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História

O comércio vem no sangue

História de: Risde Attiê
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/11/2003

Sinopse

Risde Attiê nasceu em uma família de comerciantes vindos do Líbano. Seu pai tinha uma loja de tecidos. Aos treze anos, já trabalhava para ajudar o pai. Nessa entrevista, ele nos conta o caminho que seguiu para se tornar um grande comerciante de arroz no Rio de Janeiro. 

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História completa

 

P/1 – Boa tarde, senhor Risde. Eu gostaria de começar o nosso depoimento pedindo que o senhor nos forneça o seu nome completo, o seu local e a data de nascimento, por favor.

 

R – Meu nome é Risde Attiê. Nascido em Monte Santo, sul de Minas Gerais. Fui para Uberlândia com idade de um ano. Os meus pais mudaram para lá e lá fiquei até os treze anos, estudando no colégio, no Ginásio de Uberlândia.

 

P/1 – Qual é a sua data de nascimento?

 

R – Três de agosto de 1913.

 

P/1 – Essa é a data certinha?

 

R – Não é da carteira, não.

 

P/1 – Ah, não?

 

R – Não.

 

P/1 – Qual é a data da carteira?

 

R – Treze de agosto de 1900... Do mesmo ano.

 

P/1 – Por que essa diferença aí de data?

 

R – Porque o meu pai não sabia falar o três, falava “treze”.

 

P/1 – Como é o nome completo dos pais?

 

R – Do meu pai, Assad Spir Attiê. Minha mãe, Jamila Kalil Attiê.

 

P/1 – E os avós, o senhor conheceu? Se lembra do nome, lembra deles?

 

R – Da parte materna eu lembro. O meu avô materno chamava Calixto Attiê e Sara, a minha avó, Attiê. Só isso, deles não lembro mais nada.

 

P/1 – Conta um pouquinho para gente qual é a origem da sua família.

 

R – Libanesa, da cidade de Baino Akkar, tanto dos meus pais quanto de minha mãe.

 

P/1 – Mas o senhor sabe quando seus pais migraram e por que eles imigraram para o Brasil?

 

R – O meu pai migrou para o Brasil com treze anos de idade. Ficou no Brasil até 1880. Depois ele quis casar com uma moça brasileira, pediu consentimento ao pai. O pai não deu, mandou o irmão mais velho apanhá-lo. Aí ele foi, ficou no Líbano até 1997, por aí. 1990 e...

 

P/1 – 1907?

 

R – Antes de 1900. Bom...

 

P/1 – 1800.

R – Ele tinha fundado uma empresa de imigração. Financiava os imigrantes para vir trabalhar no Brasil e mandar o pagamento da passagem para ele. Como a Síria, na época, era dominada pelo governo turco, os passaportes eram todos turcos.

O meu pai, a primeira vez, chamava João Turco. Na segunda vez, ele, então, passou a chamar o nome certo. Logo quando ele voltou, quando a Turquia proibiu a saída de imigrantes do protetorado, que era o Líbano e a Síria, era crime, então ele teve que fechar a empresa e voltar para o Brasil para poder trabalhar. Como na época da primeira vez que ele veio, tinha deixado alguma coisa para receber aqui, ele voltou de novo para a cidade de Guaxupé, sul de Minas. Sul de Minas, pertinho de Monte Santo, é dez, quinze minutos, vamos dizer assim.

Meu avô também imigrou, com a família toda. Era da mesma família, mas da quarta geração porque não se podia casar com muito parente, né? Só da quarta geração em diante. Lá era... Quer dizer, não era proibido, mas o sentimento e educação é que não podia casar parente com parente. Mas casou. O meu pai teve nove filhos, todos com saúde e todos bem de vida. Assim.

 

P/1 – O casamento da sua mãe e do seu pai foi em que cidade?

 

R – Na cidade de Guaxupé.

 

P/1 – E a sua mãe, então, ela é nascida no Líbano ou ela é brasileira já?

 

R – Não, ela veio porque todo imigrante daquela zona do meu pai, todos vinham para ali. Era Monte Santo, Guaxupé, Guaranésia, cidadezinhas pequenas. Então [se] formou aquele núcleo de pessoas que imigravam da mesma região para a mesma região. Todos aqueles descendentes que tem ali por Guaxupé, essas cidades aí, são quase todos descendentes dessa família dos irmãos Attiê, antigo.

 

P/1 – Qual era o ramo de comércio desses imigrantes nessa cidade? Dos imigrantes de origem libanesa?

 

R – Eram todos comerciantes. Vendia tecido, sapato, meia, seda, crepe da China. Eu tinha um padrinho que… Aos sete anos, eu já estava em Uberlândia, e meu pai: “Vou mandar você para Guaxupé porque seu padrinho João Dib ficou muito rico. Vai lá visitar ele. Vai com o seu tio Nicolau.” Era irmão do meu pai. Ele me levou.

Por que ele ficou rico? Ele comprou uma barrica de farinha de trigo do Matarazzo. Já o Matarazzo era italiano, importava produtos de alimentação da Itália para o Brasil. Então como diz que ele ficou rico? Diz que ele quando _______ farinha de trigo, apanhou um monte de nota, daquelas nota grande, ficou rico porque vinha dinheiro falso da Itália. (risos) São histórias, mas têm fundo verdadeiro.

 

P/1 – É, né?

 

R – É. Não fica um pouco deprimente dizer que o cara ficou rico com o dinheiro falso? (risos) Isso convém eliminar porque eu nem me lembro dele mais, nem nada, viu?

 

P/1 – Mas qual era o comércio do seu pai?

