensinou que existam outros povos indígenas no país. Então na minha cabeça nós éramos os únicos índios e fim de papo, aí quando eu cheguei em agosto de 87 de São Luís, eu vi pela primeira vez outros índios fora do Rio Negro. Esses eram os índios Canela, Guajajara, Timbira, eles viviam numa condição, eu diria assim, quase que desumana na casa do índio, onde ninguém poderia chegar pra falar com ele sem autorização da pessoa que tomasse conta deles. Aquilo me revoltou, porque o padre era contra aqueles índios Guajajara que defendiam a demarcação. Os Guajajaras foram mortos por agentes da polícia federal, as vísceras deles foram tiradas e preenchidas com barro pra não boiar, e foram jogados no rio. Aí eu entendi que eu tinha que contar a minha história para aquele povo, que eu era parente deles. Então eu comecei a ler, eu comecei a andar pelo nordeste pra ver o que tinha acontecido. Eu conheci os índios Xocós, eles são lá da Ilha de São Pedro, eles são morenos, bem dizer mais pra negros em relação a mim, que tenho o cabelo liso. Eles têm cabelo bem duro. Eu fui atrás desses índios uma vez, eles estava numa situação delicada, só quem ajudava aquele povo era o Bispo de Própria, o Dom José Gomes. Aí eu entendi que a questão fundiária era uma coisa tão preciosa que dava pra unificar os nossos povos.

 

Aí comecei a falar com outros filhos de líderes pra valorizar as nossas culturas e defender os nossos territórios, e feito isso eu abandonei os meus livros, não quis mais assim ser médico, eu não quis estudar mais nada e não quero estudar até hoje, porque não adianta eu estudar a história do país que tanto mal fez às comunidades indígenas fazendo desaparecer mais de cinco milhões, mais de 900 tribos, então essa matéria não me serve. Então eu preferi organizar o movimento indígena, eu voltei por isso. Eu não consegui passar pra faculdade de Medicina, porque eu não atendia a média. Porque ninguém me ensinou Matemática, ninguém me ensinou Física e Química, eu aprendi a cantar os cânticos da igreja católica em Latim, cantar o Hino Nacional e essas coisas que eu aprendi, ninguém me ensinou, então eu não passei por isso.

 

Então quando eu voltei lá pra minha comunidade em janeiro de 80, eu fiz uma crítica... Eu secretariei uma das entidades grandes em Manaus dos índios do Estado de Amazonas, do Pará, de Roraima pra analisar como é que a FUNAI estava tratando a questão indígena. Então não havia nada, era mais pra dar nossas terras para os invasores e nessa confusão acabamos fazendo uma nota muito dura sobre o militar, o Brigadeiro Protásio, porque ele sempre trazia as índias mais bonitas pra se empregar em Belém, em Manaus ou mesmo aqui em São Paulo na casa dos militares ou dos parentes. E isso pegou mal pra nós até hoje, quando nós chegamos lá na nossa comunidade de Pari Cachoeira nós fomos caluniados, difamados de todas as maneiras, nossos filhos foram expulsos do colégio pra não estudar no colégio dos padres. Então eu achei aquilo uma arma e nós começamos a dizer então: “Se estamos rompidos, vamos romper” então nós não rezamos, preferimos deixar a escola de alvenaria, capela de alvenaria, fazer uma nova aldeia pra recomeçar a nossa vida. Então hoje estou contando com toda a segurança, porque nós temos hoje o centro cultural lá no Balaio onde nossos filhos terão a liberdade de expressão, nós queremos viver livremente e hoje nós temos a facilidade de falar assim numa televisão, de falar o que nós temos, o que nós vamos fazer o que nós não tínhamos antigamente.

 

P/1 – Álvaro como foi então a formação desse centro cultural lá? Vocês conversaram entre si?

 

R – Entre 1930 a 45 os padres salesianos conseguiram destruir todas as malocas. Malocas eram umas grandes casas comunitárias, onde cada clã ou cada tribo vivia naquela casa sagrada pra tomar Ayahuasca, aquilo era o mundo nosso. Depois que nós brigamos com os padres, nós fizemos três malocas, três casas sagradas nossas, onde nós fazemos reuniões, começamos tudo de novo. Aí como nós fomos pra bem longe do rio, nós hoje estamos dependendo da estrada e pra nossa infelicidade as pontes caíram e nós tivemos muita dificuldade pra tirar caraná, caraná é a palha pra fazer a nossa casa grande. Aí eu vim na Funai e contei da minha dificuldade pra discutir a cultura e a Funai nos financiou, mas os gerentes dessas estatais de modo geral, eles são muito complicados tanto na educação quanto na saúde e nesse caso também. Então a nossa casa atrasou, nós fizemos uma casa no estilo antigo, nós fizemos de tijolos, construímos de tijolos pra não cair. Colocamos por cima a telha ecológica de pet, que segundo o engenheiro é pra durar um século, e forramos por baixo com palha e o nosso projeto é pra tomar ayahuasca com a nova geração, ensinar os nossos cânticos, nós não temos assim essas máquinas modernas e vamos precisar de aliados. Acho que como os padres ficaram um século com o programa deles, então nós queremos também recuperar um século de recuperação.

