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História

O dom da simplicidade

História de: José Gileno do Nascimento
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/02/2005

Sinopse

José Gileno do Nascimento nasceu 13 de maio de 1944, na cidadezinha de Campo do Brito, estado de Sergipe. Para ajudar em casa, durante a infância, em meio às brincadeiras, quermesses e procissões, ajudava o pai na lavoura e vendia feijão, farinha, arroz, numa barraquinha do mercado de Aracaju. Já na juventude, aventureiro,  embarca em um pau de arara e depois de 18 dias viajando, chega a Santos e com a ajuda do cunhado, consegue um emprego num restaurante. Entre idas e vindas de Sergipe a cidade portuária, volta para Santos e decide se firmar como garçom, profissão que exerce até hoje. Nesse depoimento ao Museu da Pessoa, José Gileno comenta sobre a viagem de pau de arara, suas primeiras impressões sobre a cidade que o acolheu, seu primeiro trabalho em restaurante e como é a convivência com os clientes no Restaurante Almeida, onde é um dos garçons mais antigos.

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História completa

Meu nome é José Gileno do Nascimento. A data é 13 de maio de 1944, Campo do Brito, estado de Sergipe.

 

Campo de Brito é uma cidadezinha pequena. Quando eu era criança quase não tinha nem carro, tinha duas bicicletas velhas pelo meio da rua. Agora cresceu um pouquinho, está mais evoluída, tem até sobrados, está mais ampliada, tem as ruas todas calçadas, mas foi ampliada num sistema de vida melhor, antes era só lama, a rua toda era lama. Quando eu era moleque saía para um passeio, caía na lama. Agora não, já tem um envolvimento mais bacana que toda cidade merece, as cidadezinhas pequenas do interior. Eu estive ainda agora, há dois anos atrás, era uma cidadezinha feia, tenho até foto em casa, estava vendo agora e está muito bonitinha. Quer dizer que são cidades que cresceram de uma hora para outra, desenvolveram. Nós morávamos num sítio encostado à cidade. A cidade foi crescendo, crescendo e o sítio ficou dentro da cidade, inclusive nós tínhamos casa dentro da rua. Mas naquele tempo nós trabalhávamos na roça, meu pai tinha meia fazendinha lá, cheia de gado.

 

Depois o tempo foi passando, nós éramos em 17 irmãos, uns foram casando, outros foram saindo. Aí naqueles irmãos que foram saindo, foram fazendo falta porque ele aceitou o que fazia, ele pegou de seis, a fazendinha, as vacas de leite, venderam tudo, o carro de boi também vendeu e ficou no sítio do Ceilão, plantando, com duas vaquinhas para dar o que comer e leite bem cedo, e ficou ali. Os filhos foram embora, ficou só ele e a velha, só.

 

Eu não me lembro de “traquinação” nenhuma porque eu fui muito “humilheiro”, fui muito brincalhão. Até hoje não gosto de cara feia, nem beliscão, nem de tapa em ninguém. Brinco muito. Adoro todo mundo, seja cego, aleijado, ou o que for. Mas tapa, beliscão e cara feia não é comigo. Eu fui criado assim, nunca me agarrei com ninguém.

 

Entrei na escola com 8 anos. Era o Grupo Escolar Guilherme Campo, na cidade, um grupo muito bom que ainda hoje está lá. Foi formado muitas pessoas naquele grupo. Ele era perto assim, de onde nós morávamos, do lado da cidade, e tinha que atravessar a cidade todinha para ir para esse grupo. Tinha lugar que não ia pelo centro da cidade, ia por fora da cidade onde passa os animais. No inverno chovia muito, enchia de lama, eu catava um tamanco de madeira, enfiava no pé e lá ia. Chegava na lama, passava descalço, na frente calçava o tamanco de novo. E assim foi minha vida. A turma não tinha lanche nem nada, eu pegava um pedaço de cuscuz, uma coisa qualquer, enrolava de papel, era o lanche do recreio. Hoje é diferente, se não desse cinco contos não ia para a aula. “Quero isso, quero aquilo.” Aquele tempo era um tempo pobre, mas era humilde, não é aquele camarada que não tem nada mas quer ter tudo. Tem gente que não tem nada e quer abarcar o mundo sozinho. Tem que ser o que pode ser.

