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História

O engenheiro aposentado dos muitos ofícios

História de: José Mauro Sebusiane
Autor: Valdir Portasio
Publicado em: 13/06/2021

Sinopse

Infância em Jacutinga, de família imigrante italiana. Formou-se em Engenharia em Belo Horizonte, onde foi pioneiro na fundação e ampliação da Empresa Alcoa. Mudou-se para Poços de Caldas para dar início ao seu trabalho na Empresa. Grandes desafios na carreira nas áreas de gerência e engenharia. Espírito empreendedor e comunitário. Conquistas pessoais e profissionais. Aposentado

História completa

Projeto - Trajetória Alcoa Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de José Mauro Sebusiane Entrevistado por Lenir Justo e Maurício Poços de Caldas, 08 de maio de 2008 Código:ALCOA_HV014 Transcrito por Rosângela Maria Nunes Henriques Revisado por Giulia Araujo (P/1 – Lenir e P/2 Maurício) P/1 – Bom dia, senhor Mauro. R – Bom dia. P/1 – Vamos começar com o senhor nos falando o seu nome completo, o local e a data de nascimento? R – Eu sou José Mauro Sebusiane, eu nasci no dia 28 de fevereiro de 1944, na cidade Sul Mineira de Jacutinga. P/1 – E qual a sua função atualmente? O senhor está aposentado não é isso? R – Eu me aposentei da Alcoa há dois anos e meio atrás após 37 anos de serviço ininterrupto. P/1 – Certo. E qual é o nome dos seus pais? R – Meu pai é Gino Mauro Sebusiane, ainda está vivo, hoje com 89 anos, minha mãe é falecida, Helena Maria Pierone Sebusiane. P/1 – E qual é ou era a atividade profissional dos seus pais? R – Meu pai foi bancário e inspetor de ensino de faculdades e minha mãe, professora. P/1 – E a origem da sua família, qual é? R – Bom, minha família tem origem na Itália, norte da Itália onde meu avô imigrou, ele fez parte daqueles grupos de imigrantes na década de 1910. Ele veio para o Brasil, acabou se casando aqui no Brasil com uma italiana e fixou residência em Jacutinga e foi onde que ele fez a vida dele, lá em Jacutinga. P/1 – Ele veio em 1910, o senhor sabe como ele veio? R – Consta que com a Primeira Guerra ele fez parte dos vários imigrantes que chegaram ao Brasil, né? E vieram para Jacutinga porque é aquele esquema de um contar para o outro e acaba influenciando os demais. Jacutinga teve um período em que 85% da cidade eram italianos ou descendentes italianos, né? Então foi onde ele fixou residência lá. P/1 – O senhor tem irmãos? R – Eu tenho três irmãos. Dois irmãos e uma irmã, eu sou o mais velho da família. P/1 – E na sua infância o senhor morava em Jacutinga? Como era a casa que o senhor morava? Como era o cotidiano? O senhor lembra dessa fase? R – Lembro. Jacutinga é uma cidade pequena, hoje é uma cidade conhecida pelas atividades de malharias, mas naquela época era de atividade praticamente agropecuária. E é uma cidade muito pequena onde todo mundo conhecia todo mundo, as crianças brincavam na rua, o brinquedo era carrinho de morro, era brincar de caubói, escondendo no meio do mato com as demais crianças. Fiz o primário lá em Jacutinga, então era uma cidade onde todos se conheciam e as crianças igualmente ficavam todas amigas, né? P/1 – Sobre as brincadeiras preferidas além de carrinho, tinha mais alguma? R – As brincadeiras preferidas na época era o carrinho de morro, era brincar de caubói, era pescar porque tinha um ribeirão que cruzava a cidade e a gente ia pescar muito, jogar a versão brasileira do baseball, que na época eles chamavam de bete, acho que é por causa do taco, né? Bete e jogar bola, jogar futebol, jogar basquete. P/1 – E tem alguma lembrança marcante desse período? R – A lembrança, eu acho que era uma infância que a gente curtia muito o dia a dia e os brinquedos improvisados, a amizade que a gente tinha com as demais crianças, marcou muito essa fase da vida lá nessa cidade, especificamente, assim, eu não me recordo, mas eu acho que é isso aí. P/1 – Os estudos o senhor já falou que fez o primário, né? O senhor lembra da escola que o senhor fez? R – Ah sim, eu fiz o primário, na época chamava Grupo Escolar Júlio Brandão, hoje Colégio Estadual Júlio Brandão. Era um grupo escolar do Estado e na sequência eu fiz o ginásio num outro estabelecimento de ensino que o nome era Ginásio Santo Antônio e... P/1 – Lá mesmo em Jacutinga? R – Lá mesmo em Jacutinga, onde meu pai e minhas tias eram também professores desse ginásio, minha família tanto as tias como meu pai, a maior parte deles eles se dedicaram ao ensino. Então eu fiz o ginásio lá, na época era o curso ginasial, e depois vinha o curso científico também. Mas Jacutinga só tinha até o ginasial, eu tive que sair depois da cidade para fazer o científico numa cidade vizinha que é Itapira. P/1 – E aí o senhor foi fazer faculdade, né? R – Daí eu fui... Saindo de Jacutinga eu fiz o científico em Itapira e fiz o preparatório para o vestibular em Itajubá, aliás, eu terminei científico em Pouso Alegre, no Colégio São José de Pouso Alegre. Eu iniciei em Itapira e terminei no Colégio São José em Pouso Alegre. Terminando o científico eu fiz o preparatório que era o cursinho que eles chamavam, o preparatório para o vestibular em Itajubá. E também talvez até por influência de colegas, vários jacutinguenses estudavam em Belo Horizonte e eu fui prestar vestibular em Belo Horizonte. E prestei vestibular na Escola Federal de Engenharia, Universidade Federal de Minas Gerais no curso de Engenharia Elétrica, eu sou engenheiro eletricista. P/1 – E o que influenciou o senhor para fazer Engenharia? R – Eu sempre gostei de mexer, eu ajudava meu pai fazer instalação elétrica, eu gostava de montar rádio, naquele tempo tinha o Instituto Universal, se não me lembro, eles vendiam aqueles cursos de rádio e televisão, então eu gostava da parte elétrica. Foi talvez essa aí a influência de eu ter escolhido Engenharia Elétrica. E eu sou por natureza... Meu avô vindo da Itália lá em Jacutinga ele era apelidado de “o homem dos sete ofícios”, porque ele sabia serviço de pedreiro, sabia marcenaria, sabia carpintaria, ele fazia um pouco de tudo e nós herdamos um pouco disso. Eu, até hoje, eu tenho a minha oficina na minha terra onde eu gosto de trabalhar em... Fazer trabalhos manuais, então eu acho talvez que influenciou um pouco para eu sair para o lado técnico. P/1 – E como era assim um pouquinho do tempo da sua juventude? Bailes? O que vocês faziam para se divertir? R – Como todo estudante meu pai ajudou no custeio dos meus estudos, mas o dinheiro não era solto e fácil, então a gente procurava os lugares, via de regra, mais baratos, para se divertir indo a Diretórios Acadêmicos, horas dançantes, frequentando alguns clubes, mas a gente tinha... Aproveitava os convênios que a faculdade tinha com os clubes pra gente entrar de graça, mas era uma vida de república, uma vida estudantil como até hoje muitos tem, quer dizer alugava-se um apartamento, montava-se uma república e morávamos juntos e via de regra, no meu caso em específico, foram conterrâneos, né? Os conterrâneos que já estavam em Belo Horizonte e a gente acabou morando juntos e a vida era assim, era barzinho, hora dançante, bailes dos Diretórios Acadêmicos, a gente ficava caçando os bailes ou bailecos em cada faculdade, isso aí a gente tinha na agenda bem registradinho e era onde a gente se divertia na época sem gastar tanto. Foi assim que a gente passou... Passei os anos de faculdade. P/1 – E quando terminou a faculdade em seguida o senhor começou a trabalhar? Como é que foi? R – Quando terminou a faculdade foi interessante, porque em novembro de 1968 compareceu lá na faculdade, lá na Escola de Engenharia da UFMG, o futuro gerente de construção dessa fábrica Thomas (Chefeld?). O Tom foi o precursor dessa fábrica e o construtor das várias fábricas da Alcoa no Brasil, acompanhado do Tom, o Dom Willians que veio a ser o então futuro gerente de mineração daqui dessa fábrica de Poços, acompanhado de um gerente de recursos humanos e foram mostrar Poços de Caldas, as belezas de Poços de Caldas, aliás, eu acho Poços de Caldas... Poços de Caldas é a minha terra natal eu posso falar que é a minha segunda terra natal. Foram mostrar Poços de Caldas para atrair os jovens para virem para cá trabalhar numa companhia que iria se chamar Alcominas e eu me empolguei, me empolguei por quê? Nós íamos ser os primeiros engenheiros da Alcominas, a gente via aquilo como uma ótima oportunidade profissional. Era a primeira grande fábrica... Uma das primeiras grandes fábricas aqui no sul de Minas, a Alcominas mostrou que ia ter um programa de crescimento profissional, programa de treinamento de... Desde o primeiro momento eu senti que a Alcoa ia investir em pessoas, então eu me empolguei pela oportunidade e a partir dessa entrevista lá, onde eles mostraram não só as belezas de Poços de Caldas, mas as perspectivas da companhia aqui em Poços de Caldas. Eu passei a me interessar por concorrer seriamente, apesar de que na época o mercado para engenheiro eletricista estava muito bom, estava aquecido, vamos dizer assim, eu