 

Isso é muito bom, porque apesar de todo esse sofrimento que passamos, hoje nós temos várias alternativas de fazer aliança, mas o programa que nós estamos fazendo é pra aprender a falar bem a nossa língua, praticar as cerimônias, usar a nossa floresta onde tem peixe, onde tem plantas medicinais, onde tem a liberdade, onde é tudo de graça. Então nós não teremos assim tanto sofrimento como existe hoje nas favelas de Manaus, porque muitos favelados que estão em Manaus hoje, eles têm que voltar ou se não quiser voltar pelo menos termos a facilidade de nos comunicar. Então o que eu quero dizer aqui é que o meu lugar não é São Paulo, não é Rio, não é Manaus, mas é ter um lugar próprio, o meu lugar é lá no centro cultural, é lá que está o meu futuro é lá que está o futuro do meu povo, mas eu tenho que ter diálogo com as pessoas que vivem aqui nesses grandes centros urbanos brasileiros e no mundo. Então nós estamos contando a nossa história a nosso modo, isso pra mim é muito importante.

 

P/2 – Álvaro a reconstrução, digamos assim, da aldeia de vocês, quando vocês romperam com os padres, foi no início da década de 80, mais ou menos?

 

R – Foi na década de 80.

 

P/1 – E como é que foi? Porque você ainda foi viajar. Foi pra escola, conheceu outras cidades... Quando você voltou pra sua aldeia como é que foi conversar com os mais velhos sobre isso? Pensar nesse centro cultural assim, o que mudou? Porque é muita informação nova que vem.

 

R – Foi tudo pra dizer não à construção de escolas e igrejas não indígenas, porque o problema de índio hoje... O problema de índio são as igrejas evangélicas e católicas que sempre ficam atrapalhando a sobrevivência dos povos indígenas, elas roubam a autonomia de nossos povos. Então o nosso povo antigamente nunca precisou de padre; nós sempre precisamos de cânticos, de histórias próprias, eu preciso de uma oração forte pra curar o reumatismo, eu preciso é de plantas medicinais pra curar o meu povo, eu preciso saber a história do meu povo ao classificar as mandiocas, bananeiras e tudo que nós temos. Então é isso que salva o índio, então foi por isso que nós resgatamos, pesquisamos e pra não ficar somente nós. Na linha de frente, levando porrada do padre e do Estado, não nós estamos tecendo aliadas, então a maioria do povo indígena pensou e aí fizemos esse centro cultural. Nós fizemos três centros culturais antes sem ajuda de ninguém, esse é o quarto centro e nós tivemos o apoio do Estado, mas o apoio do Estado foi pra promover a nossa cultura, a nossa resistência índia. Isto é, a FUNAI não vão mandar no nosso centro, não é padre que vai mandar no centro. Esse centro é autônomo, esse centro é pra cuidar do povo indígena, esse centro é onde acontecerá a aliança entre nós e quem quiser vir conosco pra defender os interesses que nos interessam.

 

P/2 – Ele foi criado quando?

 

R – Esse centro foi criado... Nós estamos aí com dois anos de construção, mas até maio ou junho nós estaremos inaugurando.

 

P/2 – E, digamos assim, ele é filho de todo esse processo que começou lá na década de 80?

 

R – Ele é o resultado de muitas lágrimas e de muita pancada, é o resultado de tantas coisas que nós fizemos também com outros povos indígenas pra defender a Amazônia de um modo geral. Nós fizemos politicamente aliança com os sem terra desse país, aliança com índios e seringueiros pra defender a Amazônia. Nós levamos as pressões a nível internacional pra defender esses valores culturais. Então ele é ponto pra dar a continuidade dessas discussões com novas gerações.

 

P/2 – E ele fica onde? Esse centro?

R – Ele fica na estrada BR 303, no quilômetro 100 no município de São Gabriel da Cachoeira, na fronteira com a Colômbia e a Venezuela.

 

P/2 – Agora Álvaro lá da década de 80 ainda, depois que você teve essa experiência que foi uma experiência muito marcante na sua vida, do contato com essa escola dos padres, o primeiro contato com a cultura do branco, digamos assim, depois que você teve a primeira experiência em Manaus, como é que era a vida depois que você voltou, que vocês foram reconstruir essa aldeia? Como é que era essa aldeia? O tamanho? Tinha muita gente ali? Como é que era a sua relação com as outras pessoas? Conta um pouquinho desse período do começo dessa retomada de autonomia de vocês?

 

R – Nós tivemos dois lados de confusão. Primeiro, eu briguei com o bispo, que era um bispo muito rico chamado Dom Miguel Aleng, e seus aliados eram freiras, padres e muitos índios que defendiam mais o padre do que a nossa cultura. Então nós saímos depois de muitas brigas físicas também, então nós fomos parar lá no mato onde hoje é o Balaio, na época outra grande confusão que nós enfrentamos foi com a chegada das empresas de construção da estrada. Como a EIT era empresa industrial técnica, esteve lá a Queiroz Galvão para abrir uma estrada de São Gabriel a Bogotá, aí fez essa estrada de São Gabriel até no quilômetro 80; era pra vir até Caracaraí, mas depois acabou a grana, segundo eles. E do KM 80 a 100 quem fez foi o primeiro batalhão de Engenharia de Construção.

 

Aquele lugar já era conhecido dentro de nossa mitologia, o Morro dos Seis Lagos na nossa ciência é por onde começou o fogo na face da Terra. Então nós já conhecíamos aquele lugar, a Serra do Demiti é uma armadilha de um duende caçador, é uma serra comprida, mais de 70 KM, onde o duende caçava, ele morava lá nas cabeceiras do Rio Tiquié, também na nossa região, isso antigamente. Quando chegaram os nossos habitantes, os primeiros habitantes, eles viajavam... Eles sempre navegavam desde o Alto Rio Negro até Belém, outros iam pelo caminho de Caraciquiara e chegavam até lá na... Como que chama? Caribe. Então o nosso povo já conhecia esses lugares, São Gabriel é uma região cheia de histórias, se a gente analisar bem cada pedra ou cada curva do rio tem uma história própria.