 

R – Ah, tecido. Lá em Uberlândia, ele tinha loja. Vendia morim, Ave Maria, chita...

 

P/1 – O que é Ave Maria?

 

R – Era marca de um morim, famosa para fazer lençóis, Ave Maria. Eu o ajudava no balcão desde pequeno também.

 

P/1 – Então me conta um pouco das lembranças da sua infância em Uberlândia. Como era a sua casa? Como era uma casa com nove irmãos, como eram as tradições libanesas no Brasil?

 

R – O meu pai era um homem pouco severo. A minha mãe, excessivamente severa. Uma vez eu briguei com o meu irmão menor, abaixo de mim, queria bater nele. A minha mãe não deixou. Não deixou, acalmou. Passada uma hora, duas horas, ela me chamou. Disse: “Meu filho, você está com raiva de seu irmão?” “Estou sim.” Coisa de cinco anos, seis anos, não sei, não me lembro a idade. Ela disse: “Então você tira a raiva do seu coração porque ela não deve durar mais de dois minutos, senão o prejudicado é você.” Ela me ensinou isso, viu?” (risos)

 

P/1 – Foi uma lição de vida.

 

R – Achei que foi. Porque sempre que eu fico zangado com alguma pessoa, eu procuro remediar, baseado nesse ensinamento da minha mãe. Assim foi no comércio também, a mesma coisa, viu? Tanto que eu tenho aqui, de ramo, no mesmo lugar… Todos os comerciantes antigos passaram pela minha mão. Eu não tenho inimizade nenhuma. Quando eu erro, eu vou lá e digo que errei.

 

P/1 – Vocês mantinham tradições libanesas em casa? Por exemplo, comida...

 

R – Tinha.

 

P/1 – Música, quais são as suas lembranças da infância?

 

R – Era, nós tínhamos dentro da minha casa… Nunca faltou comida. O meu pai trabalhava muito. Nós tínhamos o torrador de café, um carvão no fundo, tinha um moinho marca Mimoso que era pendurado num postezinho, um toco de madeira. A gente moía o café... Torrava o café para a minha mãe, cada um tinha a sua função. Torrava o café para a minha mãe, ajudava mamãe fazer o quibe, que era socado...

 

P/1 – No quê? Num pilão?

 

R – No pilão. Não tinha máquina de moer, não.

O que mais? Eles gostavam muito de fazer linguiça de tripa de carneiro. Era carne cortada com arroz. Outro ingrediente qualquer, talvez um tomate ou não me lembro bem o que era, e enchendo assim. Lavava aquilo muito bem lavado, fervia, ia enfiando, fazia aquelas linguiças cumpridas assim e guardava. Não sei como, era assim.

 

P/1 – Vocês falavam árabe em casa?

 

R – Eu e minhas irmãs falavam. Os outros [que] foram nascendo depois, não. Mas eles entendiam bem. Tudo que papai falava, a minha mãe falavam, entendiam.

 

P/1 – Mas os seus pais aprenderam português, chegaram a falar direitinho, como é que era?

 

R – Direitinho. A minha mãe estudava. Apesar de ter muitos filhos, ela estudava ainda o português, viu? Porque ela sabia falar o francês quando ela veio de lá.

 

P/2 – Senhor Risde, o senhor falou que se mantinha ainda muitas tradições libanesas na sua casa. Destas tradições, havia alguma brincadeira de criança que vocês mantinham do Líbano? Algum jogo que o senhor jogava com os seus irmãos, alguma coisa assim?

 

R – Não, não tinha. Baralho não entrava lá em casa, não.

 

P/2 – Não, jogo, quer dizer, brincadeira.

 

R – Nem brincadeira. Não tinha tempo de brincar.

 

P/2 – É mesmo?

 

R – Não, não tinha tempo para brincar.

 

P/1 – A religião era importante na família? Qual é a religião de vocês?

 

R – Era católica apostólica, do meu pai, ortodoxa. E me lembro de uns tempos, quando reunia todos os filhos na mesa, acho que ele fazia o sinal da cruz antes de sentar à mesa. E obrigava os filhos também fazer a mesma coisa. Mas isso dissipou na mente porque a gente não guardou isso, não.

P/1 – Bom, ainda em relação à infância. Como era a casa? Me descreve a casa? Os irmãos, os meninos num quarto, como era isso?

 

R – Era tudo separado. O quarto do meu pai, tinha o quarto das minha irmãs e tinha o quarto dos homens. A gente dormia tudo junto.  

 

P/1 – Era frio lá?

 

R – A temperatura lá em Uberlândia era média. É uma boa temperatura, bem melhor do que a daqui. (risos)

 

P/1 – Como era Uberlândia nessa época? Já era uma cidade grande?

 

R – Olha, acredito que quando o meu pai foi para lá não devia ter mais do que cinco mil habitantes. Em 1938, Uberlândia devia ter uns 25 mil habitantes, por aí. Pode haver um erro, não sei. Hoje, Uberlândia tem 560 mil habitantes.

 

P/1 – Vocês frequentavam a escola? Chegaram a estudar?

 

R – Eu fiquei interno seis meses no ginásio. Cheguei até o segundo ano primário.

 

P/1 – E aí parou de estudar? Teve que trabalhar, como é que foi?

 

R – Parei porque tinha que trabalhar, meu pai não estava dando conta. Houve a Revolução de 1930; houve muitas requisições dos bens das pessoas e eles não devolviam. Eu comecei a trabalhar com um caminhãozinho, desde os treze anos, para comprar e revender os produtos. Quando eu parei de estudar, parei com treze anos. Vamos dizer assim, se eu parei aos treze, comecei em quatorze, isso eu não tenho… Uma lembrança muito exata do período exato. Mas eu sei que em 1900... Deixo eu ver, quando eu tinha quinze anos, era 1930, né? Ou não? 1928. Eu trabalhava na cidade de Goiás e o prefeito lá era muito... Me achava muito responsável e me deu uma carteira de chofer com essa idade. Eu a tenho até hoje.