tinha outras três ou quatro oportunidades que eu acabei sendo aceito e declinando em hidrelétricas, departamentos de água de São Paulo, mas eu vi a Alcoa como aquela companhia que eu sonhava trabalhar. Foi onde que eu me interessei e felizmente fui selecionado entre os sete engenheiros, sete primeiros engenheiros admitidos fora os que já estavam aqui, já decorrendo da mineração do tipo do Doutor Ricardo Junqueira, que esteve aqui também hoje dando entrevista, o Luís Moreti, mas nós fomos os sete primeiros engenheiros contratados para ser os futuros engenheiros de construção da Alcoa. Isso foi em 01 de janeiro de 69, a data da minha admissão. P/1 – Quantos anos o senhor tinha nessa época? R – Na época eu tinha 24 anos. Então foi um negócio muito interessante porque meu pai deixou lá as aulas dele que ele tinha que dar em Jacutinga e veio me trazer de fusca em Poços de Caldas para iniciar como funcionário da Alcoa, no dia 01 de janeiro, dia do feriado, né? E a gente sabia que a luta ia ser grande, porque o desafio ia ser bastante grande, porque tinha uma fábrica para construir e a gente era inexperiente. Sabíamos que ia ter muito suporte dos americanos na época, que estavam aqui, mas tinha barreira de língua, tinha desconhecimento do que era uma fábrica de alumínio, então foi uma surpresa total, aliás, muito agradável. P/1 – Quando o senhor chegou no primeiro dia, o senhor lembra? Como foi o seu primeiro dia? Qual a impressão que o senhor teve? R – Lembro do primeiro dia, porque nesse dia, na Rua Prefeito Chagas aqui de Poços de Caldas, a Alcoa tinha um pequeno escritório, basicamente de recursos humanos, admissão do pessoal e recursos humanos. Então, lá nos esperou o futuro gerente de recursos humanos, aliás, tinha acho que outra pessoa também, a Marília, que também deve fazer parte desse grupo de entrevistados e que estavam aguardando os novatos, os engenheiros novatos. E de lá nós fomos para uma casa e essa casa até hoje existe na Rua Mario Mourão. Seria o futuro escritório técnico da companhia. E nós fomos convidados até por uma questão de aprender a fazer economia desde o primeiro dia para a companhia. Nós moramos nos quartos dessa casa, ou seja, ali na acepção da palavra a gente trabalhava de pijama, porque o nosso primeiro trabalho foi traduzir os desenhos, o projeto dessa primeira fase foi feito fora do Brasil, o projeto de Engenharia. E então os engenheiros, o Tom (Chefeld?) sugeriu que para vocês aprenderem o que vocês fazem, vocês vão ler e interpretar os desenhos e aproveitem e traduzam os desenhos, né? E a gente fez nessa casa da Rua Mário Mourão, os sete engenheiros, desculpe seis, um casou-se logo em seguida. Nós morávamos lá e trabalhávamos na sala da casa, era o escritório de engenharia. P/1 – E vocês sabiam inglês? R – Sabia aquele inglês, vamos dizer, básico das escolas de engenharia, porque ainda... Principalmente no meu curso alguns livros, principalmente os hand books eram em inglês e a gente aprendeu o inglês técnico básico. Mas o grande desafio do inglês aqui foi conversar com os gringos, meu chefe era americano, o chefe da Engenharia Mecânica era americano, o Tom (Chefeld?), gerente da fábrica, futuro gerente da fábrica da.. desculpe da construção falava algum português, mas era um português bastante carregado de inglês. E o grande desafio foi conversar com os americanos para aprender o inglês, o inglês que depois acabou sendo utilizado muito, né? Decorrente desse projeto ter sido feito fora, muita coisa importada que teve na época, porque foi concorrência do Banco Mundial e o banco tinha uma vantagem competitiva em relação aos fornecedores brasileiros, porque tinha um incentivo de percentual, não me recordo para fornecer para a fábrica pelo fato do financiamento ser do Banco Mundial. Então a gente teve que aprender inglês para ler catálogo, para receber equipamento, para ir visitar fornecedor e muita coisa era em inglês na época e isso aí foi o meu maior desafio, não foi no banco de escola que eu aprendi inglês, não. P/1 – Na prática. R – Foi na prática. P/1 – Então eu gostaria que o senhor contasse pra gente sobre a primeira fase aí da construção? Como foi acontecendo? R – Então, nós começamos como eu falei atuando nessa casa onde era o escritório de Engenharia da Alcoa e em 01 de maio de 1969, e por sinal foi a primeira geada que eu vi aqui Poços de Caldas, nós mudamos para cá, para o escritório central, onde é hoje o escritório central ainda. Os escritórios começaram a ficar prontos e a fábrica estava numa fase de bater estaca, bater as estacas para a área de precipitação e a gente veio para cá ainda no meio do lamaçal, resto da chuva, né? Viemos para cá para começar a atuar como supervisor de construção e como nós éramos sete, as áreas foram subdivididas. A mim coube a supervisão da área da fábrica de pasta que na época era o prédio 254, acho que mantém até hoje e também da área dos reatores e da subestação principal da futura subestação que seria a subestação principal aqui dessa fábrica. Outros pegaram outras áreas, ou seja, as áreas foram subdivididas e nossa principal tarefa era o quê? Monitorar apesar do empreiteiro ter o seu gerente, mas a gente fazia uma ação de monitorar, gerenciar o que os empreiteiros estavam construindo. Um fato interessante é que o Tom (Chefeld?), ele com todo esse frio de maio, ele marcava a reunião diária às sete horas da manhã no escritório, então tinha que vir de luva, etc. porque realmente eu acho que fazia muito mais frio do que faz hoje, aqui em Poços. E o Tom tinha um costume de monitorar o que estava conhecendo de bicicleta ao entardecer e ele anotava tudo que ele viu de certo e de errado, e às sete horas da manhã no outro dia ele cobrava dos engenheiros. Então, eu citei esse fato porque ele foi um dos meus maiores professores da minha carreira profissional, o nível de exigência do Tom, o nível de comprometimento dele, ele conseguiu transferir tudo isso pra gente. E nós passamos a atuar dessa forma. Então a preocupação dele, na formação das pessoas e nós assumimos aquilo lá muito bem e depois viemos a implementar vários programas de treinamentos e formação de mão de obra aqui em Poços, porque Poços era uma cidade essencialmente turística, né? Com exceção da Danone, a Nuclebrás(Empresas Nucleares Brasileiras S/A), a Alcoa foi uma das primeiras empresas de porte a se estabelecer aqui e a cidade não estava preparada ainda para fornecer a mão de obra no volume que o projeto demandava, então foi um aprendizado fantástico, né? Porque muita gente aprendeu fazendo e muito dos bons exemplos americanos e tivemos também alguns maus exemplos, mas dos bons exemplos nós soubemos separar aí o joio do trigo e foi um aprendizado fantástico para os engenheiros novatos que vieram aqui para Poços de Caldas, né? P/1 – Tem alguns fatos assim interessantes que ocorreram durante a construção que o senhor queira nos contar? O senhor estava comentando sobre o vapor... R – Eu vou contar um... Esse do vapor é interessante uma foto que eu tenho ela pode falar por mil palavras, mas eu vou tentar resumir. Quando a fábrica estava prestes a operar a refinaria e a redução nós precisávamos de vapor e as caldeiras não estavam ainda prontas. Esse vapor foi para aquecer um equipamento dessa fábrica de pasta que eu citei a pouco que é um misturador de pasta e essa mistura ela só ocorre se a pasta tiver numa determinada temperatura e o aquecimento é a vapor e o que nós vamos fazer se não tem vapor? E as caldeiras não estão prontas, além disso, a instrumentação era pneumática ou para medir vapor também e então precisava vapor na refinaria tivemos a idéia de usar uma Maria Fumaça, uma locomotiva da Fepasa, acho que é Fepasa mesmo, a Ferrovia do Estado de São Paulo. Alugamos uma Maria Fumaça, estacionamos a Maria Fumaça aí perto da fábrica de pasta conectou-se a Maria Fumaça na tubulação de vapor e a Maria Fumaça foi a caldeira de produzir vapor por alguns meses. O combustível para essa caldeira foram as madeiras usadas na construção, todas as madeiras que saíram da construção civil, das formas de concreto, então em vez de jogar fora vamos queimar sendo combustível para a caldeira. E é interessante que eu tenho uma foto que o foguista, foguista é a pessoa que fica jogando a lenha na caldeira, na locomotiva, o foguista é uma pessoa que até hoje presta consultoria e apoio para a fábrica de Poços de Caldas. Essa foto eu tenho, eu guardo com muito carinho, porque é uma foto pitoresca, assim uma foto interessante que mostra como que a gente tinha que fazer improvisações na época, hoje a cadeia de suprimento é mundial, a economia é globalizada, você fornece quase que... Hoje os fornecedores fornecem quase que entregas diárias e na época não. Essa fábrica pecou por excesso e teve que fazer isso na compra de... Não de equipamentos, mas de materiais diversos dessa fábrica. Por quê? Como eu falei, muita coisa na época era importada e você não importa um equipamento ou material do dia para a noite, então