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História

O conselheiro ancião

História de: Oswaldo Pastore
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/04/2013

Sinopse

Em entrevista cedida ao Museu da Pessoa, para o projeto Museu do Santos Futebol Clube, em dois de março de 1999, Oswaldo Pastore relembra fatos da sua vida e relações com o clube. Passando pela infância, pela construção de sua família, por quando se tornou sócio do Santos e consequentemente a história do clube. Pastore desfila por elementos que construíram o Santos Futebol Clube, desde desfiles de carnaval a cadeiras de sócio-especial na Vila Belmiro.

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História completa

P/1 – Poderia nos dizer o seu nome?

 

R – Eu me chamo Oswaldo Pastore.

 

P/1 – A data do seu nascimento e a cidade em que o senhor nasceu.

 

R – Nasci no dia primeiro de setembro, de 1917, cidade de Santos, estado de São Paulo.

 

P/1 – Então, o senhor nasceu na cidade de Santos?

 

R – Sim, em Santos.

 

P/1 – Qual o seu endereço?

 

R – Moro na rua Jorge Tibiriçá, número 19, apto 41.

 

P/1 – Qual o bairro?

 

R – O bairro é Gonzaga.

 

P/1 – O senhor sempre morou em Santos?

 

R – Sempre morei em Santos.

 

P/1 – A sua família também era de Santos? Seus pais...

 

R – Meus pais eram de São Paulo, minha mãe era italiana.

 

P/1 – Qual o nome do seu pai?

 

R – Se chamava Vicente Pastore.

 

P/1 – O senhor se recorda da data de nascimento dele?

 

R – Eu sei que foi em 29 de abril, agora de que ano... Não sei... Foi em 1.800 e não sei quanto. Agora não sei.

 

P/1 – Tudo bem, não tem problema.

 

R – E esse vai ser difícil de arranjar. Eu não tenho nada dele. Morreu em 1930. Morreu em dois de março de 1930. O dia de hoje... Foi o dia que ele faleceu.

 

P/1 – Qual era a atividade dele?

 

R – É... Tinha... Casa de jóias. É... Chamava Pêndula de Ouro...

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – É Emanuela Pierre Pastore.

 

P/1 – O senhor disse que ela era da Itália.

 

R – Era da Itália. Veio com... Ela veio com um ano.

 

P/1 – O senhor sabe em que cidade ela nasceu? Região...

 

R – Não sei, mas acho que é Tramutola. Não sei se é cidade ou...

 

P/1 – E a sua família era muito numerosa? O senhor tinha muitos irmãos?

 

R – Eu era filho único.

 

P/1 – Naquela época era difícil das pessoas terem um filho único, né?

 

R – Era difícil mesmo. 

 

P/1 – O senhor é casado? Qual o nome da sua esposa?

 

R – É a Nair. Ela chama Nair Alves Pastore.

 

P/1 – A data do seu casamento?

 

R – Foi em 17 de julho de 1960.

 

P/1 – E a data de nascimento da sua esposa, o senhor sabe?

 

R – Ela nasceu em 13 de julho de 1928.

 

P/1 – Ela é daqui de Santos?

 

R – É... Não. Ela é de Formiga, Minas Gerais.

 

P/1 – Ela é dona de casa, ou...

 

R – Não, ela foi professora lá em Minas. Depois parou.

 

P/1 – O senhor tem filhos?

 

R – Tenho dois filhos.

 

P/1 – O mais velho, como ele se chama?

 

R – Ele se chama Oswaldo Pastore Filho.

 

P/1 – Qual é a data de nascimento dele?

 

R – Nasceu em 24 de agosto de...

 

P/1 – Estou vendo que o senhor é bom de datas...

 

R – (risos) Eu já fui, agora... Ele nasceu em 24 de agosto de l962.

 

P/1 – E qual a atividade dele?

 

R – Ele tem um xerox lá em Brasília. O outro filho é o Alfredo Alves Pastore.

 

P/1 – A data de nascimento dele?

 

R – É... Esse nasceu em 15 de outubro de 1966.

 

P/1 – E a atividade dele, qual é?

 

R – Ele trabalha na prefeitura.

 

P/1 – Agora vamos falar um pouco da sua formação escolar.

 

R – Estudei no Colégio Santista. O Municipal Santista, que era o Colégio dos Maristas, aqui em Santos, na rua... Ficava na rua Constituição. Pegou fogo... Mas eu já tinha saído. Foi depois que nós saímos.

 

P//1 – E lá o senhor fez?

 

R – Tudo, primeira sé... Fiz do primeiro ano primário, até o quinto ginasial. Foram nove anos lá no colégio.

 

P/- E... Tem uma pergunta aqui que... Intercala, mas... O senhor tem religião?

 

R – Sou católico.

 

P/1 – E como é que foi? O senhor terminou o ginásio...

 

R – Fui trabalhar. Fui trabalhar. Ia abrir o Banco Ítalo-Brasileiro aqui em Santos. Foi o meu primeiro emprego. E...  Ia abrir.  Iam inaugurar. Fiz uma carta, mandei pro gerente, e... Mandaram me chamar. E esse banco foi aberto em 26 de março de 1936.

 

P/1 – Foi o seu primeiro emprego?

 

R – Foi. Em 26 de março de 1936. Eu saí do colégio em dezembro de 1935 e em 1936 comecei a trabalhar. E aí fui embora.

 

P/1 – Continuou nesse banco...

 

R – Continuei no banco até... Até1950. Em 1951 fui pro Banco Moreira Sales.

 

P/1 – E o senhor começou como?

 

RT – Comecei como auxiliar, não? É, ia começar com qualquer coisa, que fosse contínuo, qualquer coisa. Mas aí o contador , que veio, mandou que eu escrevesse uns números, lá, pra ver se eu ficava, pois estava faltando um auxiliar de conta corrente. Então me pôs lá como auxiliar de conta corrente. Ganhava 150 mil réis por mês. Uns 150 mil réis.

 

P/1 – E era um bom salário?

