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História

O farmacêutico e as mudanças tecnológicas

História de: Donaldo Dagnone
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/06/2004

Sinopse

Em seu depoimento Donaldo Dagnone conta sobre sua infância em Santo André e como conseguiu seu primeiro emprego na Rhodia, ainda com 18 anos e cursando o colegial. Narra sua trajetória na USP e dentro da empresa até conquistar o cargo de analista de laboratório. Descreve como era seu trabalho, o ambiente interno e relações com a sede, na França. Conta também dos processos de fusão com as empresas americanas, já na década de 80. Por fim, fala sobre sua aposentadoria e relação com a Rhodia Farma, que fez parte de seu cotidiano durante 57 anos.

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História completa

P1 -  Seu Donaldo, para começar a entrevista, a gente gostaria que o senhor se apresentasse. O seu nome, local e data de nascimento.

 

R - Meu nome é Donaldo Dagnone, como você acabou de dizer, sou natural de Araraquara, 1940, mas vim para Santo André com sete anos. Então eu sou muito mais andreense do que araraquarense.

 

P1 -  Os seus pais? Nome deles e atividade deles?

 

R - Meu pai era marceneiro, o nome dele era Miguel Dagnone, já falecido, faz tempo. E minha mãe, Maria Simone Dagnone. Meu pai era filho de italianos, e minha mãe de português e espanhol.

 

P1 -  E eles saíram de Araraquara, veio a família toda?

 

R - Por força das circunstâncias, inclusive, porque lá não se conseguia mais trabalho. Nós viemos em 47 e demos muita sorte porque logo na primeira semana meus pais conseguiram trabalho.

 

P1 -  Trabalharam aqui em Santo André? _________?

 

R - Em Santo André. Isso, em marcenaria. Meu irmão também já trabalhava, na época. Eu sou o último de cinco filhos. Então deu muita sorte. Bom, depois tive uma infância normal.

 

P1 -  Essas lembranças da infância do senhor são de Araraquara ou Santo André?

 

R - De Araraquara, nada. Na verdade, eu nasci em Araraquara, mas nós vivíamos em uma usina de álcool, chamada Tamoio. Era uma usina grande, que existe ainda. Meu pai trabalhava na marcenaria da usina. Meu pai e meu irmão. Minha mãe não trabalhava, era dona de casa, só. Bom, quando nós viemos então, a infância foi mais ou menos normal, pobre, lógico. [risos] Estudei sempre em escola pública, nós morávamos perto de onde é a Firestone. Moramos lá uns três, quatro anos, depois mudamos bem pro centro de Santo André. O centrinho de Santo André. Naquele tempo não era assim, claro. Até 1963. Em 63, finalmente nós conseguimos comprar uma casa aqui na rua de cima, perpendicular a essa. 

 

P1 -  ___________?

 

R - Isso. Ali nós vivemos até 77, aí eu  consegui construir essa casa. Mas o que eu acho interessante é o seguinte: só eu trabalhava, no fim, sustentava meu pai e minha mãe, já era casado, com duas crianças, trabalhando de analista no laboratório, eu consegui comprar a casa, construir, sem vender a outra, comprar carro etc. Hoje eu vejo que meus filhos, por exemplo que são engenheiros, para comprar uma casa, sem ter outra despesa, eles têm que ficar anos juntando dinheiro para comprar. [risos] Então eu vejo uma diferença na remuneração, muito grande. Hoje uma analista de laboratório, como eu era na época, ele não consegue comprar uma casa, nem que ele fique cinco anos juntando dinheiro só para isso. É uma diferença que eu noto agora.

 

P1 -  A Rhodia ajudou em alguma coisa?

 

R - Não, a Rhodia auxiliou, não com um empréstimo, nada, mas tinha uma cooperativa, tem ainda, a cooperativa de crédito. Então eu sempre usei a cooperativa de crédito, que eram juros baixíssimos, ainda hoje, bem baixo, e sem muita formalidade também. Então foi muito bom nesse ponto.

 

P1 - O senhor comentou de Santo André, como era diferente. O senhor poderia descrever um pouco de Santo André, essa paisagem da infância e juventude?

 

R - Bom, não existia nenhum prédio na época que eu era adolescente, não existia nenhum prédio. Quando nós mudamos de Araraquara para Santo André, eu lembro que a linha de ônibus que fazia da estação até a Vila Pires tinha um ônibus só. Era um único ônibus. E só tinha acho que essa linha, e uma outra que ia para Mauá. No centro, trânsito não existia. Eu comecei a trabalhar na Rhodia em 58, eu lembro que, na usina toda, tinha três carros só. Três pessoas que tinham carro, que iam trabalhar de carro, eu lembro. Hoje é uma briga para estacionar o carro, né? Mesmo na época de... Bom, a sequência não está muito boa, mas... Na época da faculdade também, a minha turma toda tinha uma pessoa só que tinha carro. A turma toda. Ele era judeu, tinha uma loja, tinha mais dinheiro, né? Tinha um carro, um Chevrolet 52. O resto, ninguém tinha carro. Andava de ônibus até. Bom, então na sequência, eu comecei a trabalhar mais ou menos com 14 anos, em fabriquetas de material elétrico, vulcanização e fui chegando aos 18, e começou aquele problema de Tiro de Guerra, então realmente era muito difícil, na época, conseguir emprego nessa época de 17, 18 anos. Mas, por coincidência, um vizinho que trabalhava na Rhodia, era o chefe do almoxarifado, minha mãe falou lá com ele, ou meu pai, alguém, e me arrumou, com 18 anos, prestes a fazer o Tiro de Guerra, ele conseguiu um emprego para mim na Rhodia, no almoxarifado. Era bem humilde o emprego porque, embora eu estivesse já terminando o colegial - científico, na época chamava científico - eu fui trabalhar de empurrar carrinho mesmo no almoxarifado. Só que isso foram três meses só. Depois, como eu já tinha um certo nível de estudo, apareceu... Precisavam de alguém para o escritório, para dar nota fiscal, então eu fui transferido para essa vaga.

 

P1 -  Antes de o senhor entrar na Rhodia, a Rhodia já estava presente, o senhor conhecia?

 

R - Ah, sim. A Rhodia tinha fama de ser... Uma pessoa que trabalhava na Rhodia era um bom partido para se casar. É verdade isso daí. Era uma empresa, sempre foi, que pagava um bom ordenado e a pessoa que entrava lá, normalmente, não saía nunca mais. A Rhodia tinha a tradição de não mandar ninguém embora. 

 

P1 -  Tinha essa tradição?

 

R - Tinha. Se a pessoa entrava lá, ficava para o resto da vida. A tradição da Rhodia era essa, não mandar a pessoa embora. Não me lembro de ter alguém sido mandado embora, nos primórdios, não ultimamente, claro. Até o final de 70 ainda tinha essa tradição.

 

P1 -  Até os anos 70?

 

R - É. Em 80 é que começou a aparecer alguns problemas desse tipo. Pessoas mais antigas até foram demitidas. Tanto é que, em 82, para mim foi meio traumatizante porque todas as pessoas que trabalhavam comigo, os farmacêuticos, foram mandados embora de uma vez só. Assim, em questão de um mês. Mandaram cinco embora: o gerente de produção, o gerente de controle, o gerente da fábrica. Não sei, pintou uma política de renovação, então mandaram aquelas pessoas mais antigas todas embora, de uma vez só. Tanto que eu comentei isso com um francês, e ele achou um absurdo. "Mas mandaram cinco embora de uma vez só?", mandaram. Meio estranho.

 

P1 -  O senhor lembra do primeiro dia do senhor na Rhodia?

 

R - Lembro, claro. 

 

P1 -  Como foi essa chegada?

 

R - Na portaria, uma pessoa foi me buscar, um português que trabalhava no almoxarifado. No meio do caminho ele já foi me falando alguma coisa: "Não pode vir de tênis, não pode vir de não sei o que lá...". A parte de segurança. Depois ele falou um negócio que ficou muito gravado para mim. Ele falou: "Você está com 18 anos, não?" "Estou com 18 anos." "Você vai ver que, daqui para a frente, vai passar das cinco e você não vai nem perceber." E realmente foi isso. Depois dos 18 anos, parece que você não viu passar o tempo. Ele acertou em cheio. Bom, ele tinha experiência, é claro.

 

P1 -  O colegial, o senhor já tinha terminado?

 

R - Eu tava terminando. Eu tava no terceiro ano.

 

P1 -  E foi possível conciliar as duas coisas?