se comprou algumas coisas em excesso por... Jogando com uma margem de segurança a fábrica tem que sair nós... Não podia faltar material, então se comprou um pouco em excesso que foi uma estratégia eu creio que adotada conscientemente, né? Mas tinha que improvisar muita coisa também, porque o que não tinha você tinha que sair para o mercado brasileiro e o mercado não respondia com a agilidade que hoje você tem, então foram dificuldades inúmeras para construir essa fábrica no prazo, mas saiu no prazo. P/1 – E como foi quando começaram assim a funcionar, porque essa história que o senhor acabou de contar ainda foi antes de começar, né? R – Foi um pouquinho antes do que eles chamam de star tape, da partida das operações. P/1 – Então quando começou o senhor estava aqui nessa primeira partida. O senhor pode contar um pouquinho como foi essa primeira partida? R – Ah sim, era um sufoco, porque comissionar equipamentos que a gente nunca teve experiência, eu nunca me esqueço que o meu primeiro Natal aqui em Poços de Caldas, minha esposa comenta isso até hoje. Foi em cima de uma ponte rolante aqui na sala de cubas que eu fui embora tipo três horas da manhã do dia 25, minha esposa tinha feito um jantarzinho pra gente lá, era casado de novo e tal. Então era isso, os problemas apareciam e às vezes a gente não tinha experiência para resolver, mas a gente tinha que associar a falta de experiência à vontade de fazer e quantas noites a gente teve que passar na fábrica para esse star tape, para essa partida das operações, né? Quantas horas extras que na realidade a gente fez para dar o equipamento em operação na época e no dia combinado. Um ponto também que eu acho que nós temos que reconhecer sempre é que nós recebemos... Admitimos vários encarregados que vieram com experiência de outras plantas, de Usiminas, da região de Belo Horizonte, essas pessoas foram de uma valia enorme, porque a experiência deles ajudou muito na hora desse comissionamento, desse star tape da fábrica, né? Mas eram problemas em cima de problemas que a gente atacava quase que no dia a dia. E à medida que eles iam aparecendo e se não sabíamos, íamos lá consultar, pedir opinião para os americanos que estavam aqui e às vezes até para os Estados Unidos também, visto que o projeto foi feito lá. Mas isso tudo era feito com muita dificuldade, um interurbano daqui para São Paulo demorava quatro horas para sair, você tinha que pedir para telefonista e a telefonista anotar, acho que você entrava numa fila lá para sair o interurbano para o escritório de São Paulo. Pusemos um rádio aqui nesse prédio que nós estamos fazendo a entrevista, o rádio era freqüência compartilhada com o hospital de São Paulo, quando o hospital entrava, ele tinha prioridade, até porque o nosso sinal era mais fraco e não se falava mais, né? Correspondência era via malote que tinha um carro que saía daqui de Poços e encontrava no meio do caminho lá perto de Jaguariúna com o que vinha de São Paulo e você trocava as correspondências. Como você não tinha essas facilidades que nós temos hoje, então tudo era mais demorado para se conseguir as coisas, então eu acho que esses foram os maiores desafios na construção. P/1 – E aí a fábrica começou a funcionar e o senhor continuou... R – A fábrica começou a funcionar e eu assim que os trabalhos de construção terminaram a gente foi transferido ou incorporado dentro dos quadros de operação como meu background era manutenção e engenharia, eu passei a liderar a manutenção elétrica que na realidade é manutenção junto com a engenharia, mas chamava-se manutenção elétrica. E a primeira tarefa foi organizar a oficina elétrica, esta fábrica foi feita com um custo de capital muito reduzido, foi feito em escala piloto em que a Alcoa não sabia se ia, assim depois da revolução com a situação sócio-econômica do Brasil, se ela ia ser apenas uma fábrica pequena ou se ela ia se fixar aqui mesmo. Então a fábrica não tinha nem oficinas, tinha uma oficina mecânica, mas não tinha oficina elétrica e nem de instrumentação, a minha primeira tarefa foi montar uma oficina elétrica que foi num cercado no primeiro andar desse prédio aqui e a gente detectou logo que como... Já supervisionando um departamento de manutenção elétrica que a mão de obra que eu citei a pouco ia ser o grande desafio. E a gente começou a investir em formação de mão de obra, cursos técnicos, criamos aqui o PPN ou M que é um programa de formação de mão de obra para manutenção. Os engenheiros daqui muito dedicados começaram a... Continuando sobre a mão de obra e os cursos a grande preocupação nossa passou a ser como formar a mão de obra técnica especializada, né? Mecânicos, eletricistas, instrumentistas, então nós começamos a investir num programa de treinamento interno Programa de Preparação de Mão de Obra para Manutenção e, além disso, um fato bastante interessante é que os engenheiros também, os novatos porque na época a gente estava com um ano de experiência. Vários da equipe se prontificaram a lecionar a noite numa escola técnica aqui de Poços de Caldas, Colégio Dom Bosco e que foi também de grande ajuda para a companhia, porque dos cursos técnicos de lá da Escola Dom Bosco acabaram saindo os excelentes técnicos que atuaram aqui na companhia, né? Alguns deles depois acabaram fazendo engenharia, se tornaram engenheiro e estão aqui atuando como contratado até hoje aqui em Poços de Caldas. Então foi uma fase que tivemos que investir muito na mão de obra para que essa fábrica fosse realmente uma experiência de sucesso como é hoje. P/1 – E aí depois dessa fase que o senhor ficou responsável pela manutenção e essa parte como continuou a sua trajetória? R – Aí gradualmente eu fui incorporando atividades, no início eu comecei como supervisor de manutenção elétrica, posteriormente eu acabei incorporando a instrumentação, então... E também atuando mais diretamente na parte de engenharia propriamente dita, então acabei passando a ter o cargo de supervisor de engenharia elétrica. E nesse cargo, eu acabei ficando por alguns anos, ou seja, a década de 70 foi a consolidação dos processos de gerenciamento de manutenção, implantação dos programas de manutenção preventiva, implantação dos vários processos de manutenção. Até que dentro do meu progresso profissional foi decidido que eu ia ter uma... Eu ia ser preparado para um cargo maior dentro da companhia, isso ocorreu em 79, foi quando eu passei por uma experiência fora daqui do Brasil, eu fui designado para um treinamento lá no escritório central em Petersburgo que era a sede da Alcoa na época, hoje é Nova York. Então em Petersburgo eu fiquei um ano lá onde eu tive oportunidade de fazer vários cursos na área de gerenciamento e participando como responsável de uma área de um projeto de uma fábrica da Austrália Point Hare e lá eu fiquei um ano tendo essa experiência. Ao retornar o então gerente de engenharia que era um expatriado ele já estava se preparando para retornar, para ser repatriado e retornar para os Estados Unidos. E onde eu voltei e continuei a ser preparado para ser o futuro gerente de engenharia dessa fábrica de Poços de Caldas. Um fato eu falei agora a pouco em década de 70, eu acho que eu gostaria de fazer uma menção na parte pessoal e familiar da década de 70 eu... Porque foi em 73, 74 que com muito sacrifício eu fiz minha primeira casa aqui em Poços de Caldas, fiz minha primeira casa que foi aqui em Poços de Caldas, minhas três filhas nasceram aqui nessa década, né? Duas nasceram nessa década e uma na década de 80, mas foi onde minhas filhas... Elas são poços caldenses e então essa década foi interessante foi aonde eu consolidei, vamos dizer assim, uma posição de gerenciamento na companhia foi aonde eu construí minha casa e nós tivemos as duas filhas, então foi uma época que... Uma década que marcou muito na vida profissional e na vida pessoal também, muito bem, voltando então ao gerenciamento de engenharia. Ao retornar de Petersburgo eu passei a gerenciar a engenharia como um todo e para mim foi outro grande desafio, porque meu background, minha formação é elétrica e eu acabei assumindo a engenharia como um todo e nessa incorporação, vamos dizer assim, tinha a engenharia mecânica e a engenharia civil também. Então foi outro grande desafio que significou muito aprendizado, porque da parte mecânica eu não era lá tão especialista, aliás, quase nada, né? Então foi onde eu incorporei as outras disciplinas de engenharia ao ser promovido como gerente de engenharia da fábrica de Poços de Caldas. P/1 – Durante essa parte da gerência que o senhor assumiu tiveram assim alguns casos interessantes que o senhor queira contar? Algum desafio maior? Alguma coisa? R - Eu vou citar outra vez... É do lado profissional também um pouco sobre os desafios, porque essa fábrica depois que ela estabilizou as operações... E como ela competia com outras a nível mundial, a nível global, porque embora fosse uma fábrica de tecnologia já mais antiga, quando eu falo tecnologia, eu