 

P/1 – Vamos com calma, tem uma porção de historiazinhas. Eu queria que você contasse um pouco ainda de Uberlândia, como era a loja do seu pai e se ela tinha nome. O que ela vendia?

 

R – Loja do Seu Felipe. (risos) Porque Assad era um nome que o meu pai achava difícil de falar. Então, ele... Porque o libanês imigrante muda o nome à vontade, você compreendeu? “O meu nome agora vai ser Felipe e acabou.” E era Felipe mesmo. Toda loja era do “Seu Felipe”.

 

P/1 – E como era essa loja do seu pai? Descreve.

 

R – A loja tinha um balcão na frente, umas prateleiras cheia de tecidos, empilhados assim, mais ou menos. Hoje não empilha as camisas assim? Antigamente era pano a metro.

 

P/1 – Na cidade, ela era uma loja conhecida? Era uma loja grande para a cidade?

 

R – Era o que existia na época. O meu pai vendia muito tecido importado da China, crepe da China, seda da China, se vendia muito. Tira bordado era... Tira bordado, como é que era? Era umas peças bordadinhas, cheias de biquinho. Vendia muito... Como é que chama aquele... Essas pelotinhas embrulhadas na seda, fios de seda assim... Pingente, se vendia muito, usava muito.

 

P/1 – E na loja também vendia coisas de armarinho?

 

R – Vendia coisas de armarinho; lenço, meia para mulher, para homem, era tudo misturado. Vendia muito botão de madrepérola. Agora eu lembrei.

 

P/1 – E essas mercadorias vinham de onde?

 

R – São Paulo.

 

P/1 – Ele ia a São Paulo comprar, mandava, como era?

 

R – Não, os viajantes passavam lá.

 

P/1 – E o senhor se lembra, na sua infância, de outras lojas comerciais em Uberlândia? Qual era o outro comércio que tinha na cidade, que tenha lhe marcado?

 

R – Que a gente ia muito, Livraria Cosmos.

 

P/1 – Ah.

 

R – Tinha um fotógrafo chamado  ________ Negattini. Era o ponto de encontro. O que mais que podia lembrar? Tinha outras lojas, mas não tinham muita expressão. A loja que tinha mais expressão era do meu pai mesmo, viu? Porque não tinha também cliente.  

 

P/1 – Não tinha?

 

R – Era muito pouco cliente. (risos) Vinham da roça, os clientes. Vendia mais para o pessoal que vinha das fazendas, não para o povo da cidade. E a minha mãe costurava roupa, fazia… Eu me lembro, fazia penhoar com aquele tecido que vinha da China e eu a ajudava na máquina - aquela máquina que a gente fazia assim, a costura aqui porque era tudo... Não tinha... Era tudo reto. Então eu costurava para ela na máquina. Agora estou lembrando disso.  

 

P/1 – O senhor falou de um fotógrafo; se fotografava naquela época as famílias, como a do senhor, por exemplo? Iam para a loja para serem fotografados?

 

R – Não, não. Só depois que nós crescemos. Ninguém falava que tinha aniversário. Não existia aniversário. Só se falou em fotografar depois de 1940 porque aí a gente começou a procurar os pais, os irmãos, congregar mais. Como era nove irmãos, sempre havia, vamos dizer, uma pequena divergência entre irmãos. Eu era o mais velho e a minha [mãe] dizia para dar o exemplo, que todos têm que seguir.

Hoje, na minha família é assim. Os irmãos são muito ligados a mim, eu sou muito ligado a eles. Continua a mesma coisa. Ontem mesmo eu recebi, domingo, recebi telefonema de dois irmãos, de três irmãos. É o que tem. Agora somos quatro. Nós éramos seis homens e três mulheres. As três mulheres já faleceram todas.

 

P/1 – Existia uma diferença de educação entre as filhas moças e os filhos homens em uma família libanesa? Por exemplo, vocês trabalhavam desde cedo. E as irmãs moças?

 

R – Passavam roupa, ajudavam a mãe a costurar, ajudavam a mãe na cozinha também. Quando a minha irmã Geni e as famílias [se] formaram [como] normalistas, elas passaram... Uma fez uma butique e a outra consertava a roupa da butique. (risos)

 

P/1 – Bom negócio. Fica em família.

 

R – Tanto que a minha irmã conseguiu fazer uma pequena e boa economia.

 

P/1 – Quer dizer, as filhas moças estudaram. Fizeram até o Normal.

 

R – Ah, fizeram, todas elas.

 

P/1 – E os rapazes foram trabalhar cedo?

 

R – Bom, nenhum de nós chegou... Deixa ver qual é que... O que foi mais instruído um pouquinho foi o Surrel, o caçula.

 

P/1 – Que já pode estudar mais?

 

R – Já foi estudar mais. Quando ele ficou mocinho, eu torcia para o Rio, o botei no colégio. Aí ele não quis ficar, voltou para Uberlândia para trabalhar. Uma vez, ele me procurou - eu já estava no Rio - para eu arranjar dinheiro emprestado para ele  comprar uma loja em Uberlândia. Na época, me pediu setenta contos. Disse: “Olha, meu irmão. A minha mãe me ensinou uma coisa, que não seguisse o exemplo do meu pai porque ganhava, dava para os irmãos.” E a minha [mãe] dizia: “Não faça isso nunca. Se amanhã, um irmão seu pedir um dedo para salvá-lo, você corta e dá. Mas se ele pedir a mão, você não corta, não. Você fica aleijado.”

