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História

O cuscuz é uma coisa sagrada

História de: Beatriz Virgínia Gomes Belmiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/10/2021

Sinopse

Beatriz Virgínia conta sobre a sua infância no bairro Vila do Pinheiro/Maré onde passou sua infância junto com seu irmão. Ela fala sobre a cultura nordestina na sua rua, povoada por migrantes, e que muitas vezes os vizinhos que tomavam conta dela e de seu irmão, pois os pais estavam trabalhando. Beatriz lamenta as cenas vividas com as constantes operações policiais no complexo da Maré. Beatriz relata sobre como os projetos sociais da a direcionaram para uma compreensão e aceitação sobre o ser mulher, nordestina e moradora de favela. Beatriz também fala sobre como se inseriu e se desenvolveu na forte cena do slam, e como as reflexões da poesia tornaram-se parte da sua monografia e do seu trabalho em sala de aula.

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História completa

Minha mãe sempre falava: vocês nasceram no Rio mas vocês são nordestinos. Então eu cresci muito entendendo essa questão, valorizando a cultura nordestina, até porque a Maré é muito grande e parte dela é povoada por nordestinos. A parte que eu morei da Maré e vivo até hoje, é uma parte com muitos nordestinos. Eu ando na rua e encontro vários parentes, a gente morou um tempo numa ocupação aqui na Maré, que foi a ocupação do Kinder Ovo, foi derrubado na época do Sérgio Cabral, depois ele prometeu umas casas onde hoje é chamada de Marrocos, ele fez algumas casas e minha mãe foi uma das ativistas que lutou pelo direito a casa, pois perderam a casa nesse vai e vem do Kinder Ovo, e essa galera era uma galera muito nordestina também, então virou uma família.

 

Eu tenho essa cuscuzeira, porque eu sempre quis fazer uma cuscuzeira, porque o cuscuz representa muitas questões do nordeste, principalmente as questões de alimento. A cuscuzeira representa um alimento barato, então com o cuscuz a gente tem várias possibilidades, com leite, com coco, com carne seca, com peixe, com frango, tem bolo de milho que faz com cuscuz, são várias possibilidades e na minha infância eu passei por algumas dificuldades de alimentação, onde a gente sempre tinha o cuscuz que era o mais barato de comprar. eu gosto muito dessas questões com o cuscuz. Minha mãe sempre fala: ah, você tomou mamadeira de cuscuz, então ela ficou muito feliz também, quando eu fiz a panelinha de cuscuz e eu falo isso pra todo mundo. O cuscuz é uma coisa sagrada, na minha casa.

 

A minha mãe já vem de um histórico de militância do nordeste, movimento estudantil de lá, então ela vem pra cá já com essa ideia de que ela tem direitos, e ela pode correr atrás desses direitos. Então quando acontece essa coisa de derrubada das casas, ela é uma dessas pessoas que puxa essa reinvindicação, por isso que a minha mãe é muito conhecida aqui na Maré do outro lado, porque a Maré é muito grande, lá na parte do Pinheiro ela é bem conhecida por lá, por conta dessa época.

 

Sobre a questão das operações policiais, isso foi presente na minha infância toda, era muito estranho ter que conviver com aquilo e o medo também, de ir para a escola e acontecer alguma coisa que eu não sei, sempre tinha que ter um time muito bom pra prestar atenção nas coisas, porque era eu e meu irmão, às vezes acontecia situações da polícia chegar na minha casa e o policial chamar meu irmão pra conversar e eu ligar pra minha mãe, pra ela vir do trabalho correndo. Na minha infância, minha mãe trabalhava nunca creche como recreadora, era uma creche no Pinheiro mesmo, então teve uma duas vezes em que a polícia chegou lá e eu consegui ligar pra minha mãe e ela vir, e sempre ela era muito questionada, porque essas crianças estão sozinhas, mas ela não tinha o que fazer, porque essa era a opção. Depois de um tempo, ela começou a levar o meu irmão para o trabalho, durante muito tempo meu irmão ficava na sala com ela, a diretora permitia pela questão do que estava acontecendo.

