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Joice: o brilho de ser quem é

História de: Joice Catarina Sabatke
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/11/2021

Sinopse

Joice Catarina tem sangue indígena e europeu. Era para ser uma família numerosa; sobrou-lhe, todavia, apenas um irmão. O que não faltam são lembranças da infância. Das casas, dos lugares em que morou, da primeira escola, até da primeira redação. Teve o rosto deformado por um doberman, aos onze anos; a cirurgia plástica ajudou-a a superar. Queria o teatro, acabou fazendo Jornalismo. Exerceu-o com brilho e dedicação. Hoje agradece por tudo o que lhe aconteceu na vida e a forma como aconteceu. Joice cuida, com o mesmo talento e a mesma competência com que se houve no Jornalismo, dos negócios da família. Mas é com amor e muito carinho que está presente na criação, na educação e nos assuntos de saúde de Gabriela, a filha amada. Todavia, ainda lhe resta tempo para correr. Ela diz que a ajuda a respirar e a organizar os seus pensamentos.

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História completa

Joice é nome americano, estava na moda quando eu nasci. Catarina, por causa da bisavó paterna. Do lado da minha mãe, índios do Paraná; do lado do pai, imigrantes da Pomerânia. Ali começa a minha história.

Sou de 1975, sou da periferia de Curitiba. Meu pai, muito expansivo, hoje é presidente do Observatório Social do Brasil na nossa cidade. Minha mãe, aparente fragilidade, concentra toda a força, a mesma força que eu tenho. A força do feminino. Ela sempre quis ter muitos filhos, o destino só lhe deixou dois - eu e meu irmão. Por sinal, na infância, certamente esgotamos todo o estoque de brigas, porque hoje somos grandes companheiros. 

Das reminiscências da infância, lembro de uma lavanderia industrial que era nossa: eu ia buscar lençol, cortina, na madrugada. E a gente parava para comer x-salada.

 

(...) e aí era tão bom, foi a primeira vez que eu comi palmito na vida foi no x-salada, e era muito… Então tem esse gosto de x-salada.

 

De avôs e avós, a lembrança maior de vó Mia, da parte de pai. Jogava truco como ninguém, fumava, era assim bem espevitada. Morreu dormindo, na véspera de vir morar com a gente. 

Da escola, as lembranças são bem nítidas. Como o primeiro dia e a professora que disse: “Este é o primeiro dia de dezessete anos até terminar a Faculdade”. E outras escolas e outras professoras vieram, em outras cidades, por conta do trabalho do meu pai. Fomos mudando, fomos parar em Itajaí. Onde Chantal, o doberman da família, numa sucessão de erros meus, acaba me atacando, me desfigurando: foram sessenta e cinco pontos no total, no rosto. E o que é pior: tive que esperar cerca de quatro anos para poder fazer a cirurgia plástica reparadora: precisava me tornar mocinha, o corpo dar uma estabilizada, para operar. E parecia uma eternidade, a menstruação não vinha nunca. Nesse meio tempo, criança de onze anos, a caminho da adolescência, eu me retraí, me isolei: me refugiei na leitura, no estudo, na escrita; fiz verso e prosa, parei a dança, diminuí o esporte, quase que busquei a invisibilidade. Entretanto, a partir do momento em que a marca da tragédia sumiu, deu-se a liberação, buscou-se a compensação: cessou toda e qualquer necessidade de isolamento e eu descobri o brilho do teatro. Para desespero dos meus pais, que só conseguiram respirar aliviados quando eu anunciei a minha intenção de fazer Jornalismo. E efetivamente fiz o vestibular: a glória do primeiro lugar geral na Universidade privada e a honra de uma vaga na Universidade federal. Fui para Florianópolis. Sinto que foi uma decisão acertada ter saído da casa dos meus pais naquele momento, porque havia a dor e o luto pela perda de um irmão. Foi muito gratificante ter o apoio da família para os meus estudos, minha formação. Porém, mais do que isso, foi enriquecedor chegar à Faculdade e descobrir um mundo bastante diverso daquele a que eu estava acostumada - “a nossa vida era trabalhar, vender, comprar, tocar a vida”. Na verdade, foi aí que eu me dei conta do quanto a nossa vida era simples - quase simplória - e limitada. Deu-se um verdadeiro choque cultural, porque eu, por exemplo, nunca tinha sido colocada em contato com argumentos ou conteúdos ideológicos. Com o debate, com a possibilidade, com o direito de contestar verdades que eram colocadas como absolutas. Enfim, eu vislumbrei ali um mundo novo. Naquele contexto, tive a oportunidade de vivenciar, ainda como caloura, experiências jornalísticas inimagináveis, como a entrevista do Betinho, no auge da Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida. Ou a realização de matéria tendo como objeto um bar alternativo e emblemático da cultura, da intelectualidade de Itajaí - um bar de beira de cais. Que o próprio governador havia frequentado.

