Busca avançada



Criar

História

O construtor de sonhos

História de: Sergio Gomes da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/06/2020

Sinopse

Em seu depoimento, Sergio Gomes conta sobre sua infância e adolescência em São Paulo, lembra de primeva vocação para o jornalismo, fala de sua ligação com o movimento estudantil – primeiro como secundarista e depois como universitário – e o início da militância no Partido Comunista. Relata a proximidade que manteve com Vladimir Herzog, recorda do dia terrível que culminou com o seu assassinato, das lições que o episódio deixou, e relembra os trâmites que redundaram na criação, em 2009, do Instituto Vladimir Herzog.

Tags

História completa

Pais portugueses

Meu pai [José Maria da Silva] era agricultor em Portugal, veio para cá com 23 anos de idade, no meio da Segunda Guerra Mundial, em 1942, 1943. Veio trabalhar, primeiro, ajudando a descarregar o próprio navio, depois trabalhando como entregador de gelo, aquelas pedras de gelo, porque os bares não tinham ainda geladeira; depois foi trabalhar em posto de gasolina, vigilante de estacionamento, foi cobrador de bonde, depois trabalhou como empregado num bar, depois veio para São Paulo, trabalhou, o patrão dele virou sócio, ele manteve um bar na Rua da Glória, do lado da delegacia de polícia, num terreno que não existe mais, que é onde passa ali a Radial Leste, então não é que a casa desapareceu, o terreno desapareceu. E ele trabalhou sete anos direto, sem folga, nem sábado nem domingo, nem férias nem nada, para juntar dinheiro e voltar para Portugal para se casar com a minha mãe. Aí casaram-se no dia 15 de dezembro de 1948 e nove meses depois eu nasci, portanto eu fui feito no furor da primeira noite. E aqui, depois, ele volta, trabalha ainda com bar, e resolve fazer parte de sociedade e ter um hotel. Então, basicamente, ele era uma pessoa do ramo da hotelaria, pequenos hotéis populares. Ele até ganhou uma medalha como mais longevo dos hoteleiros de São Paulo.

A minha mãe é Adelaide da Conceição Gomes Bidarra, nascida na mesma região, que é a Beira Alta lá de Portugal, perto da Serra da Estrela, também filha de uma grande família, uma família numerosa que trabalhava no campo, que eram trabalhadores rurais sem-terra, aquelas terras são de famílias, tantos dos que trabalhavam quanto dos que eram proprietários. E trabalhou no campo com a ajuda da família, atividades domésticas, casou-se com meu pai, veio para cá e a vida dela foi ser rainha do lar. Ela ainda está viva, tem 97 anos. No caso da história do lado do meu pai, a história para em algum ponto, a ponto de que a minha avó não tinha nem sobrenome, isso era comum quando a pessoa era filha de alguém que não tinha se casado, não sei, gerado nos desvãos dos lupanares. No caso da minha mãe, um lado era Gomes e outro lado era Bidarra. E esses Bidarra vieram da região basca, que era um pessoal bem diferente da família do meu pai. Enquanto a família do meu pai era uma família de gente muito melancólica, pessimista, trabalhadores, mas nunca faziam festa. Meu pai dizia que não adiantava fazer festa por causa de uma vitória porque se deu certo é porque vai dar errado. As festas eram só de aniversário, Natal, essa coisa. Enquanto o lado da minha mãe não, o lado da minha mãe era um pessoal muito interessante. Eu me identifico, evidente, mais com o lado da minha mãe.

 

Futebol no campinho

[No bairro paulistano do Brooklin] você tinha várias casas, a maior parte de casas térreas, muito terreno baldio esperando ainda construção, e a minha rua, rua Georgia, tinha em frente uma família, Moretti Guedes, que eram 16 filhos, em frente morava o Mário, depois tinha uma outra casa, que era do José Flávio, do Dito, eram 10 filhos, cinco mulheres e cinco homens, tinha na esquina o Paulinho, ali o Sérgio, na travessa ali da [rua] Nova York tinha mais três irmãos, o Cícero, o Fábio e o Eduardo, eles eram gêmeos, tinha o Garutti e o irmão do Garutti, então nós tínhamos uma turma, turma da rua, jogar bola e tal. Com ajuda de um grandão, do Moretti Guedes, a gente construiu um campinho de futebol, ali do lado da minha casa. E era o nosso time, time da Georgia, então jogo entre nós e jogo contra o time das outras ruas, a Kansas, a Texas, a Nova York, Luisiania e tal. Vida de molecada na rua.

