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História

O Encantar da Floresta

História de: Juliana Terra
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/12/2019

Sinopse

O útero tem poder e a voz leva ao infinito. Olhe a trajetória de Juliana Terra, uma mulher de medicina, que tem os aprendizados do sagrado na própria pele, que já ficou 21 dias sem comer, colocou Pitbull pra correr, sobe montanha, troca de pele, de camada e de cabelo e busca viver o seu sonho no cotidiano. Uma mulher que tem como válvula de escape a poesia e o cantar como medicina, conduz navios que levam as mulheres para dentro de si mesmo conduzindo rodas das 13 Abuelas e outros trabalhos.. Ouvir essa história é plantar flores ao seu feminino

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História completa

Ela começou a me falar do útero, do que era o útero. Do que era ser portadora de um útero. Da consciência da sabedoria de um útero, que era o segundo cérebro da mulher e do portal que era quando a gente começava se conectar com essa força e do poder do sangue menstrual. E ela me falou tudo isso, porque dentro do trabalho do Santo Daime, ela teve uma miração, uma visão comigo e aí ela estava lá na igreja, no salão e ela olhou pra mim e me viu cheia de sangue. E aí ela se assustou e falou: “Nossa, o que aconteceu com a Ju? Será que ela se machucou?” Mas alguma coisa falou assim pra ela: “Só observa”. E quando ela parou e olhou, tinha uma velha sentada em cima de mim e esse sangue que escorria era o sangue menstrual dela. Então, ela estava me banhando com esse sangue. E aí ela ficou com essa informação e foi perguntar para os guias dela, lá na tenda mesmo, foi se conectar pra entender o que isso significava e aí isso foi uma instrução, que era pra ela me passar esse conhecimento do Sagrado Feminino, do útero e do sangue. E aí eu lembro assim como se fosse ontem, a gente lá na mata, meu, na força e ela falou assim: “Ju, o sangue é sagrado. A gente não pode jogar o sangue fora. As nossas ancestrais ofereciam o sangue pra terra



O Viver de Luz também foi um preparo pra eu subir a montanha, porque eu sinto que é um retiro, que é o processo dos 21 dias, que você faz, de 21 dias em jejum, sem comer, é muita liberação. Foi bem significativo, na minha vida, que é pra você  limpar muitas vidas, assim, porque o nível de sutileza que você alcança e de profundidade que você acessa de você mesmo, você faz, assim, umas limpezas muito profundas. Eu sinto muito isso, que eu vim com um papel, assim, pra minha linhagem, muito forte, de ressignificar muitos valores da minha linhagem e mudar a história. O curso da história. E trazer mais leveza, mesmo, pra minha linhagem. E o processo eu vi como uma chave, mesmo, pra isso. Pra eu poder liberar algumas memórias e alguns padrões que estavam vindo da minha linhagem e interromper o fluxo. Então, muitas coisas ali já me prepararam pra primeira subida da montanha que é um processo sagrado Lakota, da onde vem esse conhecimento das tendas de Temaskal que hoje eu conduzo. Porque aí, depois, culminou no que o Viver de Luz e a busca de visão? Eu comecei a ministrar o curso das avós, abrir pra conduzir mulheres dentro dessa jornada. Isso também foi um marco pra mim, porque aí já era passar o que eu tinha vivido. E, desde lá, só fui aprofundando cada vez mais, que eu fui conhecendo outras facetas. E aí elas trabalhando comigo com o canal aberto, trazendo muita inspiração, muitas cerimônias, muitos rituais e a gente não tinha limites, não há limites pra quem sabe sonhar.

 

 E eu estava pra subir a montanha, né, me preparando pra subir a montanha, aí o que aconteceu?  Tinha um cachorro do meu vizinho e que ele, às vezes, entrava na minha casa e ficava lá, assim, frequentando a área da frente da casa. Ele passava pelo portão, se espremia, conseguia passar. E, cara, eu tinha uma conexão com esse cachorro e um dia eu até cheguei, assim, de madrugada, e eu lembro que eu o vi, assim, na frente do portão e aí eu falei assim: “Nossa, mas o cachorro sentado aí às três da manhã? Está parecendo um guardião”. .Então eu estou pra subir a montanha, tipo umas duas semanas antes, assim, por aí, de subir a montanha, acordei, estava ali tomando um café, passando e vi um vídeo do Haka Maori, que é uma dança de guerra Maori. E eu já tinha visto esse vídeo antes, mas enfim, dessa vez eu vi, meu, aquilo tocou em um lugar em mim, em um lugar que eu falei assim: “Nossa, que força é essa?” Eu não consegui parar de assistir, porque é muita virilidade, eles são, sei lá, uns oito homens fazendo aquelas caras e batendo no corpo, sabe? Cantando forte. E aí eu ficava olhando e sentido aquela coisa  ativando. Eu assisti umas dez vezes aquele vídeo, sem parar. Aí, beleza, aquilo foi mexendo comigo, acabei meu café, acabei de assistir o vídeo, fiquei na ressonância daquilo e desci e fui cuidar das plantas e mexer no quintal e aí tem um corredorzinho, assim, lateral, que eu estava mexendo nas ervas. E eu estava ali mexendo, começo a escutar a cachorrada latindo loucamente. Aí eu falei: “Nossa, a cachorrada, que doida!” E eu percebi que tinha um latido que estava meio estranho. . Eu falei: “Meu, será que o cachorro engasgou? Está latindo esquisito, vou lá ver”. E aí eu fiquei buscando identificar se era esse cachorro, porque eu já conhecia o latido dele. E achei que era. Cara, subi o corredor, fui lá pra frente, fiquei olhando lá na rua o que estava acontecendo. Quando eu olho ali dentro daquele buraco, estava esse cachorro sendo atacado por dois pit bulls. Na hora eu olhei, já comecei a tremer, entrei em um pânico, falei: “Ai, meu Deus, o que eu faço?” Fui chamar a Valéria, ela não apareceu. Eu fui lá, toquei a campainha, falei: “Meu, ela sempre está na rua, sempre” e naquele dia não tinha ninguém na rua. Não tinha uma alma. 