 

R - Ah, sim. Depois, na época da faculdade, a Rhodia me ajudou muito. Eu fiz USP [Universidade de São Paulo] e era na Cidade Universitária, então eu tinha que sair mais cedo porque a aula começava às seis horas da tarde. Então eles me deixavam sair às quatro e meia, aí eu pegava o trem, ia até a Lapa, na Lapa pegava um ônibus e ia até Pinheiros, em Pinheiros eu pegava um ônibus e ia até a Cidade Universitária.

 

P1 -  _____________?

 

R - Para chegar na hora lá. Porque, se eu fizesse o caminho normal, o ônibus tinha que atravessar a cidade. Ele ia demorar umas três horas para fazer isso. Do Brás até a Cidade Universitária, naquela época, você não conseguia andar. Hoje está difícil também, mas naquela época era pior ainda. Na época do _______. Então eu fazia essa volta e conseguia chegar mais cedo, embora tomasse dois ônibus e um trem, chegava mais cedo. O problema era na volta. Na volta não tinha trem. Então eu tinha que pegar um ônibus, ia até o Anhangabaú, ia até o Parque Dom Pedro, pegava outro ônibus, e tinha ônibus que só parava na estação. [risos] Então, tinha vezes que eu tinha que vir da estação até aqui. Nesses dias que acontecia algum problema - tinha dias que eu chegava em casa às três da madrugada -, alguma coisa no meio do caminho, no dia seguinte eu tinha autorização para entrar mais tarde.

 

P1 -  Que horas o senhor costumava entrar?

 

R - O normal era sete e meia, mas, quando acontecia esses problemas, eu entrava às nove, nove e meia.

 

P1 -  O senhor já era casado, nessa época?

 

R - Eu casei em 1966. Fazia faculdade de farmácia, à noite, são seis anos. Eu estava no quarto ano.

 

P2 -  Conheceu sua esposa onde?

 

R - Em Santo André mesmo. Minha esposa é nissei. Naquela época tinha muito problema de casamento. Japonês não queria que os filhos casassem com não-japonês. A gente namorava escondido, ficamos enrolando seis anos, aquele negócio complicado. Até o momento que não dava mais. Casamos, e foi muito bom.

 

P2 -  Qual o nome dela?

 

R -  Sumiko. Gostariam de conhecê-la?

 

P2 -  Gostaria de cumprimentar ela, claro. 

 

P1 -  O senhor ficou três meses no almoxarifado, depois o senhor foi para...

 

R - Dentro do almoxarifado, eu passei a fazer outro serviço, que era um serviço mais burocrático, de dar nota fiscal, e tal. Eu fiquei dois anos assim. Depois eu já estava fazendo vestibular. Eu estava estudando, não tava fazendo cursinho porque eu não tinha grana para pagar, estudava em casa. Naquela época havia muita falta de químicos, não tinha mão-de-obra. Tanto é que a Rhodia pagava para algumas pessoas - que eu lembro, mais ou menos 20 -, ela pagava um curso de química. Eles estudavam durante o dia e só trabalhavam nas férias. Quando se formavam, ficavam por lá. Então ela fazia isso porque não tinha mão-de-obra. Então, chegou o momento em que eles ficaram sabendo que eu tinha terminado o curso científico, o colegial, tinha conhecimentos de química básica, então eles propuseram se eu não queria trabalhar no laboratório. Então eu fui trabalhar como analista no laboratório de desenvolvimento de produtos. A parte de algodão, acetatos. A minha intenção primeira não era fazer Farmácia, era fazer Odontologia. Mas depois eu vi que gostava mais de química que de odontologia. [risos] Fui incentivado também, na época, por um senhor francês que era o gerente da área toda. O nome dele é (Karchê?). Uma pessoa fabulosa. Ele que me falou: "Olha, se você já está nesse ramo, por quê você não faz Farmácia Bioquímica em vez de Odontologia?" E acabei fazendo. Foi muito bom.

 

P1 -  Quais lembranças o senhor tem da USP, nesse momento?

 

R - Bom, do trote, que todo mundo lembra. [risos] A USP, na época que eu entrei, ela tinha a parte velha ali na Três Rios. E ela mudou para a Cidade Universitária. O trote foi na Três Rios. Me pintaram, cortaram o cabelo, fizeram tudo aquilo lá. Fizeram parar todos os ônibus que vinham, tinha que entrar, pedir dinheiro, aquela história toda. Mas foi engraçado. 

 

P1 -  Era um dos primeiros cursos de Farmácia? Tinha outras opções, além da USP?

 

R - Ali era assim: o prédio era da Universidade de São Paulo, e tinha faculdade de Farmácia e Odontologia, as duas na Três Rios. Mas os exames eram separados. Os professores eram comuns, as cadeiras básicas - química, física, matemática, eram comuns tanto para Farmácia quanto para Odontologia. Depois do segundo, terceiro ano havia separação e especialização em cada cadeira. Mas era interessante porque tinha aquela rivalidade entre os farmacêuticos e os dentistas. Tinha que ter, claro. [risos] Um queria ser mais importante que o outro, aquela história toda. Muito bom.

 

P1 -  Teve algum professor que marcou o senhor?

 

R - Teve um professor de física. Ele foi diretor do Planetário, inclusive, mas eu esqueci o nome dele. Mas muito bom, excelente. Influenciou muito o tipo dele, o estilo, a seriedade, o caráter dele. 

 

P1 - Colegas que foram para a Rhodia também?

 

R - Teve um que foi da minha turma que acabou vindo para a Rhodia, depois de formado já há muito tempo. Ele ficou pouco tempo na Rhodia e depois foi para a (Squibb?) Bom, sempre tem uma pessoa que você tem mais amizade em um grupo. Embora eu sempre tenha tido muita afinidade com japonês, com a colônia, o meu melhor amigo é um descendente de espanhol. Meu colega. Ele faleceu há questão de cinco anos atrás. Foi meu colega mais íntimo, pessoa muito boa.

 

P1 -  Ofereceram para o senhor para fazer farmácia, e tal? E com o término da faculdade, o senhor foi...

 

R - Só fazer um parênteses para ficar um pouco mais claro. Eu entrei na unidade química, que era fisicamente junto com a farmácia. Depois que eu comecei a fazer farmácia, várias vezes me perguntaram: "Por que você não pede transferência para Medicina Farmacêutica?". Mas eu raciocinei do seguinte modo: "Se eu vou para a área farmacêutica antes de eu me formar, a hora que eu me formar eu vou continuar sendo a mesma coisa. Então eu vou esperar me formar, e quando passar para a área farmacêutica, eu passo como farmacêutico, com outro status." Foi mais ou menos esse o plano. O gerente da Farmacêutica meu professor na faculdade, dava aula de bromatologia.

 

P1 -  Quem era ele?

 

R - O João Batista Domingues. Só que eu consegui, em seis anos de faculdade, me manter incógnito, vamos dizer.

 

P2 -  Ele não sabia que o senhor era funcionário?

 

R - Ele dava aula nos últimos anos, também. Bromatologia era no quinto e sexto ano. Mas ele deu aula para mim sem saber. Eu nunca falei para ele que trabalhava na Rhodia, exatamente para evitar que ele falasse: "Bom, então, ___________ para Farmacêutica". Aí, quando eu me formei, eu fui falar com ele. Ele achou esquisito para burro. [risos] "Como é que você trabalha na Rhodia, aqui do meu lado, e eu nunca soube?" Mas ele foi muito bom também. Imediatamente ele já me transferiu para a Farmacêutica. Ele me transferiu, embora não houvesse um cargo, uma vaga, nada disso. Ele transferiu mesmo para me ajudar. Mas deu sorte porque depois de uns dois, três meses que eu estava fazendo um tipo de um estágio, em todas as áreas, naquela época começou a Divisão Cosméticos a funcionar. Então, um farmacêutico, que é o Henrique Valfredo - não sei se vocês pegaram o nome dele aí também -, ele era gerente da área de desenvolvimento de produtos, ele passou a ser gerente da área de cosméticos. Então, surgiu a vaga que era dele. Então eu dei essa sorte, e eu fiquei como gerente de desenvolvimento de novos produtos, na parte farmacêutica. "Gerente de desenvolvimento de novos produtos" parece muito importante, mas na verdade era só eu, não tinha mais ninguém. [risos] Eu tinha um laboratório, e fazia o que tinha que ser feito, o desenvolvimento. Se algum produto apresentava um problema, eu tentava resolver aquilo. De formulação, embalagem, __________. Produto novo às vezes também. Por exemplo: era um produto desenvolvido na França, com material francês, matéria-prima francesa, tecnologia francesa. Depois a gente ia começar a fabricá-lo aqui. Precisava pegar aquele produto e adaptá-lo às nossas condições, às nossas matérias-primas, aos nossos equipamentos, condições de temperatura, que, no Brasil, são totalmente diferentes da França. Tem que ver se ele permanecia estável na ________.

