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História

O destino vai mudando tudo o trajeto da gente

História de: Luis Fernando Corrêa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/11/2014

Sinopse

Luis nasceu filho de agricultor que cultivava batata em um pequeno sítio da família, o Sítio Campestrinho. Quando o pai faleu de infarto, o depoente tinha apenas um ano, e a mãe passou a ser o esteio da família, cuidando praticamente sozinha dos quatro filhos "ela foi pai e mãe para nós na época". Durante a infância, Luis estudou no colégio em que a mãe trabalhava como faxineira, e sonhava em ser motorista de carro e caminhão. Começou a trabalhar na roça com os irmãos aos 14 anos, idade em que abandonou os estudos. Aos 17 anos sofreu um forte golpe do destino ao perder sua mãe.

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História completa

Meu nome é Luis Fernando Corrêa. Nascido um de março de 1966 no município de Divinolândia. Luzia Crivelari Corrêa, que é minha mãe e Francisco Antônio Corrêa Neto, o meu pai. São nascidos no Palmeirão, em Minas Gerais. Meu pai era agricultor também. Meu pai cultivava batata também. Batata que ele mexia, um sitiozinho pequeno de um alqueire e meio que ele tinha. Um alqueire e meio de terra que ele tinha que ele plantava, lá do Campestrinho mesmo, Município de Divinolândia. Sítio Campestrinho, chamava na época. E minha mãe era funcionária pública do estado, faxineira. Só que ela era funcionária do estado lá da escola do Campestrinho, perto da minha casa era. Trabalhou 20 anos na escola, ela trabalhou. Tenho mais três irmãos. São agricultores também, com batata também. Mexem com batata também.

O meu pai praticamente eu não conheci, porque quando eu tinha um ano e dez meses ele morreu. Morreu com 39 anos de idade, então eu não tive contato com ele. Eu o conheço praticamente pela foto. Não tive nenhuma intimidade com ele, nada. Então pra mim fez uma falta grande nessa época. E minha mãe que foi que cuidou de nós praticamente, porque ela trabalhava ali na escola, ela sustentava todos nós. Meu pai morreu de infarto. Parada cardíaca na época. Foi em 1967, naquela época não existia uma medicina praticamente compatível com hoje, então foi fatal na época esse infarto. Quem era a mais velha é a minha irmã que tinha 14 anos, era tudo criança praticamente na época. Então foi onde que a minha mãe que cuidou de nós, sozinha praticamente cuidou. Praticamente ela era uma pessoa muito rígida na época, porque ela foi pai e mãe pra nós na época. Então ela tinha pulso firme pra controlar as coisas. Ela pra nós tinha horário para nós sairmos de casa, tinha horário pra voltar. Então não é igual hoje você chegava e saía, voltava, chegava a hora que queria, não. Ela tinha norma e eu era mais novo, então na época os meus irmãos já tinham... A diferença do outro que é acima de mim são oito anos de diferença. Eu lembro na época ainda ela chegar e ainda falar pros meus irmãos, pros outros dois, se chegava... O horário dela era dez horas da noite. Se chegava o primeiro dez horas falava: “Cadê o outro?”. Não chegou, tinha que ir atrás buscar onde estava, se estava no bar, se estava num baile, se tava no forró tinha que buscá-lo e trazer. Era dez horas o horário, pra ela era dez horas, não passava das dez horas. Então tinha essa norma com ela, então ela era uma pessoa rígida só que graças a Deus ela trabalhou na escola 20 anos ali, praticamente tinha amizade com todos os alunos, com todo mundo, todo mundo gostava dela na época que eu participei ali dentro da escola também tudo ali. Ela tinha coisa rígida, só que era respeitada, respeitada ali também era. Eu estudei praticamente oito anos ali. Do primeiro grau fiz tudo ali, da primeira série até a oitava série, foi tudo ali naquela escola que eu estudei. Então fui criado praticamente dentro da escola ali, né? Era uma escola grande. Era grande, era uma escola estadual. Agora, hoje ela é municipal. Tive uns eventos, umas coisas lá, passaram pra municipal. A escola era estadual na época. Na época tinha dentista, tinha tudo nessa escola, pelo ano dela era uma escola muito boa. Foi.

Desde criança eu convivia com minha mãe dentro da escola e quem cuidou mais de mim foi a minha irmã mais velha que tinha 14 anos na época. Ela que cuidou mais, o tempo que eu não estava na escola, que eu era pequeno, eu tava com ela na minha casa que é perto da escola. Só nós ali mesmo. E na época começaram meus irmãos a trabalharem também, criança ainda começou labutar também que foi levando a vida até. Conseguia dar a volta por cima, né?

