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História

O cuidado com as pessoas

História de: Adriana Soares Neves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/12/2014

Sinopse

A assistente social Adriana gravou sua história para o Museu da Pessoa em 10 de dezembro de 2014. Em seu depoimento ela fala sobre a infância passada em Santos, sobre a separação dos pais e como entrou em atrito com o pai por causa do segundo casamento dele. Ela recorda o primeiro emprego numa produtora de rádio no Guarujá, os trabalhos que teve antes de se formar e a escolha da profissão de assistente social. Após a formatura ela lembra que começou a trabalhar num abrigo da Prefeitura de Santos e posteriormente ingressou na Proeco. Adriana fala como conheceu o marido e sobre o nascimento do filho mais velho. Finaliza descrevendo seu início na Proeco, as dificuldades que a ONG passava naquele momento e como o Criança Esperança foi importante para dar visibilidade aos projetos desenvolvidos.

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História completa

Meu nome é Adriana Soares Neves. Eu sou de Santos e eu nasci em 4 de julho de 1974. Minha mãe se chama Vecemília Bhering Soares, meu pai é Pedro Rubens Dias Neves, já falecido. Meu pai iniciou bem cedo na rede bancária, então começou como mensageiro e se aposentou como gerente de banco. Minha mãe é esteticista, ligada sempre na área da saúde e faz diversas coisas também, mas o foco dela mesmo é a área da beleza. Tenho duas irmãs Lisandra e Patricia, uma de 33 anos outra de 44 e tenho um irmão por parte de pai, que se chama Pietro, que ele tem 18 anos. Eu falo que eu pude aproveitar muito a minha infância.  Eu fiz sete anos já aqui em Santos.

Meus pais se separaram.  Eu me lembro da situação, do momento realmente que aconteceu a separação, eu dormia, eu sempre fui muito dorminhoca, tanto é que o meu apelido era Nani e Naninha, que eu só vivia dormindo. Então eu só lembro minha mãe me acordando e falando: “Vamos embora. Vamos embora”. Não sabia nem o que estava acontecendo. Quem vivenciava as discussões, a maioria das discussões de família com a minha mãe e meu pai era a minha irmã mais velha. E eu lembro na hora que eu estava saindo que meu pai fala: “Não. A Adriana fica”. Que eu era a xodó do meu pai. A minha mãe: “Ela vai comigo”. Eu na verdade queria ficar pra continuar dormindo, eu não queria ir por conta disso. Até eu entender o que era a separação, que eu não ia estar com os meus pais mais no dia a dia, mas não foi tão difícil aceitar porque o meu pai vivia mais fora do que em casa por conta do trabalho, então eu não criei vínculo muito com o meu pai. Lembro quando ele me ensinou a andar de bicicleta, mas eu já tinha 12 nos, 13 anos, já estava até separado, mas eu não tive aquele negócio de pai com filho. Meu pai vivia mais em São Paulo do que aqui, era só fim de semana que eu o via, então não tinha mesmo esse contato.

Meu primeiro emprego foi numa empresa de rádio. Na verdade não era empresa de rádio, a pessoa era locutor de um rádio, da Guarujá na época, tocava até meio dia música só samba. Ele tinha um escritório musical de produção e precisava de alguém que ficasse datilografando naquela época ainda. Minha mãe sabia que eu era boa nisso, tanto é que eu fazia técnico de processamento de dados, então tinha um domínio melhor nessas coisas. E nessa época eu fui trabalhar com ele, foi legal porque eu passava a tarde toda escutando música, então não foi difícil pra eu trabalhar. Quando eu tive 15 anos, fiz 15 anos a minha mãe até se assustou quando eu falei isso, eu falei: “Mãe, eu já sei o que eu quero pra minha vida. Eu quero uma moto...” que eu sempre gostei de moto, aprendi a pilotar com 14 anos “...eu vou trabalhar, vou comprar minha moto, vou comprar o meu apartamento.