Quando eu fui para o Líbano em 1965, eu vi uma porção de pessoas com a mão cortada. Eu perguntei ao tradutor - ele falava o espanhol, falava o árabe. Falei com ele em árabe: “Por que tanta gente com a mão cortada?” “Para todo mundo saber que era ladrão.” A gente cortava a mão, viu?

 

P/1 – Voltando um pouco, então, às suas primeiras experiências profissionais de trabalho. O senhor fala que vai trabalhar em Goiás, é isso?

 

R – É.

 

P/1 – Quantos anos o senhor tinha e como foi essa experiência de primeiro trabalho? Foi a sua primeira carteira assinada?

 

R – Não tinha carteira assinada.

 

P/1 – Nem tinha. (risos)

 

R – Não, não. Na Revolução de 1930, vamos dizer, eu já ajudava meu pai na venda da loja. Já em 1930, 1929, 1928 e 1930, nós moramos em Buriti Alegre. O meu pai mudou para essa cidade de Goiás e lá veio a Revolução de 1930. Agora que eu estou lembrando. Então [a gente] dizia assim: “Como é que vai trabalhar? Não tem jeito para trabalhar.”

A gente tinha um fazendeiro que tinha uma caminhonete Ford, eu fui à fazenda dele. Como é que a gente foi lá? Fui à cavalo. Chegou lá, disse: “Lalau, você podia me vender esse carro que está encostado aí? O senhor me vende, eu vou comprar as coisas e revender na cidade. Pago com dinheiro.” Ele olhou para mim assim: “O garoto pode levar a caminhonete.” Eu levei a caminhonete e fiquei com caminhão de Deus essa época, tendo caminhão de negócio até 1937.

 

P/1 – Na cidade de Goiás? De Goiás velha?

 

R – O arame, o querosene, o sal grosso e as encomendas das pessoas. “Olha, você me compra um par de botina, me compra...” A moça dizia: “Me compra um par de sapato, me compra três metros de fita.” Eu comprava e ganhava um ‘x’ sobre aquilo. E lá eu vendia as coisas que eu levava e comprava arroz, feijão, ovo empalhado, queijo e vinha vender na cidade [de] Uberlândia, que era uma cidade de maior... Porque a cidade lá de Goiás, você tinha dois, três mil habitantes, não tinha gente. Era uma rua só, mas todos tinham o seu sítio, as suas fazendas de produção para poder comer. Criação de porco.

 

P/1 – Mas como vai surgindo esse time comercial tão jovem?

 

R – Ah, não sei. (risos) Vou dizer porque meu pai já era comerciante de natureza também, né? Ele comprava e vendia tecido. Eu sei... Agora que eu estou lembrando, eu sei que ele comprava alho para vender também, mesmo fora da loja, para poder aumentar os gastos. Ele ensinou meu irmão caçula também, depois de muitos anos, a vender alho, maçã na rua.

 

P/2 – O senhor falou que ajudou o seu pai trabalhando na loja. O que o senhor fazia exatamente na loja do seu pai?

 

R – Pegava aquelas peças de tecido... Agora eu estou lembrando. Desenrolava-as todas para mostrar ao cliente. Aí [ele] dizia assim: “Enrola agora.” (risos) Enrolava.

 

P/2 – Mas o senhor também ficava na porta, apregoando: “Tecido”?

 

R – Não, não existia isso. A gente era muito calado.

 

P/2 – E como é que se atraía as pessoas então? Como é que o seu pai atraía as pessoas para dentro da loja?

 

R – Ele ia às casas das pessoas. Falava: “Eu tenho na loja isso, tem loja daquilo, vai lá.”

 

P/1 – Que graça. Essa está ótima. (risos)

 

P/2 – Ele levava o quê? Uma amostra do que tinha ou só falava?

 

R – Não, às vezes levava a peça. Aí ele mandava o Izildo com ele.

 

P/2 – Dependendo do caso, já vendia a peça ali mesmo ou então...

 

R – É.

 

P/1 – Existia a figura do mascate nessa época?

 

R – Tinha, tinha. A primeira vez que o papai veio para o Brasil foi mascate. Vendia seda; comprava em São Paulo e vendia nas fazendas. Os fazendeiros de sul de Minas naquela época eram muito ricos, porque produziam café. O café era muito valorizado nessa época, Corria muito dinheiro. Isso meu pai dizia, né?

 

P/1 – Bom, senhor Risde, o senhor fica, então, trabalhando com essa caminhonete até mais ou menos 1937.

 

R – Foi.

 

P/1 – E depois o que o senhor vai fazer?

 

R – Arrumei a minha mala e vim para o Rio de Janeiro. (risos)

 

P/1 – Por que?

 

R – Porque [em] 1929, eu tinha uma tia-irmã de mamãe que morava aqui. Eu vim passar uns dias com ela por um motivo.

Por que motivo? Vamos lá, vamos lembrar. Ah, sim. Nessa caminhonete que nós tínhamos, o meu pai fechou a loja, comprou uma partida de fumo de rolo e fomos... Eu dirigia a caminhonete. Fomos vender esses fumos de rolo na cidade de Estado de São Paulo - Ituverava, Iguarapava, São José... O meu pai dizia assim: “Em São José do Rio Preto tem o João Pedro, que é plantador de café. Ele é meu amigo, mas desde o Líbano não o vejo. Vamos de caminhonete até lá.” Nós fomos até de caminhonete lá e ele nos recebeu muito bem. Diziam que era um homem muito rico da época.

