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O cuidado com a vida

História de: Tércio Torres de Sá
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/11/2004

Sinopse

Nascido em 1926, no interior de Minas, Tércio mudou-se para São Paulo, após de passar no vestibular de Medicina da Escola Paulista, mesmo com a relutância do pai que sonhava em vê-lo formado em Engenharia. Logo depois sua formação, ficou noivo e foi trabalhar em Pirapozinho, uma cidade perto de Presidente Prudente, na qual trabalhou em um consultório até ser convidado para trabalhar em um hospital no Mato Grosso do Sul, no qual atendeu a população local, composta de muitos povos indígenas, como os Cayowaá e Terena. Decidiu retornar a São Paulo após os filhos crescerem e foi contratado pela Johnsons como funcionário da área de pesquisa clínica, permanecendo na subdivisão Farma, até hoje, após sua aposentadoria. Nesse depoimento ao Museu da Pessoa, Tércio relembra sua infância, seu trabalho em Dourados e descreve o passo a passo do desenvolvimento de pesquisas clínicas do laboratório da Johnson e Johnson, ressaltando sua responsabilidade e ética ao lidar com a promoção de novos medicamentos. 

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História completa

P/1 - Nós vamos começar pela identificação do senhor. Senhor Tércio, eu queria que o senhor me dissesse seu nome, local e data de nascimento, seu nome completo.

 

R - Tércio Torres de Sá, nascido em Guaranésia, no dia 22 de setembro de 1926, Minas Gerais.

 

P/1 - O nome de seus pais.

 

R - Raul Jorge de Sá e Estefânia Torres de Sá.

 

P/1 - O senhor poderia dizer a atividade de seu pai e falar um pouco da sua infância também.

 

R - O meu pai era gerente de um banco e depois foi gerente de uma fábrica de tecido de um grupo grande financeiro ligado inclusive depois ao grupo do Mappin aqui em São Paulo. Ele trabalhou desde a idade de 16 anos até morrer, com 60, trabalhou no mesmo lugar. Trabalhou 46 anos.

 

P/1 - E sua mãe?

 

R - A minha mãe nascida em Três Pontas, Estado de Minas Gerais também, distante mais ou menos 200 quilômetros de Guaranésia. Depois os pais dela mudaram pra Guaranésia onde ela conheceu o meu pai. Ela era um ano mais velha do que o meu pai, cerca de um ano mais velha. Casaram, tiveram seis filhos. O meu pai era o mais velho da família dele e depois dele tinha 20 irmãos, 17 homens e três mulheres. E para o lado da minha mãe eram 14, eram nove homens e cinco mulheres. Então você já viu que, tirando o meu pai e a minha mãe, aí de cara eu já tinha 33 tios casados e depois davam 63 tios, né, e dos meus tios, quase todos eles, o único que teve menos filhos foi lá em casa com seis, o resto era 12, 14, 15, 16. Pra você ter uma ideia, a minha avó casou com 12 anos e meio, quando ela fez 15 anos ele teve o primeiro filho, eles comemoravam o aniversário no mesmo dia. Dia 6 de maio, comemoravam aniversário no mesmo dia. E alguns anos mais atrás, o irmão mais velho da minha mãe comemorou 65 anos de casado, em Três Pontas, e eu fui lá dar um abraço no tio, 65 anos de casado!

 

P/1 - Essa é a sua avó pelo lado materno, que se casou com 12 anos?

 

R - É, pelo lado materno.

 

P/1 - Fale um pouco sobre as origens da sua família pelo lado materno. Quer dizer, quem era o seu avô, a sua avó, o seu bisavô.

 

R - Tanto pelo lado materno, como pelo lado paterno. São para o lado da minha mãe, era Elisa Becker, ela era descendente de alemães, de Dusseldorf, e ela casou-se com um português, descendente de português, que era André Torres. E para o lado do meu pai era Florisbela Gottschalck, que era o sobrenome do presidente da General Motors, Florisbela Gottschalck Faria de Sá, e ela casou também com um português, o meu avô Jorge, o meu avô era de Funchal, da Ilha da Madeira. Então, de um lado alemão com português e do outro lado suíço com português e aí dessa dupla veio a gente, né?

 

P/1 - O senhor sabe o por que da vinda de suas avós?

 

R - A minha avó, a Florisbela Gottschalck Faria de Sá, ela quando veio pra cá, ela veio com a mãe, que era a Katrin Gottschalck, ela era de Zurique. Ela veio pra cá e eu me perdi um pouco depois, porque eu gosto muito de pesquisar essas coisas como você viu, eu pesquisei até um determinado ponto, depois daí pra diante eu não tinha mais informações, por isso é que eu fiz aquelas árvores genealógicas e dei uma cópia pra cada irmão e filho, porque se eles quiserem depois dar continuidade daquilo dali é só ir preenchendo os nomes, né? Mas até onde eu tive acesso eu fui. A minha avó, essa Katrin, bisavó Katrin Gottschalck, morreu com 102 anos, com 102.

 

P/1 - O senhor não sabe por que ela veio pro Brasil?

 

R - Eu não sei exatamente. Eu só sei que foi uma leva de alemães que veio e eles foram morar em Três Pontas, pra trabalhar com lavoura de café, mas depois disso eu não tenho informações precisas que possa dar qualquer coisa de positivo assim pra você.

 

P/1 - Pelo lado Becker?

 

R - Pelo lado Becker?

 

P/1 - Da sua avó.

 

R - Da minha avó, pelo lado Becker, a minha avó era de Dusseldorf como eu falei, era descendente de alemães. Ela veio pra cá e eu não sei a razão porque eu, quando conheci a minha avó, ela já não tinha mais nem pai, nem mãe, eu não conheci a bisavó para o lado dela, só sei que era uma alemã durona, viu? Brava. Até o pessoal dizia que, pra brincar com ela, dizia que lá na casa dela era ela quem fiscalizava todo tipo de namoro, a hora que chegava, a hora que saía. Então quando ela passava temporada na casa de um filho ou de outro, todos os netos achavam ruim quando a avó Elisa chegava, viu? Porque era uma barra pesada, viu? Não podia fazer nada, era uma coisa! Mas eu aprendi algumas coisas curiosas com ela. Como eu era o neto mais velho, quando chegava a noite, por exemplo, ainda eu me lembro muito bem disso, quando chegava a noite chovia e lá em Minas você não podia sair, tinha que ficar em casa. Então ela me ensinou a jogar baralho e tem um jogo de baralho que muita gente hoje não conhece que chama bisca, era um jogo extremamente caprichado, viu? Gostoso de jogar, devia ter muita atenção para jogar aquilo. E ela me ensinou, ela só torcia pra chover pra eu não poder sair de casa e pra poder jogar bisca com ela. (risos) E era um jogo muito gostoso e eu tenho saudade até hoje porque, depois disso, depois que ela morreu, eu nunca mais joguei bisca. Só lamento que ela hoje não esteja viva pra eu matar a saudade de jogar bisca com ela. Porque é curioso como tem uma série de coisas na vida que você não aproveita no devido tempo e só depois tem saudades quando você não pode mais recuperar aquilo, né? Então eu acho que essas coisas são muito importante você ter na vida, né? E essa foi até uma das razões que me levaram depois a ir pra trabalhar com índio, né?

 

P/1 - O senhor, como é que o senhor se lembra da sua infância em Guaranésia.

 

R - A minha infância em Guaranésia foi uma infância muito gostosa. Naquele tempo a cidade não era calçada, era uma cidade de estrada, as ruas com muita poeira e a casa que nós morávamos era uma subida e eu me lembro que uma das coisas que a gente mais gostava era torcer para os caminhões encravarem quando eles subiam para missa. Então a gente ficava só torcendo contra e os motoristas xingando a meninada que estava lá torcendo. (risos) A minha casa, onde eu nasci, é a casa que a minha mãe mora até hoje; era uma área de 100 por 108 metros, uma espécie de uma chácara. Ali tinha muita fruta: jabuticaba, pêssego, caqui, manga, e o meu avô era quem plantava. Até hoje, eu estive em Minas agora, o mês passado, ainda chupei jabuticaba ainda plantada pelo meu avô. E a casa onde eu nasci, então foi uma casa extremamente gostosa, muito boa, com um jardim grande e a gente naquele tempo em que você... você ia colher ovos que a galinha botava no quintal, você ia lá colhia ovo. Você matava frango, eu caçava passarinho, rolinha, o fogo apagou com estilingue durante... matava aquilo com estilingue que era uma coisa muito gostosa aquilo, andava de bicicleta. Eu me lembro de quando eu estava no terceiro ano da escola primária, eu ganhei uma bicicleta, levei uns tombos, amassei a bicicleta antes de ser bom ciclista, já amassei a bicicleta, mas era muito gostoso. E fora isso a gente fazia umas coisas que hoje ninguém mais faz o que você fazia, tinha carrinho de quatro rodas porque era numa descida que a gente morava, então você fazia carrinho de quatro rodas. E tinha que ser, não era com essas rodas de metal que você vê hoje, tipo roda de patins, era roda de madeira grossa revestida com pneu pra você poder andar. Então a gente andava muito de carrinho, jogava pião, você lembra? Jogava pião, soltava muito papagaio, que hoje a turma chama de pipa. Todo mundo tinha vários tipos de papagaios e eu gostava de fazer papagaios e até hoje uma das coisas gostosa que eu faço é fazer papagaios para os meus netos. Quando a gente ainda vai pra praia, eles gostam que o avô ainda solte muitas vezes papagaio, né? Então era uma infância como você não tem hoje, chegava ao quintal, subia naquelas árvores, depois você ia comer jabuticaba no pé, você comia caqui no pé, você comia pêssego no pé, você subia com o canivete no bolso e ficava chupando laranja lá em cima, uma atrás da outra, em cima do pé de laranja. Então era uma vida de uma saudade extremamente grande. A questão de mais ou menos 200 metros da minha casa tinha um rio, o Rio Canoas, que ele passa ali em Guaranésia, e depois ele vai andando, andando e lá na frente ele vai dividir o Estado de Minas do Estado de São Paulo nos municípios entre Arceburgo e Mococa, o mesmo riozinho recebe apenas mais alguns pequenos afluentes. E esse rio, era o rio onde a gente ia nadar porque não tinha piscina na cidade nada, era o rio onde você ia nadar e onde você pescava. E foi onde eu aprendi pescar, que é uma das coisas que eu gosto de fazer também ainda hoje. Eu pescava lambari, não tinha peixe grande, pescava lambari, aquele peixinho de rabo vermelho, né, lambari, piaba, um ou outro tabarana, e gostava ali. Então vê como é, que a gente tinha o tempo todo ocupado. Tinha aula de manhã, sempre fui um bom aluno, fui dos primeiros alunos da minha classe no primário, no ginásio e mesmo no meu curso de Medicina eu não fiz nenhum exame oral, no último ano, quando eu fiz o último exame escrito eu estava formado. Eu entrei na escola de medicina em terceiro lugar num grupo de quase 600 candidatos, de modo que eu sempre fui um fulano que deu duro na hora de estudar porque eu gostava de estudar, não porque eu fizesse aquilo por outra razão, porque realmente eu gostava de estudar. Então a minha infância lá em Guaranésia é uma coisa de saudade do rio. Eu ainda tenho uma porção de coisas escritas, uma hora que vocês tiverem tempo e estiverem dispostos a ouvir muita coisa, eu ainda tenho alguns artigos que eu escrevi no jornal, que escrevia do Rio Canoas, falava do tempo de passear no jardim, namorar, a quermesse com a namorada, você mandar correio elegante, mandava correio elegante lá na quermesse. Na época das quermesses você arrematava aquilo dali, participava de uma porção de brinquedos, de coisa, né? Hoje você não vê mais essas quermesses, essas coisas, você não tem mais nem tempo de mandar correio elegante pra... porque hoje o fulano já mora e já vai pra outros lugares aí, uma série de coisas, que eu acho que um pouco dessa poesia acabou.

 

P/1 - Como era o relacionamento dentro da sua família, quer dizer, os seus pais eram muito autoritários, rigorosos, exigiam muito...

 

R - O meu pai e a minha mãe...

 

P/1 - E o relacionamento com irmãos também.