Após o colegial que ela pediu pra eu prestar vestibular, não passei na faculdade, não quis. Logo em seguida, eu estava com um relacionamento que eu parei, deram seis anos daí eu não quis mais nada. Eu cheguei a prestar Fatec que era de tecnologia, até pra tentar conseguir um emprego porque estava difícil conseguir um emprego. Então trabalhei em vários lugares, trabalhei com padaria, em padaria, trabalhei como caixa, trabalhei em pizzaria ajudando na parte da cozinha. Minha mãe já teve restaurante, já teve salão de beleza, então eu estava sempre junto trabalhando. Eu tentei Fatec, Fatec eu queria, até que queria passar, mas não passei. Separei-me dessa relação, quando eu me separei dessa relação foi quando eu decidi, falei: “Não, agora eu quero fazer uma faculdade”. Só que quando eu falei que eu queria fazer uma faculdade eu decidi fazer arquitetura, queria fazer arquitetura. Falei: “Vou fazer arquitetura”. Eu estava convicta, falei: “Mãe, resolvi fazer agora faculdade e é arquitetura que eu quero”. Mas eu desisti de arquitetura e falei que eu ia fazer serviço social. Eu já amanheci com isso na cabeça, já amanheci esperando só o vestibular vir pra fazer a matrícula e me inscrever pro vestibular.  Só que quando eu fui fazer faculdade eu trabalhava, mas eu ganhava 250 reais, trabalhava meio período só na oficina do meu cunhado, que ele me deu essa oportunidade, ele precisava de alguém, e pra me ajudar ele não podia pagar muito então ele pagava isso na época, isso em 1999, que foi quando eu prestei vestibular. A faculdade já era 400 e pouco, quase 500 reais e eu não tinha a mínima ideia de como é que eu ia pagar aquilo porque eu não tinha pai, não tinha ninguém pra me bancar, muito menos a minha mãe, ela não tinha condições, coitada. A minha irmã na época, a mais nova, estava trabalhando no Itaú, ela estava até bem no Itaú. Eu pedi pra ela, ela recebeu o 13º dela., falei: “Olha, faz o seguinte...” “Ah, Adriana, esse dinheiro eu ia usar pra ceia de Natal em casa. Então eu te adianto isso, você banca essa parte na ceia.” “Fechado”. Então foi minha irmã que me deu o dinheiro pra eu poder garantir minha matrícula. Fiz a matrícula, comecei a faculdade. Quando eu me formei eu não fui direto trabalhar na minha área porque em 2003 eu fui trabalhar na Prefeitura contratada num abrigo. É uma casa de passagem que atende criança e adolescente em situação de vulnerabilidade, seja da rua, perdida, a gente a recolhe, acolhe e depois a leva pra cidade de origem ou pra sua casa se for o caso aqui em Santos. Então como eu tinha entrado lá e era um contrato quase de quatro anos então eu não segui minha área e eu estava noiva, estava prestes a casar, então eu preferi manter os quatro anos e assumir minha área só depois que acabasse o meu contrato. Isso foi uma opção minha.

Eu conheci o meu ex-marido, meu noivo na época, na verdade numa balada. Numa quinta romântica naquela que toca música bolero, samba, pagode, porque geralmente os casais dançam mais junto do que separado. Ele não dança nada, não foi assim que eu o conheci. Eu casei dia três de julho de 2004.  Eu queria comprar um apartamento, esperar mais um tempo, tal, pra depois pensar em ter um filho. Não saiu como eu queria, mais uma vez não saiu como eu queria. Tudo bem. Aceitei, lógico, como é que eu não vou aceitar uma gravidez, filho sempre é bem vindo, por mais certo ou errado, prevenido ou não prevenido, planejado ou não, um filho eu acho que realmente é benção de Deus, de alguém, que ele tem que estar ali. A gravidez eu engordei muito, peguei 30 quilos, esses 30 quilos eu não consigo perder mais, está uma briga pra perder esses 30 quilos. Mas foi supersaudável, eu trabalhei num acolhimento, ainda estava no acolhimento, eu ia lá enorme, todo mundo falando que eu era louca, que eu tinha que pedir licença. Meu filho nasceu super bem, ficou um pouco no neonatal pelo tamanho dele, ele ter nascido de 36 semanas não de 40. Então eles seguram um pouquinho pra ver se estava tudo bem, mas não teve nenhum problema que pudesse apontar, com ele nem comigo, foi tudo tranquilo. Eu me separei quando meu filho tinha dois anos. O meu contrato venceu na Prefeitura, eu me vi sem trabalho, então pra eu não ficar sem trabalho eu comecei aquelas vendas diretas que você conseguia dinheiro mais imediato, eu precisava de dinheiro pra ontem. Então comecei a vender Avon, quando eu comecei a vender tanta coisa que minha casa parecia mais um depósito de mercadoria. Depois eu consegui uma vaga numa creche pra trabalhar como assistente social, mas fiquei um mês e pouco. E dali eu consegui trabalhar numa ONG em Cubatão, a ONG Sociedade São Vicente de Paulo em Cubatão onde foi um desafio bastante grande pra mim porque eu tive que administrar quatro projetos sociais. Passei esses oito meses lá. Eu comecei a procurar de novo emprego, fiz várias entrevistas, vários lugares, o pessoal: “Arruma qualquer coisa, vai ficar desempregada”. Fiz uma entrevista pela Proeco. Cheguei também de paraquedas, a equipe que estava sabia muito pouco da Proeco porque a equipe anterior foi um dos problemas, dificuldades que a Proeco passou, a equipe todinha que saiu destruiu muito as informações que nós tínhamos, o histórico, por exemplo, de famílias foram perdidos. Pra fazer um levantamento todinho de tudo que tinha e tentar recuperar foi muito difícil, até por que a gente tinha convênios, a gente tinha que prestar contas e a informação não tinha porque foi eliminada, a gente não tinha como provar nada disso. Então eu praticamente reconstruí o atendimento familiar no CRAS que era uma casinha que a gente atendia embaixo, no Bom Retiro. Então foi um começo bastante complicado, eu fiz mais até administrativo do que serviço social. Só lembro que a que era minha coordenadora, a assistente social, virou pra mim e falou: “Você vai ficar cuidando disso.” que era das famílias referenciadas pela assistência social. O que seria isso? Nunca fiz isso na minha vida. Só que ela também não, ela era do RH, ela não atendia nada da assistência. Qual era a minha vantagem? Comecei a ligar pro povo pra pegar explicação. Alguém tinha que me explicar como é que funcionava esse negócio aqui, esse convênio. Foi onde eu fui pegando informação e fui administrando as coisas e que deu muito certo. Então alguém me perguntava uma coisa eu sabia. Só que meu primeiro ano na Proeco foi praticamente mais administrativo, organizando toda a parte mesmo de família, de número de matriculados, que a gente atendia a criança na unidade, tal, tal, tal, do que mesmo atuando como assistente social. E que eu não me arrependo, não. Eu achei ótimo. Hoje eu sou assistente social também, mas eu não atuo tanto como. Hoje eu estou com um papel mais na parte de recursos humanos