 

Nós começamos numa casa de madeira tapada a taipa, acho que vocês não se lembram nem nunca viram uma casa tapada a taipa. E nem nunca viu fazer. Finca os paus, que nem fosse uma casa de madeira aqui de Santos. Põe umas varas por dentro e por fora e amarra com cipó que é tirado do mato e vai amarrando. Fica uma vara lá e outra cá que nem meus dedos e faz aquele buraco de barro, enche d’água e nego sapateia ali que nem se fosse uma massa para tapar parede, vem com aquele bando de barro e põe dentro daquelas brechas que tem as varas, e vai tapando. Essa nossa casa foi assim, mas era uma casa com três quartos grandes, dois quartos dormiam minhas irmãs que eram todas moças e nos outros dormia a gente. Tinha a área onde tinha o depósito para pôr algumas coisas, tem a garagem do carro de boi, podia vir um Cadillac que o carro de boi ficava lá dentro da garaginha dele.

 

Uma mesa que cabia, vamos supor, 15 pessoas, na hora do jantar metade ficava na mesa, metade ficava por ali nos banquinhos ou não comiam todos de uma vez. Era gostoso. O almoço e o jantar era aquela festa, aquele converseiro, aquele diálogo. Mas isso é quando a família é estruturada e pode ficar todo mundo junto. Tem família que um irmão não pode olhar o outro, o pai tem bronca do filho, o filho do pai. Mas naquele tempo não, era sempre ali. Era um sossego porque era um sítio grande, nós fazíamos aquele serviço. Nos divertiamos, nós passeávamos, meu pai e minha mãe nunca foram pessoas que não ajudasse a gente, sempre estavam do lado da gente, sempre dando aquela proteção para o filho. E conselho.

 

Eu me criei posso dizer, dentro de Aracaju. Eu ia muito para Aracaju, eu e meu pai. A gente vendia feijão, farinha, arroz, numa barraquinha que a gente tinha esse mercado grande onde caiu há pouco tempo. Trabalhei muito com meu padrinho lá, nessa barraca que eu citei, que era uma barraca de feira, nós íamos para lá vender. 

 

Namoro era meio esquisito, era namoro não, era uma conversinha de longe a longe. Porque não tinha namoro naquele tempo. No tempo que eu era moleque, o namoro era a moça aqui, a mãe ali e o pai aqui, naquele sítio. Na cidade era a mesma coisa, ninguém vê um agarrado e se beijando. Meu pai mesmo conta que veio beijar a minha mãe no dia do casamento. E aquele beijinho simples. Meu pai contava pra gente, contava a vida dele. O casamento era numa rede, amarrava uma rede dessa aqui de dormir, num pau grande. O noivo numa rede e a noiva em outro e o povo carregando no ombro. Na vinda, vinham os dois numa rede só porque já estavam casados. E o namoro era pelo buraco da fechadura, via a moça uma vez no mês. Eu digo porque eu namorei muito lá. Entrosei o papo com muita menina e nunca cheguei a dizer que abraçava. Depois que eu vim a primeira viagem aqui e voltei, aí cheguei lá e noivei, carregava a noiva para todos os cantos.

 

Eu trabalhava, trabalhava, tinha dinheiro, tinha uma vida boa e deu na mente para conhecer Santos. Eu escutava falar muito em Santos. Meu irmão já estava aqui, minha irmã já estava aqui casada, no Morro de Pacheco. E tinha o Pau de Arara que saía, toda semana saia dois, um na segunda e outro na quinta. Pau de Arara era aquele caminhão coberto com uma lona rente a carroceria. Eles colocavam coco ou feijão para ficar rente, ali eles cobria, passava a lona e todo mundo vinha sentado lá em cima. Vinha 35 pessoas cada vez. Sentado, não era deitado não, era sentado que era para dar lugar.  A estrada era de barro, de Santos a Sergipe era de barro, não tinha pista. Aí deu na telha de vir. Aí deu na telha de vir. Minha mãe: “não vai, não vai, não vai...” Eu peguei um dinheirinho na carpintaria, embolsei, mandei fazer uma camisa de lã e fui lá comprar uma passagem de pau de arara para vir. Quando fui comprar passagem era o Zé de Mantinha, que era compadre de minha mãe que era o motorista do pau de arara. Ele falou: “Quer ir, vai comigo, paga nada não. Vamos!” Arrumei a mala, aquela mala, eu não tinha mala, tomei emprestada do vizinho uma malinha de madeira, não tinha mala de couro que nem tinha. Uma malinha desse tamanho de madeira forrada de papel, eu peguei enchi de roupa, enfiei dentro de um saco e lá se fui eu, um chinelinho japonês no pé. Cheguei em Santos sem chinelo, caiu na viagem. Quando parava nos postos para abastecer e dormir, todo mundo dormia no chão, metade em cima, metade no chão debaixo do caminhão. Parava num lugar, chovia, aquelas ladeiras de barro, tinha que descer todo mundo e ir a pé por dentro do mato e o caminhão ia subindo pela lama. Quando chegava lá na frente chegava a gente com os pés cheios de barro.  Para vir para cá foram 18 dias.

