Busca avançada



Criar

História

O encontro dos nordestinos

História de: Fernando José da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/11/2003

Sinopse

O nordeste é muito presente na vida de Fernando. Ele nasceu na Paraíba e começou a trabalhar bem cedo. Mudou-se pro Rio de Janeiro, mas nunca deixou de pensar no nordeste. Começou a trabalhar com os produtos de sua terra, além de também trabalhar fazendo mudanças para lá. Seu sonho é conseguir voltar para sua terra junto com sua família e assim levar uma vida mais tranquila e com menos trabalho.

Tags

História completa

P/1- Então eu queria começar a entrevista perguntando seu nome completo, o dia e o ano que você nasceu e onde?

 

R- Meu nome completo? Meu nome completo é Fernando José da Silva. Nasci em Cabedelo, no dia quatorze do quatro de 55.

 

P/1 - E você diz para a gente o nome completo dos seus pais, também?

 

R- Nelson Gomes da Silva e Nalzira de Brito da Silva.

 

P/1 - E eles nasceram onde, você sabe?

 

R- Meu pai nasceu na Fazenda Maraú e minha mãe lá em Cabedelo. Cidade de Cabedelo.

 

P/1 - E o que fazia seu pai, você lembra?

 

R- Meu pai era comerciante. Ele veio para o Rio novo, mas acidentou-se na Viação Cometa, e voltou para o Rio, voltou para o norte. Se aposentou, encostou porque ele trabalhou só um ano só, mas teve um acidente com ele. Ele quebrou a clavícula, o caramba, teve problema, ele resolveu ir para o norte de volta. E lá ele começou ficar só comerciando, foi trabalhando no comércio.

 

P/1 - Vamos voltar antes. Ele nasceu em uma fazenda?

 

R- Nasceu na fazenda.

 

P/1 - Você conhece essa fazenda?

 

R- Conheço.

 

P/1 - Que fazenda é essa?

 

R- É Fazenda Maraú.

 

P/1 - Explica para a gente como é que era. Ele nasceu por quê, era dele a fazenda? Ele era empregado?

 

R- Não, não era dele, não. Ele trabalhava. O pai dele trabalhava lá. Ele era tipo capataz, tipo. Ele trabalhava também no negócio de alambique. Fazia aguardente. Era ele e o pai dele que fazia.

 

P/1 - E aí o seu pai se criou lá?

 

R- Meu pai se criou lá. Criou tanto que foi, meu tinha quinze irmãos. São dez homens e cinco mulheres.

 

P/1 - E aí ele conheceu sua mãe na fazenda, também?

 

R- Não, não. Minha mãe ele já conheceu em Cabedelo. Ele começou trabalhar no comércio. Viajando, trabalhando no trem.

 

P/1 - O que ele fazia, você sabe?

 

R- Não. Antes ele trabalhou na cana. Cortando cana-de-açúcar, mas depois saiu, ficou, quando ele foi para Cabedelo, trabalhando no trem vendendo água, aqueles negócio, vendendo doce.

 

P/1 - Ah, no trem assim?  

 

R- É, dentro do trem. Aí ele ficou lá em Cabedelo mesmo. Botou um comércio lá, e ficou trabalhando lá.

 

P/1 - Um comércio de quê?

 

R- É tipo uma mercearia.

 

P/1 - Aí ele conheceu sua mãe?

 

R- O nome lá chamava venda. De venda.

 

P/1 - E ele conheceu sua mãe?

 

R- Conheceu minha mãe.

 

P/1 - Você sabe como foi que ele conheceu sua mãe?

 

R- Ele conheceu minha mãe lá na rua mesmo. O pai dela era pescador. Meu avô era pescador. Ele era, mandava, tinha um bocado de barcos, botava as pessoas para pescar. Aí ele conheceu ela. Ela era pequenininha, porque era novinha ela, tinha treze anos. Casou com treze anos.

 

P/1 - Sua mãe? E eles tiveram quantos filhos? Você tem quantos irmãos?

 

R- Só eu e minha irmã. Só teve um casal. Teve outro, teve um outro casal, mas morreu. Dois, o casal carioca.

 

P/1 - Os que nasceram aqui?

 

R- Os que nasceram aqui era carioca. Aí morreram os dois.

 

P/1 - E aí...

 

R- Morreu um aqui e outro no norte.

 

P/1 - E você nasceu aonde?

 

R- Eu nasci em João Pessoa, em Cabedelo.

 

P/1 - Aí você veio para cá quando?

 

R- Eu vim para cá com sete meses de idade. Com sete anos eu voltei.

 

P/1 - Você sabe porque seu pai decidiu vim para cá?

 

R- Porque os irmãos dele estavam vindo, ele estava vindo. O irmão dele veio, o tio Augusto. Ele tem um filho mais velho. Veio um pessoal para cá e ele veio. Vieram tudo de navio. Juntaram os três irmãos, quatro, vieram de navio.

 

P/1 - E aí você lembra de alguma coisa dessa época? De quando você morou aqui, a primeira vez no Rio de Janeiro?

 

R- Não, eu me lembro quando eu era pequeno, eu tinha sete anos. Até meu pai ia levar eu para cortar o cabelo, aí dava febre em mim, aí o barbeiro não cortava. Eu metia a mão aqui eu estava morrendo de febre. Aí não cortava o cabelo. Aí minha mãe fez uma promessa para o Severino do Ramo. Fui cortar o cabelo só com sete anos de idade. O meu cabelo ficou por aqui grandão. Eu cortei com sete anos de idade.

 

P/1 - Ela fez a promessa para quê? Para que você não tivesse mais febre?

 

R- Foi, era. Aí só cortei o cabelo quando... Eu parecia uma moça com cabelão. Meu cabelo era bom.

 

P/1 - E a sua mãe você lembra dela? Como era ela? Era muito brava?

 

R- Era brava, ela. Meu pai nunca me bateu. Quem me batia era a minha mãe. Ela dava um grito, a gente saía avoado.

 

P/1 - Ela brigava quando era o quê? Você lembra?

 

R- Porque não deixava a gente sair para canto nenhum. Eu grande já, não saía. Eu não saía daqui para a cidade sozinho.

 

P/2  - Você moravam onde?

 

R- Eu morava em Baiera, a gente era de Cabedelo, mas a gente tava morando em Baiera, meu pai comprou um sítio lá, umas casas, umas casas de aluguel lá. E a gente ficou morando em Baiera.

 

P/2  - Como é o nome do bairro mesmo?

 

P/1 - Era cidade de Baiera.

 

R- Baiera

 

P/1 - E aí ela era brava, seu pai não. Como é que ele era, você lembra do jeito dele?

 

R- Não, meu pai era um cara legal. Bom, gente fina, boa gente. Só de vez em quando que ele tomava um mé, ele ficava bravo. Mas era sempre maneiro. Bom com a gente. Nunca bateu em mim. Só mordia o beiço para pegar e gente, mas eu não. Sem problema.

 

P/1 - Aí lá você foi para a escola, como você foi?

 

R- É, eu estudava sempre. Eu estudava na prefeitura, no colégio do estado. Depois eu fui estudar particular.

 

P/1 - Lá?

 

R- É.

 

P/1 - E você estudou lá até que série?

 

R- Deve ser o segundo grau incompleto.

 

P/1 - E você lembra alguma coisa? Era bacana a escola? Tinha alguma coisa, você gostava de ir, como era isso?

 

R- Eu gostava quando eu estudava pelo estado, porque tinha o prefeito lá que dava lanche para a gente. Era pão com queijo, eu gostava de ir para danar. Não faltava nunca.

 

P/1 - Mas e na sua casa. Como era na sua casa? Tinha só você, seu pai, sua mãe, irmão, e uma irmã?

 

R- É, tinha filhos. Tinha pessoa que a gente criava. Minha mãe sempre, meu pai sempre criava filho dos outros, lá em casa tinha sempre um bocado de gente.

 

P/1 - Ah, é?

 

R- Inclusive lá em casa ainda tem dois que a minha mãe cria, são dois ou três, dos outros, filhos dos outros.

 

P/1 - Mas quem são? Filhos de quem, dos vizinhos?

 

R- É, filho de vizinho. A minha mãe criou a filha de um vizinho. Porque a mulher, ela nunca, teve não sei quantos filhos, mas morriam todos eles, aí minha mãe pegou um deles para criar, esse que sobreviveu. Até hoje ainda é vivo.

 

P/1 - E aí, ficou, criou. E assim ao todo, ela ficou, acabou criando quantos?

 

R- Rapaz ela criou bem uns oito, seis filhos dos outros.

 

P/1 - Mas ela considera como filho?

 

R- Considera, chama pai, mãe. Os meninos lá chamam de pai.

 

P/1 - Ficou todo mundo?

 

R- O outro mora mesmo com pai e a mãe. Mas chama a minha mãe de mãe, meu pai de pai. Chamava, porque meu pai agora faleceu. Teve um acidente com ele.

 

P/1 - E ela está viva lá?

 

R- Está, minha mãe está.

 

P/1 - Aí você ficou lá até sete anos? E voltou para o Rio de Janeiro com sete anos, é isso?

 

R- Não, não, eu vim para aqui...

 

P/1 - Ficou aqui até sete?

 

R- E fui para o... Houve que meu pai veio para cá. Aí teve o acidente e a gente voltou.

 

P/1 - E ele era o quê? Motorista da Cometa?

 

R- Não, ele trabalhava lá dentro, fazia socorro, no carro de socorro. O carro quebrava e ele saía em socorro. Aí teve uma batida em frente o Ministério de Guerra aqui no Rio, e ele quebrou o braço, clavícula, aí se aposentou. Porque antes ele tinha vindo aqui para o Rio, ele tinha trabalhado numa Viação Relâmpago, antigo a Cometa. Aí ele juntou, quando voltou de novo teve o acidente com ele.

 

P/1 - Aí vocês voltaram para lá e quando que você foi voltar para o Rio de Janeiro?

 

R- Ah, eu voltei para o Rio de Janeiro, sempre eu vinha. Com dezenove anos eu vim aqui a passeio. Fui até preso aqui, daquele negócio que era de vadiagem. Os caras pediram os documento. Eu cheio de documento e fui atrás de um colégio, estava de férias da firma onde trabalhava, aí os caras me pegaram e me lavaram preso. Eu nem sabia onde é que eu estava. Depois ficou tudo certo.

 

P/1 - Quer dizer lá, então você fez a escola. E quando foi o seu primeiro trabalho?

 

R- Meu primeiro trabalho, eu comecei trabalhar com doze anos. No posto de gasolina, que minha mãe botou eu para trabalhar, sem ganhar nada, mas ela mandou. Eu ia todo dia trabalhar, o cara morava na casa da gente de aluguel e eu ia com ele, o gerente do posto.

 

P/1 - Você fazia o quê lá?

 

R- Enxugava carro. Aí depois passei a lavar. Depois comecei a ser bombeiro. Aí eu tomei conta do posto. Fiquei seis anos lá.

 

P/1 - Você ficou tomando conta desse posto?

 

R- Eu sozinho fiquei tomando conta.

 

P/1 - O posto ficava onde?

 

R- Ficava na cidade, em Baiera. Era um posto de gasolina Texaco. Fiquei seis anos lá.

 

P/1 - E aí?

 

R- Aí depois eu fui trabalhar de, tirei curso no Senai, e fui trabalhar de soldador, de mecânico. Mecânico industrial.

 

P/1 - Lá?

 

R- Lá.

 

P/1 - Em uma empresa assim, como é que era?

 

R- Trabalhei na empresa. Trabalhei de soldador no Cofre Coringa, era negócio de vime, fazia cadeira de vime. Soldador. Até de aço acetileno. Aí depois eu fui trabalhar na Matarazzo. Fábrica Matarazzo estava na construção de celulose de loja de mamona. Aí fui trabalhar lá.

