Busca avançada



Criar

História

O dom da profecia

História de: Maria da Conceição Marques Figueiredo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/06/2014

Sinopse

Maria da Conceição é uma benzedeira, nascida na cidade mineira de Sabinópolis. Com muita animação conta como foi sua infância vivida na roça, em companhia dos irmãos, dos pais e da avó portuguesa. Fala sobre como foi morar na casa do padrinho para continuar seus estudos. Recorda a mudança para São Paulo e os primeiros tempos na terra da garoa.

Tags

História completa

Meu nome é Maria da Conceição Pereira Marques, nasci em Sabinópolis, Minas Gerais, em 29 de março de 1951. A minha avó, eu acho que nasceu em Portugal. A minha avó trabalhava muito com linha, fazia linha no fuso, fazia linha e bordava, aquela coisa de Portugal, tudo ela fazia a mão, fazia vinho de folha de figo, fazia fumo, plantava pé de fumo e ela mesmo fazia o fumo, que tirava, às vezes ajudava, ela fazia o fumo e fazia o rolo do fumo e fazia até o pó. Ela plantava o algodão e fazia aquele montão de algodão e fazia no fuso a linha e costurava com a linha que ela fazia em casa. Eu conheci só a avó por parte de pai, ele tinha um amor muito grande por ela, quando a gente mudava, primeiro ela fazia o quarto dela, pra depois fazer o nosso. Minha mãe não sabia ler nem escrever, o meu pai sabia bem ler e escrever. Eu conheci só a minha avó materna, mas ela não morava em Sabinópolis, ela morava em Belo Horizonte com os outros filhos. O meu pai que cuidava de tudo, ele era muito honesto, muito trabalhador. De filhos, eram sete meninas e um menino, minha mãe não deixava o meu pai ir sozinho, ele ia com a minha mãe, com as crianças, o meu pai tocando, o povo dançando e minha mãe dando mamar pra criança, era muito engraçado, e eu dormindo aqui no pé dela. Eu sou a terceira das mais novas.

Quando a gente morava na roça eu tinha que ir pra escola. A minha mãe, ela não trabalhava direto fora, naquele tempo não usava mulher trabalhar fora, minha mãe cozinhava pros caras que ajudavam lá o meu pai e tinha um monte de criança pequena. Então o meu padrinho era juiz de direito, antigamente usava dar as crianças pra quem tinha mais condição, no caso, se faltasse a mãe ou o pai, o padrinho ou a madrinha assumia, que tinha condição. Eu era uma das primeiras da classe, eu passei forte, fizeram um vestido muito bonito pra ganhar o diploma. Eu era muito forte em Língua Portuguesa. A professora mandava eu fazer composição, mas eu quase que eu fazia era um livro, porque ela dizia: “Faz de três páginas”, mas eu fazia muito maior. E ela saía de porta em porta mostrando para as professoras: “Olha o que é que a minha aluna escreveu, olha o que é que ela escreveu”, “Mas quem é que ensinou isso pra ela? Vamos por no jornal, no jornal da escola”.

A minha irmã que já tava em São Paulo me chamou: “E porque você vai trabalhar pra ajudar o pai”, ela foi lá naquela casa e me tirou de lá pra mim vir pra São Paulo com ela pra trabalhar, chegou aqui, eu fiquei muito triste. Eu tinha 13 anos, eu não me sentia bem porque era um outro ambiente. Ela ficou comigo lá no trabalho dela, ela trabalhava de doméstica lá nos Jardins pra esse pessoal muito rico. E eles eram bons, mas a questão que eu não estava acostumada, eu achei muito estranho, muito esquisito. Fiquei sentindo falta de casa: “Não, você não vai voltar, não vai voltar porque você tem que trabalhar pra ajudar o pai, porque eu vou te por pra estudar”. E me pôs pra estudar, mas eu sentia muita falta de lá, eu fiquei, estudei, depois não terminei o ginásio. Em São Paulo, parece que eu estava meio perdida, eu não gostei, ainda mais que foi naquela época que tinha garoa, muito frio, e eu tava muito acostumada com aquela vida com eles lá, muito acostumada. Então eu senti falta, parecia que eu estava perdida, aquela gente tudo estranha, eu não consegui me equilibrar, eu fiz a metade do ginásio. Conheci pessoas muito boas, tinha uma mulher que era muito rica, trabalhava com arte, que me pôs pra mim ajudar ela, ensinar como é que me mexia naquelas peças. Tanto é que eu peguei muito costume, só passar o olho assim numa coisa cara eu já sei, cada pecinha assim, que você vende e dá pra comprar um apartamento. Então a gente só de olhar, a gente sabe, adquiri muita experiência. Depois minha irmã alugou casa, um quarto, cozinha e banheiro, lá no Santo Amaro, e a gente ia e voltava todo dia. E eu continuei indo e voltando e trabalhando com essa senhora, ela gostava muito, eles gostavam muito de mim.  Era novinha, era novinha, eu sou uma pessoa assim, de muito segredo, se você me falar uma coisa, eu sou muito amiga, muito fiel, se você me falar uma coisa, desde o berço, que não é pra eu falar, eu morro, mas eu não falo.  Eu fiquei uns cinco anos mais ou menos com essa senhora.