[O futebol] era a principal diversão. No meu caso, a principal diversão era fazer os campinhos de futebol, quer dizer, eu nunca fui um bom jogador, eu era meio grosso. E isso acabou porque a gente usou esse campinho acho que um ano, um ano e pouco, mas aí construiu lá umas casas, e a gente teve que arrumar um outro terreno baldio, trabalhar, preparar o campo e tal. Aí mais um ano, um ano e pouco, construíram uma casa no lugar, fomos para o terceiro. Fizemos uns quatro campinhos. E eu fui me dar conta, muito recentemente, que uma parte da minha vida sempre foi isso: eu nunca disputei nada com ninguém, eu sempre fui para o campo, para terreno baldio, que ninguém dá nada por ele, e aí trabalhar e o meu prazer não era bem jogar, era ver jogar. Ver os outros jogarem. Tinha a escola, que a gente ia a pé, para Avenida Santo Amaro, Escolas Agrupadas da Vila Olímpia.

 

Lição das ruas

Montamos uma caixa amarela para quem quisesse fazer qualquer contribuição para o jornal de artigos, ou sugestões etc.; e ficava no pátio, porque a escola trabalhava de manhã, de tarde e de noite e a gente não estava lá o tempo todo. Então tinha essa espécie de site, para colher sugestões. Bom, o fato é que começaram as passeatas, e numa delas o Dudu [Ricardo Gradilone Neto], eu, não sei mais quem, nós fomos acompanhar uma passeata que foi no centro da cidade, violentamente reprimida, isso em 1968. E essa passeata se reagrupou no que hoje se chama Largo da Batata e ela segue pela Teodoro Sampaio até a altura da Benedito Calixto, e nós não estamos lá com militantes, nós estamos lá como repórteres estudantis. Quando chega ali na esquina do cruzamento da Benedito Calixto, da praça com Teodoro Sampaio, a polícia tinha aplicado o método que tem sido muito usado hoje, que chama envelopamento, que é proibido por lei, mas você tem uma manifestação pacífica e vem a tropa de choque atrás, não reprime ninguém, mas impede que você recue, vai acompanhando. Até que você chega num lugar em que a polícia cercou o resto, aí você fechou, e aí você joga bomba sem deixar rota de fuga.  Isso é proibido em qualquer parte do mundo, mas Israel faz isso com, sobretudo, os palestinos. E quando agora abasteceu aqui o governo do estado com novos equipamentos, “Brucutus” etc., etc., junto com esses equipamentos comprados de Israel veio também a capacitação para a tropa da PM. Isso tem sido feito aqui. Sistematicamente. Bom, estamos lá e de repente tinha uma placa, estavam construindo daquela agência do Bradesco, que fica na esquina da Teodoro com a Benedito Calixto. E eu olhei para placa e vi bomba, eu olho para placa e a placa tremia e apareciam umas manchas, e eu ainda não tinha me dado conta que era a polícia do lado de lá atirando; isso eram balas, possivelmente balas de borracha talvez, sei lá. O fato é que uma delas pega na cabeça do Dudu, exatamente aqui no risco do cabelo, sangra tudo. Pega o Dudu, leva ele lá para o pronto-socorro do Hospital das Clínicas, e eu ainda fico por ali, e vem de lá um tubo, uma bomba de efeito moral que fez um barulhão, bem em frente àquela padaria que fica ao lado de um teatro que foi importante para a música nova aqui em São Paulo, o Lira Paulistana. Ainda não existia o Lira, mas foi exatamente ali, naquele ponto. E veio esse tubo, ele explodiu, saiu uma fumaça rosa-choque, depois vim saber que quem inalasse aquilo ficava com caganeira durante dois ou três dias, era uma espécie de laxante, acho que por isso que chamava bomba de efeito moral, para desmoralizar o cara, ficar cagando em casa. Veio aquele troço, ele rolou, e eu resolvi pegar esse tubo e atirar de volta contra polícia – a cena clássica de gente desarmada devolvendo o troco de uma munição já gasta. Mas o fato é que aquilo estava quente e eu queimei a mão. E aí eu vi esse tubo rolando, até que ele para, e eu vejo no rótulo desse tubo, dessa bomba, o símbolo da Aliança Para o Progresso, aquele logotipo, que foi uma coisa que veio depois o golpe de 64 e que estava associado sobretudo à área de educação e alimentação, saúde, negócio de remédio, merenda... Teve um acordo entre o governo brasileiro, depois do golpe, e os Estados Unidos chamado Aliança Para o Progresso. Mas eu não sabia, eu sabia mal, mais ou menos que isso existia, mas eu não sabia que estava financiando [a repressão]. Então ali naquela hora, foi aí, não foi no outro lado, não foi ninguém falando comigo, nem lendo, nem assistindo filme, isso foi ali, que essa relação de ditadura a serviço do imperialismo estava ali, ninguém precisa me explicar mais nada. Alguém dava ordens para mão que apertava o gatilho que pegava na cabeça do Dudu. Essa coisa ficou redonda para mim nesse dia e nunca mais saiu. É isso mesmo, tá certo? A ditadura não é ditadura em si mesmo, ela está sempre a serviço. Se você tem um modelo econômico que ele é inaceitável, ele não é palatável, você só consegue impô-lo à custa de acabar com a democracia, dar porrada e obrigar as pessoas. É assim.