 

Então é isso que nós temos feito também, então toda aquela região é cheia de lugares sagrados, então nós fomos da região, onde pra nós não chegaria nenhum branco, mas nós não tínhamos outro lugar, porque nós não tínhamos mais casa em São Gabriel, nós fomos assim sujeitos a... Meus irmãos não mais estudavam, eram pequenos, então nós fizemos essa aldeia justamente pra começar tudo de novo. Mas naqueles momentos também vieram muita gente do interior para São Gabriel, chegaram militares. Esses peões de construtoras. Começaram também a abusar, violentar sexualmente as índias e hoje São Gabriel está cheio de mestiços, esses mestiços são nosso sobrinhos sim, mas quando eles são bons, nós gostamos, mas é muito difícil a gente acreditar no mestiço quando ele fica contra a questão indígena. Esse é um grande problema hoje. Então nossas filhas, nossas irmãs ainda continuam sendo seduzidas pelas pessoas de fora, principalmente pelos militares, pelos não índios. Esse ato sexual antigamente era tudo pecado, só poderia transar com a sua mulher depois do casamento, depois de ser consagrado pelo padre e os padres não fizeram isso, a igreja se omitiu e continua se omitindo, isso é uma falta grave. Então esse foi outro fato que nos forçou a dedicar mais a assuntos tribais, então essa é uma mensagem pra dizer “estamos resistindo.”

 

E nós discutimos com os outros índios da região sobre esses fatos, por que isso acontece. Então nós temos hoje a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro, que eu tive uma ideia quando estive no Equador. No Equador existe um povo chamado Xuar, Xuar, também foram alfabetizados pelos padres salesianos lá no Equador; eles tomam Ayahuasca como nós e eu descobri outros: os Sequóias e Confanes, que são meus parentes, eles falam minha língua. Mas comparando com os salesianos do Equador e do Rio Negro, eu achei que aquele modelo, eu poderia levar pra São Gabriel. Lá os Xuar tinham uma escola radiofônica, eles fizeram uma federação. Então eu tirei essa cópia e quando foi 87 eu fundei a FOIB pra poder defender essas culturas. Hoje a nossa sede está em São Gabriel e nós lá do Balaio somos hoje poucas pessoas, como eu falei umas 300, 400 pessoas, então nós somos de uma pequena a organização de base da FOIB, Associação Indígena do Balaio. Nos fundamos e hoje tem mais de 50 organizações e cada organização, cada povo ensinando seu filho a defender seus valores culturais.

 

Então o Balaio tem esse centro cultural e nossa intenção é organizar o nosso clã, dizer onde está o nosso irmão, ensinar tudo de novo pra nosso clã que vive em Manaus ou em Barcelo ou Santa Isabel ou mesmo em São Gabriel e outros lugares. Isso que foi tudo destruído, nós estamos fazendo igual ao jabuti, voltando do paraíso quando ele se quebrou no chão. Então nossa responsabilidade hoje é procurar os irmãos, aqui em São Paulo nós temos parentes que foram destribalizados, nós temos parentes no Rio, outros estão em Caracas, outros em Bogotá. Então é um trabalho muito difícil, mas nós temos que ter uma matriz que possa durar muito, mas de uma maneira sistematizada e é isso que estamos fazendo.

 

P/2 – E essa experiência na Holanda, como é que foi? Quando foi? Conta essa história pra gente?

 

R – Bem, eu acho que nós passamos aí mais de meio século brigando com o padre, quem tinha o transporte fluvial na época eram os padres e quem embarcava nesse transporte eram os catequistas ou moças bonitas pra vir a Manaus, mas pra ser cozinheira. Então as mulheres vieram pra serem cozinheiras das freiras, quem sabia falar português ou cozinhar bem eram transferidas pra Manaus em outros lugares. Homem não, o homem tinha que se virar mesmo e a maioria ficou no Rio Negro, nas embarcações, tomando cachaça e morrendo. Os mais assim sortudos foram prestar serviço militar, hoje eles são velhinhos, estão aposentados, muitos tornaram militares. Então praticamente os nossos valores culturais foram mortos nesse sentido, muitos sábios, curandeiros ou grandes cantores morreram sem ter oportunidade para transmitir essa sabedoria pra seus filhos, o que não aconteceu comigo, porque meu avô passou pra meu pai e meu pai repassou pra mim. Qual é a minha responsabilidade hoje? É repassar essa resistência pra meus filhos, então era difícil.

 

Então em novembro no final de novembro de 80 houve um tribunal de caráter moral lá na Holanda pra julgar os crimes de etnocídios e de genocídios e também pra combater as ditaduras que existiam aqui na América Latina. Eu fui, como eu falei. Eu tinha meu RG, CPF, alistamento militar e foi suficiente pra eu tirar o passaporte, eu entrei na fila pra tirar meu passaporte e viajei pra Holanda. Eu não poderia viajar, segundo a FUNAI porque eu era índio, o índio só tinha direito de viajar acompanhado, mas eu nunca precisei assim da FUNAI, tudo que eu tenho hoje, eu não tenho que dizer “muito obrigado” a FUNAI, se a FUNAI me ajuda a demarcar terra e outras coisas é porque isso é papel constitucional. Então eu fui lá e na época o Juruna era um grande político, ele se transformou, então o Juruna foi proibido de viajar pra Europa pra denunciar as irregularidades que a FUNAI fazia pra demarcar as terras, era muito difícil. Eu peguei o passaporte e fui embora pra Alemanha. Eu nem sabia o que era entrar no avião. Eu peguei o avião e fui pra Nova York e lá eu fiquei detido no aeroporto, porque eu não sabia falar inglês e também não tinha permissão. A noite nós viajamos pra Amsterdam num avião árabe, chegamos a Amsterdam e depois fomos pra Roterdam, e quando foi no dia 20... Eu acabei denunciando junto com o Márcio de Sousa sobre a realidade do meu povo no que se refere a essa desaculturação, destribalização.

