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História de: Manoel Batista da Silva Vieira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Do trabalho no campo à construção na cidade, Manoel se recorda de uma infância muito boa, apesar das dificuldades. Ao lado dos pais e dos sete irmãos, mudou de estado em busca de acesso à educação escolar. Sempre gostou de estudar e quando surgiu a oportunidade, prestou o concurso e ingressou no PACS. O trabalho no ramo da saúde o faz sonhar com a continuidade dos estudos, e hoje Manoel sonha em cursar enfermaria. Acredita na saúde e na moradia como grandes formas de mudança da realidade precária das comunidades. O PACS, além de ter contribuído para a melhora da qualidade de vida das pessoas dos locais em que atua, expandiu suas próprias percepções sobre a sociedade e sobre si mesmo. Em suas palavras: “aprendi a gostar mais até mesmo da minha pessoa”.

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História completa

P/1- Bom, Manoel, antes de você me contar tudo isso que você ia me contar da Abifarma, eu queria te perguntar: onde você nasceu?

 

R- Eu nasci em Maranhão, no município de Alto Parnaíba.

 

P/1- E seu pai era de lá?

 

R- Meu pai era de Alto Parnaíba.

 

P/1- Quando você nasceu?

 

R- Dia 3 de outubro de 1963.

 

P/1- Como era o nome do seu pai e da sua mãe?

 

R- Meu pai chama Joaquim Vieira de Souza, minha mãe (inaudível) da Silva Vieira.

 

P/1- E o que é que eles faziam lá no Maranhão?

 

R- Trabalhavam na roça junto com a gente, né, terra, a gente morava numa fazenda. O pessoal... Era muita gente que morava lá, a gente saía pra trabalhar na roça.

 

P/1- Mas era roça de vocês ou era roça da fazenda?

 

R- Não, era roça nossa, só que a gente pagava...

 

P/1- O meio?

 

R- Era arrendado. Assim, tinha 30% pra gente trabalhar com a roça. Por exemplo, se a gente colhesse 100 sacos de arroz, 30 sacos eram para o dono da terra.

 

P/1- E isso você tinha quantos irmãos?

 

R- Tinha sete irmãos.

 

P/1- E quem morava na casa com vocês?

 

R- Moravam todos. Meu pai, minha mãe e meus sete irmãos.

 

P/1- Seu avô e avó também?

 

R- Não, meu avô morava em outras fazendas, ele era vaqueiro em outras fazendas.

 

P/1- Isso um avô?

 

R- Um avô, sim. Os outros, o pai da minha mãe, o pai do meu pai eu não conheci. Nem o pai da minha mãe, do meu pai também, nem da minha mãe, não conheci. Só conheci o meu avô, o pai da minha mãe.

 

P/1- E era assim, a sua casa era pobre, rica, tinha muito, pouco, muita comida, pouca... Como é que era?

 

R- Não, era pobre. Sempre fomos pessoas carentes, mas dá para a gente sobreviver. Trabalhava sempre na roça, coisa de comida assim a gente tinha arroz, feijão... Porque a gente trabalhava, né? Arroz, feijão, milho, essas coisas a gente sempre trabalhava na roça para poder produzir, para ter aquilo com a gente.

 

P/1- O que mais tinha de comida?

 

R- Batata, mandioca... Bom pra fazer a farinha, né?

 

P/1- E carne, alguma?

 

R- Carne só quando, às vezes, o dono da fazenda matava gado, aí a gente comprava carne, senão era caça do mato.

 

P/1- Tinha muita caça?

 

R- Tinha.

 

P/1- Vocês traziam, caçavam... Quem caçava?

 

R- Meu pai... Minha mãe, junto com minha mãe.

 

P/1- Caçavam o quê?

 

R- Tatu.

 

P/1- Tatu? É bom comer tatu?

 

R- É bom.

 

P/1- Comia como tatu?

 

R- Cozinhava, assava...

 

P/1- É? Tatu, arroz, feijão, milho...

 

R- Feijão, milho, mandioca, batata.

 

P/1- Todo dia?

 

R- Todo dia a gente não...

 

P/1- E fruta?

 

R- Fruta era laranja, na sede da fazenda que a gente morava tinha muita laranja. Quer dizer que o dono, na fazenda que a gente morava... Só que a gente não morava na sede da fazenda, morava afastado, um pouco, mas na sede que a gente morava tinha laranja.

 

P/1- E assim, sua lembrança dessa vida: era boa, era ruim, como é que era?

 

R- Na época era boa, porque para aquele tempo que a gente morava lá... Aí depois que eu fui crescendo, minha mãe sempre procurando vir para a cidade para pôr nós na escola.

 

P/1- Por que, lá não tinha escola?

 

R- Lá não tinha escola. Meu pai sempre era assim, não queria ir para a cidade, porque ele dizia que morava na cidade não tinha serviço pra gente sobreviver. Era difícil pra gente sobreviver na cidade, mas aí, quando nós moramos... Saímos do Maranhão em 1977, eu lembro até hoje, no dia 13 de julho de 77. Nós viemos aqui para Rio Sono, numa cidade que tem aqui do outro lado do Rio Sono.

 

P/1: Como chama?

 

R- Fazenda Boa Figa. Hoje faz tempo que eu não ando lá, não sei se ainda é dele.

 

P/1- Você lembra como é que foi essa viagem?

 

R- Foi difícil, nós saímos de lá, deixamos... Trabalhava na roça. Meu pai vinha na frente com meu avô e o meu irmão mais velho receber a fazenda para vaqueirar, mexer com gado, serviço, e com... Depois o meu irmão mais velho voltou para ajudar a gente a colher o arroz, mas nós adoecemos lá de sarampo, em 76, 77 todo mundo estava doente de sarampo.

 

P/1- Você tinha uns 14 anos?

 

R- Tinha uns 14 anos. Minha mãe também estava doente. O arroz... Perdeu muito arroz na roça, porque a gente não podia trabalhar, perdeu arroz. Nós entregamos o arroz que pudemos colher para o vaqueiro desse patrão que nós estávamos trabalhando aqui, para receber outro. Saímos de lá, ficou muita coisa nossa, assim, galinha nós pegamos, demos para os vizinho, e as vasilha de casa, sabe? Porque era muito longe, para onde a gente ia pegar o carro... Ficou tudo lá.

 

P/1- Vocês saíram como de lá?

 

R- A faixa de uns 12 quilômetros era de pé, para poder pegar um carro, um caminhão, um pau-de-arara em cima da serra. Aí nós pegamos um caminhão e...

 

P/1- Como era o caminhão, tinha muita gente, era o quê?

 

R- Era muita gente. Era muita gente, nesse tempo, que vinha de lá.

 

P/1- E você pagava um...