 

R - O relacionamento com irmãos, com pais e com parentes era uma das coisas mais preciosas que nós tivemos e temos até hoje. Você viu por aquele álbum de reuniões familiares que eu convoco pra fazer até hoje. Eu agora estou mandando a carta pra gente fazer outra reunião no fim do ano, se Deus quiser. E a família sempre foi muito unida, meus irmãos até hoje, você faz aniversário de um, todos telefonam e dão aniversário. E eu tenho dois, três irmãos que já aposentaram, um era diretor do Chase Manhattan Bank, foi diretor do Mappin, diretor do Chase Manhattan; outro foi diretor de uma empresa grande da área de fabricação de papel lá em Petrópolis e a minha irmã, que o marido foi diretor do Senai, aposentaram-se e os dois estão morando em Guaranésia hoje. De modo que o umbigo, o cordão umbilical não foi cortado até agora, né? E a amizade nossa com os irmãos, com os filhos, com os netos é a coisa que eu mais prezo. No dia último do meu aniversário agora, que foi dia 22, no sábado, no domingo nós fizemos uma reunião lá na minha casa com todos os filhos e todos os netos. Eu tenho uma neta de 20 anos que está no terceiro ano de direito, tenho uma de 17, que está no primeiro de Arquitetura, tem um de 14 que está fazendo kart, depois tem um de 6, um de 5, um de 4, um de 3, um de 2 e um que nasceu mês passado. Então, uma das coisas que eu mais gosto é levar essa meninada pra casa pra mexer nas gavetas, brincar, arrumar; e os filhos, sempre que posso, na medida dos meus apertos, mas quando um filho está mais apertado do que eu, eu sempre arrumo um jeito de ajudá-lo. E eu acho que a maior herança que eu posso deixar pra eles é essa convivência familiar. E até hoje, um mês sim, um mês não, ainda vou a Minas ver a minha mãe e os irmãos se reúnem para fazer o nosso churrasquinho, fazer o nosso peixe, a nossa coisa. Vamos pescar, de vez em quando vamos pescar em Mato Grosso. De modo que a família é o maior patrimônio que eu tenho até hoje. Quando eu digo patrimônio de família eu me encaixei muito bem dentro da família Johnson pela própria maneira de ser dentro da minha família particular, eu me encaixo bem aqui dentro da família Johnson, gosto daqui. Pra você ter uma ideia, na semana passada, quando eu fiz 22 anos, eu estou aqui nessa área daqui da [rua] Gerivativa relativamente pouco tempo, dois anos e meio mais ou menos, e sexta-feira quando eu estava fazendo 22 anos eu estava participando de uma reunião aqui, dando aula, isso, quando chegou ao intervalo do café eles me chamaram lá, aqui no andar. Quando eu cheguei lá tinha vinte e tantas pessoas numa sala com um bolo e uma velinha pro doutor Tércio. Então são essas coisas. É porque gosto da família daqui, não só dos que estão acima de mim, como os que estão ao meu lado, como os que estão abaixo. Eu acho que ser humano é ser humano independente do cargo e da posição que ele ocupa e eu prefiro tratá-los assim, como seres humanos.

 

P/1 - Doutor Tércio, seus pais influenciaram na sua decisão de seguir a carreira de médico?

 

R - Não.

 

P/1 - Como é que aconteceu isso?

 

R - Não. Curiosamente naquele tempo os pais já falavam esse filho meu mais velho vai ser isso, esse vai ser aquilo, esse vai ser aquilo. Então, como eu era o mais velho, eu estava praticamente definido e o meu pai sempre dizia: “O Tércio vai ser engenheiro, a Piida, minha irmã, vai ser professora, a Teresinha também vai ser professora, a Alcina vai ser professora, o Raul também vai ser engenheiro e o Sílvio vai ser administrador.” E eu cresci ouvindo falar que ia ser engenheiro, mas quando eu vim pra fazer o científico aqui em São Paulo, eu fui fazer o científico no Anglo Latino e eu vi naquela preparação do científico que eu não ia gostar de engenharia, que eu gostava era de medicina. Mas chegou na hora de fazer o cursinho preparatório e eu entrei no cursinho de medicina, mas fiquei com medo de falar pro meu pai porque ele esperava que eu fosse ser engenheiro e tudo isso. Então não contei pra ele, ele sabia que eu estava fazendo um cursinho e se preparando. A vida dele era apertada como gerente de banco, seis filhos para educar, você já viu, né? Era uma vida dura. Mas eu fiz o vestibular e entrei na Escola Paulista de Medicina e foi a única que eu fiz vestibular, a única. Entrei na escola e no dia que eu passei, eu telefonei pra ele, falei: “Pai”, lá em Minas, “entrei na faculdade”. E ele disse assim: “Puxa, então quer dizer que nós vamos ter o primeiro engenheiro da família?” Eu fiz uma pausa, falei: “Não, pai eu entrei na escola de medicina.” E ouvi um silêncio grande como de uma pessoa que estivesse ficado um pouco frustrada com aquilo. Eu tenho a impressão que ele ainda carregou aquilo durante certo tempo até o dia em que eu estava no terceiro ano da escola e a minha mãe precisava ser operada de vários problemas e depois ela foi operada cinco vezes e quem operou foram os meus professores: professor Antônio Prudente, professor Dino Bandeira, e naquela hora o meu pai... um dia ele me chamou. Começou a chorar e a falar que entendia porque é que eu tinha escolhido aquela profissão. E depois o meu irmão, o Raul, esse que foi diretor do Chase, formou em engenharia no Mackenzie. Aí recuperou um pouco, né? Mas passado aquele intervalo da minha adaptação na escola de medicina, depois o meu pai foi um grande amigo meu, entendeu perfeitamente da minha mãe. A minha irmã mais velha, quando foi ser operada, a Piida numa ocasião estava com um problema precisava ser operada e eu... ela chegou um dia queria que eu a examinasse. Eu falei: “Olha, você está com isso e isso, precisa ser operada.” Ela disse: “Então você vai me operar.” Eu disse: “Não, eu não vou operar a minha irmã.” “Não, porque se você não me operar eu não me opero.” Eu acabei operando a minha irmã, acabei fazendo parto de dois filhos meus. No fim a gente vai chegando numa condição que a medicina passou a ser uma coisa muito preciosa na minha vida, você ter filho que nasce com a gente desde o princípio então você gera uma condição muito gostosa. E dentro desse ambiente familiar todo eu quero fazer uma menção muito especial pra minha esposa, ela é neta de chineses, Zica Amaral de Sá. O avô dela veio da China, chegou aqui, os pais morreram, eles foram adotados pela família Amaral em Campinas, por isso é que ela se chama Zica Amaral. E depois quando enfrentou, ela foi para o Mato Grosso e enfrentou a dureza lá comigo, foi a companheira mais preciosa, mais... já fizemos agora 41 anos de casados e tem sido a maior benção na minha vida essa mulher. Se fosse pra começar tudo de novo, ela seria escolhida de novo.

 

P/1 - O senhor veio pra estudar em São Paulo por que motivo, doutor Tércio?

 

R - Porque naquele tempo você...

 

P/1 - Havia familiares aqui?

 

R - Não. Quando eu fui estudar em Campinas, naquele tempo não havia colégios no interior como tem hoje em quantidade. Eu fui estudar em Campinas, eu pegava a Mogiana lá em Guaranésia.

 

P/1 - Certo.

 

R - Pegava a Mogiana, levava oito horas de Mogiana, vinha até Campinas, descia em Campinas. Eu fui interno no Colégio Ateneu Paulista porque você não tinha condição, então eu vinha pra cá no início das aulas, ficava até chegar as férias, depois ia pra Guaranésia nas férias, começava as aulas e voltava de novo pro Ateneu. E quando eu terminei o curso e quis fazer cursinho, lá não tinha. O último ano no meu tempo não tinha como tem hoje quatro de ginásio e três de colégio. No meu tempo era cinco de ginásio e dois de preparatórios para o curso que você quisesse escolher, que a gente chamava pré. Então você terminava cinco anos de ginásio e fazia pré-médico, pré de engenharia, pré de odontologia, já orientado pra profissão que você ia. E o que eu acho, honestamente até hoje eu acho muito mais lógico. E eu terminei os cinco anos de ginásio, naquele ano veio a reforma do ensino passando de quatro e três, ginásio e colégio. Então eu fui o último da turma de cinco anos. E quando eu terminei, aí eu vim fazer o pré aqui em São Paulo, porque também não tinha alternativa. E quando fui fazer medicina, eu fui fazer medicina porque naquele meu tempo só tinha duas faculdades de medicina aqui no Estado de São Paulo: era a USP e a Escola Paulista. A Faculdade de Ribeirão Preto, hoje uma das importantes, foi criada depois que eu já estava na escola. Então você não tinha alternativa, então você tinha que vir pra cá, morar em pensão. E na pensão, quando eu estudei na Escola Paulista de Medicina, morava numa pensão ali na Rua Diogo de Farias esquina com a Marselhesa. E pra vir da pensão pra escola eu passava na Rua Borges Lagoa e tinha ali uma morena bonita que morava numa casa ali, sabe? Eu fiquei passando seis anos ali e casei com ela. (risos) Então naquele tempo em que você, você conhece bem aquele bairro ali de Vila Mariana, da Escola Paulista e tudo. Tinha calçamento e luz só até na Rua Botucatu, onde hoje tem um hospital, o Gastroclínica, ali tinha uma chácara onde a gente pagava 500 réis por domingo pra você comer fruta, não podia levar. Mas você comia banana, chupava laranja, comia caqui, comia isso e comia aquilo. E você tinha que ir durante o dia porque à noite não tinha luz e era estrada de terra. Então você ia a pé, entrava numa chácara daquela e ficava lá, tudo isso, e a Escola Paulista quando eu entrei, ela ainda era paga, quando eu passei pro segundo ano que ela foi federalizada. Então o primeiro ano foi um ano muito difícil do ponto de vista financeiro pra mim e pro meu pai. Porque ele tinha mais cinco filhos e as três irmãs minhas estudavam no Colégio Progresso Campineiro, eu aqui e mais outros dois, e você já viu o que meu pai tinha que se virar pra estudar, né? Naquele tempo não tinha colégio do Estado quase como tem hoje, em tudo quanto é ginásio como você tem, né? Então foi um curso muito gostoso, mas eu tenho uma saudade imensa dessa luta.

 

P/1 - O senhor... As memórias que o senhor tem do período de faculdade, foi muito difícil? Como foi que o senhor decidiu, né, de onde saiu essa decisão de fazer medicina. Como é que...

 

R - Decisão, a vontade de fazer medicina surgiu porque a gente morava ali naquele bairro, quando eu vim fazer o científico aqui em São Paulo eu morei na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 1.307, a casa está até hoje lá, viu, André, 1.307. Então a gente descia a pé porque o cinema naquele tempo só era na cidade, não tinha cinema em bairro. Então você tinha cinema ali no Largo São Bento, na Rua São Bento, na Rua Direita, você tinha o Cine São Bento, e Cine isso, tinha o Pedro II, ali no Pedro II, o Marrocos, só que naquele tempo, pra você ter uma ideia, quando eu cheguei aqui ,pra você ir ao cinema você só podia entrar sem gravata na matinê, sessão noturna tinha que ser de gravata. Você não entrava em cinema sem ser de gravata na sessão da noite. Você ia ao Marrocos, por exemplo, você ia ao Marrocos, naquele outro, no Ipiranga, antes de começar a sessão de cinema aparecia um organista tocando uma música, depois é que começava o cinema. Quer dizer, tinha uma poesia, gostosa, quando eu cheguei a pegar a Salada Paulista aqui. A Salada Paulista era na Rua Dom José de Barros. Era uma saladinha pequenininha ali, então acabava o jogo de futebol, foi onde surgiu o Bauru ali no Largo do Paissandu, que começou a fazer o primeiro sanduíche com as características que hoje depois difundiu o nome. Mas o Bauru surgiu, o sanduíche começou a ser feito ali no Largo do Paissandu, ali naquela esquina, o sanduíche Bauru naquele tempo, ele criou e a turma dizendo: “Me dá um Bauru”, Bauru, Bauru e o nome hoje se generalizou. Mas ele surgiu naquele tempo em 1945, 1946 quando surgiu o nome Bauru. Você pegava ali a Avenida Visconde do Rio Branco, era uma ruazinha estreitinha, você ia ali ao Cine Bandeirantes, no Ópera, no Cine Ópera, no Art Palácio, que naquele tempo era o UFA, e bondes e ônibus. Pra eu vir para a Escola Paulista de Medicina, por exemplo, você só vinha de ônibus e não tinha quase carro aqui, quem tinha carro aqui era gente rica. Você chegava na Escola Paulista de Medicina, por exemplo, você via poucos carros estacionados ali porque era gente muito rica e carro tudo importado. E na Escola Paulista de Medicina também foram anos muito preciosos, muito gostosos, eu sempre gostei de me enturmar, gostava muito. E teve uma característica, não sei se vocês já ouviram falar do professor Antônio Ferreira Cesarino Júnior, professor titular da Faculdade de Direito, e era especialista em legislação trabalhista e foi o responsável pelas leis trabalhistas do Governo Getúlio Vargas. E o professor Cesarino Júnior com 52 anos ele foi num congresso de direito lá no Chile e chegou lá, num determinado instante, um professor começou a discutir com ele e chegou numa hora ele disse: “Professor Cesarino, você, como meu ilustre colega de professor de Direito, até aqui nós caminhamos juntos, mas daqui pra frente eu vou caminhar um pouco mais porque além de professor de Direito, eu também sou médico”. E deu uns palpites, isso foi no mês de setembro. Cesarino voltou de lá em outubro começou a estudar, professor de Direito, hein, titular! Começou a estudar e entrou na Escola Paulista de Medicina e foi meu colega de turma e muitas vezes a gente viu a filha dele com o netinho buscar o pai e o avô lá saindo da escola. E ele foi o orador da nossa turma; com todo o fato de ser professor de Direito foi um colega igual, você não sabia do professor Cesarino, a única coisa que a gente tinha distância é que a gente era uma média de 22, 23 anos e o professor Cesarino tinha 52. Ele formou em Direito com 58 anos, foi orador da nossa turma, uma pessoa muito querida. E naquele tempo nas escolas de medicina você tinha muito pouca mulher. Na minha classe eram 105 e tinha seis mulheres só, seis mulheres. Hoje a quantidade de mulher é muito grande, elas entraram num trabalho profissional que começou a alterar muito a vida da mulher e do homem daqueles anos pra cá, né? Eu não sei ainda qual vai ser a repercussão disso até pouco tempo. Mas foi uma época muito gostosa. Na época em que a gente ainda tinha competição de Pauli-Poli, Paulista e Politécnica, tinha competição de MackMed que era Mackenzie e Medicina da USP. As competições de remo eram no Rio Tietê não tinham naquele tempo onde ficava o Espéria de um lado e o Floresta do outro lado, os dois clubes, onde hoje você tem aqueles centros de convenções ali. Era um clube de um lado, o Espéria, e do outro lado, o Tietê. A gente ficava na margem do rio muitas vezes nadando enquanto o pessoal estava competindo com barco ali, competição de remo, era no rio Tietê. O rio limpo, clarinho onde o pessoal muitas vezes terminava a competição de remo e pulava dentro d’água porque você não tinha quase casa naquela região, um dos últimos lugares era aqui na Estação da Luz.