 

Perpetuação da vida

Estou falando de quatro anos de ECA [Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo]. Mas eu fui responsável pelo departamento de imprensa do centro acadêmico dois anos e departamento cultural, mais um ano. Eu entrei no vestibular de 69, então 1970, 71, 72 e 73, foram os quatro anos que passei lá, eu saí no final de 1973. Não tinha nada, a imprensa universitária, estudantil, tinha acabado. Grande parte dos centros acadêmicos estava à matroca, uma parte boa dos professores importantes tinham sido cassados e muita gente que tinha ficado estava acoelhado. Essas coisas da atividade cultural, artística, música, cinema etc., praticamente tinham acabado. Então, depois dos calores todos de 68 veio pega para capar de 69, que é esse ano que eu estou no cursinho, de fazer o terceiro colegial, o terceiro clássico, e cursinho. Eu não peguei a universidade em 1969, mas 69 é quando matam todo mundo, fecham, é o ano em que se cria o DOI-Codi, é o ano barra. Eu não peguei esse ano. Quer dizer, quando a gente entra já era a paz dos cemitérios. Tudo calado. Me lembro que logo no começo, acho que março ou abril de 70, estava tendo aula e tal, eu fui ao banheiro e vi lá fora uma [perua] C14, que era do DOI-Codi, saindo de lá uns três ou quatro caras enormes e trazem um fulano todo machucado, fodido. Eles entram por aqui, sobem até o primeiro andar, vão com ele até lá perto de uma sala, vão pelo outro, sobem, descem e saem. Tipo um recado: “Olha, não se metam porque você vê, é isso que vai acontecer”. Depois eu acabei encontrando a pessoa que testemunhou isso também, o Luis Milanesi... Não sei onde é que vai dar isso aqui, eu estou percebendo que isso aqui é o grande começo de uma "confiter", não é assim, uma confissão? Mas algumas coisas era preciso, e é preciso, que sejam checadas antes que eu morra ou que os caras de quem eu estou falando morram, porque em alguns casos parece mesmo que eu inventei esse passado, coisas que só eu vi. Por exemplo isso, eu estava sozinho, vi os caras do DOI-Codi trazendo [o preso], o cara estava fodido. Quando chegou no debate recente que teve na ECA, sobre os 50 anos do golpe, o Luis Milanesi, que era secretário do Centro Acadêmico, ele confirma: "Sim, entraram os caras". E eu sei que para que uma coisa seja considerada um fato histórico na base de história oral, de depoimentos, você tem que ter pelo menos três depoimentos que [o confirmem]; que haja uma área de consistência de três pessoas que não combinaram entre si, e aí você diz assim: "Isso realmente aconteceu". Às vezes errou o dia, o mês, mas o fato aconteceu. Então uma parte grande dessa história recente não foi contada. Porque eu participei ativamente de uma organização que não existe mais. Entendeu? E grande parte dos que participavam dessa organização aderiram e ficaram com uma lembrança meio caricata da sua juventude, meio tirando sarro do que era. Eu, não. Eu continuei. Uma parte das bobagens que foram feitas e que levaram à desgraça, eu cantei essa bola porque eu tinha tido ajuda de gente que sabia mais e estava ligado. Ou seja, para fazer política você tem que ter razão. Você tem que ter força, representatividade, e você tem que ter astúcia. Você tem que fazer com que o inimigo venha jogar no terreno que te seja mais favorável, não se você cair na dele. No caso da luta armada, é evidente: se você vai para a luta armada, esse exército todo, esse aparato, e qualquer grupo que se metesse a besta a correlação de forças seria desfavorável, absolutamente. "Ah, mas como é que você sabia disso?" Então vamos, pega lá. Pega aqui o urso e o jacaré. Vamos lá, brigar os dois, quem ganha essa briga? Quem ganha? [Depende, se for na terra ou se for na água.] Exatamente. Então não é apenas você ter razão e ter força. Ter razão e ter força e a nossa proposta é que essa luta viesse a se dar no plano da política, no plano da cultura, no plano da relação civilizada, sem preconceito com ninguém, inclusive com os militares. Venham. Ou com a igreja. A igreja não ajudou dar o golpe lá em 64? Ia ficar estigmatizada para sempre? Não, venha para cá e aprenda com a vida. E se de repente você ver que está com a visão estreita, também se aprende com outro. Não é verdade que você só aprende com os aliados, você também aprende com os adversários. Então vai para luta armada? Nós teríamos morrido. Eu não estava aqui. De alguma maneira, uma parte da minha vida se resolveu porque não acreditava que eu ia viver tanto. Sinceramente, 70 anos, ter filhos, netos, isso nunca... eu achava eu ia morrer logo. Essa disponibilidade de mim mesmo, tão logo eu pude ter, me fez talvez um cara sem nenhum tipo de melindre. Se nós três estamos discutindo uma coisa, eu tive uma ideia, vocês estão de acordo, mas quem tem condição de implantar essa ideia é ele, não sou eu, porra, qual é o problema? Se você trabalhar com a ideia de que a vida tem fim, toda a vida tem começo, meio e fim, mas poderia a vida não ter fim. Que cada um de nós durante a sua vida, durante o temporário da sua vida, contribuísse para que a vida continuasse. Eu acho essa uma dimensão legal da vida. Quando o cara faz um poema, ou bate uma foto, ou organiza uma instituição, uma coisa que fica, ele está de alguma maneira estendendo a sua vida. Está fazendo com que ela não morra com ele. Ele fica, de alguma maneira. Não apenas na memória dos filhos, mas também nas obras que ele deixa no mundo. E essas obras, grande parte delas, não serão reconhecidas. É preciso que as pessoas saibam que não é verdade que o mais importante é você ir e meter a assinatura embaixo, isso não tem importância. Esses caras que fazem questão disso, muitas vezes deixam de fazer porque não seria com a porra da autoria dele, o que é um erro.

 

A revista “Visão”