Vendíamos, vamos dizer, uma peça de fumo para um patrício. Só papai procurava os patrícios dele e tinha muitos. Aí teve um [que] disse: “Olha, eu te compro esse caminhão de fumo todo a troco de arroz.” Meu pai: “Vamos fazer negócio, fechar negócio. Como é que embarca o arroz?” “Embarca o arroz para o Rio de Janeiro.”

Como eu tinha uma tia casada com um comerciante de arroz aqui também, aí o meu pai falou: “Vamos embora para Uberlândia, você pega o trem e vai atrás do arroz.” Fiquei uns trinta ou quarenta dias, não me lembro mais, e vendi o arroz. Eu peguei o dinheiro e nessa venda de arroz, esse meu tio [disse]: “Está vendo aquele garoto ali?” Era o corretor dele de venda de arroz. “Ele ganha um conto por mês.”

Eu fiquei impressionado com aquilo, fiquei com aquilo na cabeça: “O Rio de Janeiro é que dá dinheiro.” E lá não ganhava, não, viu? Aí voltei para Uberlândia, pelejei com o caminhão [por] mais um tempo, de 1932 até 1937; não conseguia nada. O dinheiro que fazia dava para cobrir e pagar a prestação do caminhão. Nesse meio tempo, comprei da Ford - quer dizer, eu negociei, foi dessa maneira. Aí eu fiquei com aquela pessoa na cabeça, veio de longe.

Quando eu voltei para o Rio de Janeiro, a minha tia morava lá. Fui para a casa dela. Um dia, o marido dela disse para mim: “Você vai levar um dinheiro para uma pessoa que está doente, que é o meu corretor de cereais. Dê esse dinheiro para ele, porque ele está muito mal. Ele não vai escapar. Vou mandar pagá-lo.” Deu dinheiro, me deu dinheiro do bonde até a Rua Riachuelo. Ele estava naquela clínica de Santo Antônio, parece que tem até hoje ou tinha até... A esposa dele me recebeu, disse assim para mim: “Ele não pode lhe atender porque ele está muito mal. Você deixa o dinheiro comigo e daqui a uma semana você volta.” Aí ele... [Quando] eu voltei lá, ele já estava melhor. Falou: “O que é que você está fazendo?” Eu falei: “Não estou fazendo nada. Eu estou com o meu tio Gabriel, que é o marido da minha tia. Eu estou a fim de arrumar emprego.” Ele falou assim: “Olha, vou te dar um conselho.” Ele é português, viu? “Não fica com o seu tio, não. Ele vai destruir os filhos dele, porque ele é muito bruto. Quando eu sair daqui vou lhe arranjar um emprego.”

Foi ele que me arranjou o primeiro emprego. E fiquei de sócio dele depois, [por] 26 anos. É aquele período, viu? (risos) São coisas que a gente não lembra. É difícil, viu? Ficamos juntos [por] 26 anos.

 

P/1 – Como é o nome dele?

 

R – Antônio Anaquim.

 

P/1 – Antônio?

 

R – Anaquim.

 

P/1 – Anaquim. Então vamos recuperar um pouco a sua viagem de Minas para o Rio de Janeiro. Quais são as lembranças dessa viagem?

 

R – Olha, as lembranças dessa viagem… Eu saí de Uberlândia, vim dormir em Belo Horizonte. Lá eu fiquei numa pensãozinha. Tinha trazido 240 mil réis, era muito dinheiro. Falei assim: “Eu tenho um tio irmão da mamãe que mora em Barbacena. Vou lá procurá-lo.” Fiquei uns tempos com ele lá. Vi que não dava nada, falei: “Vou para o Rio de Janeiro.” Quando eu cheguei ao Rio de Janeiro, essa tia que eu tinha aqui estava [se] mudando para São Paulo.

 

P/1 – Ai.

 

R – Fiquei desarvorado. Aí eu arranjei o primeiro emprego... Ali eu não falei a verdade,  não. Lembrei: eu fui trabalhar na rua... Como é que chama a rua, gente? Aquela rua da Cinelândia?

 

P/2 – Rio Branco?

 

R – Não. Da Cinelândia? Aquele beco estreito? Rua dos Marrecos, não, a outra? Cesário Alvim, não.

 

P/1 – Álvaro Alvim.

 

R - Álvaro Alvim. Lá tinha um português chamado... Ah, esqueci o nome dele... Joaquim Rola, mas não era o Joaquim Rola da Urca, era outro.

O que é que ele fazia? Ele... Aquela rua ali era cheio de mulheres, vamos dizer assim, mulheres da vida normal. Então, ela levava o sapato, dois mil réis. Ele emprestava o dinheiro para ela depois apanhar o sapato, pagá-lo. Aí ele mandava eu limpar o sapato. A secretária dele era uma judia e ele me perguntou assim: “O que é que você faz? O que é que você sabe fazer? Você sabe mexer com peça de automóvel?” “Eu sei bem porque a gente tinha caminhão, a gente limpava.” Aí ele me botou na seção de peças de... De peças... Ele _________ tudo. Era um brechó, isso mesmo o nome.

Essa moça, um dia… Num sábado, ele falou: “Amanhã, domingo, você vem trabalhar.” Aí ela ficou revoltada. Ela me chamou para ir na casa dela e disse assim para mim: “O que é que você fazia lá em Goiás?” Falei: “Eu comprava e vendia arroz, essas coisas.” “Por que você não volta para o seu meio? Aqui com esse rolo você não vai conseguir nada na sua vida.” E foi assim que eu procurei o senhor Antônio Anaquim para me arranjar o primeiro emprego. Foi o homem que me arranjou o primeiro emprego.

