Busca avançada



Criar

História

O criador de mundos

História de: Irani Carlos Varella
Autor:
Publicado em: 04/03/2015

Sinopse

Irani Varella nos conta sua infância em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, cidade onde sua avó lhe ensinou a tocar piano e outros instrumentos, num ambiente familiar amoroso mas também um tanto rígido. O depoente nos fala sobre a história de sua família, e de como a música italiana e a comida portuguesa eram personagens cativos do dia-a-dia de sua casa. Nos conta sobre sua faculdade de engenharia e sua entrada na Petrobras, em 1977. A partir daí, vemos sua trajetória profissional, que o levou a Vitória, Macaé e Rio de Janeiro, onde se fixou com sua família nos anos 90. Irani passou por diversos trabalhos embarcados, pelo Centro de Pesquisas da Petrobrás, pela Lubrax, o Setor de Segurança e Meio-Ambiente e pela diretoria da empresa. Irani finaliza falando sobre seus filhos e sua mulher, além de agradecer a participação no projeto Memória dos Trabalhadores.

Tags

História completa

Meu nome é Irani Carlos Varella. Nasci em 16 de janeiro de 1951, em Santa Maria, Rio Grande do Sul.

FAMÍLIA Meu pai é Marcelino Varella, e minha mãe, Hélia Mussoi Varella. Origem do pai, portuguesa, e origem da mãe, italiana. O próprio nome Mussoi é de origem italiana. O pai do meu pai, eu não lembro, porque ele faleceu quando eu tinha um ano de idade. A minha avó por parte de pai, conheci já com bastante idade, ela era cega, tinha uma catarata que naquela época não tinha cirurgia, então conheci bastante, mas lembro dela sempre muito tolerante, muito consolada com aquela situação, mas muito tranqüila. O meu avô e a minha avó por parte de mãe, conheci os dois, eram separados, ela morava em Santa Maria, e meu avô morava em Porto Alegre, mas conheci os dois sim. O meu avô por parte de pai era João Luciano Varella, ele trabalhava na Rede Ferroviária Federal, na época, se não me engano, era ferrovia do Rio Grande do Sul. Não era federalizada ainda, era do Rio Grande do Sul, era do Estado, e ele trabalhava na área de manutenção da ferrovia e o meu avô por parte de mãe tinha uma fábrica de móveis, mas quando o conheci já estava aposentado, já tinha vendido a fábrica. Uma fábrica bastante grande na cidade, na época que existia, uma fábrica de móveis, de esquadrias, enfim era bastante. O nome da fábrica, eu acho que era... Eu tenho um livro em casa que tem esse nome, que é Mussoi, hã. Acho que é Mussoi mesmo, viu? Ele era filho de imigrante, filho de imigrante. Ele trabalhava em Santa Maria mesmo, depois que ele foi para Porto Alegre. Nós somos quatro irmãos, todos homens, a mãe é a única mulher em casa, e o pai ferroviário, eletricista da viação férrea. Minha mãe professora de música, tinha um conservatório de música, que chegou a ser muito grande, ela iniciou lecionando em casa e depois chegou a ter um conservatório com mais de 200 alunos. Era um conservatório de piano, acordeon, violão, balé, tinha vários instrumentos.

AO SOM DO PIANO Na verdade meu pai construiu uma casa de dois andares. Uma casa que é muito interessante a história. Quando o meu irmão tinha um ano de idade, o mais velho - ele é oito anos mais velho que eu, quer dizer, eu não era nascido. Choveu muito na casa que eles tinham e passou, tinha muita goteira, antigamente era uma casa muito pequena, era uma sala, cozinha e um banheiro, e nessa chuva meu pai fez uma promessa de construir uma casa. E começou a partir da semana seguinte a construir uma casa. Ele demorou 15 anos construindo essa casa e construiu sozinho, minha mãe ajudou ele a construir. E eram dois andares, e eu lembro que na minha infância o conservatório de música era na parte de baixo e a parte de cima, então a gente morava e não raras vezes eu acordava com as músicas, tocando o piano: “Tam, tam, tam, tam, tam, tam, tam, tam.”

APRENDENDO A TOCAR Interessante, eu aprendi de tanto ouvir. Comecei tentando acordeon, depois piano, depois violino, depois apareceu uma orquestra sinfônica na minha cidade, de que minha mãe participou, e cheguei a ter algumas aulas de violoncelo, mas o que casou realmente comigo foi o violão. Eu até hoje gosto de violão, toco violão desde os anos de idade, esse é um hobby assim que eu tenho.

POSTURAS E COBRANÇAS Minha casa era um ambiente de música, mas tem um aspecto importante na relação entre meu pai e minha mãe, talvez se tenha aí um exemplo quase que didático do masculino e feminino. Minha mãe professora de música, digamos, uma certa postura na maneira de ser, muito guerreira. Minha mãe era muito guerreira, realmente era muito forte na maneira de ser, na busca das coisas, mas a relação de música naquela época se dava principalmente com a classe mais alta; por outro lado, o meu pai era da viação férrea, era eletricista da viação férrea, então se tinha aí efetivamente um diálogo que não era muito fácil não. Não era um diálogo que transitava além do operacional, porque pela forma, pela linha e pelo endereço que um se dava para o trabalho e pela forma que o outro se dava para o trabalho. Isso influenciou tremendamente na minha educação. A minha mãe exigia um posicionamento que tivesse notas extremamente altas, sempre. Para se ter uma idéia, menos de oito era uma reclamação muito grande, então nesse aspecto, a cobrança dela era muito grande, e meu pai não tinha essa cobrança, era mais uma cobrança de ajudar no que ele estava fazendo, era mais... Então realmente era esse feminino/masculino mesmo. Você vê com muita força essa questão, era quase que didática, esse é o homem, aquela é a mulher, essa que é interessante. Então isso foi muito forte, porque a mãe cobrou muito sempre essa questão da escola, cobrou para todos, mas três se formaram, um depois fez o concurso do Banco do Brasil e foi mal na escola, o mais velho, no início; depois fez concurso no Banco do Brasil e aí se aposentou no Banco do Brasil, fez faculdade depois, mais tarde. Mas havia uma cobrança muito grande, sim. E a postura do pai, uma postura mais de fazer realmente, do estar colaborando ou procurar ter o filho colaborando no trabalho, ou os filhos.

DO PRIMÁRIO À FACULDADE Eu sempre freqüentei escolas públicas, tinha o colégio primário - colégio Cícero Barreto, ficava na esquina da minha casa, até hoje tem o colégio. Depois fui para o Manuel Ribas, Maneco, a parte depois do exame de admissão, o ginásio e o científico e a faculdade também em Santa Maria. Eu tive muita sorte, porque na realidade, sendo uma família de classe média, eu diria média média, média baixa, eu nunca precisei sair da cidade para estudar e me formar, sempre teve ali. Então a Universidade Federal de Santa Maria, foi sem dúvida nenhuma, extremamente importante, porque eu não teria condições de estudar em outro local.

SANTA MARIA Santa Maria é uma cidade que tem três forças na parte econômica e na tradição dela. Uma é a área militar. É a cidade do Brasil que tem o maior número de unidades do Exército ou unidades militares, a maior concentração de força no Sul do país. A outra área que tem é a universidade, que apesar de ser algo a partir da década de 60, criou uma força muito grande por ser interior e regional, então teve uma força muito grande. Uma outra linha que eu diria que sustenta fortemente a cidade - e aí entram outras questões, pessoas que moram lá, pessoas de fora, de outras cidades que moram em Santa Maria, isso desde o início da década de 60 já se tinha isso. E a terceira força da cidade é ferrovia. Santa Maria era o maior entroncamento ferroviário do Rio Grande do Sul, todos os trens, porque era o centro do Estado, então os trens passavam. Indo para a fronteira ou voltando, passavam em Santa Maria. Então essas três áreas, foram as áreas que tornaram a cidade muito forte. Você percebe algumas questões importantes nesse processo, eu lembro quando na infância e até a década de 70, quando eu saí da cidade, ela tinha muitas casas, muitas lojas tradicionais; ao longo do tempo, tanto a área militar quanto a área universitária quanto a ferroviária tiveram uma decadência salarial, reduziu o transporte ferroviário, reduziu a massa salarial dos ferroviários, e isso fez com que a cidade tenha - você percebe claramente - uma certa crise, e algumas lojas, algumas atividades econômicas que perderam a sua força. Evidentemente outras tantas cresceram, você tem uma cidade que tem uma universidade muito forte, então cresceram outras coisas, mas você percebe claramente que houve uma redução de algumas atividades, porque houve a redução de salário na área militar, redução da atividade ferroviária e redução salarial também na área universitária, em que foi bastante clara, de poder aquisitivo. Então o meu pai vivia fortemente a questão de ferrovias, eu diria, a vizinhança talvez, 30, 40% das pessoas trabalhavam relacionadas com a viação férrea. Apesar que na cidade tem uma vila específica para ferroviários, que foi construída perto de uma cooperativa, nós morávamos numa outra área, próximo, mas uma outra área, mas com uma concentração muito grande de pessoas que trabalhavam na viação férrea.

FAMÍLIA O meu pai construiu uma... O meu avô, pai da minha mãe, ele tinha, além da fábrica de esquadrias, ele fazia algumas obras na cidade. O meu pai construiu a minha casa, durante 15 anos construindo a casa, construiu uma casa de um cunhado dele e de uma irmã, casado com uma irmã dele, e construiu uma casa de uma irmã - não citei isso na história, mas meu pai tem duas filhas do primeiro casamento. Meu pai casou com 18 anos, viuvou com 21, nesse período ele teve duas filhas e construiu uma casa para uma das filhas também. Então o meu pai tinha muito da construção, ele estava sempre quebrando alguma coisa lá em casa, quebrando, construindo, reformando, e tinha muita arte também para fazer essas coisas. Tinha sensibilidade para fazer coisas bonitas, fez um aquário em casa, mas muito bonito realmente, todo de pedra, enfim, ele tinha uma sensibilidade escondida no dia-a-dia dele, mas que aparecia nas obras dele, e a minha mãe uma cobrança muito grande na questão da escola, assiduidade, as notas, enfim eu acho que essas duas coisas casaram. Esse lado dele de construção, esse lado do meu avô de construção, e essa obrigação de ter que me formar. Minha mãe dizia que eu podia escolher o que quisesse. Tinha um irmão meu que queria ser jogador de futebol, o mais novo; ela dizia: “Podia ser o que quisesse, depois de formado. Pode ser o que você quiser, mas primeiro se forma”. Tinha muito disso, essa intolerância com o não ir bem na escola. Minha mãe estudou piano até... Ela se formou em piano e estudou acordeon, mas o violino, as outras áreas ela foi estudando sozinha. Tem um irmão meu que se formou em veterinária, outro se formou em engenharia mecânica, e o mais velho, que parou de estudar numa época, fez o concurso do Banco do Brasil e aí antes disso já tinha parado de estudar, mas entrou no banco e ficou trabalhando lá. Ele se formou em direito depois, já no banco ele fez o concurso e se formou, talvez a culpa tenha ficado por muitos anos aí.