 

P/1 - Aí você já namorava? Já tinha?

 

R- Já comecei a namorar, já.

 

P/1 - Como era? Você tinha muitas namoradas nessa época?

 

R- Não, eu era muito vergonhoso, tímido. Não conseguia. Aí depois eu comecei. A minha mãe liberou, quando minha mãe soltou. Eu com dezesseis anos eu não saía para canto nenhum.

 

P/1 - Ela não deixava vocês sair?

 

R- Não, era só trabalho, colégio e casa. Eu não ia no cinema. Eu com dezesseis anos nunca tinha ido ao cinema.

 

P/1 - Por quê, ela tinha medo que acontecesse alguma coisa?

 

R- Era preso. Queria que só andasse com ela. Agarrado _______. Não deixava sair.

 

P/1 - E você não ficava com raiva disso, não?

 

R- Não. Ficava como?

 

P/1 - Aí você ficava, quando ela começou a te soltar mais?

 

R- Não, é que teve um colega meu, porque foi lá. Estava passando um filme dos Trapalhões, o primeiro filme dos Trapalhões, aí estava passando no cinema, matinê. Aí o cara foi lá, um colega meu: “Dona Nalzira, deixa seu filho, o Fernando, ir comigo lá para o cinema ver um filme.” Aí ela, então: “não vai, não.” Aí ele disse: “Não pode deixar, eu vou pagar, não sei o quê.” Aí ele conversou, conversou, aí foi que liberou. Foi quando eu comecei a sair.

 

P/1 - Aí você começou a sair, quais eram as coisas que você mais gostava de fazer? Você trabalhava, você estava...?

 

R- Trabalhava. Gostava mais de ir para o cinema, ver o Zorro, tinha o, era... Toda segunda-feira tinha o negócio de Super-homem e eu ia. Fugia até do colégio, porque eu estudava a noite.

 

P/1 - Ah, você estudava de noite. Trabalhava o dia todo e estudava de noite?

 

R- Era.

 

P/1 - Isso em Baiera?

 

R- Era. Aí eu fugia e ia ver o filme na segunda-feira. Toda segunda-feira tinha o negócio do Super-homem, eu ia ver. Ela nem sabia.

 

P/1 - E aí depois… Foi nessa época que você arrumou a sua primeira namorada? Alguma coisa assim?

 

R- Rapaz, é muita história para te contar. Se eu for contar o negócio de primeira namorada é fogo.

 

P/1 - É ruim?

 

R- Hein?

 

P/1 - Conta só da primeira. Não precisa contar as outras, não.

 

R- É ruim, não. Porque eu era afim dela, eu era garoto. Desde pequeno, mas eu sempre não tinha coragem de chegar junto. Mandava bilhete. Os meninos levavam o bilhete, trazia o bilhete. Era para lá e para cá. Ela dizia: “não, não posso namorar agora não, eu estou estudando.” Não sei o quê. Aí depois com um bocado de tempo. Esperei, estava com paciência como dizia a pedra. Esperando para caramba. Aí eu digo: “pô, esperando muito.” Aí uma vez ela decidiu. Eu fui para uma festa, já estava já com dezessete anos.

 

P/1 - Você já gostava dela desde quando?

 

R- Desde os treze anos. Aí eu fui para uma festa, a gente foi para uma festa, um baile. E cheguei lá, ela estava lá, a gente começou namorar. Dessa vez, aí pronto. Mas depois eu namorei ela só uma semana e não quis mais, não.

 

P/1 - Você que se desinteressou depois de quatro anos?

 

R- É, desisti. Depois ela queria, eu não quis mais.

 

P/1 - Poxa vida! Você ficou trabalhando lá e com dezenove anos você veio para o Rio?

 

R- Não, para o Rio eu vim com dezenove passear, só a passeio. Depois eu vim mesmo, depois que eu estava já com 22, 23 anos, nessa faixa.

 

P/1 - E o que aconteceu? Por que você decidiu vim para cá?

 

R- Um problema de, porque eu noivo com uma garota, era filha do coronel. Eu era noivo com ela, aí namorava. Aí chegou uma garota, que hoje é a minha esposa, do Rio. Aí eu namorei ela, foi morar na casa de meu pai, eu fiquei namorando. Eu era noivo com a garota, aí teve problema, porque a mulher pegou, gravidez ela. Aí meu pai fez eu casar.

 

P/1 - A daqui?

 

R- É, a minha mesmo, que eu vivo com ela.

 

P/1 - E aí você abandonou a filha do coronel?

 

R- Abandonei. É, foi o jeito, meu pai fez eu casar com a outra que eu engravidei. E ela era de menor, quinze anos. Tinha feito até o aniversário de quinze anos.

 

P/1 - Ela foi para lá o quê? Passear?

 

R- Não, foi para lá com a mãe dela. A família dela morava na casa dos meus pais. Meu pai tinha uma porrada de casa de aluguel. Tem feito quarto, casinha de aluguel lá.

 

P/1 - Era assim, os seus pais... Ele tinha, como ele era? Era pobre, não pobre?

 

R- Era mais ou menos. Eles tinham, vivia, não era tão pobre. Vivia, tinha alguma coisa para comer, dava para ir levando a vida. Não era rico nem pobre, era mais ou menos, remediado.

 

P/1 - E aí você acabou tendo um negócio com essa menina, engravidou, seu pai fez você casar e aí por causa disso você resolveu mudar de lá?

 

R- É, porque começou a ter muito problema. Tinha muita gente atrás de mim. Garotas batendo na porta. Meu pai veio parar aqui no Rio. Aí pronto, aí...

 

P/2  - E o coronel, não bateu na porta, não?

 

R- Não, ele entendeu. Eu fiquei até com medo dele não...

 

P/2  - Entender.

 

R- É.

 

P/1 - E é, eu já vi que você tinha um monte de namorada, então, um monte, né?

 

R- Não. Quando a minha mãe me soltou, né?

 

P/1 - Também, tinha que prender tanto tempo, né?

 

R- Arrumava só as... Os caras ficavam bolado, porque eu feio para caramba só arrumava namorada, as garotas mais bonitas.

 

P/1 - E como você fazia?

 

R- Nada. Por causa que eu sempre vivi bem. Vivi mais ou menos. Aí o pessoal sempre, a gente arruma, aquilo, certo.

 

P/1 - O quê? Em uma festa, assim?

 

R- Não. É quase em festa. Essa menina mesmo que foi namorada minha, minha noiva, eu demorei, eu investi nela fazia um tempão. Depois de uns três anos que eu investi, ela aí namorou.

 

P/1 - Essa que era do...

 

R- A minha noiva.

 

P/1 - E aí, quer dizer, você teve que casar com essa que é a sua mulher hoje. E aí?

 

R- Eu casei com ela, ela saiu por uma porta, eu por outra. Aí eu...

 

P/1 - Você casou forçado, né, assim?

 

R- Mas a mãe dela mandou lá para casa.

 

P/1 - Ah, vocês casaram, ela foi para a casa e você foi para a sua?

 

R- É, eu fui para o Senai, porque eu estava tirando o curso no Senai. Eu estava ensinando também, porque eu fui instrutor de solda no Senai. O professor tinha um horário que eu ia dar aula, porque o professor estava fazendo faculdade, aí deixava eu lá dando no lugar dele.

 

P/1 - E aí a mãe dela não aceitou de volta não, te mandou?

 

R- Mandou lá para casa.

 

P/1 - E aí?

 

R- E aí quando eu cheguei estava lá em casa, de noite.

 

P/1 - Aí bom, você aceitou tudo?

 

R- É. Minha mãe já tinha feito um quarto lá para mim, um quarto lá.

 

P/1 - Então nem teve uma lua-de-mel, não teve nada?

 

R- Não, não teve nada. A lua-de-mel já tinha passado.

 

P/1 - Quanto tempo faz isso?

 

R- Quanto tempo? Faz 26 anos.

 

P/1 - E vocês nem se separaram mais, ficaram casados mesmo? Tiveram quantos filhos?

 

R- Quatro.

 

P/1 - Acabou dando certo?

 

R- É, acabou dando certo.

 

P/1 - Aí você veio para cá? Chegou aqui e foi morar aonde?

 

R- Fui morar em um quartinho na casa da minha irmã. Minha irmã morava aqui, ela era administradora de empresa. Ela trabalhava na fábrica aí de, fazia esse negócio de refrigeração, de peneira de galinha. Era, como é o nome? Era ___________,  firma parece. Aí eu vim morar lá.

 

P/1 - E era onde isso no Rio?

 

R- Na Teixeira Ribeiro mesmo. Ela tinha, morava em uma casa de aluguel lá. Aí tinha um quartinho imprensado, ela botou uma cama de solteiro. Ficava eu e a mulher lá.

 

P/1 - Sim. E aí você foi procurar trabalho?

 

R- Fui procurar trabalho.

 

P/1 - O que você começou a fazer? Você foi procurar trabalho onde?

 

R- Fui procurar trabalho por aí. Arrumei em Caxias. Lá no Cofre Coringa, hoje é fechado, é fábrica de... Fazia saco. Eu trabalhei lá de soldador. Não. Cofre Coringa eu trabalhei no, não, era Fábrica União de Manufatura. Era no corte oito. Aí depois eu saí de lá, fui para o norte. Voltei de novo, aí fui trabalhar no Cofre Coringa. Ali, fazia cofre, em Caxias.

 

P/1 - Como soldador?

 

R- Era, soldador.

 

P/1 - Você sempre procurava trabalho de soldador?

 

R- Era, soldador, de mecânico. Ajustador mecânico. Mas eu trabalhava mais de soldador.

 

P/1 - Isso na casa da sua irmã? Ficou um tempo lá?

 

R- Morava na casa da minha irmã. Foi um tempão.

 

P/1 - E aí você foi?

 

R- Aí depois ela comprou uma casa. Eu fiquei com a casa dela, aluguei. Não, fui morar em um quartinho embaixo. Aluguei um quartinho lá embaixo, embaixo da casa dela.

 

P/1 - E a sua mulher só cuidando das crianças?

 

R- É.

 

P/1 - Ela não foi trabalhar?

 

R- Não, foi não. Ficou lá em casa.  

 

P/2  - Como era o bairro? Como era a Rua Teixeira Ribeiro naquela época?

 

R- Rapaz, quando eu cheguei ali, já era quase aquele tipo já, foi modificando, as favelas mudando. Mas já era quase daquele tipo. Tem gente que chegou ali, era meu tio, era uma vala ali.

 

P/2  - A rua era asfaltada?

 

R- Quando eu cheguei já era. Meu tio que disse que ela não era asfaltada. Quando eu cheguei ali já era asfaltada. Já era quase daquele estilo já. A gente ficava?

 

P/2  - Já era de alvenaria já?

 

R- Já era. Modificaram alguma coisa, porque até ali na Teixeira, até na metade já era tudo de alvenaria. Depois foi mudando, mudando, mudando. Foi desmanchando aqueles barracos, foi fazendo.

P/2 - E Bonsucesso naquela época como era? Você chegou aqui em que ano? Em setenta por aí, não foi?

 

R- Não, eu cheguei, eu vim em 73, passeando. Eu vinha aqui passear sempre.

 

P/2  - Mas quando veio com a família, veio em que ano?

 

R- Já faz o quê? Faz 25 anos, tem quanto?

 

P/2  - 78, 77 por ai, né?

 

R- É.

 

P/2  - Como é que era o bairro de Bonsucesso naquela época? O senhor circulava por ali, o senhor trabalhava em Caxias?

 

R- Não, eu não circulava por ali, não. Eu sempre saía de casa para o trabalho.

 

P/1 - Mas e lá no...

 

R- Ir para a feira. Eu só conhecia sabe o quê?