 

 

[Fim da fita 002-A]

 

 

P/1 - Só um tempinho pra gente trocar a fita. Pode continuar. Bom, vamos continuar então. Mas é incrível isso.

 

R - Então a cidade muitas vezes terminava ali quase na Estação da Luz e a vida da gente ligava ali na Praça do Correio onde você ia tomar chope no Pinguim, o famoso Pinguim. Você tinha que receber dinheiro, tinha que ir à cidade porque não tinha bancos nos bairros, o banco você ia ao centro comercial da cidade que era a Rua XV de Novembro, Rua Direita, Rua São Bento, Praça da Sé, ali é que ficavam os bancos. E você tinha uma vida... muitas vezes descendo a Avenida Brigadeiro Luís Antônio onde era a nossa pensão ali em frente ao Hospital Pérola Byington, você sabe onde é? Ali tinha uma casa térrea ali onde tinha a Estação PRA5, e quem cantava na PRA5 era o Orlando Silva, era o Carlos Galhardo e muitas vezes a gente via, depois das dez horas da noite, quando terminava o movimento da estação de rádio, às dez horas acabava. Muitas vezes você via sair um automóvel conversível e você via o Carlos Galhardo tocando o violão no carro e cantando, ali. Onde naquele tempo, você, o chique naquele tempo era você ir procurar namorada na Rua Barão de Itapetininga, onde você ia tomar chá na Vienense e no Mappin que eram salões de chá. E ali, você vê, como eu falei que à noite você só podia entrar no cinema de gravata então você ia bem alinhado à tarde, passeava, tomava chá, namorava e à noite ia ao cinema. E tinha ali, era na Vienense ou então na leiteria, numa leiteria que tinha aqui na Rua São Bento também, onde tinha uns lanches, umas coisas muito gostosas. E o Mappin era na Rua Direita ainda, depois é que o Mappin mudou para Praça Ramos naquele prédio que é da Santa Casa, vocês sabem, né? Mudou para aquele lugar ali. E tinha ali Casa Alemã, muito preciosa, Casa Cosmos, ali que eram casas grandes, Casa Renner onde você fazia, ia comer sanduíches, as suas coisas ali no tempo do Bauru e de coisas, né? Depois a Salada Paulista começou ali depois ela mudou pra São João, depois ela mudou lá pra cima pra Avenida Ipiranga, ali perto do Cine Ipiranga, não sei se você chegou a pegar a Salada Paulista lá. Depois ela cresceu e depois faliu.

 

P/1 - Doutor Tércio, vamos falar um pouquinho do início da sua carreira profissional. Como é que, quais os seus primeiros empregos, quais as dificuldades que o senhor enfrentou nesse início. Como é que se desenvolve assim a sua primeira fase profissional.

 

R - Quando eu me formei, eu fiquei noivo no dia 17 de dezembro de 1952. E fiquei noivo numa sexta-feira e no sábado eu colei grau no Cultura Artística ali na Nestor Pestana, colei grau ali, isso em dezembro. E no dia 4 de janeiro eu fui pro interior pra começar a trabalhar, deixei a minha noiva fazendo o último ano de odontologia e eu fui trabalhar em Pirapozinho, uma cidade perto de Presidente Prudente. Pra você ter uma ideia, eu pegava asfalto até Sorocaba, quando ia por terra; mas a gente ia pela Estrada de Ferro Sorocabana, eu ia até Presidente Prudente, depois de Presidente Prudente, eu descia ali, pegava um ônibus e ia até Pirapozinho, que ficava mais ou menos uns 25 quilômetros de distância. Eu tinha uma prima minha que morava lá, o marido dela era médico e ele tinha sido eleito prefeito da cidade naquele ano. E como médico e foi eleito prefeito então ele me convidou pra trabalhar com ele porque a prefeitura ia absorver um bom tempo dele e ele me convidou pra trabalhar com ele lá, enquanto ele era prefeito. Ele tinha uma clínica muito boa e eu fui pra lá, comecei a trabalhar. Mas depois de um ano a clientela cresceu, eu tinha uma boa tarimba de parto, coisa que ele não tinha porque eu fui interno aqui da Casa Maternal Doutor Mendes de Barros, e eu tinha uma boa tarimba de parto e fazia cirurgia que esse meu primo não fazia. Aí então depois de um ano eu saí do consultório dele e montei o meu próprio consultório e só saía de Pirapozinho pra vir ver a noiva em São Paulo, né? E depois de um ano, nós nos casamos e a minha mulher foi morar comigo lá em Pirapozinho. Pra você ter uma ideia, para atender cliente na rua, eu não tinha carro nem jipe, nada, eu tinha uma bicicleta Caloi, onde eu punha a minha maleta no bagageirinho da bicicleta e atendia doente de bicicleta. E só saía de carro quando os clientes já tinham carro e vinham me buscar, fora disso os clientes na cidade eu atendia de bicicleta e ia fazer as visitas aos doentes de bicicleta. E o consultório meu, que eu tinha, era separado da minha casa quando eu era solteiro. Pra você ter uma ideia, naquele tempo não tinha, o meu chuveiro era uma lata de querosene furada embaixo onde eu amarrava em uma corda e a gente chamava de Tiradentes porque era enforcado, né? (risos) Enchia de água quente e tinha que tomar banho ali enquanto a água quente estava durando porque se acabasse a água não tinha jeito pra tomar banho. Quando casei eu mudei para uma casa, fiquei lá nessa casa e uma das lembranças que eu tenho foi no dia do aniversário do meu pai, que é 24 de agosto, foi o dia que houve o assassinato, o suicídio do Getúlio Vargas. E o meu pai gostava de Getúlio e ele ficou muito triste porque Getúlio se suicidou exatamente no dia do aniversário dele. E quando eu tinha doente pra internar, eu levava pra Presidente Prudente, porque em Pirapozinho não tinha hospital. Então, quando eu fazia parto domiciliar, essa coisa eu resolvia lá e quando precisava internar o doente eu trazia pra Presidente Prudente para internar. E uma das lembranças curiosas que eu tenho é que naquele tempo que eu comecei a trabalhar em Pirapozinho, estava iniciando uma empresa que hoje é uma das grandes do mercado brasileiro de construção, Sebastião Camargo, da Camargo Corrêa. E naquele tempo o senhor Sebastião Camargo tinha assinado um contrato pra fazer um ramal da Sorocabana que ia sair de Presidente Prudente, ia passar por Pirapozinho e ia até Porto Primavera. E o senhor Sebastião Camargo apareceu lá no meu consultório para saber se eu podia atender os funcionários da empresa que estavam trabalhando no campo, com trator, quando machucassem, se podia. E eu fiz um contrato com ele e atendia os doentes da firma do Sebastião Camargo. E o escritório da Sebastião Camargo era aqui no prédio do Banespa, então todo mês, quando eu vinha aqui em São Paulo ver a noiva, eu ia lá ao escritório de Sebastião Camargo pra receber, trazia as fichas dos clientes e tudo isso e fazia o meu acerto mensal com Sebastião Camargo. Então lá eu trabalhei durante, de 1953 até 1956 eu trabalhei em Pirapozinho. Quando chegou em 1956 tinha nascido a minha segunda filha aqui em São Paulo, a Cristina, e a minha mulher ainda estava aqui em São Paulo com ela terminando aquele período de pós-parto, e apareceu um amigo meu lá em Pirapozinho, doutor Luís Antônio Monteiro da Cruz, me convidando se eu não queria trabalhar num hospital missionário lá em Mato Grosso do Sul. E ele me levou pra conhecer o local e eu gostei do trabalho lá, viu?

 

P/1 - Que tipo de hospital missionário? Quem era?

 

R - Era um hospital missionário que atendia pobres, tinha sido montado por um grupo de missionários, duas irmãs americanas que gostavam de fazer, atender gente necessitada, elas doaram o dinheiro pra fazer o hospital. Eles nunca vieram conhecer o hospital pra você ter uma ideia, eles doaram dinheiro para construir três hospitais no mundo.

 

P/1 - Irmãs, não freiras.

 