FUTEBOL O futebol era presente, mas era presente na rua, ou na calçada, ou na garagem de casa, que se jogava. Minha casa tinha uma garagem comprida assim na lateral, devia ter... Cabiam três carros, devia ter uns oito, nove metros de comprimento assim para o fundo, então nós jogávamos muita bola, com bola de pano, bola de borracha. Jogava na rua, de sapato ou às vezes descalço, que era uma loucura, mas jogava-se, enfim, raramente se jogava num campo de futebol ou numa quadra de futebol de salão, mas sem dúvida nenhuma o futebol era o maior lazer na infância e na adolescência, aquela coisa de formar times de várzea - enfim, nós tínhamos muito disso. Na minha casa teve, nós tínhamos uns primos e criamos um time de futebol de salão, Versalhes.

MÚSICA ITALIANA, COMIDA PORTUGUESA Essa coisa da origem italiana não aparece na religiosidade, não. A família, eu citei ali que sou católico, mas eu diria que é quase automática essa resposta, ela não tem conteúdo, não tem sustentação, então na parte de religiosidade, não. Na parte de lazer, principalmente na parte de música, do gostar, do cantar, de estar ligado à parte musical italiana, acho que isso é o mais forte. Um pouco a parte de comida, mas nós tivemos muita influência, a minha mãe era péssima de cozinha, então tinha mais da parte da família do pai, churrascos, enfim, era mais nessa linha, não tinha uma linha e outras, eu lembro que fazia outras coisas portuguesas. Eu lembro de algumas coisas, bom, arroz-doce nem se fala, tem um outro que não lembro o nome, é feito com uma massa bem fininha, muito fina, doce também, feito tipo um macarrão bem fininho, eu não recordo desses nomes, quiabo sem dúvida nenhuma. Tinha um doce, tipo um macarrão, ele fica quase como um bolo aquilo, mas é um macarrão bem fino. Conversando com a minha sogra, de vez em quando ela me dá, ela vai me dando todos os nomes desses doces. Não são fios de ovos, não. Quiabo era outra coisa muito comum lá em casa. É muito comum, bastante, então em questão de alimentação era mais a linha portuguesa que a linha italiana.

POP E TRADICIONAL A música que eu ouvia na adolescência e juventude tinha muito de, estamos falando aí de 60 e alguma coisa. 64, 65, Beatles, Roberto Carlos, Jovem Guarda, era o que mais se ouvia. Alguma coisa de Chico Buarque, Gilberto Gil, enfim, aquela época dos festivais, tinha bastante, era o que mais se ouvia, nessa linha. Até hoje as pessoas acham estranho eu saber letras de músicas muito antigas, tipo Lupicínio Rodrigues, músicas mesmo antes de Lupicínio Rodrigues. Você tem tipo Carinhoso, Matriz e filial e outras músicas que tem, muito antigas, aí vem da parte da mãe, da família, muito de cantar junto. Cantava-se um pouco de músicas folclóricas.

GAÚCHO Você está me lembrando uma coisa, eu participei quando eu tinha 11, 12 anos de idade, eu participava do Centro de Tradições Gaúchas do colégio. Está me ocorrendo agora, eu nem lembrava. Os tais CTGs. E tinha algumas coisas do interior, apesar de morar na cidade, algumas coisas do interior, e eu lembro nesse período eu gostava de andar com a bota, bombacha, o tirador - aquele equipamento de couro lateral -, o chapéu, o lenço e a gente... Tenho foto disso sim, então a gente dançava no colégio, tinha o grupo do Centro de Tradições Gaúchas. E um fato curioso que eu lembro nesse período, eu tinha uns 11 anos, e tinha um amigo nosso que tinha um cavalo pequeno, um petiço, que eles criavam ali perto da casa, num terreno do lado da casa, e nós fomos andar. Eu lembro que pela primeira vez eu botei espora na minha vida. Botei a bota, espora, e estava todo puxado como diziam, todo uniformizado, e subi no cavalo. Cada um dava uma volta na rua andando de cavalo, no petiço. E aí eu subi e imediatamente que eu subi, pela primeira vez usando espora, eu encostei no animal, quando eu encostei evidentemente ele saltou para a frente - natural que ele fizesse aquilo -, ao saltar eu imediatamente segurei as pernas, apertei as pernas, aí apertou mais a espora, o animal começou a correr que não parava mais. O arreio, aquela parte, a cincha que pega embaixo, começou a soltar, e foi indo e foi indo e uma pessoa que estava na rua me gritou para que eu abrisse as pernas, para tirar a espora. Uma pessoa que já tinha mais... Aí eu abri, mas quando eu abri, como eu estava aqui com a rédea muito fina e puxada, o freio puxado, ele imediatamente parou também. Foi ele parar e eu fui pela frente. Eu lembro que eu caí no chão, bati com rosto aqui, rasguei a camisa, fiquei todo, mas isso foi muito forte, essa questão. Eu lembro que eu cheguei em casa, e meu pai disse assim: “O que houve?” Eu: “Machuquei aí.” “É, fica usando esse negócio de espora, machucando o animal, ele machucou você.”

ENGENHARIA Bom, quando se deu a minha opção pela engenharia? A decisão pela engenharia veio, a gota d’água veio quando, eu lembro numa sala de aula, eu acho que eu estava no segundo ou terceiro ano, segundo ano ginasial, com 15 anos de idade. Eu lembro muito claro, a professora começou a falar e dizer que achava difícil que alguém de nós tivesse se decidido por alguma faculdade. E aí eu levantei a mão: “Não, eu já decidi.” Interessante que eu falei isso, e ela perguntou o que era e eu disse que era engenharia civil. E ficou essa coisa, então me parece que foi a gota d’ água essa explicitação pela primeira vez, quando eu tinha 14/15 anos de idade. Então ali eu tomei a decisão, e a partir dali assumi claramente, percebi que eu estava assumindo que eu ia fazer engenharia. Então fui sempre, o tempo todo buscando a engenharia. Eu fiz vestibular em 1970 e alguns pontos, coisas curiosas desse período - o primeiro ano de faculdade eu fiz o NPOR, que é o Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva, eu entrei foi durante o ano de 70, e era terrível, porque de manhã eu saía de casa em torno de seis e meia; sete horas estava no quartel, ficava até meio-dia, corria em casa, tomava um banho, trocava de roupa, pegava um ônibus e chegava atrasado normalmente na escola. Não tinha como chegar cedo, e chegava em torno de duas e meia da tarde. A aula já tinha começado à uma e meia, 15 para as duas, e à noite eu tinha matéria para estudar da aula de manhã do Exército e da aula à tarde da faculdade, então eu estudava todos os dias. Praticamente era da manhã à noite, estudando na sala de aula e à noite estudando e caindo de sono. A partir de oito, nove horas eu já estava caindo de sono, porque eu começava com educação física e terminava com aula o dia todo. Então o primeiro ano de faculdade foi um ano muito pesado, muito forte, eu lembro que eu dispensei duas matérias, física e cálculo. Eu lembro que eu dispensei para fazer no segundo ano duas matérias a mais, nove matérias em vez de sete matérias que se tinha. Nesse período então o que eu lembro que a força, a intensidade do trabalho, e nos fins de semana ainda ficava de plantão no quartel, quer dizer você ficava no quartel o final de semana, então foi um ano bastante forte, não podendo, tendo prova nas duas áreas, tanto no quartel como na faculdade e fazendo um esforço muito grande. O segundo ano também foi forte, porque no segundo ano tive já duas matérias a mais que eu tinha dispensado no primeiro para não ficar, para reduzir a carga do primeiro ano.

TRABALHO E ESTUDO No terceiro ano foi muito interessante: eu saí de Santa Maria e fui para Porto Alegre três meses. Quando eu voltei, a minha mãe tinha trocado de casa. Ela alugou a casa em que nós morávamos, a parte de baixo; meu pai já tinha falecido. Meu pai faleceu em 71, e isso foi em 73. Era uma casa grande, ela alugou, e quando eu voltei eu já voltei e cheguei na casa anterior só que não tinha ninguém naquela casa, ela estava na outra casa. Foi muito forte isso também, por mil razões, dificuldades que ela teve. Ela alugou uma casa por um valor e alugou um outro apartamento menor por outro valor, para poder equilibrar as contas em casa, e quando eu cheguei me surpreendeu aquilo. Me surpreendeu porque nós não tivemos contato. Não tínhamos contato porque não se tinha telefone também. Você pensa, na infância e na adolescência, ter telefone era para quem tivesse já um nível social em Santa Maria, um nível social bom, ou alto. E me pegou de surpresa aquilo, e eu lembro que eu disse: “Eu vou começar a trabalhar”. E saí e comecei. Efetivamente busquei um amigo meu e comecei a trabalhar no terceiro ano, então do terceiro ano até o quinto ano foi também muito forte a questão, trabalhava e estudava, as duas coisas.

SAMBA NA SALA DE AULA Na década de 70 lá em Santa Maria, tinha uma efervescência cultural sim. Eu não participava, na realidade participei quando estava ainda no ginasial, então nós estamos falando em quando eu estava com 15, 16 anos de idade, mas na faculdade não houve, não tinha nem tempo, não tinha a menor chance de participar daquela quantidade de coisas que se tinha. A participação era muito, algumas discussões evidentemente, lógico não havia como você não participar de algumas discussões, ir em algum fórum e alguns pontos levantados. Eu lembro, quando a gente estava no terceiro, quarto ano da engenharia, aí eu lembro, que nós, aí nós já tínhamos também, a partir do terceiro ano da engenharia nós criamos uma Charanga da Engenharia, que se tornou um conjunto depois, e eu tocava violão e cantava nesse conjunto. E eu lembro que nós passamos uma festa toda a noite tocando e cantando e sábado de manhã tinha aula, então nós fizemos o seguinte: eu tinha uma moto - que eu já tinha comprado uma moto - e aí eu lembro que eu saí da festa, fui para casa, tomamos um banho, troquei de roupa e fui para faculdade, não tinha muito que fazer. E aí o pessoal, quando eu cheguei na faculdade, na sala de aula, alguns não tinham ido para casa e tinham levado todos os instrumentos, então nós ficamos no fundo da sala e eu lembro que o professor entrou e nós estávamos tocando um samba. O professor entrou, parou, deu “bom dia!” Todo mundo continuou tocando, cantando. Eu não lembro qual era o samba, não. Nós tocávamos muita coisa de Noel Rosa, de Lupicínio Rodrigues, música popular brasileira de uma maneira geral. E aí ele deu “Bom dia”. Absolutamente a música continuou e ele saiu. Quando ele saiu, nós terminamos a música e paramos, e o pessoal disse: “Olha, o professor entrou e saiu.” E quando voltou, voltou já com o decano, o engenheiro Aita, e eu lembro que o decano, uma das menções que ele levantou foi que houvesse naquele gesto um gesto político nosso, uma rebeldia, um posicionamento político, enfim uma desobediência. Uma forma de contestação. Então foi interessante, porque absolutamente era, foi uma exteriorização do momento, nós saímos de uma festa, chegamos o grupo, era um grupo de estudantes e continuou tocando. Mas eu lembro que isso deu muito tempo de investigação, de discussão.