Era muito difícil a gente sair sozinha com um rapaz, sempre saía outra também junto, porque às vezes, confiar desconfiando, então a gente tinha muito cuidado quando arranjava um namoradinho, a minha irmã ia com o dela, a irmã da minha amiga.  Os namorados que eu arrumava era muito além de mim. Eu gostei desse gaúcho, ele gostava de mim também, mas ficava aquela brigaiada, aquele namoro meio enrolado, e eu era muito nova também, 18 anos. E apareceu esse que eu casei. Ele era um motorista de um banqueiro, mas eu nem sabia, porque eu via ele com aquele carrão, achei que o carro era dele, e ele era muito bonito, aquele bigodão.  A minha mãe já tinha vindo pra São Paulo. Ela foi lá no Mappin e escolheu meu enxoval, comprou o que ela quis. Eu sou uma pessoa totalmente desligada, eu tenho que me sentir bem, ser feliz, mas eu nunca fui interesseira de nada, tanto é que eu nem olhei muito o que ela comprou, eu nem sei, eu queria casar, eu já tava com muita raiva do outro, chateada. Esse que eu arrumei só faltava me pegar no colo assim, nossa, mas fazia tudo o que eu queria, eu falei: “Ai, meu Deus do céu e agora?”, esse, ele era um grande funcionário do banco, ele era muito direito, era uma ótima pessoa. Ele convidou o banco inteirinho, até o diretor do banco foi no casamento, eu falei: “Não, eu não quero casar com coisa chique, não, eu não gosto de coisa chique, eu sou muito simples, eu vou casar lá na igreja de Piraporinha, lá no Santo Amaro”. E o diretor do banco foi lá em Piraporinha no meu casamento, que eu quis naquela igreja. Casamos, ele alugou um apartamentinho pequenininho e nós moramos ali no Bixiga. Sabe a Escola de Samba Vai-Vai? Eles treinavam era na minha porta, e eu morava no terceiro andar, e ali, mas era um estouro, tum cum tum, tum cum tum, aquele barulho, eu ficava da janela assistindo a Vai-Vai ensaiar. E eu tinha acabado de ganhar neném, o menino ficava tremendo na cama, tanto que hoje esse meu filho mais velho é louco por causa de samba, porque na barriga ele já recebeu os fluídos. E quando nasceu eu falei: “Meu Deus, essa gente vai matar o meu filho de susto”. Eu saí do trabalho, porque eu tinha que cuidar do menino, e nós ficamos bem apertados porque tinha que pagar aluguel, e o meu dinheiro ajudava de uma certa maneira. E ele já tinha o terreno, nós compramos o terreno assim que nós casamos, mas não tinha condição da gente morar lá porque a gente chegava cá tudo sujo de barro, porque era uma vila muito pobre, era mato, não tinha água. Eu tive um filho, depois eu tive um outro filho, que foi lá onde eu morava. Comecei trabalhar também à noite pra servir as pessoas. Quando chegava de noite, um bebê pequenininho o outro com quatro anos, com três anos, a gente fica com a cabeça meia quente. Quando nós fomos lá no Ceará passear, eu trouxe uma menina pra me ajudar, pra ficar com os menininhos pra mim trabalhar. Eu chegava, tava aquele barulho, criança chorando, ele brigando e eu, teve uma vez que eu fiquei, assim, meia deprimida, meia triste, eu falei: “Isso aí é porque eu não estou rezando mais”, eu não ia mais à missa. Porque eu tinha duas crianças, então eu falei: “Eu já sei, eu vou começar a rezar porque eu acho que é falta de oração”. Eu tinha um livrinho de oração ali, chamava “Salve dominical”, que eu tinha ganhado na minha primeira comunhão, eu comecei a ler aquele livro, falei: “Quem sabe eu vou melhorar”. Não ia em nada mais, mas: “Ai, meu Deus, eu vou rezar lá no banheiro meu livrinho”, eu falei: “Só assim que eu vou rezar”, entrei lá no banheiro, comecei a rezar o livrinho pra mim poder dormir com as crianças. Eu escutei assim,  eu senti um bem, mas senti um bem que eu não sei te explicar, ele falou assim: “Olha, eu sou o principal, eu sou o anjo Gabriel, eu sou o principal mensageiro de Deus aqui na terra, eu vim pra te dizer que Deus está tirando esse nervoso”. Eu não tava muito bem: “Essa sensação, esse mal, tudo que está acontecendo no momento com você. Você vai ser uma pessoa, você vai voltar a ser muito alegre e feliz e os seus bons pensamentos Deus abençoa e os ruins Ele tira”, e eu falei: “Poxa, que bom, né?”