 

Quando parei no pé do Morro do Pacheco e vi aquelas valas d’água, a rua feia, eu vi aqueles casebres logo ali, meu primo ia passando e o motorista de caminhão falou “Aquele ali é seu primo!”, “Chegou um primo seu e vai lá para a casa do Carlinho, que era o meu irmão e minha irmã.” “O que leva lá para cima?” “A mala, esse saco de farinha e minha mochila.” Ele catou logo a mala, a mala tinha só duas roupas dentro, me deu o saco de farinha desse tamanho, eu tinha só 18 anos, ainda fraquinho. “Pega o saco de farinha”, “Pega o saco de farinha você”. Eu pus nas costas, pensei que eram só dois degraus. Era a última casa do morro lá em cima. Tinha degrau que vinha no meu nariz, tinha que subir. Olhar para trás não dava porque caia, dava tontura. Eu cheguei lá em cima quase sem fôlego, sem fala. Dezesseis dias descendo e subindo, não estava empregado, porque eu vim mais para passear.  Fiquei 16 dias assim. Com 16 dias eu arrumei a mala e falei para minha irmã: “Agora eu vou embora.” O meu cunhado que agora tem rincão lá em AlphaVille falou: “Arrumei emprego para você.” Lá no S. Maneco, que era um lugar que ele comia, ele trabalhava com negócio de construção, “ele está precisando de um rapaz lá, trabalha dois meses, depois tu vai embora.” Eu, para obedecer meu cunhado, ele sempre foi bom comigo, eu fui lá falar com S. Maneco. Ele olhou para mim, perguntou de onde eu era, aí o português falava: “Você vai fazer isso, isso, isso.” Eu ia fazendo o que ele ia falando. Depois os empregados iam saindo, ele me trocando no lugar dos outros e eu ficando ali. Eu comecei ali ganhando oito contos, que eram oito mil réis, passou para nove, passou para onze, passou para treze, passou para dezesseis, pulou para vinte e um, e eu lá. Quando o salário chegou no vinte e um, no mês de agosto eles venderam a casa. Eu estava com quatro anos e quatro meses. Ele me chamava de Castelinho, porque Castello Branco estava no poder. Me puseram o apelido do filho do Castello, o Castelinho. Aí eu fiquei, de agosto até dezembro. Dezembro, eu doido para ver minha mãe, meu pai, meus familiares, eu falei “Joãozinho, eu acho que eu vou dar um chego em Campo do Brito agora, estou precisando de umas férias de 15 dias ou um mês.

 

Naquele tempo eu levei dinheiro para ficar sem fazer nada uns seis meses, enchia os bolsos de chicletes e ia para as portas dos colégios paquerar as menininhas. E comecei aquela vida de não fazer nada, só na cidade passeando. Fiquei três meses só passeando. Aí quando chegou nos três meses e eu já estava noivo, olhei para o bolso e o bolso esvaziando. “Antes de acabar eu vou é ir embora.” Falei para meu pai “Tal dia eu vou embora.” “Mas você não veio para ficar?” começou a choradeira de novo, peguei minha mala, terminei o noivado e vim embora. Daí a dois anos fui lá de novo.

 

Quando vi, eles ficharam minha carteira, eu fiquei 15 dias com dente inchado, para extrair o dente e a carteira já fichada. Conclusão: quando eu falava de sair, ele cobria com uma graninha. “Mas S. Paulo, com esse ordenado aqui não dá para eu casar, 95 mil réis não dá para eu casar.” “Não se incomode que eu aumento.” Arrumei uma noiva para casar: “S. Paulo, como vou casar com esse salário aí?” “Não se incomode.” E eu só trabalhando. Noivei, casei, ele foi fiador da minha casa naquele tempo, padrinho de casamento, padrinho da minha filha quando nasceu e eu lá. Quando venceu um ano do aluguel, ele me emprestou dinheiro e eu fiz uma casarona lá em São Vicente, com dinheiro dele emprestado.