 

P/1 – E quando o senhor chega no Rio de Janeiro, o senhor vai morar em que bairro?

 

R – O primeiro dia que eu cheguei fui morar na casa da minha tia, na Rua Domingos Ferreira, 74, mas eles estavam de mudança. Aí de lá eu mudei para a Rua Correia Dutra.

 

P/1 – Quais são as suas memórias de Copacabana nessa época, quando o senhor chegou?

 

R – Morar lá era muito grã-fino. Naquela época você enchia o peito para dizer: “Eu sou de Copacabana.” A pessoa estufava o peito. Lembra o Grande Otelo? Ele estufava o peito: “Eu moro em Copacabana.” Era o bairro chique da época, né? Eu fui morar na Rua Correia Dutra [no bairro do Flamengo]. Arranjei uma pensão lá baratinha, você compreendeu? Eu já ganhava os meus 200 mil réis por mês, _______ bem.

 

P/1 – Então como foi esse primeiro emprego no Rio de Janeiro com esse corretor?

 

R – Ah, o primeiro emprego foi ele que arrumou.

 

P/1 – Qual foi o emprego?

 

R – Foi no Azevedo Vítor e Companhia, na firma.

 

P/1 – O que era essa firma e o que o senhor fazia?

 

R – Era vendedor. Saía na rua para vender... O que é que eu vendia? Eu me especializei em arroz de Alagoas.

 

P/1 – Arroz vindo de Alagoas?

 

R – De Alagoas, produzia bem arroz. Vinha tudo de navio.

 

P/1 – Conta como é que funcionava o mercado de arroz nessa época? O que era um vendedor de arroz?

 

R – O arroz descarregava num navio no Armazém 18. Vou explicar melhor. Aí o patrão dizia: “Pega o número do conhecimento, o número do lote e vai lá, tira as amostras.” A gente enchia um saquinho de arroz assim, desse tamanhozinho. Embrulhava num papel, feito uns pastéis e saía para vender e mostrava. O comprador fazia assim com o arroz para ver se tinha quebrado, se tinha impureza, se tinha isso. Era assim.

 

P/1 – Mas, por exemplo, o que era um bom arroz? Como é que você via que era um bom arroz?

 

R – O melhor arroz que tinha na época era produzido no estado de Goiás. Era um arroz cumprido, [quando] botava na panela ele crescia muito. E o arroz do Rio Grande do Sul não era um arroz… O arroz de Goiás dava no tempo, não era irrigado, e o arroz do Rio Grande do Sul é irrigado. Ele absorve muita água, então você punha na panela, ele virava... Desmanchava. E o arroz de Goiás não desmanchava. Ele ficava inteirinho, bonito, graúdo.

Tinha o arroz do Maranhão, tinha o arroz do Pará e tinha o arroz de Alagoas, eram mais ou menos semelhantes. Era um arroz barato de péssima qualidade, mas é o que vendia na época. Era o que mais vendia, tanto que [me] especializei nesse tipo de arroz e fiquei famoso - quer dizer, no meio. “Quem vende arroz de Alagoas é o seu Attiê.” E todo mundo me procurava para comprar o arroz de Alagoas. Eu saía, eu futricava para saber onde que tinha para vender, né? Foi assim.

 

P/1 – Mas quem eram os seus clientes? Quem comprava arroz?

 

R – Ah, era toda a Rua do mercado, toda a Rua do Acre, parte da Rua Candelária no fim...

P/1 – No fim?

 

R – Rua do Rosário no fim, Rua do Ouvidor no fim, Rua do Mercado e Rua Primeiro de Março. Era tudo atacadista. Eram importadores de vinho, de azeite e vendiam arroz, feijão, outras coisas. Farinha de mandioca, se vendia muita farinha de mandioca naquele tempo.

 

P/1 – Mas se vendia no atacado nas lojas ou para ________ vendedores?

 

R – Não era no varejo, não. A gente vendia por atacado. O sujeito chegava perto do freguês, dizia assim: “Cem sacos.” Cem sacos representava o quê? Seis mil quilos. Era um saco de sessenta quilos. Arroz de sessenta quilos, feijão [de] sessenta quilos. Você não vendia no varejo, eles revendiam para as mercearias.

 

P/1 – Ah, entendi.

 

R – Os atacadistas vendiam para as mercearias.

 

P/2 – E os atacadistas, eles procuravam o senhor: “Senhor Attiê, eu quero tantos de sacos de arroz”? Ou o senhor ia até lá e oferecia: “Olha, eu tenho tantos sacos para vender.” O senhor que oferecia?

 

R – Oferecia... Não, a gente já saía de porta em porta com amostra. A gente leva uma pasta de quinze quilos de amostra e carregava.

 

P/1 – Saía pela cidade, carregando arroz.

 

R – É, as amostras. As amostras tinham o equivalente a mais ou menos duzentos, trezentos gramas de arroz. A gente tinha um jeito de embrulhar igual uns pastéis. É capaz de eu saber fazer ainda hoje como era. Põe um papel azul, no fundo um papel mais grosso por fora e botava amostra dentro. Você o dobrava e fazia assim. Você podia até jogar assim que ele não desmanchava, viu?

P/1 – O senhor trabalhava para uma firma. O senhor era vendedor...

 

R – Da firma.

 

P/1 – Dessa firma Azevedo...

 

R – Azevedo Vítor.

 

P/1 – Azevedo Vítor.

 

R – Eu ganhava duzentos reais...

 

P/1 – De salário fixo.