 

P2 -  Esses produtos, assim, vamos supor, se lá era feito com alguma outra coisa, aqui poderia ser substituído por amido?

 

R - Algumas matérias-primas era mais fácil se comprar aqui, e fazer pequenas modificações.

 

P1 -  Existia essa liberdade?

 

R - Existia. A França nunca foi muito rígida nesse ponto. Ela sempre deixava muito a responsabilidade para a empresa. No caso do Brasil, para o Brasil.

 

P2 -  E o senhor era o encarregado de cuidar dessa parte de adaptação?

 

R - Isso, isso. Fazia a adaptação, passava para a fabricação.

 

P1 -  Quais eram os principais produtos, nesse momento da sua entrada? 

 

R - Bom, sempre foi o Fenergan, muito importante, como é ainda; os neurolépticos, Neozine, aquele produtos que são controlados, inclusive. Esses sempre foram os mais importantes. Depois tinha os antibióticos também. A Rhodia foi uma das pioneiras no lançamento de antibióticos. A (Rotabicina?), que ainda existe e está vendendo bastante. Basicamente esses.

 

P1 -  Esses são os mais marcantes na história da Rhodia?

 

R - Flagyl também. Eu acho que o que marca a Rhodia mesmo é o Flagyl, Fenergan e os neurolépticos. 

 

P1 -  Nesses, houve essa interferência de laboratório, de mudar produto, embalagem?

 

R - Bom, eu procurava sempre manter a forma original. Só em casos extremos... Tinha problema até de importação. Tinha coisa que você não podia importar, era proibida a importação. Mas procurava manter o mais perto possível da forma original. Mas teve produto que eu acabei mudando totalmente. O Fenergan era uma bola desse tamanho. Não era um comprimido, era uma drágea. Aquilo dava trabalho para fazer, custava mais caro. Então eu fiz um comprimidinho, revesti com verniz, e funcionou muito bem. É o que eles usam até hoje. Na França, é uma drágea ainda, até hoje.

 

P2 -  Então aqui teve uma inovação.

 

R - É, aqui é comprimido, sempre foi comprimido. Sempre teve uma briga com eles. "Por que vocês fizeram comprimido?" "Porque é mais fácil". [risos]

 

P1 -  E eles nunca quiseram adotar o comprimido?

 

(PAUSA NA ENTREVISTA)

 

P1 -  E o __________, como era, na sua entrada? Qual era a divisão administrativa?

 

R - Olha, eu fiquei sempre tão ligado na parte técnica, eu trabalhava sozinho, estava totalmente isolado. Então eu não me ligava muito com a parte comercial, por exemplo. Meu contato era muito pequeno com eles, embora estivéssemos pertinho, eu não tinha muito contato com eles.

 

P1 -  Com a parte da produção o senhor tinha?

 

R - Ah, sim. A produção toda.

 

P1 -  E como eram esses laboratórios da Rhodia, em termos de tecnologia, em comparação com as outras empresas?

 

R - Com as outras empresas, era considerado um dos bons. Agora, comparando com o atual, aquilo era uma porcaria. Todos eles. A tecnologia progrediu tanto, que não tem... Só de pensar o que nós fabricávamos na época, o modo como a gente fazia as coisas, comparando com o que tem agora, era um negócio rudimentar, vamos dizer. Mas isso era para todos os laboratórios também, não era só a Rhodia. Mas a Rhodia era considerado um dos melhores. A biblioteca da Rhodia era referência, inclusive para a USP. Então, no tempo de estudante, várias vezes me pediram para fazer pesquisas na biblioteca da Rhodia. Depois chegou em um determinado momento que parou. Quando nós mudamos, inclusive acabou ficando em Santo André. Mas tinha uma pessoa, um bibliotecário que só cuidava da biblioteca. Exclusivamente. Funcionário que ficava 100% do tempo só cuidando da biblioteca. Eram coleções caríssimas, da parte de química, principalmente. Chegou um momento em que eles pararam. Eu acho que foi mais ou menos em 70, 72, 73. Acabou dando uma freada. Mas eu acho que o acervo ainda continua aí.

 

P1 -  O acervo, pelo que a gente andou investigando, ele _________.

 

R - Mas tinha coleções que começavam em 1902, 1903. Tem uma coleção que chama Chemical __________; todo mês sai uma revista desse tamanho, com tudo o que tem de química no mundo. E a Rhodia colecionava isso. A coleção começava em mil novecentos e qualquer coisa, 1903, 1905, uma coisa assim, e tinha até 70, atualizada, encadernada, tudo certinho. Agora, com Internet, aquilo não tem muito valor, só histórico. Mas era uma coleção respeitável.

 

P1 -  Em termos de recursos humanos, como era a Rhodia? Em termos de funcionários, capacitação profissional?

 

R - Sempre foi muito bom. Ótimos profissionais.

 

P1 -  Treinamentos... Eu queria que o senhor descrevesse um pouco a sua atuação. No dia a dia do trabalho, o que exatamente o senhor fazia, que tipo de produtos, maquinário...?

 

R - Bom, como eu falei, eu tinha um laboratório "só meu", só eu trabalhava lá. Fechadinho, bonitinho. Lá tinha um equipamento em miniatura, que reproduzia tudo o que se fazia na fábrica. Então, vamos dizer, a fábrica tinha um moinho enorme, eu tinha um moinho equivalente, pequenininho. Então, a fábrica processava quinhentos quilos, e eu processava meio quilo, um quilo, no máximo.

 

P2 -  Para fazer a experiência, né?

 

R - Isso, para fazer o teste. Então o início era sempre assim; eu fazia um negócio de meio quilo, tinha uma máquina de comprimir. Tinha vários equipamentos, misturadores, tal, mas tudo em escala. Esse equipamento, quem comprou foi o Domingues, é muito bem feito. Era um equipamento alemão com uns 50 componentes, mais ou menos, peças, e tinha um motor só. É como um processador. Aquele motor se adaptava a todo o equipamento. Então, eu queria pulverizar um negócio: pegava o pulverizador, adaptava naquele negócio e usava. Mas tudo pequenininho assim. Misturador também. Eu precisava misturar para fazer uma pomada, coisa que o valha, também tinha um pequenininho que...

 

(PAUSA NA ENTREVISTA)

 

P - E esse equipamento existe ainda, essas miniaturas?

 

R - Olha, aquilo foi espalhado por tudo quanto é lado e acabou desaparecendo. 

 

P - Você tem fotos, alguma coisa?

 

R - Não tenho foto [risos]. Em matéria de fotos, tô falando do laboratório...

 

P - Não só do laboratório, do senhor na...

 

R - Não tenho, por incrível que pareça. As únicas fotos que eu tenho do laboratório, ainda da Química, quando eu trabalhava na Química. Mas da Farmacêutica, não tenho nada. Só tenho agora as últimas, que vocês já devem ter acesso, que é da fábrica com todo o pessoal da Farmacêutica, mas atual.

 

P2 -  Dessa área de gerência, desse trabalho, o senhor foi para onde?

 

R - Nessa parte de desenvolvimento, eu fiquei, na verdade, de 69 até 82. Em 82 foi aquilo que eu comentei, que parte dos farmacêuticos foram demitidos. Então, eu fui indicado pelo (Cummer?) que era o antigo farmacêutico responsável, quando ele saiu, em 82, ele me indicou para substituí-lo. Aí eu assumi a responsabilidade técnica e também toda a parte de controle de qualidade. O outro farmacêutico que era gerente do controle de qualidade, também foi demitido junto com o (Cummer?). Então, eu assumi a responsabilidade técnica e também a parte de controle de qualidade, quer dizer, tinha dois laboratórios: um Biológico e um Químico e eu fiquei como gerente dos dois laboratórios. Calor que tinha um Chefe de Laboratório Biológico e um Chefe de Laboratório Químico, mas eles respondiam para mim. E continuei com o Laboratório de Desenvolvimento de Produtos. Só que depois começou a ficar muito complicado e eu contratei um farmacêutico para ficar no meu lugar lá, como Desenvolvimento de Produtos, que foi o Gardino, que trabalhou até 90 e depois, por um problema, ele resolveu ir embora. Mas eu fui mais ou menos na esteira do (Cummer?), quando ele saiu, eu fazia parte também de registro de produtos, de medicamentos no Ministério da Saúde. Essa era uma atribuição do (Cummer?) antes e quando ele assumiu a gerência toda, da fábrica, ele não tinha como fazer isso também, porque é muito trabalhoso, então eu passei a fazer isso também. Fazia a parte de desenvolvimento e a de registro de produtos no Ministério da Saúde. Você tem que fazer um dossiê enorme, um monte de papel, na verdade. Tem que pegar... Basicamente, o que eu fazia era o seguinte: pegava o dossiê francês... O dossiê vinha da França. Basicamente era como preparar o produto, como fazer a análise dele, tal. E toda a parte de pesquisa clínica, que você tem que apresentar também. Então, aparecia como o produto foi testado em animais, como foi testado em seres humanos, quais os resultados obtidos, quais os efeitos colaterais. Com isso você fazia a parte técnica para fabricar o produto, a parte para analisar o produto e também a parte para fazer a bula do produto e fornecer toda aquela documentação que o Ministério da Saúde exige para dar o registro, licenciar o produto, poder comercializar. Se você pegar qualquer medicamento, você vai ver que tem um número embaixo. Está MS e um número. Aquele é o número do registro do produto no mis. Sem esse número você não pode comercializar o produto. 