 

R – Era um salário pequeno. Mas depois de três meses, como eu fui pra esse lugar, me passaram pra 250 mil réis. Acho que o gerente ganhava 1 500 mil réis, é. Meu gerente ganhava isso aí, mais ou menos. Uns 750, por aí. Os chefes de seção ganhavam 750.

 

P/1 – E em 1950 o senhor deixa o banco...

 

R – Em 1951 fui pro Banco Moreira Sales.

 

P/1 – Mas o senhor entrou como...

 

R – Não, pedi ... Não, já fui como auxiliar de gerência. Eu fui... Fui subindo, né... Aí fui chefe, fui subindo. Depois, ah, não me lembro. Só me lembro desses daí. Aí fui como... Bom, aí me puseram em... Como auxiliar de gerência. Mas aí, o Banco Moreira Sales... Eles falaram comigo, pra ir pra lá direto como contador. Isso foi em 1951.

 

P/1 - E o senhor ficou nesse banco até quando?

 

R – Até... Fiquei até 1979. Aí fui indo. Em 1957, no dia primeiro de julho de 1957... Não! Aí fui subgerente. Fui subgerente acho que em 1956. Acho que foi 56 ou... Agora não me lembro se foi em 1955 ou 1956. Acho que foi em 1955. E aí, em primeiro de julho  de 1957 passei pra gerente.

 

P/1 – E o senhor encerra a sua carreira como gerente?

 

R – Não, não. Aí em 1974, me puseram como superintendente de agência da Baixada Santista, que era o superintendente aqui que tomava conta das agências. Do banco era a agência de Santos, a agência do... Mercado. Agência de São Vicente, Guarujá e Cubatão. Eram cinco agências. Mas me deram pra eu ficar com a parte do café do banco inteirinho. Que eu tomava conta porque eu fazia tudo do banco. Lá era negócio de café, eu entendia... Eu que comecei no Banco Moreira Sales a fazer negócio de café, eles tinham de firma de café, que era do seu João Moreira Sales. Então eu comecei... Aí me puseram pra tomar conta de tudo. Ficava viajando muito. Comecei a viajar muito.

 

P/1 – Viajar pelo Brasil...

 

R – É... É. Não, não, por aqui. Só viajava por aqui. Era São Paulo, Minas e Paraná. Já era muito pra mim. E... Ia pra Catanduva, ia pra São José do Rio Preto, esses lugares todos aí, e... Ia para Jales... Enfim, tudo quanto é lugar que você pode...  Para Ribeirão Preto... Ia a todos esses lugares aí. Aí depois, eu não dava mais conta. Ou eu atendia a Baixada, ou atendia o café. Eu preferia ficar com a Baixada, mas eles não me deixaram. E me deixaram ficar no café. Então eu fiquei com o café, dois anos depois. E foi dois anos depois. Foi em 1976... Aí me deixaram com o café todinho. Mas em 79 eu já estava cansado, e o Banco do Comércio estava me chamando pra ir pra lá, que ia ganhar mais, não ia viajar mais, e eu peguei. Saí do banco e já estava com bastante tempo de experiência. Aí, me aposentei, primeiro disse que ia me aposentar, que já estava com 38 anos de serviço, então quis me aposentar. “Vou me aposentar e vou pra lá.” Mas aí não podia ir pro Banco do Comércio porque não saía a minha aposentadoria (risos). Aí fiquei até outubro, esperando, isso foi em agosto, é, em agosto. Até outubro fiquei esperando, pra sair a aposentadoria. Ia todo dia ao INPS, pra ver se o diretor lá não me chamava, né. Então, eu fui pra lá.

 

P/1 – Aí em 1979...

 

R – Em outubro de 1979 fui pro Banco do Comércio. Aqui, que era de Santos, o Lamaqui. Mas estava o gerente do Banco do Brasil, que era o Silvio, que foi gerente, foi ser diretor da... E morava no prédio, ih... Ele queria também que eu fosse logo pra lá porque eu tinha conhecimento, e tal... E fui.

 

P/1 – Ficou até quando?

 

R – Fiquei três anos justinhos. Em 83, eu fui pro Banco do Progresso, aí fiquei até 94. Trabalhei doze anos lá.

 

P/1 – Uma vida profissional toda no setor bancário.

 

R – É, porque estavam todos eles me chamando... Me chamavam e eu ia. 

 

P/1 – No Banco do Comércio o senhor ...

 

R – Aí foi vendido, o Banco do Comércio. Mas eu já tinha saído.

 

P/1 – Mas no Banco do Comércio o senhor era...

 

R – O gerente. É, o gerente. Mas não interessava pra mim. Pra mim, eu já era gerente e já estava muito bom, eu estava ganhando mais e não estava viajando. Entendeu? Eu já estava melhor, não tinha a responsabilidade que eu tinha com aquele negócio de café  de fazer aqueles negócios, e amanhã dar zebra e... E graças a Deus nunca tive nada. Problema nenhum. Sempre saiu tudo bem.

 

P/1 – E nesse último banco que o senhor trabalhou...

 

R – Eu era gerente, também. Gerente, Banco do Progresso... Mas estava aí... Santos, a minha terra.

 

P/1 – Aqui em Santos?

 

R – Sempre em Santos, nunca fora. Nunca quis sair daqui.

 

P/1 – Durante esse longo período, quais foram as principais transformações que o senhor viu?

 

R – Ih... Teve muita, teve demais. Era... Eu nem posso te falar, isso já nem sei... Teve demais, coisa bárbara. Ih.

 

P/1 – As mais marcantes, o senhor poderia dizer?

 

R – Essa do Collor foi demais, né. Essa do Collor foi... Loucura... Tiveram muitas... Eu já nem lembro...

 

P/1 – Mas como foi trabalhar em banco nesse período.

 

R – Ótimo. Ótimo. Muito bom. Ultimamente já não era... A turma meio... Era “sabidona”. Já diferente. Já não era mais a palavra. Antes a palavra valia tudo. Agora não. Já estava muito difícil trabalhar. Você precisava... Enfiar, né. Antigamente você podia confiar. Pedia pra pagar um cheque, chegava de tarde eles te pagavam. Só um telefonema... Hoje já não...

 

P/1 – Então, vamos falar de outras atividades que o senhor tem. Atividades associativas, associações, sindicatos...