 

R- Não, o caminhão era da prefeitura, só que ele vinha pra cá, para Rio Sono, aí nós aproveitamos e viemos nessa viagem.

 

P/1- Quanto tempo demorou essa viagem?

 

R- Nós saímos de lá dia 13, dia 13 de julho, chegamos lá dia 16. Demorou uns quatro dias na estrada.

 

P/1- No caminhão?

 

R- No caminhão.

 

P/1- Quantas pessoas tinham, você lembra?

 

R- Não me recordo quantas pessoas.

 

P/1- O que você se lembra dessa viagem?

 

R- Era muito difícil. No período do dia era, era o sol que era quente. A estrada era toda cheia de areia, não tinha cascalho, naquele tempo...

 

P/1- O caminhão era coberto assim ou era...?

 

R- Não, destampado, destampado mesmo. Naquele tempo não conhecia nada de asfalto não, não sabia o que era não (risos).

 

P/1- E de noite vocês dormiam?

 

R- De noite, não. De noite era difícil, porque a estrada era muito fechada por cima.

 

P/1- De mata?

 

R- De cerrado. E caía muito marimbondo, também, caía muito marimbondo, (disparava?) marimbondo na gente, e o caminhão todo destampado, sem proteção. Quando amanhecia o dia, era sol quente, ficava atolado muito tempo, às vezes até meio dia na areia, porque não tinha condições do caminhão sair da areia só deslizando. A gente tinha que desapeia todo mundo, ajudar a empurrar o caminhão até chegar em um lugar mais duro para poder continuar a viagem.

 

P/1- E o caminhão nunca parava para vocês dormirem?

 

R- Não. O caminhão parou no segundo dia numa fazenda chamada Novo Sítio, aí nós paramos. Chegamos lá era três... Era meia-noite, nós chegamos lá. Pusemos a rede debaixo do caminhão − era no verão, tempo que não estava chovendo − e de manhã cedo saímos de novo, chegamos três horas da tarde próximo à Rio Sono, ficamos lá no meio da estrada o resto do dia, à noite. No outro dia, seis horas da tarde, que viemos chegar na fazenda.

 

P/1- Na fazenda aqui?

 

R- Na fazenda aqui, em Boa Vida.

 

P/1- E aí, quando você chegou, essa fazenda era diferente, era outra?

 

R- Era diferente até porque eu estranho muito o clima, sabe? Era completamente diferente.

 

P/1- O que tinha de diferente?

 

R- Era o sol, parece que era mais quente.

 

P/1- Aqui?

 

R- Aqui. A água era diferente, para a gente tomar, era salgada, a água. E mosquito, porque lá onde a gente morava não tinha mosquito, assim, para morder a gente durante o dia.

 

P/1- Não tinha?

 

R- Não tinha. Nós chegamos aí, todo mundo pedindo para voltar. O meu irmão mais novo, a gente vestia ele de camisa manga comprida, colocava tipo um boné na cabeça, deixava só o lugar do olho dele, porque, senão... A orelha dele fechava toda. Feriu todo o corpo, porque ele era alérgico a mosquito.

 

P/1- Quantos anos ele tinha?

 

R- Ele, de 72, estava com cinco anos.

 

P/1- E você quis voltar, também?

 

R- Ah, eu estava já pedindo de todo jeito para voltar.

 

P/1- E aí?

 

R- Mas aí foi indo, a gente foi acostumando, foi acostumando com o pessoal do lugar... Porque o pessoal, a gente que chegava lá pela primeira vez, para a gente conversar com o pessoal era diferente. O linguajar, o tipo deles conversarem com a gente... Eles riam muito da gente, porque lá no Maranhão tinha um sotaque e aí eles eram de outro tipo. Já que eles eram mais pessoas, já tinham conhecimento com os outros, quando a gente ia falar uma coisa eles ficavam rindo da gente, que a gente falava errado. Só para nós a gente falava certo.

 

P/1- Isso na fazenda?

 

R- Na fazenda.

 

P/1- E o seu pai trabalhava na fazenda?

 

R- Trabalhava na fazenda, junto com o meu avô e o meu irmão mais velho.

 

P/1- Fazendo o quê?

 

R- Vaqueiro.

 

P/1- Vaqueiro?

 

R- Vaqueiro.

 

P/1- E vocês acabaram ficando numa casa?

 

R- Acabamos ficando na fazenda.

 

P/1- Tinha uma casa lá?

 

R- Tinha casa. Aí, quando foi em 78, eu fui para (Richana?), cidade de Rio Sono, estudar. Segunda vez que eu tinha andado em cidade! Em 78.

 

P/1- Você entrou numa cidade?

 

R- Não, já foi a segunda vez.

 

P/1- A primeira quando foi?

 

R- A primeira vez foi em 76, 75.

 

P/1- Aqui, também?

 

R- Não, no Maranhão.

 

P/1- Você foi para onde?

 

R- Alto Parnaíba.

 

P/1- Alto Parnaíba?

 

R- É.

 

P/1- E aí, você chegou lá e levou um susto?

 

R- Toda vida tinha aquela vontade de ir lá, aí meu pai chamou para nós irmos. Ele foi buscar, foi até deixar uns porcos lá (riso). A gente saiu tocando os porcos, eram 20 léguas! Uma légua são seis quilômetros, dá cento e...

 

P/1- Vocês foram como? A pé?

 

R- Caminhando, tocando. Eu ia montado no jumento e o meu pai tocando os porcos para o patrão, porque nós morávamos na fazenda. Quando nós voltamos, nós trazíamos um carro de boi.

 

P/1- Ah é?

 

R- É.

 

P/1- E o que você achou da cidade?

 

R- Achei bom, bonito, só que eu tinha medo de sair na rua. Assim, nervoso, porque eu não tinha costume. Só que o filho do nosso patrão era muito legal toda vez que ia à fazenda para nós.

 

P/1- E aqui, a primeira vez que você foi na cidade foi em 78?

 

R- Setenta e oito, para estudar.

 

P/1- Você tinha 15 anos?

 

R- Já a segunda vez, né?

 

P/1- Segunda vez, eu sei. Mas a primeira vez daqui, né?

 

R- Daqui.

 

P/1- Você veio para que cidade?

 

R- Rio Sono. Aí eu fui estudar, estudar a primeira série. Estudei em 78, em 79 eu fiz a segunda série, nunca fui reprovado em nenhuma.

 

P/1- Você gostou de estudar ou já estava desacostumado?

 

R- Não, eu gostei. Eu toda vida tinha vontade de estudar, eu gostei, fui estudando. Estudei até no mês de junho de 79 em Rio Sono. Moramos nessa fazenda, mudamos pra outra fazenda − chamada Ocidente −, de lá nós viemos para Tocantins, onde eu estou até hoje.

 

P/1- Com a sua família?

 

R- Com a minha família.