Chegou o último ano da Faculdade e com ele definições foram se impondo: terminei, de cara, o namoro com quem achava que iria me manter acorrentada ao seu feudo; eu me sentia senhora do mundo - Floripa, São Paulo, New York. E eu mergulho de cabeça no movimento estudantil, onde cresço política e hierarquicamente. Mas onde conheço, também, o meu futuro marido. Ou, na perspectiva de hoje, o meu ex-marido. Nesse meio tempo, eu começo a receber cobranças, pressões de meu pai: “Vou lhe dar três anos para você brincar de Jornalismo”. Um bônus, findo o qual as responsabilidades de tocar a empresa da família serão apresentadas como uma obrigação. Então, estão postos os fatores que irão responder pelo fracasso do casamento. Fracasso que se anunciou com muito pouco tempo, mas que a suntuosidade da festa acabou sendo razão para empurrar para adiante o fim da relação. Além do que, é preciso reconhecer que o casamento em si foi, no fundo, uma atitude apressada, dado que não havia convivência: embalados pelas lutas sociais, nós nos víamos em Encontros do movimento ou a cada quinze dias - um em Florianópolis, o outro em Porto Alegre. O fato é que passamos, depois de casados, quatro anos juntos em Porto Alegre. Foi o tempo que durou o casamento. 

 

Ele já morava no mesmo lugar em que mora hoje em dia, chama Tristeza o bairro. O bairro chama Tristeza. Ele mora na Tristeza. E eu fui lá morar com ele.

 

Aí, vim para São Paulo por uma ONG - Aldeias Infantis SOS Brasil; a que se seguiu a Veja, e depois a Editora Europa, da revista Natureza.

 

Aí vêm novas reflexões, novo relacionamento, nova pressão paterna, e a decisão amadurecida de ser mãe. Mãe de Gabriela. Curiosamente, o meu ex também tem a Gabriela dele - diferença de três meses entre as duas, que rapidamente se conheceram - mas eu tenho a minha marcada por uma história de superação. Esse segundo casamento também acabou, dele restando, felizmente, um pai muito presente. Mas Gabriela é ímpar, é cada vez mais amor e inspiração. 

 

Depois de muito pesquisar, descobriu-se em Gabriela uma disfunção na glândula pituitária, resultando no seguinte: ora os hormônios têm um processo normal, ora não têm. Isso ocasiona uma deficiência em termos de crescimento - idade óssea.

 

A dedicação a Gabriela, o acompanhamento de seu não tão simples tratamento certamente influenciaram na, digamos assim, aceitação do ultimatum do meu pai, então já separado de minha mãe: “Ou eu coloco alguém para administrar, ou eu vendo, ou vocês assumem”.

E assim… Sou muito grata a Deus por tudo o que aconteceu, pela forma como aconteceu. Minha rotina hoje se equilibra no sentido de atender à empresa, suas necessidades; à minha filha, suas especificidades; e ao meu desejo de levar uma vida saudável - antes pedalava, agora corro. Óbvio que sempre sobra um tempo para escrever alguma coisa.

 

Então assim… É bom, porque ajuda a organizar a minha cabeça também; eu vou respirando direitinho e as ideias vão se organizando.




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