 

Isso me custou muito porque os padres e os coronéis da FUNAI não me deram espaço aqui na sociedade pra estudar e pra trabalhar. Hoje estou em Brasília, estou esperando para que a minha área seja homologada o mais breve possível; eu tenho meus filhos hoje já grandes e essa nova geração eu quero tratar com muita habilidade e delicadeza para defender a questão indígena. Não só eles que tem que defender, mas junto com os outros. Então é isso que aconteceu, essa é uma experiência muito amarga. Eu creio que nem um povo indígena pode passar por isso, mas eu fico chateado ainda hoje quando vejo a situação triste dos Guaranis, que não tem terra demarcada, está terrível a situação dos índios Guaranis. Está uma situação triste de um modo geral a questão indígena quando eles não têm território garantido, mas nós temos esse pensamento. Então esse centro lá no Balaio é pra analisar o nosso quadro sócio político e dizer que continuaremos firmes na luta.

 

P/1 – A gente pode dizer então que toda essa trajetória sua de militância, ativismo, transformação, hoje ela está muito concentrada numa mudança de fortalecimento das culturas indígenas, de pensar em centro cultural, pensar em trabalhar com outras aldeias, fazer um tipo de comunicação mais centrada na força da identidade assim da cultura indígena é isso?

 

R – Isso é verdade, porque o nosso objetivo é fazer novos líderes. Praticantes de nossas cerimônias, de nossos cânticos, que falem bem a nossa língua, porque defendam na prática e na região o nosso povo. Nós queremos bons curandeiros, bons pajés, bons botânicos e que mantenha essa autenticidade, acima de tudo a simplicidade para dizer quem somos nós. E queremos divulgar essa cultura, queremos dizer que nós somos importantes, contribuindo com a nossa cultura, para o Estado brasileiro e também para o mundo todo, porque quem conhece os tipos de minhoca, quem classifica somos nós, quem classifica os peixes somos nós, quem vive na floresta somos nós.

 

Então por isso que aquilo deve ser preservado, pra quem interessar, pra quem quiser vir fazer pesquisa. Estamos em aberto. Por exemplo: antigamente meu povo fazia minhocário lá no Alto Pampuri, onde meu povo parou existe minhocários naturais. Então meu povo se alimentava de minhocas, se alimentava das saúvas e de outros insetos, então essa culinária, ela é uma riqueza cultural que eu tenho que manter, eu tenho que usar assim conhecimento natural pra pescar e pra caçar. Mas quando não tem isso vêm tantos projetos em cima da gente que precisamos também, mas é mais assim para burocratizar o índio e isso não é bom não. Eu vejo que o problema do Estado é querer controlar o índio, deixar o índio na burocracia em tudo. Nós dependemos da Lei pra estudar, pra cuidar da saúde, pra demarcar as terras indígenas. Mas nós temos que ter mais assim habilidade pra ensinar aos nossos filhos como se deve tomar banho, como é que ele deve pescar, como é que ele deve casar, com quem ele deve casar, por que ele tem que casar, como é que ele vai ter que educar o filho dele. E também descobrir o outro lado: “Esse povo é assim, outros povos são assim.” Então o mundo ficou tão pequeno pra nós e a gente tem que ter muita força pra poder sobreviver como culturas assim diferentes, entender outros povos também. Entender os valores de outros povos, então é isso que o mundo exige hoje.

 

Então antigamente nós achávamos que éramos os últimos índios, e hoje somos mais de 314 índios sobreviventes, povos indígenas e somos mais de um milhão de índios. Muitos índios antigamente tinham medo de ser índio pra não ser assim rebaixado, hoje 60% da população tem sangue indígena. O Brasil é esse, o Brasil mestiço, um Brasil cheio de cultura, porque também continua chegando de fora. E nós continuamos assim como os Guaranis que tem resistência aqui na grande São Paulo e nós lá na floresta teremos essa mesma resistência. Então eu creio que defender o planeta é isso, defender planeta tem que defender primeiro os nossos valores culturais.

 

P/2 – Álvaro e a vida pessoal no meio de toda essa sua militância, a sua esposa? Os seus filhos? Quantos filhos você tem? Quando você conheceu sua esposa? Fala um pouquinho da sua vida pessoal pra gente?

