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História

O esforço de uma mãe solteira

História de: Lucinda Rodrigues Nogueira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/07/2003

Sinopse

Lucinda Rodrigues Nogueira nasceu em Frutal, Minas Gerais, no dia 30 de julho de 1920. A terceira filha de oito irmãos, conta pro Museu da Pessoa sobre a sua infância em uma casa grande e as brincadeiras e obrigações dos irmãos, sobre sua educação e o footing praticado na juventude pelas moças. Lucinda fala também de como se casou muito nova, com dezesseis anos, e que não deu certo, motivada para ter uma vida feliz, foi uma das primeiras mulheres a lutar pelo divórcio e conseguir em 1954. Lucinda conta sobre sua história de vida carregada por muito esforço, sendo mãe solteira, trabalhando em diversos empregos e que hoje consegue viver de bem com a vida, aposentada, com os filhos já crescidos e tendo tempo para se dedicar aos passeios com os amigos e o exercício da religiosidade.

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História completa

P/1- Bom dia, dona Lucinda.

 

R - Bom dia.                                                                                                                                                        

 

P/1- Eu gostaria que a senhora falasse seu nome inteiro, o local e data de seu nascimento.

 

R – Meu nome é Lucinda Rodrigues Nogueira, nasci em Frutal, estado de Minas, Triângulo Mineiro, dia 30 de julho de 20.

 

P/1- Pois bem, qual o nome de seus pais?

 

R – Sebastião Rodrigues e Dalbina Aguiar Rodrigues.

 

P/1- E seus avós paternos?

 

R – Meus avós paternos eu não os conheci.

 

P/1- Sabe os nomes?

 

R – Eu acho que era Joana, avó, e Joaquim.

 

P/1- A senhora mesmo não sabe?

 

R – Não, agora minha avó materna, meu avô chama José Batista Aguiar e minha avó Lucinda Aguiar.

 

P/1- Que dizer que a origem da sua família é de brasileiros?

 

R – Tudo!  Eles não têm nada de estrangeiro, tudo nacional.

 

P/1- E quantos irmãos a senhora tem?

 

R – Nós somos em oito, sete mulheres e um homem.

 

P/1 - Conta um pouquinho da sua infância, Dona Lucinda, pra nós.

 

R – A minha infância foi linda, maravilhosa, muita criança, né, os pais muito bons e tudo

era diferente de tudo que é hoje né, diferença muito grande.

 

P/1- E como era lá em Frutal quando a senhora nasceu e como era a sua casa?

 

R – Minha casa, era uma casa enorme, eu me lembro bem, quintal.

 

P/1- Quantos cômodos?

 

R – Olha tinha cinco dormitórios, sala de visita, sala de jantar, era uma coisa assim, cozinha imensa, é, casa de interior e a frente da casa, a gente ficava mais atrás, tinha uma casa de comércio.

 

P/1 - Assim, esse comércio era voltado pra que atividade, o que se vendia?

 

R – Ah, vendia roupa, roupa não, tecidos, eu, o que eu lembro, né, porque saí muito novinha de lá.

 

P/1- Tá certo e a casa tinha quintal... A senhora brincava com seus irmãos e qual tipo de brincadeira a senhora gostava de brincar com eles?

 

R – Todo tipo de brinquedo de infância porque naquela época a gente brincava e brincava de boneca e no fundo da minha casa tinha um tipo... Não é dispensa não, sabe? Ali onde a gente guardava mantimento tinha umas tulhas, é tulhas, né, que guarda mantimentos, ali tinha todo mantimento, tinha carne que era guardado tudo em lata porque não tinha geladeira nessa época, né, e era fruta, muita fruta no quintal, então era uma vida maravilhosa, foi uma infância muito linda.

 

P/1- E como a senhora teve vários irmãos, existiu alguma divisão de tarefas, assim na casa?

 

R- Era por idade, né?

 

P/1- Sim, então conta um pouquinho pra nós?

 

R - A minha mãe dava obrigação conforme ia crescendo, pra arrumar cozinha, porque tinha empregada, mas nós tínhamos que aprender e conforme nós íamos crescendo e aprendendo a fazer costura ou crochê, isso e aquilo né, me lembro bem dessas coisas.

 

P/1- E isso para as moças e a senhora, tinha pro rapaz?