R - Não freiras, irmãs lá dos Estados Unidos, duas irmãs. Elas deram, quando o pai delas morreu deixou uma fortuna grande pra elas e elas resolveram doar o dinheiro pra fazer três hospitais no mundo onde houvesse necessidade grande. Construíram um na China, construíram um no Brasil e esse do Brasil eles deram pra um missionário que tinha uma carência, tinha um missionário que morava lá em Dourados que era o reverendo Mário ____________. O reverendo Mário ___________ era missionário lá e ele achou que a carência lá era muito grande, muitos índios, índios principalmente da tribo Cayowaá e Terena, era uma pobreza realmente muito grande. E essas irmãs ouviram uma vez ele falar disso nos Estados Unidos e deu o dinheiro e ele fez o hospital. E o Luís Antônio me levou pra conhecer o trabalho no hospital. Eu gostei e achei que valia a pena. Até telefonei pra minha mulher, ela estava aqui em São Paulo com a menina recém-nascida, e eu falei: “Olha, agora quando você terminar o período aí você pega o avião porque eles estão pagando uma passagem, porque você já vai direto de avião para Dourados”. Então ela pegou naquele tempo a Empresa Real. Pegou a Real daquele tempo e foi para Dourados. E eu saí de caminhão com a minha mobília, mobília muito simples mas saí com a mobília e fui pra Dourados. Pra você ter uma ideia de Pirapozinho e Presidente Prudente até Dourados, que são mais ou menos 500, 600 quilômetros, eu levei dois dias e meio de caminhão. E cheguei a Dourados fui morar lá numa casinha de madeira com fogão de lenha, ferro de brasa, geladeira a querosene e duas vezes por dia eu tinha que sair pra bombear água da caixa até, do poço pra caixinha. Tinha luz na cidade de 6 às 11. Então de noite você via os filhos tudo com lanterninha indo ao banheiro e uma terra muito vermelha. A gente quando tirava férias e vinha aqui pra São Paulo chegava aqui tudo encardido; quando tinha desencardido, estava acabando as férias e você tinha que voltar de novo. E depois em Dourados quando eu fui trabalhar, porque aí já tinha um ordenado, era pequeno mas era fixo, já consegui economizar e comprei o meu primeiro jipe com capota de lona. E a gente quando vinha aqui pra São Paulo com capota de lona parava nos rios, já que não tinha fralda descartável, você tinha que parar pra lavar filho, lavar fraldas. Só que no rio onde você lavava fralda, meio metro pra cima, você punha a boca e bebia a água porque não tinha contaminação nenhuma, água purinha, purinha, purinha. E a gente parava naqueles lugares lá de Mato Grosso, quando você parava para almoçar lá na hora do almoço, fulano dizia: “Hoje tem paca, tem capivara, tem cateto.” Não é a comida que você está esperando. Pra você ter uma ideia eu me lembro de quando eu fiz essa primeira viagem minha de jipe, um dia furou o pneu e eu parei num lugar lá escrito borracharia. Borracharia com “b” mudo, tudo escrito daquele jeito parecia que um passarinho que caiu, uma aranha que caísse e começasse a andar. Cheguei lá, furou o pneu, eu parei o jipe lá, ele chegou lá; na hora que ele tirou o pneu ao invés de passar uma lixa era um pedaço de lata com prego pregado, aquilo ao contrário, raspou. Depois ele pôs o remendo, mas não tinha eletricidade. Eu comecei a pensar: como é que ele vai fazer, né? Aí ele pôs um remendo em cima depois apareceu com um cilindro de carro pôs dois dedos de gasolina, pôs em cima do remendo e pôs fogo. E disse: “Pode ficar tranquilo, se pôr menos de dois dedos não cola, se colocar mais de dois dedos derrete”. (risos) E colou direitinho e dali ele me ensinou: “Olha, você tem que andar com dois estepes e aprende a trocar vela, trocar platinado e trocar coisa de carro senão você vai ficar aí na estrada.” Porque você pegava enchente com filho e com tudo, né? Então eu fiz o curso de mecânica. (risos) E eu fazia, trocava platinado, trocava vela, trocava bateria, trocava isso, andava com dois estepes no jipinho e tudo. Tirava as férias da gente, parava no meio do campo pra comer, tinha uma plantinha lá que você nunca ouviu falar, você já ouviu falar de seriguela? Você já ouviu falar de seriguela, Carmen? É. Então a gente parava lá, comia seriguela. E é curioso que naquele trecho depois que você entrava no Estado de São Paulo entre Presidente Epitácio, naquele tempo em Presidente Epitácio não tinha ponte, então você tinha que entrar numa balsa. Muitas vezes você ficava um dia esperando balsa pra atravessar o Rio Paraná. Atravessava o Rio Paraná e na margem da estrada, naquele tempo estrada de terra, de poeira, aquela coisa, você ia apanhando na beira da estrada, você apanhava manga, apanhava goiaba, apanhava caqui naquelas terras. Você apanhava assim e era uma coisa assim, uma viagem diferente das rodovias hoje com asfalto onde você não vê nada, né? Naquele tempo você ia a pedaço de fazenda de um cara e muitas vezes ele estava ali fazendo o almoço. “Quer comer alguma coisa?”, tal. Você parava, comia um bolinho, comia uma coisa ou outra, mas era uma viagem assim. A gente levava três dias e meio de São Paulo a aqui, de Dourados a São Paulo. Quando chegava a Sorocaba que você pegava o asfalto, asfalto não, porque era uma estradinha de pedra, né?, aí que você via que aquilo era o fim do mundo, né, era o fim do mundo.

 

P/1 - Bom, como é que é? Daí até a Johnson o que acontece.

 

R - Aí eu fiquei em Pirapozinho 16 anos. Depois eu vou te mostrar. Como esse hospital era um hospital missionário, todo ano eles faziam relatórios pra mandar pra missão nos Estados Unidos do trabalho, tal médico operou isso, fez isso, pacientes atendidos. No dia em que eu saí do hospital por curiosidade eles me deram, eu posso até te mostrar depois o papel timbrado, assinado pelo reverendo Marcelino Pires de Carvalho, que era o presidente da junta administradora do hospital, me deram um papel que dizia: “Atesto, declaro que o doutor Tércio trabalhou nesse hospital no período de 1956 a 1968 e isso e isso. E durante esse período ele chegou a ocupar o cargo depois de diretor clínico administrativo do hospital e acumulando as funções disso e daquilo e durante esse período ele fez os seguintes serviços.” Eu atendi 70 mil pessoas durante o tempo que tive em Dourados, 70 mil consultas, eu fiz 2.271 partos e fiz 2.700 cirurgias. Trabalhava o dia inteiro, a noite inteira. Fiz 2.270 partos, inclusive dois filhos meus. E fiz, atendi lá mais de 2.700 ou 2.800 cirurgias. Eu só não fazia tórax, mas cirurgia de abdômen, eu fazia razoavelmente bem. O estágio que eu me preparei e depois os anos de prática foram aumentando a tarimba da gente. Aí nessa altura os filhos foram crescendo e quando os filhos fizeram o primário lá em Dourados, o meu filho mais velho, o Marcos, fez o primário lá. Mas depois que tinha que entrar no ginásio e eu não ia ter condições, lá em Dourados não tinha ginásio, não tem nada como tem hoje e eu precisava mandar pra estudar. E na hora de estudar, o meu sogro morava aqui em São Paulo, pra mandar o filho depois vinha outra, depois vinha outra, depois vinha outra e deixar os três nas costas do filho, isso era uma coisa muito pesada, né? Aí eu resolvi. Avisei o pessoal lá de Dourados, dei um prazo pra eles dizendo que ia ficar mais um ano, a minha mulher veio na frente com os filhos, ficou morando na casa do pai dela, os quatro num quarto só, o meu sogro, era um... esse filho de chinês era uma criatura de um coração do tamanho de um bonde, né, e a minha sogra. E a minha mulher veio um ano e eu fiquei esperando lá até arrumar o meu sucessor em condições adequadas. Depois vim pra São Paulo. E cheguei aqui pra começar a trabalhar, educar os filhos, eu tinha que arrumar trabalho. Encontrei um amigo meu, que disse que tinha sido inaugurado o hospital de São Miguel Paulista, e eu arrumei pra dar um plantão de 24 horas em São Miguel Paulista. O meu plantão era de sexta-feira à noite a sábado à noite. E comecei a trabalhar no hospital da Amico, na Vila Mariana, eu trabalhava lá de meio-dia às seis. E como a fábrica Arno era atendida pelo pessoal da Amico, então eu trabalhava no ambulatório da fábrica lá da Arno de oito ao meio-dia na área de clínica geral e obstetrícia. Então eu saía de casa às seis horas, ia lá, eu não tinha carro aqui em São Paulo, quando eu vim, eu vendi o jipe, né, quando eu saí de Mato Grosso e vim aqui e comecei a ir trabalhar lá, saía de casa às seis horas, pegava de oito ao meio-dia no hospital da Amico, saía meio dia correndo sem almoçar pra pegar hospital ao meio-dia. Meio-dia e quinze eu chegava aqui porque era do mesmo grupo então tinha uma tolerância. Trabalhava no hospital da Vila Mariana de meio-dia às seis. E quando chegava à sexta-feira, eu saía do hospital, ia direto pra São Miguel Paulista de ônibus, chegava lá quase em cima do horário e trabalhava até sábado à noite. Então o meu esquema era de 74 horas por semana de serviço fora o período que você andava em cima de condução. Então era uma coisa, uma loucura. E eu falei pra minha mulher, eu falei: “Olha, a gente vai acabar infartando aqui e você fica viúva com os três filhos aqui.” Aí um dia eu vi um anúncio no jornal: Empresa procura médico com experiência que queira trabalhar na área de treinamento e ministrar cursos. Pra você treinar o pessoal, os propagandistas, os vendedores que vão visitar os médicos, né?

 

P/1 - Não dizia qual a empresa?

 

R - Não, não dizia qual a empresa. Aí eu fui lá, em novembro de 1969, eu fui lá e fiz as entrevistas e depois fiz a entrevista final com o senhor José Augusto Pinto, que está aqui na Johnson hoje, e fui admitido na Johnson em novembro de 1969. Aí eu entrei numa área, eu saí de uma área onde você atendia índios e gente miserável em Mato Grosso e fui lidar com professores universitários pra fazer estudos clínicos. Aí eu fiz a minha formação profissional diferenciada aqui na Johnson. Eu fui bolsista de reprodução humana em Buenos Aires, fui bolsista, naquele tempo a Johnson, o emblema da Johnson era uma mulher segurando uma criança pequena e escrito em baixo assim: Pro mater et figlo. E naquele tempo a Johnson começou a desenvolver a fábrica da Johnson, ainda era ali na Avenida do Estado onde tinha as enchentes, inundava a fábrica, inundava tudo. Aí nós começamos a trabalhar lá na Johnson, eu comecei como assistente e a gente viajava muito pra dar, fazia a parte de treinamento em convenções e eu conheci o Brasil todo naquele tempo. Aí depois a Johnson mudou a fábrica lá pra São José dos Campos, depois a fábrica nova para Sumaré. Eu fui adquirindo experiência, fui promovido a gerente de pesquisa clínica e trabalhei na Johnson até 1991, quando eu completei 65 anos e entrei na expulsória. Aí fiquei mais um ano na Johnson como contratado lá na Farma, até 1992, outubro de 1992, e em junho de 1992, o pessoal aqui da Gerivativa como estavam querendo... Com a ideia de criar uma linha nova de medicamentos e queriam uma pessoa com certa experiência, independente da idade, e como eu já tinha uma experiência acumulada lá na Farma, eles foram e me convidaram para vir trabalhar aqui mediante contratos, pra trabalhar nessa linha onde eu estou até hoje como contratado. E durante esse período que eu estive lá na Farma, aí foi uma vida profissional completamente diferente da minha vida dos índios porque aí eu lidava com os professores universitários, professor Bussâmara Neme. Me lembro de a primeira vez que eu fui ver o professor Bussâmara Neme, porque nessa altura do campeonato eu já estava com 40, 42 anos, quando eu entrei na Johnson e esses professores que já estavam lá em cima já tinham, mais ou menos, a minha faixa de idade muitos deles. Então o relacionamento era mais fácil porque você não tinha aquela diferença de 10, 12, 15 anos que você já tem, né? Então eu fiz pesquisas com o professor Bussâmara Neme, pesquisas com o professor Aluísio Prata, pesquisas em vários lugares do Brasil, participando de congressos, porque você tinha que conhecer os professores, o que é que eles faziam. Aí participei durante esse período meu na Johnson, de congressos aqui no Brasil, congressos internacionais, tive em congressos nos Estados Unidos, tive em congresso no México, congresso mundial, tive em congresso na Argentina. E aproveitei essas oportunidades também pra fazer viagens onde incluía um pouco de lazer e um pouco de trabalho também, viagens nos Estados Unidos, na Europa e muitos lugares. Então foi feito, no Uruguai, na Argentina, em vários lugares. E fui fazendo o meu currículo dentro da Johnson, muito gostoso. E participei também de muitos cursos de treinamento, de aprimoramento e tudo isso, né? Eu participei de mais... de durante esse meu período na Johnson, eu devo ter participado em cerca de quase 60 congressos, entre congressos regionais, estaduais, nacionais e mundiais, quase uns 60 congressos. E participei na área de treinamento dos nossos vendedores da Johnson, da Farma, que, aliás, era uma área que eu gostava muito de trabalhar, eu gostava muito de trabalhar com esse pessoal.

 

P/1 - Vamos interromper só um minutinho para trocar a fita. Se o senhor quiser pode fazer uma pausa também e ir ao toalete.

 

[Troca de fita 002-B]

 

R - Quando eu comecei na Johnson, eu ainda... como o meu plantão era de sexta até sábado lá em São Miguel Paulista, eu continuei trabalhando em São Miguel durante um ano, mas depois o meu trabalho na Johnson exigia muita viagem e participação em congressos, treinamentos e visitas, tudo isso. Aí eu resolvi deixar o meu plantão de São Miguel Paulista e fiquei só exclusivamente na Johnson. O senhor José Augusto Pinto fez um acerto comigo e eu fiquei só na Johnson. E nunca me arrependi, nunca me arrependi, eu me integrei muito na companhia, gostei do serviço, do trabalho fora, achei o ambiente dentro da Johnson muito bom, gostei, tanto é que estou aqui até hoje, né? E a gente quando fica muito tempo numa empresa é porque você tem dois componentes: porque você gosta da empresa e provavelmente porque a empresa também gosta da gente, porque senão você não fica. E foi um período, uma mudança muito grande, você deixar aquele tipo de clientela que eu tinha de índios e, de repente, você passar a conviver com treinamento na área de vendas e fazer treinamento e pesquisa clínica. Pesquisa clínica é uma área extremamente curiosa, gostosa e que você não tem formação em faculdades.

