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O doutor da esperança

História de: Antonio Sérgio Petrilli
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/11/2013

Sinopse

O avô influenciou Sérgio em duas de suas grandes paixões: a primeira, pelo Corinthians; a segunda, pela Medicina. Foi por causa desta última que o paulistano da Pompeia, já formado pela Unicamp, resolveu vender os dois carros que tinha para passar um ano nos Estados Unidos, em uma viagem que acabou lhe dando certeza e confiança para seguir na área de oncologia pediátrica. De volta à cidade natal, Sérgio trabalhou na especialidade por quase duas décadas até fundar, em 1991, o Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer, o Graacc. Com paciência e insistência, o então pequeno projeto ganhou vida própria. Hoje, é um dos melhores hospitais de tratamento do câncer infantil no mundo.    

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História completa

Meu nome é Antônio Sérgio Petrilli, nasci em São Paulo em 26 de dezembro de 1946. A gente morava na Alfonso Bovero, uma rua que sempre teve bastante trânsito, mas era uma rua de bairro, do meu colégio, o Liceu Tiradentes.

Meu pai se formou médico, mas, como teve seis filhos, precisava fazer outra atividade comercial para poder manter a família. Ele tinha uma firma de colocação de pedras ornamentais. Costumava dizer que era médico das pedras e das pernas, porque ele acabou fazendo vascular.

Eu acho que muito cedo eu pensei em ser médico. Muito cedo, até por essa história que eu ouvia. E eu tinha no meu avô materno uma pessoa muito forte em termos de expectativa em cima de mim. Ele era um cara que não teve filhos – só teve minha mãe – e ele investiu muito em mim, tinha muita expectativa e queria saber das minhas notas, era companheiro.

Ele me ensinou a ser corintiano. Ele veio da Hungria, mas gostava de ver futebol e aprendeu a ser corintiano. Desde pequeno, ele alimentava isso e, para reforçar, às vezes a gente ia ao campo assistir jogo. Essa ligação com meu avô foi uma coisa bonita a vida toda. Uma vez, ele já estava com câncer de pâncreas, e a gente foi para o Pacaembu. Eu passei na casa dele, o levei para o jogo e, de repente, na hora do gol do Corinthians, eu pulando, viro para o lado e estava ele lá, abraçado em outro torcedor, pulando no estádio. Essa imagem também nunca mais desapareceu, a imagem do cara que me levava, que me fez ser corintiano.

Eu me senti muito bem dentro da Medicina, achava que era aquilo mesmo que eu devia fazer. A Unicamp, quando eu entrei, era a terceira turma. Eu participei muito da vida universitária, foi muito legal. A parte política, a gente estava na época, 1964, da ditadura. A gente foi para a rua, enfrentava a polícia, quase foi mandado embora da faculdade, coisa de ser fichado naquela época pela polícia e pelo Exército. Colegas nossos presos, colegas nossos mortos.

Eu fiz a residência de pediatria no Hospital do Servidor, que na época era muito boa. Quando eu acabei a residência, eu queria fazer UTI e comecei a trabalhar no Hospital do Câncer. Isso até 1978, mais ou menos. Eu fui aprendendo com o [médico] Alois Bianchi e estudando oncologia, que era ainda muito primária aqui no Brasil. Em 78, eu resolvi que queria ir para os Estados Unidos. Vendi o meu carro, um Maverick, o da minha mulher, que era uma Brasília, e a gente foi ficar um ano nos Estados Unidos. Fui ver o que existia de tratamento de câncer mais moderno naquela época no mundo. O ano de 78 foi um ano fundamental, porque a hora em que eu vi a oncologia, vi o que podia fazer. A gente via, por exemplo, que tinha ratinho lá nos laboratórios, que tinha equipamento para cuidar do ratinho muito melhor do que a gente tinha para as nossas crianças aqui no Brasil. E vi tudo o que precisava e fui um dos primeiros oncologistas pediatras a sair e depois voltar. Aí, começou uma luta grande aqui para poder melhorar a oncologia. Nasceu a definição que era oncologia o que eu queria fazer com essa viagem para o exterior.

Uma das coisas que, para nós, oncologistas, pesa muito é você ter feito um percurso onde morria todo mundo e hoje você consegue curar 70% dos casos. Hoje, a gente chegou numa situação em que a gente ainda perde, 30% dos pacientes ainda morrem, mas essas crianças que morrem nas nossas mãos morrem porque morreriam se estivessem nos Estados Unidos, na Europa, nos países desenvolvidos, não porque elas são brasileiras. Durante muitos anos, em alguns lugares do Brasil, as crianças morrem porque são brasileiras, porque não têm remédio, porque não têm estrutura física para tratar, não tem gente competente para cuidar. Isso é que a gente tem que lutar para acabar. Dentro da esfera em que a gente lida aqui, a gente tem conseguido isso.

Em 88, eu passei no hospital St. Jude em Memphis, e foi feita uma organização para médicos latino-americanos, organizado pela Sociedade Americana de Pediatria, Sociedade Americana de Oncologia, American Cancer Society. E a gente visitou 17 centros em 17 estados americanos durante um mês. Eu tive uma ideia muito ampla de tudo o que estava acontecendo, e o forte dessa visita era mostrar para as pessoas de fora como as comunidades tinham se organizado para montar os hospitais, para poder ter a estrutura que eles tinham no combate ao câncer. E o hospital St. Jude tem uma estrutura de uma organização que se chama Alsac [American Lebanese Syrian Associated Charities], que é uma não governamental e que capta recursos nos Estados Unidos inteiros para injetar no hospital. E eles fizeram um centro maravilhoso nos Estados Unidos, que é o melhor centro de tratamento de câncer de criança. A ideia de formar uma ONG para poder organizar e crescer e fazer um serviço público poder se desenvolver era muito importante, veio bem claro isso à minha cabeça. Então, a gente alugou uma casa. Nós fizemos um grupo e acabamos criando o Graacc [Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer].

Hoje, nós temos 80 mil pessoas que doam mensalmente uma média de 20 reais para o Graacc. Você passou para essas pessoas todas essa ideia de confiança, de que ela pode ajudar uma instituição que tem que zelar por isso.

Eu acho que, como brasileiro, eu que vi muita coisa no exterior, hoje me sinto dentro desse projeto muito realizado e agradecido, e reconhecer que o brasileiro quer ajudar e quer sentir que existe importância no trabalho, mesmo que seja de formiguinha de cada um, mas que todo mundo junto pode mudar muita coisa. E eu acho que nós somos um exemplo de que isso pode realmente acontecer.

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