Quando a gente recebeu o apoio do Criança Esperança foi quase que inacreditável. Como a gente estava até conversando, às vezes a gente nem acredita que é possível estar acontecendo isso e quando é mesmo que acontece a gente fica: “Meu Deus do céu”. Será que é tudo isso mesmo? Será que eles vão fazer jus? Será que vai ser tudo certinho? Será que a gente vai conseguir mesmo? Pô, e agora? Como é que a gente vai... Será que a gente vai conseguir dar conta dessa responsabilidade agora com o Criança Esperança. Foi uma coisa muito boa quando a gente recebeu o apoio do Criança Esperança a instituição estava passando uma fase bastante complicada. Então o Criança Esperança veio pra somar de uma forma tão positiva e trouxe como referência pra instituição, abriu portas pra instituição. A instituição pode concretizar sonhos que antes ela talvez achava que não ia conseguir pra levar todo o projeto como a gente queria sempre levar, com os brinquedos, porque todos os brinquedos praticamente nossos são via Criança Esperança. Graças a eles a gente pode ter essa estrutura que hoje a gente apresenta nas comunidade e nas escolas. Então eu acho que o Criança Esperança foi tudo pra instituição. Veio mesmo pra fazer o bem, pra ajudar a instituição simplesmente, sabe, continuar acreditando que a nossa luta vale ainda a pena continuar lutando.

Foi muito clara essa mudança. Deu pra gente perceber porque em 2012 a gente estava acabando de sair de uma casa onde a gente estava que era cedida, a gente teve que entregar aquela casa, tivemos que correr atrás de uma casa que era alugada. Então sem condições, sem convênio, sem muitos parceiros... Tinha um monte de parceiro, a gente teve Telefônica muitos anos, sempre tivemos, tivemos vários parceiros, mas pra pagar um aluguel, por exemplo, não tínhamos parceiro. Pra pagar de repente um profissional não tinha um parceiro. Então a gente passou um momento bastante difícil e quando a gente recebeu isso que eu falei, que isso foi um presente naquele ano que foi no finalzinho de 2012, foi um presente justamente acho que para falar: “Não. Não desistam.  Continua que vocês estão chegando lá”. Alguém parece que veio pra nos avisar mesmo, falar: “Continuem, vocês estão no caminho certo. Eu estou aqui pra ajudar vocês pra isso”. E eu sinto que ajudou muito. Muito. Não só questão financeira, lógico que vem pra gente conseguir concretizar o nosso trabalho, o nosso projeto, mas como o Criança Esperança mesmo, as pessoas começam a ver a instituição com mais respeito que às vezes não tem, às vezes a pessoa não valoriza mesmo, então eles começam a respeitar. E fora que tudo em volta a gente percebe, começa realmente a acreditar, fala: “Poxa, o Criança Esperança? Não, sério?”. As pessoas começam a ter outro olhar até mesmo... Pessoas físicas. Não digo só parceiro, não. Os próprios pais que a gente atende: “Poxa, olha, o Criança Esperança?” “É. O Criança Esperança”. Então o pessoal fica até atento na televisão pra ver o seu filho filmando. Então você vê que realmente a mudança é clara. Eu acho que pra qualquer instituição que consegue ter esse apoio do Criança Esperança é abençoada.  

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