falo tecnologia da redução. Ela sempre foi uma fábrica considerada uma das fábricas mais bem operadas do sistema, a gente comparava também com a tecnologia de anodo pré-cozido, mas a tecnologia sobre berg tinha várias fábricas que a gente competia, vamos dizer assim, e concorria no bom sentido com essas fábricas em termos de performance, o México, a Noruega etc. e tal. Então o grande desafio dessa época quando eu passei a ser gerente de engenharia... A gente abriu a nossa visão para ver o que estava sendo feito lá fora e o que a gente poderia aproveitar para trazer para essa fábrica. E aí tem um fato também interessante que muitas dessas tecnologias nós acabamos assimilando e depois levando para fora, porque o brasileiro é incrível. Nós temos uma capacidade muito grande de assimilar essas tecnologias e implantar, quer dizer não é só assimilar na cabeça não, é tornar prática a tecnologia e muitas dessas tecnologias na área tanto de engenharia quanto processo nós acabamos assimilando e até ensinando os de fora como implantar. E acabamos sendo às vezes o carro chefe da implantação, né? Então um exemplo a aplicação da manutenção produtiva total a TPM que roda no mercado esse nome, estava nos maiores compêndios do mundo, estava... A Alcoa tinha gasto lá fora também já muito dinheiro para implantar, nós aprendemos sobre TPM, implantamos aqui e viramos o que a gente chama aqui no inglês o benchmarketing, é o referencial para as outras fábricas lá fora que no fim acabaram vindo aqui ver como nós fizemos. Então é um fato interessante que essa capacidade do brasileiro, isso não é privilégio de Poços ou de Alumar ou de Tapiçuma, todas as fábricas que eu andei e que eu tive oportunidade de participar acabou acontecendo isso, né? Então é um fato muito interessante, quer dizer, o Brasil acabou sendo o referencial na implantação de tecnologias que lá fora tinham já iniciado e nós acabamos implantando primeiro aqui. P/1 – O senhor pode falar um pouquinho o que é o TPM pra gente? R – O TPM em inglês é total productive maintenance ou manutenção produtiva total é uma técnica que a Alcoa se valeu muito para melhorar o padrão da manutenção. O desempenho da manutenção, para melhorar o envolvimento dos mecânicos, dos eletricistas em tratar o equipamento de uma forma que não é só ir lá e fazer a manutenção e virar as costas e deixar que a operação agora que opera. É trabalhar junto com a operação, entendendo que um minuto do equipamento parado para a operação é de um valor, pode ser de valores extremos. Então é trabalhar de forma coordenada a cooperação, é a operação de como participar da manutenção fazendo aquelas manutenções triviais, por exemplo, a leitura de um termômetro não precisa ter... O mecânico ir lá para ver que o termômetro está quebrado, a operação se ele passar lá e fizer uma vistoria periódica lá e averiguar que algo está errado ele chama o mecânico e não deixa quebrar já chama para reparar ou substituir. Então é um comprometimento que eu diria integrado da operação e da manutenção na melhoria do que a gente chama do tempo útil do equipamento, quer dizer o up time do equipamento, o tempo que o equipamento fica rodando e isso depois... A Alcoa até hoje utiliza essa técnica nas várias fábricas e acabou associando a aplicação do TPM ao TPS ou ABS depois que a Alcoa Business System que incorporou TPS é o Toyota Production System que também tem muito dessa filosofia e acabou incorporando todas essas técnicas dentro do ABS da Alcoa que a Alcoa utiliza até hoje, né? Mas foram ferramentas desenvolvidas pelos Japoneses, via de regra, mas que pôs o pessoal para trabalhar junto e quebrou aquela barreira do: “nós operamos e eu conserto” nós operamos e eles consertam, não é? Nós operamos e vocês consertam ou nós mantemos e vocês aqui operam, porque a hora que tiver consertado eu chamo vocês para operarem, não é trabalhar juntos. Quantas pequenas tarefas da manutenção que a operação não pode co-participar, então essa filosofia do TPM foi uma experiência de muito sucesso em várias fábricas da Alcoa: Poços, Tapiçuma, Alumar, vai ser em Juruti. P/2 – E a manutenção englobava também a fábrica de... A divisão de condutores também? R – Quando a divisão de condutores foi adquirida pela Alcoa a gente... Eles tinham um corpo de manutenção próprio, mas a gente ajudou muito na mudança de filosofia. A fábrica de cabo veio de uma, vamos dizer era fábrica de uma cabeça só, ou seja, um dono o senhor Salvador Arena que praticamente tudo se fazia conforme ele queria, era uma filosofia operacional dele e quando a Alcoa entrou lá nós tivemos que trocar uma série de valores para começar de segurança, né? A filosofia de segurança da fábrica de Poços de Caldas teve que ser transferida o mais rápido possível para lá... A filosofia de meio ambiente na época tinha algumas coisas de meio ambiente que eram oportunidades de melhoria, então se transferiu esse know how e a tecnologia que a Alcoa tinha para esses valores KS saúde, segurança e meio ambiente para a fábrica de Poços. Então a gente foi muito utilizado como ajuda, consultoria cedeu-se... Nós cedemos algumas pessoas para lá, algumas pessoas do cargo de supervisão acabaram sendo cedidas ou então emprestada para um período lá para ajudar essa implantação, ou seja, trazer a fábrica de cabo para os níveis operacionais da fábrica de primares, né? P/2 – E a fábrica de pó de alumínio? R – Ah a fábrica de pó, bem lembrado a fábrica de pó eu participei, quer dizer um grupo que trabalhava comigo participou durante as fases de construção, apesar de que também teve um empreiteiro que... Ou mais de um empreiteiro que foram responsáveis pela obra, mas a fábrica de pó dada às características do processo, dado o produto ser um produto perigoso que requer instalação... Em setores requer instalações protegidas como gás inerte e o treinamento que ia demandar tanto da operação quanto da parte da manutenção, essa foi um exemplo fantástico de aplicação de TPM. A fábrica já nasceu com essa filosofia, a fábrica já nasceu com a integração manutenção e operação, porque ali não podia ter essa separação. Teve um lugar que a gente pode falar que teve que trabalhar integrado foi na fábrica de pó, então foi um exemplo fantástico, né? Uma técnica nova TPM o comprometimento dava para ser aplicado numa fábrica, então a gente co-participou sim e um dos nossos engenheiros da parte elétrica foi um engenheiro da obra lá, da mecânica a mesma coisa, quer dizer a gente trabalhou integrado. P/1 – Então continuando a sua trajetória, depois dessa fase o senhor... R – Bom, creio que a gente vai ter que voltar então aos anos... Aí já estamos na década de 80 onde eu fiquei gerente, como gerente de engenharia por alguns anos e mais precisamente foi ano de... Até 84 se não me engano. Em 84 eu recebi um convite para ser gerente de produção da área da redução, então eu saí um pouco, eu saí um pouco da engenharia e fui ser o gerente da redução, da fábrica de alumínio. Então foi outro desafio muito grande, porque eu não era de... Minha experiência não era de metalurgia ou química eu entendia, quer dizer conhecia o processo até porque ali na redução... A redução trabalha muito integrada com a subestação principal onde toda energia 90% ou mais da energia da fábrica é carreada para a redução, toda energia utilizada pela fábrica é carreada pela redução e também a parte computacional, os computadores de processo tem uma presença marcante no processo da redução. Então eu tive que aprender o processo, mas eu conhecia até então o processo mais de uma forma superficial. Então foi outro desafio em 84 até final de 86 onde eu fiquei responsável pela redução e tive que aprender um pouco mais profundamente o processo também, né? Como se fosse um engenheiro de processo. P/1 – E depois disso o senhor foi para a Alumar? R – Em 86 a Alumar estava terminando a sua fase dois de implantação e também iria passar por um processo de repatriação dos gringos, né? Dos americanos e nessa época uma pessoa que ia ser repatriada, voltar para os Estados Unidos era o gerente de engenharia e gerente de produção. Então no dia 01 de janeiro de 87, vocês já viram que eu gosto muito do primeiro de janeiro, né? Primeiro de janeiro de 87 eu como gerente de engenharia e o gerente da fábrica aqui o José Rodolfo Lopes, nós fomos transferidos para lá, para a Alumar, ele como gerente de operações e eu como futuro gerente de engenharia da fábrica da Alumar. Basicamente para as mesmas funções daqui obviamente agora aumentou a escala, aumentou a escala por causa do tamanho da fábrica. A gerência da engenharia da Alumar só a equipe de engenharia tinha mais de 300 pessoas na época, mas também na Alumar cabe a gente mencionar o grande desafio da formação da mão de obra. A Alumar, nessa época, tinha uma série de problemas: operacionais, de manutenção, de não cumprimento das metas de meio ambiente, metas de ambição, então nós tínhamos que dar uma reviravolta na fábrica e o pessoal de Poços de Caldas pode