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História

O dom de cuidar, amar. A felicidade de receber tudo de volta

História de: Ana Maria Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/02/2019

Sinopse

Ana Maria. Ela adora o seu nome. Tanto que, se tivesse uma filha, seria Ana Maria também. Nasceu em algum ano que de cor não sabe, numa segunda-feira, 10 de julho. Na roça, em Sergipe. Lembra da infância, das brincadeiras com os irmãos, do cavalo manso que montavam, da boneca que ia buscar na plantação de milho - uma espiga bonita, com pelinhos rosa. Lembra, também, da vinda para São Paulo. E do emprego de doméstica - o primeiro e único em toda a vida. Hoje, aposentada, faz parte da família. As crianças chamam-na de vó e ela é companhia de todos os momentos - os passeios, as viagens, mas também o carinho, a consideração que os envolve - a ela e todos da casa - como uma verdadeira família. Nem acredita de onde veio, tudo o que faz, até onde chegou. Por isso, só pede a Deus saúde para continuar com todos eles, a sua família.

História completa

Num 10 de julho, segunda-feira, na roça, em uma localidade chamada Itaporanga D’Ajuda, Sergipe, minha mãe sentiu que era hora da primeira filha nascer. Eu, Ana Maria Santos. O ano? De cor eu não sei. O que sei é que sempre gostei do meu nome. Se tivesse sido mãe, e fosse menina, iria com certeza se chamar Ana Maria também.

 

Da infância, tenho lembranças gostosas das brincadeiras com os irmãos. Éramos em cinco. As três últimas nasceram já em São Paulo. E lembro também que por ser a mais velha ficava por minha conta esquentar a comida para nós enquanto meus pais estavam na roça.

 

Às vezes a gente comia antes da hora, porque achava que já estava na hora do almoço. Aí o dia ficava muito longo, não é?

 

Também lembro da gente ir lá na roça, na plantação de milho, buscar aquela espiga que tem aquele pelinho rosa, amarelinho, e que para a gente era uma boneca de milho. Estudar, estudei até o terceiro ano só. Eu tinha dificuldade de aprender, tinha vergonha de falar para a professora e preferia, então, ficar em casa, cuidando da limpeza e dos irmãos. Talvez por isso, e por esse temperamento estritamente caseiro que desde sempre me acompanhou, eu tenha crescido sem o ideal de ser alguma coisa específica quando crescesse. Só que, às vezes, eu me surpreendo como as coisas vieram a mim. Ou seja, de onde eu vim, de onde eu saí, e onde eu estou.

 

O pessoal fala de querer sem conseguir. Hoje não, hoje eu tenho uma vida que eu não pensei, para a minha idade… De onde eu vim, o que eu faço.

 

A vida na roça, principalmente para viver a infância, era maravilhosa. Brincar de gangorra, montar a cavalo. Mesmo já mocinha, lavar a roupa na beira do rio. Ficava ali o dia inteiro, na sombra, conversando, lanchando. E pescando camarão, peixinho para o jantar. Depois, passar a roupa com ferro de carvão. Mas chegou o tempo em que meu pai decidiu que era preciso sair, melhorar de vida. Viemos para São Paulo. Ele já estava aqui, trabalhava aqui. Uma longa e sacrificada viagem. Uma semana, de trem. Dormindo nas estações. E aqui nos instalamos, três camas num quarto, dormindo todo mundo junto.

 

Os que podiam ir para a escola, iam. E os que não iam, ficavam em casa.

 

Veio o tempo em que nós, as duas mais velhas, fomos trabalhar. Domésticas, na mesma casa. Voltávamos para a família no fim de semana. E eu, no começo, chorava de saudade da família, dormia chorando. No meio da noite, acordava soluçando. Mas eu quis continuar, tinha que ajudar meus pais - recebia o salário, entregava para a minha mãe, que me retornava um tantinho. E desde uns três anos com essa família eu ouço que sou parte da família. E, de fato, sou. Tratam-me como tal. Toda a vida eu sempre trabalhei na mesma casa, com a mesma família. E hoje, eu já estou aposentada - há muitos anos. Porém, mesmo aposentada, eu continuo com eles. Foram-se o pai, a mãe e os filhos - assim como os filhos dos filhos - estão aí comigo. Me dando carinho e me fazendo sentir cada vez mais parte deles. As crianças não dormem sem ir em meu quarto para me dar boa-noite. Chamam-me avó. Tornamo-nos, de fato, uma família, onde, hoje, eu só faço compras, arrumo armários e cuido de plantas. Saio quando quero, pelo tempo que quero. Que ainda tenho contato com as irmãs, os sobrinhos - já sou tia-avó. Mas, volto sempre. Ali é o meu lar, a minha referência, a minha gente, o meu abrigo. Lembro que a patroa, quando viva, a mim se referia como irmã:

 

(...) quando ela não estava em casa, que alguém entregava uma coisa, ela dizia para a pessoa: “Olha, você chega lá e fala com a minha irmã”.

 

Depois de um bom tempo, a minha irmã decidiu não trabalhar mais. Mas voltou quando a patroa faleceu e só deixou a casa quando morreu o patrão. E eu sempre com eles, até cedia minha folga para minha irmã, sempre fui caseira. Nunca namorei, nunca me apaixonei, nunca vivi essa ilusão. Nunca fui a um baile, sempre, sempre, preferi ficar em casa.

 

Eu não nasci para casamento e nem nasci para ser freira.

 

Agora, quando olho para a minha infância o tempo vivido lá na roça, é que eu consigo avaliar o quanto sou feliz por receber o carinho de todos eles; nunca imaginei receber tudo isso que eu recebo, na minha velhice. Mas, também, sempre cuidei de todos eles com o mesmo carinho, principalmente dos que hoje já são adultos, já são pai e mãe. Até parece que estavam certas aquelas pessoas que me diziam que eu não tive filhos, mas tenho o dom de cuidar dos filhos dos outros.


E hoje - aliás, de algum tempo para cá - eu acompanho a família em todas as viagens - Miami, Disney, Orlando. Passeios, teatros, restaurantes… Acho incrível, acho delicioso, não dá nem para ver o tempo passar, não dá para sentir que se está envelhecendo. Por isso, hoje eu só peço a Deus que me dê mais tempo de vida. Porque a vida é o que de melhor a gente pode ter. Para amar, ser amada e gostar de você também.

 

Só quero saúde (...). Para eu viver, viver mais, junto com essa turma com a qual eu vivo (...).


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