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História

O comunista que entrevistou Pinochet

História de: Lilian
Autor: Lilian
Publicado em: 06/06/2021

Sinopse

Nascido em Belém do Pará, muda-se para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor. Exerce através de influência dos pais a profissão de jornalista. À época, o Rio era a capital do país, e por isso, Carlos presencia a política de perto. Entrevistou chefes de estado, como Augusto Pinochet, ex-presidente do Chile. Após passar por diversas redações, usa sua expertise no departamento de assessoria de imprensa da Petrobras. Onde serviu diversos presidentes. Casado duas vezes, pai e avó.

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História completa

P/1 – Bom dia, Carlos.

R – Bom dia, Laura, bom dia, Márcia.

P/2 – Bom dia.

P/1 – Para começar a entrevista gostaria, por favor, que você nos dissesse seu nome completo, local e a data do seu nascimento.

R – Meu nome é Carlos Alberto Martins Pinto, eu nasci em Belém do Pará, no dia 7 de março de 1933. Estou, portanto, com 74 anos [riso].

P/1 – Legal.

P/2 – Muito bem.

P/1 – E o nome dos seus pais e dos seus avós, por favor.

R – Meu pai chamava-se Bertoldo Del Duq da Costa Pinto, minha mãe Elga Martins Pinto. Meus avós maternos Gregório Martins e Joana Eduana Martins, meus avós paternos Pedro Costa Pinto e Aída Osório Pinto.

P/1 – Família de nomes bonitos, né?

R – É.

P/1 – E qual era a atividade profissional dos seus pais e dos avós, se quiser contar também?

R – Meu pai era gráfico, trabalhava em jornal, na Folha do Norte e a minha mãe foi professora primária. Meu avô paterno foi comerciante, minha avó materna foi prendas domésticas, como se diz, né. Meu avô materno foi professor e a minha avó materna também foi professora primária.

P/1 – Legal. E, vou falar você porque a gente combinou.

R – [riso]. P/1 – Você tem irmãos, teve irmãos?

R – Tenho, tenho; eu sou primogênito, somos sete irmãos, sete irmãos dos quais dois já morreram, né?

P/2 – Mas todos homens?

R – Não, éramos seis homens e uma mulher [riso].

P/1 – E como é que era lá em Belém do Pará a sua infância, me descreve um pouquinho a rua, o bairro?

R – É, eu nasci na Conselheiro Furtado, né, é um bairro perto do Centro, numa cidade que naquele momento, segundo eu pesquisei depois, era uma cidade decadente, Belém do Pará; era uma cidade decadente, não tinha luz elétrica praticamente, os meios muito pobres. Foi uma infância que eu tive dificuldades, porque éramos sete irmãos e meu pai era gráfico, minha mãe professora, não tinha recursos suficientes para educar os sete filhos de uma vez só. E eu fui até privilegiado porque eu sendo o mais velho a atenção dos meus pais foi até certo ponto voltada para mim, de modo que; os outros, claro, tiveram também atenção, mas eu talvez, por uma questão de ser o primeiro, haja sido privilegiado por isso. Então é essa a ideia que eu tenho desses momentos da minha infância; também uma infância em que havia realmente as dificuldades como já disse, financeiras, de doenças. Eu me lembro bem que quando era garoto a tuberculose era uma doença devastadora, era irreversível, quer dizer, matava as famílias inteiras assim, no nosso quarteirão, isso me impressionou muito, e o meu pai foi vítima da tuberculose, ele morreu com 36 anos, eu tinha 12 anos e tivemos sorte, porque o pessoal, a vizinhança não passava por perto da minha casa, porque o meu pai era tuberculoso e era uma doença que devastava todo mundo. Eu tive sorte, porque eu fiquei na cabeceira do meu pai, né, vendo ele respirar por oxigênio, porque ele já não tinha pulmão e os meus parentes todos achavam que eu estava também com tuberculose e não estava, tanto que eu estou aqui presente hoje [riso]. E tive sorte. A minha mãe teve tuberculose, mas não morreu e depois a minha avó também teve, também não morreu de tuberculose. Enquanto outras famílias eram ceifadas assim, rapidamente, em questão de um mês... Eu vi enterros de várias pessoas da mesma família numa semana, isso me impressionou. Isso era década de antes de 50, eu nasci em 33, eu tinha 10, 11 anos, então essa era a maior dificuldade. Eu também tive impaludismo, que é a febre amarela, né? Isso atrapalhou o meu curso primário ainda, mas eu fiquei bom, porque tinha um remédio na base da quinina e que as pessoas ficavam com uma cor totalmente amarela, mas ficava bom e eu fiquei bom da febre amarela, que é o impaludismo, transmitido por um mosquito lá, o chamado carapanã. De modo que foi uma das coisas que marcaram a minha infância. E também foi uma infância que eu via que eu não tinha perspectiva, foi uma das primeiras coisas que me deu que eu disse: “Eu não vou sair nunca daqui para conquistar outros espaços”, porque todo mundo estava enraizado ali. Então essa ideia me perseguiu até os 17 anos, quando um tio meu que morava no Rio de Janeiro fez uma visita a nós, viu o nosso estado de carência total e como eu era o primeiro dos irmãos, né, já estava adolescente, ele me ofereceu para vir para o Rio de Janeiro para ver se eu conseguia alguma coisa aqui, até para ajudá-los lá.

P/1 – E só um pouquinho, por favor. Antes da vinda para o Rio, que a gente vai falar certamente...

R – Certo.

P/1 – Mas explorando um pouquinho mais essa fase da infância, você lá em Belém, que era tão difícil, mas também uma cidade bonita, né? Como é que era assim as suas brincadeiras, a dinâmica da família na sua casa, a sua casa, apesar das dificuldades?

R – Certo. É, o meu pai...

P/2 – As brincadeiras com os irmãos, né, eram seis, sete crianças...

R – Sete.

P/2 – Isso ajuda e muito.

R – Certo. As brincadeiras eram basicamente jogar pião, jogar pião, realmente jogar para cima e aparar na mão, que era uma quase uma acrobacia. Eu fazia isso. Era perigoso porque o pião poderia vir no rosto, isso a gente fazia disputas de jogo de pião, jogo de bola de gude, que no Pará, no meu tempo de garoto bola de gude não era, como se chama, bola de gude, mas era peteca, “vamos jogar peteca?”. E brincadeira de [riso], brincadeira até de roda, né, porque criança, no meu tempo, brincadeira de, aquela brincadeira de roda, que não havia realmente nenhum preconceito, todo mundo fazia com as meninas e era realmente uma infância que a despeito das dificuldades, porque a criança não sente as dificuldades, só vai sentir que passou as dificuldades talvez depois, vai ver o sacrifício dos pais, né, meu pai morreu eu tinha 12 anos, a minha mãe ficou na mão de um agiota, então é outra coisa que me marcou, ela não saía do agiota, comprava os meus livros com sacrifício e quanto às brincadeiras eram mais de, de crianças, coisas assim realmente ingênuas, de fazer casinha no quintal, que Belém do Pará tem muitas árvores, mangueiras arborizando as ruas, os quintais cheios de passarinhos, tinha, eu me lembro que eu tinha a “horta da vitória”, isso logo depois da Segunda Guerra Mundial, as professoras, o Governo Estadual fez uma campanha chamada “horta da vitória”, então eu fiz a minha horta, plantei tomate; eu tenho um costume até hoje, por causa dessa, dessa minha “horta da vitória”, plantava tomate, algumas coisas típicas da região, como caruru. O caruru era uma planta comestível, se fazia com ovo, eu plantei muito caruru na “horta da vitória”. Dessa época veio o costume, como eu plantava muito tomateiro, ele dava, quer dizer, tomate, eu comia com sal, até hoje eu tenho o costume de comer tomate com sal, me lembrando do meu tempo de infância, é uma coisa que eu trouxe de lá, que hoje até me faz bem, porque o tomate é rico em muitas vitaminas aí. E é uma das coisas que... [riso]. E as ruas, a tristeza também, a minha infância, tristeza, meu pai era homem rígido, até pela doença e todo mundo tinha que dormir às 9 horas da noite, tinha uma usina elétrica lá a diesel que funcionava precariamente, que apitava às 9 horas. É a usina de Utinga. Onde a Petrobras até se instalou lá, perto de Valdecans, se instalou lá até anos atrás. E quando apitava todo mundo se recolhia. A gente ficava confinado que o meu pai não deixava ninguém sair depois das 9 horas e eu me lembro porque eu tinha 10 anos, a minha primeira namoradinha eu dava murro na parede porque não podia vê-la, então eu me lembro bem que eu dava murros na parede, aí o meu pai gritava lá de um quarto: “Quem está fazendo esse barulho?” – era eu, né – “- Ah, ninguém.”, “Que barulho é esse?” Mas eu expressava a minha frustração dando murros na parede, porque não tinha oportunidade de ficar até mais tarde vendo uma namoradinha assim, que era uma vizinha [riso].

P/1 – Mas o senhor era novinho, né?

R – Era novinho.

P/1 - Porque quando ele morreu você...

R – Eu tinha 10 anos..

P/1 – Você tinha 12 anos.

R – Eu já tinha 12 anos, mas foi por aí. Mas isso caracterizava uma certa, muita infância aí, né, com 12 anos, porque a criança lê, o homem realmente custa a desenvolver, então era, eu era garoto, era ingênuo completamente, eu não acredito... Muitas coisas que depois eu, a vida me ensinou, achava inacreditável, muitas coisas, né? Que na minha infância eu, depois como adulto eu vi, eu achava; na minha infância que eu ouvia falar assim, eu era, totalmente inacreditável para mim, então.

P/1 – E quando o seu pai faleceu a sua mãe continuou com a mesma dinâmica de botar todo mundo para dormir às 9 horas?

R – Não.

P/1 – Mudou?

R – Aí a minha mãe perdeu um pouco daquele rigor que era do meu pai, porque sete irmãos não era brincadeira. O meu pai era rígido e a minha afrouxou um pouco e aí todo mundo chegava tarde. Eu me lembro que eu tinha um irmão; e eu próprio, eu comecei a sair, também chegava mais tarde. Quebrou um pouco o rigor do meu pai, até porque a minha mãe ficou assim um pouco perdida, né, 36 anos, vocês imaginam, na época com sete filhos para criar e a minha avó foi uma das pessoas que deram assistência à minha mãe, a mãe da minha mãe.

P/2 – Sua mãe foi trabalhar?

R – Foi, ela continuou, era professora, então ela continuou a trabalhar.

P/2 – Com a ajuda dos seus avós?

R – Da minha avó, principalmente, minha avó que morava com a gente. E a minha mãe, para ganhar mais uns trocados, ela dava aulas noturnas nos grupos escolares. E eu, garoto, eu ia, acompanhava a minha mãe. Ela ficava até; ela dava aula de manhã num grupo escolar, à noite dava para, já naquele tempo havia adultos que se alfabetizavam a noite, não sei qual era o esquema, mas já tinha um programa de governo que facilitava a alfabetização àquelas pessoas que não sabiam ler e a minha mãe... E eu, garoto ainda, ensinava alguns adultos.

P/1 – Ajudava.

R – É, eu ensinava alguns adultos, palavras, alguma coisa que eu sabia, que eu já estava no primário lá em cima, no último ano, já para entrar para...

P/2 – Conta um pouco da sua escola, das suas lembranças também da escola.

