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História

O esforço e a tranquilidade de seu Abel, um português no Brasil

História de: Abel Gonçalves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/10/2008

Sinopse

Abel Gonçalves nasceu no dia 11 de setembro de 1921 em Lamego, norte de Portugal. Em sua entrevista para o Museu da Pessoa, conta sobre como era a sua vida lá em Portugal, os problemas políticos que fizeram seu pai migrar para Espanha e Brasil. Abel fala sobre a sua viagem de Portugal para o Brasil com seu irmão e principalmente os trabalhos que exerceu para poder ajudar a sua família. Como açougueiro, entregador apenas de filé mignon, motorista de ônibus e taxista. Na entrevista, seu Abel também vai nos contando detalhes sobre como era o modo antigo de funcionar de Portugal e da cidade São Paulo, os costumes, educação, trabalho, causos e também sobre como é sua vida hoje, mais tranquila e dedicando um tempo para si e à família.

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História completa

Identificação

Meu nome é Abel Gonçalves, nasci em 11 de agosto de 1921, no Concelho de Lamego, Beira Alta, distrito de Viseu, norte de Portugal, numa região montanhosa. Os nomes dos meus pais são Alberto Gonçalves e Patrocínia da Conceição. Eles também são de Lamego. Toda a minha família é de Lamego.

 

No nosso quintal tinha um porco

Morávamos numa casinha de dois cômodos. A casa era feita de pedra e a divisão dentro da casa era de madeira. Eram dois quartos, sala, cozinha. Banheiro não se falava, porque banheiro era no mato, como diz o outro. Tinha um quintal lateral e um quintal nos fundos e uma garagem embaixo. Não era uma garagem, mas representa a garagem. De vez em quando, lá pro fim do ano, a gente botava um porquinho. A gente morava em cima e o porquinho embaixo. (risos) A casa ainda existe porque um irmão meu teve lá e visitou a casa. Nós vendemos há uns 20 e poucos anos pra trazer o resto da família. No quintal tinha uma parreirinha de uva. A gente plantava couve, alface, batatinha, plantava na horta. Não tinha luz, era lampião a querosene. Para cozinhar usávamos lenha. Era panelinha, tinha a marmitinha de vaca, a marmitinha de porca. Na cidade tinha pra vender panela de ferro fundido com quatro pezinhos. Punha no chão e aí enfiava aqueles gravetinhos. Punha no fogão. Botava o fogo e em cima tinha linguiça defumando. Depois botando cá o calorzinho embaixo pra defumar a linguiça. A gente fazia linguiça em casa. Quando matava um porco fazia a linguiça, fazia o chouriço, fazia o salpicão. O salpicão é dentro da tripa mesmo. Aqui eles tratam de paio. Lá era o salpicão. Fazíamos chouriço com o sangue do mesmo porco. Matava uma vez por ano. Matava e colocava outro no lugar. Era criado com os restinhos da comida que sobrava. A gente conservava a carne de porco salgada. Tinha uma mala apropriada, o salgador, salgava e deixava ali. Durava um ano. Quando era frio, nós crianças tomávamos uma pinga, bagaceira. Tomava uma bagacerinha, comia uns pedacinhos de carne crua. Carne de porco salgada a gente come crua. Tomava uma pinguinha... E puf, pronto dormia. Passava a noite. Ali era frio mesmo. Dormiam os três irmãos junto. Os três homens junto e as três mulheres junto por causa do frio. E a coberta também era fraca. A carne não estragava devido ao frio. Minha mãe era muito cuidadosa com os filhos. Ela cuidava, de vez em quando a gente matava um franguinho, comia ensopado com batata. Batata lá não faltava. Batata, frango e a carne de porco. A uva era só pro gasto, era um pouquinho. Não dava nem pra fazer vinho. Os vizinhos faziam vinho e a gente ia lá buscar. Eles davam vinho pra gente. Nós não comprávamos. Quando aparecia, a gente tomava. As comidas eram uns pratinhos difíceis, mas, como dizem, dava pra comer. Era feijão e batata. Uma vez ou outra comia o bacalhau. Pobre lá é que nem aqui, não tem muita força. Às vezes o operário ficava lá, trabalhando o dia inteiro com uma sardinha, um pedacinho de pão, um copinho de aguapé. Aguapé é o resto do vinho. E eram tudo corado, vermelho... (risos) E era assim mesmo. Eu nunca mais voltei. Não voltei porque não tinha ninguém lá. Já tinha minha velha aqui. Então, não fui. Lamego é muito fria, chega a nevar no inverno. A casa era quente porque por dentro era toda forrada de madeira. A pedra é longe da cama, longe de berço. Não era encostado.