 

P/1 - Em que consiste exatamente isso?

 

R - A pesquisa clínica consiste basicamente em você pegar determinados medicamentos que você vê na prateleira, só que a gente começa lá da unidade I, quando você descobre um determinado pozinho, a gente já sabe por características químicas que determinadas substâncias têm propriedades tais e tais. Um belo dia você descobre uma substância lá que você acha que serve para uma determinada coisa. Então você começa a fazer os testes iniciais. A caminhada, pra você ter uma ideia, muitas vezes uma droga pra você começar do salzinho inicial até você colocar o remédio na prateleira, normalmente essa caminhada pode levar até 8, 9 anos e muitas vezes você gasta aí 80, 100 milhões de dólares numa caminhada dessas pra você colocar o vidro na prateleira. E pra você ter uma ideia ainda mais aproximada, muitas vezes a gente, num laboratório desses de grande porte que estão acostumados a trabalhar com a área de pesquisa, a gente tem mais ou menos uma média de 8.500 a 9 mil substâncias iniciais pra você ter uma comercializada. Então, pra você ter apenas uma ideia, vamos supor que a gente comece com uma determinada substância que foi descoberta que eu não sei pra que serve nada. Então eu vou fazer os primeiros testes em animais; eu vou fazer em animais roedores, que são animais de pequeno porte, cobaias, ratos de laboratórios, animais de pequeno porte e que você pode muitas vezes fazer aquele sacrifício de animais onde eles vão pagar o preço da experimentação científica. Então esses animais... Toda vez que você começa a gente não sabe nem qual a dose nem a propriedade que você tem. Então você vai fazer testes iniciais pra ver quais as doses atingir aquilo que a gente chama de dose letal 50. Vamos supor que eu pego uma leva de ratinhos, de 20 ratinhos, e dou uma dose de cinco miligramas por quilo de peso pra 20 ratinhos. Eu dou cinco miligramas, dou três miligramas, dou duas, dou várias doses. Aquela que mata a metade, dos 20, dez morreram, chama-se dose letal 50. Aquela dose letal 50 vai ser um dos pontos de partida pra você pesquisar. Vamos supor que eu dei uma dose, dei várias, dei dose de um, dois, três, quatro, cinco até dez miligramas por quilo de peso e cheguei à conclusão de que com uma dose de oito miligramas, por exemplo, dos 20 ratinhos morriam 15, 16 e muitas vezes da dose aqui de baixo um, dois aqui morriam só dois, três. A dose que eu vejo que morre a metade, então vamos supor que tenha ficado em torno de quatro miligramas. Depois de quatro miligramas, eu vou subdividir pra ter uma noção mais precisa, 4,1; 4,2; ou 3,8; 3,9 e etc. pra fazer isso com o rato. Cada um desses animais de laboratório que morrem, eles tem uma ficha como se fosse um cliente e quando eles morrem você abre e faz um exame do rim, do fígado, do coração, do pulmão, para ver quais as alterações que se processaram naqueles órgãos em função do medicamento, da droga que foi aplicada, você faz naqueles animais de laboratório. Depois que eu faço em animais de laboratório, por exemplo, com uma dose só, aí eu vou fazer aquilo que a gente chama de, pra eu verificar a tolerância, assim eu vou fazer depois uma dose de toxicidade inicial; eu vou fazer uma dose de toxicidade média, por exemplo, se eu dei uma dose e morreu, vamos supor que você pense, só pra você se posicionar bem, vamos supor que você pense num remédio, por exemplo, pra dor de cabeça; se você toma um comprimido sara, mas se você for hipertenso você vai ter que tomar a vida inteira. Então tem determinados remédios que eu dou pra um rato daquele, ele morreu com uma dose que eu já determinei dose letal 50 única eu vou dizer: “Mas se eu der essa dose repetida durante todo dia durante tantos dias será que vai morrer? Quanto tempo ele vai levar pra morrer?” E dou um dia, dois, três, quatro, cinco, dou até durante 30, 40, 50, 60, 90 dias até eu determinar uma dose de toxicidade média e depois eu vou dar uma dose de toxicidade crônica e vou dando remédio até o bichinho morrer, muitas vezes por velhice ou muitas vezes por problemas do medicamento. E cada um daqueles bichinhos que morrem, todos os órgãos são retirados e eu tenho uma ficha como se fosse um paciente. Depois já entra, depois que eu determinei a dose de toxicidade aguda, de toxicidade subaguda, toxicidade crônica, aí eu digo: “Mas e se essa ratinha, por exemplo, tiver relação com o ratinho, os filhos como vão nascer?” Aí eu vou fazer, primeiro eu fiz tratamento de macho e fêmea isolado. Depois eu vou dar uma dose para a fêmea e para o macho, cruzam e eu vou examinar os que nasceram pra ver se nasceram com defeitos ou não, para não acontecer caso, por exemplo, da Talidomida que vocês viram. Então, vou depois fazer o cruzamento, se nascerem normais, eu vou cruzar pra ver depois a primeira e a segunda geração pra ver se vai repercutir ainda na segunda ou na terceira geração dos animais. Depois que eu estudei esse animal, eu tenho que estudar outro animal roedor, roedor de maior porte; então eu vou passar para um coelho, está entendendo? E começo parecido com o mesmo esquema. Eu vou pegar um lote de coelho, vou dando posologias diferentes, os que vão morrendo eu vou analisando cada órgão do bichinho que morreu, vou analisando tudo aquilo de uma maneira correta, adequada, tudo indicando, tudo marcando direitinho, examinando fezes, examinando urina, examinando os órgãos, examinando tudo. Depois que eu termino a parte dos animais roedores nessa caminhada, você já deixou muitas, que não tiveram muitos daqueles pozinhos diferentes que esse não serviu, esse não serviu, comecei, por exemplo, com oito mil, oito mil e pouco. Aqui nessa altura vamos supor eu tenho 200 ou 300 só ou menos até 40, 50 depende do caso. Aí eu vou estudar animais não roedores, aí eu vou estudar, por exemplo, um gato, um cachorro, um porco, um macaco, pra você ter uma ideia. Aí quando a gente vai estudar macaco, eu vou pegar lotes de macacos, lotes de cachorros, lotes disso e daquilo, e vou dar as mesmas posologias porque eu vou testar naquele animal, vou verificar também qual o comportamento. Cada animal que morre cada órgão é examinado e cada animal tem uma fichinha, tudo aquilo direitinho, todos os órgãos, e depois, curioso, eu sou obrigado a fazer em dois animais não roedores isso daqui normalmente. Vou fazer o cruzamento também da filiação da primeira geração, da segunda geração. Coisa curiosa, muitas vezes você pode pensar também que aquela fase que eu fiz nos outros animais eu vou repetir aqui também, dose única, depois toxicidade aguda durante um dia, durante vários dias depois dose crônica até o animal morrer pra eu saber o comportamento daquele medicamento porque ele pode não fazer um efeito, pode fazer um efeito muito bom numa dose única, mas se você começa a repetir ele começa a dar problema e então eu não posso dar. Então nessa altura você já viu quantas coisas eu já vou jogando fora e vou selecionando, vou selecionando, vou selecionando. Aqueles lotes de macacos, uns lotes de macaco Rhesus, por exemplo, custam caro, eu não tenho exatamente a ideia do preço hoje, mas eu tenho a impressão que você não compra um macaco Rhesus por menos de 100 dólares, e você tem que comprar lotes de macaco Rhesus. Quando você chega nessa altura dos macacos Rhesus você está com aquele monte de informações extremamente... pacotes e pacotes, cada animalzinho, cada ratinho, cada isso, cada aquilo, tudo numerado. Aí nessa hora você diz assim: “Quando é que nós vamos passar para o ser humano?” Aí nessa altura você procura um professor de extrema competência, e diz: “Professor, nós estamos estudando esse medicamento assim, assim, assim em animais, os resultados foram esses, os órgãos analisados foram isso que o senhor viu. O senhor quer analisar o material pra ver se vale a pena a gente começar em humanos?” Então ele fica com aquele material muitas vezes seis meses, um ano e um belo dia ele chega pra você e diz: “Olha, dá pra gente pensar num teste”. Aí é a hora que você vai tomar a decisão de testar o ser humano. Não se pode fazer pesquisa desse tipo, por exemplo, em presos porque seria uma espécie de coação, não se pode fazer pesquisas desse tipo em funcionários da empresa sob uma coação. Você não tem condições de forçar ninguém a tomar o medicamento, então a pessoa que foi procurada pelo professor sadio, diz olha: “Você está disposto a tomar esse medicamento?” E pode-se até pagar pra ele um X por pessoa. Ele assina um documento, ele pode sair daquela pesquisa na hora em que ele quiser. E ele vai tomar aquele medicamento, por exemplo, uma dose inicial, dose única, você examina, ele põe todos os aparelhos que você põe, no sangue, na urina, pra você examinar a urina dele, o que é que apareceu na urina, o que é que apareceu nos rins, o que é que apareceu no fígado, o que é que apareceu nas fezes. E você vê, põe aparelho de pressão e você põe o eletroencefalograma, o eletrocardiograma pra ver como é que a mente dele reage, como é que o coração reage, como é que tudo reage com aquele remédio. Você deu aquilo e aí você diz: “Vamos supor que isso seja para um paciente diabético que vai tomar aquilo a vida inteira!” Então eu vou fazer toxicidade durante alguns dias naquelas pessoas, quase sempre é um grupinho pequeno, viu, Carmem? Grupo de quatro, cinco, dez voluntários que assinam documentos, ganham e ficam sob controle, eles ficam praticamente hospitalizados com todos os exames na hora em que você tiver a mínima possibilidade de risco, ou que ele quiser, ele pode sair. Não existe nenhuma obrigação de você fazer isso e tem que ser sempre voluntário. Todos os resultados de exame são catalogados e guardados e fichados. Vamos supor que nessa altura do campeonato muitas vezes o professor chega e diz: “Olha, deu esse e esse problema, é muito grave, não dá pra ir pra frente.” Você joga tudo fora. Muitas vezes ele diz: “Não, ainda dá pra continuar.” Aí você diz: “Agora, eu estudei no”. Se você, por exemplo, André, tomasse o remédio como são eu vi quanto você demora pra eliminar. Por exemplo, o remédio que eu dei você demorou 24 horas pra eliminar na urina, o índice no sangue caiu. Aí eu vou saber se o medicamento eu vou aplicar a cada quatro horas, a cada seis horas, a cada dez horas, a cada 12 horas dependendo da quantidade que é eliminada. Nessa hora eu determinei tudo isso e o professor chega e diz: “Olha, ele ainda está nessa condição agora vamos testar no primeiro doente.” Aí você vai pegar voluntários doentes, por exemplo, que estejam com uma úlcera de estômago, você quer tratar tal remédio na úlcera de estômago. Você pega um grupo de pessoas que já tem úlcera. Agora, você já viu a dificuldade. Muitas vezes assim de úlcera eu estivesse estudando uma micose, por exemplo, estudar, por exemplo, qual é o efeito de lepra, um remédio pra lepra, se eu vou estudar em animais. A coisa é mais difícil muitas vezes, o animal são tem uma reação, eu tenho que criar a lepra no animal pra depois eu poder dar o remédio. Então muitas vezes a dificuldade tem pra você implantar a doença no animal pra poder testar se o medicamento funciona naquela doença. Muitas vezes é difícil você inocular o germe pra ele crescer naquele animal, é difícil, viu? No ser humano vamos supor então que você passou isso, os primeiros doentes tomaram com todos os exames e controles, o eletroencefalograma não alterou, o eletrocardiograma não alterou, a pressão dele não alterou, a coisa ficou assim, a eliminação na urina se dá, você dá dose no sangue. “Olha, eu atingi uma dose no sangue de tanto, a dose ótima é de tantos, mas depois de quatro horas começa a cair”. Então depois de quatro horas eu já tenho que dar outro porque se não cair o efeito, perde o efeito, dou a cada seis horas ou a cada 12, a cada 24. Você vai determinando a dose. Depois que eu já tenho esse estudo básico feito e o professor definiu: “Olha, funciona realmente esse medicamento nesse estudo e tudo isso.” Aí você diz: “Então, agora eu vou abrir o leque.” Então você pega um laboratório como o nosso, por exemplo, que um medicamento que foi descoberto lá na Bélgica, você diz: “Então vamos testar no mundo.” Aí você manda, arruma um grupo de pesquisadores nos Estados Unidos ou na França ou na Inglaterra, um na Itália, um em Portugal, um no Brasil, um na Argentina, um no Uruguai. Você divide em vários países onde existem filiais da Johnson com profissionais em condições de fazer o acompanhamento de pesquisas clínicas. Você recebe aquele volume imenso de informações, procura um professor e diz: “Professor, nós temos esse material aqui que foi feito, testado pelo professor tal e tal.” Que quase sempre é gente mundialmente conhecida. “E o resultado foi esse e esse e esse e esse. O senhor está de acordo em testar esse medicamento em um cliente seu pra gente ver como é que vai ser?” Aí nessa altura você já viu, muitas vezes você vai dar um medicamento, por exemplo, se for pra uma diarreia, você vai dar por um período curto, mas se for um paciente hipertenso, por exemplo, ele concorda e você vai pagar um X para o professor porque ele tem que examinar, tem que fazer um controle violento do paciente, o paciente tem que retornar periodicamente para os controles. E muitas vezes o remédio pra pressão, por exemplo, ele pode abaixar a pressão, mas será que vai manter baixa? Mas depois de algum dia ela sobe de novo? Não, ela mantém baixa. E mantém baixa por quanto tempo? Porque o hipertenso vai ter que tomar aquilo a vida inteira. Então você vai ver quanto tempo leva pra abaixar e quanto tempo permanece. É um remédio pra dor? Então eu vou dar, por exemplo, para uma pessoa que está com um determinado tipo de dor pra ver quanto tempo começa a aliviar a dor, se é dor leve, moderada ou intensa, se é dor de pele ou uma dor interna, de cólica, quanto tempo leva pra aliviar a dor e quanto tempo dura o alívio. Então para cada tipo de medicamento você vai tendo uma coisa.