R – Ah, na escola, o grupo escolar, eu me lembro bem quando a minha mãe me levou pela primeira vez sozinho para eu ficar num grupo escolar. [Paes de Carvalho?], eu me lembro, eu devia ter 6 para 7 anos. Porque na época não; eu não frequentei jardim de infância não, já fui... Até porque a minha mãe era professora, as primeiras aulas de português e da escrita, a minha mãe dava em casa. E eu fui, aos 7 anos eu fui matriculado no grupo escolar, ela me deixou sozinho lá e isso foi marcante para mim e eu fiquei lá fazendo amizades, a minha primeira amizade me lembro bem, que eu tive um colega chamado Getúlio, aí é uma curiosidade, quando eu cheguei em casa perguntei para meu pai, né, eu digo: “Mas eu tenho um colega chamado Getúlio.” Porque o Presidente da República era o Getúlio Vargas, eu pensava que Getúlio fosse inerente só a um Presidente da República e achei... Aí o meu pai: “Não é, ele também pode ser Getúlio e tal” [riso]. E isso foi uma das lembranças das minhas primeiras aulas do curso primário no colégio Vilhena Alves, não foi Paes de Carvalho, o Paes já era segundo grau, me enganei. Esse é o Grupo Escolar Vilhena Alves.

P/1 – O primeiro...

R – O primeiro, onde eu tive o meu curso primário, eu botei errado aí no currículo. Aí, é uma primeira lembrança que eu tenho, o curso primário, me lembro bem, uma das coisas notáveis que eu achei quando criança, foi o bebedouro, porque a gente, eu bebia água no pote, era um pote, não tinha filtro, era pote com púcaro, tirava água de dentro do pote e botava dentro do copo. Meu copo era lata de leite condensado, copo, meu pai deixou a gente assim. Tudo bem. Então, quando eu cheguei lá encontrei um bebedouro, apertava, a água fluía, eu achei aquilo notável [riso]. E estava lá no bebedouro bebendo água o tempo todo, para estrear aquele...

P/1 – Novidade, né?

R – Era novidade, aquilo para mim era... Então não tinha geladeira na época, o rádio, poucas pessoas na minha rua tinham rádio, me lembro bem que uma vez eu entrei num... Um vizinho, que era o rico da rua, o senhor Santos, me lembro do nome dele, tinha um rádio bonito, então, ao entrar na casa dele eu fui por trás do rádio para ver se não tinha ninguém, tinha algum homem falando atrás do rádio [riso]. Uma ideia de infância, né? E era fascinado pelo rádio, eu achava uma mágica e é uma mágica, o rádio é... É que a gente se acostumou. Então, aí eu ficava fascinado pelo rádio, onde tinha um rádio eu; as casas que tinham rádio eram fantásticas para mim, né, eu ficava ouvindo, parava para ouvir, até que um dia, antes de morrer meu pai comprou um rádio, aí eu tomei conta do rádio [riso], aí eu fazia, como eu era o mais velho, eu dizia: “Quem vai ouvir sou eu, depois você...” E todos os irmãos tinham uma espécie de audiência daquele rádio. Foi uma das coisas... Aí talvez a minha comunicação, a minha vontade da comunicação, é como tivesse começado aí, né, porque até hoje eu gosto de rádio, fui até colecionador de rádios, eu tenho uma coleção de 48 rádios.

P/1 – Nossa.

R – Antigos. Tenho um museu do rádio, foi consequência ainda dessa fascinação que eu tive enquanto garoto, até hoje. Aí, sim, também foi nessa época isso, né?

P/1 – E os estudos, você gostava de estudar, gostava de alguma matéria...

R – Estudava.

P/1 – Gostava de alguma matéria em especial?

R – Gostava. Que, inclusive nos estudos aconteceu um fato interessante. Eu sempre estudei, como toda criança, preguiça de estudar, tudo bem. Mas já no; meu pai ficou doente, como tuberculoso ele fez uma operação e não adiantou nada, fez uma operação no pulmão e tomava aqueles remédios da época, que não valiam nada, era doente, mas ele acompanhava o meu estudo e perguntou: “Você vai passar?”, eu digo “Vou pai, vou.” Mas acontece como eu estive na cabeceira dele entre 11, 12 anos, ele me perguntou: “Você vai passar?”, eu digo: “Vou! E vou ser o primeiro aluno da escola.” E ele morreu e eu me tornei o primeiro aluno, eu tenho esse boletim, eu guardei, está no meu baú, em que já estava já no ginásio, né, já tinha saído do primário, aí eu prometi ao meu pai e me tornei o primeiro da turma e só tirava, o meu boletim eu só tirava nove, dez.

P/1 –Como uma homenagem a ele.

R – É. Mas depois eu, 2 anos depois eu já estava no...

P/2 – Carlos, como é que foi esse trabalho, você conta que você acompanhou também um pouco a parte da gráfica com ele, ele te chamou, como é que foi?

R – Ah, sim! Então o meu pai ainda estava trabalhando mesmo doente, mesmo com; para vocês verem, ele com uma fístula no pulmão esquerdo ele trabalhava...

P/2 – Só um minuto [pausa]. [Final primeiro Track 23,23]

P/2 – Podemos continuar...

R - Certo. Diante da dificuldade, o meu pai que era gráfico, que chefiava a oficina, ele achou, achou que eu devia aprender a profissão dele, que era linotipista, que é uma função extinta. Então eu passei a ser um aprendiz, eu com 11 ou 10 anos eu limpava aquelas máquinas...

P/2 – Explica para quem é da outra geração o que que é o trabalho de um linotipista?

R – Ah, linotipista eram operários que trabalhavam numa máquina, uma máquina que tinha um chumbo derretido e ele digitava num teclado lá, o chumbo derretido depois se acoplava a matrizes com letras e as letras saíam no chumbo. Logo depois o chumbo que era derretido, ele se consolidava e saía aquelas placas com as letras e todas aquelas placas eram colocadas numa planilha, eu diria planilha hoje, depois passava uma tinta e imprimia aquilo no papel.

P/1 – Que interessante.

R – Então era na base do chumbo que era impressa as letras, né? O chumbo estava derretido, depois um processo lá, a máquina preparava tudo isso e o chumbo ficava consolidado já com as letras impressas e aquilo juntava tudo e fazia os artigos, as notícias, eram impressos ali e a linotipo acabou. Dizem que ainda existem algumas no interior do Brasil. Mas o chumbo larga muito antimônio que afetou o pulmão do meu pai também e a tuberculose...

P/1 – É, quem trabalha em gráfica tem muito.

R – É. Mas o meu pai então, sendo da Folha do Norte, eu ia lá, levava a marmita para ele, para ele almoçar, diariamente eu e um outro irmão mais novo do que eu. Então, como eu já estava no ginásio, meu pai, ao morrer, eu fui lá na Folha pedir um emprego, né, eu já tinha trabalhado lá como aprendiz do meu pai, mas aí o chumbo derreteu e espirrou no meu rosto, eu tinha 10 para 11 anos.

P/2 – Isso enquanto você era aprendiz.

R – Aprendiz, antes de ser... Então o meu pai, me lembro que meu pai correu com uma graxa e jogou em cima do meu rosto pensando que eu tivesse ficado cego, mas pegou no meu rosto, tanto que não ficou marca nenhuma. Ele me tirou desse trabalho como aprendiz da profissão dele. Mas, 2 anos depois quando ele morreu, eu já estava no ginásio, no segundo grau no caso, aí me deram um emprego lá como aprendiz de repórter, aí de repórter, foi aí que eu comecei a aprender, como eu estava no Grêmio Cultural Castro Alves, que eu tinha veleidade de me tornar um literato [riso], não era nada disso que eu queria, mas aí deu certo no jornal, eu comecei a fazer entrevistinhas, escrever notícias, né, então foi aí que entrei na Folha do Norte lá ainda, depois da morte do meu pai, mas aí já foi já adolescente, com 17, 18 anos.

P/1 – E aí já foi seu primeiro trabalho mais efetivo, né?

R – É, foi lá. Então aí termina a infância, termina mais ou menos por aí.

P/1 – E aí tem o tio, né, que você estava começando a contar...

R – Sim, aí sim.

P/1 – E eu quis voltar um pouquinho.

R – Aí eu fiquei lá, fiquei lá trabalhando e tal, quando um tio meu daqui foi fazer uma visita e viu a nossa situação de penúria e como todo tio ele se ofereceu para ajudar, ele ajudou no que foi possível, mas a proposta maior foi o convite que ele fez para eu vir para cá para morar com ele aqui no Rio e ver se tentaria um emprego para ajudar a família lá, o que depois ocorreu, com muito medo da minha parte, eu tinha 16 para 17 anos, aí me lembro bem da minha despedida lá, todo mundo no Valdecans, eu vim no avião da FAB né, ele conseguiu uma viagem no avião da FAB, eu vim sozinho para cá, todos meus irmãos no aeroporto, a minha avó, que eu quero prestar uma homenagem a ela, eu tenho um amor muito grande pela minha avó, a minha mãe, meus irmãos no Valdecans e tal, o avião, adeus, até...

P/2 – Perdão, é no Valdecans?

R – Valdecans, é um nome.

P/1 – É o aeroporto.

R – É o aeroporto de lá, né, Valdecans. Então foi aí que eu vim parar no Rio, já com 17 anos, completei 18 aqui.

P/1 – E você tinha muitos amigos lá?

R – Aí, no Belém sim, Belém deixei vários colegas de ginásio, vários colegas importantes depois, que se tornaram importantes, porque um deles foi presidente do Banco do Estado do Pará, outro foi... Se tornariam importantes, né? Outro foi...

P/1 – Mas importante também para a sua vida, tinha alguém, tinha uma namorada, tinha um amigo especial?

R – Ah, tinha, né? Olha, a minha vinda para o Rio foi até uma frustração em matéria de namorada, eu tinha uma namorada chamada Maria da Glória Guimarães, quando eu disse que eu vinha para o Rio, eu tinha 16 para 17 anos, aí ela chorou de molhar a minha camisa, chorou, chorou, chorou. Tudo bom. No dia da minha despedida, que eu fui me despedir dela, então fiquei esperando aí no local, aquelas ruas assim quase sem luzes e tal, aí esperei, esperei, ela não apareceu aí de repente veio uma colega dela e disse assim: “Olha, Carlos, você está esperando a Maria da Glória há duas horas aí. Olha, vai ver o que ela está fazendo na outra esquina.” Ela estava agarrada com outro namorado, né, ela estava agarrada com outro namorado, né, aí foi uma frustração violenta. Aí eu embarquei no dia seguinte tranquilão, quer dizer, foi uma decepção para mim essa minha namorada, as outras... Tive namoradinhas, né, mas sem maiores consequências, aqueles... Colegas de ginásio, colegas de...

P/1 – Mas nessa época que você vem para o Rio deixou uma vida que era gostosa lá, um grupo de amigos que se divertia?

R – Não, não, não tinha. Não tinha exatamente pela situação financeira em que nós vivíamos, né?

P/1 – Entendo.

R – Porque... Eu só vim a jantar bem aqui no Rio de Janeiro, porque houve uma época que jantar para sete pessoas era uma lata de sardinha, sabe, para dividir por sete e café com pão no jantar, né, tanto que eu passei a... Quando eu vim para o Rio eu comecei a jantar mesmo. Isso, realmente passei por isso...

P/2 – Mas a sua experiência lá no seu trabalho também no jornal, você ganhava um dinheirinho e ajudava a casa.

R – Ganhava, eu ajudei muito a minha... No começo eu ajudei muito a ela, mandava um dinheiro daqui no... Lá, na Folha do Norte eu passei pouco tempo, lá em Belém, como aprendiz... Ganhava um dinheiro.

P/2 – Eu queria saber um pouco só dessa sua experiência de primeiro trabalho também, como é que foi.

R – O primeiro trabalho foi exatamente na Folha do Norte.

P/2 – Conta um pouquinho.

R – Pois é, quando eu ganhei...

P/2 - Um menino também já trabalhando num jornal.