 

R – Ele era muito novinho, bem mais, que vê... O quinto então você vê, esse não tinha muito não, eu não me lembro não de atividade dele por causa de ser varão (risos). Então o pai gostava muito dele, levava para o escritório, meu pai era um homem muito inteligente, falava muito bem francês, naquela época era francês e latim, o inglês não entrava. Era muito inteligente, orientava a gente, mas depois nos mudamos para Barretos, aí muda e a vida mudou, nós já estávamos mais crescidinhas, é outra cidade, né?

 

P/1 - E a senhora sabe que ano que veio de Frutal para Barretos aqui no estado de São Paulo?

 

R – Deixa eu ver, 20, acho que lá por 29, mais ou menos 28, 29 (pausa) Me lembro bem fui na aula fazer minha primeira comunhão lá também, era muita criança diferente de hoje, que a catequese hoje é completamente diferente, não é? Fiz com sete anos, a primeira comunhão.

 

P/1 - A senhora nos disse que seu pai, ele falava mais de uma língua, inclusive ele falava francês e qual que era a atividade que ele exercia?

 

R – Meu pai era coletor federal, o mais interessante que não era aquela como hoje tem as faculdades, eu acho que ele estudava, deve ser auto didático porque só com os livros e estudando, né?

 

P/1- E a sua mãe, qual que era atividade dela?

 

R - Tomar conta dos filhos (risos) Não eram poucos, só de orientar oito né?

 

P/1- Dona Lucinda, conta um pouquinho pra nós a relação da senhora com seus pais, qual era o mais austero, ou era pai, ou a mãe, como era a relação, essa coisa da educação dos filhos?

 

R – Eu fui muito bem orientada, mas não era como hoje, essa coisa, eu tinha uma vontade louca de chegar perto do meu pai, abraçar e beijar, eles não davam essa liberdade pra gente, sabe disso? Não davam, agora a minha mãe não, ela era mais chegadinha, mas ela tinha um carinho muito grande pelo meu pai apesar de ele ser...

 

P/1 - Ele era meio fechado?

 

R – Eu não sei se era fechado, acho que aquela maneira era pra impor, ele era muito meigo, uma pessoa muito generosa não só com os filhos, mas com todos os parentes.

 

P/1- E como era a relação da senhora na escala dos filhos, a senhora ocupava, era a primeira, segunda, terceira?

 

R – A terceira filha.

 

P/1 - E como era uma casa cheia de criança? A relação da senhora com seus irmãos?

 

R – Muito boa, mas eu tinha uma relação mais assim e conservo até hoje com as duas menores, uma até me chama de madrinha e senhora, vê se pode uma coisa dessas?  Irmã caçula e a outra, essa que eu te falei que estava doente ontem que eu fui lá, até hoje a gente não perde essa preocupação e os meus filhos, como eu faço isso também, é uma coisa assim automática o que eu sinto, eles também sentem pelas duas tias, engraçado isso né?

 

R – A senhora estava dizendo há pouco que essa questão me parece ser marcante na sua vida, essa questão da religião católica além da atividade que a senhora fez a catequese, a primeira comunhão, a senhora frequentar a igreja, tinha alguma outra atividade que a senhora frequentava?

 

R – Não, eu estou tendo agora porque na época não dava né, Olivia, porque a gente tinha que cuidar mais das crianças, dos filhos, dos adolescentes e tudo eu, graças a Deus, não tive problema eu fiquei sozinha com meus filhos, o mais velho tinha catorze anos, tudo pequeno e eu cuidei deles, eu sou pai e mãe do meus filhos, entende? Não tive problemas com comportamento na adolescência, não sei o que é esse negócio de adolescência, isso tudo, não tive esse negócio que tem hoje, droga sempre teve viu, não vem falar que não tinha porque tinha, eu não tive problema, filho meu nunca perdeu o ano.

 

P/1 - Vamos voltar um pouquinho lá trás na sua infância, como foi sua entrada na escola, como se chamava a escola? Descreve um pouquinho a escola e a professora que a senhora tinha mais afinidade?

 

R – Olha, vou te falar, a primeira eu não lembro não, a primeira professora que eu tive foi em Uberaba porque nós moramos uma temporada em Uberaba, mas foi uma coisa muito rápida, meu pai não acostumou e nós voltamos. Mas o primeiro colégio que eu estudei foi no colégio de freiras em Uberaba das dominicanas.

 

P/1- Era colégio de freiras?

 

R - É, de freiras. E depois de Barretos eu fui para escola particular, sabe que eu não lembro da professora?

 

P/1- Não lembra?