No bairro que eu moro no Campestrinho praticamente não existia nem asfalto. Para acesso pra Divinolândia que são 15 quilômetros e Poços de Caldas também são 15 quilômetros de distância não existia asfalto, era tudo estrada de terra. Eu lembro quando eu era moleque ainda, meus irmãos mesmo, o que eles brincavam era de que eles falavam biscoitinho queimado, pique esconde, essas coisas que eles brincavam porque não tinha, não existia televisão. No bairro não existia televisão na época ainda. Nem televisão existia. Eu lembro que as brincadeiras que tinha eram essas daí, do povo. E quando surgiu a primeira televisão no Campestrinho até minha mãe era do tio dela, desse senhor. Ia na casa dele, assistia novelinha, que assistia. Então você vê, uma primeira televisão que foi pra lá foi para nós coisa do outro mundo, né? Aquela televisão branca e preto, aquilo tudo tremendo, né? Era a TV Tupi ainda, começou a pegar no Campestrinho, pegava na época ainda. Lembro-me da Copa de 74 que eu era moleque na época ainda, assistindo aquilo lá, o povo assistindo, a gente começando a querer entender as coisas e não entendia nada ainda na época com oito anos de idade. Praticamente não entendia nada de futebol, né? Você olhava na televisão pra ver aquilo lá, mas não entendia nada praticamente. Ia minha mãe, meus irmãos. Tinha esses que são vizinhos lá, aquela televisão que tinha no bairro do Santa Casa, a maior parte ia só pra assistir ali, não tinha outra. Aí depois que a minha mãe comprou uma televisão também, colocou em casa. Mas era uma televisão difícil de pegar na época.

A casa nossa era casa simples de tudo. Você vê, uma casa que não tinha chuveiro, não tinha uma laje, não tinha um forro, era só telhado mesmo. A casa simples, de cimento simples, chão de piso simples, aquele vermelhão que passava no chão. Não tinha banheiro, banheiro era uma fossa furada fora de casa. Não tinha acesso dentro de casa. Tinha força já, mas só que não tinha nem chuveiro, não existia pra nós ali ainda isso. Esquentava água na panela e colocava na bacia pra tomar banho. Era assim que ficava.

Quando eu era criança eu pensava muito em ser motorista (risos). Que eu pensava era nisso. Gostava de uma coisa, só que não tinha, né? Não tinha carro, não tinha nada, só que você via, a pessoa tinha, você gostava daquilo. Queria ser motorista de caminhão, carros.Ter uma carteira na mão pelo menos pra dirigir. Só que aí o destino vai mudando tudo o trajeto da gente. O destino é outro, né? Depois quando minha mãe morreu que foi aquele choque, né? Que eu tive oportunidade de sair dali e estudar fora, eu não tive cabeça no momento pra sair. Não tive.

Eu tinha 17 anos quando minha mãe faleceu também, com 49. Dela veio também de um problema acho que era enfisema pulmonar, só que nunca fumou, nunca bebeu. Eu até comento dentro da minha casa, falo pra eles, se deu isso daí nela que foi comprovado, tudo, os médicos alegaram que era enfisema pulmonar. Na época, ainda falo pra eles, que não existia força praticamente, força nossa era muito frágil na época, energia. Eu falo pra eles, é fogão de lenha, que era fogão a lenha, não existia fogão a gás, ou a própria lamparina que era querosene. Que eu falo que pode ter dado enfisema pulmonar pode até ser isso, que causou isso, porque nunca colocou um cigarro na boca praticamente. E nem o meu pai nunca fumou dentro de casa, eles comentavam, que eu não conheci. Então são umas coisas que você não sabe a verdade, né, que pode ser, que não pode.

