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História

O discurso e a atitude

História de: Aurélio Anchises
Autor:
Publicado em: 27/01/2022

Sinopse

Aurélio lembra das histórias que ouviu sobre os seus avós. Conta que perdeu a mãe muito cedo e discorre sobre sua trajetória educacional. Quando estudante da Universidade de Brasília, foi admitido como professor, por concurso, na Fundação Educacional do Distrito Federal, começou a militar no Partido Comunista Brasileiro e acompanhou de perto a formação da Associação dos Professores do Distrito Federal, quando conheceu Olímpio Gonçalves Mendes. Acompanhou a greve de 1979, convocada pouco depois da constituição do SINPRO-DF. E especula sobre o futuro da educação no Brasil.

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História completa

Meu avô, se eu fosse um bom escritor, eu faria um livro sobre ele. Ele era um cara fora do comum: nasceu em 1800 e qualquer coisa, e naquela época ele já era antimonarquista, era republicano, antiescravagista, era um cara super progressista. Ele dá uma história perfeita. Agora a minha avó era oriunda dos suíços que vieram para Nova Friburgo [num projeto] de colonização do Dom Pedro II, para branquear a raça. Mas ela faleceu ainda nova, meu pai nem a conheceu direito, porque ele era muito garoto. O meu avô paterno era da região de Nova Friburgo também, ele morou muito tempo em Conceição do Macacu. A história da família é mais ou menos isso. Do lado do meu pai, eles eram calvinistas expulsos da Suíça, eram então protestantes. E do lado do meu avô materno, eles eram todos católicos, e foi onde eu fui doutrinado, pelo catolicismo. A alfabetização, as primeiras letras, o aprender a escrever, foi minha mãe que me ensinou. Ela faleceu eu tinha nove anos, aí depois eu entrei no grupo escolar. Quando foi em 1953, meu pai mudou para Goiás, minha mãe já tinha falecido, aí foi um tal de mudar de lugar, a cada ano era num lugar. Eu estudei em lugares, [e entre] os que mais me marcaram foi o Colégio Couto Magalhães, em Anápolis, onde eu estudei interno. Depois voltei para o Espírito Santo e lá eu concluí o meu ginásio. Depois fui fazer o curso de técnico agrícola, já no estado do Rio, e fiquei internado lá também, na escola agrícola. E depois vim para Goiânia, fiz o meu primeiro vestibular, passei na universidade federal, no curso de Geografia e História, e em 1967 vim para Brasília: fiz o vestibular na UnB, passei, e acabei me formando em Sociologia, bacharel. Eu resolvi vir para Brasília porque logo no início, quando ainda estava estudando na Universidade Federal de Goiás, vi que aqui a universidade era muito melhor. Para vir para Brasília e ter como me manter, eu fiz um concurso, que na época permitiam fazer aquele registro D, que era um registro provisório. Eu fiz e passei nesse concurso e fui trabalhar na [então] Fundação Educacional do [Distrito Federal], já com um salário bem melhor. E fiz vestibular para a UnB, passei também. Quer dizer, para me manter na universidade, eu acabei sendo professor. No dia 23 de março de 1968, fui dar aula nos maiores colégios de Brasília, que eram o CEMAB [Centro de Ensino Médio Ave Branca] de Taguatinga, onde eu moro hoje, e o CEMEB [Centro de Ensino Médio Elefante Branco]. Eram os dois grandes colégios de segundo grau de Brasília na época. Em dezembro de 1972, por eu pertencer ao Partido Comunista Brasileiro, e na época estudante da UnB, fui preso e demitido da Fundação Educacional. E tive que fazer bicos para poder sobreviver, até à anistia, quando voltei. Essa militância começou com a Juventude Comunista, em Goiânia, em 1967, e lá eu dei os meus primeiros passos. Na época da [formação da] Associação [dos Professores do Distrito Federal] eu não podia participar, porque eu era queimado, corria-se o risco de usar isso para intervir na Associação. Eu ficava por fora, a gente conversava, mas sem eu ter uma participação efetiva, apenas como observador. Eu nem dava aula nessa época, porque eu estava impedido de dar aula em qualquer lugar. Eu ia às reuniões do pessoal, mas ficava caladinho, sentado, só observando, para [depois] fazer relatos para o Partidão. Eu participava meio de surdina. E o Olímpio [Gonçalves Mendes], que também foi preso político, um dos fundadores da Associação, ele batia muito papo comigo. A gente trocava algumas ideias, e ele sabia da minha situação. O futuro da educação do Brasil está ligado diretamente ao futuro do Brasil, que é uma coisa que, até o momento, eu acho tremendamente obscura e complicada. Ainda mais agora, nesse momento que nós estamos passando, porque a pandemia nos tirou o norte da vida: você não pode fazer grandes especulações de futuro. Não vejo com bons olhos o futuro nem do Brasil e muito menos da educação, que sempre foi objeto de segundo plano em todos os governos que vivi desde eu ter consciência da vida. A educação era sempre um motivo de discurso, nunca de atitudes.

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