 

R – Não, eu me lembro quando fiz em Olímpia o primário, ainda eu me lembro bem da professora, chamava Luiza uma mulher muito elegante, muito bonita, isso a gente lembra. Lá eu terminei, aí depois que eu vim para Barretos fazer o ginásio.

 

P/1 - E qual foi a escola que mais marcou, já que a senhora passou um pouquinho pelo menos por três lugares?

 

R – Que saber o que mais marcou foi o de Olímpia (risos)

 

P/1- Então conta por que aconteceu isso?

 

R – Olha, eu tinha muitos amigos porque meus pais moravam em Barretos e eu estudava em Olímpia, mas eram umas amigas muitos boas e foi meu primeiro namoradinho que eu tive lá, então fiquei encantada com ele. Ele era um rapaz lindo, maravilhoso (risos) Então eu me encantei muito com isso.

 

P/1- E qual era o nome desse pretendente?

 

R – Se chamava Dionisio, mas era um belo rapaz, mas também foi só aquela temporada e pronto.

 

P/1- Aí a senhora já estava em Barretos?

 

R – Já, eu já morava lá em Barretos.

 

P/1- No caso, depois a senhora foi crescendo e como é que aconteceu o contato, se esse foi seu primeiro, no caso, o segundo namorado?

 

R – Ah, isso eu não lembro, namorava tanto, minha filha.

 

P/1- Era namoradeira?

 

R – Era muito, era muito namoradeira (risos) Mas eu não lembro de nenhum, a única coisa que eu vou te contar que lá tinha tipo uma passarela, mas não é passarela no meio do jardim não, tem, assim, você faz o footing. Então ali nós íamos fazer o footing, era garota, tinha dezesseis anos, eu tinha tanto namorado que quando eu vinha pra cá eu ia namorando os que estavam no lado de lá, quando voltava estavam os outros do lado de cá (risos). Mas não era namorado igual hoje, era só de olhar, entendeu, nada de conversa, nada de encontro, nada disso. Era flerte, minha filha, mas era gostoso aquilo.

 

P/1- Hoje em dia nós poderíamos estar chamando de paquera isso, né?

 

R – Mas era um flerte, aquele footing era muito bom, tinha banda de coreto, sabe aonde você vê isso? Em Poço de Caldas tem aquele coreto lá e toca aquela bandinha, uma delícia aquilo e a gente fica passeando de lá para cá.

 

P/1 - E quando aconteceu esse contato, quando a senhora começou a namorar realmente firme?

 

R – Eu tinha uns dezesseis anos, eu casei muito cedo, sabe? Mas não era um namoro igual é hoje.

 

P/1- Você fica bem à vontade para descrever.

 

R – Mas eu nem lembro, chegava em casa, lá tinha meus irmãos, eu achava natural, eu não gostava muito dele, é por isso porque de certo era diferente, hoje eu vejo as coisas tudo direitinho, mais claras e tudo. Ele era dentista, pai dos meus quatro filhos, mas foi uma vida muito ruim, sofri muito, sofri muito mesmo, eu era uma menina.

 

P/1- Em que ano a senhora casou?

 

R – Eu casei acho que em 40.

 

P/1- Na cidade de Barretos.

 

R- É, mas eu não queria não, eu estava na hora querendo desistir, mas não me deixaram, enfrentei. Veja, naquela época eu estava vendo que não ia dar certo, como não deu eu fiz tudo que podia, mas aí já que tinha casado naquela, quando a gente casava e acabou, era para o resto da vida até que a morte nos separe.

 

P/1 - Houve alguma imposição por partes de seus pais para que a senhora se casasse?

 

R – Não, não teve não, eu mesma que achei que não ia dar certo.

 

P/1 – Daí a senhora se casou e ficou morando na cidade de Barretos?

 

R – Fiquei, morei muito tempo lá.

 

P/1- Conta como foi sua primeira casa, assim, depois de casada, onde era a rua que a senhora morava?