 

P/1 - Doutor Tércio.

 

R - Só para terminar. Então uma coisa pra terminar tudo isso. Você vê uma coisa, depois de tudo isso pronto o médico muitas vezes, você vê, você faz isso em dez, 12 países, 15 países em que você faz o teste. E em cada país você pega, por exemplo, aqui no Brasil, muitas vezes eu fazia uma pesquisa, fazia uma pesquisa com dois, três professores de São Paulo, dois, três professores do Rio, de Salvador, de Recife, de Curitiba, de Porto Alegre. Fazia 14, 15 centros de pesquisa, você englobava aqui, por exemplo, cada centro de pesquisa você estudava 20, 30 doentes, então você pegava aqui 200, 300 doentes. Muitas vezes você pagava, chega caso em que a gente paga dois, três, quatro mil dólares por doente; você multiplica isso por 15, 20 países mais os exames colaterais feitos. Então é fácil de você ver aonde chega. E muitas vezes depois de tudo isso pronto ele diz: “O medicamento funciona.” Aí eu disse: “Já tem algum concorrente na praça?” “Não, nessa indicação não tem nenhum.” Ótimo, então você lança porque ninguém conhece um remédio pra tratar um determinado tipo de Aids, por exemplo. Mas se você vem com um antibiótico novo. Diz: “Não, mas já tem dois concorrentes na praça.” Então eu vou fazer um teste comparativo do meu com ele. Porque se o meu for pior nem adianta lançar, eu jogo fora e perco tudo. Todo o dinheiro que eu investi até aquela hora. Você faz um teste um medicamento comparativo e o teste vem: “O outro comparativo é melhor, dá menos efeitos colaterais, ele age mais depressa, é mais seguro”. Você joga 60 milhões de dólares no lixo. Agora se o teu for bom, igual ou melhor, aí você vai fazer um esquema de lançamento depois que vai envolver o treinamento de profissionais no mundo todo pra você fazer os lançamentos do pessoal interno pra depois cada um levar aquilo que você quer para os profissionais nos seus consultórios. Aí você já viu, então, muitas vezes, André, é comum você gastar cem milhões de dólares num produto. Às vezes você começou com 8.500 e está com um, dois aqui na mão, às vezes você joga tudo fora e começa de novo. Então, é por isso que pesquisa é um negócio muito caro, é um negócio muito sério. Os dados têm que ser extremamente confiáveis e aqui tem tudo isso, você depois que lançou um produto no mercado você tem ainda duas situações extremamente difíceis: é que quando você tem duas vidas em jogo, ou seja, uma mulher grávida ou uma mulher que amamenta. Eu não posso fazer teste com uma mulher que está grávida, você vai tomar pra saber o que é que acontece com o seu filho; ela está amamentando, você não pode tomar pra saber o que vai acontecer no nenê. Por isso é que você tem que colocar nas bulas como norma de todo produto novo que mulher que está grávida, mulher que está amamentando não pode tomar. Principalmente no primeiro trimestre da gestação. Porque nós como seres humanos até o terceiro mês você é formado depois do terceiro mês em diante você só cresce. Então, se muitas vezes a pessoa toma um remédio até o terceiro mês de gravidez e esse remédio atravessar a placenta e chegar ao nenê, você pode dar uma má formação no nenê, ele pode nascer sem braço, sem orelha, sem isso, sem olho. Como vocês viram o caso que já houve com a Talidomida. Então é obrigado a colocar na bula primeiro trimestre de gravidez é proibido, mulher que amamenta é proibido. Agora, depois começa a acontecer problemas de um belo dia você está no consultório e telefona um professor lá: “Tércio, eu tinha uma cliente minha que estava tomando esse remédio ela engravidou não sabia, regra atrasou e agora ela está grávida, o que é que eu faço?” Você muitas vezes tem dois caminhos, ou o médico muitas vezes pode partir pra fazer um aborto, porque muitas vezes não quer correr o risco, ou muitas vezes você tem uma mãe que diz assim: “Eu fiz tudo pra arrumar esse nenê e não consegui engravidar, agora consegui engravidar e não quero perder esse.” Então você quando muito pode dizer lá para o professor: “Olha, professor, os estudos que nós temos em animais, todos em animais que a fêmea deu a luz não nasceram anomalias nas crias, os cães nasceram em ordem, os coelhos nasceram em ordem, os gatos nasceram em ordem de modo que o que eu posso dizer pro senhor é o seguinte: por favor, nós vamos fazer um acordo, o senhor acompanha essa mulher, faz todos os exames necessários e se a criança nascer normal o senhor, por favor, nos avise”. Isso constitui o que a gente chama de serviço de farmacovigilância da empresa. Que toda empresa de grande porte e séria tem, porque eu pego um caso desse acidental aqui no Brasil, posso pegar dois, três, o da Argentina pode pegar, o dos Estados Unidos pega, do Japão, da França, do Uruguai, do Paraguai, da Itália, da Inglaterra. E depois de alguns anos, depois de oito, dez, quinze anos você tem um conjunto de 200, 300 casos, muitas vezes até mais, muitas vezes menos, que diz: “Olha, as parturientes que foram acompanhadas e que deram à luz e que tomaram esse remédio inadvertidamente, as crianças nasceram sadias.” E isso não vai dar garantia nenhuma de dizer para um médico se ele me telefonar que eu garanto que vai nascer sadio, mas posso dar para ele um histórico do passado e dizer que aquilo aconteceu. Então dá um certo... Então você vê como é, que quando a gente fala de um comprimidinho que você toma, vai lá na prateleira e toma André.

 

P/1 - Entendo.

 

R - Você vê a caminhada dele, né?

 

P/1 - A pergunta que eu vou lhe fazer está dentro desse contexto e eu acho que só vai acrescentar. Eu queria entender, porque eu sei que a Farma não tem setor de pesquisa pra desenvolvimento de remédio no Brasil, geralmente os remédios que são lançados são desenvolvidos pela Janssen ou pelos outros grandes laboratórios que são Cilag...

 

R - Cilag, Janssen, a Mcneill e a Ortho.

 

P/1 - Então, que função tem o seu papel aqui no Brasil, ou estou entendendo mal e há um desenvolvimento de pesquisa também no Brasil?

 

R- Não, uma série de pesquisas na fase inicial nós não temos condições de fazer fora do laboratório central de análise. Se eles descobriram uma substância nova, conseguiram sintetizar uma substância nova na Janssen, por exemplo, ou na Cilag ou na Mcneill, eles não têm condições de vir desenvolver aqui no Brasil, mesmo porque você não tem profissionais de várias áreas de laboratório e você não tem um biotério de milhares de ratos, de coelhos, disso, de macacos, disso e daquilo pra você fazer, não tem biotério. Então você faz lá, com todos os recursos científicos você faz lá, na hora em que a substância ultrapassa o limite onde já entrou na fase humana e os pesquisadores lá fora deram um mínimo de segurança pra você iniciar, nessa fase é que muitas vezes você diz: Então se eu estudar, por exemplo, se eu tenho um medicamento que eu sei, você, por exemplo, você vê o exemplo da Penicilina que salvou milhões de pessoas e que já deu muitas reações e matou muita gente. Se eu digo pra você que dois por mil têm reação, você precisa entender que dois por mil, quando eu digo dois por mil em medicina número não é número, número é gente. Se eu digo que esse remédio mata dois por mil, pode ser seu pai, pode ser sua mãe, sua esposa, o seu filho ou você. Número em medicina a tradução é gente, isso é uma coisa que a gente então tem que pensar muito quando você fala nessa área de pesquisa. Então é uma coisa extremamente séria! Então com esses laboratórios quando a gente lança, por exemplo, se eu for estudar, tudo em ordem, tudo funcionou, eles fizeram um estudo básico lá com 30 pacientes lá na Janssen, por exemplo, com um rigor total, funcionou. Mas se eu digo, por exemplo, que isso ocorre em dois por mil, se eu tenho só 30 casos e tenho validade estatística naquilo, esses dois por mil podem ser os dois primeiros como podem ser os dois últimos, certo? Então eu vou expandir, eu vou pegar agora aquele mesmo professor, vai ter condições dele sozinho estudar dois mil pacientes? E se ele faz lá na Suíça ou na Bélgica o comportamento do belga em tipo de alimentação, de norma de vida, é igual ao do brasileiro? É igual ao do italiano, disso? Então, é por isso é que você então começa a fazer os estudos multinacionais para você ter uma abrangência muito grande, ampliar a tua casuística, pra você ter condição depois de ter dados na mão variáveis. E muitas vezes tem medicamento que você lança no mercado e ele dá uma reação inicial que sensibiliza a pessoa, quando ele toma a segunda dose a reação é forte, e muitas vezes pode ter problema. Então você tem medicamento que você lança e depois quando surge alguma coisa desse tipo assim você tem que retirar de mercado. E isso já aconteceu muitas vezes. Então quando um medicamento é retirado do mercado ou quando ele tem um efeito colateral, o laboratório sério tem que fazer uma avaliação correta disso e tem que ter condição de fazer uma avaliação correta, coisa que muitas vezes laboratórios de pequeno porte não têm condição e nem a honestidade suficiente pra fazer aquilo. Por isso que quando, às vezes, você abra a bula e diz: Esse remédio aqui, paciente que é diabético tem que tomar cuidado, paciente que é hipertenso tem que tomar cuidado, paciente que isso e que aquilo. O médico que muitas vezes prescreve aquilo, você tem que fazer um acompanhamento do risco e do benefício que o remédio dá. Então na hora de você ler uma bula precisa tomar cuidado porque senão encabula. Então tem que fazer um acompanhamento, muitas vezes, bulas enormes onde você tem que ter um resultado do acompanhamento daquilo de uma maneira muito séria.

 

P/1 - Então, pra todo medicamento a gente tem um teste no Brasil? Todos os medicamentos lançados?

 

R - Alguns a gente tem, outros já vêm com testes que, muitas vezes, por exemplo, se você vai estudar verminose, aqui no Brasil tem muita verminose. Você vai encontrar verminose na Suíça? Encontra?

 

P/1 - Meio difícil.

 

R - Você vai fazer um medicamento pra reumatismos. Qual é a incidência de pessoas idosas no Brasil em relação à Bélgica, Suíça, tudo isso? É pequena. Você vai estudar em paciente aidético, você vai fazer numa cidade, num país onde a incidência de Aids é baixa? Então você já viu o porquê dessa diversidade de você ter que fazer num país do que num outro. Você vai estudar, por exemplo, quando eu comecei a estudar medicina, você tinha 60% da população brasileira que tinha um pouco de verme. Só que quando eu estudava você tinha 50 milhões de brasileiros, hoje nós temos 150 milhões de habitantes, tem 60% com verminose!

 

P/1 - Só um minuto, professor. Vai ter que trocar a fita? Já trocou?

 

[Troca da fita 002-C]

 

R - ...não tem lá, né? Então você tem que estudar no país onde tem, né?