 

R – A vida amorosa sempre existe. Começando do lado cristão, Adão era Adão e depois eu sempre leio também a Bíblia, ninguém vai dizer que eu não sei ler a Bíblia, eu sei interpretar ao meu modo. A história cristã, a história do povo judeu tem que ser lida, mas o que me chama a atenção é que é uma história cheia de guerras, cheia de poligamia, cheia de confrontos. Até hoje o povo judeu continua fabricando armas, mais armas, outras continuam fazendo o mesmo e nós continuamos assim pensando. O Brasil todo continua fabricando milhares de carros, milhões de carros e o Álvaro Tukano continua sem televisão, sem carro, querendo fazer centro cultural. Então nós estamos muito opostos, de certa maneira; eu não acredito quando o padre é ruim, quando o pastor é ruim, mas acredito naquelas pessoas que são muito simples, muito prática pra ajudar o meu povo. Então nós temos que saber valorizar o outro ser. Por exemplo, quando estou falando pra vocês, eu estou transmitindo a minha verdade, eu não sou Jesus Cristo, eu não sou Tiradentes, eu não sou Presidente Lula, mas a minha contribuição pra quem quiser acreditar em mim que acredite. Então a minha vida tem sido dura, porque como eu sou de um povo esogâmico, eu tenho várias primas que são de outras tribos com as quais eu deveria casar. Eu cheguei aqui em são Paulo com um saco de livros, com a ideia de estudar na USP ou então na PUC, eu não tinha dinheiro, eu acho que meus livros se perderam e eu comecei a tomar cachaça por aí, não tinha dinheiro. Quando o índio não tem dinheiro é muito chato ou outro homem também. Sempre aparece o gaiato “Oh, vamos lá tomar uma cachacinha” então eu vou lá, lá sai tira gosto, comida, lá você vai aprendendo as malandragens. Não existe o homem tão inocente, o homem puro quando vem pra cá, nessa confusão você tem que dançar conforme a música, assim diz o ditado. E assim eu aprendi, eu conheço muitas boates por aqui da grande São Paulo, do Rio, eu conheci grandes intelectuais como Dalmo Dallari, o Darcy Ribeiro, conheci os grandes políticos como o Brizola ou mesmo o Lula quando era sindicalista, eu conheci líderes estudantis. Eu estava mais fazendo politicagem e ficando velho...

 

P/2 – Só um segundo. Quando você veio pra São Paulo?

 

R – Eu cheguei aqui em abril de 80, 81 sem conhecer nada, mas sabia que existia São Paulo. Aí em 83 eu conheci, aliás, em 82 eu conheci uma colombiana, ela era mestiça, chamada Alba, ela era estudante na USP e eu casei com ela, eu casei aqui em São Paulo. Aí eu tive uma filha chamada Daiara, ela é paulista, ela nasceu aqui em São Paulo, ela está com 26 anos hoje, está terminando a faculdade na UNB em Brasília. Ela faz Artes Plásticas, ela tem um filho que se chama Nícolas. E foi muito difícil eu ter uma família aqui, mas foi muito bom também ter uma família, mas o que era bom, eu não tinha que era emprego. Eu fui um dos dirigentes do movimento indígena aqui no país, chamada União das Nações Indígenas, que foi um movimento que nós organizamos de ponta a ponta para combater a ditadura. Então por isso eu não estudei, eu estava lá pra apagar o fogo onde tinha briga de índios com os madeireiros, com os garimpeiros, com os fazendeiros mesmo, com os funcionários da Funai, eu estava lá mais preocupado em salvar isso.

 

P/2 – Álvaro, você estava falando da sua vida aqui em São Paulo no começo da década de 80, quando você enfrentou uma série de dificuldades aqui, mas também quando você conheceu sua esposa estudante da USP e teve a sua filha. A primeira filha?

 

R – Eu tive a minha primeira filha, eu morei aqui no bloco A da Crusp, eu discuti, participei dos grandes seminários dos estudantes, eu aprendi a fazer greves aqui com eles, eu participei das greves, fiz palestras nas greves do ABC. Nós tecemos uma grande união entre os povos indígenas, chamada Organização das Nações Indígenas, nós tivemos o escritório aqui em Perdizes na igreja dos padres, pertinho da USP; nós tivemos outro escritório da UNI na sede Sapiense, quando conhecemos o movimento rural dos trabalhadores sem terra. Então nós enfrentamos o Estado brasileiro quando foi dominado pela ditadura. Geralmente os líderes dessa época, nós não tínhamos assim tempo pra ficar cuidando da vida acadêmica e da vida familiar. Isso foi muito difícil pra mim, mas depois também nós tivemos que sair da ditadura... Eu viajava daqui pra Brasília. E nós tivemos um contato muito bonito, na época que foi o senador Severo Gomes, ele foi senador daqui de São Paulo, ele foi o autor da emenda pra criar o Parque Nacional dos Ianomâmis, o território dos Ianomâmis, que hoje está demarcado, são nove milhões e 900 mil hectares, meu pai é desse território. Conhecemos o Ulysses Guimarães, que era outro deputado federal daqui também, nessa época também temos grandes intelectuais como o Dalmo Dallari daqui, nós conhecemos na época a Ruth Cardoso, que foi a esposa do Fernando Henrique, a Manuela carreira da Cunha, a professora Eunice Durny era advogada, a Manuela Carreiro da Cunha é antropóloga, elas eram professoras da USP. Então eles sempre nos deram uma oportunidade pra querer colocar a questão indígena nas universidades.

 

Então isso foi muito bom, foi a melhor escola, aí depois o Ailton Krenak, que era um povo que tinha saído de Minas Gerais, eu encontrei ele aqui. Então eu e o Ailton Krenak nós produzimos esse movimento e colocamos um programa de índio na Rádio USP onde nós colocávamos nossa visão própria para um público tão sofrido quanto o nosso. Eu fui embora um dia daqui pra Brasília pra fazer manifestações a nível nacional promovido pela OAB e outras organizações, aí eu combinei com o dirigente nacional das Nações Indígenas o primeiro e segundo encontro em Brasília, encontros importantes que nunca aconteceram no país. Nós chamamos o SBPC, a ABA, que foi importante a Associação Brasileira de Antropologia com os quais nós temos defendido o povo brasileiro.