 

P/1 - Hum.

 

R- Teixeira Ribeiro, Feira de São Cristóvão, Feira de Niterói e São Paulo. Porque viajava para São Paulo. Depois que eu comecei a trabalhar na feira.

 

P/1 - Então explica melhor. Você saia de casa, Teixeira Ribeiro. Aí você ia para a Feira de São Cristóvão, você começou a trabalhar lá com quem?

 

R- Com meu tio, era. Trabalhava com ele.

 

P/1 - Ele tinha uma casa?

 

R- Casa Paraibana, ali. Era dele.

 

P/1 - Ele que inventou essa casa?

 

R- Foi, ele é que inventou.

 

P/1 - Como é que funcionava essa casa? Você sabe quando ele começou?

 

R- Não, a história dele que ele começou... Ele “coisava” lá em Caxias. Em Caxias não, lá em (Vilar dos Teles?) ele tinha um negócio em (Vilar dos Teles?) uma pensãozinha, botava uns negócios. Depois ele para ali, alugou uma loja do lado de cá, uma lojinha pequenininha. Aí começou vendendo uns troços lá, rapadura, esses trem, queijo.

 

P/1 - Ele trazia do Nordeste?

 

R- É. Ele ia buscar queijo em Minas também, ia buscar em Minas. E o pessoal trazia. Ele ia comprar em São Paulo. Aí comprou uma Kombi, ia comprar mercadoria em São Paulo. Em São Paulo, lá no Brás tudo é do Nordeste. Aí começou.

 

P/1 - Aí ele vinha em São Paulo, buscava as coisas e fazia a casa. E como era a feira nessa época? Tinha muita gente?

 

R- Tinha, a feira, naquele tempo, era muito bom. Lá a feira, a gente não tinha tempo nem de comer.

 

P/1 - Muita gente?

 

R- Muito movimento, é. A gente levava um caminhão, um baú cheinho, levava trinta, quarenta saco de farinha, feijão para caralho. Carne dependurava assim, nego não pedia de meio quilo, não. Era quatro, cinco quilos, tu cortava.

 

P/1 - Mas quem vinha comprar? O pessoal vinha de que região comprar?

 

R- Ah, vinha de todo lugar. Caxias, o Rio de Janeiro inteiro, todo mundo ali.

 

P/1 - Mas gente em geral que vinha que era do Nordeste?

 

R- Do Nordeste, é.

 

P/1 - Era só nordestino?

 

R- Nordestino. Tinha um bocado de gente. Ali de primeiro ia a Elke Maravilha, Dedé, Renato Aragão passava muito ali. Chico Anysio ia lá comer rapadura com feijão. Ele raspava a rapadura, sempre na barraca lá na feira. De primeiro iam, hoje em dia não vão mais, porque ficou brabo o negócio. Hoje em dia é difícil. Chico Anysio quase todo domingo ia com a mãe dele.

 

P/1 - Então aí, quer dizer, a feira era todo dia de noite? Como era a barraca?                                                                                                

 

R- Não, lá de primeiro só começava no, a feira só era domingo, no domingo de manhã. Chegava de três da madrugada no domingo, aí armava barraca e começava de manhã bem cedinho.  

 

P/1 - E o seu tio usava a semana para fazer as compras?

 

R- Era.

 

P/1 - E esse era o único negócio dele?

 

R- Era.

 

P/1 - E dava para viver?

 

R- Dava. Vixe! Vendia muito. De primeiro era bom. Tudo o que ele construiu foi na Feira de São Cristóvão. Ele tem negócio do norte, foi tudo da Feira de São Cristóvão.

 

P/2  - E as outras feiras que o senhor citou? Feira de Niterói?

 

R- Era, depois começou uma feira, fizeram uma feira em Niterói. Ele começou a fazer também, era boa. Ali embaixo depois da, debaixo da ponte. Passava pedágio, embaixo da ponte tinha uma feira ali.   

 

P/2  - Essa feira começou em que ano? Durou quanto tempo? Até que ano?

 

R- Rapaz, essa feira começou em setenta, em oitenta, oitenta e pouco, oitenta e… Deve ter durado uns cinco, durou uns seis anos, oito anos.

 

P/2  - Era uma feira nordestina também?

 

R- Ela durou, durou um bocado de tempo, depois parou, acabou.

 

P/1 - Bom aí nessa época, você quer dizer, nós estamos falando desses anos setenta. Você trabalhava na feira com seu tio? E que mais você fazia durante a semana?

 

R- Trabalhava de empregado.  

 

P/1 - De soldador?

 

R- Era.

 

P/1 - Nessa Matarazzo ou na União?

 

R- Não, não. Na União ainda.

 

P/1 - Então durante a semana você trabalhava de soldador e na feira?

 

R- Era.

 

P/1 - E aí você ficou nesse trabalho quanto tempo?

 

R- Fiquei pouco tempo. A base de um ano.

 

P/1 - Está. E aí depois disso?

 

R- Depois eu fiquei trabalhando com ele, com meu tio.

 

P/1 - Durante a semana?

 

R- É, comecei a trabalhar na loja dele também.

 

P/1 - Ele tinha loja?

 

R- Tinha duas lojas. Ele tinha uma loja, abriu outra loja.

 

P/2  - Uma era a Casa Paraibana. Qual era a outra?

 

R- A outra era a Casa da Farinha.

 

P/2  - Ficava onde?

 

R- Ficava na Teixeira mesmo.

 

P/2  - Tudo na Teixeira?

 

R- É. hoje tu viu aquela loja de móvel, hoje é de móvel. Aquela loja grandona era dele.

 

P/1 - No começo da rua?

 

R- É, uma loja bem grandona. Ali era dele. Ali era a Casa da Farinha.

 

P/1 - Como era o comércio na Teixeira Ribeiro nessa época? Qual é as casas que tinham ali? Porque o senhor lembra que não tem mais hoje em dia?

 

R- Não me lembro muito, não. O que não tem mais hoje em dia, foi desmanchado.

 

P/2  - Mas era um comércio voltado para quê? Tinha produtos nordestinos que era Casa Paraibana?

 

R- Tinha tipo barracão, um tipo de... Antes de ter o mercado era barracão. O pessoal vendia. Até que pegou fogo lá num e o meu tio comprou, o armazém. Era armazém.

 

P/2  - Armazém?

 

R- Era. Tinha aquela loja ali na esquina, era loja de material de construção, grandona. Acabou-se também, quebrou. Aquela que faliu.

 

P/2  - Como é que era o relacionamento do seu tio com os fregueses? Eram os fregueses que visitavam?

 

R- Era... Os fregueses?

 

P/2  - É.

 

R- A maioria é nordestino.

 

P/1 - Nessa região a maioria das pessoas que moram lá vieram da Paraíba?

 

R- Vieram da Paraíba. A maioria é...

 

P/1 - Lá da sua cidade?

 

R- Da minha cidade, não. De várias cidades. Vieram do interior da Paraíba. Uns vem de Catolé do Rocha, outros não sei da onde, Espírito Santo, de Sapé.

P/1 - E vieram na mesma época que você ou muita gente veio depois?

 

R- Muita gente veio antes, outras vieram depois, _____ veio depois.

 

P/1 - E é da Paraíba. Quer dizer, não mistura com Pernambuco?

 

R- Não, mistura. Tem ali, tem pernambucano. Tem até cearense ali.

 

P/2  - Mas todos compram na Casa Paraibana?

 

R- É, compra, um bocado compra.

 

P/2  - Não tinha uma concorrência, uma Casa Pernambucana ali?

 

R- Tem, tem, teve concorrência. De primeiro começou concorrência para caramba. Primeiro não tinha. Hoje em dia tem muita concorrência.

 

P/2  - Hoje?

 

R- Hoje é demais. Hoje um quer, os outros querem engolir os outros. Os caras só.

 

P/1 - Daí você acabou assumindo o negócio do seu tio?

 

R- Foi.

 

P/1 - Quando?

 

R- Eu assumi o quê, faz uns dez anos.

 

P/1 - O que aconteceu aí?

 

R- Aconteceu que o negócio foi caindo. O negócio, muita concorrência. Ele foi enjoando também, que já é trabalhar demais. Porque ele trabalhava demais.

 

P/1 - Como é que era?

 

R- Tu chegava da feira, descarregava o caminhão e viajava para São Paulo no domingo de noite. Mesmo cansado.

 

P/1 - Pegava o caminhão, viajava como? De caminhão?

 

R- De caminhão. Fazia compra.

 

P/1 - Com o caminhão que vocês já tinham?

 

R- É.

 

P/1 - Próprio? Não era um caminhão?

 

R- Não. Era caminhão próprio que a gente tinha comprado. De primeiro não, depois pagava frete. Depois a gente comprou o caminhão. Aí começamos a melhorar.

 

P/1 - Aí vocês vinham para São Paulo no domingo a noite mesmo? Aí fazia o quê? Chegava em São Paulo?

 

R- Chegava em São Paulo, aí de manhã fazia compra. Carregava o caminhão e viajava de volta de noite.

 

P/1 - E não dormia? Nem parava para dormir em lugar nenhum?

 

R- Dormia, às vezes cochilava.

 

P/1 - Mas no caminhão mesmo?

 

R- No caminhão mesmo, no caminhão.

 

P/1 - Aí trazia a compra de São Paulo. Chegava aqui na terça. Aí de terça a sexta fazia o quê?

 

R- Descarregava. Trabalhava o dia todinho descarregando o caminhão.

 

P/1 - Na terça?

 

R- É.

 

P/1 - E aí?

 

R- Aí dormia. Ia para casa descansar.

 

P/1 - E aí o que fazia na quarta?

 

R- Na quarta-feira era, a gente vendia cerveja também. Cerveja Antártica. Vendia uma faixa de cem caixas, 150 na feira. Entregava cerveja para o pessoal vender na feira. Aí chegava a cerveja e iam tirar das caixas, trocar de caixa. Era uma luta danada.

 

P/1 - E aí na quarta e quinta vocês ficavam distribuindo cerveja?

 

R- Levava, carregava o caminhão e levava para a feira. Entregava nas duas feiras, na de Niterói e São Cristóvão.

 

P/1 - Isso quarta, quinta e sexta?

 

R- Não, isso era na sexta. Ainda na sexta de noite para São Cristóvão.

 

P/1 - E no sábado?

 

R- Terminava a feira de lá. Voltava para carregar o caminhão de novo para a Feira de São Cristóvão.

 

P/1 - Trabalhava e tinha algum dia que ficava sem fazer nada?  

 

R- Não, é que trabalhava bem umas quinze pessoas com a gente. Nada.

 

P/1 - Quinze?

 

R- Tinha um bocado. Trabalhava uns quinze.

 

P/1 - Era o quê, funcionários?

 

R- Só família. Tinha funcionário e tinha uma porrada de família ainda. Inclusive meu pai ajudava, meu tio, tinha dois tios meus que trabalhavam.

 

P/1 - E aí vocês dividiam o ganho? Como é que era? Era o seu tio que pagava todo mundo?

 

R- Aí pagava todo mundo.

 

P/1 - Ele era o dono. Ele pagava todo mundo. Você lembra quanto que você ganhava nessa época?

 

R- Não, não lembro não. Eu até...

 

P/1 - Ganhava muito ou ganhava pouco? Dava para viver? Ficava sempre na pendura?

 

R- Mais ou menos. Ficava sempre na… Dava para ir levando, ficava sempre na pendura.

 

P/1 - Mas deu para, por exemplo, construir uma casa para você, ou?

 

R- Deu, construiu.

 

P/1 - Esse dinheiro, você ia fazendo a casa, como que era?

 

R- Não, não. Eu ia juntando, eu comprei. Era a casa que eu morava de aluguel, aí eu comprei.  