até não gostar, mas nós acabamos levando outras pessoas daqui para reforçar o quadro de lá, alguns reclamaram até “vocês vão nos desfalcar aqui,”, né? Mas nós levamos algumas pessoas chaves que a gente considerava chave para ajudar a implantar esses programas lá na Alumar quer seja programa de manutenção, de comprometimento, de treinamento, né? Eu tive a... Acho que posso falar, eu tive o prazer e foi muito gratificante para eu liderar o estabelecimento de um centro de formação de mão de obra de manutenção, aliás, lá não era só de manutenção não, tinha também algumas atividades na área de operação. E lá no Maranhão fizemos um centro de treinamento para formar a mão de obra... A questão de mão de obra no Maranhão era mais crítica que aqui, porque aqui apesar de Poços de Caldas ter um histórico de cidade turística e tal, mas você está perto do centro industrializado e lá no Maranhão não tinha tudo. Lá estava iniciando, né? Então foi o grande desafio também investir em pessoas, investir em mão de obra lá no Maranhão e lá eu fiquei praticamente oito anos na atividade de gerente de manutenção, gerente de engenharia que engloba manutenção. E nos últimos dois anos eu acabei sendo solicitado para contribuir na área de compras, aquisição logística e compras, eu passei a ser gerente de materiais lá em Alumar. Como a área de materiais englobava a área do porto, eu virei gerente do porto também, então eu acabei tendo o porto, a parte operacional do Porto e a parte de materiais logísticos a aquisição em logística propriamente dita. Então essa experiência da Alumar foi também muito interessante por causa desses desafios que foram praticamente uma repetição do que aconteceu aqui em Poços de Caldas em termos de formação, em termos de consolidação dos processos de manutenção, engenharia, mas foi um desafio enorme por causa da escala muito maior também. E acabou tornando as coisas mais complexas. P/2 – O transporte era feito como? Lá em Alumar? Do alumínio? R – A Alumar tem até hoje a seguinte característica: os insumos, a matéria prima tipo carvão, a bauxita que é a matéria prima principal, vem tudo de navio. O que é material em geral vinha tudo de caminhão, vinha tudo via terrestre mesmo apesar de que equipamentos maiores que eram importados ou não muitos deles chegavam via porto de Taqui não o nosso Porto, o porto de Taqui e do porto fazia-se um transporte de ponta para a fábrica. A Alumar chegou e eu não sei agora eu me desliguei, mas creio que até hoje tem alguma coisa em termos de exportação do alumínio, mas a Alumar exportou muito pelo porto de Taqui também e alguma coisa pelo nosso porto e a alumina é toda exportada até hoje pelo porto da Alumar. P/2 – Em termos de comparação a Alumar é maior quantas vezes em relação a Poços de Caldas? R – A Alumar, vamos dizer ela tem uma capacidade... A refinaria da Alumar agora está sendo expandida para mais de três milhões de toneladas por ano, Poços de Caldas creio que... Eu não estou acompanhando bem os números atuais, mas eu diria que a refinaria hoje deve estar com quase um milhão, alguma coisa assim, então é uma refinaria bem maior a da Alumar, né? E idem na parte do metal também, quer dizer é uma fábrica já... As cubas são maiores, aqui são 200 e se falhe os detalhes aí porque eu acho que eles andaram acrescentando alguma coisa 288 cubas menores lá são 800 cubas maiores que tem produção mais que o dobro daqui. Então a escala da Alumar é maior. P/1 – E depois da Alumar qual foi... R – Ah, depois da Alumar daí como estava na época e na moda do TPM, esse TPM iniciando a ABS me convidaram e eu aceitei também para ajudar e dar um reforço na implantação desses programas na fábrica de Itapiçuma, na época quando a Alcoa adquiriu a fábrica Erasa adquiriu também outra vez, outra incorporação... A Alcoa tudo que ela adquire, a primeira tarefa dela é montar para colocar em operação a filosofia operacional da Alcoa que é a prática dos valores HS segurança, saúde e meio ambiente, processos operacionais, qualificação, certificação junto aos órgãos certificadores de qualidade, quer dizer todas as fábricas que a Alcoa adquiriu de terceiros passaram sem exceção por esse processo. Então fui convidado para ir para Itapiçuma por um período até... Eu sabia que ia ter um limite, porque já se falava em novos e grandes projetos aqui para o Brasil, mas que ainda por questões de não ter ainda equacionado a questão da disponibilidade energética, de energia, dos alumínios é energia... Tem gente que brinca que fala que é energia enlatada, né? Então os projetos estavam quase que no aguardo e então nesse ínterim eu passei a contribuir um pouco na fábrica de Itapiçuma como gerente de qualidade. Sendo que nessa área de qualidade englobava a parte de laboratórios, porque a parte de laboratórios lá também é bastante forte, porque tem a análise do produto final, lá solta folha, chapa, perfis, então tem análise de certificado de produtos finais. Então eu fiquei com a gerência de qualidade e ajudando a implantar alguns desses programas que eu citei aqui das outras fábricas, né? E posteriormente eu acabei incorporando a área de meio ambiente que também foi outro desafio, porque eu era meio calouro em meio ambiente, né? A gente tinha uma filosofia, você absorvia tudo aquilo que a Alcoa trazia em termos de requisitos e meio ambiente, mas não tinha também atuado no gerenciamento de meio ambiente e por um período eu fiquei lá nessas atividades até que foram encerradas as minhas atividades lá em Itapiçuma faz-se a decisão... P/1 – Ficou quanto tempo lá? R – Dois anos e meio, na realidade eu fiquei quase oito anos na Alumar, 18 anos e meio em Poços de Caldas, oito anos na Alumar, dois anos e alguns meses em Itapiçuma e daí surgiu a decisão de começar a trabalhar nos grandes projetos da Alcoa no Brasil. Projetos esses que estão agora... Estão em fase de implantação agora, mas a razão de eu ter sido transferido de Itapiçuma para São Paulo foi que nós montamos um grupo de projetos novos lá em São Paulo para... O primeiro projeto deles foram quatro, mas o primeiro projeto foi exatamente a expansão da linha três da Alumar. Quando eu fui para a Alumar ela só tinha duas salas de cuba, então foi o projeto da expansão da linha três da Alumar projeto esse que quando eu estava aposentando ele estava sendo concluída a obra. P/1 - Aí o senhor foi para São Paulo começar a preparar esses projetos, foi isso? R – Na realidade eu fui como gerente geral de projetos, só que não era os projetos das fábricas, porque os projetos das fábricas sempre tocaram tradicionalmente, as fábricas tocaram com recursos próprios ou até com algum recurso contratado local ou trazendo algum reforço de São Paulo ou de outras cidades. Mas eu fui para São Paulo para gerenciar os projetos em potencial, vamos dizer assim que estavam lá na agenda para acontecer. O primeiro deles foi a expansão da linha três da Alumar, o segundo foi a expansão da refinaria da Alumar, porque a Alumar na época tinha uma capacidade de um milhão e 400 mil toneladas, um milhão e 300, 1000 toneladas de alumina e o nosso principal desafio na época foi convertê-la para 2300. Então foi um projeto que nós montamos um grupo também, montamos o da redução, desculpe, montamos o da expansão da linha três da redução da Alumar e outro grupo trabalhando praticamente em paralelo da expansão da refinaria da Alumar. E Juruti já veio um pouquinho depois, mas veio quase que na seqüência. Então as minhas atividades em São Paulo, elas se resumem na preparação da parte de Engenharia, compras porque englobava até a emissão dos pedidos etc. para esses grandes projetos dentro da Alcoa. Teve uma época que a Alcoa considerava assim não era muito certo, não tinha uma linha divisória bem clara, mas projetos acima de 25, 30 milhões de dólares acabava sendo às vezes carreado para São Paulo, né? Mas esse da Alumar era um projeto de 160 milhões de dólares ou 170 milhões de dólares o da refinaria era muito mais que isso, quer dizer são projetos maiores. Depois veio o de Juriti também que é outro projeto muito grande e nesse processo de gerenciar projeto teve dentro dessa fase tiveram altos e baixos e esses altos e baixos um resultou até na descontinuidade temporária dos projetos, não porque a Alcoa tinha perdido a vontade ou a viabilidade ou os projetos se tornarem inviáveis. Volto naquele ponto que eu citei a disponibilidade de energia não estavam ainda garantidas e sem energia não existe fábrica de alumínio razão que a Alcoa na ausência ou na demora do governo de estabelecer as políticas energéticas e tem coisa que até hoje ainda tem alguma obscuridade. Mas a Alcoa decidiu também investir em hidrelétricas, hoje ela tem algumas hidrelétricas, co-participa com algumas hidrelétricas está agora participando de outras que ainda não foram inauguradas, mas nós tínhamos que criar, me desculpe eu falo, nós porque eu sou aposentado, mas eu ainda me considero alcoano, né? Então tínhamos que procurar um meio de garantir o suprimento