 

Brincadeiras de infância

Nós éramos seis filhos: três homens e três mulheres. Eu sou o caçula dos homens. Na frente tem mais três mulheres. Nossas brincadeiras eram bater taco na bola e andar com uma bicicletinha de madeira. A gente também nadava muito no rio Douro. Nós nadávamos muito bem. Às vezes, íamos às pescarias pegar o peixe do pescador. (risos) Tinha pescadores que botavam a rede e às vezes eles esqueciam. O rio crescia e eles perdiam a rede. Nós íamos nadando até lá, às vezes achava a rede cheia de peixe. Muitas vezes o peixe que subia do mar, porque o Douro desemboca no mar, às vezes o peixe subia pelo rio acima, e aí quando ele chegava, perdia a velocidade, o fôlego e então ele se batia.

 

Trabalho do pai

Meu pai trabalhava como pedreiro, fazia estrada. Ele quebrava pedra, depois esparramava na estrada, como hoje fazem aqui, que primeiro punha o pedrisco, depois punha o asfalto. Lá era só a pedra, o pedrisco, só pra não ter a terra. Trabalho pesado, trabalho grosseiro. Ele trabalhava para outros empreiteiros. Os empreiteiros formavam aquela turma e aí ficavam sentados, picavam uma pedra, pra quebrar a pedra miudinha e poder fazer a estrada. Hoje não, eles têm as máquinas. Joga as pedras lá e bruuuuu. Naquele tempo era manual.

 

Escola precária

A escola era que nem um barraco. Só que os professores, como eu posso dizer, eram estúpidos. Às vezes, os alunos fugiam. Então, se eles têm muito analfabetos, os culpados eram os próprios professores. Eles tinham um bambu que tinha uns quatro metros de comprimento. Quando o moleque estava dormindo, pá: “Acorda!” E o moleque acordava meio assustado, meio cochilando e fugia da escola, ia embora. A escola não tinha nome. Era perto da minha casa. Nós íamos a pé e sentávamos na cadeira já com aquele receio do professor. Meninos e meninas estudavam separados, mas a escola era a mesma.

 

Lamego

Em Lamego tinha a festa de Nossa Senhora dos Remédios. Saiam romeiras do Porto, romeiras de toda parte e eles carregam no Douro, atravessam o rio e aí vão a pé até Lamego. Eram duas léguas naquela época. Iam tudo a pé. Nossa Senhora dos Remédios é a padroeira da cidade de Lamego. As crianças levavam água para os romeiros. Eu mesmo levava garrafas d’água. Dava água pros romeiros. Os romeiros davam vintenzinho. Toda minha família é católica. Eu frequentava a igreja de Nossa Senhora dos Remédios, a outra igreja que tinha em São João. São João era um arrebaldezinho que tinha uma igreja.

 

Porto e Lisboa

Conheci o Porto só de passagem. Porto e Lisboa só de passagem. Foi quando viemos embora pra cá. Porto é muito bonito. Lisboa é assim mais velha um pouco. Suja. Devido ao porto. Porto de carga e descarga. Em Lamego você não jogava uma ponta de cigarro no chão. Lamego era pequena, tinha até um quartel lá, de lá mesmo

 