 

P/1- Por que sua família mudou de fazenda?

 

R- Porque era muito difícil para a gente, não ganhávamos dinheiro, e sempre a proposta da gente era de estudar. Com minhas irmãs, quatro irmãs, colégio lá... Não tinha onde estudar.

 

P/1- Aí vocês vieram para outra fazenda que tinha colégio?

 

R- Não, nós viemos para Ocidente, porque saímos da fazenda onde estávamos trabalhando. Fomos morar em outra fazenda lá, mas só para morar mesmo, não estávamos trabalhando. Passamos cinco meses lá e viemos para Tocantins.

 

P/1- E aí para estudar?

 

R- Pra estudar.

 

P/1- E veio todo mundo, seu pai também?

 

R- Todo mundo, só que meu irmão mais velho faleceu quando nós estávamos morando na primeira fazenda, que viemos do Maranhão, a Fazenda Boa.

 

P/1- Ele faleceu de que?

 

R- Ele sentia... Eu não sei o problema dele. Primeiro ele levou uma queda de um animal e começou a passar mal. Veio na cidade, consultou, tomou uns remédios e de vez em quando ele ficava sentindo aqueles problemas, dor, dor no peito, como ele ficou arrebentado... Aí nós moramos na outra fazenda, ele ficou vaqueirando nessa fazenda onde estávamos com meu avô. Um dia ele passou mal, meu avô trouxe ele para Miracema e ele ficou internado no hospital, recebeu alta, foi para Rio Sono. O patrão dele, quando ele passou mal de novo, pegou ele, internou no Hospital Regional de Miracema e foi embora para Goiana. Quando ele foi para Rio Sono, com oito dias, eu já recebi o recado que ele tinha morrido em Miracema, aí nós nem chegamos a ver ele.

 

P/1- E você ficou muito triste?

 

R- Ah, fiquei, porque era o mais velho, era o... Quase assim, depois do meu pai, era ele.

 

P/1- E o seu pai ficou muito triste?

 

R- Ficou, minha mãe também sentiu muito, mas aí, com o passar do tempo...

 

P/1- Foi quando, isso?

 

R- Foi dia 13 de dezembro de 79.

 

P/1- Faz uns 8 anos?

 

R- Oito anos.

 

P/1- E ele tinha quantos anos?

 

R- Ele era de 56, tinha 30... 33 anos, né? Ele era de 56, dia três de dezembro de 56.

 

P/1- E isso foi na primeira fazenda?

 

R- Foi na primeira fazenda.

 

P/1- E isso foi uma das coisas que fizeram vocês mudarem da fazenda?

 

R- É, porque a gente não estava recebendo apoio, também.

 

P/1- O dono da fazenda não...

 

R- Não, aí nós saímos de lá e viemos embora pra Tocantins.

 

P/1- E em Tocantins, o que aconteceu? Como foi a vida de vocês?

 

R- Quando nós chegamos, fomos procurar lugar para morar. Primeiro nós arrumamos uma casa que estava abandonada, mas não tinha lote. Fomos na Prefeitura, aí o prefeito arrumou o lote prá nós. Enquanto a gente fazia a casa da gente, ficamos morando nessa casinha, na Vila Planalto. Eu fui trabalhar numa oficina, estudando à tarde e trabalhando na oficina, de mecânico, para poder ajudar o meu pai, ajudar minha mãe. Fui ajudando a construir a casa, no final de semana eu não estava trabalhando na oficina, não estava no colégio, aí fui fazendo a casa. Fiz uma cisterna, fiz a casa − casa de palha, mas tampada de taipa − aí nós mudamos para lá. Não tinha nada, mas nós mudamos assim mesmo.

 

P/1- Quem mudou para lá?

 

R- Mudamos eu, a minha mãe, meu pai, meus seis irmãos... Cinco irmãos, seis comigo.

 

P/1- Mais novos?

 

R- Mais novos, tinha uma minha irmã que é mais velha do que eu, eu sou o terceiro. Morreu o mais velho, ficou a outra mais velha do que eu e os outros mais novos.

 

P/1- Aí vocês mudaram para essa casa...

 

R- Mudamos.

 

P/1- Ficou trabalhando na oficina...

 

R- Fiquei trabalhando na oficina, aí passei a trabalhar do trator. Tinha o senhor que trabalhava lá na oficina dele, trabalhava à tarde. Eu trabalhava pela manhã, à tarde ia para o colégio e final de semana eu ficava em casa fazendo as coisas de casa com meu pai. Meu pai trabalhou na vazante, na beira do rio plantando feijão, mas a minha mãe, minha mãe lavava um pouco, mais as minhas irmãs.

 

P/1- Quer dizer, todo mundo trabalhava?

 

R- Todo mundo trabalhando e estudando.

 

P/1- E aí, começou a dar um dinheirinho?

 

R- Aí melhorou, porque a gente foi tendo serviço. A gente começou a trabalhar e todo mundo recebia um pouquinho, ajudava, né?

 

P/1- E começaram a fazer casas?

 

R- Minha irmã trabalhava nas casa, também, e eu fui, comecei a trabalhar também. Saí da oficina, parei de trabalhar com trator. Trabalhei três anos e fui trabalhar de pedreiro. Fui pelejando até que comprei material e construí uma casa, que é hoje a casa que a minha mãe mora. A minha irmã foi para Goiânia, a mais velha, levou a segunda, mais nova do que eu, depois levou a outra, encostada no caçula. Foram para Goiânia, foram todos os três trabalhar no moinho.

 

P/1- Ah, é?

 

R- E eu continuei em Tocantins.

 

P/1- Você estava de pedreiro?

 

R- Trabalhando de pedreiro.

 

P/1- E de pedreiro você virou agente comunitário?

 

R: Foi. Eu parei porque, quando começou Palmas, eu sofri muito no começo da cidade, porque trabalhava em firma, mas nunca a gente achava serviço para se adaptar.

 

P/1- Me explica, não entendi. Por que você sofreu?

 

R- Quando começou Palmas, eu saía de casa e ia para Palmas. No começo era muita poeira, muita dificuldade. Todo mundo... Aquele corre-corre, e eu fazendo o serviço. Eu estava respaldando uma casa, levantando a casa, caí e quebrei minha perna.

 

P/1- Lá em Palmas?

 

R- Lá em Palmas. Eu não estava trabalhando fichado, não estava... Apenas empreitei a casa que estava fazendo, aí quebrei a perna e passei seis meses parado, sem fazer nada.

 

P/1- E você não ganhou nada?

 

R- Eu não ganhei nada, apenas o que eu tinha até ponto que tinha trabalhado. Mas muita gente me ajudou. Depois que eu cheguei em Tocantins, o pessoal ficou sabendo, e fui internado, fui para Porto Nacional para me internar, em Palmas não tinha hospital, ainda. Apenas recebi uma notificação, um atendimento lá, porque não tinha como eles atender mais. Fui para Porto Nacional, cheguei lá o hospital tava muito cheio. Voltei para onde eu estava trabalhando, fiquei lá no barraco.