 

R – Não, sindicato nunca me meti. Eu brigava (risos) com eles, brigava até com o presidente do sindicato por causa de negócio de horário, e tal, mas nunca quis nada de sindicato.

 

P/1 – Mas eu fiquei sabendo que o senhor é sócio do Santos.

 

R – Do Santos, bom, desde menino. Eu não era sócio. Meu pai morreu dia dois de março como eu estou falando, em maio a minha mãe foi... Não me agüentava já que eu queria ser sócio do Santos. Pagava cinco mil réis por mês. Aí o senhor Rui Negrão me pôs pra sócio. Conhecido do meu tio me pôs pra sócio.

 

P/1 – Então o senhor que insistiu?

 

R – Ah, eu queria, eu queria.

 

P/1 – Em 1930.

 

R – Em maio de 1930. Isso eu me lembro bem. Isso eu tenho certeza absoluta. Em maio de 30 eu fui... Aí já ia pra arquibancada, já era sócio... Antes, não... Antes eu não ia. Ficava atrás do gol naquela arquibancada de madeira, eu assisti Santos e Barracas, que eu disse que o Atiê defendeu tudo naquele dia, ganhamos de um a zero.

 

P/1 – Mas o senhor estava atrás de que gol?

 

R – O gol dos fundos, do coqueiro que tinha... Atrás.

 

P/1 – O gol dos fundos, hoje, o que é? É o placar velho ou novo?

 

R – É o placar novo.

 

P/2 – Então, se o senhor se associa em maio de 1930, e queria... O senhor acompanha o Santos há muitos anos.

 

R – Não, eu ia nos jogos... Às vezes pedia pra sair mais cedo, porque tinha os jogos, como Santos e Rampla Juniors, vinha aqueles...

 

P/1 – E o senhor assistiu a esses jogos?

 

R – Olha, teve um dia que eu fugi do colégio. Peguei três dias de suspensão. (risos) Para Santos e Rampla Juniors. Esse eu não me esqueço, rapaz. O marista lá, o padre me... Eu fugi na hora do recreio. Pra assistir Santos e Rampla.

 

P/1 – E qual foi o resultado do jogo?

 

R – O Santos ganhou, parece que de seis a um... Uma coisa assim.

 

P/1 – Valeu a pena! (risos)

 

R – Valeu! (risos). Peguei três dias de suspensão, rapaz. Não sabia como ia falar lá em casa. Saía, dizia que ia pra aula e não ia. Ia por aí, até a hora do colégio terminar. Três dias peguei de suspensão. Santos e Barraca  não. Aí eu fui. Aí eu já saí direito.

 

P/1 - E era sócio?

 

R – Não, não era sócio. Foi em 29 isso.

 

P/1 – Antes?

 

R – É. Foi naquele ano que foi o Campeonato do Mundo. Acho. Eu assisti Santos e Bela Vista. Isso foi em 32. O Santos ganhou de dois a um. O Renato de Souza Queiroz, ponta-direita, fez o gol  do Santos. Um campeão do mundo, ele era. O Santos ganhava de todo o mundo aí. Tantos jogos tiveram ali...

 

P/1 – A seleção do Uruguai parece que chegou aqui.

 

R – É, do Uruguai. Ah, esses time todos, eu não lembro, assim...

 

P/1 – A seleção da França, também veio...

 

R – Tudo, tudo entrava no couro aqui. (risos)

 

P/1 – Não importava de onde era a seleção.

 

R – O Santos tinha um time bom...

 

P/2 – E como é que era nessa época? Era amadorismo?

 

R – Amador, amador. Tinha o Siriri, tudo amigo, que era do... O Siriri, Camarão, o Araken...

 

P/1 – Eles eram amigos? Seus conhecidos?

 

R – Eu me dava com eles.

 

P/1 – E como é que era a relação...

 

R – O Camarão era... No banco, vivia lá. Já tinha cadeira cativa.

 

P/1 – A cadeira cativa dele era no banco...

 

R – No banco. (risos) No banco, era uma nota, o Camarão.

 

P/2 – E como era a relação dos jogadores entre si, sendo que não tinha salário, não tinha...

 

R – Era boa, boa. Mas acho que levava sempre alguma coisa. Arranjava emprego, né. Tinha emprego.

 

P/1 – Como emprego?

 

R – Ah, o Feitiço era um... O Feitiço não vinha de graça. Eles deviam fazer qualquer coisa. Eu não posso te falar porque eu não sou... Mas... O Oswaldo, irmão dele, eu lembro deles, mas, negócio de dizer... Não lembro disso aí... O Hugo, trabalhava numa firma de café. O Heirdane(?) parece que trabalhava... Tudo era empregado, trabalhava...

 

P/1 – E quando o profissionalismo começa a ser legalizado, no início dos anos 30...

 

R – Ah. Eu vi o primeiro jogo. Em 33, né. Não sei se foi Santos e São Paulo, como era o nome... Era Estudantes, né? O São Paulo não era Estudantes?

 

P/1 – Isso.

 

R – Agora estou lembrado. Eu acho que era Estudantes. Eu me lembro do primeiro jogo. Foi aqui na Vila Belmiro, o profissionalismo. Quando começou o profissionalismo.

 

P/1 – Que o Friedenreich jogou...

 

R – Ah, não. O Friedenreich jogou com o Santos, numa excursão que o Santos foi... Pro sul, né?

 

P/1 – Não, mas nesse jogo o Friedenreich não estava jogando contra o Santos?

 

R - Ah, jogou. Jogou muito contra o Santos. Eu acho que jogou... Agora não me lembro. Mas deve ter jogado.

 

P/1 – E como os torcedores, que já acompanhavam a trajetória do time há um tempão como amador, enxergam essa mudança? Eles estavam gostando? Dividiu a torcida? O que aconteceu? Eram indiferentes?

 

P/1 – Sabe como é... Tem uns do contra, mesmo. Mas a maioria estava favorável ao jogador ganhar, né. Acho... Tenho a impressão que era favorável.

 

P/2 – O senhor, por exemplo. 

 

R – Eu achava certo. Eu acho certo!