de energia. E foi onde ela investiu em algumas hidrelétricas. Quando a Alcoa equacionou esse problema do suprimento de energia, da garantia da energia foi eu acho que a alavanca para que esses projetos fossem retomados, né? Aí então se concretizou a linha três da Alumar, porque você não precisa gerar lá no Maranhão, mas você pode gerar lá no Rio Grande do Sul e fazer um swap de energia, fazer uma troca se paga um pedágio e acabou. E então foi... Acabou sendo uma bola mestra para esses projetos decolarem tanto da redução, o da refinaria veio logo em seguida só que da refinaria voltou já com uma escala maior os 2,3 passou a ser 3,2 também eu me aposentei e acho que está até um pouco mais do que 3,2. P/1 – Acho que 3,5 se eu não estou enganada. R – Depois que eu saí eu acho que eles melhoraram ainda mais, otimizam ainda mais é 3,5. Então o equacionamento desse aspecto de energia e também a Alcoa utilizou momento propício em termos econômicos de crescimento, de demanda mundial de alumina. Foi um grande fator também que alavancou a expansão da refinaria da Alumar foi a demanda mundial de alumina que muitas refinarias, além do crescimento de demanda natural aí pelos países emergentes etc... Muitas refinarias não necessariamente da Alcoa operavam com tecnologia muito antiga e de forma ineficiente e até com alguma agressão a valores ambientais, então algumas tiveram que ser fechadas ou reduzidas de escala e isso ajudou a alavancar a expansão da refinaria da Alumar que está agora em andamento lá, né? P/1 – E como que o senhor vê o relacionamento da Alcoa com as comunidades de entorno? Eu acredito que na preparação aí do projeto de Juruti talvez... (troca de fita) R – É, Juruti, é um exemplo e um exemplo muito forte da importância do relacionamento correto com as comunidades, né? Eu acho que... Eu vou aproveitar um pouquinho o gancho da comunidade, mas falar um pouquinho sobre o projeto Juruti. Juruti estava com aquela bauxita lá há 25, 30 anos lá que era a (Reinalds Metal?) que detinha os direitos de reserva lá. Acabou passando para a Alcoa depois que a Alcoa comprou a (Reinalds?), a Alcoa se interessou para avaliar a exploração da bauxita de lá, porque já sabia que essa bauxita era uma bauxita de muito boa qualidade, bauxita da mesma qualidade da MRN. Bauxita essa que a Alcoa até então usa até hoje lá na Alumar e vamos começar a retomar as prospecções, porque os dados que tinha das reservas lá eram antigos, alguns se perderam era da época que nem computador tinha, fazia tudo em caderneta de anotação de caderneta de geólogo, né? Algumas coisas nós resgatamos, sabe? Tinha uma pessoa lá que ele falava assim: “eu sou o dinossauro da mineração”, mas realmente ele tinha muitos dados e ele acabou prestando consultoria e trouxe os dados, mas ao pisar em Juruti pegando lá o aviãozinho ou o barco de oito horas que ia de Santarém à Juruti e depois o barco que leva ao acampamento. Veio muito claro, foi bem claro aos olhos que ia ser muito importante um relacionamento bom, não bom de fazer caridade, mas um relacionamento ético, profissional de transparência com a comunidade. Mas eu achei que isso ia ser... Fora de brincadeira, eu achei que ia ser um prato cheio, porque a Alcoa sempre atuou dentro desses princípios, você veja essa fábrica aqui em Poços de Caldas ela é campeã... A Alumar as duas não são campeãs aí em termos de participação comunitária, né? Se tem uma coisa que a Alcoa fez muito bem, melhor do que lá fora e que nós depois exportamos para as nossas fábricas irmãs lá fora foi a participação comunitária. Todos esses programas assimilando o pessoal, agarrando com toda força e vontade esses programas, né? Agora Juruti ela tem uma... Teve uma conotação, a mesma conotação talvez das fábricas, das outras, mas num teor muito mais forte que é aquele pessoal... O pessoal de lá é um pessoal muito sofrido, isolado da cidade na época, muito mais isolado do que a gente é dos grandes centros, né? Um transporte todo dificultoso, umas comunidades totalmente carentes na parte médica, na parte de assistência médica, né? Juruti nos primeiros momentos que nós pisamos lá para reformar o acampamento de 30 anos que estava já bem deteriorado e quase caindo aos pedaços. Uma igreja tinha assumido acampamento para virar local de retiro espiritual e nós compramos da igreja, até porque eles tinham investido um pouco lá, para ser o nosso acampamento base que existe até hoje lá de prospecção. Mas uma das primeiras coisas que nós tivemos que fazer no acampamento foi estabelecer um sistema de apoio médico, não só para os funcionários que iam fazer a prospecção no meio do mato, fazer umas picadas para começar fazer os furos de prospecção, mas a comunidade ribeirinha. E quando eu falo ribeirinha não é num raio de um quilômetro ali não é de 20, 30, 40, 60 quilômetros, eles vinham ali buscando auxílio de saúde. Eram pessoas com abscesso, eram pessoas que... A mãe que estava grávida, precisava dar a luz e não tinha apoio, pessoal com verminose. Então a gente passou a dar um apoio assistencial para as comunidades suprindo aquela lacuna que lá não tinha, lá tinha um barco... Um barco que teoricamente seria um barco hospital, mas eu chamaria mais de barco ambulatório que teria que passar lá uma vez por cada X dias, mas passava do ano da eleição. Então no início a Alcoa teve que saber gerenciar essa situação, porque também a gente não podia só ficar fazendo assistência, vamos fazer assistência sim, mas de uma forma de... Que não tinha aquela conotação de dar esmola, nós queremos ensinar os bons hábitos, fazer até um pouco do papel da assistente de saúde de ensinar higiene, né? O pessoal não tinha os menores princípios de higiene e até porque não tinham as instalações, não é porque não gostavam é porque não tinham as instalações pra fazer a higiene pessoal, higiene familiar e as revisões médicas. Então foi fundamental a Alcoa trabalhar na comunidade, mas de uma forma... Foi assistencial? Foi, mas de uma forma a mudar a filosofia e começar a colocar... Foi o embrião, a semente colocar que: “Olha, tem uma série de coisas que vocês precisam começar a fazer diferente aqui” na higiene pessoal, procurar ambulatórios médicos para fazerem um pré-natal, mudarem o hábito alimentar, porque o hábito alimentar só de mandioca e peixe você concentra algumas vitamina e perde nas outras. Então ensinar novos hábitos alimentares, ajudar estabelecer poços de água para que eles, de forma comunitária para coletar a água na pracinha lá da comunidade, mas água limpa e não ia buscar no rio, porque a água do rio estava contaminada, né? Razão das verminoses que eu citei há pouco. Então tudo isso, quer dizer eu vejo a participação de uma companhia quer ela seja a Alcoa ou de uma grande companhia que se estabelecer na Amazônia hoje é muito forte, tem que ser muito forte esse comprometimento de relação comunitária. E lá agravado por alguns grupos minoritários que desde o início foram contra o projeto, achavam que a Alcoa ou outras companhias estão lá para devastar, para fazer as coisas de forma irresponsável. Então tem um trabalho muito grande de dizer: “Olha, aqui nós vamos fazer diferente e vamos fazer com transparência.” Tudo o que a gente quer fazer em termos de saúde, segurança e meio ambiente nós vamos fazer mostrando para vocês dentro de um plano. Tudo não vai acontecer numa hora só, até porque você teria que ter verba ilimitada para fazer numa hora só, mas vamos fazer de uma forma programada, selecionando as prioridades. E no fim culminou isso que hoje eles têm lá da agenda positiva que é justamente uma série de compromissos que a companhia assumiu compensações, fazendo parte das compensações ambientais também do projeto e buscando essa integração empresa, comunidade. E porque eu falo que é mais forte lá? Pela própria situação local, você não tem uma infra-estrutura própria, a cidade de Juruti o asfaltamento lá era quase inexistente, tinha um asfalto velho estragado lá. A rede de esgoto era inexistente na cidade, está sendo feita agora. O hospital não tinha oxigênio, eu comprei... Em nome do projeto nós compramos a primeira central de oxigênio para o hospital. P/1 – Continuando então você estava falando sobre Juruti... R – Então, Juruti na parte que se relaciona com comunidade... Eu acho que vai ser sempre um desafio obviamente à medida que a infra-estrutura e as comunidades vão também co-participando mais, porque no início Juruti teve aquele negócio de que a Alcoa vai fazer tudo pra gente e nós podemos ficar aqui esperando. Eu acho que não é essa a filosofia, a filosofia tem que dar a vara e ensinar a pescar. Então à medida que há essa co-participação, a agenda positiva que eu mencionei eu acho que ela está ajudando Juruti... O pessoal de vez em quando me manda uns retratos do projeto até hoje, sabe? Eu fico cobrando lá “Manda, eu gostaria de ver como está” porque aquilo ali acabou sendo a menina dos meus olhos também, porque eu vi nascer. Então eu recebo algumas fotos e a gente