 

R – Olha, minha casa era uma casa feita para eu mesma, era muito boa, três dormitórios, uma sala grande, copa, a gente tinha muito disso, copa, cozinha tudo. Mas o que eu estranhava muito “como é que pode?” Era uma casa grande, assim, ter um banheiro pra todo mundo, hoje a gente fica pensando “como pode?” Era um banheiro completo com banheira, chuveiro, mas era um, foi tudo ótimo, quando eu vi que não ia dar certo o que eu fiz, fui fazer corte e costura, aí ele trabalhava aqui em São Paulo, eu trabalhava lá Barretos, aí me aperfeiçoei e comecei a trabalhar. Na minha família ninguém nunca trabalhou pra fora e eu fui em frente, aí mudei para cá, aí sim fui ensinar costura, e costura e algumas eventuais substituição no grupo foi assim que eu levei minha vida, até que mais tarde eu quando resolvi meu problema de separação, de desquite, que levou quatro anos porque ele não se conformava porque eu tinha muitos bens e não queria dar para mim (risos) e eu com quatro filhos, eu falei “não, faço questão, eu vou em frente, não quero nada, eu vou à luta”. E fui à luta e fui trabalhar, eu fiz curso como é que se chama? Supletivo, para recordar, eu fiz datilografia, eu fiz taquigrafia, eu fiz tudo.

 

P/1 - A senhora se lembra a data, quando aconteceu sua separação?

 

R – Eu acho que foi em 54, mas eu sou uma das primeiras divorciadas do Brasil, isso eu conto com vantagem porque quando o meu desquite levou quatro anos para sair porque o juiz não queria liberar porque achava que eu não podia perder ele, eram muitos humanos naquela época. E aí saiu, eu falei: olha, eu quero deixar tudo escrito porque eu quero ser das primeiras e fui das primeiras mesmo, aí trabalhei, minha filha, trinta anos e pronto, aposentei

.

P/1- Houve algum problema com sua família? Porque em 1950 foi mais ou menos a época que a senhora se separou, não era uma coisa muito comum, como a senhora estava dizendo?

 

R – Olha esse negócio de preconceito com pessoas de fora eu não tive, eu era muito nova, mas com família, sim. Mas eu acredito que eles achavam que eu era muito moça trabalhando, mas minha cabeça sempre foi muito firme e meus amigos de antigamente, aqueles que me apoiaram são meus amigos até hoje, de ir para casa deles fora daqui, São Carlos, Ribeirão Preto, eu vou para lá e passo, eu tenho afinidade de irmão, eu nunca sofri esta parte de preconceito.

 

P/1- A senhora foi sempre apoiada?

 

R- Sempre apoiada, eu fui sempre muito enérgica, hoje eu não sou, não sou assim aquela coisa, aquela rigidez, eu sou bem mais tranquila que vê as coisa toda correrem maravilhosamente. O que mais que eu quero e tem uma coisa comigo que a gente tem uma religião que eu fui bem educada, nessa parte de meus pais é uma coisa que para mim foi muito bom porque eu nunca na minha vida disse uma blasfêmia de tudo que aconteceu comigo que não foi pouco, né. A perda de um filho, Olivia, é a coisa pior do mundo e eu não, estou sempre ali, sofro muito, Olivia. Não, brincadeira, agora esse ano passado eu tive um negócio, minha filha, que eu acho que isso é para pagar viu, porque quando eu vejo colegas, amigas falarem “estou tão deprimida”. Isso é falta de serviço, não é que me pegou a depressão, estou no tratamento, mas eu não deixei a peteca cair, estou lutando, é muito difícil as coisas que vão... Família grande é isso mesmo viu, Olivia, é um neto, uma neta, é isso, menino é doença, apesar que eu sou uma pessoa muito feliz, meus filhos são bons trabalhadores. São corretíssimos, todos fizeram sua parte, estou com quatro bisnetos, o mais velho vai fazer treze anos agora, você não acha isso uma coisa boa?

 

P/1- Sim, acho, e com relação à senhora, disse que ficou com as crianças sozinhas, disse que foi meio dificultoso. Conta um pouco dessa coisa de seus filhos crescendo, essa coisa de escola e com a questão de seu trabalho?

 

R – Olha, os meus filhos todos estudaram em colégio muito bom porque eu ia direto na fonte. Eu vejo essa mulherada toda levar colchão, levar tudo para a beira da escola, eu não, eu já ia lá falar. Não posso, quero um lugar para os meus filhos, quero que estude num lugar bom, consegui todos, Arquidiocesano, Santo Agostinho, todos estudaram. O meu filho mais velho, ele depois que terminou o científico naquela época ele fez na Roosevelt, lembra que o colégio da Roosevelt era uma coisa maravilhosa, era um espetáculo, ele saiu de lá, fez vestibular e passou em odontologia que ele ia fazer. Mas na primeira aula prática, ele (risos) não conseguiu porque ele não podia ver sangue aí depois ele fez Direito, mas ninguém exerce a profissão, nenhum dos meus filhos.

 

P/1- Esse é seu filho mais velho?