 

P/1- Com a perna quebrada?

 

R- Com a perna quebrada. No outro dia, à tarde, fui pra Paraíso, aí fiquei lá internado.  Passei oito dias lá internado e vim embora para Tocantins.

 

P/1- E ficou sem trabalhar?

 

R- É, fiquei sem trabalhar seis meses.

 

P/1- E aí, o que aconteceu?

 

R- Aí, quando eu fiquei bom, eu...

 

P/1- Você ficou seis meses por causa da perna?

 

R- Seis meses.

 

P/1- Ah, então não foi só quebrar a perna.

 

R- Foi porque a perna rachou de comprido e fraturou essa ponta.

 

P/1- Tá.

 

R- Aí...

 

P/1- Aí você ficou seis meses na casa da sua mãe?

 

R- Na casa da minha mãe, sim.

 

P/1- E depois?

 

R- Quando eu comecei a trabalhar de novo, né, em 93, janeiro de 93, comecei a trabalhar de pedreiro de novo. Passei um ano trabalhando, mas aí abandonei Palmas, fiquei em Tocantins.

 

P/1- E aí, você ficou lá de pedreiro?

 

R- Trabalhando de pedreiro. Trabalhava, sempre dava conta de serviço, mas não de serviço muito pesado.

 

P/1- E aí, quando você decidiu virar agente?

 

R- Eu soube que ia haver o concurso de agente estava faltando um dia só para encerrar as inscrições.

 

P/1- Você soube como?

 

R- Foi quando eu cheguei na Prefeitura e o pessoal estava falando. Eu fui entrar onde estavam fazendo as inscrições... Porque era a Maria Helena que estava fazendo as inscrições. Ela me passou as informações e eu fiz as inscrições, já na segunda etapa. Tinha tido (tosse) um concurso, mas lá na área que eu trabalho não tinha passado ninguém. Eu fiz inscrição, fiz as provas, passei. Era só para uma vaga, uns 35 concorrentes.

 

P/1- Ah, é?

 

R- Trinta e cinco.

 

P/1- Por que você acha que você passou?

 

R- Não sei, acho que foi sorte.

 

P/1- Você passou e fizeram entrevista com você?

 

R- Fizeram entrevista, a prova escrita, entrevista.

 

P/1- O que perguntaram para você, você lembra?

 

R- Ah, foi muita coisa, não dá pra lembrar assim. Quanto tempo eu morava lá, de que eu trabalhava, se eu era casado... Era muita coisa, não dá para a gente...

 

P/1- E quando soube que tinha passado, você ficou contente?

 

R- Ah, eu fiquei.

 

P/1- Você queria mudar de trabalho?

 

R- Queria mudar, mas eu não conhecia também o que um agente fazia.

 

P/1- Não conhecia?

 

R- Não conhecia, aí fizemos treinamento. Depois... Até o final do treinamento a gente não tem nunca uma coisa certa do que um agente faz, porque, às vezes... Sempre a gente tem muita dúvida.

 

P/1- Mesmo no treinamento você não estava sabendo?

 

R- É, porque eu não sabia o que o agente fazia. Eu achava que você corria lá, levava remédio, uma coisa assim.

 

P/1- Isso que você imaginava ?

 

R- Isso que eu imaginava, né?

 

P/1- E aí?

 

R- Nós fizemos treinamento − éramos dez agentes − e a gente começou a trabalhar. No começo eu pensei muito em desistir.

 

P/1- Você pensou em desistir?

 

R- Pensei.

 

P/1- Por quê? O que aconteceu?

 

R- Porque foi época de política, e o pessoal não acreditava no serviço da gente não.

 

P/1- Não?

 

R- Não.

 

P/1- Você entrava na casa de uma pessoa e o que acontecia? Conta um caso pra mim.

 

R- Todo mundo falava que era político, né? Quando encerrasse a política, as campanhas políticas, acabava o nosso serviço. Era sempre o que o pessoal alegava, era assim.

 

P/1- E aí não queria te responder?

 

R- Não, eles respondiam, sim, mas a primeira coisa que eles falavam era isso: “Não, isso aí é política, isso não vale nada. Você tá envolvido nisso, rapaz? Larga isso, vá cuidar do teu serviço.” Então a gente, até conscientizar aquela pessoa do que a gente ia tratar... Não tinha nada a ver com política, não tinha nada a ver com partido nenhum... Era muito difícil.

 

P/1- E quando foi melhorando?

 

R- Depois que passou a política, que o serviço continuou.

 

P/1- Foi só isso que fez o pessoal acreditar que ia continuar?

 

R- Foi.

 

P/1- Quem eram as pessoas que você encontrou nas casas, quando começou? Qual foi o seu primeiro trabalho?

 

R- Era fazer o recadastramento.

 

P/1- Você fazia o quê?

 

R- Tem um questionário que a gente faz. Pega o nome das pessoas, a idade, se está na escola, se não está, sexo masculino e feminino, que tipo de moradia, saneamento, e assim... Uma biografia daquela família.

 

P/1- Depois você voltava nessa casa?

 

R- Depois a gente volta de novo. Depois do recadastramento, fazia recadastramento de toda a área da gente, fazia o cartão da criança e depois o acompanhamento da vacina. Depois que termina o recadastramento, aí que a gente vai passar a executar realmente o serviço que tem que fazer.

 

P/1- Que é qual?

 

R- Ahn?

 

P/1- Qual é o serviço do agente de saúde?

 

R- Na época era muito difícil por causa do índice de vacina em Tocantins, que era péssimo. Todo município de Tocantins recebia, apenas, na unidade de saúde, a faixa de 42 a 48 doses de vacinas mensais; todo o município, incluindo aldeias, com zona rural e zona urbana. Era muito baixo, era péssimo o índice de vacina. Não existia, praticamente não existia. Depois, quando nós fizemos esse acompanhamento todinho, fizemos o cartão de todas as crianças, passamos a pesar as crianças, aí a gente foi incentivando para a imunização, porque tinha criança lá de três, quatro, cinco meses, até de um ano, que não tinha recebido nem BCG (Bacilo Calmette-Guérin) ainda. A gente passou a incentivar essas pessoas, o resultado que ia dar a vacina para essa criança. E as pessoas... Depois que passou a política, as pessoas passaram a acreditar no programa, no serviço da gente.

 

P/1- E como estavam as crianças? Tinha muita criança desnutrida?

 

R- Tinha.

 

P/1- Por quê?

 

R- Eu acho que o poder aquisitivo das pessoas, mesmo.

 

P/1- Não tinha o que comer?