Ela ficou três meses afastada da escola porque ela tava doente, aí quando ela volteu nós falamos ainda: “Não. A senhora não vai voltar a trabalhar mais, não.” “Não, eu já acostumei a trabalhar. Não quero ficar em casa”. Porque era perto também o serviço, né? Nesse dia ela pegou, ainda falou pra mim, eu cheguei em casa 17 dias que eu tinha voltado a trabalhar, ela falou pra mim: “Luís, eu peguei umas moedas que tinha aí e mandei teu tio levar duas cartelinhas da loto pra fazer”, na época. Aí ela pegou, tudo bem, né, e ela fazia um joguinho de vez em quando, gostava de fazer, no Campestrinho não tinha casa lotérica, Divinolândia não tinha, só Poços de Caldas e o meu tio morava lá, trabalhava na escola também. Aí ele levou essas cartelinhas, essas duas cartelinhas da loto que era antigamente, hoje é a quina que eles falam, e levou essas duas cartelas. Quando foi na... Isso daí era seis horas da tarde, quando foi seis e meia da tarde o meu irmão chegou a casa, esse que era casado, o Francisco, chegou a casa. Aí a gente não deixava ela sozinha mais, eu peguei: “Você vai ficar aí com a mãe, eu vou pegar e dar uma volta aqui no Campestrinho, já eu volto”. Tinha costume de ir numa venda que nós íamos lá, num botequinho pra comer um doce, essas coisas. Aí cheguei a casa oito e meia da noite, ele falou: “Ah, vou embora”. Foi embora. Os mais antigos tinham um ditado que café com manteiga cortava a tosse, ela deitou, falou: “Vou deitar”. Começou a tossir, ela falou pra mim: “Luís, dá um café com manteiga que eu to com muita tosse”, na época. Aí ela pegou, falou: “Luís, não tá passando a tosse, você podia me dar um AAS”, achando que era resfriado. Dei uma AAS pra ela pra ela, passaram mais uns 40 minutos ela começou a passar mal com falta de ar e tudo. Peguei, corri na casa do meu irmão, esse que era casado, o Francisco, ele falou: “Vamos levar pro hospital.” “A mãe não tá boa, tá com falta de ar”. O problema dela já era sério, nós sabíamos. Aí a internamos em Poços de Caldas dez horas da noite. Quando foi 11 e meia... Nós estávamos lá, o médico falou: “Vamos deixá-la em observação, deixar até amanhã aí que ela vai estar boa”. Quando nós estávamos fazendo a ficha na portaria para interná-la, aí já ligaram na portaria que era pra mudar a ficha que ela tava na UTI já. Nesse momento aí eu falei: “Vamos chamar o meu irmão, minha irmã tudo, chamá-los”. Nesse momento nós íamos saindo do hospital, vieram dois enfermeiros falando: “Não é pra vocês saírem, não, que os médicos querem conversar com vocês”. Nisso nós pegamos e voltamos pra dentro de uma sala lá perto da UTI, os médicos falaram: “Nós fizemos de tudo, mas não teve como fazer. Veio a falecer mesmo”. Aí quando foi no outro dia no velório meu tio falou: “Olha, tem duas cartelinhas da tua mãe que estão comigo”. Só eu, ela e o meu tio que sabia dessas duas cartelinhas. Aí ele pegou no outro dia no velório: “A cartela comigo lá em casa, amanhã eu levo pra vocês”. Quando foi no outro dia depois que foi sepultada tudo, na quinta-feira ele pegou, levou as duas cartelinhas e entregou pra nós. Quando foi na sexta nós fomos pra Campinas dar baixa nos papéis dela, que era funcionária pública não podia voltar mais as coisas. Ele pegou, chegamos à rodoviária em Campinas, nós estávamos de ônibus nós três, na hora que meu irmão entregou a cartela pra moça da casa lotérica ela pegou e falou: “Olha, deu o terno”. Eu olhei na cartela, olhei pra moça assim que nós estávamos tudo meio assustado, falei: “Não. Deu uma quadra”. Onde ela pegou, conferimos, tinha dado a quadra mesmo. A cartela que ela fez, depois que ela morreu que ela acertou esses quatro números na loto. Depois de morta. São umas coisas que ficaram marcadas pra vida nossa. Ontem ela teve internada, teve funeral, teve tudo. Ela praticamente deixou tudo pago pra nós, ela não deixou nem dívida praticamente. Ela deixou dinheiro na mão nossa, ainda deixou na época. Nós ainda conseguimos comprar um tratorzinho na época com o dinheiro que ela deixou ainda, pra dar um começo na vida nossa.

E eu tinha parado de estudar que com 14 anos eu já tirei o primeiro grau, já tinha parado de estudar, estava só trabalhando na roça. E quando minha mãe morrei, aí o advogado na época olhou pra mim e falou assim: “Quer ir pra Ribeirão? Você estuda lá, você faz tudo lá.” “Não. Não quero ir”. Foi onde eu parei de vez mesmo, não quis voltar a estudar mais e continuei na roça mesmo. Por causa de eu ser menor e porque minha mãe era registrada pelo Estado, eu tinha o direito de voltar a estudar até 21 anos, até a maioridade. Eu falei: “Não. Não quero ir no momento”. E parei mesmo de estudar, não voltei pro estudo mais. Uma que pra você sair de um bairro pequeno e ir pra uma cidade grande igual Ribeirão Preto sem ter conhecimento de nada, então você sai perdido, né? Você não tem noção do que vai se passar, você assusta no momento. Foi onde eu falei: “Não, vou ficar na roça mesmo”. 

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