 

R – Esse é o mais velho.

 

P/1- Qual o nome dele?

 

R – Renato, e o Ricardo é de Propaganda e Marketing, esse fez três faculdades e o meu filho caçula também fez três faculdades.

 

P/1- Esse terceiro filho seu é?

 

R – Maria José.

 

P/1- Ah, o terceiro é a Maria José?

 

R – O Rauzinho que era o caçula que faleceu, ele tem uma família muito linda também e o meu neto está seguindo o pai, já esta na segunda.

 

P/1- É na segunda série?

 

R – Na segunda faculdade, já fez G.V. – Getúlio Vargas, agora está fazendo Direito, é o que ele gosta.

 

P/1 - A senhora estava contando que há um tempo atrás trabalhava como costureira, dar aulas, conta onde era esse local e como era esse trabalho?

 

R – Eu ia na casa das pessoas, juntava três ou quatro eu dava aula.

 

P/1- (risos) Além de dar aulas a senhora costurava para fora?

 

R – Costura tinha umas freguesas boas.

 

P/1- Tinha alguém conhecido, alguém famoso?

 

R – Olha, tinha tanta gente, minha filha, que a gente até esquece o nome, eu me lembro muito de uma pessoa que foi muito boa comigo (pausa) Irmã do Vicente Rao,

Constância Rao, pessoa mais maravilhosa que conheci na minha vida. Ela era deficiente desde os dois anos e essa pessoa me foi encantadora, me guiou, me protegeu. (pausa) Ela fazia tudo para as coisas brilharem, ela sabia do meu esforço com os filhos, ela foi muito boa comigo, é uma das pessoas que eu mais recordo com carinho. (pausa) Era muito difícil costurar para ela, ela era toda deformada, mas eu costurava e ela usava só tailleurs, era difícil, mas conseguia, mas você precisa pôr enchimento do lado, do outro não, era muito difícil, aí eu deixei de costurar, não dava, Mas você quer saber de uma coisa? Não faço nem para mim, faço para minha filha, para minha neta porque elas adoram a minha costura, mas eu deixei, tive uns aborrecimentos, pessoa que não paga. (risos) Português claro, não pagava, então eu falei “quer saber, eu não estou precisando disso mais não”, já trabalhava fora, um local maravilhoso. Olha, eu fui muito feliz porque na época em quando eu entrei para trabalhar, não sei se foi o Carvalho Pinto, foi Carvalho Pinto, olha como faz anos, você sabe que eu entrei, logo depois ele deu um aumento para nós de letra, que eles já vinham tentando receber aquilo. Pois eu entrei e em seguida... eu já entrei bem lá, naquela época que eu trabalhava era muito bom, por isso você chegava, assinava o ponto, se por acaso você quiser sair depois de uns quinze minutos, fazer alguma coisa, tudo podia. Aí começou a fazer concurso e a turma entra e começaram a abusar, eles cortaram as férias forenses que são essas que os juízes têm e a gente também, era quinze dias, agora é uma semana por causa dos abusos, mas era tudo muito bom viu, Olivia, para mim foi tudo muito bom.

 

P/1 - Esse segundo trabalho, pelo que a senhora está contando é em órgão público?

 

R – É, Judiciário.

 

P/1 - E qual órgão público que a senhora trabalhava?

 

R – Primeiro Tribunal de Alçada.

 

P/1- E a senhora desenvolvia uma atividade lá dentro, que tipo de atividade a senhora fazia?

 

R – Olha, primeiro eu trabalhei nos gabinetes de contabilidade, mas eu só fazia trabalho para a diretora, aí depois eu saí da contabilidade porque você vai melhorando, então você passa para sala. Passei mesmo na contabilidade, então eu tive outra promoção, fui para administrativa e tive outra e fui para o judiciário, foi muito bom.

 

P/1 - E qual a função que a senhora exercia?

 

R – No judiciário era de chefe

 

P/1- Chefe?

 

R - Só orientava, cesta básica, tudo, fazia também correção quando era para fazer os acórdão, a gente ia ler para ver se tinha algum erro, é isso. Aí depois eu aposentei, não gostei de ter aposentado.

 

P/1- Eu estou lembrando que a senhora falou que se casou e foi morar na cidade de Barretos.

 

R- Eu casei em Barretos.

 

P/1- Casou em Barretos, daí a senhora veio para São Paulo, que bairro e que localidade a senhora foi morar?

 

R – Você sabe... Vila Mariana, começo de Bosque ali.