 

P/1 - E o seu tio conseguia pagar quinze pessoas com esse negócio?

 

R- Pagava.

 

P/1 - E aí ele cansou?

 

R- Cansou.

 

P/1 - E aí ficou na sua mão, ou na mão de todo mundo?

 

R- Ficou, não, aí na feira ele botou um bocado de empregado, passou pra gente. Mas aí não foi dando certo. Foi saindo um, saindo outro, saindo. Tinha o gerente dele, aí começou viajar, foi para o norte. Comprou casa lá no norte, ficou morando lá, levou a família para lá.

 

P/1 - E seu tio?

 

R- Aí ele só ficava administrando. E aí ele botou um gerente, eu que ficava aqui mais o gerente. Ele fazia compra, viajava, trazia a mercadoria. Tinha três caminhões. Aí ele trazia mercadoria de lá para cá.

 

P/1 - E ele mandava os caminhões com as mercadorias, você catava as mercadorias aqui e botava na feira?

 

R- É, aí depois o gerente saiu, comprou uma loja para ele. Aí ficou concorrente da gente.

 

P/1 - Você tinha uma freguesia fixa lá. Por exemplo, um pessoal que só comprava na Casa Paraibana? Você tem até hoje?

 

R- Tinha. Tem uns ainda fixo que só compra comigo.

 

P/1 - E por que compra? O pessoal da mesma cidade? Gosta daquele?

 

R- Não, é porque gosta da gente. Gosta de mim, gosta de comprar, mas hoje em dia o nego está comprando, está saindo fora. Compra onde estiver mais barato, porque tem muita gente concorrente. Cada um quer derrubar o outro.

 

P/1 - Qual é o produto que mais saía nesse tempo? Qual o produto que você sempre compra, sempre sai?

 

R- Queijo coalho.

 

P/1 - Queijo coalho?

 

R-  Queijo coalho, ______.

 

P/1 - E vocês tem que trazer lá da Paraíba o queijo?

 

R- Não, esse queijo já não vem da Paraíba mais.

 

P/1 - Vem de onde?

 

R- Esse queijo está vindo do Pará.

 

P/1 - Longe?

 

R- É queijo passado na brasa.

 

P/1 - E por quê vem de tão longe?

 

R- Porque de lá chega mais barato aqui. Lá tem mais leite, tem mais.

 

P/1 - Mas quem faz esse queijo lá? Vocês compram de uma empresa?

 

R- Compra de uma firma. Um colega meu, que também trazia, ele fazia em casa lá. O pessoal lá comprava de fazendeiro. Trazia, hoje ele fez uma fábrica lá, uma fábrica de fazer queijo.

 

P/1 - E você compra dele o queijo coalho? E da Paraíba você compra o quê?

 

R- Compro cachaça, feijão, farinha.

 

P/1 - E o pessoal que produz é uma firma, ou você sabe de quem comprar lá?

 

R- Não, eu sei de quem compro. Ele compra dos produtores lá e eu compro dele. É o seu João Grota, está lá em Campina Grande.

 

P/1 - E o seu João Grota é que sabe onde comprar e você chega e compra tudo de seu João Grota? Aí quando você trás para cá, você já sabe quando sai?

 

R- Sai.

 

P/1 - E o tipo de pessoal que está comprando? Está com mais dinheiro, com menos dinheiro? O que mudou nesses últimos anos?

 

R- Mudou agora ultimamente, nego está meio quebrado. O dinheiro foi diminuindo, se acabando. Nego dando calote, não tem condições de pagar. Vai compra a mercadoria, compra dois, três milhões, não têm condições de pagar mais. Aí pronto, foi comprando, aí fica enrolando, enrolando. Fica pagando de pedacinho, de cem reais, de duzentos.

 

P/1 - Mas o que compraria para ver... Aí não compra um queijo, né? O pessoal que compra para fazer alguma outra coisa.

 

R- Compraria para revender. Eu vendo para revender. Eles compram, tem lojinha, eles compram aí para revender, porque eu já vendo agora para revender.

 

P/1 - Você não vende mais direto para o público?

 

R- Vendo também, tenho uma lojinha que eu vendo.

 

P/1 - Você tem uma loja para público e uma que você compra para só vender em lojinhas?

 

R- Só em lojinha.

 

P/1 - Esse pessoal que não está conseguindo pagar?

 

R- Não estão conseguindo, não estão conseguindo, não.

 

P/1 - E eles vendem onde?

 

R- É um bocado de lugar. Vendo para a Rocinha, vendo para o Rio das Pedras. Vendo para Cabo Frio, Caxias, Nova Iguaçu, Campo Grande. Eu vendo para todo canto.

 

P/1 - Nossa, é um monte de vendedor de queijo coalho aí?

 

R- Recreio, eu vendo para o Recreio. Distribuir no Rio em geral.

 

P/1 - Eles é que vêm, não é você que manda entregar não?

 

R- Eu mando entregar também.

 

P/1 - Você tem quantos caminhões?

 

R- Não. Eu tenho Kombi. Tenho duas Kombi para a gente fazer a entrega. E tem um caminhão. O caminhão é que viaja, que leva mudança e trás mercadoria para mim.

 

P/1 - Você tem um caminhão que vai buscar as coisas no norte e trás para você, aí você distribui aqui para o pessoal? Você já tem a quantidade certa para todo mundo?

 

R- Tenho.

 

P/1 - Ou ele tem que fazer o pedido?

 

R- Não, o pessoal não pede. Vem, eu descarrego. Aí o pessoal fica pedindo. Mas eu sempre pago o frete. Aí o caminhão vai, já tem toda a carga completa para trazer, porque agora está brabo de comprar. De primeiro a gente comprava dois, quatro, três caminhões, vendia. Hoje em dia não.

 

P/1 - O que é esse seu hoje em dia? Desde quando começou a piorar?

 

R- Desde de, está fazendo o quê, uns quatro anos. Quatro, cinco anos começou a piorar. O negócio foi caindo.

 

P/1 - Você acha que piorou por causa de quê?

 

R- Começou a piorar sabe por quê? Depois desse que o Collor entrou.

 

P/1 - O Collor? Mas o Collor já entrou há treze anos.

 

R- Então, mas aí começou a...

 

P/1 - Desde ele?

 

R- Desde ele. Porque onde ele começou a circular dentro, ele começou contra os marajás. Aí o que acontece... Mas aí foi começando a descobrir, você de antigamente nunca via um cara grande ser preso. Você já viu? Nunca vi.

 

P/1 - Um o quê? Ah.

 

R- A pessoa grande ser chamada na justiça, você já viu? Nunca vi. Agora, depois do Collor começou. Aí nego não libera mais dinheiro. Aí foi começando a, o cara prender o dinheiro. Primeiro tu vê o político, aparecia dinheiro era doido aí. Vê agora um político candidato, vê se ele distribui dinheiro aí para campanha. É ruim. Fica tudo trumbicado.

 

P/1 - Aí foi ficando mais difícil de vender?

 

R- Foi ficando difícil.

 

P/1 - E o que isso mudou no seu cotidiano? Você passou a comprar menos, na sua casa mudou alguma coisa de dinheiro do dia-a-dia ou não mudou?

 

R- Não, não mudei, não. Mudou eu comprar menos.

 

P/1 - Mas o dinheiro que você ganha para sustentar a sua família está igual?

 

R- Não está igual não. Está...

 

P/1 - Mais difícil?

 

R- Mais difícil.

 

P/1 - E no bairro ali, mudou alguma coisa nesses últimos anos?

 

R- No bairro mudou, mudou.

 

P/1 -  O quê?

 

R- Mudou muito. Mudou o quê. Mudou, vamos supor, ficou mais difícil. Não sei por causa de quê. Acho que por causa da bandidagem, deve ser. Muito difícil. O pessoal fica com medo de ir e o caramba. Só vê tiroteio aí, só vê não sei o quê. Só vê morte, só vê no sei o quê. Aí fica ruim. O comércio caiu, quebrou.

 

P/1 -  Você vive...

 

R- O comércio ali quebrou. De primeiro a gente vendia. Ia gente de fora, ia comprar por tudo, levava uma porrada. Hoje em dia o comércio fracassou demais.

 

P/1 - Ninguém mais vai lá?

 

R- Vai, mas é mais difícil. Fica mais devagar. De primeiro o pessoal vinha de um lado, vinha do outro para fazer compra.

 

P/2  - E de onde que eles vinham?

 

R- O pessoal dali da Baixa, da Vila do Jongo, do Pinheiro, do Morro. Todo mundo vinha comprar na Teixeira, ali era o centro de compras.

 

P/1 - Teixeira era o centro de compras de...

 

R- Era.

 

P/2  - Dos produtos regionais?

 

R- É, produtos.

 

P/2  - O senhor acha que pararam de comprar? Explicitamente tem menos gente agora do Nordeste?

 

R- É, tem mais gente e pararam mais de comprar. Não sei, não entendo nada.

 

P/2  - Tem mais gente hoje lá e tem menos gente comprando? É isso?

 

R- É, mas sabe o que é isso? São esses shoppings que estão, acho está entrando no...

 

P/1 - Mas quem vai comprar queijo de coalho em um shopping?

 

R- Não é queijo coalho. Mas e os outros produtos? Hoje em dia no mercado, de primeiro não vendia feijão fradinho, não vendia feijão carioca, feijão de cor não vendia. Hoje em dia vende. Feijão rajado a gente que trabalhava, que vendia isso, trazia do Nordeste. Feijão rajado, feijão gordo, feijão manteiga. Hoje em dia os mercados tudo vende.

 

P/1 - Então você parou de trazer os feijões?

 

R- Não. Trago.

 

P/1 - E a farinha?

 

R- Trago também.

 

P/1 - Porque também tem no mercado, né?

 

R- Só que a farinha do mercado já é mais uma, não é boa. Não é igual a da gente.

 

P/2  - O senhor pode descrever para a gente como é a sua loja? A gente está falando já da Casa Paraibana, para a gente ver como é a loja, como são organizados os produtos. E por alto o que o senhor vende?

 

R- O que eu vendo?

 

P/2  - É.

 

R- Eu vendo tudo. Tudo que é do Nordeste eu vendo.

 

P/1 - Então vamos descrever. Tem feijão?

 

R- Feijão carioca, feijão rajado, feijão manteiga, feijão de corda, feijão sempre verde, feijão carioquinha, feijão gordo, feijão branco.

 

P/1 - Feijão gordo? Como é feijão gordo?

 

R- É um feijão que tem lá no norte. É redondinho ele. Ele parece feijão manteiga, só que ele é redondo. Fava vovó, fava manteiga, fava raio de sol, tem fava cearense.

 

P/1 - E você põe essas coisas em saco?

 

R- É, em saco, em saco. Tem fava de todo tipo. Aí tem aguardente. Cachaça, tem um bocado de cachaça.

 

P/1 - Essa cachaças que vem da Paraíba?

 

R- Da Paraíba. É Engenho do Meio, Maribondo.

 

P/1 - Qual o nome dessas cachaças?

 

R- Engenho do Meio, Marimbondo, Soldado de Engenho, Olho D’água, Serra Grande. Porra, tem um bocado. Várias.

 

P/1 - Elas são o quê? Estilos diferentes?

 

R- São estilos diferentes.

 

P/1 - Aí tem cachaça, feijão, o quê mais?

 

R- Aí tem azeite de dendê que vem da Bahia, vende também. Tem peixe seco. Camarão seco. Peixe seco é Mulato Velho, Curimatá, Sardinha, Traíra, Merluza.

 

P/2  - O senhor vende ervas também?

 

R- Ervas não. Eu vendia, mas não vendo, não. Erva só vendo aquela cabacinha, que é para fazer inalação, serve para sinusite, para a garganta.