 

P1 -  Para ter esse dossiê é preciso uma integração em todas as áreas, na área médica, na área clínica, por exemplo?

 

R - A _______ aconteceu o seguinte: a parte... No começo eu fazia tudo. Pegava o dossiê, traduzia a parte médica, vamos dizer, ipisis literis aquilo, e pronto. Na época, o Ministério da Saúde não era tão exigente. Depois chegou em um determinado momento que eles começaram a exigir tanta coisa, que a parte médica, vamos dizer, passou para a gerência médica. A gerência médica fazia a parte médica, e a parte toxicológica, a parte de experimentação animal, experimentação humana; passava isso para mim, aí eu juntava a minha parte, a parte técnica mesmo, a parte de fabricação do medicamento, de análise, juntava os dois e montava o dossiê.

 

P2 -  Eram processos imensos, o Frederico comentou ontem.

 

R - Hoje, para licenciar um medicamento...

 

P2 -  _______________________, uns volumes imensos.

 

R - Ele pesa uns dez quilos, mais ou menos, hoje. O relatório de registro pesa cerca de dez quilos. Quando eu estava saindo agora, eu fiz registro de um produto anticâncer, japonês, que uma empresa japonesa cedeu para a Rhodia, para __________. Tinha duas caixas pesando uns dez quilos, cada uma, de dossiê. De tanta coisa que precisava provar. Então ficou um negócio enorme. Agora, eu não sei se alguém lê isso, porque, você vai no Ministério da Saúde, tem tanto papel... Uma vez foi engraçado: eu precisava falar com o diretor da (Dadimed?), no caso, a (Divisão?) de Medicamentos. Para você chegar até ele, você ia andando no meio do caminho, tudo cheio de... No meio da sala. A sala dele, repleta. Só tinha um caminho para chegar à mesa dele. Quer dizer, ninguém vai ler isso, mas eles exigem, você é obrigado a ter. 

 

P1 -  Mas isso demora para...

 

R - Demora, porque... Bom, mesmo que eles não leiam, se acontecer um problema com um medicamento, eles têm onde se realmente foi apresentado tudo o que deveria ter sido apresentado. O problema é quando acontece algum caso assim. Agora teve alguns de mistura de medicamentos. Ou se tem um efeito colateral que você não mostrou que tinha. Então eles vão procurar se você mostrou que tinha aquilo, e dá um (rolo?) mais ou menos. [risos] Agora não tem muito problema mais.

 

P1 -  Como é que era essa parte do laboratório de parte biológica, química...?

 

R - Tinha um laboratório, tem ainda, que só faz a parte físico-química do medicamento. Ou seja, faz a dosagem química, faz a densidade, Ph, negócio químico. E tem a outra parte que faz os testes biológicos. Então, vamos supor, um injetável, para você poder liberar para o mercado, você tem que provar primeiro que ele está estéril. Para provar que ele está estéril, demora quinze dias. Você vai pegar um pouco de medicamento, numa área estéril, vai colocar em umas plaquinhas, com um tipo de gelatina. E aquilo fica na estufa durante 15 dias. Se não aparecer nenhum bichinho, nenhuma colônia de bactérias, de fungos, então tudo bem, você pode liberar para a venda, caso contrário, não. No caso de um injetável de volume maior, no caso do (Flagyl?) injetável, de volume um pouco maior, você tem que fazer outro teste que é para provar que ele não produz febre na pessoa. Quando você toma um volume grande, se tiver um componente lá dentro que não deve ter, a pessoa vai sentir febre, a temperatura dela vai lá para cima. Então você tem que provar isso também, que o produto está isento dessa impureza. Isso era feito com coelho. Você pode ver que na revistinha do ____ tem a menina com o coelho, e tal. Judiava dos coelhos para burro. Você tinha que injetar no pobre do coelho, na orelha, ainda, e manter horas o coelho preso em uma gaiolinha, com um termômetro colocado no ânus, um registrador para ver se a temperatura não subia. A temperatura não subia mais que meio grau. Depois você deixava o coelho descansar uns dias. Tinha que ter um peso certo...

 

P2 -  E quando dava febre?

 

R - Tinha que jogar o produto fora. Não pode usar. O teste chama "teste de pirogênio". "Piro" é o aumento da temperatura. Tem que ser levado a sério, mesmo. Teve vários lotes que agente teve que jogar fora. Isso é resultado de uma contaminação bacteriana. Vamos supor que na preparação do produto ele foi contaminado, mesmo que você esterilizar, a casquinha da bactéria fica lá dentro. Ela morre, a bactéria, mas a carcaça dela fica lá dentro. E essa carcaça é que tem esse componente que aumenta a temperatura. Então, não adianta você esterilizar.

 

P1 -  Tem que refazer tudo...

 

R - Tem que jogar fora, não tem como tirar aquilo. Bom, a gente estava falando dos coelhos, né? Atualmente... Não, na verdade, depois dos últimos dez anos, eles conseguiram um teste químico, vamos dizer, para evitar o uso de animais para fazer isso. Hoje tem uns tubinhos que você compra, põe lá, se mudar de cor é que o perigênio está alto ou baixo. Então os coelhos agradeceram imensamente. [risos]

 

P1 -  Especificamente no seu laboratório, que era um laboratório (fechadinho?), que o senhor tinha, que o senhor ficou de 69 a 82, quais as principais mudanças internas? Imagino que aquelas miniaturas, enfim, tecnologicamente, como o senhor foi recebendo as mudanças, e como eram essas mudanças?

 

R - Olha, na verdade, a parte técnica do que eu fazia não mudou muito. Tem aparelhos mais sofisticados, agora, mas não muita coisa. Você tem que reproduzir mais ou menos o que é feito na fabricação. Então, uma máquina de comprimidos continua uma máquina de comprimidos, só que antes, era um de cada vez, agora fica virando e vai cuspindo comprimidos, que você nem enxerga. Mas, tecnicamente não mudou grande coisa. O comprimido tem que ser mais ou menos do mesmo modo que era feito há 20 anos atrás. Você mistura (amido?) com uns componentes, gelatina. Tem coisa mais sofisticada, mas não muita diferença. Então, hoje, o laboratório de desenvolvimento de produtos continua mais ou menos a mesma coisa, faz mais ou menos o mesmo tipo de trabalho. Tem equipamentos que eu usei e estão sendo usados ainda.

 

P2 -  O que é esse controle de qualidade? Quando o senhor fala do coelho, era uma exigência, mas significa controle de qualidade. E o que mais é esse tal de controle de qualidade?