 

Usina de Cidadania, que era um projeto da refinaria de manguinhos, na passarela cinco, um projeto que foi fechado pelo Sérgio Cabral, na época teve um protesto em que eu estava com a minha mãe, inclusive. E esse projeto era maravilhoso, porque eram aulas de todas as atividades artísticas. Então eu fiz dança, música, teatro, fiz até luta. Fiz um monte de coisas, porque eu já estava alí, e passava o dia inteiro ali, então a gente organizava peças teatrais de espectáculos e apresentava na escola Sesc de Jacarepaguá, apresentava no Nelson Rodrigues, a gente apresentava em vários lugares. Então foi muito importante pra mim esse projeto, eu entrei com doze anos, eu faço parte de uma extensão desse projeto hoje, atuei como educadora também nele

 

Quando eu entro no CEASM, na usina, eu aprendo de usar a arte como potência, como mulher de favela e de referência nordestina. e no CEASM eu aprendo o que é favela, porque que eu não tenho que ter vergonha de falar a palavra favela, porque que eu tenho que reivindicar a história da favela, então no CEASM foi importante também por isso.

 

Eu começo a conhecer o Slam, com a cena das mulheres que é muito forte, que é o Slam das Minas, Martina, Regiane, uma galera que eu assisti e falava; caraca, como essas mulheres são grandes, num palco contando as suas narrativas, contando as suas histórias. Então eu comecei a frequentar batalha de Slam, assistia, e aí onde eu fiz pré vestibular e eu me tornei educadora de história em 2016, lá eu comecei a puxar essa cena de um Sarau. Gente vamos fazer um sarau? Para juntar os alunos, chamar eles, não precisa ser um sarau de todo mundo em silêncio com a poesia, porque nossos corpos não são assim. Pode ser um sarau, mas com vários tipos de arte, aí eu comecei a puxar com uma galera, que também era artista, e a gente conseguiu organizar o primeiro sarau, que hoje é chamado de Sarrau. Todo mundo conhece o Sarrau do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré, e aí a gente começou a fazer.

 

Eu já participei de uma roda de Slam, a primeira que eu ganhei, os jurados eram crianças, todas as crianças do piscinão de Ramos. Chegamos no piscinão e aí, caraca não tem jurado o que vamos fazer?, tinha muita criança, as crianças falaram eu quero, eu quero, e a gente: caraca, será que as crianças vão levar a sério?, e foi ótimo, eles levaram super a sério, me chamaram de tia, ficaram torcendo, foi super legal, e eles entendiam quando era uma parada que fazia sentido pra eles, porque falava das realidades deles também. O Slam é isso, é uma batalha, mas ninguém está alí pra ser inimigo de ninguém, eu me senti muito acolhida no movimento do Slam, porque no início eu tinha receio em recitar, demorei bastante pra recitar minha poesia, e a primeira vez que eu recito é no evento do Julho Negro, no evento que teve no Museu da Maré.

 

Eu já recitei em sala de aula para os meus alunos, isso foi muito interessante, foi um episódio bem legal, porque eu recitei numa aula, eu acho que eu falava da Revolução do Haiti, eu recitei pra eles porque eu dou aula de história geral, aí na outra semana eu voltei pra essa turma e os alunos estavam ansiosos pra me ver. O que está acontecendo, todo mundo agitado, era uma turma de quatorze e quinze anos, aí eu perguntei pra uma aluna, o que está acontecendo gente? Professora, uma aluna fez uma poesia muito melhor que a sua (risos), eu falei: está ótimo, não precisa ser, - não, mas a dela está braba, e ela veio falar comigo; -ah professora, eu ouvia sua poesia e vi que eu tinha uma coisa pra falar, e eu também escrevi, mas eu não sei se está bom porque eu não sei escrever direito. Eu vi que era uma coisa incrível, e ela recitou no Sarau,  e falou, e foi a coisa mais linda.


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