 

R- É, todo mundo fraco, né?

 

P/1- Comiam o quê?

 

R- Arroz e feijão sempre é a alimentação do pessoal. Quando estava com dois meses que começamos a trabalhar... Dois meses fechamos o relatório, o índice da vacina, que foi de... Era a faixa de 42 a 48 doses mensais, foi para 618 doses. Isso foi o que fez crescer o programa em Tocantins, porque...

 

P/1- E era fácil? Você falava: “Vai vacinar” e o pessoal ia?

 

R- Era fácil, porque muita gente não ia exatamente porque, quando chegava lá, o frasco da vacina só vacinava se tivesse aquela quantidade de criança pra vacinar, conforme fosse o tamanho do frasco, para não perder a vacina. Mas aí, quando a gente manda eles lá para o... Conscientizar. O pessoal sempre ia. Todo dia tinha muita criança lá, aproveitava, vacinava tudo. (tosse)

 

P/1- E a desnutrição, você acha que melhorou ou continua igual?

 

R- O pessoal continua... O poder aquisitivo é o mesmo, porque são muito carentes, principalmente a área que eu trabalho, são pessoas muito carentes.

 

P/1- Qual é a área que você trabalha?

 

R- É a área cinco, fica na Vila Jacó. Eu moro na Vila Jacó, trabalho na Vila Jacó, fica na área cinco, Vila Jacó e Conjunto Agostinho Barros, num total de 116 famílias. São quase... Um total de quase 90 crianças abaixo de cinco anos, e depois que foi criado...

 

P/1- As pessoas não tinham muito o que comer e pronto?

 

R- É, as crianças estavam tudo... Boa quantidade, desnutridas.

 

P/1- E tinha muita criança que morria?

 

R- Não, até que morrer... Sempre morria pouca criança. Depois que nós estamos trabalhando, na minha área mesmo não morreu nenhuma criança. São quase três anos e nenhuma criança chegou a morrer.

 

P/1- Você já pegou um caso de uma criança quase morrendo?

 

R- Já.

 

P/1- Como é que foi? Conta pra mim.

 

R- Eu, um dia cedo, segunda-feira, cedo, saí pra visitar, e tinha chegado uma senhora de Lizarda com duas crianças. Estava próximo de casa, na casa da Socorro. Quando eu cheguei lá a Socorro me chamou, cedinho, antes de eu sair pra trabalhar ela me chamou e me mostrou como é que estava aquela criança. Era uma criança de um ano de idade e a outra de dois anos. A criancinha de um ano estava desnutrida, e quando ela fazia cocô, a gente não suportava. E infecção também, intestinal, né? O pai tinha espancado muito a criança de dois anos, aí eu montei na bicicleta rápido, fui lá no Posto, cheguei, conversei com a nossa coordenadora − que era a Maria Helena − e ela pegou a ambulância, pediu para o motorista vir comigo na casa buscar. A doutora Fátima também estava lá nesse dia, ela passou a me procurar como era. Falei que a criança vinha de Lizarda naquela situação ali. Ela consultou, mas logo só fez consultar, deu um soro, mas já pegou encaminhamento para eu levar na promotora e no hospital. Eu fui lá no Fórum com a mãe da criança, as duas crianças. A criança de dois anos, ela estava com a marca do dente do pai nas costas.

 

P/1- Nossa, que coisa horrível!

 

R- A marca do dente do pai nas costas, né?

 

P/1- Mas por que o pai...?

 

R- Não sei, se dizia que era uma pessoa muito bruta. E a mãe da criança estava gestante de três meses, e estava com a criança morta na barriga, de pancada.

 

P/1- Nossa, mas que história horrorosa! De pancada?

 

R- De pancada. Eu fui na promotora e passei, entreguei o encaminhamento que a médica tinha me dado e ela, então, disse que antes de tomar qualquer providência, a criança tinha que ser atendida primeiro. Aí nós fomos deixar a criança no Hospital Regional de Miracema.

 

P/1- A pequenininha?

 

R- Todas, as duas, né? E nós deixamos lá. Doutor Carlos nos atendeu e a criança ficou internada lá, quase dois meses no hospital.

 

P/1- Todas as duas?

 

R- Todas as duas. E depois que a mãe... Estava dando febre também, foi aí que eles descobriram que ela estava gestante e a criança estava morta. Então eles trouxeram para a maternidade, fizeram ultrassom e curetagem, tiraram a criança que estava morta. O médico mandou o laudo para a promotora, aí eu não passei a acompanhar mais o caso da promotora, o que foi que aconteceu.

 

P/1- Você não sabe?

 

R- Eu não sei.

 

P/1- Mas não era na sua região? Não mora perto de você?

 

R- A promotora?

 

P/1- Não, você não sabe o que aconteceu com a família?

 

R- Não, o que foi que a promotora fez nesse período... Elas foram, essa família, depois o pai dessas crianças, já junto com a mãe da criança... Acho que a promotora mandou buscar o pai da criança para Tocantins também, aí eles foram morar na chácara que fica perto de Tocantins, na faixa de três quilômetros vindo de Palmas, na última ponte que a gente passa. Do lado esquerdo tem uma chácara que é do dono do Supermercado da Sorte, eles passaram lá um período, as crianças já boas. Eu repassei os cartões que estavam comigo − eu tinha copiado o cartão da criança, porque não era vacinada, também, a criança − para o meu colega de serviço, fica na área já dele, e quando passou um bom tempo já, elas nessa fazenda, voltaram de novo para Lizarda e eu não passei mais a acompanhar, porque saiu da minha área.  Eu sei que as crianças já estavam grandes.

 

P/1- E o pai ficou lá?

 

R- O pai ficou. Acho que a promotora foi lá, conversou com ele. Mas não passei mais a acompanhar o processo da coisa, como é que ficou.

 

P/1- E tinha muitas coisas assim na sua região?

 

R- Não, foi a primeira coisa que eu...

 

P/1- Viu?

 

R- É, que eu passei a conhecer foi isso, caso desse tipo. Foi esse.

 

P/1- E aí você me falou que queria desistir logo no início. Por causa desse tipo de coisa?

 

R- A gente encontrava muitas coisas assim, que a gente não podia resolver o problema. Sempre a gente depende de outra pessoa, de outra pessoa, de outra pessoa, e o problema da política também. Era esse. O pessoal não passava a acreditar, mas aí, depois de uns seis meses que a gente começou a trabalhar, que eu comecei a trabalhar, passei a gostar do que faço, e até hoje eu não tenho plano nenhum de sair.

 

P/1- E como foi que mudou? Antes de você ganhar esse material da Abifarma, que você estava me contando, você trabalhava com o quê? Quando chegou esse material? O que você ganhou?

 

R- Eu ganhei uma mochila, uma bicicleta, um termômetro, um cronômetro e o jaleco.