 

Então lá conheci outra mulher chamada Cristina, ela era uma professora, eu tenho uma filha com ela que nasceu em Brasília, essa aqui nasceu em 83, nasceu no dia 14 de setembro de 83, essa se chama Daiara Roly de Figueroa Sampaio - o nome dela na cerimônia é Rigó, Rigó é a primeira menina da nossa humanidade,. A de Brasília nasceu em 11 de janeiro de 85 e essa se chama Juciel e Juciel é a segunda pessoa da humanidade. Ela está estudando em Curitiba. Então eu fiquei muito dividido nem aqui e nem em Brasília eu consegui sustentar minha família, porque eu não tinha salário, eu não era assalariado, eu sempre vivi graças à compreensão dos meus amigos pra comer, principalmente, às vezes eu passava fome e eu nunca tive a coragem de dizer: “Eu estou com fome, me dá dinheiro”, não é costume nosso pedir isso. Eu passava muita fome.

 

Essa que é de Brasília, ela faz Direito em Curitiba, aí nós fizemos a Constituinte, eu participei da Constituinte de 88. Aí foi o momento mais triste da minha vida, começou a haver briga lá na minha terra, na Serra da Traíra, houve confronto dos índios tukanos com os garimpeiros. Eu já tinha saído lá da minha região por causa do padre como eu contei, eu fiquei aqui em São Paulo, porque eu não tive lugar onde morar, onde trabalhar, onde estudar e como não tinha lugar também aqui, eu fiquei jogado, eu fiquei mais assim pra conversar com os movimentos sociais. Então meu pessoal ficou com ciúmes de mim, porque eu estava segundo eles cuidando dos outros, então eles me levaram de volta lá pra Pari Cachoeira na década de... Isso foi no final de 84, eu voltei depois que eu briguei com os padres. Lá na minha região. Aí comecei a assessorar, a mostrar pra eles que nós tínhamos que demarcar aquelas terras, aí eu abandonei, a minha família ficou aqui, a outra ficou em Brasília. Nós tínhamos mais confusões com o Estado brasileiro, muita briga com os coronéis da Funai, com os generais. E, pra completar, na época o DNPM Departamento Nacional de Produção Mineral fez vários requerimentos na Amazônia, e a nossa região, o Rio Negro tinha mais de 350 alvarás de mineração, e houve uma disputa muito grande entre índios e garimpeiros pra ocupar aquele espaço na selva, que é coisa mais difícil, onde a lei é lei de quem mata. Lá não tem padre, não tem juiz, não tem Cristo que salva lá, lá ou você mata ou você se salva, era essa lei.

 

Isso nos deu muito desgaste político, nessa história aparece a Paranapanema, que é uma empresa que ela requereu uma área nossa lá de Pari Cachoeira, que era a Serra do Traíra e aquele território é nosso, aquele território é sagrado e desde 1970 é que o povo de Pari Cachoeira vinha solicitando a demarcação da terra pra Funai e a Funai até aquele momento nunca tinha dado resposta. E quando nós chegamos em Brasília, nós encontramos um novo presidente que foi o Apolônio Meireles, na época, ele estava muito mais interessado em dizer sim aos coronéis que mandavam na Funai e no Palácio do Planalto, mais interessados em atender os donos de canaviais e garimpeiros naturalmente na Amazônia. Então nós não fomos atendidos não, nós brigamos, passamos fome, houve confronto entre índios e garimpeiros na Serra do Traíra e nós estávamos em Brasília. Como não fomos atendidos, fomos bater lá no Palácio do Planalto, aí falamos com o general Baina Diniz - isso foi na década de oitenta e poucos. Aí nós ficamos descobrindo que eles fizeram um projeto para defender a faixa de fronteira de 150 km, a faixa de fronteira. E nós somos dessa faixa de fronteira em outro pedaço da faixa. Aí o general Baina disse que ali não se poderia fazer a demarcação da terra, porque é faixa de fronteira. Nós tivemos três ou quatro anos de briga com esse general, porque nós queríamos a demarcação da terra e a Funai disse que não poderia fazer demarcação da terra porque é área dos militares. Aí nós tivemos um longo debate tanto na Funai quanto no Palácio do Planalto dizendo que nós queríamos a demarcação da terra, porque tudo aquilo que era o Brasil hoje foram nossos antepassados que levaram a extensão brasileira que até hoje é, por exemplo, antigamente a Venezuela - tomava conta hoje até onde é Barcelos. Isso foi na década de mil oitocentos e pouco ainda, depois nossos antepassados falaram: “Vamos até São Gabriel.” Então ali foi o limite da Venezuela, na década de 1920 nossos antepassados falaram: “É mais pra cá” e hoje o Rio Negro são mais de 280 quilômetros quadrados, porque nossos antepassados ocuparam aquela região que fizeram o Brasil daquela maneira. E em vez de dizer muito obrigado, o general disse não pra nós.