 

R - Todo lote de fabricação, você tem que pegar uma parte, uma mostra... Comprimido, por exemplo, você tem que controlar o peso dele, tem que controlar se a pessoa que vai tomar aquilo, vai liberar o medicamento. Às vezes você faz o comprimido tão duro que ele passa direto. E teve vários casos disso. Tem que controlar para ver se... Você coloca ele em água, em determinadas condições de temperatura, e vê quanto tempo ele demora para se desagregar totalmente. Depois tem outro teste parecido para ver se o princípio ativo é realmente liberado. Às vezes o grãozinho está muito duro, então não libera. Ele pode até desagregar, mas o princípio ativo não sai de dentro da partícula. Tem um teste agora que é feito para isso. Teve casos, não da Rhodia, mas de um concorrente que tinha o princípio ativo. Você fazia análise química normal, achava o ... Era um concorrente do Gardenal, por sinal. Só que a criança tomava e tinha convulsão. Mandaram fazer análise, e tinha o princípio ativo, estava lá dentro, só que não era liberado, era liberado 50% só. Então, a criança tomava um comprimido de 50 mg, e só 25 mg era absorvido, e não era o suficiente para conter a crise. Até que o Adolfo Lutz mandou para a Rhodia fazer a análise, embora fosse de um concorrente, para saber o que estava acontecendo. Porque eles faziam análise química lá e dava o princípio ativo, só que não funcionava ao vivo, na pessoa. Então, esses testes de controle de qualidade basicamente é isso. Você provar que aquele lote está dentro dos parâmetros exigidos para liberar o produto. Embalagem também se faz teste, para ver se ela está estanque, para ver se ela não está vazando. Esses (blisters?), as plaquinhas de alumínio para os comprimidos. Você tem que provar que não tem vazamento. Às vezes, na hora de soldar o alumínio, ele não veda totalmente. Então aquele comprimido vai ficar exposto à umidade. Ele pode se desmanchar dentro do próprio... Ele altera as características do comprimido. Então, o controle de qualidade é isso, é provar que aquele lote está dentro das especificações exigidas. E é muito trabalhoso. Agora, o conceito mais moderno de controle de qualidade é focalizar mais a fabricação; fazer o produto com muito mais cuidado, para ter certeza de que todas as unidades daquele lote estejam dentro das especificações. Vou ver se eu consigo explicar melhor: quando você faz um lote com 200 mil frasquinhos de (Flagyl?), aí você pega três ou quatro para fazer a análise. Aquela análise te dá uma orientação, mas ela não prova que todos os frasquinhos estejam bons. Você pode, por azar, pegar o frasquinho que está bom, e o restante está estragado. Então, o foco hoje da qualidade é mais na fabricação. Então você procura fazer, por exemplo, o controle da esterilidade da sala em que você está trabalhando, das pessoas, inclusive, da roupa que a pessoa usa, da luva.

 

P2 -  A partir de quando, na Rhodia?

 

R - Não é só na Rhodia, é um conceito que começou, eu diria, há uns 10, 15 anos. Tanto é que tem laboratórios que só fazem a análise do produto para preencher uma exigência formal, porque é obrigatório ter o boletim de análise. Mas eles não se preocupam muito de liberar o lote baseado na análise do laboratório. Eles pegam toda a documentação de fabricação e, baseados na documentação de fabricação, eles liberam. Inclusive para essa parte de hemodiálise, que é um negócio perigoso para burro. As fábricas e laboratórios que fabricam produtos para hemodiálise liberam o lote baseados só nos dados obtidos na fabricação, não tanto com o controle de qualidade. Eles chegaram a essa conclusão de que não adianta você pegar uma bolsinha, fazer a análise daquela bolsa, e o restante não vai te dizer nada.

 

P1 -  A gente conversou com uma funcionária _________ quando ela trabalhou, nos anos 60, a gateira...

 

R - É, a gateira ficava na linha pegando para ver se estava em ordem.

 

P1 -  Aleatoriamente, né?

 

R - É, mas agora esses conceitos mudaram mesmo. Por exemplo, código de barras: hoje, a Rhodia tem em todas as linhas de embalagem o código de barras. Toda a embalagem tem o código de barras. Não vou falar que aquilo é 100% segura, mas é muito difícil ter erro. Se você pegar uma bula, por exemplo, se você pegar uma caneta e fizer um risquinho do lado, ela é cuspida fora, não passa. Milhares de bulas, você pode misturar o quanto quiser, colocar lá, e quando chegar ela vai ser jogada fora. Na linha, a hora que ela passa no leitor de código de barras, tem um mecanismo que, se não for perfeito aquilo, ele vai separando, vai caindo num cestinho do lado. Isso para bula, para cartucho também. Então, não tem muito sentido mais a gateira?

 

P2 -  Mas no seu cotidiano de trabalho, o senhor "fiscalizava", entrava em contato com os funcionários que estavam no...

 

R -  Isso que eu falei, eu sempre trabalhei sozinho.

 

P2 -  Só no laboratório.

 

R - Não, não tinha nada a ver com isso.

 

P2 -  O controle da produção?

 

R - A produção tinha o controle dela mesma, as chamadas gateiras, que tiravam amostras, mandavam para o laboratório e fazia análise. Mas eu ir lá na fabricação e pegar alguma coisa para fazer análise, não.

 

P1 -  Como se definia um produto? O Senhor participava desse processo? Quer dizer, a França ______ vai mandar um. Essa negociação com o laboratório, como era?

 

R - Eu, pessoalmente, não. Isso era decidido na área comercial, que fazia uma pesquisa de mercado, via se tinha interesse ou não, se ia vender. Depois a área comercial negociava com a França, no caso, decidia pelo lançamento ou não. Quando decidia pelo lançamento, aí nós começávamos a participar recebendo os dossiês, a viabilidade técnica de se fabricar aqui. Aí sim tinha uma participação, era consultado para ver se era possível ou não, é até hoje. Mas a minha participação era assim. Eu nunca participei assim: "Olha é interessante lançar esse ou aquele". Não. Isso daí é a parte comercial mesmo que, até hoje, é quem decide.

 

P1 -  Esses produtos que, de certa forma, chegavam aqui, quantos o senhor testava? Teve casos de testar um produto e dizer: "Olha, não é viável na parte técnica _________."

 

R - Olha, dos produtos da França, eu não lembro de nenhum que não pudesse fazer aqui. Não lembro de nenhum. Tem alguns que nós tentamos desenvolver aqui que não foi possível, por problemas de estabilidade. O produto era muito bom, mas não era estável. Ele durava três meses. Em três meses ele decompunha. Mas, dos produtos da França, eu não lembro de nenhum sem condições técnicas de fabricar aqui.

 

P1 -  _______________

 

R - Agora existem alguns. Mas agora já está tão globalizado o negócio que não tem nem interesse comercial em fazer um produto aqui. Esses produtos anticâncer, é tão complicado fazer esse negócio. Então é preferível você ter um laboratório só que distribua para o mundo inteiro. É o que a Rhodia está fazendo; ela tem laboratórios na França e na Inglaterra, que fabricam para o mundo inteiro. E aqui também... Bom, isso o pessoal do comercial pode te falar melhor do que eu. O pessoal da gerência provavelmente vocês vão conversar com o pessoal que está lá, o ___________, e tal. Eles comentarão melhor até do que eu sobre isso. Mas agora começada a globalização, a Rhodia criou alguns centros de fabricação, que eles chamam "Pólos de Qualidade". A Rhodia aqui, inclusive, é um deles, no Brasil. Então o está fornecendo para a Argentina, vai fornecer para o Uruguai, Argentina, Chile, os países do Mercosul todo e da América Latina. Inclusive, o meu sucessor, o Daniel (Chinie?), que ficou no meu lugar, já é o responsável técnico por toda a América Latina, toda a parte de controle da América Latina. Ele é o responsável por isso. Qualquer coisa que se faça de qualidade, ele que coordena, ele que toma as providências que devem ser tomadas. É uma dor de cabeça desgraçada porque passa mais tempo viajando do que aqui [risos]. Tem Porto Rico também, a parte da América Central onde é comercializado produto. No caso da Argentina, eles não fabricam mais nada lá e só ficaram com um laboratório porque é obrigatório pelas leis argentinas. Um laboratório de controle de qualidade, que é um negócio pequenininho, trabalham meia dúzia de pessoas lá. O Daniel é responsável por esse laboratório também. Então ficou um negócio meio trabalhoso.

 

P1 -  O senhor chegou a fazer estágio lá na França?

 

R - Sim, fiz. Eu fiz na França, em Paris, em Lion e em uma outra cidadezinha que vocês nunca ouviram falar, que chama-se (Jean?), que tinha uma fábrica grande da Rhodia lá; chamava Terapix, era uma dessas fábricas da Rhodia _________, né. Essa daí era especializada em alguns produtos, uma das melhores inclusive. Uma cidadezinha muito bonitinha, à margem do rio Loire, um castelo enorme na frente, uma beleza! [risos] Dá vontade de morar lá. Muito bonito.

 

P1 -  E como era esse contato com esses laboratórios?

 

R - Muito bom, muito cordial, nunca tive problemas. Só a única vez que houve, não digo problema, mas uma discussão sobre um produto que se chama Profelid. Então os franceses achavam que não dava para fazer aquilo líquido, e eu acabei desenvolvendo aqui um produto em gotas. Eles têm uma laboratório em Paris, chama Instituto de Biofarmácia, é um negócio enorme, trabalham lá umas mil pessoas, mais ou menos, inclusive eles fazem trabalhos para a NASA (Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço). É um centro de pesquisa super moderno, ligado ao Instituto Pasteur, inclusive. Então eles têm uma equipe lá para desenvolver produtos. E quando nós fomos lançar o produto em gotas, os caras ficaram uma arara, lógico. Eles devem ter imaginado: "Como é que um tupiniquim, num laboratório que não tem nada, é uma cozinha, desenvolve um produto que nós não conseguimos desenvolver?". Então eles não queriam aceitar de jeito nenhum. E mandamos teste disso, teste daquilo, eles inventavam mais outro, mandamos. "Não, depois que abrir o frasco não vai funcionar". Fizemos o teste abrindo todo dia o frasco. E abre, e fecha, abre fecha, para provar que, mesmo depois que você abrisse o frasco, não ia decompor. Até que no fim eles tiveram que engolir. Tanto é que agora está lançando no mundo inteiro.