GANHANDO DINHEIRO A primeira experiência trabalhando foi com 17, 18 anos de idade em que... Tem uma prima minha que mora em Porto Alegre, e todos os anos desde os 12, 13 anos de idade eu pegava o trem no início das férias - naquela época tinha a questão, não sei se tem hoje ainda, eliminar todas as matérias e não fazer exame no final do ano -, então eu ia bem na escola, terminei a escola e ia para Porto Alegre, ia para casa da Teresa. Essa prima minha, que tem uma relação quase de irmã, de mãe. A Teresa é muito alegre até hoje, então eu ia para lá, e a gente ficava tocando violão, tomando caipirinha, conversando, enfim, e o marido da Teresa, o Ciro, ele trabalhava na Kodak e tinha sido demitido alguns meses antes, e ele batia, fazia fotografias em formaturas da Cofap. Formaturas para mecânicos, doutores mecânicos, alguma coisa assim que tinha o título do curso que a Cofap dava para mecânicos. Quem era o gerente ou era representante comercial desta área da Cofap, em Porto Alegre, era um primo meu, irmão da Teresa, o Nei. Então eu ia para casa da Teresa, ficava lá, e nesse período então em que eles estavam com dificuldade, quando eu tinha 17, 18 anos, ele batia essas fotografias, e o que eu fazia era pegar essas fotografias e visitar os endereços das pessoas, que eram os endereços de trabalho, que eram as oficinas, e vender aquela fotografia. Então interessante, ele me pagava, na época eu não me lembro se era um percentual sobre as vendas, 15, 20% alguma coisa assim, sobre as vendas daquelas fotografias, e eu ia em cada oficina e conversava com as pessoas, enfim, e vendia aquelas fotografias. O interessante disso tudo é que tem o aspecto alegre, uma certa tranqüilidade, mas que a mim me assustava um pouco dada a formação que eu tive. Muitas vezes eu chegava com o dinheiro no final da tarde para que a Teresa comprasse o jantar, era muito interessante essa expectativa da chegada. Mas essa foi a primeira vez que eu assumi efetivamente um trabalho remunerado.

CÁLCULO ESTRUTURAL Como estudante de engenharia eu fiz, a partir do terceiro ano, quando eu assumi, quando teve aquela troca da casa pelo apartamento, naquele momento eu saí procurando emprego e saí batendo na porta de vários escritórios de pessoas que eu conhecia já, amigos meus já formados, e comecei a trabalhar com um deles. Então eu trabalhava como... Fazia projeto, fazia o cálculo estrutural e fazia projetos elétricos de obras, inclusive de prédios, de prédios até quatro andares, mais que isso não, na época. Eu fazia então casas, prédios - eu fazia todo o cálculo estrutural e fiz ao longo do terceiro até o quinto ano da engenharia.

CONSTRUÇÃO DE ESTRADAS Trabalhei também na Chapecó Avícola, mas antes da Chapecó teve a Triângulo. A Triângulo foi o seguinte: eu também fui a Porto Alegre. Me formei e resolvi que eu iria buscar um emprego. Fui convidado para ficar no escritório em que eu trabalhava, do meu amigo Gelson, e aí resolvi que não iria ficar na cidade e fui buscar um emprego em Porto Alegre. E nas diversas entrevistas, batendo na porta das empresas, a Triângulo, eu lembro que o superintendente que estava recrutando, ele fazendo a seleção, perguntou se eu teria condições de assumir uma obra de 36 quilômetros de estrada, e eu falei: “Não, não tenho, estou saindo agora da faculdade”. E quando ele me informou que eu estava sendo admitido ele me disse exatamente que todos os outros tinham dito que tinham condições de assumir a obra, e como a obra era muito grande e ele conhecia, com uma experiência muito grande, ele disse que percebeu que o único que tinha, poderia ter condições, porque na realidade nenhum tinha condições, porque recém-formados a grande maioria, era eu. Trabalhei na Triângulo durante sete meses praticamente, sete meses em estradas perto da cidade, com chuva, barro, acordando às quatro e meia da manhã, começando às cinco e meia da manhã a obra, salário atrasado, que era muito comum naquela época, salários atrasados, enfim, devendo para empresa, devendo para fornecedor, tendo que trabalhar. Foi uma experiência no mínimo muito intensa.

CHAPECÓ Aí a Triângulo foi o seguinte, ela começou atrasar o meu salário, atrasou quatro meses o salário, eu disse: “Não dá mais”. Realmente não há condições, quer dizer, o meu e de outras tantas pessoas que trabalhavam. Você começa a perder, você absolutamente não tem um controle, não tem nem diálogo com as pessoas. E aí eu lembro que eu saí do Rio Grande do Sul e tive que ir a Belo Horizonte para entregar a obra, porque absolutamente o pessoal também não ia na obra e eu fui a Belo Horizonte, entreguei a obra e voltei para o Sul e aí fui procurar um novo trabalho. Houve uma oferta, e eu comecei a fazer uma seleção para lecionar na Universidade Federal de Santa Maria, na cadeira de resistência dos materiais, mas nesta busca de emprego um colega meu perguntou se eu não gostaria de trabalhar em Chapecó, em Santa Catarina, que a Chapecó Avícola tinha tomado um grande empréstimo do Banco Mundial e estava investindo em construções rurais para o crescimento da Chapecó. E eu lembro que a universidade começou a me chamar pelo rádio para eu assumir - isso aconteceu durante um mês, depois eu fui lá e disse que não ia assumir a faculdade e pegaram outra pessoa. Trabalhei na Chapecó de outubro de 75 até maio de 76. A Chapecó é interessante, eu fazia a orientação técnica das obras da Chapecó - e aí tinha galpões industriais, que ela estava construindo, silos ela fazia também e galinheiros e chiqueiros. É interessante, porque eram coisas de alta tecnologia, mas eram galinheiros e chiqueiros, não tinha dúvida. E o interessante é que eu sempre saía com o carro para visitar as obras e voltava para casa, e até hoje as botas tinham que ficar do lado de fora da casa.

CASAMENTO Na época eu já era casado. Eu casei em 3 de janeiro de 76. O nome da minha esposa é Elisabete Prestes Varella. Nós casamos em Santa Maria. Eu costumo dizer que a Bete é uma gaúcha mal criada, porque ela nasceu no Rio Grande do Sul, nasceu em Uruguaiana e com dois anos de idade, o pai dela, militar, ela ficou um tempo no Rio de Janeiro, depois para Belém, depois Brasília, depois com 18 anos voltou para o Rio Grande do Sul e foi morar em Itaqui, na fronteira do Estado. Itaqui, fronteira com Alviar, Argentina, e aí fez vestibular e entrou na faculdade de comunicação. Bom, e o pai dela, logo depois que nós nos conhecemos, começou uma ameaça de transferência do pai dela para Brasília, aquele negócio. Estava havia dois anos no comando do quartel em Itaqui, então: “Vai ser transferido para Brasília, vai ser transferido para Brasília.” E aí ela nessa discussão toda, um dia a gente tomando chope, foi também da mesma maneira que eu escolhi o estalo da profissão, eu disse: “Bom, tem uma maneira de você não ir para Brasília?” “Qual?” “Nós casando.” “Então vamos casar.” Então resolvemos casar e começamos então a morar em Chapecó.

O ESSENCIAL A casa tinha era geladeira, uma mesa na copa, um armário de cozinha, dois baús na sala, um tapete que minha mãe me deu e um colchão, que tinha que ter um colchão no quarto. Era só o que nós tínhamos quando nos casamos. Fogão e as botas sujas do lado de fora.

EDUCAÇÃO Eu fico oito meses em Chapecó, porque depois eu entrei para uma empresa, rápido, num tempo muito curto, mas eu fico oito meses em Chapecó. Fazemos o vestibular de administração, eu e ela. Passamos.Um outro detalhe também interessante, porque quando deu, eu falando da classificação das pessoas, a gente estava na faculdade em Chapecó, fomos até o campus para ouvir o resultado, e o resultado era anunciado no microfone. E aí foi anunciado, eu acho que era: “13º lugar, Irani Carlos Varella.” Eu disse: “Então vamos embora, que um engenheiro passou...” Aí: “Sexto lugar: Elisabete Prestes Varella.” Fizemos um tempo curto da faculdade, mas era muito difícil também e aí fomos, ficamos até... Bom, um ponto importante, passeios de final de semana, era pegar o carro e dar uma rodada na cidade. Um frio no inverno, que era uma loucura em Chapecó.

BENTO GONÇALVES E ficamos em Chapecó até junho de 76, nesse período teve uma discussão muito grande também com um dos diretores da Chapecó Avícola, enfim ele tinha tomado uma posição, eu tomei outra posição e aí saí. Eu saí para casa e foi muito interessante, que no momento que eu estava indo para casa com o carro, veio um outro carro atrás buzinando, começou a buzinar, aí eu parei, que eu conhecia a pessoa. Era uma pessoa da Lima Construções, uma empresa, e ele desceu e disse: “Você não quer trabalhar conosco?” Eu estava saindo, naquele momento eu tinha pedido demissão, naquele instante, e eu não sabia para onde eu ia. Ele falou “Você não quer trabalhar conosco”? Eu disse: “Quero. Quero trabalhar com vocês.” E aí discutimos ali a questão do salário, ele nem sabia que eu tinha saído ainda, e eu mudei para Lima Construções. Eu saí de Chapecó e fui para Bento Gonçalves. Nós ficamos indo e trabalhando muito durante noites, preparando licitações, isso quase que de imediato, eu fui demitido num dia, três dias depois eu estava indo para Bento Gonçalves, e essas viagens e a estadia lá nos cansavam muito, pelo frio; a Bete estava grávida da Carolina, e muito frio e muito cansado, e ela num hotel, e eu fora no trabalho, virando noites. E naquele movimento o pai dela nos ligou, perguntando se eu queria trabalhar em Brasília - que ele já estava em Brasília -, e eu aceitei. Então eu trabalhei um mês só na Lima Construções, pedi demissão e fui para Brasília, para a Companhia Urbanizadora da nova Capital - Novacap.