 

P/1- E o que mudou? Melhorou alguma coisa?

 

R- Melhorou porque eu estava gastando... Às vezes eu não tinha, pegava coisa na minha bicicleta, levava as crianças na minha bicicleta. Às vezes quebrava eu tinha que levar... Tinha vezes assim, para eu fazer encaminhamento de uma pessoa − porque a ambulância, sempre em Tocantins é só uma −, às vezes eu ia até lá na delegacia conversar com o delegado, pedir um favorzinho a ele e sempre ele me atendeu. Sempre que a gente chega lá para levar uma pessoa no hospital, que está passando mal − às vezes, no final de semana − o postinho está fechado, isso eu já fiz muito.

 

P/1- Mas aí o que mudou? Você tinha bicicleta antes?

 

R- Tinha bicicleta minha, né.

P/1- Hum, hum...

 

R- Mas aí, quando eu recebi essa, melhorou também, e também dá mais ânimo pra gente, a gente sentir que tem um povo, que a gente tem um apoio, que não está sozinho a favor daquela comunidade que a gente trabalha.

 

P/1- Hum, hum... A mochila, por exemplo, mudou alguma coisa? Antes como você levava seu material?

 

R- Era em pasta assim, de plástico. Mas molhava o material da gente, se a gente estivesse indo para um lugar e a chuva pegasse de repente, molhava mesmo. Hoje você coloca as coisas dentro da mochila, você anda com as duas mãos desocupadas e você pode andar em qualquer lugar, não tem problema nenhum de molhar, a não ser que seja chuva muito grossa, que entra água pelo zíper. A facilidade é muito melhor, muito melhor.

 

P/1- E o resto do material, mudou pra você ou foi isso de você receber um apoio, ganhar alguma coisa...?

 

R- Mudou, porque teve... Por exemplo, o termômetro mesmo, se a gente quisesse saber se a criança estava com febre, a gente tinha que pedir emprestado, ou senão já levar no posto mesmo, para saber se a criança estava com febre. O relógio, no caso do termômetro, assim, pra gente marcar os minutos ali, foi o que mudou, o relógio.  Foi isso que mudou.

 

P/1- E o que mudou na sua vida depois que você passou a ser agente comunitário?

 

R- Mudou...

 

P/1- Você, no seu dia-a-dia, o que você mudou?

 

R- Mudou porque eu passei a gostar mais até mesmo da minha pessoa.

 

P/1- É mesmo? Por quê?

 

R- Tanto de mim quanto da minha família. A minha esposa, eu passei a gostar, a entender que é... Que o trabalho da gente é muito beneficente. A gente sente... Carregar a dor, daquela pessoa que estava sentindo, com a gente. Eu tenho um exemplo mesmo que é... A história é comprida. A minha esposa estava na sala de aula, e na hora do recreio ela passou mal. Ela passou mal, deu uma crise e caiu no colégio, dentro do pátio do colégio. Eu, na hora ia chegando − acho que era dia de sexta-feira −, eu ia chegando já para pegar ela pra levar pra casa, porque só tinha aula até a hora do recreio.  Quando eu cheguei perto do colégio eu vi todo mundo, os colegas dela, todo mundo assustado, na porta do colégio. Aí já me perguntaram se ela tinha algum problema, eu digo: “Não, não tem problema nenhum, não.” Aí disse: “Não? Porque ela está passando mal.” Na hora que eu entrei no pavilhão do colégio, ela vinha vindo desmaiada, com duas professoras com ela no braço, e ela desmaiada, estava toda roxa.  Tinha um vendedor dentro do colégio, vendendo assim... Era colcha, essas coisas assim. Sempre os professores faziam o pedido, ele ia entregar. Então, naquela hora, eu fiquei doidinho, não sabia o que ia fazer, muito preocupado, nervoso. Eu não podia ir com ela sozinho porque era bem pesado, sessenta e poucos quilos. Me ajudaram a colocar ela dentro do carro do vendedor, pedi a ele para me levar até o posto com ela, e ele me levou. Ela deu duas paradas, porque não tinha mais médico no posto nessa hora, porque já era mais de... Era quase quatro horas da tarde, o médico já tinha atendido e ido embora, e tinha só a dona Dilma, a Raquel, e as outras enfermeiras lá. E elas atendendo ela ali, pediram para eu correr atrás do rapaz da ambulância, porque a ambulância estava lá, mas ele tinha saído. Então eu corri, não achei o motorista, mas tinha um rapaz que trabalhava na própria Prefeitura. Achei ele, que estava pondo lixo no caminhão da prefeitura, ele largou o caminhão do lixo, pegou a ambulância e levamos ela para Miracema. Antes dessa hora que eu saí, para procurar o motorista, ela deu uma crise, parou mesmo, parou a respiração, parou tudo, e elas tentaram... E quando reanimaram ela de novo, eu levei para Miracema. Chegamos lá umas cinco e meia, e ela só gritando com a dor na cabeça, que era uma dor de cabeça que ela mesma falava, só fazia gritar, aquele gritão. Então o médico atendeu, o doutor Paulo − se não me engano, acho que era doutor Paulo que atendeu − e de manhã cedo nós viajamos para Palmas, para fazer uma tomografia computadorizada. Ele já encaminhou para o hospital de Palmas, chegamos lá dez horas e o médico... Era faixa de dez, não, onze e meia, no hospital de Palmas. Ela toda vida gritando, não parava de dor na cabeça. Quando nós fizemos a tomografia, que veio receber o resultado, era seis horas da tarde já do outro dia. Aí constatou que ela tinha um aneurisma, tinha rompido e dilatou a veia em dois lugares. Então ele pediu para a gente levar ela pra Goiânia, mas não dava garantia se ela resistiria à viagem. Disse que em Palmas não tinha condições de atender ela, caso de uma cirurgia. Nós viajamos, na estrada deu duas paradas. Só eu e a filha dela, que é enfermeira, nós aplicamos remédio de novo.

 

P/1- Filha de quem?

 

R- Filha da minha esposa.

 

P/1- Ah, não sua?

 

R- Não, não filha minha.

 

P/1- É de outro...

 

R- É.

 

P/1- E ela já é grande.