R – Pois é, quando eu ganhei o primeiro... lá pagavam em dinheiro vivo, né? Eu me lembro bem quando aprendiz da profissão do meu pai, com 10 anos, me pagaram, me deram um pacote de moedas, eu fui para casa rindo, né, eu estava tão contente que eu fiquei rindo do trabalho até em casa, não me continha de rir sozinho ali, de tão contente, nunca tinha uma reação assim notável, porque nunca tinha recebido nada, né, no trabalho. Mas logo depois teve esse acidente do chumbo que espirrou no meu rosto, eu tive que sair. Voltaria depois como aprendiz, aí de repórter, né, que eu já falei para vocês, onde eu fiquei pouco tempo até vir para o Rio. Mas aí, o dinheiro que eu ganhava já não me dava esse grande sorriso do primeiro pacote de moedas [riso], era tudo, tudo trabalhado e pesava no bolso, eu me lembro que pesava no bolso aquelas moedas.

P/2 – Ô Carlos, você se lembra da sua primeira matéria como aprendiz de repórter?

R – Na Folha do Norte?

P/2 – É.

R – Olha, me lembro porque era um, me mandaram fazer um pobre, porque os assuntos lá eram pobres também, eram mendigo e tal que estava jogado lá e eu fui dar uma olhada, o fotógrafo foi comigo, aí eu escrevi uma matéria assim falando em, escrevemos: “Paradoxos da vida” [riso]. Aí um repórter mais velho me chamou: “Ô Pinto, pô, “Paradoxos da Vida”, isso aqui não é literatura [riso]. Porque você não diz que o mendigo estava jogado, abandonado pela família.” Foi uma das primeiras matérias que eu fiz, eu usei o “paradoxo”, botei o título “Paradoxos da Vida” [riso].

P/1 – Tinha coisa do Grêmio também de literatura, né?

R – É, do Grêmio, eu tinha muito ligado à literatura. O Grêmio Cultural Castro Alves, a gente tudo, aqueles garotos de 13 anos escrevendo poemas para... Negócio até ridículo, eu acho ridículo.

P/1 – Ah, bonito.

R – Eu fazia uns poemas também que eu rasguei tudo [riso]. Então aí uma das primeiras matérias. Mas depois comecei a fazer entrevistas mais amplas com políticos e tal. E o curioso é que a Folha do Norte ela colocava o repórter, sempre que o repórter fazia uma notícia, ele saía fotografado ao lado do entrevistado, de modo que a minha mãe como a minha primeira fã começou a colecionar aquilo, ela tinha muitas fotos de jornal, ela guardou até antes de morrer, com 84 anos e eu não guardei nenhuma, aliás nunca liguei para isso, curioso. A minha memória particular está jogada fora, porque eu não guardo nada. Para entrar para consultor aqui da Petrobras eu tive que fazer uma pesquisa no Globo, Jornal do Brasil para encontrar alguns artigos meus, não tinha nada em casa. Mas escute só, então aí, então botavam a fotografia minha e do entrevistado no jornal, né, e a minha mãe guardava tudo isso, então foi o lado bom da época. Depois, ao vir para o Rio de Janeiro eu vi que a realidade no Rio era outra, né, era uma coisa até... Lá era uma coisa até assim ridícula, ridícula, porque o cara pensa que é o máximo lá, aqui não é nada [riso].

P/2 – Foi muito impactante chegar ao Rio?

R – Ah, foi, foi. Foi, primeiro porque o meu tio disse: “Você vai morar bem, eu lhe dou tudo e tal...”, tudo bom. Aí, quando eu cheguei aqui ele morava em Nilópolis, então tinha que pegar de Nilópolis, mas longe da estação, então tinha que pegar o ônibus da casa dele até a estação, de pegar o trem [riso] até a Central do Brasil, da Central do Brasil pegar o bonde para o trabalho que eu arrumei aqui na sucursal da Folha do Norte, aqui no Rio já. Então fiquei nisso, quer dizer, quando eu vi isso eu digo “puxa vida, eu não vou aguentar isso”, porque me acordava... Estudava à noite aqui, pegava às 9 horas da manhã, trabalhava até 5 horas da tarde, estudava à noite e chegava lá 1 hora da manhã.

P/1 – Estudava o quê?

R – Estudava o...

P/1 - O colégio ainda?

R – O colégio. Estava fazendo os preparatórios. Aí, o que que aconteceu... Não, estudava a parte do científico, que eu terminei aqui, o final. E não tinha tempo para nada, “eu não vou aguentar”, o meu sono era tamanho que eu, quando eu chegava, eu jantava 1 hora da manhã. A minha tia, né, ainda está viva com 85 anos, arrumava uma comida para mim, eu jantava 1 hora da manhã, 2 horas, para me acordar às 5:00, para estar no trabalho às 9:00. Tanto que às vezes não tinha ônibus da estação de Nilópolis até a casa do meu tio, eu andava a pé tentando dormir andando, eu tentei dormir andando, meu sono era tamanho que eu pegava aquela reta, não havia assalto, não havia nada, pegava aquela rua imensa pela frente, aí eu começava a andar com os olhos fechados tentando melhorar o meu sono. Mas um belo dia eu me livrei disso, “Não, vou morar sozinho do Rio”, eu já estava na Folha do Norte, já tinha tirado o meu tempo militar na aeronáutica também, aí peguei um emprego na Tribuna da Imprensa. Aí quando eu peguei o emprego na Tribuna da Imprensa eu disse: “Olha, eu não vou ficar aqui morando em Nilópolis, vou morar no Rio, no Centro.” Aí aluguei uma vaga aqui na Lapa. Para você vê a minha inexperiência, a vaga era composta eu, que tinha dado baixa na aeronáutica, um sargento que era, tinha participado da última... Neurótico de guerra, que dormia com o revólver debaixo do travesseiro, com um foragido da polícia da Califórnia, que era ladrão, né, e um explorador de mulheres [pausa]. Então, como eu ia dizendo, eu, já na Tribuna da Imprensa eu disse ao meu tio e a minha tia que eu vinha morar no Rio e as minhas primeiras companhias numa vaga que eu aluguei na Lapa eram exatamente esses elementos. Eu convivi com eles, convivi durante uma temporada e depois eu, para onde eu fui? Eu fui melhorando de vaga, isto é, aí eu já consegui alugar um quarto só para mim, um quarto de empregada, sempre trabalhando, aí eu já não estava mais na Tribuna, eu tinha pegado um outro emprego na Última Hora que estava surgindo aqui. A Última Hora, o que aconteceu? O interessante é que nessa época não havia faculdade de jornalismo, então quem tinha, quem estava já militando na imprensa teve o direito assegurado pelo Ministério do Trabalho para ser registrado como jornalista. Foi o meu caso e o de dezenas de outros. Mais interessante é que quem estava militando na imprensa foi convidado para dar aulas nas faculdades que estavam surgindo. Interessante. E eu fui um deles, sondados, né, mas eu não me interessei.

P/1 - Não?

R – Não, me interessei não.

P/1 – Você foi fazer economia.

R – Eu fui, depois eu fui fazer economia, por quê? Porque eu não ia perder tempo. Já que eu estava com meus direitos assegurados, registrado como jornalista e como tantos outros, eu não ia perder tempo para... Eu resolvi estudar economia por quê? A economia era, depois com o tempo, era o boom dos anos 60 para 70, então aí todo mundo tinha que conhecer economia na época. A gente vai de acordo com a vida, eu fui de acordo com a vida.

P/1 – E onde você estudou economia?

R – Na Candido Mendes, mas eu não concluí o curso, acabei trancando a matrícula do segundo para o terceiro ano, eu digo: “Pô, não vou fazer mais isso”, até porque eu estava no Globo, aí já estava no Globo e aí... Porque eu entrei para a faculdade de economia já com 40 anos, também tem isso, 40 anos, porque eu vi que eu tinha que me atualizar. Tanto que eu fiz o vestibular e quando eu passei, eu carreguei no colo todos os meus três filhos, que estão hoje com 40 anos, meus filhos [riso].

P/1 – Então você seguiu nos jornais aqui no Rio, estava no Globo...

R – No Globo. Aí foi bom, o curso de economia foi bom porque depois eu fiz um curso de extensão de 1 ano na Coppe, de macroeconomia, aí eu passei a conhecer muito mais desde o produto elástico, até a inflação, até matrizes, né? Isso foi bom, porque depois fiquei... Como no Globo eu passei 17 anos na área econômica, então foi muito bom para mim e até para cobrir a área petrolífera, porque foi lá que eu comecei a cobrir a Petrobras, entende, para onde entraria anos depois, já com 50 anos [riso].

P/2 – Deixa a gente só segurar um pouquinho, Carlos. Aqui no Rio você até contou aqui, aí já estava casado e tudo, né? Antes até da gente chegar no seu casamento, você reviu seus irmãos, como é que ficou também o contato com a família?

R – A família é o seguinte, estando aqui no Rio de Janeiro eu ajudei a minha família mandando sempre um dinheiro para eles, né? E o que que aconteceu? Aí eu me casei, me casei aí me dediquei praticamente... P/2 – Se casou com quem? O nome da... [riso].

P/1 – Conheceu como?

R – Me casei o seguinte, eu aluguei um quarto de empregada no Flamengo, Rua Marquês de Abrantes, o que aconteceu? O quarto de empregada, tudo bom. O dono do apartamento tinha uma irmã que tinha mais ou menos a minha idade. Aí eu comecei a namorar a irmã do dono do apartamento [riso]. Aí de repente a coisa evoluiu, de repente eu estou casado, morando num apartamento de três quartos, Marquês de Abrantes, com todo conforto, quer dizer, curioso, a minha vida se transformou aí. Quer dizer, claro, todo...

P/2 – Como é que é o nome da sua esposa?

R – Não, foi Assucena.

P/2 – Assucena.

R – É o nome de uma flor, Assucena de Araújo Pinto, mas ela, ela já faleceu, mas isso já é outra história porque aí ela faleceu... Tudo bom... Mas aí eu me casei... Só para terminar.

P/2 – Hã, hã.

R – Mas aí eu me casei, fiquei morando lá com ele, depois parti para o meu apartamento alugado. Depois eu compraria um, tal. Mas aí parti, aí nasceram os três filhos, Marcos, Fábio e Lúcia.

P/2 – Marcos, perdão...

R – Marcos, Fábio e Lúcia.

P/2 – Fábio e Lúcia.

R – É. Aí a minha mulher era, essa, a Assucena era técnica de laboratório, ela me ajudou muito também a comprar o primeiro apartamento, que foi na Ubaldino do Amaral, no Centro do Rio, o Globo na ocasião até me ajudou porque tinha interesse em que eu morasse perto do Globo, que eu ia a pé para o Globo, já estava ali na mão e me financiou a entrada do apartamento e aí, em relação a minha família eu continuei dando apoio, mas a minha mãe resolveu vir para o Rio depois, depois todo mundo veio para o Rio, né, ficaram só os primos.

P/1 – Todos os irmãos...

R – Todos os irmãos.

P/1 – Sua mãe...

R – A minha mãe...

P/1 – E sua avó também?

R – A minha mãe resolveu vir para o Rio, foi morar com outro irmão meu que era gráfico também, linotipista, eu tenho irmão que herdou a... Eu não fui linotipista, mas teve outro irmão que já está aposentado, tem 72 anos, está aí e ele foi linotipista. Então vieram todos para cá, cada um morando numa parte, Realengo e Niterói...

P/1 – Eles vieram todos juntos..

R – Não, vieram...

P/1 - Ou aos poucos?

R – Vieram aos poucos, um puxou o outro... Eu sempre disse que não era para vir, eu disse, sempre os desaconselhei a vir, né, porque, não sei porque, não era por egoísmo, é porque a dificuldade que eu passei aqui, né, que eu tinha momentos de chorar de saudade da família, para querer voltar, mas eu aguentei firme até superar essa saudade, eu chorei muitas vezes no bonde, à noite, de saudade, eu chorei de saudade da minha família, mas digo “eu vou ficar aqui, tal...” E até que, né?