Como é que ela [a revista] circulava no nosso meio? Porque a gente tinha uma política, e eu me orgulho de ter sido um dos empenhados nisso, de fazer boas relações com os gráficos, seja a gráfica da Reitoria [da USP], seja a gráfica do IPT. Então, quando ficavam pronta essas matérias importantes da revista “Visão”, eu já pegava um exemplar, levava para o IPT, fazia "plastic plate", imprimindo com foto e tudo mais, em geral a gente fazia com papel sulfite colorido, para ficar claro, e imprimia, grampeava, e depois vendia como se fosse um separata dessa matéria. Fizemos isso com várias matérias da “Visão”. Eu ainda vou descobrir algumas dessas edições complementares. Aí a “Visão” tinha produzido uma análise sobre a crise política e cultural que nós não seríamos capazes de fazer. Não tinha nenhum comitê central, comitê estadual, comitê universitário capaz de produzir. Esse intelectual coletivo não era capaz de produzir um documento como era possível de ser produzido na “Visão” com o Vlado podendo mover não sei quantos repórteres. Ele juntava tudo isso. "Ah, mas isso aí ninguém vê, porque a ‘Visão’ é vista só pela elite econômica.” Tudo bem, mas nós vamos reimprimir e distribuir para nós. E aí o tal dos grupos de estudo, que aconteceu de fim de semana, eles funcionavam como uma sementeira: então teve muita gente que aprendeu com a “Visão” sem ter nunca comprado um exemplar, que aprendeu com o Vlado sem saber que era ele, porque ele não assinava, ele era o editor. Evidente que ele gostava. Mas nós não estávamos fazendo ali em troca de nada, não era depois pedir favor para ele dar a carta de cobertura. Fazia parte. O princípio da solidariedade concreta não é só negócio de falar, é a visita, é passar na porta do cara para saber se está tudo bem, é o fulano de repente estar desempregado e arrumar um jeito de, sem humilhar o cara, arrumar um emprego para o fulano. Também tem isso. Aí aparece um convite, de onde veio o convite? Opa. Um falou bem para o outro, que falou para outro...

 

Marcas da tortura

Vamos lá nas duas coisas; uma, do ponto de vista pessoal. Na semana que antecedeu a morte do Vlado – eu fui preso dia 5 de outubro, eu fui sequestrado, eu e o Waldir Quadros, no Rio de Janeiro. Essa história está contada no depoimento que eu dei para a Comissão da Verdade. Bom, aí fui preso pela Polícia do Exército, depois transportado para São Paulo, com um simulacro de fuzilamento na Baixada Fluminense, ao final ele chega aqui, passa no DOPS, trocam a chapa e vou para o DOI-Codi. E eu chego no DOI-Codi dia 5 de outubro, 20 dias portanto antes [da morte de Vlado]. Esses 20 dias são os 20 dias em que mataram o [José] Montenegro [de Lima], o Magrão, mataram o tenente Almeida, mataram um jornalista chamado Bonfim, e outros teriam sido mortos. Em algum momento, eles tinham uma lista dos que não mereciam sair daí. E eu sabia, por conta do AVAD, Ação Violenta com Alvo Definido, pelas coisas que eu fiz, como é que eu fiz etc., que eu estava nessa lista. Eles, se pudessem, não me devolviam, não teria julgamento, eu seria eliminado. A forma de eliminar era essa de auto de resistência: tentou fugir, não conseguiu, com eles tentaram com Alexandre Vannucchi, que tentou fuga e foi atropelado por um caminhão – enfim, aquelas farsas de praxe, que eu sabia como funcionavam. E aí a minha principal preocupação se dava pelo fato, já disse isso, dei lá no depoimento, quando passaram a me torturar sem capuz, em que eu podia ver as pessoas que estavam me torturando, uns cinco ou seis. Isso era uma merda porque eu poderia ser eliminado em seguida por liquidar com arquivo. E eu ainda falava que não estava vendo direito nada, porque eu tenho quase dez graus de hipermetropia. Mas eu não sei quanto de gente de fora é capaz de saber quanto de deficiência visual a pessoa possa ter. Adicionava isso o fato de que eles passaram a não ter qualquer preocupação de colocar um feltro, porque nos dois sistemas que eles têm lá, os mais comuns é o tal do “pau de arara” e o outro “cadeira do dragão”, em que você fica amarrado e levando choque, acorda, vai rasgando a tua carne, tanto nos tornozelos quanto nos pulsos. E eles, para não deixarem marca, eles passam feltro e o dão choque. E você não tem uma "marca". No meu caso, eles passaram sem ter mais preocupação de botar essa porra, e eu estava todo sangrado. Falei: “Porra, vão me foder”. Aí, a certa altura, coisas surrealistas, tipo uma noite inteira, quando descobriram que eu era amigo do Dom Paulo [Evaristo Arns], que a gente tinha feito [a missa pelo] Alexandre Vannucchi, o ódio que eles tinham do Dom Paulo era uma coisa impressionante. Ódio, ódio profundo. Chamava de veado, que eles tinham fotos desse veado com garotos de programa, eles chegaram a fazer isso na época, umas fotomontagens, você chegou a ver isso? Eu nunca vi, ouvi falar, mas nunca vi.