 

P/2  - Carne de sol, mandioca, o senhor vende também?

 

R- Carne de sol, vendo carne de sol. E inhame.

 

P/2  - Inhame e quê mais?

 

P/1 - Tudo que vem de lá?

 

R- Manteiga de garrafa. Vendia arribação, mas hoje não estou vendendo porque está proibido.

 

P/2  - Arribação é o que?

 

R- É passarinho.

 

P/2  - Passarinho? O senhor vendia lá?

 

R- É arribação. Voador, vendo voador. Peixe voador, conhece?

 

P/1 - Como que é esse peixe voador?

 

R- É, peixe voador dá muito lá em Cabedelo. Eles botam um óleo assim, ou senão acendem num barco. No barco eles botam uma lamparina, uma luz e aí eles voam para dentro, de noite, cai tudo dentro do barco, dentro da canoazinha.

 

P/1 - Aí seca esse peixe é isso?

 

R- É, bota no... Abre ele, bota no sal, seca ele. Aí vende.

 

P/2  - E vestimenta? Artesanato? O senhor também vende?

 

R- Vendo.

 

P/2  - O que o senhor trás de lá?

 

R- Quando eu estou passeando assim, eu trago um bocado de trem. Berimbau, um bocado de negócio.

 

P/2  - Roupa mesmo, também trás?

 

R- Roupa mesmo eu trago.

 

P/2  - Quem compra isso?

 

R- Sela de cavalo.

 

P/2  - Sela de cavalo? Quem compra esse tipo de...?

 

P/1 - Chapéu?

 

R- De vez em quando aparece um doido e compra.

 

P/1 - Mas o que...

 

R- Chapéu também tem. Trago chapéu de couro, chapéu. Sempre tem gente, você vende tudo. Sempre aparece um doido que compra. Eu não compro? Não apareço às vezes para comprar?

 

P/1 - E botas, você trás também?

 

R- Trago também. De vez em quando eu trago, os caras pedem. Eu trago pouquinho bota. Eu trazia de primeiro muita, mas o negócio caiu diferente, caiu muito. Para vender nem vem hoje.

 

P/2  - Só por encomenda?

 

R- É.

 

P/1 - Qual é o tamanho da loja? Porque eu não fui lá.

 

R- Agora eu estou, não sei quanto mede.

 

P/1 - É do tamanho dessa sala?

 

R- Não, é maior.

 

P/1 - É maior?

 

R- É.

 

P/1 - Você tem quantos funcionários?

 

R- Eu tenho seis. Cada loja tem três. Na outra tem mais três. Fora meu garoto, eu, a minha mulher também trabalha.

 

P/1 - Mas você tem quatro filhos?

 

R- Tem dois garotos que ficam na loja também.

 

P/1 - Eles tem quantos anos?

 

R- Um está com dezoito e o outro está com treze.

 

P/1 - E eles trabalham na loja contigo?

 

R- Trabalham. E tem um com três anos e tem uma garota com dezenove.

 

P/1 - Trabalha lá também?

 

R- Não.

 

P/1 - O que ela faz?

 

R- Ela agora só está tomando conta do menino. Arrumou um menino só a danada.

 

P/1 - Arrumou um menino? Cedo demais também.

 

R- Estudava. Estava fazendo, ia fazer faculdade de medicina. Estava fazendo enfermagem. Aí parou com tudo. Arrumou um sem vergonha aí.

 

P/1 - Já casou? O senhor obrigou ela a casar?

 

R- Nada. Não, obriguei não.

 

P/1 - Mas ela mora contigo ou mora?

 

R- Mora, vou fazer o quê? A mãe dela não deixa ela, não quer. Vamos parar por essa. Vamos falar de outro. Deixa ela.

 

P/1 - E os meninos estudam também?

 

R- Estudam. Meus garotos estudam. Meus garotos são legais. Meus garotos são gente fina.

 

P/1 - O de dezoito?

 

R- O de dezoito, é.

 

P/1 - Ele estuda o quê? Na escola?

 

R- Está fazendo o pré-vestibular agora.

 

P/1 - Ele vai fazer o quê?

 

R- Ele vai fazer, é como é? O negócio de computação, é _____.

 

P/1 - Informática?

 

R- É informática.

 

P/1 - Ah, que bacana. Ela já botou informática na sua loja?

 

R- Ele jogava bola, ele jogava, ele estava, como dizer que ele queria ser jogador. Mas não deu. Ele vai até agora jogar. Vai entrar no time que está no campeonato. Vai entrar no Olaria, no time de cima. O cara vai levar ele. O cara está no time de cima, se der sorte.

 

P/2  - Esse é que está fazendo informática? Quer fazer informática?

 

R- É. Ele está fazendo o pré-vestibular agora.

 

P/1 - Quer dizer, então todo mundo, seus garotos trabalham na loja, sua esposa trabalha lá também?

 

R- Trabalha.

 

P/1 - Quer dizer, todo mundo. Como é? O mesmo trabalho que o senhor tinha. Como é agora o dia-a-dia desse trabalho? Você descreveu assim, é tão trabalhoso quanto? Como que é?

 

R- Não, agora não é mais trabalhoso igual antigamente. Agora o negócio ficou devagar. Agora está devagar. De primeiro trabalhava muito. Tinha muita agitação, muita gente, comprava, pá. Hoje o comércio parou. Parou no tempo.

 

P/1 - Então a freguesia entra só de vez em quando?

 

R- É, de vez em quando compra, não é igual antigamente. De primeiro você não parava, suava direto. Era freguês aqui. “Ô, me dê um negócio.” Tu botava quatro, cinco funcionário para atender e não dava invasão. Hoje tu vê um freguês, daqui a pouco vem aí. Aí quando vem enche um bocado, aí para, aí dá um tempo.

 

P/1 - E o tipo de coisa que os fregueses compram, mudou?

 

R- Não. Eles compram os negócios. Eles sempre querem coisa diferente. Sempre novidade.

 

P/1 - O que faz você manter um freguês? O que você acha que dá certo assim?

 

R- Atendimento, né?

 

P/1 - Atendimento?

 

R- Atendimento. Se você tratar bem o freguês, o freguês volta. Se não tratar bem, hoje em dia é isso também. O atendimento direito, porque às vezes tem freguês... Eu tenho um freguês mesmo que eu. Eu mesmo sou um freguês que eu, eu tenho, eu compro uma mercadoria lá em São Paulo de uns caras mesmo. Se ele tiver mais aqui, eu compro nele, não compro no outro.

 

P/1 - Por quê você gosta dele?

 

R- É.

 

P/1 - E você acha que acontece com o pessoal que compra na...?

 

R- De primeiro acontecia, hoje em dia não está acontecendo mais, não. Alguns ainda faz isso. Tem outro que compra comigo. “Não. Pode ser o preço que for, eu compro contigo.”

 

P/1 - Agora tem uma turma que já está buscando preço?

 

R- É.

 

P/1 - E qual é a diferença da loja que você tem na feira da que você tem lá na Teixeira Ribeiro? É outro público? Tipo de coisa que vende? Qual é a loja que...?

 

R- Não. Vende a mesma coisa. Agora é outro público. Outro negócio. Porque hoje em dia na minha loja eu vendo até ração de animais também. De primeiro não vendia.

 

P/1 - E lá na feira não, né?

 

R- Não. Na feira não.

 

P/1 - É só produto?

 

R- É só produto do Nordeste.

 

P/2  - Mas na feira você não tem tudo que tem na loja. Como é que é a barraca do senhor na Feira de São Cristóvão? O que vende na barraca?

 

R- Eu vendo tudo o que for do norte, cara.

 

P/2  - Mas vende comida pronta?

 

R- Não. Comida pronta não. Só vendo para fazer.

 

P/2  - Produtos para fazer?

 

R- Não comida, não trabalho com comida pronta não.

 

P/2   – O senhor também é fornecedor de boa parte daquelas barracas?

 

R- É, forneço feijão, negócio para o pessoal fazer lá, aqueles negócios.

 

P/1 - Fazer aquelas comidas?

 

R- É, fazer as comidas.

 

P/2  - O senhor lembra qual o freguês mais antigo que o senhor tem. Que era da época do seu tio ainda e continua comprando até hoje lá? Tem um pessoal que é fiel?

 

R- Tem, tem. Tem um até que estava comigo ontem, é o Paulinho. O Paulinho é desde a época de meu tio.

 

P/1 - Ele sempre vem comprar?

 

R- Sempre vem.

 

P/2  - Ele também tem uma lojinha? Ele compra do senhor?

 

R- Tem, tem uma lojinha. Ele trabalha, tem a feira, ele faz , tem a feira também do Gardênio.  

 

P/1 - Agora explica uma coisa para mim. Você tem outros negócios, né? De transporte, que negócio são esses? Tem outras, outras, de mudança?

 

R- É, tenho o negócio de mudança.

 

P/1 - O que é esse negócio de mudança?

 

R- A gente pega a mudança. O pessoal quer ir embora para o norte, aí a gente distribui o cartão para o pessoal. O pessoal liga e tal. Aí a gente vai na casa dele. Tem um menino que vai lá.

 

P/1 - Mas o que você comprou para isso? Um carro?

 

R- Tem um caminhão.

 

P/1 - Um caminhão?

 

R- Um caminhão baú que leva.

 

P/1 - Entendi. Quando essa ideia surgiu, foi uma ideia? Foi para quê?

 

R- Não, é que a ideia, é que a gente começou a viajar para o Nordeste. Meu tio, isso é do meu tio, vem do meu tio. Aí ele começou a ir para o Nordeste comprar a mercadoria. Ele comprou um caminhão, depois comprou o outro, comprou o outro. Aí surgiu o negócio dele levar mudança. Aí botou mudança.

 

P/1 - E sai o quê? Uma vez por semana?   

 

R- Uma vez por mês.

 

P/1 - Uma vez por mês. Quer dizer. A pessoa agenda e?

 

R- É, vai pegando as mudanças, vai juntando. Vão botando em um depósito. Aí depois carrega o caminhão todo no final da semana, sexta feira. Aí vai embora, sai entregando. Pernambuco, Maceió, Salvador, Natal.

 

P/1 - Mas e essa mudança? É o pessoal mudando para lá ou mandando coisas para a família?

 

R- Mudando para lá.

 

P/1 - Tem muita gente indo embora?

 

R- Tem muita gente indo embora.

 

P/1 - É mesmo?

 

P/2  - Esse negócio então está melhorando aí?

 

R- É.

 

P/2  - Esse está melhor?

 

R- O Nordeste está ficando bom. Nego está indo embora. Tem uma porrada indo embora.

 

P/1 - Quando que cresceu o negócio das pessoas irem para lá?

 

R- Já faz o quê. Faz uns três a quatro anos já, cinco anos.

 

P/1 - Isso é por quê? Por que lá tem trabalho? Porque aqui está violento?

 

R- Não, é porque aqui está violento.

 

P/1 - É porque aqui está violento?

 

R- Está violento.

 

P/1 - Como é que é esse negócio do comércio e ser violento? O que acontece no dia-a-dia? Tem que fechar o comércio? O que acontece?

 

R- É, tem que fechar. Quando acontece algum acidente por lá com os cabras, tem que fechar.

 

P/1 - Por quê, manda fechar e todo mundo fecha?

 

R- É, ninguém nem sabe de onde vem a...

 

P/1 - A notícia?

 

R- A notícia, só é pra fechar. Fecha e fecha e fecha.

 

P/1 - E quando está aberto tem coisa de tiroteio? Quando a polícia aparece.

 

R- De vez em quando tem. Sempre tem.

 

P/1 - Isso é o quê? Uma vez por semana que acontece?

 

R- De vez em quando aparece. Uma vez por semana. Tem vez que demora, mas quase todo dia, de vez em quando tem.