 

P/1 - Vamos retomar, eu queria só acrescentar o seguinte: entendido isso, nós não fazemos a pesquisa da droga aqui, o elemento esse nós não temos no Brasil. Mas eu sei que já houve investimento da Farma no sentido de abrir um laboratório de pesquisa de sal básico, né? O senhor participou dessa experiência? O que é que aconteceu?

 

R - Não, a gente na área de investigação clínica a gente tomava conhecimento mas não participamos. Quem foi o diretor desse serviço foi o professor Geraldo Chaia, ele, lá em Sumaré, ele tinha um biotério onde ele fazia, realizava uma série de testes em animais porque você muitas vezes tem coisas que você pode testar em animais e tem que coisa que você pra passar para o homem a diferença é grande, né? Então nós tivemos um biotério e teve algumas substâncias, por exemplo, que nós sintetizamos lá em Sumaré, e tudo isso. Mas depois muitas vezes por razões das mais variadas, você acaba partindo. Eu acredito que uma das coisas em que a gente pode, pra você ter um exemplo, um laboratório japonês hoje, porque eles têm muito dinheiro, muita pesquisa e investe, descobre, a coisa funciona lá no Japão, só que ele não tem firmas e filiais aqui no Brasil, não tem nos Estados Unidos, não tem na Europa. O laboratório Daiichi, por exemplo, ele descobriu um medicamento que hoje nós temos na Farma que é o Floxaxina, ele descobre só que ele não tem condições de comercializar no Brasil. Então o que é que ele fez? O Japão, muito vezes, vem pros Estados Unidos e faz um acordo com a Ortho pra vender aos Estados Unidos, no comércio americano; faz um acordo com a Roussel pra vender na França; faz um acordo com a Hoechst pra vender na Alemanha; faz um acordo porque ele não tem condições de comercializar. Então ele vem e faz acordos regionais de comercialização, o produto que já foi suficientemente testado, mas você acha que ele vai abrir, você acha, por exemplo, você acha que se a Hoechst quiser abrir um laboratório de um medicamento que testou, que funciona e vai vender lá no Japão, ele quando muito pode dar a licença pra um fabricante fabricar lá e vender sob um acordo comercial feito por ele. Mas não vai exigir. Então aqui no Brasil, agora só pra você entender, dentro dessa fase agora você está vendo a importância que nós estamos entrando no Mercosul em termos de droga, né? Porque você fez Brasil, Uruguai, Paraguai e Argentina e quando você sabe de uma droga que é comercializada, por exemplo, na Alemanha, não licenciada, só comercializada, no Paraguai eles não têm condições de fazer pesquisa como no Brasil, mas ele pensa se já foi feito na Alemanha e o alemão toma, o italiano toma, o inglês toma, o paraguaio pode tomar com segurança, então ele comercializa. Então isso vai ter que acelerar determinadas áreas, inclusive da área de licenciamento aqui no Brasil, que muitas vezes leva dois, três anos pra licenciar e agora. Então você tem drogas que você não pode comprar em supermercados porque eles proíbem e, no entanto, você vai a tudo que é loja de coreano e compra o remédio que você quer, em loja de coreano, você compra a vitamina que você quer em loja de coreano. No entanto, você não pode vender a tua no supermercado. Mas você vai às farmácias que eles querem vender e você vai à farmácia você compra detergente, papel higiênico, você compra tudo na maior parte das drogarias. E porque que é que eles não querem a competição? Porque você vai ficar na função do farmacista que não é formado, o balconista que te empurra tudo, apresente pra ele uma dor, tudo quanto é dor que você apresentar, ele vai te empurrar uma coisa. Uma barra. Então essa é a razão porque você tem determinados medicamentos que são testados mais num país, porque a doença incide mais naquele país do que em outro. Então você vê isso.

 

P/1 - No caso brasileiro, por exemplo, que remédios foram mais testados aqui lançados pela Farma?

 

R - Por exemplo, dentro dessa relação que eu dei pra você pega o Pantelmin aí, 1972, não é? Vê lá, 1972.

 

P/1 - Pantelmin 1972.

 

R - Por exemplo, vocês não chegaram a tomar remédios pra vermes. Onde a pessoa tomava remédio pra vermes tinha que fazer isso, fazer aquilo e tomava uma porção de coisas, fazia uma porção de exames. E tomava depois purgante pra eliminar os bichinhos, era uma coisa terrível, você não chegou a pegar. E muitas vezes você fazia o exame de fezes pra ver qual o tipo, porque tem vários tipos de bichinhos, vários tipos de vermes e você tinha que dar o remédio adequado. Quando surgiu o Pantelmin, os testes que foram feitos aqui no Brasil e em alguns lugares do mundo mostraram que ele age sobre os sete principais tipos de vermes existentes no Brasil. Quer dizer, se você faz um exame de fezes e encontra uma lombriga, encontra um amarelão, encontra isso ou aquilo, faz agora para os sete vermes mais comuns do Brasil, é o Pantelmin. Então nós lançamos basicamente como uma das coisas mais difíceis. Se você vai, por exemplo, numa favela, muitas vezes, se você for fazer exame de fezes em todas as crianças da favela você não vai conseguir, primeiro porque você não tem gente pra ir lá pra coletar, não tem laboratório pra fazer, nessa crise que nós estamos aqui, mas você sabe os principais vermes que tem lá, os mais comuns, então você já pode dar um Pantelmin direto sem fazer, e não tem dieta, não tem regime. Você pega um Pantelmin, a gente usou a fórmula um, dois, três, um comprimido duas vezes por dia, três dias. Para efeito mínimo, porque não é absorvido, ele age em cima do próprio bichinho que está dentro do teu intestino. Não age porque remédio quando ele cai no sangue, gente, ele vai onde você quer mas vai onde você não quer. Então ele vai dar o efeito que você deseja e vai dar o efeito que você não deseja. “Eu tomo isso me dá tontura”, muito bem, você não quer tontura, não toma o remédio. Também não vai ter aquele efeito que ele dá. Então não tem saída. Agora, quando você pega um caso desse bichinho, por exemplo, no caso do Pantelmin só 4,58 % que é absorvido. Então é o mínimo de efeito, não tem então você cura a maior parte de criança. O duro é que você vai à favela, ele toma e dali seis meses ele continua tomando a mesma água, bebendo a mesma coisa, está com bicho de novo, né? Então você vê que a coisa não tem fim. Então, ao invés de você gastar dinheiro com uma porção de coisas é preferível que você invista, você dá um remédio... você sabe quanto é que custa um tratamento pra um aidético no Hospital Emílio Ribas? Custa 200 dólares por dia. Com 200 dólares você trata oitenta a cem crianças portadoras de vermes em termos de Brasil. O que é mais importante? Mas quando você vê pregado no carro Solidariedaids é muito bonito, você vender aquilo nos carros, o faveladinho não tem, né? Então que é esse aspecto que é legal, bonito da medicina, o que você tem que fazer. Não é querer elitizar demais, muito vezes, determinadas coisas. Vocês, por exemplo, se precisarem de um plano de saúde, quem não tem um plano de saúde hoje está falido. Você vai fazer uma ressonância magnética, uma coisa, cada dia mais recursos, mas cada dia mais elitizado. Então esses medicamentos de uso popular que você pode criar condição, eu acho que deveria ser um aspecto muito sério do envolvimento nosso médico aqui. A gente elitizou muito. Então você vai, fulano foi operado, Sérgio Motta está operado no Incor está lá na UTI onde ele gasta 900 reais por dia de UTI, mais a cirurgia, mais isso e aquilo. E nós, é do governo, vamos pagar porque ele é funcionário, está certo? Então vai gastar 50, 60 a 70 mil reais; 50, 60 e 70 mil reais você vai tratar tranquilamente três, quatro mil crianças. Não que não se deva tratar, mas você tem uma porção de doenças que são extremamente oportunistas, quando pega o seu organismo um pouco mais fraco toma conta. Doenças oportunistas mesmo, mais oportunistas que os nossos deputados e senadores, viu? (risos) Mais oportunistas que os nossos deputados e senadores. Mas são coisas assim. Então esses aspectos da pesquisa clínica tem muita coisa que envolve a gente. Daria pra falar isso aqui? Não nessas duas horas aqui não, André. Daria pra você um dia participar de um congresso dos médicos da indústria farmacêutica, quando a gente, muitas vezes, vai lá e fica vários dias só discutindo pesquisa? E a sociedade foi fundada em 1972. Você vê, já estamos com 23 anos, e vou dizer uma coisa, você só tem gente participando de laboratório que já é sério, os laboratoriozinhos de porão que vendem porcaria nenhum é sócio, nem aparece lá.

 

P/1 - Vamos mudar um pouquinho, doutor Tércio. O senhor também orienta vendas, eu queria que o senhor me desse uma explicação sobre qual é a sua função nesse caso e contasse alguma experiência interessante na sua orientação de vendas.

 

R - A orientação de vendas, porque a gente sabe que o propagandista-vendedor, a função dele é visitar o médico pra levar os benefícios, as contraindicações e as indicações dos produtos que já passaram por todos esses testes, um produto novo pros doutores. “Estamos trazendo pro senhor aqui um medicamento novo que é indicado nessa patologia, o cuidado que o senhor tem que tomar é esse, ou esse ou aquele.” E vai indicar. O médico não conhece aquilo. Então normalmente o gerente de pesquisa prepara primeiro uma documentação básica pra entregar para o médico, muitas vezes, separada de trabalhos publicados no exterior, a gente manda junto e quando o propagandista vai levar, por exemplo, visitar um médico do interior, que não tem acesso fácil às revistas médicas e congressos médicos lá no interior, então a função nossa aqui é treinar o propagandista para que ele leve o medicamento, tenha conhecimento básico: “Doutor, nós estamos trazendo esse remédio aqui que o senhor vai usar na área de constipação intestinal, por exemplo, fibra pura. O benefício dele é esse, esse, esse. A gente aconselha que seja usado dessa, dessa e dessa condição. O senhor tem esse, esse e esse sabor para o senhor experimentar.” Então ele é treinado, você traz o propagandista do campo onde não conhece nada, a gente aqui que já sabe o produto junto com o gerente de produto que vai cuidar da venda, então a gente, como médico, leva a parte de conhecimento médico, o outro leva a parte das condições de venda, tudo isso. E você vai treinar o propagandista pra ele levar não só o conhecimento do produto, como as condições de trabalhar diante do médico, como é que ele vai fazer uma visita pra um hospital, como é que ele vai fazer um retorno, se o médico tem alguma informação adicional, ou ele pode até telefonar pra gente ou ele manda por escrito: “O médico gostaria de receber um trabalho que mostre esse produto, um trabalho que ele ouviu dizer que foi publicado na Alemanha, não sei onde.” Você pega o trabalho e manda pra ele porque, muitas vezes, você leva aquilo, tem médico que pode não acreditar naquilo que você está falando, mas se você leva estudos que foram publicados nos Estados Unidos, na Alemanha, na Inglaterra, que mostre que o produto foi usado e que a porcentagem de cura foi de 80%, 90%, você leva um coeficiente de credibilidade para o médico. E essas informações é que a gente treina o propagandista-vendedor pra ele levar. E periodicamente você faz a reciclagem de conhecimento já existente ou você faz o lançamento de um produto novo que ele vai levar. Então o propagandista nosso tem informações sobre os produtos, tem liberdade total de recorrer ao gerente de pesquisa clínica, ao gerente de pesquisa, as informações que ele quiser e periodicamente ele é reciclado. E todo produto novo, quando você lança, tem uma reunião especial porque vai comunicar um fato eminentemente novo. Então você faz. E isso se repete com certa frequência, que é o objetivo de você manter uma equipe atualizada, né?

 

P/1 - Houve algum fato curioso envolvendo o lançamento de algum produto nessa sua trajetória, durante esses anos todos, acompanhando tantos lançamentos? Eu estou vendo aqui que são dezenas, né?