Vinda para o Brasil

Primeiro veio a minha tia, que era tia e madrinha minha. Então ela resolveu trazer meu pai. Tinha um problema lá e meu pai precisou viajar, vir embora. Depois de um tempo nos chamou, que eram os dois mais novos porque nós não pagávamos taxa de soldado. Os mais velhos já pagavam uma taxa. Eu tinha 12, com 14 anos já não viaja. Pra viajar tem que pagar aquela taxa de exército. Meu pai ficou uns oito anos fora de Portugal. Eu fiquei oito anos sem ver meu pai e 15 anos sem ver minha mãe. Depois de 15 anos veio a família toda. Meu pai começou a negociar com café aqui em São Paulo. Ele ia nas portas oferecer o café. Naquela época era o café Rochedo, hoje não existe mais. Meu pai carregava o saquinho nas costas e vendia o café. Ele escrevia e mandava algum dinheiro. Nós éramos crianças e trabalhávamos. Com 12 anos eu andava carregando pedra nas costas, pra fazer muro. Meus irmãos também. Fiz muito serviço grosseiro. Quando meu pai veio, a filha mais nova era a Belina. Acho que devia ter uns três anos mais ou menos. Meu pai ficou na Espanha muito tempo também, por problemas políticos. E a minha mãe foi se encontrar com ele na Espanha. É pertinho, Portugal e Espanha é encostado. Passa um rio no meio só. Ele ficou muito tempo em Bragança também, que é uma cidade portuguesa. E eles se encontravam. Minha mãe se encontrava com ele em Bragança e sabe como é. Acabou ficando grávida. É a caçula, que já faleceu. Ele veio pro Brasil. Minha mãe ficou com cinco filhos. Meu irmão mais velho já faleceu, o outro irmão que veio junto comigo também já faleceu. O primeiro é o Manoel, o segundo Adnias, depois vem a Laurinda, a Evangelina e a Celeste, que foi a caçula. Meu pai ficou na Espanha cinco anos, mais ou menos. Aí ele veio pro Brasil, que minha tia mandou o passaporte. Ele veio pra cá, começou a trabalhar com meu tio... Trabalhar não, porque ele trabalhava mesmo com café, mas ele ia no mercado buscar verdura, que meu tio tinha uma quitanda, então ele ia de manhã, às cinco horas da manhã até as seis, sete horas, e depois ele ia fazer o serviço dele, vender o cafezinho dele. Só o cafezinho não, que nós não somos gente preguiçosa.

 

A viagem de navio

Meu pai mandou a passagem. Veio eu e o Adnias. Eu tinha 12 anos e ele, 13 . A viagem pra mim foi muito bonita, mas pro meu irmão não, muita ânsia. Passou mal na viagem. E não foi só ele. As pessoas que eu fui recomendado, que minha mãe, sabe como é, mãe é mãe, ela recomendava: ”Toma conta do meu filho.” E acabou que quem acabou tomando conta deles fui eu. (risos) A viagem durou 18 dias. Eu ia buscar café, chá para os que estavam passando mal. Eu, graças a Deus, não passei. Eu era arteiro. Ia buscar lanche pros caras. Eles não queriam lanche, eu guardava na cabine pra mim. (risos) Nós fomos de trem pro Porto. De lá minha mãe pegou um carro e fomos até a estação. Entramos no navio no Porto, em Leixões. Entrei no navio, a velha Puf. Pifou. (risos). Minha mãe desmaiou. Foi embora. Aí, seguimos a viagem e continuamos muito bem. Nós passamos em Lisboa. Descemos do navio e demos uma voltinha. Nós ficamos só ali, beirando o navio. Durante a viagem paramos na Bahia, Pernambuco. Viemos parando até o Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro ficamos três dias parados. Na Bahia também. Eu não descia porque era criança. Na Bahia, tinha laranja deste tamanho assim. Hoje não tem mais. Uma laranja daquelas era um almoço. Fizeram laranja Bahia aqui em Limeira, laranja Bahia em Piracicaba... relaxaram a fruta. Quem nos foi esperar em Santos foi o meu tio. Ele era tio e padrinho meu, também chamava Abel. Passamos a mão num ônibus e fomos embora.