 

R – Passado dois ou três meses, ele passou a me dar mais meio por cento na venda. Como representante, eles ganhavam três por cento. Eu tinha uma parcela de meio por cento, além do ordenado.

 

P/1 – E o senhor foi crescendo nesse trabalho?

 

R – Fui crescendo, porque a gente tinha o espírito de economia muito grande. Eu mudei para uma pensão na Rua Primeiro de Março, número 13. Por que mudei por lá? Porque não pagava o bonde para ir para o trabalho, era pertinho.

 

P/1 – Para economizar.

 

R – É. Durante oito meses, eu pagava 190... 180 de cama, mesa e comida nessa pensão da dona Margarida. E pagava doze de lavadeira. Sobravam oito. Durante os oito meses, eu economizei oito cruzeiros sem gastar um tostão dele, nem para o café, que era cem réis e era caro para mim.

 

P/1 – Quer dizer, o senhor vivia no Rio de Janeiro, se sustentava com este salário que recebia como empregado dessa loja...

 

R – Dessa loja.

 

P/1 – Quando eu passei a ganhar mais meio por cento, eu comecei juntar o dinheiro. Já não gastava e passei muito tempo juntando dinheiro. Aí eu comecei a vender sal também. Independente do emprego que eu tinha, eu já... Porque sal era muito difícil para arrumar. Nessa venda de sal, eu passei a ser bem remunerado. Fiquei muito capacitado de arranjar sal para os outros.

 

P/1 – Como é que era o negócio de sal?

 

R – Eu chegava na empresa, comprava o sal.

 

P/1 – Que empresa?

 

R – Vamos dizer, Salinas Pereira Bastos. Fabricava sal em Cabo Frio. O sal só podia ser vendido com ordem da mobilização econômica e você para tirar uma nota de sal, você tinha que carimbá-la, pôr um ______ no sal e entregar o sal; se não tivesse o carimbo da mobilização econômica, o sal não saía e era proibido. Não sei por quê era proibido, não dava para entender.

Arranjei amizade com o cara que ficava no guichê e ele perguntou assim: “Quanto é que você ganha no sal?” “Eu ganho quinhentos réis.” “Você me dá algum?” “Eu dou. A gente pode dividir.” “Você carimba para mim aquilo que eu quiser.” Ninguém sabia se era corrupção ou não. Era corrupção, mas não sabia o que era corrupção. Quem vai saber naquele tempo que o sujeito estava corrompendo o cara? Eu não sei quem me deu uma caneta, eu dei a caneta para ele assinar o papel: “Vou ficar com essa caneta sua.” “Pode ficar com ela.” Aí, de dez sacos, eu passei a pedir vinte, passei a pedir trinta, comecei a aumentar, aí eu fiz um capital. Nesse capital, eu cheguei juntar 72 contos.

Um dia, uma firma de Penedo, lá de Propriado de Alagoas chegou para mim: “Seu Attiê”, era dezembro, “preciso vender meu arroz. Preciso embora, meu pai está me chamando.” Ele mandava o arroz e vinha atrás do arroz para vender aqui.  “Português não compra arroz no mês de dezembro.” Era uma tradição. Não comprava de jeito nenhum, por preço nenhum, era só vinho e castanha. E os vinhos vinham de Portugal em barril. Eu, para agradá-los, ajudava a ensacar o vinho nas garrafas, fazia amizade. Aí eu falei para o rapaz… Como é que ele chamava, gente? Barreto, mas ele tinha um apelido de Badalo de Sino, porque ele andava na rua com a cabeça assim. Eu falei: “Olha, você quer vender o seu arroz? Eu o compro.” Ele falou: “Você tem dinheiro?” Peguei a caderneta do Banco de Crédito Real - eu já tinha os 72 mil reais - e mostrei para ele: “Tenho isto tudo aqui. Você tem mil e tantos sacos de arroz. Eu lhe dou o dinheiro e você me dá o arroz.” “Vou perder 20 mil contos.” Aí ele disse assim para mim: “Não, não vendo não.” “Está bem, tudo bem.”

No dia seguinte, ele me procurou: “Olha, vou lhe vender o arroz.” “Então, vamos fazer o negócio. Onde está o arroz?” “Está no Trapiche Barbosa.” Fomos lá no Barbosa, passei... Fui com ele ao Crédito Real, preenchi uma ficha, passei o dinheiro para ele. Ele me deu um cartão da firma dele. Era o arroz, rua tal. Fui lá onde estava o arroz. Ele falou com o dono do trapiche, que era onde [se] guardava o arroz: “Esse arroz aqui é desse moço.” “Tudo bem.” Peguei o arroz, fiquei quieto. “Vou dobrar”,  pensei comigo. “Vou dobrar de uma vez só.”

 

P/1 – Nossa.

 

R – Eu estava no meio dos vendedores. Juntavam-se os vendedores na esquina, até chamava “Esquina do pecado”.

 

P/1 – Onde era essa esquina?

 

R – Na Rua do Acre. Um deles vira assim: “Eu estou numa situação difícil. Você imagina que a firma mandou vender arroz em Barra do Piraíba, Barra Mansa. Vendi o arroz e eles não têm o arroz para entregar.” Fiquei caladinho. Falei: “Você trabalha onde?” “Eu sou empregado da firma Souza Matos e Companhia.”

Eu fui lá, com aquela amostra de arroz. Cheguei lá, falei: “Quero falar com o comprador aqui.” O comprador era... Tinha uma barba até aqui, assim. Chamavam ele de Comendador. Olhou o arroz, fez assim: “Quem é que vende esse arroz, menino?” Falei: “Sou eu. Sou o dono do arroz.” “Como é que você prova que é dono do arroz?”