 

P/1 - Qual a rua, a senhora se lembra?

 

R – Eu acho que é Avenida Bosque...

 

P/1 - O Bosque da Saúde?

 

R – É, mas já faz tantos anos, Olivia.

 

P/1- E como era a sua casa?

 

R – Minha casa era grande também, eu sempre tive casa grande. (pausa) Meu pai morava comigo é porque tinha que ter um quartinho para ele, um quarto bom e tinha os meninos, o da minha filha e o meu, e depois eu mudei.

 

P/1- Nessa época seu pai veio morar com a senhora por conta do falecimento da sua mãe?

 

R – Não, ele veio morar comigo porque ele tinha tido derrame, você já imaginou minha luta? Quatro filhos e ainda tinha que cuidar dele. (pausa) Mas não é nada, passa, né?

 

P/1- E em que ano foi que a senhora veio morar em São Paulo, no Bairro de Vila Mariana?

 

R – Ai, minha filha, eu acho que foi 50. Não, foi antes de 50, foi antes, viu Olivia, porque o Rauzinho nasceu em 47, ele nasceu e eu vim para cá.

 

P/1 - E como era a cidade de São Paulo?

 

R – Maravilhosa, minha filha, aquele frio delicioso, naquela época as crianças, quer dizer, o Rauzinho era nenêzinho, as fraldas eu enxugava, não é como hoje que tem frauda descartável. Tinha que botar para secar essas fraudas, forra o forno, dá uma esquentadinha, era uma coisa diferente, São Paulo era outra coisa, São Paulo da garoa é a realidade, viu, era a realidade, era muito bom.

 

P/1 - A senhora tinha um lugar em especial em São Paulo que gostasse de passear, levar crianças, que agradava mais, como é que era?

 

R – Eu levava muito para Água Branca, se você que saber, aquele parque lá.

 

P/1- Já existia?

 

R – Já existia, eles gostavam muito, olha vou te explicar uma coisa, eu levei meus meninos ali na esquina de Quintino Bocaiúva com José Bonifácio,  tinha a rádio Record ali, não tinha? Eu me lembro disso porque os meus filhos frequentavam, o meu filho de Brasília, a vocação é uma coisa que vem, ele ia muito lá porque tinha Vicente de Morais, tinha outro professor e ele ganhava todos os prêmios, eles faziam aquelas perguntas, tinha aquelas enquetes. Então um dia diz que o Vicente de Morais disse para ele “escuta aqui rapaz, acho que você não vem mais aqui, você leva tudo”. Então ele levou outro irmão dele, o Renato, ele nunca foi de prestar muita atenção, eu deixava eles e depois eu pegava, mas era mais passeio, era Água Branca, ás vezes ia ao cinema com eles, passeio de bonde era bom, eles gostavam. Agora eu tinha uma coisa que eu gostava muito, eu gostava de assistir missa no Paissandu na igreja dos homens pretos.

 

P/1 - É Nossa Senhora do Rosário.

 

R – É, mas eu vou toda primeira quinta-feira do mês das 8:30 da manhã e não deixei, porque naquela época eu ia aos domingos, tinha o padre Calazans, lembra do padre Calazans? Ele era uma grande orador, então todo domingo eu ia, são coisas que eu lembro, agora o resto...

 

P/1- E a senhora vendo São Paulo hoje e o de antigamente qual a senhora prefere?

 

R – Olivia eu sou muito, como eu posso te explicar? Eu acompanho muito sem fazer comentários, aquela época era uma época, essa época é outra, né? Então dá bem para eu acompanhar, eu não sou de ficar lá naquela época, não, de jeito nenhum. Tudo bem a evolução, eu acho São Paulo uma coisa fora do comum, uma grandiosidade, maravilhosa cidade, todo mundo reclama, tem gente demais tem, mas fazer o quê?

 

P/1- E como é a sua relação hoje com seus filhos, a sua família, suas noras e seu netos e a senhora também disse que tem bisnetos?

 

R – Muito, convivo muito bem, eu sou assim uma vó que faço tudo para presentear (risos) As noras também, fecha boca, presente e assim a gente vive.

 

P/1 - E quantos netos a senhora tem?

 

R – Olha eu tenho quatro bisnetos e eu preciso contar. Acho que doze netos.

 

P/1- E essa coisa da sua geração se relacionando com seus netos e bisnetos é tranquila?