 

 

São Paulo antigo

Eu me lembro da Praça do Patriarca. Antigamente tinha um sinaleiro. E o sinaleiro eram dois animais: dois cavalos de um lado e dois cavalos do outro e o soldado pri...pri... (risos) Isso era o sinaleiro na Praça do Patriarca. Na Bela Vista iam entregar leite de tambor. Vinham os dois cavalos e a Vigor parava numa esquina, a pessoa vinha lá, eles abriam a torneirinha e soltava o leite. No copo, na xícara, na caneca. Chegava lá: “Quero um litro de leite.” O cara lá. A máquina já botava um litro certo. Tinha seis cabras. Os caras andando no bairro com as cabras. Eles chegavam lá. As pessoas chegavam com o copo e shis, shis... Tiravam o leite na hora. Isso era o São Paulo antigo. Hoje você vai na padaria buscar o leite. Naquela época vinham as carroças. Dificilmente você comprava o leite na padaria. Pra você ter um litro de leite, o cara vinha lá, tocava uma buzina, já sabiam que era o leiteiro. Naquele tempo, o cara ia ao matadouro e já comprava os miúdos baratinho. Então ele vinha com a carrocinha fechada, com o burrinho, um cavalinho e aí tocavam a buzina e já sabiam que era o tripeiro. Pegava fígado, pegava rim, pegava bucho.

 

“O homem cortava a carne e eu serrava o osso”

Meu pai morava na Bela Vista, na Rua São Domingos. Entre a Rua São Domingos e a Conselheiro Ramalho. São Paulo era uma cidadezinha morta, fraca. Bela Vista era muitos botecos em que muitos bebiam. Ele morava num sobrado. Os proprietários moravam em cima e nós morávamos embaixo. Está lá ainda. Nós morávamos debaixo da padaria São Domingos. Também já faleceu tudo. Eram italianos. Até hoje eles têm a Padaria São Domingos ali, e é dos próprios donos ainda. Veio de pai pra filho e assim foi indo. Comecei a trabalhar como açougueiro na Rua Santo Antonio. São Domingos é a de baixo da Santo Antônio. Depois vem as outras. Vem a Conselheiro Ramalho. A São Domingos corta a Major Diogo e vai até a Rua da Abolição. O nome do açougue era Açougue Santo Antônio. O homem cortava a carne e eu serrava o osso. (risos) Depois comecei a cortar a carne. Um deles ficou doente aí eu comecei a cortar a carne e a serrar o osso também. Eu fazia as entregas a pé ou de bicicleta. Andava o bairro inteiro. Depois eu fui trabalhar em outro açougue também, na Rua Santo Antônio com a Treze de Maio. De empregado trabalhei uns seis anos mais ou menos. Nessa época eu estudava na Rua São Domingos. Lá embaixo, perto da Rua Abolição, numa escola particular. Era um professor particular. Ele tinha um defeito na perna, então ele estudava e dava aula. Quando eu vim de Portugal, como diz o outro, só sabia fazer o ovo como fundo do copo. O pouquinho que eu sei, aprendi aqui. Pouquinho, também não sei muito, mas o pouquinho que eu sei foi aqui. Eu trabalhava durante o dia, estudava das oito às dez da noite e às dez da noite eu ia pra casa. Duas horas da madrugada eu levantava pra ir pro açougue, pra poder cortar a carne, deixar a carne prontinha pra vender. Hoje não é assim não. Hoje o cara chega no açougue a hora que ele quiser. Mudei depois para outro açougue, na Rua Santo Antônio com a Treze de Maio. Era na esquina. Os donos eram exigentes. Carregava uma cesta de carne até na Rua Paim. A mulher ia junto, a dona do açougue. Chegava lá descarregava a cesta e ali os caras vinham pegar a carne ali. Vinham buscar a carne ali. A carne já cortada e já embrulhada. A senhora entregava hoje e já faziam o pedido pra amanhã ou pra depois. Sábado a gente já levava um quilo pra um, um quilo pra outro, meio quilo pra outro, de carne. Domingo era outra pessoa que ia lá. Às vezes, eram 20, 30 quilos nas costas. Depois punha a cesta debaixo do braço e ia embora vazia. A dona do açougue já recebia na hora ou deixava fiado. Naquela época o nosso divertimento era pião. Jogava pião na rua. Juntava quatro ou cinco, fazia um monte de pião e aí jogava pra esparramar. Pião é ganho como diz o outro. Íamos ao cinema, às vezes faltava na escola pra ir no cinema. Ia no Espéria. Tinha o Espéria, na Conselheiro Ramalho. Eu gostava de ver filme de faroeste, bang bang.