vê que gradualmente as comunidades estão co-participando mais à medida que as infra-estruturas comprometidas lá na agenda positiva fossem concretizando a cidade iria assumindo uma série de coisas. Vai mudar o padrão das escolas, o padrão educacional, agora vai continuar sempre sendo um desafio que eu acho em Juruti é a formação da mão de obra. A Alcoa vai ter que investir e co-participar em programas de treinamento de mão de obra. E, diga-se de passagem, um negócio eu acho que tem um tópico importante de falar tanto para Juruti quanto para Maranhão, eu não vou falar aqui pelo sul, porque posso estar aqui mais perto de Campinas, de São Paulo região industrializada, mas vamos falar das regiões longínquas. A capacidade do pessoal de aprender e a vontade de aprender é algo inexplicável por palavras, é aquela filosofia do Senai você tem que ensinar e dar ferramenta que eles fazem direitinho. Juruti está sendo construída com recordes de segurança lá no meio da Amazônia, a performance de segurança de Juruti foi agora comemorada o mês passado, não é possível? É possível basta você fazer um trabalho de ensinar e buscar o comprometimento. Então eu acho que tanto na área social, educacional, formação de mão de obra que vai ser sempre um desafio como na área de comunidade, acho que a chave do sucesso está nisso, quer dizer é a co-participação e o envolvimento. Aquelas minorias que ainda resistem e que é natural, a Alumar teve resistência de grupos no projeto, de implantação do projeto, aqui em Poços algumas coisas pequenas. E em Juruti também houve algumas comunidades que talvez até por desconhecimento ou talvez até influenciado por algumas ONGs algumas coisas que são... Às vezes adotam posturas mais radicais, acabaram adotando uma postura contrária, mas eu acho que isso a poeira se assenta, não é de graça vai demandar muito esforço, mas eu acho que chega lá e eu tenho certeza que Juruti vai ser uma fábrica igual a Alumar, é benchmarketing mundial de produção de alumínio, Juruti vai ser na área de mineração, tenho plena convicção disso, eu espero estar vivo para ver isso. P/1 – Então sobre a ação social da Alcoa eu queria um pouco da tua visão embora você já tenha falado que Poços e Alumar são campeãs, né? Talvez você queira falar um pouquinho mais? R – Eu acho que esse trabalho de... Às vezes até inédito que a Alcoa faz de ação social é de vital importância, eu participei de alguns grupos lá em São Paulo onde... No período que a Alcoa enfatizou bastante e foi bastante ativa no envolvimento da ação social ou começou a ser mais dinâmica na parte de envolvimento de ação comunitária e social, embora eu estivesse no escritório de São Paulo a gente participou de grupos comunitários. E lá tinha uma série de oportunidades onde a Alcoa está no Cenesp em São Paulo, atrás têm favelas ou têm bairros paupérrimos que não só a comunidade como a escola, como pré-primário lá, o jardim da infância, a igreja eles precisam de ajuda, né? Eu lembro de um fato que nós adotamos... Uma casa de velhinhos próxima ao Cenesp onde 80 velhinhos eles dormiam debaixo de uma laje que não tinha... A casa ela não tinha telhado, a freira que era responsável, ela fez a laje e tinha que colocar os velhinhos lá, mas a laje não era impermeável. Então a primeira atividade do nosso grupo foi: “Vamos ajudar e por um telhado nesse lar”, na realidade é um asilo de velhinhos, mas tinha também associado uma creche e a Alcoa doou as telhas e uma empreiteira doou uma estrutura e nós fizemos o telhado. O Tom que foi um dos exemplos na Alcoa de participação comunitária, porque os fins de semana ele também deixava a casa dele e ia fazer as ações sociais dele. E ele projetou um poço, porque no asilo não tinha água, a água da rede pública lá não chegava ao asilo e os velhinhos não tinham nem água para fazer a higiene pessoal, né? Instalamos máquinas de lavar roupas para o asilo, fizemos uma série de obras na parte de infra-estrutura, hoje esse asilo com o auxílio da Alcoa e de outras companhias ele está lá... 80 velhinhos sendo bem cuidados e tendo um final de vida digno que eu acho que é importante, né? Então eu acho que a Alcoa atua na ação social dela em creches, escolas, grupos de vilas mais distantes ou na redondeza onde ela está atuando, mas as oportunidades são enormes. Esses projetos que a Alcoa trouxe e que os funcionários adotaram isso aí como parte integrante, como se fosse parte integrante da minha função, eu como funcionário eu tenho que assimilar e participar, é fantástico, sabe? Serve de exemplo para várias companhias do Brasil, então eu estou meio de fora agora, mas eu vejo isso aí como algo que tem um futuro fantástico de... Ter enormes oportunidades. P/1 – Qual você considera como sua principal realização na Alcoa? R – A minha principal realização? Olha, eu nos meus 37 anos de Alcoa, porque eu sou funcionário de uma companhia só, no Brasil é meio inédito, mas eu sou funcionário de uma companhia só. Então eu falo muito Alcoa, eu sou Alcoa, eu aposentado eu ainda cito nossa, nós como se eu estivesse na ativa, eu faço questão de receber os clipes diários da Alcoa pela internet, eu não me desligo muito, não me desliguei muito, mas é incontestável que eu estou de fora. Os meus desafios, eu tentei fazer a minha carreira um constante desafio, quer dizer os meus desafios começaram com: implantação dos programas de formação de mão de obra, implantação das técnicas de manutenção, implantação da... Quando veio a reengenharia no mundo inteiro globalização eu participei ativamente disso e isso deixou a gente num primeiro momento um pouco preocupado, porque você tenta associar a filosofia com a sua realidade brasileira. Mas então eu tentei fazer todas essas fases, esses aprendizados de envolvimento das várias funções com um desafio, né? Agora uma realização para não citar outras eu vou falar uma a última que foi ver os três grandes projetos se tornarem uma realidade, exatamente no momento que eu estava saindo da Alcoa, isso me deixou muito feliz. E mais feliz ainda quando Juruti também, igual eu falei nós fomos lá, no dia que fomos tomar posse na casinha que era da igreja lá para ser a base do acampamento e ver que hoje já tem estrada de ferro, já tem concreto lá, já tem o porto sendo construído acho que isso aí me tornou... Foi muito gratificante para um final de carreira. P/1 – E tem algum caso pitoresco assim que aconteceu ao longo desses anos que você poderia nos contar? R – Eu vou buscar um lá no fundo do baú, pode? P/1 – Pode. R – Então vamos... Eu vou contar um de Poços, porque Poços de Caldas me marcou muito são 18 anos e meio de Poços de Caldas. Eu não sei se eu falo se... Eu gosto muito da minha terra se eu sou jacutinguense ou se eu sou poço caldense, sabe? Eu queria ter voltado para Poços de Caldas, mas infelizmente por questões familiares a gente decidiu na aposentadoria não voltar, mas um fato pitoresco eu tenho até um retratinho que eu trouxe. Foi que o nosso grupo de 60 e poucas pessoas em 1968 a gente tinha também buscava nos fins de semana algum lazer, alguma reunião, aquela coisa. Então em junho de 69 aqui no pátio da fábrica de Poços de Caldas foi decidido fazer uma festa junina. Essa festa junina ali no pátio onde hoje estacionam os ônibus um pouquinho de lado tinha um restaurante que supria a alimentação para os funcionários, o restaurante chamava Cai Duro. Então todo mundo comia no Cai Duro e a festa junina foi organizada lá perto. Montou-se um pau de sebo, pau de sebo é aquele mastro de eucalipto que se passa sebo de animal e para fazer a pessoa subir para pegar um prêmio que tinha lá em cima e tinha lá a carcaça do porco ensebado, quadrilhas e tal. Os engenheiros que foram recém admitidos nós resolvemos participar da quadrilha e um colega que eu tenho até uma fotografia do grupo aí, ele tinha um carro que não é do tempo de vocês chamava baratinha, é um fordinho 29 que não tinha até a parte o banco traseiro era para ser levantado. E ali nós trouxemos a noiva e o noivo naquela baratinha e nós todos vestidos de caipira, dançamos a quadrilha, tomamos todos os quentões, porque fazia... Por causa do frio, junho em Poços de Caldas era um frio danado, tomamos todos os quentões que foram fabricados no Cai Duro e eu... Uma das primeiras tarefas aqui na fábrica, eu trabalhei na subestação também, a subestação principal, subestação essa que tem até o meu nome e eu aprendi a fazer algumas coisas de eletricista. O meu chefe um gringo americano o Dom Sailer ele resolveu que eu tinha que subir no poste ensebado e com certeza eu não ia conseguir nunca subir no pau ensebado e não é que o americano resolveu mandar buscar numa empreiteira que tinha aqui chamava-se Nativa um par de esporas. A espora na realidade são dois... É igual espora de cavaleiro, mas se você coloca na perna e você for subindo no poste de madeira você vai enfiando aquelas esporas para você subir no poste. E foi o jeito que eles me fizeram subir no poste obviamente o medo foi maior e eu preferi