 

O Almeida é uma das casas de Santos mais velhas. Um dos patrões que mais posaram lá dentro. Quanto mais velho é o patrão na casa, mais orientação tem com os clientes e com os empregados. Patrão que vai mudando, mudando, ele não conhece nem empregado nem cliente. A pessoa parada ali conhece todo mundo, dá pra ver quem é bom, quem não é. Quem paga bem, quem não paga, dá para tirar uma base. É o que o Almeida tem. Mercadoria de primeira, vem ruim, volta. Por isso que o Almeida é em pé.  A rotina do restaurante é uma rotina muito boa, 24 horas no ar, não fecha. Quando eu entrei lá, tinha um movimento fabuloso na madrugada porque tinham as boates, que vinha aquele pessoal todo, cantor e tudo. Nós tínhamos muito trabalho e muita frequência na madrugada, era menor. E com tudo isso, o oferecimento da casa é mais sossegada, naquele tempo tinha muito tumulto. Chegava gente para almoçar, ainda tinha gente da noite ali, rodando, bêbado, levantava meio atordoado. Agora não, agora o ambiente é uma beleza de familiar. Você vai lá, de noite só tem namorados, mulher, marido, filhos. Vai de madrugada é a mesma coisa. Não tem uma briga, não tem uma discussão, não tem uma cara feia. Você se sentindo assim escutando uma musiquinha, um papinho gostoso, é a melhor coisa.

 

A gente faz uma comparação assim, nós, os empregados, é como uma casa de família, todo mundo estar junto no serviço, todo mundo está em tudo. Lá é o pai, os filhos e nós, como família. Os filhos excelentes, o senhor de idade que é o pai, não tem melhor, muito boa pessoa, eu digo que até que é meu segundo pai, porque eu estou lá há 34 anos, nunca faltou nada para mim, serviço não falta, dinheiro muito menos. A vida é muito boa. Se eu saísse de lá, nos tempos que eu queria, o povo que foi me buscar lá, acho que já teria morrido, mas como o serviço é lento, um serviço devagar, um serviço muito comunicativo, as horas vão passando, os dias e os anos. Agora quando eu fui ver na carteira, falta um ano para aposentar. Que bom, porque eu perdi os quatro anos que eu trabalhei no outro. Estou com saúde, estou com fé de ir mais uns oito anos por aí e continuar lá. À casa, graças a Deus, e aos fregueses também porque são eles que mais põe a gente lá em cima. Os fregueses que fazem a casa. Tem que ter gente lá dentro, gente para trabalhar e gente para gastar. O tratamento é muito ótimo porque os fregueses não são fregueses, são filhos da casa. Eu cheguei a carregar criança, por no cadeirão, a dar um pirulito para a criança e hoje ele chega com o filho dele e fala: “Esse garçom aqui me pegava que nem está pegando você para por na cadeira.” Quer dizer que são filhos da casa, se criam ali dentro, crescem, casam, e voltam com os filhos. Eu digo que é de filho a filho. Eu sirvo advogado, juiz, médico. Lá eles são amigos da gente. Desde que eu entrei no Almeida eu não tenho nada a dizer, a não ser felicidade e trabalho. Tem que trabalhar.

 

O dia da pendura foi bom, porque todo ano eles inventam uma coisa para fazer, sempre tem uma paredinha para pintar, uma limpezinha para fazer, uma torneira para mudar. A casa vazia é mais fácil de descobrir a limpeza melhor. Então eles fazem isso, batem na porta, a casa está fechada, porque se o estudante fosse lá só para comer, eu até concordava, acabava de comer, “eu sou estudante, hoje estou duro, eu vim comer na sua casa que é a casa de Deus”.  Apertava a mão, abraçava o velhinho, ele ia ficar até contente. Mas muitos levantam a carteirinha e tiram sarro, tiram sarro de mim que estou servindo e acham que ali ele fez alguma coisa. Acho que não. Se ele está estudando e se ele tem que ser educado, eles tinham que ir com mais educação também. Fecha às dez horas da noite e só abre no outro dia depois da meia-noite. Assim a gente não se aborrece também. O ruim é o aborrecimento, o mal trato. Não pega bem para ninguém, no dia do estudante ele sempre fecha a casa.