 

P1 -  Só Fenergan em comprimidos que não. [risos]

 

R - Eles criaram caso também. Criaram caso assim, chega em um momento que eles dizem: "Bom, a responsabilidade agora é de vocês. Virem-se". Teve o caso também da (Rovamicina?), que é um antibiótico. No mundo inteiro é comprimido, e aqui - nisso eu não tenho culpa porque quando eu entrei já fabricavam - era em cápsula de gelatina. E eles também não aceitavam, inventaram um monte de história, mas não tinha como, já estava registrado aqui. Então eles tiveram que aceitar, mas não 100%, vamos dizer. [risos] Teve o caso também do produto chamado (Antropil?), que você já deve ter ouvido falar. As pessoas, os médicos pediram para ver se dava para fazer aquilo líquido, para dar para criança. Porque criança usa muito isso. Para você dar comprimido para criança não é muito bom. Então eu acabei desenvolvendo o produto líquido. Inclusive ele vinha da Bélgica, a origem dele é belga; uma empresa ligada à ______, mas é belga. E os belgas, na primeira consulta que nós fizemos, disseram: "Olha, não é possível fazer líquido porque não sei o quê...". Depois, brincando no laboratório, eu experimentei, peguei e fiz, e começou a dar certo o negócio. Até eu lembro que o Domingues estava na França, e ele ligou para cá porque estava louco para saber se estava bom. Quando nós falamos que estava bom, a estabilidade estava boa, o produto estava pronto, funcionava direitinho, ele fez o maior "auê" lá. O Domingues sempre gostou de... Vocês vão conhecer, ele gosta de aparecer. Foi professor da faculdade, então ele gosta de falar, expor as coisas. Ele aproveitou, fez o cartaz dele junto com a "francesada". [risos] E foi lançado, nós vendemos bastante produto.

 

P1 -  O (Antropil?) foi um marco dentro da...

 

R - O (Antropil?) foi, um troço assim... É que, no mês seguinte já tinha tanta cópia no mercado. É como um outro que era usado como antialérgico, e depois, no Nordeste, o perceberam que aquilo aumentava o apetite. O pessoal começava a engordar _______. Então daí fizeram um produto. Fizemos aqui, pusemos aquele antialérgico, um pouquinho de vitamina, e...

 

(fim da fita 1)

 

R - E... esqueci, fugiu o nome... Postafen, aí nós fizemos Postavit. Mas aquilo engordava pra caramba, você tomava aquele troço lá. Eu não sou exemplo porque nunca quis tomar, nunca quis engordar, mas a minha cunhada cismou de tomar, começou a engordar, engordar e não parou mais. Continuou gorda até agora. [risos] Ela pôs a culpa no Postavit, mas não sei se não foi excesso de comida. Teve um outro também interessante, que é do mesmo segmento, que se chama (Ronalt?) não sei vocês já ouviram falar nele, é uma aspirina. Aquilo era importado, porque era o seguinte: cada partícula é revestida com verniz. Cada particulazinha, cada cristalzinho, né? Por isso você pode tomar que não prejudica muito o estômago, porque aquela película plástica não dissolve, o produto vai passando através dela. Quando você molha, ele passa por difusão, que chama, então, você não tem o contato do cristal de aspirina com o estômago. Por isso não dá os problemas que a aspirina normal dá. Só que era caro pra caramba, era importado da França e tinha problema de importação, também. Eu fui no Ministério da Saúde e da Fazenda umas 10 vezes para aprovar. Toda vez que ia importar uma quantidade, os caras falavam: "Mas por que vai importar, se tem ácido acetilsalicílico fabricado no Brasil?". Aí, tem que provar: "Não, mas este aqui é revestido, assim, assado". Ia lá, levava para eles, cheguei a levar uma lente para mostrar pro cara: "Esse aqui é diferente, não sei o que, tal tal". Apesar que  era um burocrata, não quis nem saber, assinou lá e até logo. Não entendia nada daquilo porque era acho que advogado, sei lá, não era químico, nada. Chegou num momento que tava complicando isso. Aí me perguntaram se não tinha possibilidade de fazer, aliás, até, aqui entre nós, foi numa reunião que o gerente, não, na época era (Carlos Vailari?) perguntou: "Donaldo, não dá para fazer esse negócio aqui?" Eu, na hora, falei: "Dá". [risos] Mas falei assim, sabe quando você fala um negócio no chute, né? Bom, depois eu comecei a tentar e tentar e consegui fazer num equipamento totalmente diferente da França, o processo diferente e tá sendo usado até agora. Isso foi em 85, acho que antes, até. 82, 80, em torno de 80, 82, 83. Muito mais barato. Você compra a aspirina aqui no Brasil e põe num aparelho, lá, que fica assoprando os cristaizinhos para cima. Parece aquele negócio de fazer pipoca e chama (Leito _______) É que nem um cone, uma peneira embaixo e tem uma corrente de ar que entra por baixo e fica empurrando os cristais e eles ficam pulando lá dentro. Depois, você injeta o verniz com um negócio de pintura de carro, essa pistola de pintura, equivalente àquilo, só que é farmacêutica, mais sofisticada. Injeta o verniz que vai revestindo cada cristalzinho. Funciona direitinho, até hoje. Por um preço absurdamente mais barato. O processo que eles usam na França é muito perigoso, inclusive, um tanque com solvente inflamável de 1000 litros, esquenta até 80 graus. Imagine, o troço inflamável, um tanque enorme, esquentar, um negócio que pode explodir, e tal. Não tenho notícia de que tenha explodido, mas é um negócio muito perigoso. Então, isso também foi uma outra coisa que eles nunca engoliram muito bem, mas...

 

P - Mas eles permitiam, né?

 

R - Ah, sim, a ______________- é assim: eles criticavam, discutiam, mas se você  insistisse, eles falavam: "Tá bom, a responsabilidade é sua" e encerravam o assunto. 

 

P - Chegavam a mandar representantes para conhecer?

R - Não, nunca foram assim, muito rígidos.

 

P2 -  E não dava problemas, pelo contrário, dava certo.

 

R - Dava certo, mas tinha sempre aquele orgulho de não admitir que a gente... Isso também, na minha opinião, é inerente à pessoa humana. Qualquer pessoa vai ter um pouco de ciúmes do outro, se no mesmo trabalho o outro faz um pouco melhor, isso é normal, não vejo nada de extraordinário. Mas eu vejo a diferença na organização da _______________ francesa, pelo menos da _________ e das americanas. Quando houve essa junção com a UpJohn  nós percebemos as culturas diferentes, totalmente diferentes. Então, os americanos são extremamente, querem controlar 100%. O produto tem que ser exatamente o que é fabricado nos EUA. Não pode mudar nada. Para você mudar uma coisinha qualquer, sem importância, eles criam um caso, eles não permitem, mesmo. Às vezes o alumínio que você muda na embalagem, pronto. Tinha que fazer um monte assim, provar, mandar para eles sempre. Eles querem fazer o controle lá. Totalmente o contrário da ________ o controle. Não tô criticando, não sei se é mais correto, ou não, mas tô só falando da diferença que tem de uma para outra. A junção com a (Roherer?) é do mesmo estilo, americano, super controlador. Não é o caso da França. Tinha uma época que a ____________ pedia para a gente mandar amostra dos produtos para eles analisarem, mas chegou um momento que eles falaram que não precisava mandar mais, porque era um custo enorme, não levava a nada, porque sempre as análises deles equivalem às nossas. Até chegar no momento que acharam besteira, né, ficar controlando duas vezes a mesma coisa, se em tantos anos não houve problema nenhum. Mas as americanas ainda, não todos os lotes, mas elas têm um programa de amostragem que você é obrigado a mandar para eles, eles fazem o controle, se for o caso criticam ou liberam.

 

P - Dessa fusão com a _____- e depois com a ________ _________ patentes de produtos. É isso que hoje tem que relacionar com EUA?