 

R – Tranquila, tudo o que eles acham eles fazem e eu acho que eles estão certos. Não fizeram nada errado por enquanto, eu tenho uma neta que falou “não vou casar, vó.”

Porque ela tem uma pensão muito boa do meu filho, você acha que eu vou falar para ela “não faça isso” (risos) É muito difícil emprego, então deixa pra lá, fazer o que, agora ser radical, ficar falando que precisa fazer isso, nada disso, minha neta quis desquitar, “não aguento isso e aquilo, você paga pra mim?”. Pago fazer o quê, você tem que ajudar, né, Olivia, vai entrar em conflito? Não, converso todos os assuntos, até passa às vezes. (risos) Eu sou liberal então eu faço, nessa às vezes pode ser que eu não esteja satisfeita, mas vamos conversar, se eu não conversar eu fico pra trás, não é verdade? Hoje realidade não é essa? Muita coisa eu não falo, não apoio, fico calada se me perguntar “gostou?”, gosto, como não?

 

P/1 - E hoje, como é a vida da senhora, o que a senhora faz?

 

R – Olivia, minha vida, eu tenho um grupo, eu já tive dois grupos, todos ótimos, que me levam para teatro, jantares, municipal, tudo que era teatro bom. Eu vou esse grupo, nós somos assim até vinte pessoas e são muito boas e tudo vamos no museu. Quando eu estava lá no Itaú a gente fez muito passeio bom. Agora eu faço com essa moças, elas vêm, buscam em casa e vem trazer em casa, você esta entendendo? Minha atividade é isso, no passado eu não fiz nada, Olivia, eu não estava bem comigo mesma, então deixei de fazer muita coisa, fiquei um ano inteiro sem fazer nada, nem minha atividades físicas eu fiz, não tinha vontade, mas agora não, 2000 está aí, gente, não pensava, 2000 eu estou aqui (risos).

 

P/1 - A senhora falou pouquinho de atividade física, a senhora faz algum esporte,  alguma coisa?

 

R – Eu faço agora, só ioga e caminho.

 

P/1- A senhora se dedica a algum tipo de trabalho beneficente alguma coisa assim?

 

R – Eu faço só essas aí que é Santa Rita e lá nosso da igreja da Santa Rita é mais completo porque você trabalha, você ajuda, você faz roupinha, faz tricô, faz tudo lá para Santa Rita e depois a gente distribui para pessoas carentes. Agora lá na Santa Terezinha não, é só rezar mesmo e fazer caridade, mas é muito interessante nosso trabalho.

 

P/1- É um grupo de senhoras que se reúnem?

 

R – Grupo lá de Higienópolis, de Santa Terezinha, nós temos dois tipos de grupo, uma da Nossa Senhora Peregrina, que você conhece, você conhece aquele grupo?

 

P/1- Não, senhora.

 

R- Então, Nossa Senhora Peregrina é assim: tem as zeladoras e tem a coordenadora, então a santinha vai assim, nós somos em cada turma trinta pessoas, é um mês, então ela vai na casa da gente, pra mim lá em casa elas vão dia 10 e passa pelo meu prédio, eu arranjei cinco, então ela vai na minha casa, vai na mulher do zelador, vai em outras três senhoras, só isso, agora nosso grupo de oração é diferente.

 

P/1 - Me diz uma coisa, a senhora tem algum tipo de preocupação atualmente com sua vida ou com sua família ou até mesmo com a situação do mundo?

 

R – Não tenho porque se você for ter preocupação com mundo você vai morrer antes disso, eu estou querendo mais viver porque lá, eu, não, como é que é no céu? Eu prefiro aqui. (risos) Você sabe, ninguém veio aqui para contar eu prefiro aqui, faço tudo para poder dar tudo certo.

 

P/1- Qual seu maior desejo, seu maior sonho, coisa ainda que a senhora gostaria de realizar?

 

R – Olha, eu quero muito que Deus proteja, ajude mesmo os meus filhos, muita saúde, muita paz, saúde e paz para mim e para eles porque eu já passei de 2000, né, Olivia. Agora se fosse uma menina o meu bisneto, quem sabe eu não seria tataravó, hein Olivia, não seria uma boa? E minha amiga ontem falou: “isso é de menos, a minha irmã está com treze anos, o fulano de tal não casou, casou não, ele quinze e ela com catorze, ela teve neném.” Eu falei: “eu não quero isso, eu quero coisa direitinha.” (risos) Não é, Olivia, eu não tenho nada assim, quero muito paz e muito amor no coração de todo mundo, os amigos, muita saúde, muita paz para todo mundo, acho que é a única coisa não tenho grandes ambições.