 

P/1 – E como é que foi esse campeonato de 1935.  (vozes/tumulto)

 

P/1 – O campeonato de 35 no...

 

R – Santos foi bem. Perdeu... Perdeu um jogo aí de oito a... Para a Portuguesa de Esportes. Logo de cara. Acho que perdeu de oito, no Pacaembu. Não sei se foi esse jogo. Mas depois foi bem.

 

P/1 – O senhor foi ver esse jogo?

 

R – Fui, perderam. Eu não perdia nem um jogo do Santos. Eu fui a todos, em São Paulo, em Santos e no Interior. Eu ia. Só até Campinas, né? Por que antigamente iam até Campinas.

 

P/1 – E como é que fazia para ir. Ia de trem?

 

R – Ia de trem. O Santos ia de trem, por exemplo. Daqui pra São Paulo eles iam no domingo, jogavam no Cometa, no trem das dez horas, chegavam em São Paulo... Era uma hora e quarenta de viagem. Chegavam em São Paulo e eles iam pra um hotel, descansar, almoçar, né? Já o que eles tinham combinado, e depois iam pro campo. Aí voltavam de trem, também. No mesmo dia, à noite, às oito horas da noite. Tinha um trem às oito horas. Terminava o jogo e vinham. Quantas vezes eu vim... Eu ia de trem com eles, mas depois ia com os amigos, né? Porque nós íamos andar por lá e depois íamos pro campo, pra assistir o jogo ou no Palestra Itália ou no... O campo que fosse. No Nacional, lá onde era o SPR, nesses campos qualquer do Corinthians então, cansei de ir... Lá na Penha. E eu ia de bonde, viu. Nós íamos de bonde. O bonde ia muito bem.

 

P/1 – Jogadores e torcedores juntos.

 

R – Não! Os jogadores iam de carro.

 

P/1 – Mas no trem?

 

R – No trem pra São Paulo ia de... No mesmo vagão, todos juntos. Eles tiravam tantas passagens, e iam.

 

P/2 – E o fluxo de torcedores pro...

 

R – Ia mais ou menos. No campeonato foram bastante.

 

P/1 – Em 1935?

 

R – Em 35.

 

P/2 – O pessoal foi?

 

R – No dia do campeonato tinha bastante mesmo. Diz que tinham bastante torcedores. Eu fiquei na arquibancada, com um amigo, o Marcelo, e o seu Sebastião lá, um amigão que nós tínhamos aí que gostava também do Santos, e gostava de ir. Nós íamos com ele.

 

P/2 – Então o senhor viu o Mário Pereira jogando...

 

R – Ah, sim. Nós chegamos a jogar bola juntos.

 

P/2 – Ah, é?

 

R – Eu cheguei a jogar, um dia.

 

P/1 – Como ele era?

 

R – Mário? Mário era um sujeito bom, boníssimo.

 

P/1 – Que posição que ele jogava?

 

R – Ele era meia–direita. Um grande meia, viu, jogava muito bem. Jogava aqui, antes de vir pro Santos, jogava no Paulistano. E eu jogava no Siqueira Campos. 

 

P/1 – Então vocês jogavam contra.

 

R – Jogávamos contra. Chegamos a jogar contra.

 

P/1 – Que posição que o senhor jogava?

 

R – Eu era ponta direita.

 

P/2 – Como o Garrincha.

 

R – Eu jogava um pouquinho. Gostava de jogar, jogava... Depois, eu joguei muito no Siqueira Campos, e no River Plate, um time que nós tínhamos aí também. Passamos pro River Plate quando o Siqueira Campos acabou e... Fomos pro River Plate. Jogamos bastante lá, bastante tempo. Era mais prova de honra que nós jogávamos. Tinha muito campo aqui, acho que joguei em todos os campos aqui da Baixada. Fui atrás da Santa Casa, na Alexandre Herculano, esquina onde hoje tem uma farmácia no canal da Washington Luís, lá tinha um campo bom, ali, aquele campinho era bom... Aqui no Parquinho da Marechal Deodoro, na Oswaldo Cochrane, ih... Aqui tinha campo demais, viu? Tinha um bocado de campo.

 

P/1 – E tinha muitos craques?

 

R – Tinha muito craque. Jogavam bem. Tinha bons jogadores.

 

P/1 – Muitos iam para o Santos .

 

R – Iam pro Santos, Jabaquara, Portuguesa, mas tinha bons jogadores.

 

P/1 – E eu queria voltar um pouquinho, em 26...

 

R – De 26 não posso dizer muito. Mas 26, que é que tem?

 

P/1 – O ataque dos 100 gols.

 

R – Seria uma... Estava Eumar, Camarão, Siriri, Araken , Evangelista . Depois veio... O Siriri, Camarão, Feitiço, Araken, Evangelista.  Esse Araken jogou bola pra chuchu, foi um grande craque. Chamava de Le Danger. O Santos emprestou ele pro Paulistano. Foi de lá pra Europa, né?

 

P/1 – Isso...

 

R – O Araken era muito amigo. Ele vinha muito aqui na Barraca, porque era muito amigo do Renato Pimenta.

 

P/1 – Quem é Renato Pimenta?

 

R - Morreu já. Ah, ele jogou no Santos. Irmão do Darli Pimenta. Que foi “back” do Santos. Foi Tofi, Bilu e Davi, depois o Atiê, Bilu e Davi. Depois o Davi foi jogar no Fluminense. Fui vizinho deles na Ana Costa. Quando meu pai morreu, eu fui morar na Ana Costa no número 46 e eles moravam no 48.

 

P/1 – Sobre o Araken, seu Oswaldo, como é aquela passagem da Copa do Mundo de 1930, que ele estava brigado, parece que ele estava brigado com o Santos e aí...

 

R – Ele brigou. Ele brigou com o Guilherme Gonçalves, o presidente. Agora não posso te dizer, não me lembro disso, francamente... Mas eu sei que ele brigou com o presidente. E ele foi embora. Saiu do Santos. Aí veio o Mário Seixas pra cá. Mário Seixas, um baiano, que era do Banco do Estado de São Paulo, um sujeito fora de série, gente boa. Um dia, estava em São Paulo, jogava Santos e São Paulo, ele já... Ele já estava em São Paulo. Nós estávamos perto de uma confeitaria, ali, na São João, e ele vai lá, come doce, e ia jogar à tarde. Você vê. E era gordão, mas era um elástico. O homem jogava bola. Esse jogava. Ficou no lugar do Araken. Depois o Araken voltou pro Santos.