ESTUDANDO PARA A PETROBRAS Eu cheguei a Brasília em junho. Fiquei, junho, julho, agosto, setembro e início de outubro. Fiquei praticamente quatro meses em Brasília. Nesse período nasceu a Carolina. A Carolina nasceu no dia 29 de agosto, e eu fiz o concurso Petrobras, já saía de casa, porque teve uma questão aí - o trabalho não estava me empolgando, não era exatamente o que eu queria, fiscalização de obras não estava me empolgando, não, e aí apareceu o concurso Petrobras, e aí comecei a estudar. Eu ia para a biblioteca da universidade e ficava estudando para fazer o concurso da Petrobras.

ELITE PETROLEIRA Ser empregado da Petrobras naquela época, profissionalmente, significava sem dúvida nenhuma uma certa elite. Era uma elite. A elite no sentido de que era efetivamente uma ambição, era uma meta, era muito importante. Trabalhar na Petrobras dava uma imagem de excelência, não tenha dúvida alguma. Dava uma imagem de excelência, uma imagem de um conjunto de um trabalho. A questão salarial também era uma questão forte, tinha uma imagem muito forte, era algo que era considerado um sonho. Um sonho, você trabalhar na Petrobras era muito importante.

POR UM TRIZ Eu lembro, lembro do concurso, fiz o concurso. O concurso foi em julho de 1976 - e aí vem uma outra questão interessante também, esses pontos na vida. Eu fiz o concurso e me chamaram para fazer o exame médico, eu fui aos laboratórios a que tinha que ir, fiz os exames que tinha que fazer. Eu lembro que houve algum problema de comunicação, que eu fui num dos laboratórios, peguei meu exame e levei para casa. E eu lembro que a obra que eu fiscalizava, eu passava na frente do laboratório - que o laboratório ficava num hospital -, passava na frente dele todas as manhãs. Passava de manhã para ir para obra e eu sempre estava com o envelope com o resultado do exame no porta-luvas, peguei no laboratório e tinha que entregar no médico, na mesma área. Aí eu passava e não entregava, passava e não entregava, até que um dia, eu estou indo, apesar de atrasado - aquela história de estar correndo -, eu resolvi entrar. Entrei com o carro, entrei, cheguei, falei com a secretária do médico, ela disse: “Ele quer falar com o senhor urgente. Ele está procurando”. Foi a primeira vez que eu vi um médico sair da sala, ele estava com um paciente, ele saiu para me atender, e aí ele disse: “Poxa eu estou atrás de você e atrás desse exame há um tempão, a Petrobras está me cobrando, e hoje é o último dia para eu mandar”. Ele ia mandar isso de volta para Petrobras. Pegou o exame e olhou e disse: “Olha, está tudo bem. Você toma esse remédio aqui e eu vou dar você como apto para Petrobras.” Logo depois me chamaram. Isto é, se eu não tivesse entrado naquele momento, eu não teria entrado na Petrobras. Aquele exame ficaria ali e, enfim, aí naquele dia ele disse: “Ó, está apto para Petrobras”. Quando foi em outubro, eu só preciso lembrar... 18 de outubro de 76, foi uma segunda-feira, a quinta-feira era um feriado, e na terça-feira de manhã o pessoal me ligou, o pessoal do escritório de Brasília me ligou e disse: “Irani?” Eu disse: “É”. “Você quer ver o que é que a baiana tem?” Eu não entendi bem a pergunta. Eu disse: “Como assim?” Ele disse: “Não, eu estou brincando, aqui é da Petrobras e tal e a gente está dizendo que você foi aprovado no concurso e tem que se apresentar segunda-feira, dia 18. Você tem que se apresentar em Salvador.” Eu disse: “Está bom, hoje é dia 12, então eu tenho aí um mês e pouco para me arrumar.” Ele disse: “Não, dia 18 agora, a próxima segunda feira”. E eu: “Rapaz, e a carteira, tem que já ter dado baixa?” Ele disse: “Tem, tem que ter dado baixa”. Eu disse: “Rapaz, eu não sei se vou conseguir”. E consegui. Fui no prédio da Novacap e saí pedindo autorização. O superintendente tinha que autorizar, eu lembro que foi a primeira vez que ele me viu, ele disse: “Muito prazer e tal.” Eu disse: “Estou pedindo demissão.” E ele assinou e perguntou duas vezes ainda: “Você tem certeza que você quer isso, né? Porque o governo do Estado, está totalmente proibida qualquer admissão. Então você tem certeza. É isso que você quer?” Eu falei: “É isso que eu quero.” Me deu um bilhetinho, eu desci, assinou: “Autorizo a demissão”. E aí desci e pedi demissão. Fui para Salvador, embarquei domingo, cheguei em Salvador. Foi muito interessante, porque encontrei com o meu sogro no aeroporto em Salvador e disse para ele: “Poxa...” Porque no avião as pessoas já falavam que o curso era muito difícil, que era muito cobrado, um curso muito intenso, e eu já era casado, tinha uma filha, e eu disse para ele: “Olha eu estou vindo para cá, mas o pessoal aqui disse que o curso é muito difícil”. Eu lembro que ele falou para mim: “Mas você veio aqui para estudar ou para ficar gazeteando?” É o curso de engenharia de petróleo, ele especializa nas técnicas de perfuração de poços, plataformas, processos de produção. Isso tudo era totalmente novo, eu não sabia efetivamente, porque, na realidade, quando você se inscreve para o curso, dificilmente você sabe exatamente no que você está se inscrevendo, então eu não sabia o que significava aquilo. Me inscrevi, passei durante, porque na realidade teve um período de estágio em sondas, em sondas de perfuração de poços. Nós entramos no curso, foi feita uma palestra, em uma semana era para decidir se ia para perfuração ou para produção, qual é a área que escolheria, foi a primeira vez que eles estavam fazendo experiência nessa área. Eu escolhi perfuração, porque o curso era mais curto. Tem uma história interessante. O curso era mais curto de perfuração, e eu estava doido para terminar e para trabalhar, só que quando chegou no final do curso houve uma questão de turma A e turma B, e uma discussão entre as gerências aqui da sede, que disseram o seguinte: “Olha, não tem perfuração nem produção, cada um escolhe o que quer.” Aí eu pulei para produção. Interessante essa ida para produção, mas teve um período aí em sondas, que eu fiquei de outubro até janeiro trabalhando em sondas e depois fui para sala de aula, para o curso do Cenba.

EM SALVADOR Mudei para Salvador. Eu fui em outubro, e a família mudou em dezembro. Mudamos em dezembro, eu escolhi, eu lembro que eu escolhi um apartamento na Bahia. Eu cheguei sozinho e escolhi evidentemente um apartamento barato. Eu lembro que a gente recebia na época 4.500 cruzeiros líquidos, isso é o que nós íamos receber no curso, e eu aluguei um apartamento, evidentemente um apartamento barato, que era no Conjunto Julio César, que ficava muito próximo do Cenba, Centro de Ensino da Bahia, e eu lembro que a Bete chegou, minha mulher, chegou. Eu aluguei em novembro, aluguei bem por 1.200, 1.300 cruzeiros, alguma coisa assim, e ela chegou com a Carolina, que era bem novinha, tinha seis meses, e nós fomos, fui levá-la no apartamento. Ela subiu, entrou, olhou e disse: “Aqui eu não fico.” Foi a colocação dela. Bom: “Então eu tenho que procurar outra coisa”. Ela botava a Carolina naquele moisés, num Fusca que a gente tinha, e procurando, porque tinha uma outra curiosidade, não sei se ainda hoje é assim, mas na Bahia você procurava apartamentos batendo nos prédios, conversando nos prédios para alugar. Não era em... imobiliária também, mas a grande maioria você alugava, tinha muito imóvel com porteiros, com pessoas do prédio, alguém que estava lá cuidando, e aí nós mudamos. Ela alugou um outro apartamento, mais caro, acho que era 2.000 reais.

SALÁRIO Lembro quanto eu fui ganhar na Petrobras. Lembro, lembro, a questão salarial foi... Quando eu estava em Chapecó eu recebia 11 mil e alguma coisa. Não lembro qual era a moeda. Quando eu fui para Brasília - que me falaram que tinha um trabalho em Brasília, fiscal da obra e tal -, quando eu apresentei minha carteira, que começaram escrever, escreveram 5.600 e alguma coisa, eu falei: “Poxa, não foi isso que me falaram, me falaram quase 15 mil.” Aí o cara disse: “Pode até chegar, mas depois que você estiver fiscalizando uma obra, se incluir a quilometragem do carro, você pode receber. Se incluir gratificação não sei do quê, aí você pode chegar, mas no começo é isso mesmo”. Então eu cheguei numa expectativa, caiu num valor bem mais baixo, e quando eu fui para Petrobras, em Salvador, o salário bruto era em torno de seis mil e alguma coisa, mas na Novacap eu já estava com um salário bem mais alto, eu já estava com 9.000. Na realidade a Petrobras dava uma expectativa de salário maior depois do curso.

EM MACAÉ Depois do curso eu fui transferido para Vitória, no Espírito Santo. A Petrobras em Vitória ficava na praia do Canto. Eram casas, casas em que ficava a exploração, a perfuração e a produção. Realmente uma residência. Isso foi em 1978. Eu fui para Vitória em janeiro de 78. O primeiro do ano de 77 para 78 eu passei dentro de um hotel em Vitória, minha família também estava. Minha mãe, meus irmãos vieram do Sul, e nós passamos dentro de um hotel, foi uma experiência também interessante, mas em Vitória eram casas. Eram poucas pessoas que estavam, eu fui um dos primeiros a chegar a Vitória, e nós dávamos o suporte para as atividades da Bacia de Campos. Então a gente viajava de Bandeirantes, Vitória para Campos, cidade de Campos. Em Campos pegava um helicóptero e embarcava para as plataformas, esse era o meu trabalho, e eu morei em Vitória de janeiro de 78 até abril de 79. A Petrobras oficialmente veio para Macaé, quer dizer, veio para Macaé a unidade de perfuração, exploração e produção em dezembro de 79. Foi a meta colocada pela diretoria, ou a determinação feita pela diretoria que nós devíamos até dezembro de 79 estar em Macaé, e eu mudei em abril de 79. Aquele negócio: “Vai mudar, não vai mudar?” “Então se tiver oportunidade eu mudo logo.” Então mudei para Macaé em abril de 79. Bom, essa era minha atividade, morava em Vitória, praia do Canto, o apartamento mudou, o apartamento era de dois quartos, pagava 2.500 cruzeiros, cruzeiros novos por mês, em Vitória. Eu passei a pagar 1.300 por um apartamento de quatro quartos, uma sala muito maior, o salário dobrou praticamente, passei a trabalhar embarcado, então eu recebia um salário maior. Enfim, houve uma mudança, eu passei a receber uma ajuda de residência, é um pagamento que é feito nas transferências por um período, então na realidade a mudança para Vitória deu um salto muito grande de qualidade de vida.