 

R - Então, a ________ tinha uma linha de produtos aqui, que é fabricado onde hoje é a linha da Rhodia Farma, a fábrica da (John?). O primeiro contrato foi que a Rhodia fabricaria os produtos, acho que era por cinco anos e depois foi aumentado para mais cinco. Fazia a produção, a venda, o marketing, tudo. Bom, depois eles vão explicar melhor, porque tem uma parte que eu não tive muita ligação, sei mais ou menos, por cima. Os detalhes eles vão falar melhor que eu. Agora, quando eu estava saindo, em 97, a parte de marketing e vendas passou novamente para UpJohn . Acho que venceu os cinco anos e voltou a ser deles. Mas, no começo, na fusão, ficou tudo com a Rhodia, produção, venda, marketing, área médica, fabricação, tudo. E foi realmente uma época das mais confusas que eu vivi na farmacêutica, a junção das duas fábricas. Porque, claro, juntando as duas, alguém ia cair fora. Então, ficou aquela disputa entre o pessoal Rhodia e o pessoal UpJohn. Cada cargo tinha disputa, mesmo no nível de produção, houve confusão, houve problemas seríssimos. Na área de marketing, também na área comercial. Calor que você tem uma equipe de vendas que quando juntou ficou dobrada, mas não tem interesse. O pessoal vai fazer a propaganda de um medicamento, pode fazer de cinco. Não precisa ir duas pessoas. Então, na área de vendas, foi diminuído sensivelmente, né? É claro que sempre numa diminuição desse tipo sobra problema.

 

P2 -  Mas nessa junção o senhor continuou como chefe... 

 

R - É, eu continuei... aí teve outro problema. O farmacêutico responsável da UpJohn  era meu colega de turma. [risos] Tá até naquela revistinha, o Roberto Pelegrini. Engraçado, isso mais como curiosidade, você não quer passar o cigarro para mim, por favor?

 

P2 -  Claro.

 

R-  Obrigado. Esse rapaz, nós brigamos no segundo ano da Faculdade. Uma briga meio idiota. Ele é de origem negra, né, e eu sempre, como falei, sempre fui chegado na colônia japonesa e minha turma na Faculdade tinha 25 alunos. Tinha 18 japoneses, não, 15 descendentes de japoneses. Tinha japoneses e nisseis. Então eu, obviamente, ficava mais ligado ao pessoal, falava alguma coisa de japonês, brincava. E tinha vários professores japoneses e teve um dia que teve uma prova, como é que foi a história? Eu sei que eu tirei uma nota boa, toda a colônia japonesa tirou uma nota boa e ele tirou uma nota ruim. E ele era um dos melhores alunos da turma. Eu não sei o que deu na cabeça dele e ele falou, comentando, o professor era japonês: "O senhor deu nota boa para colônia japonesa e pros puxa-saco de japonês". "Porque tá falando isso?" Aí começou aquela discussão e nós ficamos até o final do curso sem conversar, sem nada. Depois começamos a reatar a amizade, depois de formados e voltou a amizade normal. Só que depois que juntou a Rhodia eles tinham que deixar um farmacêutico responsável, não podia deixar dois. E claro que, não sei porque, mas achei lógico, que a Rhodia fosse querer prestigiar os funcionários dela, evidente. Então, ele teve que deixar o cargo, mas sem rancores, sem nada. Ele continuou trabalhando lá mais uns tempos e depois foi para outro laboratório e continua até agora. Mas foi um caso interessante, começou uma briga em 1962 e foi terminar, muita coincidência, né? 

 

P - Essa compra da... da escolha, do relatório, o senhor foi avaliar isso?

 

R - Não, eu não dei opinião nenhuma. É o seguinte, em 85 a Rhodia achou que instalação dela tava muito ruim, tal, e precisava fazer um laboratório novo. Era para ser em Jacareí, tinha uma fábrica lá, ia ser desativada, eles iam aproveitar o terreno e fazer a farmacêutica lá. Foi feito o projeto, chegou a ser feito tudo, tava na iminência de começar, já tinha sido desativada a fábrica anterior. Eu, sinceramente, não tava gostando muito da história, porque ia ter que mudar para Jacareí, depois de tanto tempo aqui, mudar toda a família, ninguém tava gostando, mas não tinha jeito. Tava só rezando para acontecer alguma coisa e aconteceu [risos]. Aí, apareceu, graças ao Farid, apareceu a oportunidade da UpJohn. Aí, é lógico, não ia fazer uma fábrica em Jacareí com outra fábrica pronta. Houve a compra e acabaram como projeto de Jacareí, graças a Deus. Mas eu acho que o momento mais difícil foi essa fusão das duas empresas. Muito problemático, muitos conflitos de interesses, tal, muita gente saiu magoada, mas não tem muito jeito. Por mais tentativa que foi feita, não tem como. As culturas também são diferentes. Eu lembro que a farmacêutica que tomava conta do laboratório de controle químico, era tão apegada à Up John, gostava tanto, que ela não conseguia falar duas palavras e "Não, porque na Up John, pela Up John,...". Aquilo começou a encher a paciência de todo mundo. Chegou uma hora que foi mandada embora. Eu falei para ela, ela foi trabalhar comigo, mas tinha um francês que tava coordenando todo o processo de transferência de Jacareí, que não agüentava ouvir falar da UpJohn . Eu cheguei a falar para ela: "Não fala, não toca mais nesse assunto". O Pelegrini também, esse que eu tava falando que briguei com ele, também tinha essa mania, tudo que ele falava relacionava com a UpJohn : "não, porque a UpJohn  quer assim, a UpJohn  não sei o que...". E numa hora o (Francês?) perdeu a esportiva: "Não me fala mais de UpJohn  aqui se não eu te mando embora. Então, teve esses problemas. Realmente, foi uma época muito difícil. Eu soube de outras, também, que houve junção e a mesma coisa. A Squibb...

 

P - A (Roherer?)?

 

R - Não, ela não tinha fábrica aqui. Tinha uma "fabriquetinha" que não fabricava quase nada. Onde o (____) trabalha hoje, tem outro nome, mas a instalação era da (Roherer?). Tinha terceiros que faziam para ele e não houve problema de juntar. Começamos a fabricar os produtos e pronto. A parte de importados, também, e outros, quem fabricava era º.. tinha outra e continua a fabricar também para Rhodia. Quando eu tava saindo, nós começamos a passar a fabricação toda para Rhodia, mesmo. Mas não teve problema nenhum com a fábrica. Teve outro que foi meio problemático, também, foi uma compra que a Rhodia mundial fez, a internacional, na (Faizuz?). Era uma empresa especializada em aparelho respiratório, vários equipamentos e medicamentos, inclusive, pro aparelho respiratório. Isso também teve problema, porque teve que fechar a fábrica em Petrópolis, não tinha sentido manter a fábrica lá. Apesar que tinha 50 funcionários, mas foi a parte de marketing, vendas, teve problemas e os funcionários que foram todos demitidos. Já é um lugar que não tem muito trabalho, imagine, fechar a fábrica e a pessoa não ter o que fazer, mas não tinha como. A Rhodia foi sempre muito correta, nas demissões procurou sempre recolocar as pessoas. Todo mundo que era demitido, tentava recolocar no mercado. Muitos casos deu certo, outros não. Outra coisa que eu gostaria de falar, nada de exagerado, mas nos 38 anos e meio que eu trabalhei lá, ela nunca atrasou um dia o pagamento. Nem o 13o, nem o pagamento, nem férias, nem nada. Isso é um negócio, um ponto a favor, mesmo.

 

P - _______ nesse tempo que o senhor trabalho, começou em 70...

 

R - Comecei em 69 na farmacêutica, 58 na química.

 

P - Dava pro senhor fazer um balanço do que teria permanecido dos valores da Rhodia, o que mudou nesse...

 

R - Bom, eu acho que o que mudou é que a Rhodia se adaptou à realidade. Antes, o negócio era muito mais pessoal do que profissional. A pessoa era muito mais levada em conta, era uma família, a gente chamava a Família Rhodia. Realmente, alguém que era demitido, era um absurdo, só em caso extremo. Depois, com o tempo, foi mudando, foi ficando mais voltada pro profissional, mesmo. Menos pessoal. Isso, vamos dizer, da década de 80, 85, por aí, na minha opinião, começou a ficar mais profissional do que pessoal. E depois, ultimamente, vamos dizer, a partir de 90, por aí, começou, 91, 92, começou a haver uma inversão, outra vez. A nova orientação foi de ser mais pessoal. Acho que hoje tá bem pessoal, levando a pessoa muito mais em consideração do que nessa fase que eu disse que ficou muito profissional. Tanto é que, quando eu resolvi, de qualquer maneira eu ia sair quando completasse 58 anos, que é uma norma da Rhodia, né, mas eu preferi com 57 porque o _______ tava lá. Ele ia sair em dezembro, que ele completava 58 anos. Então, eu preferi sair com um ano a menos e ele estando lá, ainda, que é uma pessoa que eu conhecia, e tal, do que arriscar ficar mais um ano com pessoas que eu não conhecia, o ______, por exemplo, eu nunca conversei com ele. Eu acho que foi muito bom, porque o _______ tava comigo antes, queria saber porque eu não ficava mais um ano, eu expliquei tudo para ele. Eu também já tava ficando estressado, não pelo ambiente, que era muito bom, e é muito bom, ainda, mas pelo desgaste que eu tinha de ir daqui lá todo dia e tal. Realmente, essa mudança, eu não gostei muito, pela distância, só. Eu ficava estressado no trânsito. Eu demorava de uma hora a uma hora e meia para ir e uma hora a uma hora e meia para voltar. Isso na melhor das hipóteses e isso começou a me deixar... apesar que eu fiquei lá de 90, comecei em setembro, mas tá muito...