E teve uma noite inteira que foi uma cena parecida com no Abu Ghraib, que é você, de capuz, ficar de braço aberto o tempo todo; se o braço cai, eles dão porrada. E ninguém aguenta ficar muito tempo de braços abertos, é uma tortura. Sem sono, essa coisa. Boca cheia de sal, não dá água, tortura é uma merda. Além do que eu vinha do Rio de Janeiro porque no pau de arara lá eles tinham me quebrado essas cinco costelas com caibro, aliás está doendo essa, é porque vai chover. É exatamente aqui. A sensação que eu tinha é que eu ia ser eliminado. E tem uma hora que eles me trazem, eu sem óculos, um papel, que está escrito aparentemente com a minha letra uma declaração de que eu vou receber um caminhão de armas dos Tupamaros, às três da manhã, em frente ao portão número 2 do Estádio do Morumbi. Olha, não tinha nada de contato com tupamaro, montonero, porra nenhuma. Mas você imagina o que é três da manhã, portão número 2 do Morumbi, tentou a fuga aí... e pronto. E que eu assinasse. Falei: “Porra, isso é uma... caralho, eu estou ficando doido? Caralho”. Porque você vai ficando alucinado, sem beber, com boca cheia de sal, os caras te botam asfixia com amoníaco, leva choque, o caralho, e depois uma parte do humor desse torturador, ele é completamente irracional, é surrealista, eles dizem coisas, você vai ficando sozinho. Falei: “Porra, mas por que caralho, se essa letra é a minha, por que os caras... Opa: eles me prenderam com a carteira de identidade de quando eu tinha 16 anos. E a minha assinatura mudou, é isso. E eles estão precisando... Então, quem inventou a minha letra desse jeito inventa também a minha assinatura, não vou assinar porra nenhuma”. Depois vim a saber que eles foram à ECA, foram à seção de alunos e pegaram o Edival, que era o secretário responsável pela seção de alunos, que depois foi muito tempo secretário da Ana Mae [Barbosa], do Museu de Arte Contemporânea, e graças a esse cara eu também estou vivo, porque ele, quando percebeu que tinham me prendido, e prendido o Morais, o [Paulo] Markun, [Frate] etc., que eram vários alunos da ECA, aí ele pegou todas as fichas que ele tinha, tirou de lá e levou para o carro dele. Quando foi lá o pessoal do DOI-Codi pedir as fichas, ele disse que só dava se tivesse uma autorização do reitor, que era o [Orlando Marques de] Paiva, que tinha sido eleito com o apoio nosso, dos estudantes. Aí os caras: "Que Paiva é o caralho". Entraram lá, vasculharam e não tinha, tanto é levaram o Edival lá para baixo, bateram nele e ele não contou onde estavam as fichas, porque eles iam atrás das fichas com a assinatura atualizada. Depois ele morreu, foi um dos primeiros caras que morreu de AIDS que eu conheci. Ele gostava muito de um chocolate da Kopenhagen, desse que tem licor dentro, caro para caralho, quase 20 paus cada um. Mas eu levei uma caixona para ele no hospital. “Vem cá, por que vocês não vão perguntar para a Maria [nome