 

R - Dezenas. Houve lançamentos muito curiosos. Primeiro você tem medicamentos que, muitas vezes, ele exige um exame, uma confirmação de um exame de laboratório. Você imagina o que possa ser aquilo, mas muitas vezes você tem que fazer uma confirmação de laboratório e muitas vezes, nem sempre você tem condições de fazer isso com todos os médicos do interior, a maior parte tem porque você já tem aquilo pesquisado. Mas tem algumas coisas muito curiosas. Numa ocasião que nós estávamos, eu me lembro, numa ocasião que nós estávamos fazendo o lançamento de Pantelmin, o Pantelmin que era aquele remédio pra vermes, e você sabe que quando se faz remédios de verme... o camarada lá na hora de fazer o lançamento avisou o médico. Um dia avisou um cliente que era rico e ele tinha um filho que ele achava que estava com verme. Aí o médico disse: “Olha, então vamos fazer o exame de fezes amanhã, você traz fezes pra ele analisar.” E no dia seguinte ele levou um penico cheio de fezes para o médico, né? (risos) Então são coisas que muitas vezes você precisa avisar pra ele que é pra trazer só aquele pouquinho, né? E muitas vezes você vai dizer que os bichinhos que estão lá dentro muitas vezes eles botam ovo e você vai examinar nas fezes o ovo do bichinho. E cada bichinho tem um ovo, da mesma maneira que você distingue um ovo de codorna, de um ovo de galinha, de um ovo de pata. Você também distingue pelo exame cada jeito de um bichinho. Agora, muitas vezes ocorre, eu, quando eu trabalhei em Mato Grosso, por exemplo, eu peguei, cheguei a pegar lá crianças, filhos de índios que tinham lombriga. Você conhece lombriga, aquele bichinho de mais ou menos oito, nove centímetros, né? Muitas vezes eu tive que operar crianças que estavam com o intestino obstruído por lombrigas, de você abrir a barriga e tirar 200, 300 lombrigas numa criança. E muitas vezes você encontra solitária. Você sabe por que chama solitária?

 

P/1 - Por quê? Não.

 

R - Porque é uma só, mas ela chega a ter 12 metros às vezes.

 

P/1 - Vai até o cérebro?

 

R - Pode. O ovo dela pode cair até no cérebro. Você tem muita gente aqui no Brasil que tem o ovo de solitária lá em cima e não sabe, né, por causa do procedimento deles. (risos) Mas são coisas, coisas desse tipo assim, né? Então remédio que você usa... Por exemplo, quando nós lançamos remédio para micose de unha, um dia veio uma paciente diz que uma paciente chegou: “Ah, eu vou usar esse remédio pra unha, como é que eu vou comer a minha unha? Como é que eu vou tratar? Outras vezes esse remédio para micose de unha... tem um professor famoso que eu não vou dizer o nome aqui em São Paulo, ele chegou pra mulher que dizia que tinha aquilo, ela dizia:” Mas que coisa, eu uso esse remédio aqui durante três, quatro meses, na hora em que eu estou sarando da unha eu vou para o Guarujá, forma a unha de novo.” Ele disse:” Olha, minha filha, eu vou te dar um conselho. “Esse remédio, essa doença não coça, não estraga nada, corta a unha bem curtinha e pinta a unha de vermelho e não precisa tomar remédio.” (risos) Então são coisas que você vai encontrando assim de curioso.

 

P/1 - Doutor Tércio, eu acho que já está suficiente, estava querendo concluir, e queria lhe fazer uma pergunta: eu estou vendo que o senhor é um homem de uma visão muito humanística sempre, né, o senhor teve um início de profissão em que o senhor aventurou a cuidar de índio. Enfim, eu acho que essa guinada que o senhor deu na vida, de repente o senhor vai trabalhar numa indústria e as indústrias são sempre vistas como interessadas no lucro, enfim, é uma guinada de posição que leva a uma reflexão. Eu queria que o senhor fizesse essa reflexão, quer dizer, mudando do balcão, né, do ponto de vista de quem consome o remédio pra quem vende o remédio. O que significou isso na sua vida e como é que o senhor vê isso, o que representou pro senhor?

 

R - Essa ideia que você estava dizendo eu também tinha antes de entrar na indústria farmacêutica. Eu acho que ganhar dinheiro é um objetivo de todo mundo desde que ele seja feito por caminhos transparentes e honestos, e uma das coisas que me segurou na Johnson foi que a linha de pesquisa que eu comecei a trabalhar desde o dia em que eu entrei era uma linha séria e correta. Então isso me deu uma noção de que aquilo, a imagem que eu tinha como médico humanista, não que a Johnson não vise ganhar dinheiro, porque você viu que a pesquisa custa muito caro, então se ela não ganha dinheiro com medicamento que ela vende ela não tem dinheiro pra bancar as pesquisas seguintes, e a Johnson tem crescido porque tem ganhado dinheiro, mas tem ganhado dinheiro porque tem crescido. E tem sido um ciclo vicioso onde você vê funcionários, por exemplo, da Johnson, aqui é uma das empresas que tem um índice de rotatividade de funcionários bastante pequena porque uma das coisas que tem mexido com a gente é compreender que realmente a empresa é séria. Eu nunca fui, nunca, nos meus 26 anos de Johnson, eu nunca fui nem sondado pra fazer alguma atitude desonesta na minha área profissional e sei que tem colegas de outros lugares aí que são testados. Nunca fui testado. Eu me lembro da primeira vez quando a gente ia pra um congresso você pagava conta de hotel, pagava de táxi e tudo isso, você punha no papel dia tal: tanto de táxi, tanto de hotel e pagava. Você chegava, apresentava, a companhia te fazia o reembolso das despesas. Numa ocasião eu voltei de um congresso com a calça de brim e essa calça de brim, Levi’s, mandei lavar e tinha três ou quatro notas no bolso e molhou, perdeu tudo. Quando eu cheguei na hora de falar, eu cheguei pro meu chefe falei assim pra ele: “Olha, aconteceu isso, eu não sei exatamente era conta do hotel, disso e daquilo, eu não sei quanto foi a conta do hotel, disso e daquilo eu só quero dizer pro senhor que eu levei tantos reais e voltei com tantos reais.” Cruzeiros naquele tempo, né? “Levei tanto e voltei com tanto, então eu gastei em torno de tanto.” A resposta dele foi isso: “Se você está me dizendo você toma cuidado e eu vou aceitar aquilo que você está dizendo, tome cuidado pra não acontecer daqui pra frente. Agora, aprenda uma coisa, no dia em que eu não acreditar naquilo que você está dizendo, você não serve pra trabalhar conosco.” Então uma coisa dessas que acontece com a gente marca de uma maneira muito profunda o relacionamento, e ,muitas vezes, até hoje na companhia eu faço, às vezes, uma ligação telefônica e eu digo assim pra menina: “Essa ligação é particular, eu poderia fazer da minha casa mas eu estou precisando fazer agora.” Eu acho que tem esse relacionamento da gente chegar e dizer, você faz uma corrida de táxi aqui pra cá, onde você vai visitar um médico, visitar um hospital onde você está fazendo uma pesquisa. “Olha, fui daqui pro Hospital São Paulo e gastei 35 reais de táxi.” Eles nunca duvidaram de mim, mas se eles pegarem um táxi e forem o mesmo trajeto vai ver que não tem diferença de dinheiro. E depois eu acho que no fim de cada dia de trabalho, eu acho que a coisa mais importante é você acabar o dia satisfeito com aquilo que você fez e consigo mesmo. Ninguém consegue agradar os outros se não consegue agradar lá dentro. É uma das coisas que tem levado muita gente a depressão e que a gente quer jogar pra dentro muitos erros que a gente faz, errinhos até de estimação que a gente joga lá pra dentro. Eu acho que isso não dá, acho que a pessoa tem que ser correta, com a mulher, com os filhos, com os chefes, com os laterais, com os amigos. O pessoal que trabalha aqui na área de limpeza é o mesmo que eu cumprimento, e pego na mão como se eu encontrasse o Gottschalck ou aquele que eu pego lá embaixo. Quando eles têm probleminha sábado à tarde, quando não tem muito médico, muitas vezes vem aqui. Eles vêm aqui: “Doutor Tércio, o senhor me podia quebrar um galho, fazer isso ou aquilo.” Dentro do possível, dentro da honestidade, ele é atendido. Por isso que muitas vezes é gostoso a gente ficar aqui hoje na data em que eu estou. Eu só vou te falar uma coisa para terminar. Tem um grupo nosso que nós atendemos uma favela aqui de Vila Andrade, aqui em cima, nós montamos, na igreja onde eu trabalho lá, nós montamos um grupo pra atender, montamos uma escola de alfabetização de adultos porque eles não têm onde estudar, não têm lugar pra estudar. Montamos uma escola pras crianças e montamos um serviço de atendimento onde a gente dá 36 ou 38 cestas básicas pras pessoas necessitadas lá. Você sabe que há pouco tempo nós fomos entregar uma cesta básica lá, entregar pra turma, e um deles chegou: “Oh, doutor, essa cesta básica não precisa me dar hoje não, porque eu arrumei um emprego de frentista no posto, o senhor dá pra outro que precisa mais que eu.” Você sai desse tamaninho, né? Você sai de lá achando que está fazendo alguma coisa e você vê que tem gente que está lá embaixo na camada social e tem uma vida espiritual e honesta muito grande. Então eu não sei, essa coisa foi o que motivou na vida inteirinha, até hoje. Por exemplo, como eu falei pra você eu sou diretor da Associação Evangélica Beneficente desde 1972. A nossa missão é atender, nós temos 1.700 crianças nas creches nossas hoje e eu, mês passado, terminei estudo de tratamento de piolho nas crianças da creche e fiz remédio com tratamentos, nós temos essa creche e temos abrigo de velhos lá em Itapecerica da Serra. Tem essa entidade que eu falei pra você, a Unes, União Nacional Evangélica da Saúde onde a missão da gente é elevar o lado espiritual do paciente. Eu acho que não adianta você tratar o corpo e mandar ele com saúde para o inferno. Então eu acho que esse lado, não sou assim porque quero ser, por decisão minha, é porque Deus me fez assim e eu procuro ser obediente a ele. E procuro ser leal. Muitas vezes em viagem e em congressos quantas vezes eu fui convidado por colegas: “Olha, vamos fazer um programinha aí, tem umas menininhas.” Eu falei: “Não, aquilo que eu quero que a minha mulher faça é aquilo que eu quero dar pra ela.” Pode ser até meio cafona hoje, né, Carmem? Mas eu sou, é a minha maneira de pensar, não como vantagem, não conto isso como benefício, como coisa nenhuma, conto porque sou assim, e me sinto feliz assim e isso é que é importante. Eu me lembro de um dia em que eu estava vindo aqui pra Johnson e o rádio estava dizendo assim: “Acabou de morrer hoje o senhor Sebastião Camargo”. Eu até me lembrei dele do tempo em que eu trabalhava lá em Pirapozinho, né? Aí o repórter, o radialista lá, disse: “O senhor Sebastião Camargo morreu, deixou uma fortuna avaliada em 3,6 milhões de reais.” E esse cara disse assim: “Nenhum dos meus ouvintes avalia o que é 3,6 milhões de reais.” E eu como também não imagino perguntei para o amigo meu, matemático, pra ele me dar uma noção do que é 3,6 milhões de reais. Então ele disse: “O senhor Sebastião Camargo chegasse e dissesse: hoje eu não vou ganhar mais nenhum tostão, vou pegar esses 3,6 milhões de reais e gastar. Só gastar!” E o matemático disse se ele fosse gastar mil dólares por minuto ele gastaria 403 anos pra gastar o dinheiro. Então dá pra você muitas vezes... porque uma coisa é verdade, André, o saco da ambição não enche, viu? Então você tem gente aí que quer ter fortunas muito grandes e se esquece, muitas vezes, de uma medicina diferente pra atender o pobre, atender o necessitado que precisa. Não que não atenda, o rico doente é um paciente do mesmo jeito que o outro, precisa ser tratado tanto quanto o outro, mas a atenção do profissional médico é que tem que ser. E nessas condições o laboratório tem que dar condições não só ao profissional que está aqui no seu consultório, mas aquele que está lá na Rocinha, no fim do mundo, numa casa de madeira morando num lugar lá onde ele tem que, muitas vezes, o propagandista vai lá levar uma informação que muitas vezes ele não tem acesso e muitas vezes não tem nem recursos, ele está começando a vida profissional. Então eu acho que é importante o laboratório formar o propagandista pra trabalhar aqui no asfalto, mas pra trabalhar lá no fim do mundo, no mato também. Por isso que a gente, quando a gente faz essas reuniões, tanto vem o propagandista que atende os médicos da Faria Lima ou da Itapeva como vem aquele que trabalha lá no sertão mato-grossense ou do sertão nordestino vem aqui do mesmo jeito. E essa coisa que faz muitas vezes a empresa ser gente, né?

 

P/1 - Bom. Doutor Tércio eu agradeço a sua disponibilidade de ficar a tarde toda aqui com a gente e do nosso lado está encerrado.

 

R - Nossa, fazia tempo que eu não dava uma checada na minha vida assim como eu fiz agora. Porque a vida a gente vai tocando, tocando, tocando muitas vezes não sobra tempo pra fazer isso, né, André? Mas foi bom.

 

P/1 - Muito obrigado então.

 

R - E ficamos para terça-feira, Carmem?

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