 

P2 -  Que ano que foi isso?

 

R - Eu fui para lá em 90 e fiquei até 97. Mas não agüentava mais, pelo... Já entrava lá de manhã preocupado com a volta. Às vezes, tava numa reunião, assim, saía às 4 e meia, aí a reunião começava a esticar, ia até as 5, 5 e meia, 6 horas e pronto, pegava aquele trânsito. Depois eu comecei a achar caminhos mais curtos para chegar lá. Comecei a passar dentro de favela, da pedreira, Diadema e tal, você já via aquela... já chegava lá deprimido, via aquela miséria, aquela sujeira, aquele negócio todo. Então, um dos motivos, também, foi esse. Não via a hora de me aposentar mais por isso. Mas, aqui, eu adorava, porque eu vinha almoçar em casa, demorava nem 5 minutos, pega o ________ e sai direto lá. Então, eu gostava muito do local, aqui. Lá, apesar de bonitinho, tudo, mas esse trajeto...

 

P2 -  Aí o senhor conseguiu se aposentar __________

 

R - Isso porque o fundo você pode depositar a partir dos 53 anos, até 58. E é proporcional, lógico com 58 você recebe o máximo, que eles te pagam.

 

P2 -  100%?

 

R - Não, é quase 70%. Com 57, diminuiu um pouquinho, mas é pouca coisa. No final, se não me engano, vai de 50%, se tiver 53 anos a 62%, 64%, se você tiver 58 anos. Então, vai de 50 a 62%, então, a diferença não é muita coisa. Mas foi muito bom, o ________ foi excelente comigo, me deu mais um pouco do que eu tinha direito, foi muito bom.

 

P2 -  E como é o seu cotidiano hoje, depois da...

 

R - Olha, eu tava falando para Sumiko, eu descobri que eu sou vagabundo [risos]. Eu adoro ficar em casa. Tá gostoso, é mais companhia para ela, também, que agora os filhos já não fazem mais companhia, ela ficava muito sozinha. Eu jogo tênis de quarta e sexta, de vez em quando, mais de quarta-feira, numa academia de tênis, ela joga comigo, também e nós fazemos natação terças e quintas. Então é gostoso, você levanta de manhã, vai lá, nada, tal, vem toma um lanche, um negócio assim...

 

P2 -  E a música que eu ouvi aqui?

 

R - Ah, isso aí é blefe.

 

P2 -  Será?

 

R - Eu me entusiasmei, por causa dos meus filhos. Chegou um momento que eles queriam tocar e para incentivá-los também, eu fui junto. Aprendi a tocar violão, mas não dei grande coisa como músico. Como músico, olha... O mais velho também não foi para frente e o mais novo, que não é tão novo, tá com 31 anos, continua com o contrabaixo, guitarra, violão, toca num conjunto. Eles fizeram um conjunto de, é o conjunto mais nível superior que eu conheço: tem um engenheiro, que é ele, tem um dentista, uma dentista, administrador de empresa, economista, e tem um outro, o que é? Toda a turma do colégio, resolveram formar um conjunto, eles tocam em festinhas e não cobram quase nada, é mixaria, só mais para se divertir, não tem qualquer outro intuito. Não tem objetivo financeiro nenhum, mas se diverte bastante.

 

P1 -  _________ em relação à Farma, o papel da Farmacêutica, dentro da Rhodia, ela mudou muito nesse período? Nessa trajetória...

 

R - A Divisão Farmacêutica permaneceu por muito tempo, eu não vou entrar nessa profundidade porque não é a minha área e você provavelmente vai ouvir isso de pessoas muito mais capacitadas a comentar sobre isso. Mas ela ficou muito tempo trabalhando no vermelho, mas era pendurada na Química, na Têxtil e tal. Foi levando até momentos em que se pensou até em encerrar as atividades. E agora, mais recentemente, houve uma inversão. A Farma é uma das que está dando lucro para Rhodia. Tanto é que o (Musa?) comentou uma vez que ele teve que lançar mão do dinheiro da Farma para pagar o pessoal, isso foi em 88, 89, tem um ano que foi um desastre. Foi o único ano que a Rhodia, o Grupo, fechou em vermelho. Agora, como a política da (Romeplanc?) é se orientar mais para as afinidades do grupo, que na verdade é química e ciências da vida, que é a parte veterinária, farmacêutica, vacina, esses negócios. Então, eu acho que hoje a Farma é importantíssima no Grupo porque está no eixo da (Romeplanc?). Tanto é que a (Romeplanc?), na verdade, a parte têxtil não é o forte dela. Aqui no Brasil a têxtil é a que fabricava mais, mas em âmbito mundial não. Há uns anos atrás, a direção da (Romeplanc?) decidiu que o eixo principal dela é química e ciências da vida, farmacêutica. Tanto é que eles venderam a (Fareway?).

 

P1 -  ______________

 

R - A (Fareway?), primeiro, juntou com a (Hoescht?), aquela têxtil. Agora eu vi no jornal que estava sendo vendida a (Fareway?) para outro grupo. Porque realmente não é o eixo principal da (Romeplanc?).

 

P1 - A gente tá encerrando, aliás eu queria perguntar só mais uma questão, duas, na verdade. Seu maior sonho hoje, qual é?

 

R - [risos] É difícil, não tenho, assim... Você diz objetivos? Sonhos? Meu objetivo, na verdade, o sonho, é viver mais um pouco com saúde. Sonho, claro. E objetivo é conhecer aquilo que eu não pude conhecer antes, outros países, na verdade só conheci a França, EUA, Argentina. Então, agora, nós estamos com um programa de viajar, viemos da Itália faz um mês, mais ou menos, passamos lá uns 15 dias, visitamos tudo. No ano que vem, no início, em março, nós pretendemos fazer Portugal e Espanha. Fazer um programa, assim, de conhecer as origens, inclusive. Eu descobri porque eu sou mal-educado [risos] depois que eu fui para Itália. Aquele pessoal lá do sul, pelo amor de Deus, de Nápoles, de Capri, no norte, não, eles são mais... Mas o sul, olha, eu descobri, mesmo. Vamos ver se a gente vai pro Japão, também, que nós não conhecemos...

 

P1 - Se na sua trajetória o senhor fosse mudar alguma coisa, o que o senhor mudaria?

 

R - Olha, na verdade acho que eu não mudaria nada, viu? Sempre deI uma puta sorte, eu consegui praticamente tudo que eu almejava, meus filhos estão formados, tão muito bem, não têm problema nenhum. Tenho uma vida do ponto de vista financeiro, tranquila, não tenho problemas financeiros, eles também não, tão trabalhando muito bem, com cursos de especialização, com outras faculdades que eles fizeram depois de Administração, Economia, outras coisas para melhorar o nível técnico deles, também. Então, eu sou feliz, resumindo. Também eu fiquei preocupado na hora de me aposentar, porque todo mundo falava: "Você vai se aposentar, você não tem o que fazer, você vai ficar isso, ficar aquilo, tal". Mas na verdade, não. Eu gosto de fazer as coisas em casa, também, eu tenho uma oficina aqui embaixo, na garagem, gosto de fazer as coisas em casa, bricolage, o francês chama. Não sei como chama em Português, nunca ouvi essa palavra, em Português. Eu gosto disso, sempre tenho uma coisa para fazer, para passar o tempo, tal. Tá muito bom. Espero que eu continue bastante tempo assim.

 

P1 - E em relação a ter contado essa história, ter participado desse processo, o que o senhor acha?

 

R - Achei que foi muito bom, foi reviver um monte de coisas que _______. Para falar a verdade, eu tava preocupado. [risos] Achei que ia ser um negócio meio chato, mas foi muito agradável.

 

P2 - Foi muito bom, uma delícia, foi muito ótimo, a gente agradece.

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