fictício, usado a pedido do depoente]? Pronto. Foi minha namorada, é do serviço secreto de inteligência de vocês. Pergunta para a Maria [idem] quem é que eu sou, o que eu faço, vocês estão inventando coisas a respeito e... vai lá.” Opa. Pararam um dia, não sei o que foram [fazer], voltaram novamente. O fato é que eu já estava na linha de eles torturarem sem capuz, sem preocupação de deixar marca, arrumando pretexto para que eu pudesse ser eliminado, dizendo que foi fruto de fuga. Quando eu estou numa cela forte e ouço alguém sendo torturado, e o cara que torturava, que interrogava, fala: "Quem são os jornalistas? Quem são os jornalistas?" Era o Vlado. Mas eu não sabia que era o Vlado que estava sendo torturado. Falei: “Porra, as prisões começaram no último dia de setembro, nós já devíamos estar em quanto, no final de outubro? Vai fazer um mês”. Aí então, no dia 25, eu ouço isso. Eu estou numa situação muito complicada. Se eu fosse dois ou três centímetros menor eu não sei o que tinha acontecido, porque eu estava alucinado de sede. Os caras me deixaram um tempão, vários dias sem tomar água e com sal na boca. Tinham me levado ao dentista lá do quartel do Segundo Exército, ali não mais no DOI-Codi, na delegacia; lá, me levaram para lá. A boca toda fodida, o porra do dentista meteu uma broca em um dente vivo aqui, de sacanagem, tinha dor que você não tem ideia. É alucinante. Bom, então a minha sensação é de que... Aí, de repente, para tudo. Remanejam as pessoas de um lugar para o outro e, no caminho, cruzo com o Davi Romeu, filho do diretor da Odontologia da USP, ele é médico hoje. E o Davi Romeu, que era da comunidade judaica, falou: "Apagaram o Vlado". Aí que eu soube que era o Vladimir Herzog que estava sendo torturado. E nessa hora, por conta de todas as sinapses, ou seja, de tudo que a gente ia fazer, eu falei: "Bom, estou livre. Estou salvo. Salvo. Eles não têm ideia do tamanho da encrenca que eles arrumaram matando o Vlado”. Isso tudo, claramente [me vinha à cabeça], dentro do DOI-Codi, na hora. Porque não teria ninguém pior para eles matarem. Se tivessem assassinado Rodolfo Konder, ou o Duque Estrada, ou a mim, nada disso teria acontecido. Eles tiveram o azar de pegar exatamente a pessoa mais importante entre nós naquele momento, que era esse diretor de jornalismo da TV Cultura. Recém-empossado. Depois de uma trajetória em que ele, como editor de cultura da revista “Visão”, ele tinha feito contatos com todo mundo da cultura, da ciência – ele não cobria só a área de cultura, mas também a área da educação. Nós estávamos falando de um cara que tinha estado em Londres, que tinha relacionamentos. O cara tinha uma vida que vem lá da Iugoslávia. Quer dizer, ainda que grande parte dos judeus aqui de São Paulo tivessem ido para direita, e agora mais ainda, o fato é que existe uma solidariedade de grupo dos judeus que é incontornável, ela teria que se manifestar.