P/1 – Para galgar a sua carreira.

R – É, Até que consegui, né, galgar...

P/1 – E a sua avó que você gostava tanto?

R – A minha avó...

P/1 – Ela não veio.

R – Não veio, porque ela faleceu antes disso e soube que ela morreu falando o meu nome. Essa realmente foi a avó, tenho o máximo do carinho fora do comum por ela [riso]. Interessante. Esse amor por ela veio, ocorreu agora na maturidade, não foi... Eu era um neto levado com ela e tudo, mas o amor mesmo eu comecei a sentir depois dos 50 anos, depois. Curioso isso.

P/1 – Ou a consciência de que sempre amou e não...

R – É, interessante isso. Eu falo muito isso porque foi um negócio notável, como é que a minha avó, né, eu era levado, não dava muita bola e de repente começou a surgir isso? Mas todos estão aí e eu tenho feito, ajudado meus irmãos, né, que estão aí, um deles foi comerciante, eu dei até um dinheiro para ele montar um negócio, ele está bem, tem uma casa de plásticos lá em Realengo, tem o outro que é do exército e está reformado já, Fabiano, e uma irmã que não faz nada [riso], está com 60 e tantos anos.

P/2 – Ô Carlos, me conta um pouquinho também, antes de você chegar ao Globo, você passou também pelo Diário Carioca, Rádio Nacional...

R – Foi.

P/2 – Me conta da TV Excelsior também.

R – A TV Excelsior ela veio com uma força total, como uma expressão do jornalismo moderno, com o Fernando... O filho do presidente da ABL [Academia Brasileira de Letras], Barbosa Lima, Fernando Barbosa Lima, que está aí. O Fernando montou uma equipe, Hélio Polito e Borjalo [Mauro Borja Lopes], grandes, né, inovou na televisão, a TV Excelsior veio com uma nova proposta de comunicação e eu fiz parte dessa equipe, até porque eu era amigo do Fernando Barbosa Lima, trabalhamos juntos, ele é mais novo do que eu talvez pouca coisa, mas aí eu fiz parte dessa equipe, a TV Excelsior era notável, só dava matérias assim de primeira e não tinha nada de denúncias também, o jornalismo mudou muito, mudou muito, hoje o jornalista é quase um policial e na época não era permitido fazer denúncias sem, sem provas.

P/2 – Lá você trabalhou como repórter também?

R – Trabalhei, trabalhei. Apurava matérias e íamos para lá para a TV Excelsior fazer o programa. Foi uma experiência notável de televisão, porque a televisão o impacto é na hora, né, é como o rádio, o jornal você escreve uma matéria, você vai ler, você vai comentar, você vai... Na televisão o cara dá a matéria e acabou ali, o impacto é na hora. Na Rádio Nacional também foi uma boa experiência, foi pouco tempo, mas foi uma boa experiência. Agora, Diário Carioca não, Diário Carioca já foi um estilo de jornalismo com lead, lead é o principal, é “o quê, como, onde”, né, bota tudo na cabeça. Isso o Diário Carioca criou esse estilo jornalístico que hoje já está superado, você hoje você lê uma notícia só ele dando ênfase na primeira notícia ao “quando”, né, “quando”; o lead ele é o ingrediente de quando, onde, o quê, por que, e é impossível fazer um lead... Na verdade [riso], fazer um lead com todos esses ingredientes fica uma coisa desse tamanho, sem ponto, né, e está superado, está superado. O jornalismo ele vai mudando, talvez daqui a 20 anos, 40, volte tudo de novo, assim como os cabeludos. Os cabeludos no século passado, todo mundo era cabeludo, e eu pensava que não fosse uma novidade, nada disso [riso]. Barbudo... Aí modifica, aí a imprensa estava... Por exemplo, no meu tempo de repórter do Globo só assinava matéria quando a matéria tinha um cunho altamente relevante, era uma coisa fora do comum. Hoje a exposição dos repórteres aí na mídia é total, eu acho que é uma exposição demasiada dos repórteres, qualquer, se a Petrobras produz um release que eu produzi lá e tal, mando para os jornais, aí chega lá, Maria de Assis, repórter: Maria de Assis, ela assina um; eu já vi releases da Petrobras assinados por repórteres na Gazeta Mercantil, desses jornais, né, já vi. Quer dizer, você pega um jornal não tem o nome do repórter numa página, no outro ele aparece, no outro ele parece. Agora, eu sei porque, os jornais pagam é o salário psíquico, porque ele ganha pouco e ganha no...

P/1 – Promoção, assim...

P/2 – Na promoção do nome, é, também tem isso, é um negócio meio... O sindicato sabe disso mas não faz nada, eu faço parte do sindicato do jornalismo, participei inclusive da Comissão Nacional de Ética, né, fui eleito e defendi isso, mas, quer dizer, essa parte do lado psicológico, né, para pegar o repórter, botar o nome dele 40 vezes no jornal, aí paga um salário muito baixo e o repórter fica satisfeito porque o ego dele está lá em cima e, como o meu caso, eu já passei por isso também, eu também pensava que eu era o máximo [riso].

P/2 – Ô Carlos, mas você foi aos poucos se dirigindo para esse setor de economia, como é que foi também?

R – Não, foi...

P/2 – Nesses jornais você já trabalhava também com economia?

R – Não. Não porque, na verdade, o jornalista é uma pessoa que ele acaba conhecendo tudo, né, de tudo um pouco. Por exemplo, eu fui repórter de polícia na Tribuna da Imprensa, foi um impacto na minha vida, porque chegar de madrugada, ver cadáveres no chão como eu vi, ver um suicídio de um diplomata que tinha cortado a carótida de madrugada, sangue no apartamento por todo lado, ver engavetamento de trem na Central, um trem entrou pelo outro, então, aquela montanha de corpos dilacerados, desastre de avião, quer dizer, realmente, isso todo mundo... Eu fiz isso, isso me chocou profundamente. Depois fiz reportagem geral, reportagem geral é o dia a dia, é uma entrevista com a Márcia Paiva, com a Laura Olivière sobre a pesquisa, é o normal da vida, é uma matéria de serviços, uma entrevista sobre os hobbies do presidente da Petrobras e essa é a geral, né? Mas eu fiz também militares. Na época da revolução me botaram para fazer a área militar, que realmente é uma área perigosa e que a gente tem que... Tem a nossa vida vasculhada para saber e foi na época da ditadura, né, eu fiz o noticiário militar em que você vai a uma solenidade da Vila Militar, tem contato com o general, com chefe da brigada lá e tal, se apresenta, ele pode ou não ir com a sua cara, aí um belo dia você vai lá para saber como é que está o equipamento dos paraquedistas e tal, como é que está o orçamento do exército, a manutenção das forças armadas. Eu fiz no Globo durante algum tempo. Depois política, né, eu fiz, para você vê como eu sou velho, eu fiz quando a câmara dos deputados era aqui no Palácio Tiradentes [riso], eu trabalhei com Nertan Macêdo que foi um grande cronista político, Nertan Macêdo, autor de vários livros, então era eu e ele no Palácio Tiradentes, entrevistar Fernando Ferrari, eu fiz uma entrevista como Fernando Ferrari, o Luiz Carlos Prestes eu fiz uma entrevista com ele, alguns nomes aí. Depois, por exemplo, outra coisa que marcou a minha vida foi o JK [Juscelino Kubitschek], quando eu estava na Tribuna da Imprensa, é bom que se diga isso, eu era o caçula, o mais novo da turma, quando o JK, o Juscelino convidou os jornalistas para visitarem o Catetinho, quer dizer, Brasília estava sendo construída. Aí eu fui, aí eu fui, então o que que aconteceu? A Tribuna da Imprensa era o Carlos Lacerda, esse era um gênio do jornalismo, será sempre. O Lacerda atacava o Juscelino Kubitschek, chamava ele de cafajeste, “Cafajeste Juscelino”. Acontece que eu fui como da Tribuna da Imprensa nessa caravana. No Catetinho, que não tinha palácio ainda, tinha o Catetinho, que está lá como história.

P/1 – Museu.

R – Aí no Catetinho, o Juscelino recebeu a comitiva de jornalista, inclusive eu que era o mais novo, eu tinha 20 anos. Aí ele: “Esse aqui é o jornal que [hoje extinto?], esse aqui é Diário Carioca, esse é... O Globo nem... Estava muito ruim, nem mandou; – esse é Jornal do Brasil, esse... E esse é Tribuna da Imprensa.” Aí o Juscelino:“Você é da Tribuna da Imprensa?” “Sou.” “Então sente aqui ao meu lado.” Aí eu sentei ao lado dele. “Eu faço questão, que você não tem nada com isso e tal, mas faço questão que você sente ao meu lado.” Aí sentou lá, eu sentei ao lado dele, aí, TV, TV preto e branco aí fez as imagens, né? Isso eu gostaria de ter, isso deve ter algum lugar, né? Eu tinha 20 anos, isso me marcou bem, o fato do Juscelino Kubitschek, uma voz, me lembro bem da voz dele assim, aquela voz meio...

P/2 – Ele era uma pessoa encantadora, né, charmosão?

R – Encantador, encantador. Assim como é, e isso foi uma coisa que me marcou na minha experiência...

P/1 – Imagina.

R – De jornalista. Assim como entrevistar o [Augusto] Pinochet, no Chile, né? No Globo ninguém queria entrevistar o Pinochet. Eu tive alguns desafios na minha vida profissional, porque ninguém queria ir lá. Eu digo: “Eu vou entrevistar o Pinochet, aí fui lá”. Pô, me deu um trabalho tremendo [riso]. Cheguei lá: “Essa pergunta é inconveniente”, ante a turma da censura do Pinochet, “inconveniente, inconveniente”. Eu fiz a entrevista dele porque era do interesse do Roberto Marinho, que eu fiz algumas matérias recomendadas por Roberto Marinho, uma delas era essa. Aí eu fui. O desafio... Aí, quando eu saí da entrevista toda a imprensa chilena estava na antessala do Pinochet para me entrevistar. Eu digo: “Não, mas...” O presidente Pinochet era um homem simpático, realmente simpaticíssimo, a primeira coisa que ele me disse quando eu fui recebido foi: “Olha, o doutor Roberto Marinho ajudou muito o Chile a fazer essa revolução.”

P/1 – Ah é, é?

R – É. Aí o retrato do Reagan na parede, né, o libertador do Chile, ao lado dele disse assim: “Roberto Marinho, agradeço muito ao Roberto Marinho.” Que aí eu soube, né, que o Globo estava lá, naquele golpe contra o Allende, né? Mas é como, a mesma coisa, é uma ideia, me marcou também profundamente. Sim, aí ao sair da entrevista com o Pinochet a imprensa estava toda na antessala e começou a me entrevistar e eu fui dizer: “Olha, o presidente é um homem simpático.”, “E como... E a abertura?”, “Ele pensa... abertura, ele não pensar abertura democrática ele não pensa agora, mas...” Tudo bom. No dia seguinte, manchete: “Periodista brasileño elogia Pinochet”. Aí eu disse: “Pôxa, eu não elogiei coisa nenhuma.” Ainda pior: “Periodista brasileiro anuncia visita de Geisel ao Chile.” Uma porção de mentira [riso].

P/1 – Que chato.

R – Aí eu procurei desmentir: “Eu vou desmentir isso.” Aí eu fiz... A área de segurança do governo chileno, estava no hotel lá, foi me procurar, dizer que eu não devia desmentir coisa nenhuma. Uma ditadura forte. Aí eu cheguei aqui no Rio: “Eu tô demitido” [riso], “Nada disso.”, “Olha, é isso mesmo, o regime lá é isso mesmo.” Mas não estava... Isso foi uma experiência no Globo.