 

P/2 – E a torcida sentiu muito essa saída do Araken.

 

R – Claro, sentiu, né? Sentiu. Gostavam dele. Araken era querido.

 

P/2 – Tinha uma identificação toda especial entre a torcida e o jogador, devido a essa proximidade, a você chegar a ser amigo, não é?

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P/1 - Bom, então, voltando aqui... Nós estamos falando da relação entre o jogador...

 

R - Eu me dava com todos, né.  A maioria tinha conta lá comigo. Trabalhava em banco. Tinha conta lá comigo. Por exemplo, o Ciro Portielli, que foi goleiro do Santos. Depois do Santos ele arranjou de ser das Docas. O Ciro trabalhou muito tempo nas Docas. Ele ia lá, eu trabalhava em informações, ele ia pedir informações no banco, me dava, falava com ele.

 

P/1 - Uma relação mais direta.

 

R - O Mário Pereira, por exemplo, acabava o jogo, nós íamos jantar. Ele lembra disso. Eu e o Marcelo. Marcelo Vieira Coelho, que mora em São Paulo, hoje. E era assim.

 

P/1 - Agora eu fique curioso. O senhor disse que os jogadores tinham conta lá no banco...

 

R - Tinham, mas eram amigos. Por exemplo o Camarão, essa turma assim. Tinha conta assim.

 

P/1 - Quanto esse pessoal ganhava?

 

R - Ah, isso eu não lembro. Uma porcaria. Uma porcaria... Não ganhava nada, quase.

 

P/1 - Valorização da profissão...

 

R – A valorização veio agora. Antigamente eles não ganhavam nada. Coitados, ganhavam uma porcaria. Eu vi uma entrevista do Cláudio Cristóvão Pinho, que ele veio jogar no Santos por menos porque queria fazer a faculdade e tudo. Aí, ele ganhava 35 contos, 35 mil réis, 35 contos de réis, no Santos. E ele mesmo falou que ia ganhar muito mais se ficasse no Palmeiras ou no Corinthians. Ele ganharia muito mais, mas para fazer a faculdade... Isso eu vi numa entrevista aqui no rádio, em uma televisão, não sei qual. Ele não ganhava muito, não... Eu não posso dizer, porque nunca mexi nisso.

 

P/1 - E o senhor, enquanto torcedor, amigo dos jogadores...

 

R - Ah, eu me dava com eles, mas...

 

P/1 - Talvez fique um pouco complicado justamente por ser amigo deles, mas uma jogada, um jogo que tenha tido um lance nessa época, desse pessoal, tipo Mário Pereira, que tenha ficado na sua memória. Que o senhor tenha para contar para a gente. Por exemplo, o jogo da final contra o Corinthians, o primeiro título.

 

R - Foi grande. Jogaram com muita vontade, garra. O Arakem comandando. O Raul, que não fazia nada ficava no meio ali só... O Raul era um grande jogador. Ele substituiu o Délcio, acho que no último jogo. E o Délcio era um bom jogador, mas o Raul era danado.

 

P/1 - O que aconteceu com o Délcio?

 

R - Eu não sei... Não sei o que houve. Eu sei que ele substituiu porque ele já não estava. Quem era o diretor de esportes nessa época era o Bilu, Virgílio Pinto de Oliveira. Gostava muito do Santos também, era santista. Era o rei do carrinho. Ele que inventou o carrinho. Dava cada carrinho que eu vou te contar. Mas na bola! Na bola! Ninguém ia para machucar.

 

P/1 - Era um futebol mais leal?

 

R - Era leal. Sim, mais.

 

P/1 - Ou tinha também...

 

R - Sempre tem uns meio... Agora estão inventando que o Santos está dando pontapé. Não está tanto assim, está entrando firme. Tem falta porque tem falta. Mas, está entrando firme. Naquele tempo, todo mundo entrava firme. Agora, vai pôr o pezinho... Para jogar bola?

 

P/1 - Dizem que naquela época quem mais sofria eram os goleiros.

 

R - Empurrava tudo, empurrava o goleiro para pegar a bola. (Risos)

 

P/1 - Ou seja, para ser um bom goleiro, tinha que ser muito bom, mesmo.

 

R - O Athiê defendia muita bola de soco, soco na área. O Athiê era um bom goleiro.

 

P/1 - Agora, nesse título de 35, no Parque São Jorge, a torcida foi grande. E será que foi o décimo segundo jogador em campo? Pode-se dizer?

 

R - Foi, foi grande. A torcida do Santos foi bastante. Foi muito incentivadora. Foi mesmo. Eu não vi que eu fiquei na arquibancada, lá em cima. O jogo lá em São Paulo era fogo. Eu fui em muitos jogos antes, no campeonato mesmo. Lá, não era brincadeira. Eles, podendo pegar, eles pegavam mesmo.

 

P/1 - Muita rivalidade, bem acirrada.

 

R - Muita rivalidade. Santos e Corinthians era demais.

 

P/1 - Isso acabava se refletindo entre as torcidas.

 

R - Sempre teve. Entre Santos e Corinthians sempre teve rivalidade.

 

P/1 - Os alvinegros.

 

R - Os alvinegros. Mas sempre... O Zé Maria que jogou no... Depois veio morar em Santos. Ele foi meu cliente aqui no Banco Moreira Salles. Não saía de lá, sempre estava indo lá... Zé Maria, ponta-esquerda do Corinthians.

 

P/1 - E como era atender um adversário, um "rival"?

 

R - Era tudo a mesma coisa. Atendia tudo igual. Para mim, tudo era igual. O pobre, o rico, o adversário... Para mim, era tudo a mesma coisa. Eu nunca tive isso. Por isso é que eu acho que eu fui para frente. Para mim era tudo igual. Não tinha isso de esse tem mais dinheiro que o outro não, era a mesma coisa. Tinha que fazer para esse, fazia para esse. Buscar o dinheiro, atender fora de hora.