 

Puxa nós fizemos o quê? Nós recebemos os brancos, nós recebemos os missionários, foram nossos antepassados que construíram aqueles prédios, aquelas igrejas, aqueles aeroportos que hoje o Exército brasileiro toma conta e nós fizemos de tudo, aquele espaço na vista dos militares foi considerado um espaço vazio, tinha que ser ocupado pelos brasileiros e nós somos uns dos brasileiros. Aí quando nós começamos a resmungar dessa maneira o general disse: “Não, vocês não são mais índios, vocês já são índios aculturados, vocês já sabem ler, vocês já tem segundo grau, o índio tem que ser assim, quem vai ter que tomar a área de índio aculturado somos nós, vamos fazer colônia”? E nós falamos: “Não” e foi uma confusão, aí perdemos amigos. Esteve aqui o Carlos Alberto Ricardo, ele é do Cedir - Centro Ecumênico de Documento e Informação, ele nos ajudou a divulgar, mais antropólogos também nos ajudaram a questionar. O Cine também nos ajudou a divulgar na imprensa, então nos fomos notícia, porque estávamos brigando com os militares e mais as empresa mineradoras da Gold Amazon, Paranapanema. Na época o Governador era Gilberto Mestrinho e Gilberto Mestrinho todo mundo sabe que ele é índio, mas não quer ser índio, ele é um camarada que gosta de vender couro de jacaré, explorar a Amazônia a gosto dele. Ele tinha aí grandes motivos, o nosso pai ou a nossa mãe era a Funai, mas ela nunca nos dava um prato de comida sequer.

 

Então até hoje ninguém nos deu apoio, então nós fomos nos virar e daí nós fomos brigar diretamente com esse general. Se era uma região rica nós não sabíamos, porque nós conhecíamos essa trajetória antiga de nossos antepassados, a história de ocupação do rio até hoje na Serra... Aliás, é na Cachoeira do Panoê, isso nós conhecemos de cor. O nosso povo não enxerga o que é diamante, o que é ouro pra nós não interessa, pra nós o mais importante é tomar Ayahuasca, fazer festa, fazer casamento, dançar, curar doença, essa riqueza que nós temos. Já o branco começou a nos questionar a faixa de fronteira, porque é rica e foi uma briga muito feia, depois de tudo isso, acabamos pegando... Eu acabei pegando o dinheiro da Funai, quem administrou foi a Funai, então nós criamos a Federação das Organizações Indígenas em São Gabriel em 87 com o financiamento do Estado brasileiro para discutir de igual pra igual e chamamos as representantes das ONGS, dos militares índios, pra ver como é que ia ser a faixa de fronteira. Eles são muito nervosos. Os militares, quando a gente senta na mesa, eles não sabem discutir, eles perdem logo a paciência, os missionários perdem também logo a paciência. Foi uma confusão tremenda.

 

Então a minha família em São Paulo, outra em Brasília e ficou desse jeito, essa briga terminou só na década de 90 quando algumas terras do Rio Negro foram homologadas e demarcadas, depois que nós processamos o Estado brasileiro, porque assim diz a nossa Constituição: nós temos direito de processar o nosso papai e a nossa mamãe quando não prestam e foi o que nós fizemos e vamos continuar fazendo se necessário. Aí foi outra pauta da minha vida. Quando eu estava lá nessa briga, eu conheci uma mulher Desana, ela era filha de uma das tias minhas que pelo direito... Eu tenho direito de casar com ela, então eu tive um filho chamado Séribi, que é primogênito da nossa geração, dessa geração atual. Tem um amigo meu que se chama Lula, que era sindicalista, eu coloquei Séribi Lula em homenagem a ele, porque é a minha luta. Fui candidato a deputado federal na época, porque eu queria participar de maneira ativa na Constituinte, mas não fui eleito porque não tinha grana. Eu tenho outro filho com a mesma mãe, essa mãe se chama Assunta Prado Marinho, porque ela é Desano, ela é nascida lá em Oeretê, mas hoje ela está lá na minha comunidade, no Balaio.  Ela se chama Emile, na nossa língua chama-se Luvan Prado Sampaio; eu tenho uma filha que se chama Shirlene em português, mas na nossa língua ela chama-se Ieparian, tenho outro filho que se chama Kremilin, é Passoni em tukano. Eu coloquei pra continuar o meu nome de guerra como Álvaro, depois nasceu uma menina que se chama Diupacó em tukano, quer dizer irmã do Diúpore, que foi um grande sábio, ela é irmã do grande sábio, ela está com cinco anos. Aliás, eu tenho outro pequeno que está com quatro anos hoje que se chama Passoni e Passoni é um grande sábio da nossa história.

 

Então eu tenho seis filhos com essa índia e como eu não tinha emprego foi aquela confusão também, porque a minha terra foi deixada de lado pela Funai e muita gente fez campanha contra a minha pessoa dizendo: “Não, esse cara está em outro lugar, ele nasceu lá, ele não é de lá” eles não sabem que nós brigamos com o Estado brasileiro e a igreja pra fazer o novo lugar. Então todos esses meus filhos nasceram lá na comunidade do Balaio, então o mais velho hoje está com 18 anos, ele está estudando hoje no Colégio Dom Bosco - eu tenho quatro filhos que estudam no Colégio Dom Bosco, uma filha pequena está na escola pública em Brasília também comigo.