P/2 – Carlos, e no Globo você passou então 17 anos...

R – 17 anos.

P/2 – E queria que você falasse rapidamente, aí você passou para...Vamos fazer um intervalinho.... [pausa]

P/2 – Carlos, retornando então nossa entrevista, queria que você contasse então, você no Globo começou a acompanhar a Petrobras, como é que foi isso?

R – É, a Petrobras, na época que eu estava no Globo a Petrobras era uma empresa muito fechada, estávamos na época do regime militar. A Petrobras não dizia nada das suas atividades, só dizia por informativos oficiais, e no entanto, a economia estava em plena efervescência, os jornais só publicavam coisas da economia, política era uma paginazinha só e o Globo resolveu criar uma editoria de economia e que contemplasse todos os seguimentos, né, da indústria brasileira. Então, a Petrobras surgiu como uma empresa mais importante e o Globo então queria uma cobertura das atividades da Petrobras. Testou vários repórteres junto a Petrobras para conseguir notícias e ninguém conseguia notícias na Petrobras. Até que chegou a minha vez. Eu disse: “Olha, eu vou ... Foi mais um desafio na minha vida profissional. Eu vou tentar ver, a Petrobras não diz nada.” “Não você tem que entrevistar diretores, presidentes, descobrir coisas lá.” Tudo bem. Aí eu comecei a cobrir a Petrobras. E tive sorte porque outros jornais também estavam no mesmo dilema, querendo divulgar a Petrobras sem conseguir. Então, resultado, fizemos um verdadeiro pool de jornalistas aqui, na época, né, pool de uns quatro ou cinco. A gente então resolveu, para sobreviver, para garantir o nosso emprego e conseguir notícias da Petrobras, porque naquela época, ou nessa, hoje mesmo, o repórter que não leva notícia para os jornais, acaba sendo demitido por incompetência, por uma série de fatores, por falta até de sorte. Não foi o meu caso. E aí comecei a vir diariamente a Petrobras, isso nos anos 60, nos anos 60. Me lembro perfeitamente que a produção da Petrobras na época era 160 mil barris por dia [riso], 160 em declínio, em declínio. Tudo bem. Então deu certo, nós fomos abrindo, né, fomos conseguindo fazer amizades com diretores aqui, ali, perseguíamos diretores da Petrobras na rua. Quando nós víamos um diretor na rua a gente seguia atrás dele para pedir alguma notícia, houve diretor que entrava até num botequim, entrava no mictório para se esconder da gente. Houve até um fato assim prosaico, né, de um diretor, um diretor de saudosa memória, o Marinho, Walter Marinho, ele uma vez, fugiu da gente. Mas, de qualquer maneira eles davam notícias. E o assessor de imprensa da época na Petrobras, o Mansur, se eu não me engano era o Mansur, era o Celso Mansur, que está aposentado, está trabalhando lá inclusive, no Edise, ele começou a fazer uns cursos de... Já que não tinha matéria sobre a atividade da Petrobras, pelo menos repórteres fariam cursos de, assistiam uma palestra sobre o que era a atividade de petróleo, como se fazia um poço, por exemplo, como as plataformas, as primeiras plataformas iam atuar, tipo de plataforma, e a gente acabou fazendo notícias do seguinte tipo, né, quer dizer, como é feito uma perfilagem num poço de petróleo [riso]. [tosse] Então a gente aprendeu, inclusive, nessa época, já que não tinha notícia a gente dizia: “a Petrobras está fazendo a perfilagem de um poço.” “O que é perfilagem”? Perfilagem é a fotografia interna com canhoneiro nos intervalos, para doutores, rocha porosa, rocha, né, arenosa, folhelho não sei do que , folhelho não sei para quê, é... como é, perfil elétrico...

P/2 – Perdão, um minutinho.

R – Então todos os repórteres da época dos anos 60, começaram a se especializar como era feita, como era exercida a atividade de petrolífera da Petrobras aqui no Brasil, então com isso nós fomos abrindo fontes e nessa época alguns diretores, alguns superintendentes da época atendiam a gente, mas não podia dizer o nome, as notícias eram: “segundo uma fonte da Petrobras...” “Fontes fidedignas informaram ontem...” O estilo era esse pegar os jornais então: “Fontes geralmente bem informadas...” [riso] Era um negócio meio esquisito, mas era. Então não apareceu o nome de ninguém e isso a gente foi dando matérias, eu me lembro bem quando a Petrobras perdeu para o Iraque o poço gigante de Magnoon, quando Saddam Hussein tomou da Braspetro, um poço de 14 bilhões de barris, nem todo mundo soube em primeira mão, mas ninguém disse, a Petrobras assumiria depois, mas as primeiras notícias foram: “Fontes indicam que a Petrobras vai perder o poço.” Assim por diante. Quando a primeira torre de Garoupa afundou, pô, foi dito assim também: “Afundou a torre de Garoupa.” Que era um negócio que não podia afundar, né? Primeiro...[riso] Mas afundou, ía ser rebocada. Assim por diante. Então sempre tivemos fontes, mas com a abertura... Então, resultado, um grupo no qual eu, o Nelson Lemos, o Aloísio Maranhão, que está na Época, é editor da Época hoje, esses três basicamente dessa época, a gente dividia a matéria, quando a gente conseguia uma matéria o nosso êxito se deveu a isso também. Quando um de nós três conseguia uma matéria, por amizade própria, com o diretor, ou com um superintendente, a gente não dava a matéria toda, viu, por causa da dificuldade na Petrobras de conseguir matéria, a gente dava só uma parte da matéria e deixava o restante para o dia seguinte, porque a gente teria dificuldades em manter aquele noticiário e dividia até em três partes a mesma matéria, entendeu? Aí todo mundo ficava assim... É o ovo de Colombo, todo mundo achava: “Pô, como é que vocês conseguem isso, todo dia vocês conseguem uma matéria.” Não, a gente conseguiu a matéria num dia só e dividimos em várias partes.

P/1 – Tinham uma estratégia, né?

R – Uma estratégia. Então, deu certo, depois houve a abertura da Petrobras, e eu entrei, houve uma abertura melhor, né, a abertura ocorreu depois que eu já estava aqui dentro.

P/2 – Pois é, mais eu quero chegar, quando se dá a sua entrada na Petrobras?

R –Ah, sim. Deu-se quando eu saí. Então o meu trabalho no... Eu já era conhecido aqui dentro, já conhecido, todos repórteres eram conhecidos, então eu tinha saído do Globo, estava... Eu cheguei com uma matéria no Globo e aconteceu o seguinte: um dos chefes lá disse assim: “Isso aqui é mentira, você está fazendo lobby dessa empresa, não sei o quê..” Esculhambou mesmo, um tal de Celso Itiberê. Eu disse: “É e eu não trabalho mais contigo. Eu vou pedir a minha demissão, eu não trabalho mais contigo.” Aí pedi a minha demissão, eu pedi a minha demissão, por causa disso. Depois, para não perder o fundo de garantia eu fui lá novamente: “Vocês me demitam que assim...” Eu pedindo demissão não teria direito ao fundo. Aí passei 20 dias para eles me demitirem, para eu reaver o meu fundo de garantia. Mas aí o pessoal daqui já estava sabendo, tinha um processo seletivo aqui dentro, que não é como hoje, vêm 100 mil, né? Era um negócio, era um processo seletivo assim que ninguém se interessava, curioso, né? Eu quando era repórter, vou lhe dizer mais, houve um concurso aí: “Quer ser?” “Não, não quero.” Eu, todo mundo, ninguém se interessou, entendeu? [riso] Aí eu fiz esse processo seletivo, aí fui aprovado, eu e uns outros.

P/2 – E o processo era especificamente para assessoria...

R – É, de impressa. P/2 – Para assessoria de imprensa.

R – De imprensa, é que podia, hoje não pode, tem uma série de, hoje, de restrições, por exemplo, dentro da empresa hoje você não pode, um profissional tem que pedir demissão para participar de outro concurso, não é isso? Pô, é interessante, tem uma série de restrições aqui dentro que não tinham na época. Aí eu fiz com outros, passei, até porque eu conhecia tudo da Petrobras, Petrobras para mim era... Fiz até na banca examinadora eu fiz até palestra sobre a Petrobras [riso]. Mas o curioso é o seguinte, que aí passei em tudo, aí quando fui fazer o exame médico, aí digo: “Eu não vou passar, porque...” Pô, nunca tinha feito, no Globo nunca investia nos seus empregados. Aí eu sei que eu passei, eu me lembro que eu ___ 14 exames. Tudo bem. Aí, ao me apresentar à direção para assumir, aí a divisão de informações disse que o meu nome estava vetado, o meu nome, eu era comunista. E realmente....

P/2 – Isso foi que ano, Carlos?

R – 1985. Eu era comunista e foi com maior tristeza que eu recebi essa notícia, me dada pelo assessor de imprensa da época, o César Francisco Alves, aí disse: “Não posso fazer nada por você, Pinto.” Tudo bem. Aí o que que aconteceu? Aí o Hélio Beltrão assume, assume e manda arquivar o meu processo e manda me admitir, porque já havia outros jornalistas vetados pouco antes, por terem militado no partido comunista. Eu não militei, eu apenas assinei um manifesto de Cuba, que era proibido na época. Só isso, não fiz parte do partido comunista, eu entrei para o partido socialista da época e era só. Tudo bem. E aí o Hélio Beltrão mandou me admitir, no dia 19 de junho de 1985. E quem me deu essa notícia foi o superintendente da época, hoje gerente, né, superintendente da época Guilherme Duque Estrada, viu? Que...

P/2 – Que faleceu.

R – Que faleceu agora nesse evento. Eu rendo homenagem a ele, rendi outro dia, sabendo inclusive que eu ia fazer esse depoimento, né, ia falar o nome dele, porque ele é que me deu essa notícia, me chamou, foi um dia também, assim como tive a minha maior tristeza ao saber que eu tinha sido vetado pelos órgãos de informação, eu tive a maior alegria ao saber que o presidente Hélio Beltrão havia mandado arquivar e tinha mandado me admitir. E foi aí que eu entrei na empresa.

P/2 – Carlos, e aí você...

R – Como...

P/2 – Como?

R – Como assessor de comunicação social, título que mudou.

P/2 – E esse assessor de comunicação social, esse assessor de imprensa, qual era a gerência, ou núcleo, ou o setor, não sei, como chamava na época essa...?

R – Era assessoria de imprensa.

P/2 – Assessoria de imprensa.

R – O nome formal, oficial é assessoria de imprensa da Petrobras, ao lado de...

P/2 – Era uma área?

R – Não, era uma área era.

P/2 – Independente, como era?

R – Não, não, era ligada à comunicação como um todo também. Nessa época era ligada como um todo.

P/2 – À comunicação?

R – É, à comunicação. E o chefe era Gilberto Naum. Foi um assessor...

P/2 – Era o chefe da comunicação...

R – Não, não.

P/2 – Ou da Assessoria?