 

P/1 - Falando em atender fora de hora... Eu fiquei sabendo que o senhor andou prestando um serviço voluntário para o Santos, e depois, fora de hora, vocês iam finalizar a noite lá no Café Paulista. Conta essa história para a gente.

 

R - Ah, isso aí foi no tempo do Aristóteles. Tinha o Otávio Spagnolo, já falecido, funcionário do Banco do Estado de São Paulo. E o irmão do Aristóteles, Francisco Ferreira, também ia. O Aristóteles... "Vamos arrumar essa secretaria, vamos colocar tudo em dia, sócio por sócio, direito e tal." E... Me pegou. E eu, tá bem. Topei.  Saía do banco e ia para lá, como os outros também iam. Depois, então, nós íamos jantar lá no Paulista, Café Paulista, esperar o noturno. Saíamos antes, jantávamos e pegávamos o noturno, que passava meia-noite e meia. Isso foi um tempão que nós fizemos isso. O Otávio Spagnolo também foi um baluarte lá no Santos, na secretaria. Trabalhou muito no Santos.

 

P/1 - Mudou alguma coisa ali?

 

R – Ah... Estava mais ou menos fora de ordem. Acertamos isso na secretaria e só. Acabou, mas eu sempre estando com ele, Aristóteles. Sempre estava com ele, o Aristóteles Ferreira. Ficava louco com o Cláudio porque o Cláudio não queria jogar no Santos. (Risos) Era o tempo dele. O Antoninho ficou. O Cláudio foi embora mas o Antoninho ficou. O Antoninho também jogou muito no Santos. E ele é Santos Futebol Clube.

 

P/1 - Tem mesmo essa história de que só vestiu uma camisa? Grandes atuações?

 

R - Grandes. Ele foi grande. Ele jogava bola. Esse jogava. Ele veio do Ville, Clube Atlético Ville. Era uma companhia que tinha aqui em Santos. E ele jogava bola. O Zé Paulo... Ele era tio do Zé Paulo, irmão do pai do Zé Paulo.

 

P/1 – O José Fernandes.

 

R – O José Fernandes, é.

 

P/1 - Qual era a característica do Antoninho?

 

R - Era meio-campo. Fora de série. Brigador... Driblador, como driblava... Como jogava bola! Jogava muito bem. Tem uma viagem... Nós íamos pela estrada velha. Eu ia no ônibus com eles. E ele se sentiu mal lá no Quaglia, um restaurante que tinha ali na estrada velha, logo depois da serra, caminho para São Paulo. E ele ia jogar contra o Palestra, naquela época. "Ah, não pode”. Melhorou, e tal.  Mas era fraqueza. Sabe como é? Tem que se alimentar. Só pode ser isso.

 

P/1 - Mas, em campo?

 

R - Um craque.

 

P/1 – Craque. Um gol dele que o senhor tenha visto.

 

R - Ah, muitos, muitos gols. De driblar tudo, a defesa toda e fazer o gol. Esse jogava bola, esse era um craque. Hoje, ele ganharia muito dinheiro, ganharia muito dinheiro. Tem muitos aí que jogam e não chegam nem aos pés.

 

P/1 - Tá certo.

 

P/2 - Eu não sei se vou adiantar demais, mas, se eu adiantar, a gente pode voltar. O senhor viu praticamente todas as grandes conquistas, as grandes vitórias.

 

R - Todas, todos os títulos do Santos eu fui. Até 1984. Todos eles, inclusive o de 78, lá no Morumbi, que o goleiro era meio difícil, aquele nosso goleiro.

 

P/2 - Que era o...

 

R - Não me lembro. (Risos) Mas defendeu bem, no fim. Em 78.  Uma meninada. Com Cláudio... Esses meninos aí. O Clodoaldo jogava.

 

P/1 - Então, o que eu queria saber é o seguinte: qual é a sensação de ser Campeão do Mundo?

 

R - Ah, a primeira vez que é Campeão do Mundo? (Risos) Foi, foi grande. Aquela do Rio foi grande, viu? No Rio, foi.

 

P/1 - O senhor chegou a ir?

 

R - Fui, fui no segundo. No primeiro eu não fui. Mas aí eu saí de manhã cedo no segundo jogo e fui.

 

P/1 - Qual é a recordação?

 

R - Foi fora de série. Aquele pernambucano lá, o Almir. Aquilo parecia um louco dentro de campo. Mas como ele deu pontapé na defesa do Milan. Ele foi fora de série. Jogou demais mesmo. E o time todo jogou bem, se interessaram por jogar, jogaram muito. O Zito parecia um louco dentro de campo. O Roma, então, estava eufórico.

 

P/1 - Modesto Roma?

 

R - Modesto Roma. Esse também foi grande lá no clube. Tem história dele.

 

P/1 - Não estava ligado. Bom, essa fotografia do Renato Pimenta, que o senhor estava dizendo que o senhor viu ontem...

 

R - Ah, tá um show. (Risos) Nesse dia, de tarde, nós saímos no bloco da Dorotéia.

 

P/1 - Bloco da Dorotéia?

 

R - Eu saía muito no Dorotéia, mas naquele tempo era direito. Hoje é bagunça. Eu nem ia mais ver, mas eu gostava da Dorotéia. O Luizinho que morreu, o fundador, era nosso amigo. Então, ele vinha aqui em Santos e telefonava do Rio. Depois que o Renato morreu, ele telefonava para mim. Ficava aí no hotel e eu levava ele para a ilha das Palmas, no sábado. Depois eu soube que ele faleceu. Me informaram no Rio que ele faleceu. O Luizinho foi o fundador da Dorotéia.

 

P/1 - Fundador da Dorotéia?

 

R - É. Era muito amigo do Renato Pimenta.

 

P/1 - Conta pra gente essa história da Dorotéia.

 

R - Eu só saía no bloco. Da fundação, eu sei do Luizinho. Ele que fundou.

 

P/1 - Mas o senhor saiu logo no primeiro ano?

 

R - Não, eu saí depois de trinta quatro, trinta e cinco. Foi por aí que eu comecei a sair.