EMBARCADO É interessante, porque eu cheguei em Vitória, nós tínhamos uma grande quantidade, em 78, de sondas em perfuração e testes de poços. Só tinha um poço que produzia, que era o Enchova 1, na Bacia de Campos, produzia a plataforma ASS-6 e a sede com 136 D ela produzia um poço, que era o Enchova 1. Tinha muitos postos em teste, eu trabalhava embarcado e eu lembro que eu embarquei com um engenheiro para fazer estágio. Era a primeira vez que eu estava embarcando, era o Sabak - o primeiro nome dele eu não lembro -, mas ele pediu demissão e foi para o ITA depois, mas ele era muito inteligente, uma atividade tremenda, e o Sabak fui acompanhando ele no trabalho, em cada momento o que ele estava fazendo, e ele falava muito. Dialogava pouco, mas falava muito. Falava sozinho, comandava, enfim, ele era meio genial, e aí o Sabak em determinado momento, recebeu uma ligação de Vitória - naquela época era rádio, não era ligação de telefone, não e falhava aquele negócio - e eu lembro sempre do lado dele, o tempo todo do lado, aonde ele ia eu estava do lado dele. E eu lembro que o engenheiro de Vitória perguntou como era o estagiário que estava com ele, como é que era o trabalho do estagiário? E eu ouvindo, ele disse: “Ele é muito bom, ele trabalha bem, está em condições de fazer qualquer coisa.” E aí ele terminou de desligar o rádio e disse: “Olha você está indo para a plataforma...” Na época PA-13 Petrobras, plataforma PA-13. “Você está indo na Plataforma PA-13 para testar um poço.” Era a primeira vez que eu embarcava. Eu já tinha trabalhado em sonda de terra, mas era a primeira vez que eu embarcava. Não tinha gente, então: “Não tem gente, vai você.” Fui. Eu lembro que eu desci no heliponto, eu fiquei olhando: “Como é que eu vou aqui agora? Como é isso?” Enfim, mas você vai chegando, vai se inteirando, as pessoas vão chegando, vão se inteirando da atividade, mas me marcou muito assim nesse início a preocupação: qual era a seqüência de trabalho minha. Depois foi chegando programa de trabalho, o pessoal foi ligando, aquela preocupação... Me deu certa preocupação essa questão de não saber exatamente qual era a linha que eu tinha que seguir, para onde é que nós íamos, o que é que eu tinha para fazer exatamente ali naquele poço, então me marcou muito nesse início. Olha, tem as mais diversas preocupações. Nós passávamos 15 dias embarcados e não tinha ligação, você não ligava para família, você não sabia o que estava acontecendo, se quisesse falar alguma coisa tinha que ir ao rádio na Petrobras - e evidentemente só em casos de necessidade, alguma emergência, algum recado, então passava pelo pessoal, mas a gente ficava 15 dias totalmente isolado. Hoje você tem telefone, tem mais, é diferente.

PÉ NA TERRA Eu fui para Macaé em abril de 1979, mudei. Pela primeira vez comprei uma casa. Era uma casa geminada na praia Campista, e nós compramos uma casa. Foi na mesma época em que teve um aspecto importante, a Carolina tinha, ela tinha dois anos e pouco, e a Carolina dormia relativamente pouco em Vitória. Quando nós fomos para Macaé, o médico em Vitória que examinou disse: “Olha, ela tem o problema X, Y, Z e precisa tomar Gardenal”. E a Carolina começou a tomar Gardenal. Deu e passou a ser outra pessoa. A Bete olhava, dizia... Um dia a Bete olhou e disse: “Eu não vou mais dar esse remédio para minha filha, que ela é outra”. Ficou calminha, e ela não era, era agitada, e nós fomos a Brasília, na casa do meu sogro. Tinha um neuropediatra, um médico especialista do Exército. Ele atendeu, olhou e disse assim, ele perguntou: “Por que vocês levaram ela ao médico?” “Porque ela dorme pouco.” Ele perguntou: “Que horas ela acorda?” “Ela acorda cinco e meia da manhã.” “E que horas ela dorme?” Eu disse: “Oito horas.” Porque a minha mãe tinha isso também, oito horas na cama, tinha esse negócio, e aí ele disse: “Vocês já experimentaram pôr ela para dormir às dez?” E aí foi a primeira vez que chamou atenção aquilo. E a segunda, ele disse: “Primeiro, ela não tem nada, segundo, ela tem que trabalhar na terra, pé descalço. Vocês têm que deixar ela brincar, mexer com terra, tudo isso aí, e absolutamente vocês vão ver que ela não tem nada”. Quando nós voltamos a Macaé, nós compramos uma casa, foi a primeira casa que nós compramos, uma casa geminada, uma casa que a gente mandou reformar, umas coisinhas e tal, e realmente nós mudamos, em abril de 79, e a Carolina passou a dormir mais, passou a ser outra pessoa, e nunca mais tomou remédio, nunca mais tomou nada, porque efetivamente não teve nenhuma dificuldade, e nenhum problema nós tivemos. Quando nós chegamos a Macaé, foi muito interessante, porque eu dizia para o cara que estava construindo, fazendo, tal: “Ó, estou mudando em tal data, minha mudança vai chegar em tal data”. Ele dizia: “Você não quer ver antes a casa?” Eu: “Não estou mudando tal data, estou garantindo que eu vou”. E soltei o pé. Quando nós chegamos em casa, tinha gente trabalhando na casa, umas oito ou dez pessoas trabalhando, arrumando. Nós olhamos: “Meu Deus, como é que a gente vai morar nisso aqui agora?” Realmente muita coisa a ser feita ainda, e aí subimos. A Bete começou olhar e disse: “Não dá para ficar aqui, com criança a gente não pode ficar”. E aí subiu, foi até o banheiro de cima e abriu a torneira, quando ela abriu a torneira, saiu água, ela botou a mão e fez assim: “Essa água é salobra.” Porque era muito próximo da praia, e o poço que abastecia a casa, efetivamente era água salobra, então não dava para tomar aquela água. Então a partir dali foi, primeiro alguns dias em hotel, depois tivemos que botar caminhão-tanque, para encher a caixa de 1.000 litros na época, que tínhamos, e começamos a construir uma cisterna. Nessa época também toda noite faltava luz em Macaé. Chovia e faltava luz, às vezes não chovia e faltava luz também, água encanada não tinha, era água da cisterna que nós tínhamos, e a área quase deserta. O local onde a gente morava, muito próximo da Petrobras hoje, mas quase que deserta a área.

CURINGA É, eu trabalhava embarcado e fui o primeiro engenheiro da área de completação da Petrobras que trabalhava embarcado e fui morar em Macaé, então quase que todos os meses alguém batia na minha casa e dizia: “Você precisa embarcar hoje à tarde”. Porque quando faltava gente para embarcar em qualquer lugar, com algum problema, dificuldade de contato, alguma coisa, que morava no Brasil inteiro, morava em Salvador, quem embarcava era eu.

BOAS E MÁS LEMBRANÇAS Então eu trabalhava embarcado, e a Bete ficava em casa, aí nós já tínhamos, quando mudamos para Macaé, já tínhamos dois filhos, a Carolina e o Alexandre. Quando nós mudamos para Macaé a Carolina tinha dois anos e meio, e o Alexandre, seis meses, então ela ficava em casa com os dois, faltando luz. Até hoje ela conta que faltava luz, ela sentava na escada e ficava olhando, porque na casa não tinha muro, então efetivamente era totalmente desprotegido, sem contato e eu embarcado. Quinze dias embarcado. Foi um período, não foi simples, não, foi gostoso em vários aspectos, a questão da casa, a questão do primeiro churrasco feito também. Primeiro churrasco também com os colegas, mas primeiro o meu.O primeiro que eu fiz. Enfim, foi um período que teve pontos excepcionais e alguns que nos preocupavam, como essa questão de faltar água, faltar luz e não ter água.

APRENDIZADO CONTÍNUO Olha a atividade da área de completação é uma área extremamente técnica e naquela época vinham sendo feitos trabalhos na parte das cápsulas da Lockheed do sistema de Garoupa, que começou a produzir. Eu participei da instalação da primeira árvore de Natal molhada na Bacia de campos no poço Enchova RJS - não, Enchova 38. O primeiro poço em que foi instalada uma árvore de Natal molhada. Então essa parte técnica, toda essa necessidade de absorção de questões técnicas e o próprio aprendizado, porque a cada plataforma, a cada trabalho que você faz, são atividades novas. São coisas novas que surgem, não tem rotina naquele processo, então eu diria que esse foi um grande desafio, esse foi um desafio muito grande para mim, trabalhando embarcado.