 

P/2  - Isso é um problema que sempre teve ou piorou?

 

R- É. Não, realmente de primeiro não tinha tanto assim, hoje em dia os caras estão enfrentando as polícia. As polícia passa, o cara, os nego, de noite chegou essa hora, sete horas os policia entrava, os nego mete bala. Tiroteio, o nego fica tudo assustado. Até os meninos ficam tudo. Eu tenho um moleque lá em casa se tremendo todo.

 

P/1 - Por quê vocês escutam tudo?

 

R- É, escuta tiro.

 

P/2  - A casa do senhor é perto da loja?

 

R- É, eu moro perto. Eu tenho uma casa lá perto.

 

P/1 - Mas aí a sua mulher, o pessoal, o senhor não pensa em sair dali?

 

R- Penso.

 

P/1 - Você tem vontade de morar em outro lugar?

 

R- Tem, tenho. Se Deus quiser, eu estou batalhando para sair.

 

P/1 - Está batalhando para sair?

 

R- É, comprar uma casa lá fora.

 

P/1 - Você queria morar aonde?

 

R- Eu mesmo queria morar sabe aonde? No Nordeste, ir morar no norte. Eu queria voltar para lá.

 

P/2  - Mas para cidade ou para outra...?

 

R- Para outra cidade. Para minha cidade, para outra cidade, mas que seja para o lado de lá.

 

P/2  - Trabalhar com comércio lá também?

R- Não, eu ia inventar alguma coisa. Trabalhar com alguma coisa.

 

P/1 - Mas você pretende fazer isso ou é um sonho?

 

R- Não, eu pretendo mesmo.

 

P/1 - E a sua mulher, os filhos, iriam todo mundo?

 

R- Todo mundo, eu ia levar todo mundo.

 

P/1 - Quando você pretende fazer isso?

 

R- Daqui, eu estou esperando.

 

P/1 - Está esperando o quê? Juntar dinheiro? Você quer vender o negócio?

 

R- É, tem que ver, vender o negócio. Dar um negócio. Eu estou esperando ver o que eu vou fazer. Tem que ter um capital, para eu chegar também sem, para voltar não adianta, porque muitos colegas meus vão e voltam. Vende os negócios ali tudinho, chega lá e quebra a cara, volta né? E aqui é difícil, mas de qualquer maneira tu arruma.

 

P/1 - Porque aqui tem algum dinheiro?

 

R- É.

 

P/1 - E lá não?

 

R- E lá é difícil de tu arrumar. Ter tem, mas tu se acostumou com o seu, o padrão de vida diferente. É mudar, é ruim de mudar. Para mudar é difícil, é difícil.

P/1 - O que é o padrão de vida lá, o que é melhor, o que é pior? Você volta para lá sempre, não volta?

 

R- Volto.

 

P/1 - Então o que é muito diferente?

 

R- Lá porque você gastou X, aqui tu gastou, tu daqui a pouco tu recupera. E lá tu não recupera. Para tu recuperar é dificuldade.

 

P/1 - Por quê tem menos dinheiro?

 

R- Não tem muito capital de giro lá. Tem pouco dinheiro. Tu não tem como movimentar.

 

P/2  - Fernando, falando em capital, como é que é essa história...

 

R- Agora o cara que tem, hein?

 

P/1 - Fala.

 

P/2  - Pode falar, pode complementar.

 

R- Não, eu estou dizendo. A pessoa que tem capital, lá é bom se tiver com capital de giro, com dinheiro de giro, aí tu vive bem. Agora se tu tiver capital pouquinho, tu não vive, sobrevive.

 

P/1 - Quer dizer, você tem que ter um dinheiro para investir no negócio?

 

R- Tem que ter um dinheiro para investir no negócio.

 

P/1 - Com o dinheiro para investir no negócio você investiria em quê lá? Amanhã você vendeu, você gostaria de vender a Casa Paraibana?

 

R- Não porque eu gosto.

 

P/1 -Ela é sua agora ou é do seu tio?

 

R- Ela é minha mesmo.

 

P/1 - Então você poderia vender e com esse dinheiro, você faria uma coisa lá é isso?

 

R- É.

 

P/1 - E o que você faria lá?

 

R- Sabe que eu não, estou pensando ainda o que fazer. Eu tenho para mim, eu estava com vontade de botar um depósito de material, bebida, de coisa. Bebida só quente, como aguardente, para mandar transportar para cá. Vender aqui também. Comprar e vender em grosso. O negócio eu queria assim. E não esquentar muito a cabeça. Tu compra, vende. “Toma.” Mandava. Fazia uma linha de venda aqui. Ficar lá mais em paz, tranquilo, porque aqui dá muito... Fala.

 

P/2  - Eu queria perguntar a respeito da forma de pagamento. Como é essa questão de pagamento? O senhor tem aquele famoso fiado? Se aceita cheque, cartão?

 

R- Ah tem, mais rapaz. Cheque é o problema.

 

P/1 - Cheque é o problema?

 

R- Cheque está brabo para caramba. Nego dá cheque que volta que só. E tu vai receber, o cara não tem, só se tu for matar a pessoa, porque não tem para pagar mesmo. Calote lá, é muito calote. Tinha o cara mesmo lá no recreio. Tem outro cara aqui que ele, porra o cara era um freguês bom, todo mês comprava vinte, trinta mil, ou quinze mil, todo mês comprava. Hoje ele está me devendo vinte mil contos, não tem como pagar. Pagar como? Porque não tem nada. Então você...

 

P/1 - Aí o pior é você está...

 

R- É, eu vou lá e ainda vendi mais e ainda perdi mais. Aí eu vendi para ajudar ele, vendi mais o quê, uns quatro mil contos para ele. Ele estava botando uma feira em, lá em Cabo Frio não, como é o nome, é antes de Cabo Frio. É uma cidadezinha lá.

 

P/1 - ______? São Pedro?

 

R- É para o lado de lá. Aí pronto, dancei mais. Não deu certo. Porque as pessoas, hoje em dia, essas cidades assim agora estão tudo umas cidades mais modernas, as pessoas não podem ir com os negócios tudo bagunçado, vai bagunçado já era.

 

P/1 - E lá no, por exemplo, nessa região do Recreio e tal, está ruim o negócio? O pessoal não está conseguindo pagar?

 

R- É, não está. Agora tu tem que segurar a pessoa. Tem que vender, vai vendendo. Não recebeu, tu não vende mais, senão tu perde. Se tu perder, perde pouquinho e aí não... De primeiro tu vendia. Chegava lá vendia cinco, três mil contos para o cara, não esquentava a cabeça porque tinha o capital, o capital de giro para tu trabalhar. E tu vivia bem. Mas hoje, tu tinha o dinheiro para tu pagar. Tu comprava, o que você compra tem que pagar também, e tu vendeu e não recebeu, como é que vai pagar os outros?

 

P/2  - Como é esse pagamento aí? O senhor paga a vista, fatura?

 

R- Não, tem mercadoria que paga a vista, tem outras que é faturada. E aí eu dou cheque mesmo, compro uma mercadoria, porque eu tenho o seu João Grota, lá em Campina Grande, ele manda um caminhão de mercadoria para mim que é trinta, quarenta mil contos. Aí eu mando o cheque, tudinho pré-datado.

 

P/1 - Para pagar o caminhão?

 

R- É, pagar a mercadoria. Aí eu vou vendendo aqui, apurando e cobrindo os cheques.

 

P/2  - E os seus fregueses pagam em dinheiro, podem pagar em cheque?

 

R- Agora eles estão se acostumando a comprar em dinheiro.

 

P/1 - Em dinheiro? Nada de cheque, então acabou cheque?

 

R- É. Não, mas tem cheque também. Tem alguns que a gente está vendendo em dinheiro, porque a gente não pode vender mais fiado, o cara não paga. Se vender fiado já era.

 

P/1 - Mas e o cheque? O cheque é como se fosse fiado? Porque...

 

R- Não o cheque é pré-datado, dão cheque para quinze dias, 21 dias.

 

P/1 - Aí você bota o cheque no banco, e às vezes...

 

R- Aí volta.

 

P/1 - E aí? E não suja o nome do cara?

 

R- Aí vai. Suja, mas ele vai fazer o quê? Depois ele limpa de novo. Tu vai lá, aí tu vai lá receber e o cara não tem e o maior problema.

 

P/1 - E tem como pegar dinheiro emprestado? Você já teve que pegar?

 

R- Não, eu pego assim, de vez em quando eu pego com um colega meu, quando preciso. Mas fica ruim. Para pegar assim em coisa é difícil, é cheio de problema. Nego fala na televisão que é não sei o quê. Que é fácil, não precisa não sei de quê. Vai pegar para tu ver. Os caras botam viva-crédito, não sei o quê. Não, não precisa de fiador. Não precisa de nada. Quando tudo chega lá é uma democracia danada.

 

P/2  - Na época do seu tio como era? O senhor lembra? Você chegava a ter o produto sem, nem cheque, nem nada?

 

R- Era. Nem cheque.

 

P/2  - Na palavra mesmo?

 

R- Na palavra. Tu não ia nem atrás lá receber. O cara vinha lá e: “Toma aí ó.” Ia pagar.

 

P/1 - Isso dura até que época, mais ou menos? Quando começou a parar com isso?

 

R- Deve ser uns dez anos atrás, uns doze anos atrás começou parar.

 

P/1 - A gente falou de tudo que piorou. Alguma coisa melhorou?

 

R- Por enquanto não.

 

P/1 - Nem no comércio, nem no bairro melhorou alguma coisa? Na escola dos meninos? Alguma coisa se transformou para ficar mais moderno?  

 

R- Não, o negócio melhorou para, de verdade está melhorando. Estão procurando melhorar. Pelo menos estão procurando melhorar. Deve vir agora mais uns três, cinco anos, deve melhorar, não é possível. Pelo menos os caras estão combatendo contra a corrupção, o caramba tudinho. Deve melhorar. Ou melhora ou vai embora de uma vez.

 

P/1 -  A feira, essa transformação que vai ter na feira, você acha que...?

 

R- Rapaz, a feira está todo mundo em dúvida. Tem um pessoal acostumado na livre, hoje vai ficar preso, né?

 

P/1 - O que é que você acha que vai mudar? O que caracterizava ou caracteriza hoje a Feira de São Cristóvão?

 

R- A Feira de São Cristóvão representa o nordestino. Ali é o encontro dos nordestinos. Todo mundo se aglomera ali. O pessoal perdido, veio não sei de onde, vai ali. Ali é um centro, praticamente é um centro cultural do nordestino. Porque se encontra cearense, pernambucano, baiano, mineiro, toda qualidade de gente se encontra ali na Feira de São Cristóvão. Todo o tipo de gente, e toda a raça, de todo lugar. Ali é o encontro das pessoas.

 

P/1 - Vocês se conhecem, você conhece muita gente lá?

 

R- Conheço, conheço muita gente.

 

P/1 - E você acha que isso vai mudar, não?

 

R- Rapaz, eu espero que, não sei como é que vai acontecer. É, vai melhorar para uma boa, não sei se vai continuar a tradição. Porque tudo tem que mudar. Nego não pode viver, o mundo mudou. Está mudando todo mundo. Está mudando a  população. Está mudando o modo de viver. Tem que mudar alguma coisa, tem que mover, vai ficar bom.

 

P/1 - Continua chegando muita gente do Nordeste ainda, para morar aqui? E entram na feira, encontrando com o pessoal que se encontra na feira, que já está aqui há muito tempo?

 

R- Não, vem um pouco. Sempre vem gente, mas está vindo menos. Não vem igual antigamente. Antigamente vinha de manada. Agora está vindo pouco.

 

P/2  - O freguês da feira mudou, o senhor sente a mudança?

 

R- Mudou, mudou.