 

P/1- No caso da nossa entrevista, a senhora lembraria de uma coisa que a gente não perguntou, que a senhora não tocou no assunto e gostaria de falar a respeito?

 

R – Não, Olivia, só falei pra você, foi que achava tão gostosa aquelas nossas reuniões do Itaú e que acabou, aquilo eu achava lindinho.

 

P/1- A oficina de memória do Itaú?

 

R – É, muito bom aquele curso lá da terceira idade, história da arte, eu já fui ver aqueles módulos. Mackenzie eu não gostei, fui em outra faculdade também não gostei, então resolvi ficar fazendo as minhas coisinhas mesmo.

 

P/1- Dona Lucinda, o que a senhora achou desse convite, da sua vinda hoje aqui para falar um pouco da sua vida?

 

R – Olha, eu estava esperando, eu não sabia o que ia fazer aqui. Você não falou qualquer coisa por telefone, tanto que eu falei para minha filha: “vou lá, mas eu não sei o que a Olivia quer comigo” (risos) Mas agora posso chegar lá e contar tudo direitinho foi um trabalho até bom, bonito.

 

P/1- Então se a senhora quiser convidar sua irmã para estar dando o depoimento dela aqui a gente vai ter um imenso prazer.

 

R – Coitada ela não tem nada para contar, só luta.

 

P/1- Nossa, isso é muito importante.

 

R- É.

 

P/1- É uma mulher lutadora, né?

 

R – Nunca trabalhou, nunca trabalhou fora como eu trabalhei, porque a gente trabalhar fora é muito difícil né, Olivia? É muito bom, tem vantagem, mas também tem muita coisa, eu comecei muito cedo, jovem, você, para ter uma ideia como era difícil para uma mulher sozinha, mas eu não tive esse problema não.

 

P/1- Como a senhora descreveria sua vida de hoje.


R – A minha vida hoje (risos) como é que eu posso falar da minha vida de hoje, minha vida é tranquila moro bem, num bairro maravilhoso, tenho muitos amigos também de fora, do interior, daqui. Esta dando para eu viver, é só aposentadoria, só que eu sou muito gastadeira, sou mesmo, a minha filha fala “mãe para de gastar”. Mas eu compro tudo para eles, não é para mim não, viu Olivia? Não aguento, olha, essa semana eu tive o aniversario dia 24, foi ontem, meu neto de Brasília, dia 23 foi minha neta daqui, eu mandei coisa para Brasília, mandei para meu filho e minha nora, vai por sedex, ontem 23 eu mandei para o meu neto de Brasília. Ontem eu falei ele vai ficar tão triste porque  ele fez dezessete anos ontem, um dinheirinho vale a pena para ele, um rapaz dessa idade está querendo é dinheiro, fui no banco e mandei dinheirinho para ele, quer melhor coisa que isso? Aposentadoria é isso, eu vou me privar, ficar me segurando, depois vou morrer, quem vai ficar com... eles, né? Quanto eu posso é aqui mesmo, você acha que eu estou errada? Guardar pra quê? Não vou levar, você não, que eu tenho que dar alegria para eles, eu tenho uma bisnetinha que está com um ano e oito meses e ela aprendeu a falar meu nome, então eu levo as coisas para ela, então ela fala a bisa Lucinda que mandou, olha se pode, já esta começando a formar frases isso não é lindinho?

 

P/1- Maravilhoso.

 

R- Então é isso aí a vida, vida boa, se eu quero sair, eu saio, se eu não quero, não saio todo mundo respeita, se vou viajar. Eu ia viajar hoje, Olivia, eu ia para Riberão, almoço que tem lá da minha prima que era de Olinda que eu te falei que ficava na casa dela estudando, mas não pude por causa da minha irmã, eu ia de táxi porque a coluna não permite ficar viajando de ônibus e na rodoviária Tietê eu estou proibida de ir lá, meus filhos não querem que eu vá, está até bom está pajeando. (risos) Eu não sei se falei para você tudo, mas é o que eu tenho para falar, minha história é muito simples.

 

P/1- Foi muito gratificante recebê-la aqui, nós só temos a agradecer.

 

R- Porque muita coisa da sua vida não se pode contar, porque se separou, isso não, muito marcante.

 

P/1 – Então, muito obrigada.

 

R – De nada Olivia, qualquer coisa... Está desligado?

 

P/1- Agora vai desligar. (risos)

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