ao chegar a dois ou três metros de altura falar: “Gente, vou pular, porque eu não aguento mais.” Mas foi uma festa muito interessante e que eu lembro dessa festa, eu tenho até essa foto aí, essa festa como um exemplo... Ficou muito evidente pra gente que a Alcoa começou desde 69 a tocar essa fábrica com responsabilidade, mas dentro de um espírito de família, amizade, equipe, solidariedade, tudo, né? Quer dizer comprometimento, então eu acho que é um fato pitoresco dessa fábrica de Poços que eu nunca mais esqueço dessa festa junina de 1969. P/1 – Mauro, você já falou pra gente que você é casado e qual é o nome da sua esposa? R – Minha esposa é jacutinguense ngela Maria Constantini Sebusiane. A ngela quando nós... Nós casamos em 1970, ne? 70 foi um ano também que parte pessoal, por isso que eu citei a década de 70, eu me casei em 70, em 73 vieram às filhas. E em 70 nós casamos obviamente ela veio para cá, veio reclamando porque não sabia cozinhar o que ia fazer? Mas aprendeu tudo... A vida é uma série de experiências, às vezes a necessidade faz a pessoa assumir uma série de coisas e fizemos nossa casa em 73 com muito sacrifício, eu até vendendo o carro, financiando o carro para minha esposa para poder não ficar sem o carro e acabar de achar o dinheiro para poder pelo menos entrar na casa. Em 73 vieram as filhas, a primeira Juliana, hoje é casada está em Brasília, nós temos uma única neta, eu não posso curtir vários netos, é só uma, hoje eu só tenho direito de curtir uma neta. A Liliana em 1974, ela está no mercado de trabalho hoje é uma executiva no mercado e com dez anos de diferença, ou seja, em 84 nasceu a Elisa que a Liliana e a Elisa são solteiras ainda. A Elisa acabou de se formar está com a gente está entrando no mercado. P/1 – E o que mais você gosta de fazer nas suas horas de lazer? R - Bom, eu nado, ando, ando de bicicleta, eu moro no Guarujá parte do tempo, então lá eu moro num condomínio bastante bom para andar de bicicleta, nadar e eu sou... Eu herdei do meu avô italiano a... Eu gosto de fazer trabalhos manuais em madeira ou mesmo em material metálico, então nas minhas horas vagas quando estou em Jacutinga eu tenho uma oficina equipada onde eu fabrico minhas coisas em vez de ficar chamando o eletricista, chamar o eletricista acho que seria até... Eu sou eletricista e tal, mas chamando o mecânico, eu faço muita coisa eu mesmo até porque é um passatempo e eu estou sempre fazendo alguma coisa diferente. Às vezes até para os outros que eu pedem para fazer as coisas e é assim que eu gasto o meu tempo, né? Entre andar, andar de bicicleta, nadar e fazer trabalhos manuais. P/1 – Mauro, você que acompanhou desde o nascimento da Alcoa aqui em Poços de Caldas, como você vê esse desenvolvimento que aconteceu ao longo desses anos, não só em Poços, mas também no geral da Alcoa no Brasil, qual é a tua visão a respeito? R – É fantástico, tem coisa que foi da água para o vinho, quer dizer eu acho que... Eu faço questão de acompanhar um pouco igual eu falei receber clipes, receber fotos das coisas que estão acontecendo, mas uma pessoa que acaba se desligando da Alcoa por anos ou décadas vê uma transformação muito grande, né? Um pouco pela própria tecnologia, vou buscar o exemplo em Poços de Caldas essa sala de cubas aqui de Poços de Caldas, a redução é uma tecnologia dos anos 50, hoje eles modernizaram e ela está servindo de exemplo também para outros fábricas do mundo, né? Quer dizer as fábricas passaram aí nada, nada são essa fábrica há mais de 40 anos, a Alumar com mais de 20, quer dizer são transformações muito evidentes e que só aconteceram, vou voltar àquilo que eu citei. E isso eu acho que nós brasileiros temos que nos orgulhar que é a capacidade de absorver as novas coisas e implantar, me desculpem os estrangeiros às vezes eles demoram um pouco para implantar. Lêem o livro, fazem os cursos, recebem os ensinamentos, mas na hora de implantar entram numa esfera de discussões ou porque não querem ou por que... Às vezes até arrumam algumas desculpas lá, o sindicato não deixa, eu acho que é falta de vontade algumas vezes e o brasileiro foi fantástico essa fase de transformações e implantações de novas filosofias, assimilarem essas técnicas novas, o TPM, a globalização, a reengenharia. Tivemos experiências que às vezes tiveram que ser redirecionada, remodelada, retocada ou vamos dizer assim adaptadas para a realidade do Brasil, sim isso eu acho um fato normal. Mas a capacidade de aprender e a capacidade de assimilar e concretizar, eu acho que, desculpe a falta de modéstia, eu diria que o pessoal lá fora tem que tirar o chapéu para os brasileiros nisso aí. Agora precisa de direcionamento, precisa ter uma filosofia gerencial, porque está cheio de fábricas aqui no Brasil que operam precariamente, porque não tem uma filosofia, uma vontade de fazer e o comprometimento? Acho que isso é muito bom, o comprometimento que o pessoal está tendo em Juruti é fantástico, o que o pessoal aprendeu lá nesses meses de implantação é fantástico. Igual eu falei eles vão tornar aquela fábrica num referencial lá no meio da selva amazônica, então isso é muito importante. P/1 – E quais foram os maiores aprendizados de vida que você obteve trabalhando na Alcoa? R – Ah, foi que eu acho que sozinho a gente não consegue nada na vida, eu aprendi muito... Eu citei que aprendi muito com os encarregados que vieram aqui nas empresas eles não tinham formação nenhuma, alguns deles nem curso técnico tinha na época, mas trouxeram uma experiência de vida e uma experiência profissional que a gente tem que saber captar. Têm algumas coisas que não se aplicam? Têm, mas o aprendizado, trabalhar em equipe, trabalhar junto, não querer levar só para si os louros da vitória, porque nada a gente consegue sozinho e eu acho que foi a maior lição aprendida na Alcoa. P/1 – E para você o que é ser um alcoano? R – Ah, ser alcoano eu acho que não tem jeito hoje dentro da realidade atual é de ser um funcionário normal padrão sem o comprometimento e sem o envolvimento tudo isso que eu citei co-participação em equipes, em ações sociais, relações comunitárias, eu acho que ser alcoano a pessoa tem que ser tudo isso. P/1 – E Mauro, o que você achou da Alcoa estar registrando a sua história através desses depoimentos das pessoas que trabalharam e trabalham na Alcoa? R – Primeiro eu fiquei... Foi extremamente gratificante e eu me sinto muito agradecido por isso. Quando você aposenta quer queira ou quer não queira há uma mudança de status, eu diria assim, por quê? Porque você deixa de co-participar de uma série de coisas, você deixa de vir ao trabalho, você deixa de ter alguns programas de apoio que a companhia tem, né? Hoje felizmente a Alcoa estendeu o plano de assistência médica a nós aposentados também. Eu acho que foi uma das melhores coisas que a Alcoa fez ultimamente. Eu tenho a mesma condição de tratamento de um plano médico que um funcionário tem obviamente me onera um pouco mais do que quando eu era funcionário normal, mas eu acho que a participação, desculpe me perdi. P/1 – Eu estava perguntando do projeto do que você achou? De estar contando a história através das pessoas? R – Então, a participação nesse projeto que o nome é Museu... P/1 – O nome do projeto é Trajetória Alcoa e nós somos o Museu da Pessoa. R – Então, a participação nesse projeto eu acho que veio fechar assim com chave de ouro essa idéia da Alcoa ter uma memória. Quando eu comecei o projeto Juruti e sem recursos ainda lá eu falei: “Gente, vamos tirando fotos de tudo que você tem no meio do mato aí, o pessoal fazendo picada, a expedição, as viagens de barco”. A recomposição da base do acampamento, porque isso aí um dia vai ser a memória da Alcoa. Então esse trabalho que está sendo feito, eu acho que antes de mais nada é um reconhecimento para algumas pessoas que dedicaram assim para as pessoas que dedicaram parte ou toda sua vida profissional na companhia e segundo eu acho que para nós é muito confortante, muito legal a gente ser lembrado, sabe? Eu quando recebi a ligação eu falei: “Eu vou independente de onde eu estiver, porque eu acho que se eu posso contribuir com algum depoimento e se eu posso de certa forma ser um reconhecimento também, eu tenho obrigação de ir lá e dar meu testemunho.” Então eu acho que a Alcoa e os participantes aí os organizadores estão de parabéns em concretizar esse trabalho. P/1 – E como você se sentiu participando da entrevista? R – Ah, eu me senti bem, eu acho que pode ser que eu falei demais, eu tenho uma tendência a falar demais, mas eu tentei externar aquilo que eu penso da Alcoa aquilo que... A experiência que eu vivi, porque são muitos anos, então acaba sendo um pouco longo para contar toda a história e eu me senti a vontade, foi muito legal. P/1 – Então, muito obrigada, em nome da Alcoa e do Museu da Pessoa, nós agradecemos. R – Eu é que agradeço, muito obrigado à vocês todos e obrigado a Alcoa. FIM DA ENTREVISTA
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