 

P/1 - E já existia desde a década de 20?

 

R - Já, já existia. Como eu me dava muito com o Renato, eu conheci o Luizinho, que foi o fundador da Dorotéia. Aí ele vinha aqui sempre. O Renato levava, depois, como o Renato faleceu, ele telefonava e eu o levava para a ilha das Palmas. No sábado e domingo, ele já ia direto. Às vezes, domingo, antes de ir para o Saldanha, ele passava no grupo dos Grauçás, na praia, depois ia por lá, para o Saldanha e saía de carro.

 

P/1 - E como eram esses desfiles? Como era participar dessa festa?

 

R - Era bonito. Era de papel crepom, esses negócios.

 

P/1 - Fantasiado de quê?

 

R - Você inventava a fantasia. Os blocos inventavam. Às vezes saía um desgarrado, saía com qualquer fantasia. Mas era bonito, era bom. Não é como hoje, essas fantasias. Era papel, era...

 

P/1 - Eu ouvi dizer que a roupa era de papel crepom para depois mergulhar direto na água.

 

R - Era isso mesmo. Mas já estava de maiô por baixo. Isso eu saí muito. Essa fantasia era de papel. A tia do Renato é que fez. Me levou lá, me fez a fantasia, porque eu não queria sair. Disse: "Ah, eu não vou sair esse ano." E eles fizeram de manhã a festa aqui no Grauçá, uma gincana. Eu levando o Renatão, grandão, fortão, num carrinho... Essa aí não tem, no carrinho. Só vi eu e ele juntos. Não sei onde é que está. Devia ter. O Renato estava com ela um dia. Devia ter. Mas eu o levando no carrinho era um show. Nós ganhamos a gincana, então, fizeram a festa. Era gostoso na praia. Eu nem me lembro que ano foi isso.

 

P/1 - E o bloco da Bola Preta?

 

R - Era bom. Alvinegro. Flor do Ambiente primeiro. Eu gostava de ver. Eu ia na cidade... Eles passavam na cidade. Depois daí acabou o bloco Flor do Ambiente. Aí veio o bloco Bola Alvinegra. Muito bom, muito bom.

 

P/1 - O senhor nunca saiu nesses?

 

R - Não, não.

 

P/1 - Mas gostava de ver.

 

R - Gostava. Eu ia ver. Não deixava de ver o bloco. Eu ia no Clube XV naquele tempo... Eles iam no Clube XV e eu estava lá no baile. Eu não saía não. Saía só no Dorotéia. Era um domingo antes do Carnaval.

 

P/1 - Por que um domingo antes do Carnaval?

 

R - Porque o Dorotéia era antes do Carnaval. Não saía no Carnaval. Era no domingo.

 

P/1 - Depois o senhor vai mostrar essa foto para a gente, então.

 

R - Lá em casa eu te mostro. Vão lá hoje. Não tem o que fazer, vão lá. Se tiver, vamos lá à tarde. Eu acabei ficando aqui. (Risos) Vocês nem foram lá em casa. Chega?

 

P/1 - Não. Não chega não. Eu queria que o senhor voltasse a falar, porque eu interrompi, por conta disso, do bi-campeonato.

 

R - O bi-campeonato de 56?

 

P/1 - Não, eu estou falando do Mundial. Podemos falar de 56 também. Falando agora do...

 

R - Foi uma farra. Aí nós fomos para o Rio. Nós fomos para a boate.

 

P/1 - Como vocês foram para o Rio?

 

R - Fomos de avião.

 

P/1 - O senhor foi junto com os jogadores?

 

R - Não, eu fui ver. Eu trabalhava, não podia largar. (Risos)

 

P/1 - Nesse momento a relação já não era mais a mesma que era antigamente, de proximidade...

 

R - Eu me dava com o Athiê, com o Roma, com todos eles. Não tinha problema não.

 

P/1 - Mas com relação aos jogadores... Já eram outros jogadores...

 

R - Fazia amizade com eles. Os melhores a gente fazia. Tinha gente boa. No Santos tinha o Gylmar, que era conhecido aqui de Santos, o Mauro... Vim a conhecer, o Dalmo, o Ramiro. O Ramiro então ficou amigo meu. Tinha aquele outro que está lá no...

 

P/1 - Mauro?

 

R - Não, Mauro era defesa. Eu estou dizendo da linha.

 

P/1 - Mengálvio?

 

R - O Mengálvio está sempre aí.

 

P/1 – O Coutinho.

 

R - O Coutinho.

 

P/1 – O Pepe?

 

R - Eu me dou com o Pepe, encontro ele de vez em quando. O Pepe é gente boa, gente fina. Tudo gente boa. E o Pelé, depois.

 

P/1 - E como foi esse time?

 

R - O Pelé não jogou esse dia.

 

P/1 - E como foi chegar e ver. O Maracanã estava cheio?

 

P/2 - Foi muita gente daqui de Santos?

 

R - Olha, agora eu vou te dizer... Foi, foi. Olha, vou te dizer uma coisa. O carioca valeu a pena. Eles torceram para o Santos. Torceram mesmo. Merecem nota 100. O que o Maracanã torceu pelo Santos nesse dia...

 

P/2 - E teve caravanas aqui de Santos?

 

R - Teve... Mas eu fui direto, fui com um amigo. Fomos de avião, direto.

 

P/1 - Como foi a festa de comemoração?

 

R - Eu fui com um amigo lá para a boate. (Risos) Aí eu não sei...

 

P/1 - Mas como foi a recepção?

 

R - A recepção aqui foi bonita também. Bombeiros levando os jogadores. Foi muito bonito. E foi festa, como todo campeonato tinha festa. Depois no fim já não tinha nem mais graça. Teve uma época que não tinha mais graça mesmo. É, todo ano a mesma coisa... Mas tinha festa.

 

P/2 - O senhor falou que viu de 35...

 

R - De 35 até 84, eu vi os jogos todos.

 

P/2 - E depois dessa fase da década de 60, que, como o senhor diz, 'enjoa de ganhar título'...

 

R - Todo ano ganhava. No meio do campeonato já estava com uma diferença grande.