ACIDENTES Nesse período em que eu trabalhei embarcado nós tínhamos muito poucos acidentes. Eu lembro, tem um fato, tem uma atividade que eu lembro em dois navios, dois testes que aconteceram muito fortes, um foi no navio Petrobras 3 que tinha na Bacia de Campos e nós estávamos testando um poço de Pampo. Pampo é um campo que tem H2S, altamente perigoso o gás, e eu lembro que nós tivemos um problema de retirar uma coluna sem fazer a limpeza do óleo. Tivemos que fazer isso, não havia solução. Evidentemente coloca barcos em volta tomando conta para proteção, enfim, e tudo mais, mas eu lembro que a plataforma ficou totalmente suja de óleo, várias vezes sujando gás e jogando. Não era bem um blow-out, porque ele estava restrito à coluna, na realidade houve a queda de um equipamento de um wire line, uma barra de aço e que tamponou o fundo da coluna, então o óleo que estava ali dentro ficou todo nele, e teve que retirar. E outra vez no Tainaron, nós tivemos, era um navio contratado que teve a produção de um óleo muito pesado no Sul, na Bacia de Campos aqui na frente de Cabo Frio, um óleo muito pesado e que a areia ela criou um plugue, ela fechou a coluna, e quando nós fomos tirando, essa coluna foi saindo, foi dando alguns pipocos muito fortes, misturando com o gás que estava na coluna, comprimido entre vários plugues de areia. Então eu lembro desses dois acidentes, que era um potencial acidente forte, isso no período que eu estava embarcado, no período que eu estava em terra já como o gerente da área de equipamentos de completação e depois com o chefe de setor de operações de completação e superintendente de produção, nos oito últimos anos que eu estava em Macaé, isso foi de 82 até 1990, final de 90, nós tivemos vários acidentes. Nós tivemos em 1984 o acidente da Enchova em que morreram 37 pessoas na baleeira. Eu era da área de equipamentos de completação de postos, foi na área de produção, e tivemos em 1988, em abril de 88, o acidente de Enchova, em que felizmente não morreu ninguém, mas nós perdemos a plataforma. Nesse eu era superintendente de produção, quer dizer, estava ligada à minha área. No primeiro acidente, como eu trabalhava na área de completação e eu trabalhava na área de produção, não foi dentro da minha área, onde estava afeta a minha área. Nós participamos muito observando, vivenciando, evidentemente uma dor daquelas, enfim, foi um momento muito pesado, muito triste aquele processo todo, porque se existe uma coisa que fez a bacia de Campos crescer, foi a vontade das pessoas fazerem as coisas, de desenvolver, isso em todas as áreas, todos os níveis e sem dúvida um acidente daqueles tem um baque muito forte, joga as pessoas muito para baixo. O segundo eu participei, muito fortemente, porque eu fui possivelmente a primeira pessoa de terra que recebeu a informação. O chefe da plataforma, o engenheiro Ibsen, me ligou pela manhã, era em torno de umas seis horas da manhã: “Irani, eu estou ligando para você porque o poço Enchova 17 entrou em blow-out quando era agora pela manhã e nós não conseguimos controlar. Eu já pedi para evacuar a plataforma”. Nós tínhamos o Flotel, que estava do lado, uma plataforma-hotel que estava do lado da plataforma de Enchova, então as pessoas evacuaram para o Flotel, a partir dali nós passamos a contatar todo mundo e a empresa. Logo depois eu embarquei também, eu cheguei a embarcar na plataforma ainda quando o gás não tinha tido nenhuma ignição, então embarcamos um grupo grande, rodamos a plataforma, enfim, e eu participei depois do grupo de trabalho que fez a avaliação técnica das causas do acidente, foi um trabalho na realidade, eu coordenei esse trabalho, fui coordenador do grupo de trabalho, tinha pessoas da área de perfuração, pessoas da área de produção e da área de exploração também, e eu coordenei esse trabalho que fez essa análise. Foi um problema extremamente sutil, técnico e sutil, eu acho que houve, eu lembro que duas perfurações que foram feitas com canhões no revestimento para fazer uma recimentação, e na realidade essas duas perfurações permitiram que houvesse a entrada de gás no furo de cima, o peso da lama. A lama é o peso do fluido necessário para manter o poço controlado. Como foram dois furos numa distância de 100 metros, eu me lembro, o de cima, a pressão não era suficiente para sustentar, então entrou a primeira bolha de gás em cima, então a partir dali, entrou a primeira bolha a cada momento vai diminuindo o peso do controle e aumentando o volume de gás que entra. Foi basicamente isso, uma bolha de gás lá no fundo aumenta centenas de vezes na superfície para aquela pressão que tinha, então vem com uma força muito grande.

NOS ESTADOS UNIDOS A Petrobras investia muito em 1980, vários cursos eu fiz aqui nessa década, no Brasil mesmo, no Rio de Janeiro, em Salvador, em outras áreas. Em 1981 eu passei sete meses nos Estados Unidos, nós estávamos comprando alguns equipamentos, árvore de Natal molhada da empresa Revan Offshore, R, E, V, A, N, Revan Offshore, e nós compramos três árvores de Natal molhadas. As primeiras árvores que nós compramos de outra empresa que não a Vético, que vendia aqui, e eu fui para lá e passei sete meses na montagem e depois para vir para cá a montagem, teste e instalação dessas árvores aqui no Brasil. Então eu tive um período longo, fui com a família, eu a Bete e os dois baixinhos, nós ficamos morando em Torrance, que fica do lado de Los Angeles, a 20 minutos de Los Angeles.

NO CENPES Na década de 90 fui convidado para trabalhar no Centro de Pesquisa, aqui no Rio. Essa é uma outra história interessante, porque eu tinha sido em outubro de 90, me chamaram no Rio de Janeiro - eu vou evitar colocar nomes agora -, me chamaram no Rio de Janeiro e me disseram: “Irani, eu queria dizer que você, se você aceitar, que você está sendo transferido para trabalhar em Londres.” Nós tínhamos uma atividade em Londres, em que trabalhava o Costa Milan, que era um engenheiro da Petrobras que hoje trabalha na British Gas - o Costa Milan trabalhava na área de produção em Londres -, e me chamaram no Rio e disseram: “Você está sendo convidado para trabalhar em Londres, aceita?” “Aceito.” Voltei para casa, começamos a preparar as coisas, a preparar a questão de passaporte, não podia falar para ninguém, porque ninguém sabia ainda, não tinha sido oficializado. Quando foi em outubro - isso foi em setembro -, em outubro aconteceu a feira do petróleo, e aí houve uma troca de presidente da empresa e troca da diretoria. O assunto, um dos diretores mudou, saiu da área que estava, foi para outra área e disseram o seguinte: “Olha, agora eu quero que você trabalhe no Cenpes, nessa área.” E aí eu vim trabalhar no Cenpes, em novembro de 90, e a família mudou em março de 91.

MENOS ESPAÇO Foi extremamente difícil a saída de Macaé. Nós morávamos numa casa grande em Macaé, com piscina, em frente do mar, então a mudança para cá foi uma mudança complicada, porque a diferença do valor do imóvel era muito grande. Nós viemos morar na Barra, num apartamento de três quartos, que na realidade nós trocamos por uma das casas. Na realidade eu construí duas casas em Macaé ao longo desse período, e uma das casas eu troquei. As duas casas eu troquei, mas essa eu troquei por um apartamento na Barra. O apartamento era muito menor, mas eu ainda tive que dar dinheiro de volta, interessante, bem mais caro.

DA PRODUÇÃO À PESQUISA Minha experiência no Centro de Pesquisa foi interessante porque você imagina, você faz um estereótipo de um centro de pesquisa, das pessoas num centro de pesquisa. A primeira coisa que me chamou fortemente atenção foi a sensibilidade das pessoas que trabalham num centro de pesquisa. Foi um período extremamente rico, um crescimento muito grande, e minha contribuição foi a integração desse centro à Petrobras e às unidades operacionais e aos órgãos operacionais ao centro de pesquisa. Eu venho como superintendente de exploração e produção. Eu costumo dizer que eu ouvia coisas na área de produção quando eu trabalhava lá e cheguei no Centro de Pesquisas e ouvi outras coisas, quando as duas não eram compatíveis, quer dizer para quem trabalhou lá e trabalhou no Centro de Pesquisas verificou que havia um espaço, uma distância, um gap, um vazio a ser vencido nesse diálogo entre um centro de pesquisa e um órgão operacional. Um outro aspecto importante é que eu cheguei com toda a verdade absoluta de um homem e superintendente de produção ou superintendente nacional, você chega no centro de pesquisa com toda verdade, 100% da verdade está com você. E o impacto: você vai percebendo que você não tem 100% da verdade. Você começa a perder um pouco a coragem ao longo do tempo, uma coragem que tem que ser perdida mesmo, coragem que ela é mais fruto do não saber, da ignorância do que efetivamente da coragem do conhecimento de causa, do conteúdo e enfim, essa transição foi muito importante para mim, quer sejam as pessoas, quer seja a questão da profundidade da análise. Porque quando você olha num órgão operacional, de qualquer empresa, de qualquer lugar, ele vive do não parar, e um centro de pesquisa vive do não errar. Quando você tenta reunir essas duas coisas é muito difícil. O que não quer parar não quer mudar, absolutamente nada, esse aqui vive do mudar, então começa a se entender melhor por que, quais as razões que ele te diz, “Olha, não sei qual é o prazo em que eu te entrego isso.” “É certo que vai acontecer isso aqui?” “Não sei se vai.” Quando lhe parece tão óbvio às vezes, mas não é tão óbvio não, existe uma análise mais abrangente, mais profunda, que faz parte da personalidade do pesquisador, então foi um crescimento muito grande. É interessante que as pessoas, eu trabalhei 12 anos na área de exploração e produção na Bacia de Campos e até hoje as pessoas me identificam, uma grande parcela das vezes, quase totalidade, como sendo um homem do Centro de Pesquisa. Eu tive uma sintonia muito grande, um crescimento muito grande com o Cenpes.

BR DISTRIBUIDORA A primeira vez que eu fiquei no Cenpes foi três anos e meio, isto, até três anos e dois meses que eu fiquei lá. A saída foi um fato interessante, eu saí junto com o Estrella. O Estrella hoje é diretor de exploração e produção, eu era superintendente de exploração e produção. Houve uma promoção de uma pessoa, que estava no centro de pesquisa, e na época a diretoria, o diretor da área não quis aprovar uma das promoções, e por essa razão o Estrela entregou o cargo, e três dias depois eu saí também, na chegada do novo superintendente. Daí eu vou trabalhar na fábrica dos lubrificantes da BR Distribuidora, que tem uma característica extremamente operacional e de rotina. Então você saiu das operações da Bacia de Campos, altamente diversificada e complexa, passo para um centro de pesquisas, fico três anos e aí vou para uma fábrica de lubrificantes, onde tem uma rotina muito forte, mas aí você tem outras percepções muito importantes. O diálogo, o vocabulário que você utiliza num centro de pesquisas é um, quando você vai para uma fábrica de lubrificantes, os diálogos, as necessidades, as percepções são outras, muito diferentes. Só que eu estava saindo daqui e carrego comigo evidentemente aquele diálogo, aquele vocabulário, aquela forma de colocar as minhas necessidades geradas no centro de pesquisas. Quando eu chego na fábrica eu me percebo várias vezes não sendo entendido. E aí pela primeira vez eu percebi com muita contundência que na realidade, ao não ser entendido, a deficiência era minha e não de quem não estava entendendo, porque o meio é onde eu estava chegando, eu é que estava chegando naquele meio, então eu é que tinha que buscar formas diferentes de me fazer entender, para aquele grupo, se eu quisesse liderar e trabalhar com aquele grupo. Então foi muito importante também, foi um outro crescimento que deu, alavancou muita coisa do centro de pesquisas ali naquele momento.

