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História

O contrário de mim virou eu própria

História de: Márcia Nunes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/01/2020

Sinopse

Márcia nos conta a respeito da origem de seu nome, de sua infância numa fazenda nos arredores da cidade do Serro e sobre como sua mãe desde cedo ensinou tudo da vida a seus filhos. Discorre profundamente a respeito da figura e do legado de sua mãe, Dona Lucinha, à respeito da culinária mineira de raíz. Fala sobre as festas e a cultura popular do Serro, sua experiência como professora e os desafios de herdar e ampliar o nome dos restaurantes Dona Lucinha em Minas Gerais. Descreve a casa localizada na Savassi e fala da cozinha mineira contemporânea.

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História completa

Esta é a nossa casa matriz e são trinta anos dela. A construção desta casa é fato curioso porque nós nascemos em uma cidade barroca, os sobrados são antigos, então nós crescemos nessas casas. Quando meu irmão achou esta casa para alugar, ela era extremamente moderna: teto de gesso rebaixado, iluminação dicroica, laguinho de peixe na porta, e nós que morávamos sempre em prédios mais velhos, de assoalho, de esteira, achamos a casa a coisa mais linda do mundo. A mamãe falou: “A casa está ótima, só que assim não me serve”. Chamou o mestre de obras, marceneiro: “Eu quero dormente, esteira...”. Então, tudo que era moderno ela tirou... Olha só, que visão, você já pensou ela trazer uma cozinha tão de raiz, em um ambiente que não tinha nada a ver com ela? Então, o lago de peixes foram armários de demolição; as janelas da casa tudo em dormentes, tirou tudo e mandou tecer esteiras de taquara. Então é muito moderno que ela fez isso, de trinta anos atrás o que hoje é um templo, hoje é um templo de cultura mineira, de gosto colonial, de decoração. Ela deu ambiente à cozinha. Era o contexto da cozinha em que ela ia cozinhar, o que ela fez muito bem porque ia ficar uma desconexão absurda, mas para nós, a gente queria aquele ambiente novo, lindo. Mas, enfim, ela estava certa e, curiosamente, virou história. Porque não havia esse gosto, na época, de dormentes rústicos, por exemplo. Nós temos uma peça na varanda, que ela faz um arco, ela chegou, os marceneiros estavam aplanando, ela falou: “Não, pelo amor de Deus não faz isso”. Eles falaram assim: “Dona Lucinha, depois que a gente fizer a sua casa nós não vamos ter mais trabalho na cidade, que eles vão achar que a gente é sem capricho”. Então tudo dela tinha história, ela falou: “Não, é isso que eu quero. Vocês vão conseguir sim, é que eu preciso dessa casa rústica”. Ficou a casa até hoje, graças a Deus, são passados 30 anos e ainda encanta as pessoas, criou uma harmonia muito boa no espaço e uma energia muito bonita porque há pessoas que me dizem: “Márcia, você está a 30 metros do coração da cidade, 30 metros da Avenida do Contorno. E você entra aqui é como se você se transportasse para o universo de origem nossa”. Então isso comove muita gente, em uma cidade que virou cosmopolita. O mineiro é muito apegado às raízes e o turista, de modo geral, também deseja, ele tem uma imersão. Há momentos curiosos em que eu vejo pessoas, de fato, se emocionarem, se emocionarem, assim, porque lembraram da avó, da mãe, enfim. Então, esse lugar tem algo que diz, a casa diz, a cozinha diz. Eu acho que era o grande desejo de mamãe, então ela fez uma coisa que ela sabia o que estava fazendo e ela permanece acontecendo, mesmo com ela, agora, à distância, não é? Então é um pouco da história da casa e da nossa cozinha. Esse passou a ser meu lugar, curiosamente, o que não era, eu não tinha a menor proximidade. Mas os contrários se atraem, porque o contrário de mim, virou eu própria. Há uns cinco anos - por volta disso - eu tomei conhecimento de um fogão ecológico que um mineiro estava fazendo, porque uma coisa que era sempre perguntada a ela: “E o fogão a lenha, que é tão da alma do mineiro, onde é que ele fica?” Ela falava: “Aqui não pode ficar”. Eu estou no centro, por exemplo, esta casa está na Savassi, as pessoas vêm de terno, de gravata, vão para uma reunião, fogão provoca fuligem, fogão pede um lugar para ele, pede um ambiente, ela achava que seria desequilibrado ter um fogão a lenha em um ambiente como esse. Eu dou razão a ela porque, de fato, emite muito calor, muita fuligem. Mas, passado um tempo, eu tomei conhecimento desse estudo que um mineiro estava fazendo, de fazer um fogão a lenha, de transformar, ele estava interessado em uma nova tecnologia do fogão a lenha, então é o ecofogão. Eu achei isso curiosíssimo e falei: “Gente eu vou tirar um buffet e vou misturar os pratos, que não vai dar para ficar tudo da fazenda no fogãozinho a lenha”. Aí, eu fiz uma certa confusão com esse conceito dela, mas, por outro lado, eu agreguei um valor muito grande, porque a gente pôde ter um fogão a lenha, que era sempre o sonho dela. Ao menos como demonstração, ele não emite fumaça, não emite calor, então ele tem a graça e a lembrança da importância do fogão a lenha para a nossa cultura. Aí eu fiz e liguei para ela. Nessa época, ela já não estava muito frequente aqui, já um pouco afastada por razões de saúde, eu falei: “Mãe, eu estou pondo um fogão a lenha aqui”. Ela falou: “Onde?” Eu falei: “No salão”. “Uai, mas como? E a fumaça?” Eu falei: “Ele não tem”. “E o calor?”. “Não tem”. Ela ficou meio sem compreender, mas ela confiava em mim. Aí, um dia, ela foi chamada para fazer uma entrevista aqui, eu deixei o fogão aceso, lindo, cheio de pratos, ela entrou, foi das emoções, assim, que eu acho fortes que eu tenho, que tem coisa que você tem aquele flash de lembrança de uma pessoa, de uma situação, de um contexto, essa ficou tatuada em mim. Ela tinha os olhos azuis muito grandes, quando ela entrou e viu o fogão aceso, dentro do salão, foi muito comovente, porque ela ficou assim, já foi rodeando o fogão e olhando, mexendo nas panelas e falou: “Márcia, como é que pode isso?” Porque da geração dela a cozinha é cheia de picumã. Cora Coralina tem um poema belíssimo, que chama “Todas as mulheres”. E ela trata da mulher cozinheira e fala: “Cozinha pretinha, toda cheia de picumã, taipa de lenha....”. Enfim eu rompi um pouco o conceito em parte, que a gente sabe que a cozinha de Minas tem, de fato, essas duas vertentes, tropeira e fazenda... Eu agora juntei as estradas, entendeu?

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