 

P/2  - Como é que é essa mudança?

 

R- Mudança é capital pouco. Nego não compra mais. De primeiro tu chegava lá, tu: “ô, pesa aqui.” Três cuias de farinha, de feijão. É cuia. Hoje em dia o cara chega lá pega um quilozinho, meio quilo. Mas de primeiro chegava ali: “corta um pedaço de carne”. Eram quatro, três quilos. Hoje em dia o cara: “me vê meio quilo aí, um quilinho.” O cara não tem mais as verbas, o capital para investir. Porque Paraíba, esses cabras do nordeste, a gente sempre gosta de comer bem. Ele pode é coisar, pode é ficar duro, mas comer, eles comem bem, mas hoje, comer come, mas não come aquele. Estão comendo comida, essas comidas velhas, sem-vergonha aí.

 

P/1 - O que é uma comida sem-vergonha?

 

R- Um frango. Tu pegar um frango, isso é comida? Pegar frango.

 

P/2  - Como é que é esse frango aí? O que tem de errado com ele?

 

R- Esse frango velho aí, presta?

 

P/1 - Aquele frango de, de...

 

R- Congelado, esse negócio congelado. Eu mesmo não como aquilo.

 

P/1 - Você todo dia gosta, qual é a comida que você gosta de comer?

 

R- A melhor comida que eu gosto de comer, feijão verde com rabada e costela.

 

P/1 - É mesmo? Todo dia?

 

R- Todo dia não, como sábado e domingo. Eu compro uma rabada, costela mindinha. Minha mulher faz. E feijão verde, eu faço mais bolo na mão, com farinha. E tome pimenta.

 

P/1 - Por quê você manda comer aquela comida que é boa?

 

R- É, minha mãe manda para mim.

 

P/1 - Ah é? A sua mãe acabou voltando para lá também?

 

R- Não, minha mãe é de lá. Ela vem de vez em quando aí, mas ela não aguenta ficar aqui não. Ela fica agoniada. Calor, quando está no tempo do calor ela fica doidinha. Ela veio para cá porque teve um problema de uma filha da minha irmã. Ela veio para cá para fazer a operação na garota, porque a gente tem um problema genético que a gente tem na família. Aí sempre nasce algum com problema.

 

P/1 - Qual é o problema genético?

 

R- É um defeito nos pés, que é torto.

 

P/1 - Então sempre tem que vim para cá tratar?

 

R- É. Mas agora lá está melhor do que aqui.

 

P/1 - Tem quantos dos irmãos ficaram. Ah não, vocês eram só dois, né? Mas ela criou vários. Quantos da família estão aqui?

 

R- Não, nenhum. Estão tudo lá.

 

P/1 - Você está sozinho aqui?

 

R- Aqui só, de irmão só eu sozinho.

 

P/2  - Doido para ir embora?

 

R- É.

 

P/1 - Você, a mulher e os filhos? Mas eles querem ficar nesse negócio, continuar trabalhando?

 

R- Não, meus filhos nem se ligam nisso não.

 

P/1 - Ah não?

 

R- Não.

 

P/1 - Mas eles têm vontade de morar lá ou não?

 

R- Tem, tem vontade. Eles têm vontade.

 

P/2  - E o senhor gostaria que eles continuassem trabalhando com comércio ou o senhor sugeriria que eles tivessem um outro rumo?

 

R- Eu sugeria que eles tenham outro rumo.

 

P/2  - Outro rumo?

 

R- Inclusive, eu estou até “coisando” com ele, porque ele está. “Ó, tem que decidir o negócio, ou outro”. Ele está fazendo também, vai fazer vestibular também. Qualquer coisa ele tem que... Porque ele está fazendo para a UERJ, mas qualquer coisa tem que ser particular mesmo. Vai fazer o quê? Ele tem que fazer uma faculdade de qualquer jeito. E o outro é que eu mandei ele fazer os concursos aí também, público. Polícia Rodoviária Federal, que eu tenho, ele tem um primo também que agora é para-médico, agora vai ser médico. Ele entrou, moleque novinho, é novinho ele. Ele estava estudando, hoje ele é médico da Polícia Rodoviária Federal, lá da Paraíba. Lá no nordeste, lá no norte.

 

P/1 - Eles estudaram ali pela região na escola?

 

R- Não, meus filhos são tudo daqui. Nasceram tudo aqui.

 

P/1 - Eu sei. Mas a escola é lá na região da Ribeiro? Onde é a escola?

 

R- Lá em Bonsucesso. Ali na Gomes Souza.

 

P/1 - Todos estudaram na mesma escola?

 

R- Na Gomes Souza e no, naquele nos cariocas, como é o nome? Eu não sei.

 

P/2  - Você criou os seus filhos igual a sua mãe te criou, tudo preso em casa? Qual foi a diferença?

 

R- Não, já diferente. Já o meu garoto é mais preso. Mas a menina saia para caramba, ficava andando, na casa das outras, na casa dos colegas.

 

P/1 - Qual era o programa da família? O senhor fala que trabalha demais. E quando o senhor tem um tempo de ficar com a família, qual era o programa da família?

 

R- Praticamente nenhum cara, porque o programa da gente só de vez em quando, que ia para casa de alguém, na casa da família. A mulher, às vezes, vai no Nordeste, no norte, com os meninos passear. E programa não dá nem, tu sai aqui, tu sai agora para um canto, não tem condições. Tu sai com medo de ser roubado, ser assaltado, ser não sei o quê, levar um tiro. Tu não vive mais. Tu não tem programa, porque a gente trabalha, olha só, de domingo a domingo. Segunda a segunda. O pessoal que trabalha com a gente, porque tem funcionário que trabalha com a gente, não sai. Quem tem que ficar é a gente. Mulher tem que ficar, não dá.

 

P/1 - Quer dizer, você trabalha domingo na feira e é o mesmo esquema, né?

 

R- É, agora não estou trabalhando não. Já deixo uma pessoa lá trabalhando. Eu boto a mercadoria, o cara vai lá, trabalha. Ai de tarde, no domingo de tarde eu vou lá buscar no carro e trago.

 

P/1 - Eles é que põem até às três da manhã senão não dá mais, né?

 

R- É, não vou não.

 

P/1 - Domingo por exemplo, você gosta de fazer o quê?

 

R- Eu gosto... De manhã bem cedo eu vou no campo. Vou correr no, vou olhar os caras jogar. Pego a moto, fico andando. Vou na praia, na beira da praia. Tomo umas cervejas.

 

P/1 - Qual praia?

 

R- De vez em quando eu vou na Barra li no... Eu tenho uns colegas ali na Barra, eu vou para lá.

 

P/1 - Aí toma umas cervejas?

 

R- É. Aí vem embora, porque a mulher fica na loja. Fica a loja lá.

 

P/1 - Sua mulher fica na loja lá, ela trabalha. E os garotos, também ficam trabalhando?

 

R- Não, os garotos ficam dormindo. Outro vai jogar bola, o outro fica fazendo filmagem, o outro tem mais filme de que o... O outro só gosta do negócio de filmagem. Fica fazendo o programa em casa, o de treze anos. Ele tem uma máquina filmadora, aí fica fazendo programa em casa, fazendo filmagem com as meninas, fazendo Pop Star, fazendo não sei o quê, fazendo entrevista. Ali ele gosta dele. Ele tem o negócio assim, tripé, o caramba lá em casa.

 

P/1 - Ele faz gravação também?

 

R- É, mas ele fica filmando. Fica fazendo filme. Filme, filme dele de...

 

P/2  - Lazer?

 

R- É.

 

P/2  - O senhor falou que está com pouco tempo para o lazer. E o senhor como consumidor? Onde faz as suas compras? O senhor falou que não gosta do frango daqui? O senhor acaba comprando uma coisa que ________?

 

R- A minha compra, eu compro na Feira de São Cristóvão. Compro, trago, pego da loja mesmo. Minhas compras é a mulher que compra para os meninos. Os meninos que come frango, como esses negócios, eu não.

 

P/1 - Frango você não come?

 

R- Não, não como não. Só como galinha do pé seco, aquela vermelha.

 

P/2  - Galinha do pé seco?

 

P/1 - Ah, é por que essa vem de lá também?

 

R- Eu como galinha caipira.

 

P/1 - Aquele frango congelado você nem...?

 

R- Nem ôxe, está doido? Aquilo eu nem gosto de ver nem o cheiro dele.

 

P/2  - Shopping o senhor vai?

 

R- O cheiro dele eu nem gosto?

 

P/2  - O senhor vai ao shopping, supermercado?

 

R- Não, é difícil.

 

P/2  - Quando vai, vai aonde?

 

R- Eu vou na Ilha.

 

P/2  - Na Ilha?

 

R- Na ilha.

 

P/1 - É, quer dizer, a comida toda você tira da loja, e o resto ela compra no mercado?

 

R- É, porque vou na feira e compro uns negócio. Cabrito eu gosto de comprar. Depois de vez em quando eu vou lá, compro um cabrito, mando o cara matar. Aí levo para o pessoal fazer buchada. Vou no Mercado São Pedro, compro peixe. Eu gosto de peixe.

 

P/1 - Aí faz em casa assim, chama um monte de gente?

 

R- Não, eu faço em casa, eu faço no bar.

 

P/1 - No bar, né?

 

R- A gente faz baião de dois.

 

P/1 - É bom. E aí quer dizer, no bar você vai todas as noites? É gostoso ir até muito tarde?

 

R- Até tarde.

 

P/1 - É no sábado, no domingo?

 

R- É na sexta, sábado, domingo. A gente fica só... Não tem outro lazer.

 

P/2  - Uma coisa que eu esqueci de perguntar lá atrás. A Casa Paraibana tem algumas chamadas no rádio, televisão? Fez algum comercial? Faz alguma propaganda?

 

R- Não, a gente fazia muito. Hoje a gente não faz mais.

 

P/1 - Fazia aonde?

 

R- Fazia no rádio. Fazia na Rádio Carioca, na Rádio Globo. Aquele cara quando trabalhava lá, o... Aquele da feira aqui o Agamenon, fazia. O Samuel Corrêa, o Samuca, o falecido Samuca. Conheceu o Samuca?

 

P/1 - O que vocês faziam, qual era a chamada? Tinha uma chamada específica?

 

R- Ele falava da Casa Paraibana tudo. É um bocado, não tem dizendo. “Coisava” muito era o Samuel Correa. Conhecia o Samuel Corrêa, o Samuca?

 

P/1 - Conheço sim.

 

R- Ele só vivia lá na loja, ali com a gente.

 

P/1 - Ah é? Mas isso era pago, o anúncio? Pagava?

 

R- Não pagava, porque a gente lançou aqui um bocado de coisa. Meu tio lançou aqui o Biscoito Três de Maio. Era Cachaça Maribondo. A gente que foi representante desses tipos de coisa aí.

 

P/1 - E aí anunciava no rádio?

 

R- Anunciava.

 

P/1 - E teve alguma espécie de panfleto assim?

 

R- Tinha.

 

P/1 - E em revista, jornal, essas coisas?

 

R- Tinha também. Põe na revista. Sempre era filmado. A Globo filmava lá na Feira com a gente na barraca, todo mundo. Teve filme, teve até filme lá. Fizeram, aquela Regina Casé também fazia de vez em quando.

 

P/1 - Ah sim. E aí parou toda essa parte de propaganda?

 

R- É, parou. Meu tio gostava de fazer propaganda. Ele ficava no rádio anunciando, o caramba. Ele lá na frente do microfone.

 

P/2  - Ele ia no rádio?

 

R- Era, ele mesmo fazia. Lá na feira ele fazia a maior lenha.

 

P/1 - Ele que falava, por exemplo, tinha uma chamada?

 

R- Ele falava.

 

P/1 - Tinha alguma fala específica assim?