[Ele salvou a minha vida.] Por isso meu telefone é 9****-1975, eu nasci de novo aí. Então eu tomei uma decisão: tudo o que estiver ao meu alcance, e que tenha a ver com o Vlado, eu farei. Não precisa ter Instituto. E isso não é em troca de nada. Se o Vlado não morre, eu não estava vivo. E não teria feito o que pude fazer.

 

Instituto Vladimir Herzog

O Instituto Vladimir Herzog foi criado para dar conta do futuro, mas não é um devaneio. Ele foi criado para levantar a memória do Vlado e dos seus contemporâneos; portanto, é preciso conhecer essas pessoas. Só agora se começa a conhecer quem é o Vlado jornalista, só agora. Tantos anos depois, não da morte dele, tantos anos depois da existência do Instituto, que nasceu para isso. Se ele é modelo? Eu acho que é, eu acho, acho mesmo. O Vlado tinha um humor muito cáustico, não era propriamente uma pessoa engraçada. [Gostava de] ficar tirando sarro.

 

Sonhos

[Quais são seus sonhos?] É não deixar morrer o que foi criado. Também não estou inventando nada. O futuro é engravidado pelo presente, não é isso? Uma coisa que quase morreu, mas não morreu, existe. Uma coisa que quase nasceu, mas não nasceu, não existe. Então eu tenho fugido como o diabo da cruz do devaneio. Eu quero ir para a criatividade real, ou seja, significa identificar com o máximo de precisão possível quais são as coisas reais que estão aí para que uma se apoie na outra, o tal do apoiar o que existe apoiando-se no que existe. Eu tive nesses anos a possibilidade de acompanhar os últimos anos de alguns amigos queridos, no caso o Audálio [Dantas], o outro Vicente Dianezi, o Ricardo Alves, um pouco; não tão de perto, mas um pouco, o Fernando Pacheco Jordão. E agora vejo outros, que estão nessa faixa dos 75, um pouquinho mais velhos do que eu, portanto eu já me vejo aí. Então tem muita grandiloquência, tal cara é do caralho, Audálio do cacete etc., e quando chega na hora do vamos ver, ninguém ajuda. Morreu cheio de dívidas, convênio médico não cobriu os remédios, que a Vanira vai precisar pagar. Os caras meteram o protesto nela, já está suja no Serasa, porque não pôde pagar os remédios que o [hospital] Samaritano deu lá. Aí eu fico pensando: o que vai acontecer de mim? "Serjão, porra, se mete nisso, tal e tal, faz tudo pelos outros, não pede nada"... Tudo verdade, e eu me sinto bem assim. Ninguém me deve nada pelo fato de eu ter sido assim, é fato. Mas toda vez que a situação aperta efetivamente, o que eu vejo é que as pessoas escapam para um tipo de declaração mais geral, e mesmo coisas que sejam o trabalho mesmo, porque eu vivo do meu trabalho – como eu disse aqui, não tive nada, não tive cargos, não tive poder, não vim de família rica, nada disso. Foi sempre uma vida muito modesta, eu sou um cara barato, eu me divirto comigo mesmo, não precisa de muita coisa. Então meu sonho seria: como é que nesse quadro tão adverso criar algumas condições para que a Ana Luiza fique bem, que o meu filho tenha algum