 

Namoro e casamento

Só namorei a esposa. Namorei e casei. Eu casei com 20. Ela tinha 16. Namoramos oito ou dez meses e casamos. Vivemos muito bem, graças a Deus. Não posso ter queixa. Ela é muito boa, muito cuidadosa, principalmente com as crianças, mas ela é severa. É muito severa. O filho não leva atravessado não, que ela é muito severa. Ela é uma boa mãe, mas se precisasse, não deixava pro dia seguinte. Era no ato e sapecava mesmo. Conheci minha esposa na casa de uma conhecida. Aí ela foi embora, foi pra Pinhal. Conversei com aquela conhecida e fui pra Pinhal. Aí conversamos, conversamos, conversamos e já trouxe a noiva. Depois arrumei a casa e trouxe a velha, minha sogra. Está viva até hoje. Casamos. Naquela época,você namorava aqui e a velha ficava de lado. Aí, casamos e acabou. Ficamos morando junto, a velha, minha cunhada e nós. Quando me casei, vim morar na Rua Groenlândia. A Rua Groenlândia já pertencia ao Jardim América. Era casa de aluguel. Três filhos eu tive lá: a Teresa, a Evangelina e o Alberto. Entre a Rua Atlântica e a Av. Europa. O bairro era afastado. Ali na Venezuela com a Groenlândia morava um comandante. Era um lugarzinho meio respeitado. Depois tinha a Rua França, a Rua Inglaterra, a Bélgica.

 

Negócios com carne

Eu já tive açougue. Tive açougue no Tatuapé e tive açougue no Canindé. Além do açougue, eu tinha outras atividades com carne. Trabalhei no Mercado Municipal como açougueiro. Comecei a vida ali. Comprei uma bicicleta no mercado, e comecei a comprar filé mignon. Eu ia nos bares, comprava o filé mignon e trazia e entregava na cidade. Esse já era por conta própria. Eu queria sair do açougue e surgiu uma pessoa lá, entregando filé mignon. Eu conversei com essa pessoa que era o dono de um açougue lá no Belém. Eu não tinha capital. Depois foi um compadre meu, me arrumou capital e aí eu ia buscar mercadoria, levava na cidade e entregava, recebia e já pagava aquele capital que me emprestaram. Fiz isso umas duas ou três vezes com o capital e depois já fui trabalhando com o capital meu. Fui vivendo. Vivi mais ou menos uns cinco anos. O açougue não tinha nada a ver com o filé mignon. Ai já era uma compra particular. No meu açougue ficou meu irmão e um empregado. No açougue o empregado ganhava mais do que nós que era patrão. O sócio estava comendo demais, aí vendemos o açougue. Depois ele foi ser taxista e eu continuei com a bicicleta, entregando a mercadoria. Foram cinco anos da Groenlândia à Penha. A gente fazia Vila Carrão... Belém, Penha e aí era o retorno. Aí vinha embora. Entregava no restaurante italiano, aqui na Av. Ipiranga. Eu fornecia para os restaurantes. Depois eu tirei carta de motorista pra poder ir com o carro.

 

Criação de porcos e galinhas

Comecei a ir buscar com o carro, depois cismei de fazer uma criação de porco no Rio Pequeno. Naquela época a Prefeitura nem implicava. Quem quisesse criar um porco dentro de casa, criava. Na Faria Lima tive duas cabras. Às vezes, tinha uma pessoa doente, tinha leite. Eu tinha galinhas em casa. Sempre tive. Na época da minha velha, cheguei a ter 50 frangos em casa. Frango, não é galinha, não. Às vezes, escapa algum. Tinha umas oito galinhas no meio desses 50 pintos. Separava, elas botavam uns ovinhos. Quando ela queria matar um frango, eu pegava e matava um frango. A molecada não comia, que tinha dó. (risos). Eles ficavam brincando com a galinha e não queriam comer, não (risos).