 

R- Tinha, ele falava um bocado de, vamos ver agora eu não.

 

P/1 - Não lembra?

 

R- Não.

 

P/1 - Não tem assim, Casa Paraibana é alguma coisa?

 

R- Tem sim.

 

P/1 - Não lembra de nenhum?

 

R- Não.

 

P/1 - E aí depois que ele parou com o negócio é que parou essas propagandas?

 

R- Parou, ainda comecei a fazer. Aí que ele botou o gerente, porque ali foi trabalhoso, foi logo depois, um bocado de tempo ele saiu. Deixou, deixou um gerente tomando conta. Era o seu Ney. E aí ele passou o gerente lá, bem quase uns oito anos, o gerente da loja. Aí ficou eu e ele trabalhando. Aí foi o tempo que o gerente saiu, comprou uma loja para ele. Hoje é aquela do Ferreira. Aí ele vendeu para o Ferreira e ficou trabalhando para o Ferreira. Ele era gerente da gente. O Genival, o Genival deixou tudo com ele e foi embora para o Nordeste. Ficava vindo. Ele levou a família todinha para lá. Ficava indo e voltando trazendo mercadoria. Depois ele comprou uma loja e vendeu. Aí ele ficou de sócio lá como Ferreira, depois ele vendeu. Aí o Genival botou a filha dele para tomar conta. A filha dele acabou com tudo, porque ela namorava um garoto lá em Pernambuco, um primo dele. Toda a semana o cara vinha de avião para cá. Ela quem pagava. O cara deitava o cabelo.

 

P/2  - Acabou a loja?

 

R- Acabou com tudo. Fazia festinha direto.

 

P/1 - Torrou o dinheiro dele?

 

R- É. Pegava as amigas, fazia festa, alugava parque de diversão, o negócio lá, clube, o caramba. Fazia final de semana ela.

 

P/1 - Quer dizer, então você acha que não é para os filhos tocarem o negócio. A sua ideia é vender o negócio, né?

 

R- É vender.

 

P/1 - E o seu futuro? O que você tem como sonho hoje? O que você gostaria que acontecesse?

 

R- Sonho? Eu gostaria que acontecesse... O meu sonho é ir embora para o Nordeste, ter um sítio lá, viver bem, ter o que comer, pronto.

 

P/1 - Agora, olhando para a vida passada, o que você acha que podia ser diferente das coisas que já aconteceram?

 

R- Se eu não, se eu tivesse cabeça, se fosse mais inteligente eu teria levado uma boa. Não soube aproveitar aquela época. A época boa.

 

P/1 - Qual foi a época boa?

 

R- A época boa foi uns dez anos atrás, quinze anos.

 

P/1 - Devia ter aproveitado mais?

 

R- É, ter aproveitado mais.

 

P/1 - Aproveitado em que sentido?

 

R- Não, aproveitar eu aproveitei. Agora eu não soube segurar, destruí tudo. Fui só levando na vida.

 

P/1 - Você devia ter acumulado dinheiro?

 

R- É, podia ter juntado, comprado, feito algum negócio, um pé de meia. Hoje não precisava estar vivendo, trabalhando mais, trabalhando muito, correndo atrás de, para recuperar. Para recuperar agora é difícil, se tivesse segurado. Muitos  seguraram, estão bem, outros não seguraram. O meu negócio era farrear, brincar.

 

P/1 - Fora de fazer comida para os amigos no bar nessa época, há uns dez anos. Você farreava onde? No forró?

 

R- Em todo canto. Forró, feira, passava a noite todinha trabalhando e farreando.

 

P/1 - E a mulher? Na mesma farra, não?

 

R- Não a mulher, não.

 

P/1 - Mas não incomodava?

 

R- A mulher nem saía de casa.

 

P/1 - Ah é?

 

R- Arrumava muitas mulheres. Eu tinha muitas mulheres. Tinha uma época que estava com um bocado de mulher. Botava casa para mulher e o caramba com tudo.

 

P/1 - E ela, se incomodou ou se acostumou?

 

R- Se acostumou. Não sabia, depois começou a saber. O caramba, aí sabia. Foi se acostumando.

 

P/1 - Quer dizer que você tem outros filhos também por aí?

 

R- Tem, tenho. Tem mais filho, tem mais mulher, casa, o caramba. Tem mais pensão que eu pago.

 

P/1 - Está cheio de compromisso então? Mas esses filhos você paga as pensões?

 

R- Dou, dou. Sempre eu dou.

 

P/1 - Quantos são?

 

R- Agora que eu tenho dois.

 

P/1 - Com a mesma mulher?

 

R- Não, com mulher diferente.

 

P/1 - Tem três, mas os que eu pago pensão, dois. Tem um que a minha mãe cria no norte.

 

P/1 - Ela levou o menino para lá?

 

R- Não, é de lá mesmo. Eu tive lá no norte. Minha mulher, minha mãe cria. Está grande já. Agora aqui eu tenho dois novinhos. Tem um de três anos e o outro com, a garota...

 

P/1 - Isso eu ia te perguntar. Esse de três, na verdade não é da mesma mulher?

 

R- Não, de outra.

 

P/1 - Mas a casa que você mora é a da sua primeira mulher?

 

R- A casa que eu moro é da primeira mulher. Mas essas outras eu não moro com elas não. Deixei tudinho. Morei já treze anos com outra mulher. Essa eu deixei agora, porque depois de velha pegou uma menina, tem uma menina de, uma menina de sete meses.

 

P/1 - É sua também? Aí você deixou ela por causa disso?

 

R- Quis mais não.

 

P/1 - Entendi.

 

R- É, porque ia criar problema.

 

P/1 - É a maior confusão. Já tem?

 

R- E confusão, muita confusão.

 

P/1 - Quantos, oito filhos?

 

R- É, tem um bocado. De casa mesmo só tenho quatro.

 

P/1 - De dentro de casa? Aí dessas mulheres assim, tem mais uns quatro?

 

R- Tenho três mais.

 

P/1 - Bom, isso não mudaria na vida? Foi bom assim, muitas?

 

R- Foi, foi. Isso aí não. Aconteceu, aconteceu. Gostei, gostava, não fazia por...

 

P/1 - Ninguém obrigou.

 

R- É.

 

P/1 - O que você diria para alguém que quer montar um comércio? O que é que você aprendeu mais? Ser um bom comerciante é ser o quê?

 

R- Para ser um bom comerciante é tratar as pessoas bem, tratar os fregueses bem. Hoje em dia é o lema. Não adianta você botar comércio e não saber trabalhar. Tem que ser bem tratado. E o comércio, hoje em dia, se o cara não tiver capital de giro, o cara não sobrevive mais não. Tem que ter dinheiro para, tem que ter um capital. De primeiro você botava um comércio sem ter nenhum tostão. Você chegava lá, arrumava a loja, alugava sem nenhum tostão. Tu alugava, comprava os negócio. Alugava e tu ia no cara e comprava tudinho e não, depois tu pagava. Hoje em dia não tem mais, acabou. Quantos caras não botaram loja comigo sem ter nadinha.

 

P/1 - Muitos?

 

R- Muitos. Essa semana mesma eu vendi a um colega meu. O cara trabalhava na Feira de São Cristóvão comigo. Ele é, agora se aposentou, um coroa, mas o bicho é gente fina. “Estou trabalhando, tenho essa lojinha aqui. No bar, eu estou precisando de uma mercadoria aí. Bota uma mercadoria para mim aí. Eu vou trabalhando para tu aí.” Peguei e botei, mas porque o cara, eu conheço um bocado de tempo ele. Aí botei mercadoria para ele. Aí eu vou lá...           

 

P/1 - E o comerciante que vence é aquele de atende bem?

 

R- É, sabe...

 

P/1 - Mais alguma coisa?

 

R- Sabe, também agora não. Não. Também não é assim não. O cara tem que saber comprar também. Hoje ele está nas compras, mercadoria, o caramba. Hoje ele está, o comércio, ninguém pode nem falar mais nada, porque está meio brabo, tudo. O comércio hoje está derrubado, acho que o que eu tenho para mim são esses mercados, mercado grande está derrubando o comércio pequeno. O comércio pequeno daqui uns dias vai acabar com isso tudinho.

 

P/1 - Isso é que mudou, assim? Lá na...

 

R- O comércio grande, o comércio pequeno o cara não vai na Teixeira Ribeiro. O cara, para tu ver, tem um bocado de mercado. O cara sai daqui e vai compra no mercado na Casa Center, casa não sei o quê. Sabe que o preço, a mesma coisa aqui. Mas o cara vai comprar naquela loja grandona, lá no mercado grandão.

 

P/1 - Na região tem um supermercado grande?

 

R- Tem.

 

P/1 - Qual é?

 

R- Tem três mercados agora.

 

P/1 - Ali pertinho, na Teixeira Ribeiro mesmo? Ah, isso esvaziou muito o comércio?

 

R- Esvaziou. Agora o cara está botando um outro agora, zona norte. Um grandão. Aí fica uma guerra danada de preço. E tem de tudo e quer comprar um negócio, vai lá e compra em um lugar só. Nego vai com o cartão, vai com o negócio. Comércio pequeno não tem cartão, não vende cartão, não vende.

 

P/1 - Então você acha que não tem nem muita perspectiva?

 

R- Não tem, não tem.

 

P/1 - Mas esse regional, você vai no supermercado não pode comprar nada disso, né?

 

R- O quê?

 

P/1 - Não dá para comprar queijo coalho, nem feijão roxo.

 

R- Já vende.

 

P/1 - Esses todos?

 

R- Esse mercado já vende tudinho agora.

 

P/1 - Bem, fechando a entrevista. Ainda tem alguma coisa mais que o senhor gostaria de dizer sobre toda esta história?

 

R- Não, eu tinha, até eu já me esqueci o que ia falar, mas agora é, passou pela cabeça.

 

P/1 - Pode lembrar, a gente espera.

 

R- Está difícil.

 

P/2  - Você não lembra se era relaciona à feira, à Casa Paraibana, ao transporte?

 

R- Não, era relacionado lá do norte, mas eu não me lembro.

 

P/1 - É relacionado à sua vontade de voltar para o norte? A esse sonho?

 

R- Não, eu tenho vontade de voltar, mas não é tão assim não.

 

P/2  - Em relação à infância do senhor? O senhor quer lembrar de alguma coisa que lembrou da infância?

 

R- Não, deixa. Vou falar da minha não. Parei.

 

P/1 - Cansado?

 

R- Parou.

 

P/1 - Só mais uma coisa?

 

R- Não, pergunta que eu falo.

 

P/1 - Não, eu já perguntei tudo que eu queria. Você quer perguntar alguma coisa?

 

P/2  - Acho que está ok. Assim falou dos trechos, trabalhos que você, Fernando, tem. Acho que você fala bem da questão da...

 

P/1 - Para concluir, alguma coisa?

 

R- Não, não tem não. Está bom, tudo certo.

 

P/1 - Tudo bom?

 

R- Tudo certo.

 

P/2  - O que o senhor achou de ter participado do projeto?

 

R- Tudo bem, cara. Isso é bom.

 

P/2  - O senhor acha que o projeto vai contribuir para alguma coisa?  

 

R- Vai, né? Vamos ver. Deve contribuir para alguma coisa, não é possível. Tem que contribuir.

 

P/1 - O trabalho?

 

R- É.

 

P/1 - Está bom.

 

R- Qualquer coisa você aparece lá. Aparece lá que a gente conversa. Eu vou arrumar as fotos também para vocês?

 

P/1 - E se você lembrar de mais alguma coisa, a gente não se importa.

 

R- Está bom. Eu vou.

 

P/2  - Fernando, muito obrigado, tá?

 

R- Valeu.

 

P/2  - Desculpa aí qualquer coisa.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+