LUBRAX Durante minha gestão na Lubrax, o que considero mais marcante, sem sombra de dúvida, é a certificação da fábrica pela ISO 9001. Foi a primeira unidade da Petrobras a ser certificada pela ISO 9001. Teve uma outra que certificou um pouco antes, a RLAM, na Bahia, a refinaria Landulfo Alves, que certificou pela 9002; primeira 9001 foi para a fábrica de lubrificantes da BR Distribuidora. Foi um esforço muito grande da equipe, uma melhoria muito grande na gestão, no gerenciamento de uma maneira geral e sem dúvida a fábrica atingiu um outro patamar de gestão e de gerência, então esse foi um aspecto, foi muito importante. Adquirir o ISO significa previsibilidade da qualidade. É o mesmo que eu te dizer assim: “Eu vou chegar a tal ponto, eu vou te entregar de tal maneira.” Então eu considero esse fator, é um instrumento, mas esse fator foi muito importante. O outro foi o meu aprendizado, e eu acho que o meu aprendizado levou ao aprendizado de outros também, essa troca o faz crescer.

GERÊNCIA GERAL DE E & P Na superintendência da BR Distribuidora, eu fico até, eu iniciei lá em abril de 94 e fui até maio de 96, nesse período aí, quando eu saí do Cenpes e fui para fábrica, eu passei dois meses na Braspetro, na Petrobras Internacional, mas ali só estagiando, e, enfim, verificando como é que era a atividade. Então de 94 até 96 eu fico na fábrica de lubrificantes, e em maio de 96 eu vou para sede da Petrobras, para área de exploração e produção, para ser gerente geral de produção do E&P, da área de exploração e produção. É uma outra experiência, um outro ambiente de trabalho, outro tipo de profissional, outro tipo de técnica, outro tipo de atividade. Ali exige que você tenha uma articulação muito grande com as unidades. Porque você trabalha com todas as unidades. Exige um controle, exige a prestação de um serviço. É outra coisa, trabalhar na sede, não tenha dúvida que é outro mundo, quem sai de uma fábrica de lubrificantes, com uma rotina, com uma entrega, com um cliente bastante definido e passa para uma gerência geral de exploração e produção.

INTERAÇÃO Eu viajava bastante, já como gerente geral. Eu diria até hoje essa gerência existe, viaja muito. Essa gerência é responsável pela área técnica, toda a produção de petróleo e gás do Brasil inteiro. Supervisão, reuniões com as áreas, nessa linha, seminários, palestras, enfim é uma atividade bastante intensa. Bom, a Petrobras produz hoje de petróleo quase um milhão e 600 mil barris por dia, além do gás, então é uma atividade muito importante, muito forte, com uma interação muito grande com as áreas e com outras áreas dentro da empresa, área de refino.

VOLTA AO CENPES É, em 1999 foi trocada a diretoria, e daí eu fui convidado a assumir a gerência executiva do Centro de Pesquisa. Eu voltei, mas aí como gerente geral do Centro de Pesquisa, não é mais de área, não. Minha trajetória é de um engenheiro de carreira que vai se direcionando para a área de gestão. Não, é interessante, talvez esse espírito, essa personalidade de gestão, eu nunca fiz uma análise maior para verificar esse paralelo, como é que se deu, como é que se dá. Não, não cheguei a fazer esta análise não. Essas coisas foram se tornando muito repetitivas: uma tristeza quando sai e uma alegria quando chega. Todas elas. Triste ao sair, chega, começo a perceber, é natural em mim, começo a perceber o que eu acho que pode ser feito, e aí começo a fazer e aí começo a encontrar objetivos e respostas e crio um outro mundo, talvez. Não é que o outro fique para trás, não - o outro fica um pouco, eu não fico, a tristeza de ter saído do outro não permanece, absolutamente ela vai sendo... Eu fui convidado para voltar ao Centro de Pesquisas. Na realidade eu não esperava naquele momento que me convidassem para o Centro de Pesquisa, mas sem sombra de dúvida um convite irrecusável. Foi uma alegria, porque na realidade outros talvez tenham percebido, quer seja por buscar algumas informações ou conversar com as pessoas, mais do que eu, essa sintonia minha com o Centro de Pesquisa. Ou não sei se mais que eu, tenham percebido fortemente essa sintonia minha com o Centro de Pesquisa. Então o retorno foi excepcional, foi muito bom, eu já conhecia, pude fazer muitas coisas ali no Centro de Pesquisa, enfim foi.

AVALIAÇÃO Na realidade eu acho que a gente trabalha, se eu pudesse resumir o que a gente faz, eu acho que a gente trabalha o tempo todo com dois objetivos que servem para qualquer atividade que se tem, na gestão evidentemente, nas gerências. A primeira é que você possa sair da sua sala hoje e voltar daqui a 60 dias e o trabalho continuar andando bem. Então você trabalha para isso. Não significa evidentemente que é assim que acontece, mas você trabalha para que você pudesse simplesmente sair do seu trabalho e absolutamente continuar tudo andando bem. Eu costumo dizer para as pessoas, quando eu saí, quer seja do Centro de Pesquisa, da fábrica, as pessoas dizem: “Pôxa, mas você vai.” Várias vezes vem um amigo e diz: “Você vai sair, isso aqui vai mudar e tal.” Eu digo: “Olha, mesmo que mude, se não ficou alguma coisa, não valeu o meu trabalho, absolutamente não valeu.” Se não ficou algo daquilo que eu me dei ali, se efetivamente não plantou, se a equipe toda não mudou, se as pessoas não tiveram alguma mudança é porque não teve uma contribuição, então eu não formei nada, eu só deformei quando eu estava ali, fui deformando com a minha presença aquele processo. Então uma, é que se trabalha para que se possa, para que a gerência não faça nada. Esse é um dos objetivos que valem para qualquer gestão. E o outro eu acho que é integrar. É você ter uma integração. Se você analisar a história no mundo das empresas, das pessoas, é a busca da integração, é a busca de um todo, o tempo todo.

ÊNFASE À INTEGRAÇÃO Então o meu grande objetivo como gerente executivo, quando voltei ao Cenpes, era fortalecer, dar uma velocidade nesse processo com um conhecimento ou com uma convicção muito grande, que no Centro de Pesquisas assim com em outros lugares, mas ali é muito forte isso, basta você dar os instrumentos, que as pessoas vão desenvolvendo o trabalho. O que você precisa é dialogar e acertar qual é a direção que nós vamos indo, o que é que nós estamos buscando aqui, é acertar isso com a equipe, mas... Eles desenvolvem efetivamente com uma qualidade excepcional o trabalho. A profundidade com que analisam o que vem de trabalho, então o grande objetivo sem sombra de dúvida, o primeiro já foi esse na área de exploração e produção quando eu cheguei a primeira vez, o segundo mais que nunca era fazer essa integração de uma maneira muito forte.

SEGURANÇA, AMBIENTE E SAÚDE Mas eu saí do Cenpes e fui ainda para, talvez o trabalho mais marcante que vai ficar na Petrobras seja a área de Segurança, Meio-Ambiente e Saúde. Na área de Segurança, Meio-Ambiente e Saúde eu estava em janeiro de 2000. Não é uma área nova, nós tínhamos, a empresa tinha Susema, superintendência de segurança e meio ambiente. Era uma superintendência, primeiro uma assessoria, depois uma superintendência, mas que tinha uma atividade muito limitada à sede, a questões tipo consultoria, alguns trabalhos muito voltados para a área da qualidade. Um trabalho importante que foi feito ao longo da história da empresa, mas muito restrito o trabalho da área de segurança meio ambiente e saúde que existia, até 2000. Com o acidente da Baía de Guanabara, em janeiro de 2000, eu fui chamado pela diretoria para coordenar um programa, que era o programa de excelência em gestão ambiental e segurança operacional, um grupo de trabalho que fizesse um estudo e uma proposta para que acidentes iguais àqueles da Baía de Guanabara não voltassem a acontecer na empresa, quer dizer, tinha que gerar um projeto para que fosse preventivo. Tinha um grupo trabalhando na correção, mas eu era gerente executivo do Centro de Pesquisas, e nós criamos um grupo, tínhamos dez pessoas no grupo que oficializaram o grupo de trabalho. Esse grupo de trabalho era formado por gerentes de todas as áreas, dez gerentes de todas as áreas, mesmo do centro de pesquisas, tinha outros gerentes da minha área, gerente da área de abastecimento, da área de E&P, de todas as áreas da empresa nós tivemos gerentes trabalhando, basicamente gerentes esses dez. Do grupo participaram, contribuições em tempo integral em torno de 80 pessoas, aí sim técnicos, engenheiros, gerentes, biofísicos, químicos, geólogos, de todas as áreas. Oitenta pessoas em tempo integral, de janeiro até março de 2000. Começamos o trabalho dia 23 de janeiro de 2000. O episódio de Baía de Guanabara foi dia 18 de janeiro de 2000. Então, cinco dias depois nós começamos esse trabalho e tivemos uma participação também, não em tempo integral, em torno de 500 pessoas, aí consultores externos, professores, empresas externas e criamos, fizemos um relatório que gerou a nova área de Segurança, Meio-Ambiente e Saúde dentro da empresa. O trabalho basicamente foi três áreas, uma área de contingência, que nós chamamos de rede de proteção, um outro trabalho de obras de prevenção, para nós prevenirmos tudo o que se tinha de reparo de dutos, de plantas de processo, o que nós tínhamos de obras para fazer, bacias de contenção. Todo o trabalho preventivo, mais obras, e um terceiro item, que era de gestão, que foi o maior deles. Foi o mais importante deles, que permanece até hoje. Todos os três permanecem, mas esse de gestão permanece, essa dinâmica, com muito mais força. Que visava a nós adaptarmos a forma de trabalhar ou estruturarmos uma forma de trabalhar, que fossem práticas no mundo todo em outras empresas, e adequadas evidentemente às nossas características, uma coisa e outra. Essa área na realidade eu fui para ela em maio de 2000 e nós aprovamos a nova estrutura em outubro de 2000. Esse relatório foi aceito, nós investimos um bilhão de dólares nesse período, quer dizer, foram gerados projetos para investimentos de um bilhão de dólares. Nós geramos uma contingência que hoje é sem dúvida nenhuma a melhor contingência internacional, de todas as empresas que têm contingência, sem dúvida é, a empresa que tem o melhor esquema de contingência de uma empresa. Nos EUA você encontra vários sistemas de contingências, mas é feito por várias empresas, por cooperativas, é feito por um conjunto de empresas. A maior estrutura individual no mundo e a melhor qualidade, sem sombra de dúvida, é da Petrobras hoje. Nós tivemos área de gestão, que nós temos um programa de segurança de processo que está em andamento, hoje nós tivemos, se você olhar o ano de 2002, nós já somos Benchmarking em volume de óleo vazado, quer dizer a empresa que menos teve vazamento de óleo das grandes empresas de petróleo no mundo foi a Petrobras. No mundo, o nível de acidentes de trabalho caiu tremendamente. Eu atribuo isso, sem dúvida, ao fruto desse trabalho. Então essa estruturação da área de Segurança, Meio-Ambiente e Saúde, ela fez com que nós tivéssemos hoje a melhor contingência internacional de empresas. O nível de acidentes caiu sensivelmente, está num patamar, eu diria aceitável. Nunca é aceitável nenhum acidente, mas está num patamar razoável e continuamos para dar uma sustentação, para diminuir mais esses indicadores, melhorar esses indicadores, diminuir o número de acidentes. O número de fatalidades vem caindo, isto é outro aspecto, é importante ser colocado. Fatalidade é inaceitável uma, zero, qualquer meta que possa imaginar, e nós estamos trabalhando e nós estamos com um nível reduzindo bastante. Às vezes eu digo para as pessoas, alguém pode dizer: “Mas tivemos apenas uma fatalidade”. “Vai falar para aquela família que foi apenas uma.” Não existe, não há como você ver dessa maneira, então tem um trabalho muito grande. Agora esse trabalho ele teve, além da Bahia da Guanabara, nós tivemos outros dois eventos muito fortes, que foi o evento do rio Iguaçu, da Repar, com aquele vazamento para o rio Iguaçu, e tivemos a P-36, que também foi um acidente, uma tragédia, com 11 pessoas que morreram. Nesse período eu tenho alguns pontos importantes da minha vida. Eu tive aí no período da área de Segurança, Meio-Ambiente e Saúde, Cenpes e Segurança, Meio-Ambiente e Saúde, foi quando o Alexandre adoeceu. Foi um período muito difícil. Por trás disso tudo foi assim, de um lado a dificuldade tremenda, vivenciando a luta do Alexandre, e de outro lado a questão dos acidentes, discussões, entrevistas, enfim é um meio difícil de você equilibrar, não havia nenhum momento onde você estar mais tranqüilo. Nem lá nem cá, não havia onde você estar. Então eu diria essa área de Segurança, Meio-Ambiente e Saúde, esse período foi muito forte para mim. Tive, agora em compensação hoje, de tudo isso, e é realmente em compensação, há menos fatalidades, menos acidentes, se tem um resultado. Está aí o resultado.