tipo de apoio, e eu não gostaria de morrer tipo objeto da caridade, solidariedade dos outros, eu acho isso indigno. Eu queria morrer de tiro, cair um avião, trombada de automóvel. Eu não queria uma longa terminalidade, acho isso indigno. Eu sempre fui saudável. Então quais são os sonhos que eu tenho: eu queria que algumas coisas que começaram terminassem. Eu tenho um sonho, sim, que o auditório [do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo], Espaço Vladimir Herzog, vá se constituir num centro de imprensa, num “coworking”, para reunir ali todas as entidades que têm a ver com os jornalistas e os jovens. Eu acho um absurdo que um lugar central, patrimônio dos jornalistas desde antes do Audálio, a esquerda nunca botou um azulejo ali, aquele prédio, aquele andar, é conquista do Freitas Nobre, Tuma, é a turma lá de trás. Tem um auditório plano com mais de 95% do tempo ocioso, perto do metrô, perto da [avenida] Paulista, um lugar cheio de história, não botar ali um wi-fi, umas mesas, para que aquilo fosse um lugar de apoio para os jovens que estão em começo de carreira, ou os coletivos que não têm hoje grana para poder bancar o aluguel, que é caro. Aluguel aqui em São Paulo, quem é cabeça de sardinha como eu, que sempre banquei os meus projetos, nunca teve dinheiro anabolizante nenhum, tem o pessoal que fez coisas como rabo de baleia, dirigir grandes instituições e tal, aí eu digo, até eu, eu saberia. Mas eu sei que tem que ter a receita para pagar a despesa. Tenho uma aposentadoria de 1461 reais, não tem o negócio de anistia – a sentença a respeito disse que eu só fui perseguido durante três anos, e, portanto, não merecia mais do que acho que 20 salários mínimos, uma coisa assim; pagaram, que foi mais ou menos o tanto que eu gastei com advogado. As coisas em que eu me meti hoje estão fora de moda. Democracia, direitos humanos, grande parte das empresas considera isso como uma... não querem se associar a essa marca, dizem que isso pega mal, sabia disso? Tinha um cara que o Ivo [Herzog] contratou, ele visitou acho que quase mil empresas apresentando os projetos do Instituto, não conseguiu um único. Zero. As empresas disseram que "não, não, esse negócio de direitos humanos não pega bem". Então democracia, diretos humanos, solidariedade, mas o que vai dar, não sei. Eu tenho que pensar nisso. Eu queria pagar as minhas contas, pagar as minhas dívidas com as pessoas, queria concluir alguns projetos, um deles é esse do Espaço Vladimir Herzog, o outro é dar sustentabilidade ao projeto Repórter do Futuro, que se mostrou efetivo para ajudar a formar pessoas. Cruzar esse projeto com o Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão. Somar essas coisas, fazer esse trabalho. Manter a minha feijoada lá das quartas-feiras, que tem sido uma alegria ver as pessoas se encontrando, se reencontrando. Esse remanso na cidade, eu acho que ajuda. Não resolve, mas ajuda.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+