 

Trabalhando na praça

O serviço de entregas de carne fracassou. Fui trabalhar de servente de pedreiro. Em 63, fui trabalhar de motorista de ônibus. Trabalhei na Urubupungá, em Osasco, fazia a linha Helena Maria. Depois trabalhei no Rio Pequeno. Virei pra táxi. Trabalhei 11 anos em táxi de frota, em Pinheiros. Aí eu quis fazer a criação de porco. Comecei a mandar pessoa buscar mercadoria e parei. Fui trabalhar no táxi. Trabalhei na Anastácio, que era no Rio Pequeno. Depois da Anastácio fui trabalhar no Morro do Querosene, na 109, frota. Depois da frota eu passei pra 120 que era a Nicola, na Nicola fiquei até comprar o meu. Eu sou taxista, se eu for contar, há 20 e poucos anos. É que eu trabalhei em uma frota 11 anos; em outra frota eu trabalhei quatro anos, na outra frota eu trabalhei três e eu já estou com esse há sete anos. E vou por aí. Saio às cinco horas da manhã, cinco e meia, vou até meio dia, paro. Almoço e cama, durmo um pouco. Quando aparece serviço à noite, eu vou. Esse serviço é fazer fechamento das lojas no shopping. Fazer tapume de madeira pra fazer a reforma das lojas. Se vai reformar a loja, então eles pegam tapume. Chegam os pedreiros e ficam trabalhando do lado de dentro. A gente tem que fazer o vedamento pra não vir poeira. Trabalho com outros cinco homens. A firma é do meu neto. Eu só sou o responsável.

 

Filhos e netos

Eu tenho quatro filhos: a Teresa, o Alberto, a Neuza, a Evangelina. Netos acho que tenho 18, e quatro bisnetos. Eu moro com a Teresa, minha filha. A Teresa e os bisnetos. Uma neta e os bisnetos. Eles saem de casa o dia inteiro. (risos) A Teresa faz almoço pras crianças, faz almoço pra filha e pra mim também.

 

Trabalho como taxista

Eu gosto de ser taxista. De interessante não tem nada. Já fui assaltado seis vezes na frota. E fui assaltado pela primeira vez agora, nove horas da manhã, no meu carro. Assusta um pouco. Aí tem que largar o carro e sair correndo. Num assalto eu larguei o carro e fui embora. Com a chave no contato e tudo, o carro não era meu mesmo. Esse está no seguro. Não levaram o carro, mas fui na delegacia. Numa certa distância eu olhei pra trás, o carro estava no mesmo lugar com os faróis acesos e tudo. Na delegacia, eles acharam que quem era o ladrão era eu. Tem motorista que quer roubar a frota. Ele chega e fala que foi assaltado. Tem gente mora em Cotia. Pega um ônibus e pega um táxi pra vir aqui. Ou senão em Santo Amaro e pega um táxi pra ir pro Jardim Europa. Vai pra Osasco, vai pra Santo Amaro, vai pra Casa Verde, vai pra Freguesia, Santana. Aqui no bairro mesmo é difícil. No bairro é só Vila Madalena. Vila Madalena tem dois, três. Praça Panamericana. Tem uma moça que pega sempre. Se eu estou na frente, pega o meu carro, se estou atrás ela pega o da frente. Ela vem aqui pra Rua Girassol. Todo dia ela pega lá no ponto. Isso é praxe do ponto, pegar o primeiro carro. Às vezes, eles vêm e querem eu. Eu digo: “Não, pega o da frente.” Nas corridas não tem erro. É só marcar o caminho que vai, pra voltar. Voltando pelo mesmo caminho, não se perde.

 

Cotidiano

Meu dia-a-dia: de manhã eu levanto, trato dos gatinhos, faço um chá. Saio pra fora, dou a ração dos gatos, entro no carro e venho para o ponto. Às vezes, no meio do caminho, pego passageiro. Na frota, eu ficava rodando atrás de passageiro. Agora não. Se aparece, aparece, se não aparece, não tenho que salvar ninguém mesmo. Tem dia que você faz 30 reais, tem dia que faz 40. Hoje eu fiz 17 reais até agora. Eu fiz 79 anos. A minha carta tem dois anos só. Daqui dois anos vou fazer novo exame. Não tem nenhum problema. Precisa usar óculos. Aposentado eu já sou. Vou continuar a trabalhar um pouquinho. Não muito.

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