SISTEMAS DE GESTÃO Olha só, da área de Segurança, Meio-Ambiente e Saúde eu fui para diretoria da Petrobras, fiquei um ano. Entrei em novembro e saí em janeiro, então foi 14 para 15 meses na diretoria de serviços, que cuida da área do Centro de Pesquisas, da área de Materiais, Serviços Compartilhados, Engenharia, Segurança, Meio-Ambiente e Saúde e a Tecnologia da Informação, e ainda o SAP, o sistema que está nessa área. Então é uma área extremamente dinâmica e muito grande. Passei aí esse período cuidando da área de Segurança, Meio-Ambiente e Saúde, que saiu da Presidência e passou para essa área quando eu fui para a diretoria, então vivenciei um ano essa gestão, mais excepcional realmente para vivência, para currículo, para tudo. Uma diretoria de uma empresa do tamanho e da forma como é a Petrobras é sem dúvida um orgulho muito grande e aí com a troca da diretoria eu fui convidado para assumir a gerência executiva da área de Desenvolvimento de Sistemas de Gestão, que cuida da organização da gestão, da avaliação da gestão, da gestão do conhecimento da empresa. Eu costumo dizer em termos de propostas, você está hoje numa avaliação de desenvolvimento de sistema de gestão, ela tem um grande potencial de propostas e transformação na empresa. Evidentemente, quem vai assumir a posição de transformações maiores é a diretoria, o presidente, a diretoria e o conselho de administração, mas a minha grande proposta é através de um plano de gestão e organização gerar uma integração maior da Petrobras em outros tantos níveis. Agora, por exemplo é muito mais abrangente, com a sociedade de uma maneira geral, com as comunidades das quais nós participamos, com as empresas terceirizadas, a própria integração interna das atividades instrumentando ou facilitando as relações internas dentro da empresa. Então a gente está com uma meta de fazer, com uma proposta de dar um grande salto de integração da Petrobras.

LICENÇA DA COMUNIDADE Eu costumo dizer que a comunidade que está em torno das nossas atividades é efetivamente quem nos dá a licença de operação. É a sociedade que nos dá a licença de operação. Você tem as mais diversas licenças, a licença ambiental, a licença operacional, dos mais diversos órgãos reguladores e fiscalizadores, mas a efetiva licença quem nos dá é a sociedade onde você atua, não tenha dúvida. É a sociedade, e a comunidade mais fortemente. Então eu acho que nós temos uma contribuição muito grande e se tem condições, através desse trabalho, dar uma sustentabilidade ao nosso desenvolvimento. Eu costumo dizer que nós precisamos sair do pensamento linear para o pensamento de sustentabilidade. Um pensamento mais abrangente, maior, que inclua o conjunto todo da sociedade da maneira mais ampla. Sociedade e evidentemente as questões ambientais também.

SUSTENTABILIDADE Bom, tem dois projetos que eu colocaria, um que já começou há muitos anos atrás, há mais de 20 anos, que foi o projeto Tamar. Mas tem um aspecto importante nesse projeto, hoje mais de mil pescadores, que viviam da pesca da tartaruga, eles vivem da preservação da tartaruga. Além desse, nós temos um outro projeto, que está iniciando, se iniciou nessa fase em que eu estava na área segurança meio ambiente e saúde, em que nós lançamos larvas de caranguejo, tipo uçá, aqui na baía de Guanabara, nos manguezais, e estamos acompanhando e lançamos agora também no Paraná. Se esse projeto que está sendo acompanhado pelo Ibama e pela Universidade Federal do Paraná, der certo, nós podemos também transformar, dar uma sustentabilidade e uma grande quantidade de pessoas numa comunidade de catadores de caranguejo no Brasil inteiro, através de um trabalho que possa ter criação e sustentabilidade de caranguejo, porque hoje de uma maneira geral no Brasil inteiro você tem uma redução da disponibilidade, a reprodução de caranguejo está diminuindo porque está se tornando cada vez maior o número de pessoas que catam e cada vez menos caranguejo disponível. Então eu acho que esses projetos em que você tem uma ligação, que de uma forma ou de outra estão ligados à sua atividade, mas que você tem uma sustentabilidade. Além de projetos de atração de peixes em áreas como no Rio Grande do Norte, tem aqui no Rio de Janeiro. Tem vários projetos em que nós podemos ter uma relação consistente, forte consolidada com uma sociedade.

FAMÍLIA Eu moro na Barra da Tijuca, adoro o Rio de Janeiro, costumo dizer que é difícil morar em outra cidade do Brasil, moro no Rio de Janeiro desde o final de 90, início de 91. Hoje aqui somos eu, a Bete, a mulher, que é assistente social, a Carolina que é advogada, já é casada, já exerce a profissão dela, e tem o Alexandre, que está em outro plano, o Alexandre foi em 2001 e...

CHURRASCO E VIOLÃO Faço churrasco no Rio de Janeiro, faço muito, faço sim. Gosto de fazer churrasco, gosto de tocar violão. O violão é um hobby sério, gosto de cantar em barzinho com o pessoal, quando eu vou, é muito gostoso.

REALIZAÇÃO E CRESCIMENTO São 27 anos de Petrobras, uma vida. A vida toda ali. A Petrobras para mim significa a realização, significa crescimento. Eu acho que houve, interessante porque eu até mesmo na bacia de Campos tinha uma visão muito técnica, muito tecnicista das coisas e quando fui assumindo gerências, fui começando a perceber, principalmente a superintendência de produção em Macaé a primeira vez, fui percebendo que havia um conflito muito grande às vezes nessa relação, o que me fez despertar para um diálogo cada vez maior, mais aberto. Isso fez com que houvesse um crescimento muito grande, então eu acho que a realização e crescimento com a Petrobras.

MEMÓRIA DOS TRABALHADORES O Projeto Memória dos Trabalhadores da Petrobras tem aspectos importantes. O primeiro é o seguinte, eu costumo dizer, as pessoas todas dizem, mas eu gosto de dar um exemplo: se nós construirmos duas fábricas perfeitamente iguais, idênticas e colocarmos dentro delas cem pessoas trabalhando em uma e cem pessoas trabalhando na outra, por mais que você escolha as características dessas pessoas, digamos que uma a uma você conseguisse escolher características similares, você terá duas fábricas diferentes. Você, se fizer duas casas idênticas e botar duas famílias iguais nas casas, entre depois e tire e você vai ver que são duas casas diferentes. Então quem faz uma empresa, sem dúvida nenhuma são as pessoas. A Petrobras, eu acho que ela é um símbolo da capacidade de realização. Ela tem essa capacidade ou tem essa realização e é um símbolo da capacidade de realização das pessoas e evidentemente dos brasileiros, eu acho que a grande contribuição que ela deva dar e que eu trabalho a vida toda para isso, eu acho que a vida aqui dentro da Petrobras é que nós possamos contribuir cada vez mais com a evolução da percepção da sociedade brasileira. Acho que o primeiro passo para você construir qualquer coisa ou evoluir é perceber, eu acho que essa é a grande contribuição que ela tem que dar. Nesse processo que eu citei de maior integração da sociedade e dos mais diversos segmentos da sociedade, órgãos reguladores, enfim quaisquer relações comerciais, é fundamental, se busca nesse processo um crescimento e com isso tem que vir antes disso evidentemente a percepção. Ter dado esse depoimento foi emocionante. Interessante, eu diria que foi uma espécie de terapia, porque eu lembrei de tanta coisa aqui que absolutamente não tinha, que estava lá guardado em alguns cantos, e outras tantas que eu lembrei que não falei absolutamente por falta do espaço, que eu não tinha citado, são coisas que eu fui lembrando e que ficaram aqui do lado e sem dúvida nenhuma era importante lembrar, fazem parte de uma. É emocionante e sem dúvida nenhuma parte para uma terapia também. Obrigado a vocês.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+