 

P/2 - E como é para um santista que torce desde a década de 20, aí ganha o de 35, amarga 20 anos, aí ganha de novo e, de repente, começa a ganhar tudo o que aparece pela frente?

 

R - Aí depois cai tudo.

 

P/2 - Eu não sei se cai. Eu queria uma avaliação do senhor.

 

R - Isso é o jogador, né.  Eles renovavam o time. Quando o Lula pegou, o Luis Alonso Perez , que  nós chamamos Lula, foi contra o Vasco. O Santos estava perdendo para todo mundo em 54. Não ganhava. Estava duro. Eu digo: "Puxa." Aí ele pegou... "Vamos assistir o jogo do Vasco." "Vamos lá." Ganhamos de um a zero. Ganhamos o jogo lá, do Vasco. O Lula já voltou, tinha pegado o time naquele dia, aí foi embora. Aí o Santos foi embora. Não sei... Começou a ganhar. Pegou aquele Walter que jogou no Santos, que jogava no Ipiranga. Eu sei que o Santos foi indo, indo, indo e ganhando. Ele ia buscar todo mundo. Ele foi buscar...

 

P/1 - E na década de 60?

 

R - Então, foi buscar o Mauro. Eu me lembro quando ele foi buscar o Mauro. Ele estava encostado no São Paulo, não era mais... Ele pegou o Mauro. Ele queria o Gylmar no Santos. Pegou... Todos esses jogadores foi o Lula que... E o Roma ia mesmo. Com o Roma não tinha conversa, não. E o Gilmar veio acho que por causa do Ermírio de Morais deu qualquer coisa pro Santos. Que o Corinthians não queria largar. Deve ter dado qualquer coisa. Não sei.

 

P/1 - Então o time foi montado pelo Lula, que queria aqueles jogadores.

 

R - Queria, queria os jogadores. Dalmo, Calvet... Ele ia buscar.

 

P/1 - E o Mengálvio?

 

R - Mengálvio! Esse é malandro. Me dou bem com o Mengálvio.

 

P/1 - E depois da década de 70, já não existe mais uma política de...

 

R - Agora eu não sei. Depois eu fui me afastando. Já não vou mais lá, no Santos. Depois a gente casa, vai criando filho e coisa. Mas, quando solteiro, eu não saía de lá. Agora não vou mais. Nem ao futebol eu vou. É uma vez ou outra. Tenho as minhas cadeiras lá, tenho três cadeiras, a minha e dois filhos. É sócio especial, não é cativa, não. Conservo a do meu filho, que está em Brasília. Conservo. Mas não tenho ido. O último jogo que eu fui foi com o Atlético Paranaense.

 

P/1 - Bom, mas mesmo que o senhor não vá ao estádio, continua acompanhando?

 

R - Acompanho. Vejo o jogo na televisão. É por causa da vista, sabe?

 

P/1 - Fala para a gente então do título de 84, que foi o último que o senhor viu. Comenta a campanha, o time, como foi?

 

R - Foi grande, foi bom. Trabalharam bem. O Serginho Chulapa, que falam muito dele, mas, ele jogou muito também. O time todo... Aquele, o Castilho, que faleceu, que era técnico do Santos, um bom técnico. Sabia aglutinar as pessoas. Tinha um timinho bom. Jogaram com vontade e ganharam do Corinthians também.

 

P/1 - Mais uma vez. (Risos)

 

R - É sempre em cima do Corinthians. (Risos)

 

P/1 - Parece que é uma satisfação, né? (Risos)

 

R - Pois é, mas a turma é boa também. O Mendonça Falcão. Foi um bom presidente da Federação. Não prejudicava o Santos. O Roma estava ali, firme. Mas está bom...

 

P/1 - O Roma foi um fiel escudeiro do Santos, né?

 

R - Foi, foi. Ele gostava do Santos. Esse dava tudo pelo Santos. Nós tivemos diretores bons e tivemos maus diretores. O Santos ficou em situação difícil aí. Agora tá bem. Graças a Deus está indo bem... Vamos ver o que dá.

 

P/1 - Algum palpite para quem seja o adversário do próximo título do Santos?

 

R - Próximo título do Santos? (Risos)

 

P/1 - Paulista.

 

R - Se Deus quiser, vamos ser campeões esse ano.

 

P/1 - Em cima de quem? O senhor tem preferência?

 

R - Se for o último jogo com o Corinthians, vamos malhar o Corinthians. Se Deus quiser. Mas depende da tabela. Se der, se eles deixarem para o final. Já puseram Santos e Palmeiras logo de cara. E o Santos... Enfim...

 

P/1 - Como é ter um coração santista?

 

R - É bom. Às vezes, sofredor. Teve muitas alegrias, deu muitas alegrias.

 

P/1 - E nos momentos de glória?

 

R – Fico contente. É uma satisfação.

 

P/1 - Tá certo. Bom, então eu vou fazer uma última pergunta para o senhor, que é a pergunta que nós fazemos para todos: qual foi a impressão que o senhor teve de estar podendo ajudar a gente a construir a história do clube, do Santos, com esse seu depoimento que vai entrar para o Museu, fazendo parte, ainda mais, da história?

 

R - Eu não gosto de aparecer... Nada... Não quero...

 

P/1 - Mas, agora, já apareceu.

 

R - É uma satisfação por ser do Santos Futebol Clube, e meu nome estar na história também do clube. Fico muito honrado com a presença de vocês aqui me entrevistando. Só de vocês virem aqui me entrevistar já é uma honra. Para mim, é. Eu não gosto de aparecer em nada. Eu gosto de fazer as coisas sem aparecer.

 

P/1 - A gente está fazendo aqui agora. Estamos só nós, batendo um papo. Já está dando uma contribuição e tanto.

 

R - Tá bom. No que puder contribuir. E é o Santos Futebol Clube. Teve grandes homens o Santos. Grandes jogadores do amadorismo e profissionais. Teve muitos profissionais muito bons.

 

P/1 - Bom, então eu agradeço ao senhor... Essa entrevista...

 

R – Eu é que tenho que agradecer a vocês.

 

P/2 – Imagina. Nós é que agradecemos demais

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