 

R- Já, enfermeira, ela. E quando nós chegamos em Gurupi, era dez horas da noite. Internou, mas o médico não pode atender à noite. Só a outra médica que recebeu, e ela ligou para o médico, que era um neurologista, então passou a medicação, prescreveu e começou a aplicar, e eu fiquei lá. Quando foi no outro dia, nove horas da manhã, eu conversei com ele. Ele passou as informações pra mim, que o problema dela era um aneurisma e era para a gente se controlar e estar preparado para o que viesse a acontecer, então ele disse que ia fazer tudo para resolver o problema dela, fazer uma cirurgia, mas naquela hora ali ele não garantia nada. Nós levamos a tomografia, ele leu, então passou só a usar os remédios. Com oito dias depois que ele foi fazer um eletroencefalograma, e só no dia 31 de outubro foi que ela foi fazer a cirurgia. E ela resistiu bem. Foi sete horas quando ela saiu da cirurgia. E no período que eu estava... E sempre, sempre o pessoal me procurava, ligava de Tocantins, então a gente passa a gostar do pessoal, porque eles também gostam da gente. E sempre sentindo a falta que a gente estava fazendo em Tocantins. E hoje ela está aí, está dando aula, está normal.

 

P/1- Deu tudo certo?

 

R- Deu tudo certo. Então é um motivo para a gente se gostar também, de trabalhar e conseguir um objetivo assim, igual esse.

 

P/1- Você sente que as pessoas passaram a te respeitar mais?

 

R- É, sempre eu fui uma pessoa... Não que eu queira falar da minha pessoa assim, desse jeito que eu estou falando, mas sempre o pessoal gosta muito de mim, desde antes de eu trabalhar. Mesmo antes de eu trabalhar o pessoal sempre me respeitava. Eu gosto muito de conversar com as pessoas e procurar aprender muito, também, com as pessoas.

P/1- Hum, hum.

 

R- Então, gosto muito de ouvir notícia para eu repassar para as  pessoas.

 

P/1- Então esse trabalho “caiu como uma luva”?

 

R- Exatamente! Eu, igual eu estava falando, no início eu tentei desistir porque acho que não tinha chegado, eu não tinha pegado assim, a coisa, como é que era o trabalho da gente.

 

P/1- E você acha que a sua comunidade mudou, com esse trabalho?

 

R- Mudou, mudou, porque no dia que a gente não tem condição de ir a uma casa, numa família que tem criança, às vezes, quando a pessoa não encontra com a gente na rua, elas vão à casa da gente, procurar se a gente está doente, por que não foi lá pesar o menino deles, procurar que dia tem médico no Posto, que horas... E eles, sempre uma orientação que a gente dá para a comunidade da gente, eles seguem, sim. O que vale é a gente ter um diálogo com as pessoas, né? Saber também... Não é chegar: “Tem que fazer assim, assim, assim.” A gente tem que saber explicar, passar a explicar primeiro para a pessoa poder entender.

 

P/1- Hum, hum.

 

R- Então mudou muito, num ponto.

 

P/1- O que você acha que ainda deveria ser feito para melhorar mais a vida das pessoas?

 

R- Eu acho que tá faltando, não sei dizer... Acho que está faltando... Está bem, está bem, o programa, mas tem alguma vez... Um investimento, para a pessoa investir, né? Principalmente em moradia, porque se a pessoa não tem moradia, a pessoa não tem saúde, né?

 

P/1- Tem muita gente que não tem moradia?

 

R- Tem muita gente que não tem moradia, que mora em casa de palha, terra no chão. Eu tenho também outro exemplo, desse ano agora: no mês de fevereiro, no período que foi muita chuva, eu saí de casa na segunda feira cedo, e estava chovendo demais. A gente tinha que sair qualquer hora, porque não tinha condição de sair de jeito nenhum. Quando foi cedinho eu saí, passei na casa das pessoas, na casa do Alaudete, na do Lolo, na casa da dona Ana Rita, do Euclides, da dona Rosa, da Tereza, na casa do seu Odilon, na casa do seu Jacu. Eu cheguei lá eu vi que aquilo ali estava muito triste, e fiquei pensando o que eu poderia fazer, porque a casa era de palha, as parede de andor, estava caindo as paredes, o chão todo molhado, com criança pequena... Então eu fui à nossa coordenadora, na Lourdes, e passei o problema para ela. O que a gente podia fazer? A gente tinha que procurar um modo de abrigar as pessoas. Ela foi, chamou o seu Adelino, que é Secretário, e ele, mais que depressa, foi até lá no Prefeito. Eu passei a explicar a situação para ele, do jeito que estava, e ele... Também as pessoas não tinham nem como trabalhar, por causa da chuva, né? Ele arrumou cesta básica para essas famílias que estavam sofrendo. Eu acho que já está sendo encaminhado um programa de residência. E eles nos recebem, toda vez que a gente chega lá, ele recebe a gente. Eu acho que o que está faltando mesmo é moradia para pessoal.

 

P/1- E você acha que falta dinheiro?

 

R- Falta dinheiro, o pessoal não tem condições. Tem a casa do seu Odilon − que foi um desses que perdeu a casa, ele tem 86 anos − e nós fizemos um mutirão, no sábado passado, e levantamos a casa dele. Foi eu, um pastor da Igreja Batista, um bocado de gente. Foram lá e levantaram a casa dele, uma casa pequena. Só que o pessoal não tem dinheiro, nem como comprar material. Pagar a diária de um pedreiro é muito mais difícil. Se tivesse alguém pra investir em moradia para o pessoal, faria uma boa coisa.

 

P/1- Você é da Igreja Batista?

 

R- Não, não sou. Eu sou católico, mesmo.

 

P/1- Você é católico?

 

R- Sou.

 

P/1- E você é casado mas não tem filhos?

 

R- Não, eu tenho quase cinco anos que eu moro, mas não tenho filhos, não. Tem filhos só da minha esposa.

 

P/1- E o que você tem como sonho hoje? O que você gostaria de fazer?

 

R: Ah, se eu pudesse, para mim, estudar, sabe? Porque, já que estou na área da saúde − eu tenho três irmãs que trabalham na saúde, são enfermeiras. Tem duas em Goiânia e uma que mora em Miracema ­−, eu tinha muita vontade de estudar, sabe? Eu fiz duas provas de seleção. Ali onde a gente mora não tem colégio, não tem curso de enfermagem. Tem em Miracema, mas fica muito difícil para a gente estudar, porque tem que passar por uma prova muito difícil. Porque, quando eu fiz agora, esse ano, eram 120 pessoas para 30 vagas, aí eu não alcanço.

 

P/1- Para fazer enfermagem?

 

R- Fazer enfermagem.

 

P/1- Você pode fazer direto? Você se formou no segundo grau?

 

R- Eu tenho o primeiro grau completo.

 

P/1- Aí pode fazer enfermagem?

 

R- Posso. Começa primeiro ano, segundo, terceiro.

 

P/1- E o seu sonho era fazer enfermagem?

 

R- Fazer enfermagem.

 

P/1- Você queria virar enfermeiro?

 

R- Enfermeiro. Já que eu estou... E tenho três irmãs... Eu sinto que isso é importante para mim.

 

P/1- O que mais você queria fazer?