R – Da Assessoria de Imprensa, só. O chefe da Comunicação era o Duque Estrada, era o gerente, hoje gerente-executivo. Que mudou toda essa nomenclatura, né? Então entrei para a Petrobras, o que que aconteceu? Passei, em 85, em 91, eu trabalhava na assessoria de imprensa como técnico de comunicação social, na época. Em 91 o chefe da assessoria de imprensa era o Gláucio Riman, que está trabalhando na gerência de imprensa hoje, como aposentado. Ele era, o Gláucio era da Interbrás, cedido à Petrobras, da Avenida Chile. Então o Collor tinha extinto a Interbrás e o Gláucio tinha que se aposentar, foi compelido a se aposentar. Então o Gláucio me chamou, perguntou para mim: “Pinto, você gostaria de ser chefe da assessoria de imprensa?” Com a maior, com a maior sinceridade e com maior até espiritualidade, eu disse: “Olha, não sei, Gláucio.” Respondi assim, como se não quisesse mesmo. “Tudo bem”. Aí o Gláucio saiu, aí ele voltou: “Pinto, vem aqui na sala do superintendente.” Aí quando eu chego lá, aí estavam todos os gerentes da área de comunicação; gerentes não, chefes, aí o gerente principal, Carlos Leonan que era superintendente da comunicação na época: “Olha, você foi escolhido o novo assessor de imprensa, no lugar do Gláucio.” Pôxa, aí não havia outra solução.

P/2 – A chefia, né?

R – A chefia.

P/2 – Para assumir a chefia. Que quando você entrou você era assessor também, né?

R – Não, na verdade o título de assessor era um título só para um.

P/2 – É só para um, era isso que eu queria entender.

R – Só um que era assessor de imprensa, era o que... O assessor...“Quem é o assessor de imprensa?” “Fulano de tal.”

P/2 – É quase como um porta-voz, é isso?

R – É, é. Eu era assessor. O título era assessor, o restante era; não deixariam de ser assessores, mas na palavra mais genérica da palavra, mas no cargo era técnico de comunicação, assessor é um só, entendeu? Aí foi aí que eu fui assumir então, o presidente da Petrobras na época era o Motta Veiga, era o Motta Veiga, era o governo Collor. Hum?

P/2 – Qual foi o maior desafio dessa chefia, Carlos?

R – Ah, o maior....

P/2 – O que que te marcou mais?

R – Pô, marcaram várias, várias, porque primeiro foram nove, dez presidentes com quem eu convivi, né, que eu conheço a história de todos eles, o perfil de todos eles, inclusive até na intimidade.

P/2 – Você trabalhava diretamente ligado ao presidente.

R – Ao presidente. Mas porque aí é o seguinte: tem uma historinha para contar. Sim, aí o meu maior desafio foram vários, inclusive o meu maior desafio foi quando eu fui ao Planalto, agora, já no governo Lula fazer um contato com o Ministro Luiz Gushiken, oferecer o nosso plano de crise e acertar um convênio com o Palácio do Planalto para a gente treinar os ministros do governo “como falar com a imprensa” e nós fizemos isso.

P/2 – Isso eu quero que você me explique, como é que é esse treinamento. Antes de mais nada, para eu ter uma idéia....

R – [riso] É o media-training.

P/2 – Me explica: como se treina então, a gente está pulando uma pergunta em cima da outra, mas para não perder isso, como é que a gente treina; você treinou os presidentes, os executivos, como é que se treina uma pessoa para ter esse relacionamento com a imprensa?

R – Sim, primeiro é o seguinte: é uma espécie de “seminário” [riso] que dura um dia, pode durar até dois dias, um grupo ou um só, como você deve falar com a imprensa desde a postura na televisão, até a maneira e se referir ao repórter que está te entrevistando e saber negociar antes da entrevista o que ele vai te perguntar. De chofre você me vai arrebentar qualquer entrevistado. Mas aí, claro que a gente sabe tudo isso, mas aí contratava uma empresa, quer dizer, aí no caso o Nelson Lemos, que tinha uma empresa, tem outras empresas especializadas nisso. Eles chegam aí primeiro você faz uma entrevista com você, aí eles fazem perguntas capciosas, tem várias armadilhas e você vai respondendo. Depois ele escreve a sua entrevista e depois vai ler para você, vai mostrar os erros que você incorreu. Por exemplo, é muita coisa, esse, é muita coisa, eu sei tudo, mas se eu falar agora vai demorar muito tempo.

P/2 – Não, só um exemplo assim, só para...

R – Um exemplo é o seguinte: você é gerente do Recursos Humanos, aí o que é que eu posso perguntar; você só tem é que responder, eu posso fazer várias perguntas sobre recursos humanos, mas de repente eu pergunto para você: “Ô, Márcia, pô, eu queria a sua opinião sobre o próximo aumento da gasolina.” Isso é uma delas, aí você diz: “Eu acho que a Petrobras tem que aumentar, tem que diminuir.” Aí você está reprovado, você falou fora da sua área de trabalho. Isso é uma delas, né? E outra é você pedir para rever a matéria que o cara vai escrever: “Eu quero dar uma olhada antes.” Isso você pode fazer, mas com muita intimidade com o repórter, porque ele vai se achar totalmente; é uma situação inadequada para o repórter, ele não admite, o repórter, que você corrija a matéria dele, porque ele, o repórter é um cara atrevido, bisbilhoteiro, mal-educado, educado, amigo, inimigo, ele é tudo isso, agora e não é, é tudo e não é, porque ele não é amigo nem inimigo teu, ele quer defender o trabalho dele, então, quando ele vai te entrevistar ele vai tirar o máximo de você, com máximo de impacto e a reportagem está voltada para o lado bom sim, mas quem dá mais impacto perante a opinião pública é o lado negativo. Isso é da natureza humana dar maior atenção aos fatos negativos, isso é da natureza humana. Então, qualquer executivo da Petrobras, que tem um nome apelativo, que tem um nome com grande assédio popular, todo mundo lê a Petrobras, fica encantado, né, até porque a Petrobras virou o modelo nacional ao longo de todos esses anos, então, em matéria da Petrobras todo mundo vai ler, o impacto é muito maior, tanto que hoje, quando qualquer empregado da Petrobras comete um deslize e aparece no plano policial, aí é: “Empregado da Petrobras, fez isso.”, “Para você vê, né?” Então o executivo da Petrobras ele não está infenso a essas armadilhas dos jornalistas, que faz perguntas capciosas e o media-training...

P/2 – Você estava do outro lado, você tinha um pouco dessa experiência também.

R – Eu tinha, tinha, tinha.

P/2 – Como é que você se sentia do outro lado também?

R – Ah, do outro lado é realmente do outro lado mesmo, é o balcão. A imprensa é um balcão e a Petrobras é do outro lado do balcão. Que eu participei de uns cursos de assessoria de imprensa que eu dos professores dizia que assessorias de imprensa, no caso Petrobras, Vale, é uma extensão da redação. Não é, nunca vai ser, não é, eu discordo. E já há um consenso nisso, nunca vai ser por causa dos interesses dos grupos econômicos na imprensa, interesse do negócio das empresas, como é a Petrobras, né? Nunca vai ser, a assessoria de imprensa da Petrobras nunca vai ser a extensão da redação do Globo. É até... É uma utopia isso [riso]. E aí é que eu te digo, Márcia, o media-training tem por fim treinar os executivos para não dizerem coisas que vão se arrepender, porque o off, por exemplo, off the record é você dizer: “Olha aqui, o Presidente da Petrobras vai visitar o Kirchner lá para oferecer barris de petróleo para ele a preço, né, a preço dos hermanos.” [riso] Aí você diz isso, aí você falou em off, mas, o que vai acontecer? Um belo dia o repórter vai dizer: “A Márcia declarou isso.” Se o chefe dele lá no Globo... “Eu não posso dar essa notícia”, “Eu quero saber quem disse isso.” Aí o repórter não vai livrar a cara do entrevistado, ele vai dizer que foi você. Aí você vai desmentir. A pior coisa é você desmentir a notícia, porque o que ficou já está lá trás.

P/2 – Não tem como, né?

R – Não tem como. E tem uma série de coisas de como lidar com a imprensa. E esse treinamento é importante, nós fizemos para...

P/2 – E isso vocês começaram a fazer por essa época.

R - Nós fizemos treinamento com Ministro Gushiken, com Patrus Ananias, com Aldo Rebelo, que foi presidente do congresso, com uns dez ministros.

P/2 – Isso levando know-how que vocês tinham desenvolvido aqui.

R – Know-how, aqui, é, know-how. Essa empresa que faz esse treinamento que nós contratamos; porque atualmente não tem gente para isso, ela recebe alguns inputs nossos, entendeu? A gente transmite para essa empresa: “Olha, a Petrobras é assim...” E os caras, né, fazem o curso na base mais ou menos, um curso assim de acordo com modelo da Petrobras. A Petrobras é uma empresa hierarquizada, então, aí o cara vai dizer que é realmente, extremamente que é hierarquizada, então eu não posso, eu, como gerente de imprensa eu não posso falar sobre recursos humanos.... É, tem isso aí. Então me dou mal.

P/2 – Carlos, deixa eu só, também voltando, você estava falando que você conviveu com dez presidentes, né?

R – É. P/2 – Tem uma hora, ali pelas suas notas biográficas, que você diz que a chefia se passa a ficar diretamente ligada à presidência...

R – Ah, foi.

P/2 – Ao Presidente. Como é que foi essa passagem?

R – Pois é, a área; eu vou falar a área de imprensa, porque o nome assessoria de imprensa e gerência de imprensa são nomes formais. Então a área de imprensa ela, quando a Petrobras foi criada a área de imprensa foi colocada no bojo da comunicação como um todo, naquele saco para todo mundo, naquele, área que é toda comunicação: propaganda, patrocínio, marcas, tudo isso. Então que que aconteceu? No governo Collor o jornalista Rogério Coelho Neto, por sinal meu amigo, trabalhou comigo no Jornal do Brasil, ele foi indicado pelo Collor para ser o superintendente da comunicação institucional, hoje gerente executivo. Então, o que que aconteceu? O Rogério esteve aí como superintendente, o “gerentão”, né, me conservou na área de imprensa como chefe, só que o Collor foi, renunciou ameaçado pelo impeachment e o Rogério ficou aí como superintendente, marcado por ter sido indicado pelo Collor; olha aí, o lado político do negócio. Então o Rogério ficou numa situação difícil porque ele não queria pedir demissão, como nenhum gerente pede demissão, maioria dos gerentes não pede demissão [riso]. Então ele ficou aí. Então o que a alta-direção da empresa fez? Eleva, olha só, eleva a assessoria de imprensa à categoria de órgão especial, diretamente subordinado ao presidente, fazendo parte da alta administração. Aí botaram o Rogério nessa nova assessoria de imprensa. E eu, que era assessor de imprensa, aí eu perdi o cargo [riso]. Aí o Rogério passou a ser o assessor de imprensa da Petrobras, enquanto o Duque Estrada voltou a ser o superintendente da comunicação, o que morreu, né? Então olha só, então ficou assessoria de imprensa... Tanto que a reunião do grupo 1, a assessoria de imprensa ia, grupo de diretores e todos os gerentões, assessoria de imprensa lá presente, Rogério, aí no caso Rogério. Só que o Rogério ficou mais seis meses, aí o Rennó assumiu e pediu o cargo para o Rogério. E o Rogério chegou comigo falou: “Olha, Pinto, o presidente Rennó pediu o cargo e indicou você para me substituir.” Então foi isso. Aí eu assumi, fui agradecer ao Presidente Rennó, assumi a assessoria de imprensa agora, nesse status.

P/2 – Nesse status.

R – Nesse status lá por cima.

P/2 – E é nessa hora que a chefia vira gerência, então.

R – Não, não, não, não, a gerência veio depois, a gerência já foi... Sim, aí continua assessoria de imprensa... É órgão especial, aí no caso era órgão especial ligado a alto comando. Só que durante... Houve uma reestruturação, aí o Presidente Rennó achou por bem, cessado fato político do Rogério, que ele não era da casa, saiu, aí ele disse: “Olha, vou colocar a assessoria de imprensa de volta à comunicação institucional como um todo.” Eu fui surpreendido, eu só soube na véspera, né, aí não deu tempo... Que era bom a assessoria de imprensa estar ligada diretamente ao presidente, era bom, muito bom. Não pelo status, é pela velocidade do atendimento aos jornalistas. Aí, um belo dia eu fui surpreendido: “Olha, o Rennó mandou fundir a assessoria de imprensa, voltou à comunicação institucional.” Aí voltamos a ser subordinados a gerência de comunicação institucional. Depois é que mudou o nome, todas as áreas passaram a ser gerência, depois...