Eu falei: “Cara, vai ser eu mesma, tem que ser eu mesma”. Eu desci correndo pro quintal, fiquei procurando alguma coisa, tinha uns bambus lá, eu peguei o mais grosso que eu achei e subi, meu e aí, na hora, eu peguei e fui pra cima daqueles Pit Bulls, meu e comecei a dar paulada na cabeça deles e gritar. Que aí já me veio sobrevivência na selva. . Já me veio isso também: tem bicho, você tem que gritar. Que você paga de louco, o bicho se assusta, ele foge, entendeu? Então, na hora, me vinha uma coisa que eu falava: “Cara, eles vão ter que perceber que eu sou mais louca do que eles. Que, se eles vierem pra cima, eles estão em desvantagem, entendeu? Eu vou ter que mostrar que eu estou aqui pra o que der e vier. E aí, na hora, eu peguei o pau: “Sai daqui, sai, solta ele”. E batia assim com tudo. Aí eu quebrei o bambu na cabeça de um e ficou só um pedaço. Só que um deles já tinha soltado o Meninão e saído do buraco e o outro ainda estava preso nele. E aí, o que eu fazia? Eu dava umas pauladas nele e vinha pra trás. E dava umas pauladas nele e vinha pra trás. Porque eu falei: “Meu, se ele virar pra mim, eu tenho que sair correndo, eu não posso entrar nesse buraco com eles”. E aí, conforme eu fui vindo pra trás, eles também vieram pra fora do buraco, mais pro meio da rua, só que ele ainda estava preso no pescoço do Meninão. Cara, aí eu peguei esse pau e, como eu já estava com o bambu curto, eu parei de bater nele e comecei a bater no chão. Aí eu ficava batendo no chão, nossa, gente, eu juro, eu saí de mim. Nesse momento eu saí de mim e, na hora, eu vi, eu estava incorporada no Haka Maori, mesmo.  Porque, o que eu estava fazendo ali, realmente, era uma dança de guerra, era esse momento de falar: “Cara, eu vou pra cima, é matar ou morrer”. Eu estava me sentindo assim, mesmo, em uma sobrevivência na selva. E alguém do meu clã sendo atacado, entendeu? E eu precisava preservar a vida dele. Aí, na hora, meu, eu peguei esse bambu e fui indo pra cima dele, batendo no chão, gritando e falando: “Sai. Sai daqui. Sai daqui”. E louca. Só que, assim, eu estava tão fora de mim, tão fora, que alguém apareceu, assim, na sacada, acho que eu devia estar gritando tão loucamente, que uma mulher apareceu, aí eu olhei e, na hora que eu olhei pra ela, que eu senti a energia dela olhando, foi na hora que eu caí em mim e falei: “Nossa, eu estou aqui na rua, meu, gritando, devo estar parecendo uma louca”. Aí eu voltei, assim, pra consciência e aí os cachorros já tinham soltado, o Meninão já estava meio que, assim, perdido e eu fui indo pra cima deles, até eles saírem do portão da minha casa. Aí quando eu pude abrir, o Meninão, ele entrou e ficou se raspando, assim, na parede da casa inteira. E passando o sangue dele ali, assim. Meio que se limpando, meio atordoado. E aí eu vi que ele estava meio agitado e, quando eu vi, ele estava fazendo assim, assim, aí ele arrancou o dente, porque ele sofreu um corte na gengiva e o dente ficou pendurado, aí ele foi e arrancou o dente, só que ele arrancou o dente no ponto do guardião da minha casa. Bem na frente do ponto do guardião. E aí, na hora que eu olhei aquele dente, eu falei: “Nossa, meu, ele é o guardião, mesmo”. Aí eu peguei, guardei e falei: “Eu vou fazer um colar”. E aí eu fui acudir, né, ele que até então não era meu cachorro, era um cachorro dali, da rua. E o vizinho que cuidava. E ali selou, né, o nosso elo, porque aí eu o peguei, levei para o veterinário e aí eu cuidei dele esses dias. E aí eu subi a montanha, minha segunda busca, com o colar dele no pescoço e aí ele virou Meninão, um cachorro guardião que ficou comigo anos.

 

A minha missão não é pra mim, ela é pra Terra, pra humanidade, pra quem quiser beber. Pras futuras gerações, né? É algo que vem vindo de lá de trás e que eu quero preservar daqui pra frente também. Então, meu sonho é cumprir a minha missão com impecabilidade, é vir aqui servir o que eu vim fazer. Eu já caminho pra isso, eu vivo meu sonho. 


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