. Eu estava escutando Mas era como se o banheiro tivesse ficado tudo azul claro assim, eu não vi o anjo, eu escutei nitidamente a palavra, e ele falou assim: “Tem outra coisa, Deus está te dando o dom de profecia”. Pra mim, eu não sabia nem o que é que era, ele fez uma pausa e ele fez um sorriso, como se diz assim: “Ela não sabe o que que é”, eu falei, ele falou: “Sabe porque você não fica muito contente? Você não sabe o que é o dom de profecia”. Eu falei: “É mesmo, eu não sei o que é que é dom de profecia. O que é que é o dom de profecia?”, eu perguntei pra ele. Então eu sei que o anjo falou comigo porque eu perguntei pra ele o que é que era o dom de profecia, ele falou assim: “Ó, você vai falar as coisas pras pessoas, as pessoas vão vir te procurar e você vai falar as coisas, você vai abrir a boca e você vai saber o que você vai falar”. E a maioria, muita gente que eu atendo são pessoas que davam atendimento pra outras. Eu fiquei contente, quando ele falou que eu ia falar as coisas, eu falei: “Ai, que bom”, que até então eu não sabia o que eram, eu senti que eu peguei o fio da meada, que eu sabia o que que era, falar as coisas pras pessoas. No dia seguinte fui pro serviço. Não falei nada pra ninguém, fiquei tão emocionada que eu já fui direto deitar, era umas nove horas da noite, porque eu ia dormir cedo porque cinco horas da manhã eu tinha que levantar, dar comida, lanche pras crianças, por as crianças na escola e ir trabalhar. Não perdia um dia de serviço, até quando tinha greve eu ia, eu andando, eu ia de qualquer jeito, mas eu ia. Cheguei no serviço, as colegas: “Ó, venha cá, gente, eu sei falar as coisas”, “Como que você sabe?”, “Ah, não sei, apareceu um anjo lá, disse que eu ia falar as coisas, pode perguntar tudo o que vocês quiser”. Isso nove horas da manhã, tava no meu serviço, tudo o que perguntavam eu falava, tudo o que perguntavam eu falava. Ele não queria muito, não, porque ele não queria que as pessoas ficassem me procurando, ele achava ruim, como que se diz: “As pessoas ficam atrás dela e ela não pode, não dá pra ela trabalhar e também tem as crianças”. Então mexeu com ele um pouco e eu queria, eu achava que era uma missão que Deus tinha me dado, que eu não podia largar, cada vez ia mais gente. Quando era no meu serviço, as pessoas ficavam lá embaixo me esperando, carro no meu serviço, parecia que a linha de telefone era minha, toda hora gente ligando, ligando, brigando com eles pra eles me chamar, esperando lá embaixo com o carro cheio, com gente doente lá no carro me esperando. Não deu pra mim continuar porque quando eu ia sair pra ir trabalhar, a minha porta tava cheia de gente e não dava, a pessoa querendo conversar, querendo que eu benzesse, benzer coluna, benzer criança doente. E eu comecei a atender só as pessoas, mas nunca foi cobrado nada, começamos a benzer e a pessoa sentia o efeito da oração, então na medida eu comecei a benzer. Antes eu benzia os avós, agora já é os bisavós, os avós, os filhos, e agora já é a quarta geração, os filhos leva as crianças. Eu só larguei o trabalho mesmo quando as pessoas começaram a ficar muito em cima de mim, por causa deles ficarem correndo atrás de mim. Faz uns dez anos mais ou menos que eu não estou trabalhando mais, porque não deu.

Então, eu estou sentindo na obrigação mesmo de passar essa mensagem, porque são mensagens para o século XXI que me foram inspiradas por Deus, como é que vai ficar o século XXI. Então essas mensagens, elas estão muito atrasadas, porque eu achava assim, que eu podia escrever as mensagens falando, eu deixo as mensagens, de repente eu morro, porque é o nosso fim, até porque eu já não sou tão nova, já estou com 63. Eu falei: “Então as pessoas vão saber o que é que eu deixei para falar para as pessoas”, porque já é na minha parte de profecia.  

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+