P/1 – De chefia.

R – É, de chefe para gerente. A assessoria de imprensa passou a ser gerência. Mas foi depois, foi uma reestruturação.

P/2 – E ali junto, acompanhando de qualquer forma esses anos todos esses presidentes, qual foi a maior crise que vocês enfrentaram?

R – Ah, foi o... Eu achei... Uma crise institucional foi a quebra do monopólio da Petrobras, porque houve uma campanha de desmoralização da Petrobras capitaneada pela revista Veja. Me perdoem os meus companheiros de profissão, mas a Veja ela arrebentava a Petrobras, uma desmoralização total, dizendo que a empresa era incompetente. E aí, eu, como assessor de imprensa, no caso era eu, era muito mobilizado para isso, porque eu chegava na minha mesa tinha muitas cartas para fazer, né, o Rennó queria que eu desmentisse tudo, mas não adiantava, eu desmentia e eles vinham para cima, dizendo até com ameaças a minha própria permanência como assessor. Então, numa reunião de grupo um, antes de... Eu propus o seguinte, que como eu respondia muito, Carlos Pinto para todo lado, então eu propus o seguinte: que nesse período dessa fase que todo mundo queria desmoralizar a Petrobras por causa do monopólio, a quebra do monopólio que estava aí, cada gerente, cada chefe da área respondesse todos os assuntos que envolvesse uma área, o responsável pela área respondesse, não só eu. Aí pegou bem, eu defendi o ponto de vista de que eu não entendia, eu entendia de comunicação sim, mas não entendia das octanas, quem devia responder sobre a qualidade ruim da nossa gasolina, quando a imprensa dizia isso, quem devia responder era chefe da área de refino. Aí esse negócio pegou e foi uma boa para mim, porque tinha mais credibilidade. E até hoje eu leio esses... Quando um assessor de imprensa dessas empresas responde, no caso da Vale, eu digo: “Pô, não tem credibilidade”, tinha que responder o cara ligado ao alto forno da Vale.

P/2 – Você tem o respaldo técnico, né?

R – Respaldo técnico, é, e pegou, isso pegou mesmo. E até hoje; eu não sei se o Lúcio, que é hoje o meu substituto lá, está agindo da mesma forma. Mas certas coisas que foram apresentadas enquanto a imprensa era do grupo um, no caso, pegou para trás.

P/2 – O grupo um é o quê, Carlos?

R – O grupo um era um grupo formado pelos diretores e principais gerentes, principais chefes, dava um total de 40 pessoas. Mas acabaram com o grupo 1, não tem mais não.

P/2 – Se reuniam para as principais decisões.

R – É, toda, semana, toda semana.

P/2 – Toda semana.

P/1 – Ô Carlos, e esse momento, esse marco aí que você está falando, da quebra do monopólio...

R – Do monopólio.

P/1 – Mudou também, não foi, a coisa da preocupação da Petrobras com a imagem, eu li isso num material que você emprestou para o Projeto Memória.

R – Sei.

P/1 – Não teve uma coisa de uma mudança depois que a Petrobras passou a ser mais pró-ativa com a imprensa?

R – Foi. Sim, com a quebra do monopólio a Petrobras teve que se ajustar à nova realidade, porque a Petrobras era, eu sempre disse, inclusive em palestras que eu fiz, a Petrobras era onipotente, onisciente e onipresente, entendeu? Mas ela passou a ser mais humilde, porque de repente a Petrobras foi a filha dileta da revolução, era intocável a Petrobras, a Petrobras fazia tudo, ela nasceu no regime democrático, no tempo, né, de 53, mas depois foi tomada pela revolução. E a Petrobras teve que se ajustar à nova realidade com a quebra do monopólio, então, sim, aí vem desde a governança, a responsabilidade social, que né, que é relativamente novo, o meio ambiente e abertura para a imprensa. Enfim, mas a abertura para imprensa eu considero que vai ter sempre um limite, porque a Petrobras é uma empresa de negócio e enquanto negócio a Petrobras não pode abrir tudo, não pode abrir, é impraticável, porque vai perturbar negociações, como já perturbou no passado. E a Petrobras vai ser sempre; claro, temos essa visibilidade, mas não é uma...

P/2 – Um minutinho [pausa].

R – Normais de qualquer empresa de negócio, principalmente a Petrobras, é uma empresa de energia com mil negócios pelo mundo todo. Mas o outro fato de impacto, além da quebra do monopólio foi o fato operacional, né... Essa foi institucional a quebra do monopólio, a outra é operacional que foi o afundamento da Petrobras 34, né, Petrobras... 36, né?

P/1 – 36.

R – É, aquela foi uma comoção geral e realmente aí pegou fogo, a imprensa cobrava de todo lado e foi aí que a área de imprensa criou, abriu oportunidade para a gente inaugurar o nosso noticiário on-line. Nós, durante essa crise essa crise da plataforma a gente de meia em meia a gente estava botando notícias através do site da Petrobras, informando sobre o assunto. Foi uma inauguração um pouco dramática, porém muito importante para o aprimoramento do relacionamento da Petrobras com a imprensa. Petrobras on-line, que agora o atual gerente botou Notícias da Petrobras On-Line, um negócio assim. Mas nasceu aí na nossa gestão.

P/2 – E a partir dessa crise.

R – A partir dessa crise. Através do banco da imprensa que foi extinto pelo novo gerente [riso], coisas de... Quem assume acha que...

P/2 – Hum, hum.

R – Considera que o passado deve morrer um pouco, né? Mas às vezes os frutos são bons.

P/2 – Ô Carlos, você contou das crises, e das alegrias, me conta uma que tenha também, alguma notícia que você também ajudou a passar para a imprensa, com que tenha te dado prazer, que tenha sido um momento bacana da companhia.

R – Não, a alegria é grandes descobertas de petróleo, isso sempre foi motivo de muita alegria. Quando, por exemplo, campo gigante de Marlim, ou campo gigante de Roncador. Isso realmente foram momentos de grande alegria e que dava até entrevistas, suscitavam entrevistas do diretor de produção só sobre aquele assunto. Hoje continua a dar, mas um campo gigante realmente é coisa rara hoje no mundo, né? Você sabe que os campos gigantes só mesmo em águas profundas, onde a Petrobras tem a liderança.

P/2 – Muito bacana também. Eu queria saber se mudou a sua visão da própria companhia, desde quando você era repórter, né, fora, nos jornais até o momento que você entrou.

R – Não, não mudou. Olha, a Petrobras é o seguinte: ela mantém uma imagem para mim já na época como repórter do Jornal do Brasil e como repórter do Globo, quando tinha alguma matéria assim e que tangenciava a Petrobras, eu achava uma boa, porque o olhar, o meu olhar de lá assim como o dos jornalistas da época, para a Petrobras era um olhar de empresa assim modelo, onde todo mundo queria trabalhar, onde todo mundo tinha orgulho dela. E até hoje perdura essa imagem com a juventude achando que a Petrobras é a empresa dos sonhos, nas segundas últimas pesquisas. Agora, a minha imagem mudou para melhor, porque eu que tinha muita reserva em relação a empresas estatais e assessorias de imprensa de empresas, eu acabei vendo que não é assim. A Petrobras aqui dentro a gente se enriquece dia a dia, não termina o conhecimento, dentro da Petrobras ele não termina nunca. Eu trabalhei na empresa privada durante 25 anos antes de vir para a Petrobras, a empresa privada nunca investiu em mim, nunca investiu.

P/2 – Você fez vários cursos, né?

R – Fiz.

P/2 – Conta um pouco, fala um pouco dos cursos que você fez.

R – O marketing avançado, curso de petróleo, esse curso de perfilagem para, né, para, na comunicação, assessoria de imprensa...

P/2 – Isso era incentivado, ou você saía buscando?

R – Não, era incentivado. Recursos Humanos sempre teve uma série de cursos, né, em que a gente através do treinamento, a gente escolhe. Por exemplo, comunicação de oportunidades, conflitos gerenciais, porque na verdade existe muita coisa assim... Comportamento humano, ambiência, cursos de meio ambiente aqui dentro e não termina nunca porque sempre há fatos novos e a empresa é muito dinâmica.

P/2 – Carlos, hoje você está... Qual é a sua atividade principal hoje lá, qual é o seu cargo?

R – Hoje eu como consultor de negócios estou incumbido de fazer um texto, que já está bastante longo. Relacionamento Petrobras com a imprensa, desde a criação da empresa, de modo que eu entrevistei todos os assessores responsáveis pela área específica da imprensa. E verifiquei, curiosamente, que todos eles eram jornalistas de formação. Curioso, não há nenhum analista de sistema comandando, como acontece, nenhum psicólogo comandando a área da imprensa, nenhum economista comandando a área, como ocorre em outras funções, até pelo próprio ecletismo da Petrobras. Porque acho até natural isso. Agora, mas na área de imprensa só jornalista.

P/2 – Vocês pretendem fazer um livro com o material?

R – Não, é, vai dar, vai dar, não diria um livro, mas um negócio que pode ser ampliado. Mas eu tô sabendo que como há um projeto para fazer um texto geral, um trabalho sobre a comunicação como um todo, a parte da imprensa entraria como um apêndice. Já está até pronto, já está pronto. Então falta o resto [riso].

P/2 – Ô Carlos, eu queria te perguntar ao longo desses anos presente, você já falou até, já enunciou várias coisas, o Petrobras On-Line, mas qual foi a grande mudança também assim, sentida, para o seu trabalho?

R – Na área de...

P/2 – No seu trabalho do dia a dia também, ali, de assessor de imprensa, o que que foi uma grande mudança nesses anos?

R – Não, a mudança realmente foi a abertura da Petrobras, né? A Petrobras que era realmente muito fechada, hermética, hoje ela atende a qualquer pedido da imprensa, ela, viu, ela atende... Já antes de deixar a 1 ano e meio a gerência de imprensa, atende a qualquer pedido e com a maior rapidez, só havendo esse hiato ainda, existe um patamar, quer dizer, se a imprensa fosse ligada diretamente ao presidente, aí teria maior rapidez, por causa da hierarquia.

P/1 – E ela oferece também, não é?

R – Oferece.

P/1 – Além de atender o que...

R – É. A imprensa... E a Petrobras também oferece, convida a jornalistas, aliás, desde todos os tempos foi assim, a Petrobras sempre convidou jornalistas para visitarem as suas instalações, visitarem, explicar as atividades e tal. E há uma abertura notável na Petrobras. Tanto que os jornalistas não vão nem lá mais na Petrobras pessoalmente. Há anos atrás os jornalistas iam em bloco lá, inclusive no meu tempo de repórter, repórter eram dez que iam diariamente lá. Hoje é tudo pelo telefone, né, o presidente atende tranquilamente os repórteres, diretores atendem sem, né, sem protelação, existe assim maior confiança, mas sempre vai haver alguma coisa que impacta a Petrobras e a imprensa, a imprensa quer noticiar o que mais impacta a população [riso].

P/2 – Ô Carlos, e também assim, a gente falou aqui do que mudou e dentro dessas mudanças todas, de todas as transformações da própria companhia, o que que foi uma permanência que você considera bacana?

R – Permanência de quê?

R – Uma permanência, algo que tenha permanecido na sua essência, ou um conceito, ou alguma coisa... O que que permaneceu de bom?