 

Hoje o cliente mudou, mudou para o bom, o estilo do cliente mudou para o bom. Porque tinha cliente, que não são todos, mas a maioria vai ao restaurante porque a mulher expulsou ele de casa, não deu de comer, o outro brigou com o filho, o filho comeu a comida toda, deixou ele sem comida e ele vai lá pra brigar com o garçom, vai desabafar em cima daquilo. Muitos vão pra lá pra comer e no fim da comida, dizer que tá ruim o prato pra não pagar. E hoje em dia, não se vê isso, dificilmente chegar um camarada pra dizer: “olha, a comida estava ruim”, “olha, não vou pagar”, muito difícil, não sei se é só lá, mas é muito difícil, tem uns que reclamam uma coisinha, mas é de leve, até brincam com a gente. Mas já teve freguês que veio lá invocado lá não sei da onde, querendo jogar o prato até na gente, já aconteceu comigo, o freguês levantar, pra virar o prato e jogar em mim. Eu só o acalmei, contei umas histórias e ele se sentou e foi comer a comida dele. Não adianta ter dinheiro, ter carro importado, ter um apartamento de cobertura e não ter moral nem respeito com ninguém. Eu não sou rico, não sou nada, mas o que eu tenho é suficiente para eu viver uma vida maravilhosa, porque tenho todo mundo como companheiro e companheiras, como amigos, amigas. Eu nunca maltratei um cliente, xinguei um cliente, brinco, empolgo com os clientes mas na brincadeira. 

 

Em casa, ultimamente eu ia pintar a casa. A casa é pintada de dois em dois anos, retirar uma telha quebrada. Mas como não tem o que fazer, vou lá para o quiosque de meu irmão em Bertioga, ou senão vou para Praia Grande na casa de minha prima passear, ou vou para São Paulo para a casa de uma irmã. Tem sempre para onde eu ir e quando eu não quero ir para canto nenhum fora da cidade, eu vou para uma mesa de snooker e bato snooker o dia inteiro. Trabalho a semana inteira, vou me divertir um pouco, não é só ficar enterrado no serviço.

 

Tenho um homem já de 20 anos, namora com uma menina, mora na casa dela, não casou, mas está na casa dela. Tenho uma menina com 24, está com três filhinhos, já está na casa dela, casada. Graças a Deus, independente da vidinha dela. Essa é da primeira mulher. Eu casei, com três anos separei, dei uma casa para ela e fiquei com outra. Arrumei outra, tem 16 anos que está comigo, com essa não tenho filho. Eu e ela e só. Vivo uma vida assim, tranquila, sem aborrecimento. Sem perturbar a vida dos outros.

 

Uma coisa ótima, maravilhosa, é a pessoa viver sem tanta preocupação, sem tanto argumento, sem aquele apuro de vida “enfocável” que eu vejo em muita gente. Muita gente se irrita com pouca coisa e não é nem aquele o problema. Eu sempre falo para uma mulher que eu tenho, quando ela está reclamando muito: “Olha para trás aí na rua, ou vai ao hospital. Você vai ver gente com perna quebrada, sem família para visitar, vê pai de família desempregado, com duas ou três crianças para criar morando debaixo de um viaduto. Você vê muita gente dormindo no passeio. Isso eu tenho que ver que é para não ficar reclamando. Eu durmo na minha casa, durmo debaixo do meu cobertor, tenho dinheiro – pouco ou muito – eu tenho, tenho saúde que Graças a Deus até hoje, que de 10 anos para cá, nunca fui num médico. Não sou de ferro, mas sempre me peguei com Deus, e tenho fé, enquanto me pegar com ele e ele existir eu levo uma vida boa.

 

Se pudesse mudar algo na minha vida, mudaria “num” termo bom, nas minhas idéias. Comprar uma casa, um sobrado com uma área bem grande em cima, um carro na garagem para num dia de folga pegar a mulher e ir para um lugar bem longe, senão comprar um sítio com uma cachoeira, aí é gostoso. Mudar assim, não mudar de cidade, sair de Santos e ir para dentro de São Paulo. Sair de Santos e ir para São Vicente. Mudar para alguma coisa melhor, uma coisa ampliável. Esse é meu sonho, sabe que eu se eu ganho uma nota nesses jogos malucos, aí eu mudo. 

 

 

 



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