 

R- Ah, o meu sonho era esse. E ver minha comunidade mudar mesmo, sabe? Por exemplo, de moradia, porque se a pessoa não tem moradia, não tem saúde, não tem conforto, né? Então às vezes a gente pensa em fazer um mutirão para mudar a visão da cidade, da rua, mas sempre as pessoas são muito carentes e a gente não tem condição de largar... Às vezes três dias da semana pra ir fazer uma coisa que ele não vai ganhar o dinheiro de quando for comer amanhã. Então a gente peleja, peleja, peleja, e não tem condição.

 

P/1- Hum, hum. Lá onde você trabalha é muito diferente daqui dessa aldeia?

 

R- Não, é diferente porque é na cidade.

 

P/1- Mas e o tipo de pessoas? Você acha que o pessoal daqui é diferente? Você acha que o trabalho deles é diferente do seu... Os problemas que eles vivem?

 

R- Eu acho que não é tão diferente, não, porque qualquer agente comunitário, o problema que um enfrenta, o outro, pode ser de onde for, ele enfrenta também. Porque se tem um agente comunitário em um determinado lugar, é porque tem pessoas necessitando daquele trabalho da gente, pessoas carentes.

 

P/1- Hum, hum.

 

R- E a pessoa carente, tanto faz ser aqui como em qualquer lugar, sempre é pessoa carente, que necessita da ajuda da gente. Agora, sobre dificuldade, aqui é mais difícil.

 

P/1- Mais difícil?

 

R- Aqui na aldeia. Porque basta o tipo de locomoção daqui para a cidade, são 80 quilômetros. Para ele sair daqui com uma pessoa, para levar em Tocantins, é muito difícil pra ele. Precisa ter muita força de vontade pra poder aguentar, e ter um apoio também do seu chefe. Sem apoio não resiste não, Tocantins é fácil (tanto?) para mim como para os outros que trabalham lá, porque nós temos Miracema. Se for o caso de não poder atender em Tocantins, nós temos Miracema, que é vizinho. A gente pode arrumar um carro de algum conhecido da gente e levar a pessoa pra Miracema para ser atendido. O motivo de a gente ter só um carro na unidade lá é muito difícil, porque sempre aparece emergência e a ambulância sai, e quando a gente chega lá precisando, não tem, porque quando tem, a gente é atendido.

 

P/1- E aqui é mais difícil?

 

R- Aqui é mais difícil, porque quando ele vier lá, de bicicleta, 80 quilômetros, e chegar aqui, se for uma emergência, a pessoa já morreu.

 

P/1- Tem mais alguma coisa que o senhor queira me dizer?

 

R: Não, é só isso mesmo. Desejar um bom trabalho, para que as pessoas sempre tenham boa vontade de ajudar o PACS [Programa de Agentes Comunitários da Saúde], não só em Tocantins, mas no Brasil inteiro, porque isso vai mudar a cara do Brasil e a vida do povo.

 

P/1- Você acha?

 

R- Acho sim.

 

P/1- Por que você acha isso?

 

R- Ah, porque sempre a gente está nas casas dando orientação para as pessoas. Nós também fizemos, no ano passado... No ano passado não, foi em 94, 95, fizemos a campanha do filtro, em Tocantins, na época que era outra instrutora. Eu saía para a zona rural, levava os filtros. Fizemos uma arrecadação para cada uma das famílias. Quais são as que bebem água potável... Fizemos cadastramento e levamos filtro para essas pessoas, foi uma coisa muito grande. Nós fizemos levantamento, fizemos ofício e fomos à prefeita, na época, e ela nos atendeu, comprou 400 e poucos filtros, e entregamos para o pessoal.

 

P/1- É, isso realmente...

 

R- Quando eu falei sobre a desnutrição, isso aqui era uma criança que tinha na minha área, dois meses de idade, o cartão dele está aqui. Nessa época ele pesava três quilos e 600 gramas quando eu passei na casa da mãe dele e passei a informação de que a multimistura ia resolver o problema dele, ele era desnutrido porque não foi amamentado, porque foi adotado por outro casal.

 

P/1- E ele não tomava leite?

 

R- Ele tomava leite, mas leite de gado. Ela aceitou a minha... Para fazer um teste com a multimistura, se resolvia mesmo, senão... E eu levei. Quando estava com dois meses depois, já ele com cinco meses, eu fui lá. Quando fui... No mês de dezembro eu tive férias, aí não o pesei. Quando foi de fevereiro, dia nove de janeiro, pesei ele, ele já estava com seis quilos e 200 grama, então mudou completamente o peso dele.

 

P/1- Que bacana!

 

R- Mudou completamente. Daí para cá o último peso dele foi, agora no dia 12 de maio, nove quilos e vinte gramas, ele não come se não for com a mistura, acostumou com o gosto.

 

P/1- Ah é? Vai ficar fortíssimo agora.

 

R- É um exemplo que eu tenho na minha área, para mostrar para os outros... Porque muita gente às vezes não passa, não acredita que a multimistura resolve, mas resolve sim.

 

P/1- Então você vai com esse cartão, vai com a foto...

 

R- Vou com o cartão, com a foto, e todo mundo vê. Sempre o pai dele anda com ele na cidade, todo mundo vê que ele é uma criança bem dura, já está ficando em pé com nove meses, já está ficando em pé segurando nas coisas, tudo.

 

P/1- Que bacana!

 

R- Então é um exemplo que eu tenho de que a multimistura resolve.

 

P/1- E o pessoal tem resistência no início?

 

R- Ah, porque sempre dizem assim: “Ah, puído de arroz não resolve nada não, porque quem come puído de arroz é porco”, mas eu digo: “Se você colocar todo dia puído de arroz para um porco, logo ele está gordo.” Não é comparando sua criança com porco, não, é completamente diferente o modo da multimistura com coisa que você joga lá para o bicho,porque nós usamos o puído do arroz peneirado em três vezes, então ele fica bem limpo. A gente tem que saber de onde veio o arroz, qual a máquina que limpou aquele arroz e a folha da mandioca, folha de taioba, folha de batata doce...

 

P/1- Semente de abóbora?

 

R- Aqui em Tocantins nós não usamos semente de abóbora, mas a gente usa o amendoim, o gergelim e a casca de ovos. Cada 70 copos de multimistura, um copinho desse de 190 grama, de extrato, né, a medida que a gente faz.

 

P/1- E quem faz é você?

 

R- Quem faz somos nós, os agentes. Todo mês a gente se reúne.

 

P/1- As famílias participam também?

 

R- Não, as famílias não, porque o local é pequeno.

 

P/1- Então só os agentes?

 

R- Só os agentes que se reúnem para fazer.

 

P/1- E distribui?

 

R- Aí a gente distribui para crianças desnutridas. A cada 190 grama, cada 70 pacotes que a gente faz daquela multimistura, é um quilo de pó de casca de ovo que a gente coloca, né?

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