R – Sim, o que permanece o seguinte, a Petrobras para mim sempre foi um modelo. Então a partir da Petrobras qualquer empresa pode se mirar na Petrobras para fazer um plano de comunicação, para fazer um estilo de governança responsável para estabelecer uma política de meio ambiente, uma política de recursos humanos, de valorização do RH. Então, para mim a Petrobras é um modelo, entendeu, o que a Petrobras fizer dá certo para a outra empresa. Essa é a minha opinião, o que ficou em mim. Pode dar certo desde que ajustado, né? Uma empresa de pequeno porte se ajusta àqueles paradigmas da Petrobras, que podem ser mudados também, paradigma não é eterno, muda. É um modelo, para mim a Petrobras é um modelo [riso].

P/2 – Me conta uma história engraçada, seleciona uma história, você deve ter várias, uma história que tenha te marcado.

R – Bem, têm várias...

P/2 – Engraçada, inusitada, a que você quiser.

R – Puxa vida, tem, deixa eu ver se eu me lembro, tem muitas histórias interessantes. Pôxa vida, Márcia!

P/1 – Do Japão...

R – Não, do Japão eu estava no Globo, aí foi um assunto só inerente ao Globo. Agora, uma história assim engraçada [pausa]. Eu preferia falar assim do perfil de alguns presidentes, né, que têm alguns fatos assim interessantes.

P/2 – Quem foi uma convivência agradável desses dez?

R - Pois é...

P/2 – Posso perguntar isso?

R – Pode, pode. Convivências têm várias, mas o que me marcou mais, porque eu convivi com ele muitos anos foi o presidente Joel Mendes Rennó. Uma das características dele, eu anotei mais de 200 entrevistas com ele, né, ele dando entrevista, mais de 200 entrevistas, eu copiava algumas. Eu fiz um roteiro “2 mil dias com Rennó”, porque ele tinha coisas engraçadas ou não, ele era exigente, mas ele era brincalhão. Uma das coisas dele ele dava uma entrevista, né, de vez em quando dizia que a Petrobras era uma coisa espantosa, mas de repente interrompia, espantava o repórter, dizia assim: “Mas você pensa que a Petrobras é essa maravilha que eu estou te dizendo? Não, tem uma série de coisas ruins.” [riso] Então, isso ele comentava.

P/2 – Mas ele fazia como piada ou...?

R – Não, ele espantava, ele causava um certo impacto, né, porque ao dizer isso ele dizia também que as Petrobras tinha as suas... Né?

P/2 – Ele abria uma porta.

R – É, tinha também os seus erros, não era uma, não era aquela maravilha toda, tinha...

P/1 – Coisas para melhorar.

R - Algumas coisas para melhorar. E ele costumava dizer que com ele o gerente tinha que fazer jus ao seu salário. Então, quando tinha uma coisa difícil para fazer ele sempre dizia: “Você ganha para isso.” Então ele dizia isso: “Eu quero risco zero.” Ele sabia que não há risco zero, né, não existia, mas ele: “Eu quero risco zero.” E se fazer o melhor. E veio depois aí uma nova mentalidade da Petrobras, com a quebra do monopólio, no sentido de fazer o máximo dentro, procurando a perfeição, sabendo-se que a perfeição não existe. Mas o presidente Rennó ele tinha a parte formal da entrevista, depois ele brincava com o repórter e tal, dizia que era vascaíno, contou a primeira vez que foi a um jogo do Vasco com o tio dele e me contava coisas assim interessantes. Agora, tive outros contatos com Reichstul também, o Reichstul que ficou realmente muito impactado com o afundamento da plataforma. Era o presidente Reichstul era elegante.

P/2 – Quem conviveu diretamente com ele parece que gosta muito, né?

R – É. E outros presidentes. Eu conheço presidente lá de trás, enquanto repórter, como presidente Araquém de Oliveira, né, general, depois o Carlos Santana, depois vai vindo, vai vindo por aí.

P/2 – Mas o mais marcante desses todos assim, quem o senhor acha?

R – Não, o mais marcante foi...

P/2 – Que tenha, que tinha mais...

R – Foi o Rennó.

P/2 - O Rennó?

R – Foi o Rennó porque eu trabalhei com ele e ele me disse para mim, quando ele me convidou ele disse assim: “Quero que você trabalhe um tempinho comigo, um tempinho.” Eu sei disso porque eu tinha um diário, na época escrevi: “O presidente...” Para trabalhar um tempinho, eu até perguntei para ele: “Tempinho de quanto?”, “Uma semana tá bom.” Só que essa semana foram 7 anos. Aí nunca perguntei para ele porque ele mudou de idéia, eu sei que eu fui ficando [riso]. E saí com ele, saí depois dele, ainda peguei o Reichstul, peguei o Gross, José Eduardo e agora o Gabrielle, o presidente Gabrielle.

P/2 – Você saiu então agora?

R – Eu saí há 1 ano e meio, foi no final, 2005.

P/2 – Tinha que fazer um outro livro sobre os presidentes.

R – Presidente eu tenho muita coisa muita coisa. Engraçado é que eu, eu não me lembro, eu tenho muita coisa assim do arco da velha.

P/2 – Ô Carlos, você me falou que a sua esposa faleceu, mas você está casado, casou de novo?

R – Minha esposa faleceu e eu, ela ficou muito doente durante muitos anos, um problema psicológico grave e era asmática, acabou morrendo, né, e eu já estava praticamente separado dela, muito embora era uma irmã muito querida minha, era esquizofrenia, aí já estava... Ela, realmente, botou todo mundo fora de casa, mas com amor e carinho ela sobreviveu durante alguns anos, com muito amor da família. E uma pessoa que serviu da minha enfermeira por causa do meu próprio problema familiar acabou...me casei com ela.

P/2 – Qual é o nome dela?

R – Creusa.

P/2 – Creusa...

R – Creusa Chagas Pinto. Mas me casei com ela 2 anos atrás, 3 anos. Porque realmente ela me deu suporte, né, necessário para eu conviver com a situação durante mais de 25 anos, 29 anos, doente, sendo internada, não querendo mais ver a família, não querendo... Agredindo todo mundo.

P/1 – E os meninos?

R – Estão bem, está todo mundo bem.

P/1 – Estão bem?

R – Estão bem. Aí esse drama, então a Creusa, que era Creusa da Silva Chagas, passou a se tornar Creusa das Chagas Pinto [riso].

P/2 – E algum dos seus filhos seguiu...

R – Já tenho dois, não tenho...

P/2 – Sua carreira?

R – Eu tenho dois filhos com ela, né?

P/2 – Com a Creusa.

R – Com a Creusa. É o Daniel, que é estudante de comunicação e a Viviane que é, que é.... Não está fazendo nada atualmente, está procurando emprego.

P/2 – Está escolhendo ainda.

R – É. P/2 – Então você tem cinco filhos?

R – Tenho três...

P/2 – Três do primeiro casamento. Já tem algum neto?

R – Tenho três netos, com 17, 18... É que eu me casei cedo, com 22 anos, mas os meus filhos casaram tarde e os meus netos estão aí... Tanto que eu tenho um filho Daniel ele é mais novo do que o neto meu. Meu filho Daniel com a Creusa é mais novo do que o meu neto, então ele é tio... [riso] Quer dizer, o sobrinho.

P/1 – O tio...

R – Quer dizer que o sobrinho é mais velho do que o tio. Um negócio assim. Depois faz uma embaralhada.

P/1 – Mas todos se dão bem?

R – Se dão, algumas restrições, sabe como é família... [riso]

P/2 – Como toda família.

R – Como toda família, eu acho.

P/2 – Carlos, o que que você gosta de fazer nas suas horas de lazer?

R – Ah, eu gosto, atualmente eu estou ligado muito à ecologia, natureza. Aquele sonho da vida, eu comprei um terreno lá em Araruama e tenho lá uns três lotes de terra e uma casa que eu construí, estou terminando agora, e conservei uma mata nativa...

P/2 – Que beleza.

R – Da restinga lá de Araruama, mata... E aquilo é uma beleza. Então eu próprio estou semeando as sementes nativas e estou plantando e algumas nascem e algumas não nascem. E aí é que eu vejo que mexer na natureza, é difícil. Eu para conseguir um pé; eu não consegui durante 9 anos não consegui muda de uma planta em extinção na área dos lagos, que é o camboim. O camboim é uma planta docinha que ela é remédio para várias doenças e também botam na cachaça, né, tem cara que gosta da bebida e, como eu no passado gostava de tomar uma cachacinha antes da...

P/2 – [riso]

R – Mas botam na bebida com camboim, quando é um desperdício. Camboim ela serve para várias doenças. Agora, eu estou tentando plantar e não nasce, não nasce. Está em extinção, me disseram. O Ibama esteve lá, fizeram uma filmagem desses exemplares desses camboins que eu conservei no terreno. P/2 – É, uma hora você consegue, né?

P/1 – Que ótimo.

P/2 – Achar...

R – É. Então o meu hobby principal é esse.

P/2 – Uma beleza de hobby, muito bem escolhido também.

R – Tá ok [riso]

P/2 – Ô, Laura, você quer perguntar também alguma coisa?

P/1 – Não, acho que não.

P/2 – Carlos, tem alguma coisa que a gente não tenha perguntado que você gostaria também de deixar registrado aqui na...?

R – Eu, registrado eu gostaria de dizer que realmente a Petrobras transformou a minha vida, também tem isso. Imagine, eu entrei para a Petrobras com 50 anos e até entrar na Petrobras eu, quer dizer, como a minha ex-esposa doente, eu não tinha perspectiva nenhuma de uma vida de qualidade para o futuro. E nesses 23 anos que eu estou na Petrobras, 22, eu consegui realmente melhorar a minha qualidade de vida, minha saúde, fazer, reconstruir a minha família diante do problema da minha primeira esposa e estabelecer o meu sonho de vida que é uma casa num lugar tranquilo, no meio da natureza. Obrigado. Só isso.

P/2 – Carlos, queria terminar perguntando o que que você achou de ter participado do Projeto Memória e ter contribuído também com a gente.

R – O Projeto Memória é o resgate do conhecimento da vida, da experiência, que não estava sendo devidamente tratado pela Petrobras, isso deve-se a nova mentalidade que foi implantada na Petrobras. E eu sei, eu quero até nomear o nosso gerente executivo Wilson Santa Rosa, que num dos primeiros contatos que eu tive com ele quando ele assumiu o posto foi ele falando sobre o Projeto Memória Petrobras. E vejo que esse projeto ele vai colocar à disposição de todo mundo a experiência que só o tempo é que sedimenta. Só o fazer, o ousar, como todos os que passam por aqui ousaram, inclusive eu ousei na Petrobras como gerente de imprensa, só isso é que dá o conhecimento e a certeza de que a gente vai pelo caminho bom, Então, mais uma vez ô Laura e Márcia, eu diria que a Petrobras me deu uma vida de qualidade, uma vida de conhecimento, uma outra visão e o que eu aprendi na Petrobras e continuo aprendendo eu coloco na vida prática, porque a Petrobras tem esse mistério, ela não é uma empresa só que visa o lucro, responsabilidade social, não, ela passa para todos nós um certo mistério de como fazer as coisas. Quantas vezes lendo, assistindo uma palestra eu verifiquei que aquilo que eu vi que era correto na área da Petrobras era correto também na minha vida. Então isso é importante. Então ela transformou a minha vida.

P/2 – Tá, Carlos, queria agradecer você ter vindo aqui participar e ajudar a gente a construir esse projeto também.

R – Tá ok.

P/2 – Muito obrigada.

P/1 – Obrigada.

R – Obrigado Laura e Márcia, vocês realmente tiraram de mim tudo que eu podia dar, embora modestamente fazendo, porém com sinceridade [riso].

P/2 – Imagina.

P/1 – Obrigada, Carlos.

---FIM DA ENTREVISTA---

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