 

Eu fui diretor presidente de um Museu privado em Santarém no Pará, Alter do Chão, eu tive um caso muito especial lá... Eu tenho uma filha chamada Suelen, ela está com seis anos também, vai fazer sete. Então eu sou um camarada assim muito causador de polêmicas para os católicos e evangélicos que querem controlar o meu casamento. Então eu sou de um povo poligâmico, eu sempre defendo a poligamia para as novas lideranças e essa minha defesa, ela é autêntica, porque se os padres ficam fazendo filhos com as índias ou outras, ficam fazendo filhos e não assumem, mas eu assumo com muita simplicidade, com muito amor. Então essa é minha vida particular amorosa, a todos os meus filhos eu dedico essa minha fala, então eu sempre registro. Eu tenho uma história escrita por mim contando todo esse tipo de sofrimento, eu gostaria que outros índios pudessem fazer esse tipo de história familiar, porque não custa nada, eu acho que nossos filhos merecem esse tipo de educação, merece esse tipo de respeito. Essa é uma maneira de combater os falsos credos, as falsas salvações, porque vêm aqui pra explorar os índios da Amazônia ou de outros lugares, eu acho que nós não precisamos desse tipo de coisa não, o que nós precisamos é dizer a verdade.

 

Mas outra coisa que eu quero dizer também, eu não quero que meus filhos venham aqui a São Paulo ou em Brasília pra perder tempo, então eu estou em Brasília mostrando o dia-a-dia como é que está o nosso parlamento brasileiro, que é radical e muito radical no que se diz respeito à demarcação das terras. Nós temos um Poder Judiciário muito cheio de poder, mas cheio de corrupção. Então eu estou mostrando para meus filhos. Essa é uma educação muito difícil hoje, porque ela requer o salário. Então hoje estou na Funai por acaso. Depois que o Lula tornou-se Presidente é que eu encontrei um espaço pra mim na Funai, mas eu passei mais de 29 anos desempregado, eu passei muita fome, eu passei todo tipo de descriminação, mas o que eu posso dizer aqui é que não retiro nenhuma palavra, nenhuma vírgula do que eu disse contra o Estado e do que eu disse contra a igreja.

 

P/2 – Você está em Brasília desde o final da década de 80?

 

R – Não, eu estou desde 2003.

 

P/2 – Mas aí nesse meio tempo você foi pra Brasília no final de 80 e depois voltou pra sua região lá no norte? Como é que foi a sua trajetória?

 

R – Entre 86 até 2002 eu fiquei entre minha comunidade e Brasília. Eu tenho ocupado um espaço em Brasília cumprindo um papel muito difícil... Quem defende as coisas do meu povo sou eu. Uma vez em 31 de junho de 85 o povo de Pari Cachoeira me delegou como embaixador pela primeira vez na história e quem não reconheceu isso foram as ONGS, as igrejas menos temporariamente a FUNAI no começo do Governo Sarney. Então quando muda o Presidente da República, muda tudo, mas a nossa história não mudou e não vai mudar. A maioria dos líderes nós passamos é desse jeito, seja líder sindical ou líder indígena, nossas vidas são cheias de histórias de sofrimento e também tem histórias de amor. Então é importante a gente dizer que nem tudo é triste, mas também nem tudo é alegre. Nós temos momentos de alegria, nós temos momentos de reflexão, mas os melhores momentos que eu sinto é quando tudo que nós fizemos foi importante, porque corrigimos muita coisa dentro do sistema, o que é mais difícil é ficar calado.

 

P/1 – E pra gente finalizar, você pode nos contar o que você achou de fazer essa volta no túnel do tempo com a gente? Contar um pouco da sua história, o que você achou desse tempinho agora?

 

R – Todas as perguntas que foram feitas aqui, ninguém me perguntou, eu não contei pra ninguém, eu tenho sido nesse sentido crítico aos pesquisadores de assuntos indígenas, aos antropólogos que exploram índios, depois que eles começam a extrair tudo do índio, eles deixam tudo sucateado e vão embora, eles fogem pras suas instituições. O que vocês fizeram aqui, eu me senti a vontade, porque eu faço parte dessa luta, eu vou defender com toda a simplicidade as minhas palavras. Eu me sinto muito bem, eu tenho muitas histórias pra contar e também dizer que o nosso país mudou de verdade, mas graças a esse tipo de confusão que nós enfrentamos e teremos mais confusões, mas espero que sejam mais fáceis da gente combater em conjunto. Então eu gostei, eu gostei porque revelei o que estava escondido na minha alma, muitas vezes chorei, eu chorei de tristeza, mas hoje eu não choro porque não é o momento de chorar, hoje é momento de comemorar uma nova luta. Eu acredito muito na sociedade brasileira, principalmente na juventude. Eu sempre falo pra meus filhos: “Quando eu morrer, vocês não precisam chorar. Comemorem.” Então eu creio que nós não podemos chorar quando morrem nossos parentes, temos que ficar felizes, porque nós fomos educados pelos pais. Eu perdi minha mãe, eu não chorei, eu vou perder meu pai... Ele está com 99 anos e está intacto ainda e eu estou preparado, eu não vou chorar quando meu pai morrer, porque todos os conhecimentos tradicionais ele já me repassou, eu sei de cor e, além disso, eu escrevi na minha língua. Então nós não vamos morrer, nós não queremos morrer e hoje nós não temos medo de ninguém, nós somos autônomos e isso se chama autodeterminação, não é pra criar o Estado brasileiro como pensam os militares, muito pelo contrário, é um espaço cultural que o Brasil tem que preservar. Então eu sou uma cultura pequena, mas importante como as demais.

 

P/1 – Eu queria agradecer em nome do Museu da Pessoa e desejar muita força aí pra essa caminhada que ainda é longa.

 

R – Eu também quero agradecer em nome do meu povo, ao Museu, eu acho que tem um espaço enorme pra quem nunca teve oportunidade de falar nas igrejas, nas universidades, mas eu me sinto contemplado e nós estamos à disposição do Museu.

 

P/2 – Muito obrigado.

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