Saí atrás do homem que me vendeu o arroz. “Vou trazê-lo aqui.” Encontrei com ele, falou: “Não, o arroz é dele mesmo, ele me pagou.” “Quanto é que você quer pelo arroz, garoto?” “Falei: “Quero 144 mil reais.” Ele falou: “Você me dá 60 dias para pagar?” Eu falei: “O senhor me dá um vale.” Não tinha nota, não tinha nada naquele tempo. Pegou, me deu um vale, eu dei o outro cartão para ele e fiquei quieto. Aí contei para o senhor _______, que tinha me arranjado o emprego, virou assim para mim: “Você vai trabalhar comigo. Vou te dar cinco por cento na firma.” Aí fiquei lá [por] 26 anos, nessa representação Anaquim.

 

P/1 – Está bom. Vamos dar uma paradinha agora, vamos aproveitar. Nesse pedaço, eu vou fazer aquelas perguntas que eu falei para o senhor. Podem parecer ingênuas, mas é para deixar gravado o que depois foi uma bolsa de gêneros, o que foi mercado São Sebastião, isso tudo eu vou pedir depois para o senhor explicar. Esse trabalho e qual é a firma que o senhor trabalha durante 26 anos.

 

R – Era o seguinte. Quando eu passei, que eu tive a capacidade de dobrar o meu capital de 72 para 144, o senhor Antônio Anaquim me chamou para trabalhar na firma dele. Era, na época, um dos corretores mais proeminentes do Rio de Janeiro. Ele era um rapaz mais culto e todo o comércio atacadista do Rio de Janeiro eram portugueses que tinham vindo, vamos dizer assim, imigrantes de baixa... Não vou falar de baixa cultura não, de pouco entendimento. O português sabia trabalhar, ganhar dinheiro porque ganhava e não gastava, então cada um tinha o seu armazém. Eram firmas importantes, tinha capital. E o senhor Anaquim mandava nessa turma. Mandava assim: a pessoa dele, porque ele tinha um pai que era irmão de um bispo em Portugal. É um bispo famoso, eu não sei o nome dele. Depois pode ser que eu lembre.

Bom, então o senhor Anaquim me entregava a parte da venda. Ele ainda me perguntou assim: “Você conhece Goiás?” Falei: “Lógico que eu conheço. Eu viajei tanto tempo para Goiás.” “Por que você não vai lá arranjar mercadoria para nós vendermos? Eu lhe dou dinheiro da passagem e você vai.” E eu fui. Peguei o trem daqui para São Paulo, São Paulo para Uberlândia, de Uberlândia para Araguari, de Araguari para Anápolis, é a cidade. Cheguei lá, fiquei numa pensão, numa poeira, menina. Ninguém sabe. Não existe isso hoje. Você já viu você estar no meio de uma neve, numa nuvem? Você entrava na nuvem de poeira que era...

Cheguei lá na cidade, fui para pensão, dormi. No dia seguinte, perguntei quem tinha feijão para arrumar. Tem uma firma qualquer, de um Hazem Dias, vamos dizer. E fui lá, falei com ele. Ele disse: “De onde você é, garoto?” Eu disse, falava bem enrolado: “Sou do Rio.” “Você trabalha para quem?” “Antônio Anaquim.” “Ah, esse nome é muito famoso.” Ele era famoso mesmo, viu?

“Eu tenho feijão para vender. Posso embarcar e lhe entregar os conhecimentos para você vender lá.” Aí vira aqui, vira dali... “E você é descendente de árabe?” Falei: “Sou descendente do Felipe, do Assad Attiê.” “É meu amigo, seu pai. É o que mora em Uberlândia?” Falei: “É meu pai.” “Entra aqui para dentro de casa.” Chamou a mulher: “Vai fazer almoço para ele.” Menina, eu não consegui [me] livrar do homem.

A cidade inteira era dominada pelo imigrantes libaneses, inteirinha. Todo mundo que tinha feijão, tinha arroz, eram eles. Ele me levou de porta em porta, falou: “Esse aqui é filho de fulano. O que ele falar está certo, eu endosso.” Bom, deu dezoito da noite, eu estava exausto, cansado, já tinha mais onde... Falei: “Seu fulano, Hazem, eu quero ir para a pensão tomar banho.” “Que pensão! Eu já mandei pagar a conta, a sua mala está aqui. Você vai dormir aqui.” Arrumou um quarto bonito para mim na casa dele.

Eu era filho de fulano, o que você quer? Ser filho de fulano é coisa importante. Eu não tinha nem noção se era importante ou não era importante, não tinha noção nenhuma. Bom, o resultado [é] que eu fiz amizade com todo mundo. Depois descobri um cara também, chamado Salim Kaed. Era casado com uma moça que era parente da minha mãe. Era tudo ligado.

 

P/1 – Tudo patrício.

R – É, tudo patrício. Eu dominei aquela cidade durante muitos anos, pelo conhecimento. Só. Pelo conhecimento da tradição da minha família do meu pai. Eu devo isso a meu pai.

Como é o sistema de embarque de mercadoria? O embarque de mercadoria era por requisição de vagão. Você chegava lá, dizia: “Olha...” Aí o cara, o gerente da estação dizia assim para mim: “Você quer quantos vagões?” “Eu quero cinco vagões.” “Só daqui a dois meses, só daqui a três meses. Falei: “Escuta aqui, seu Fulano. Quem é que tem feijão requisitado aí?” Aí ele disse: “Você tem que falar com Fulano, João Jacques Zirste, Jorge Pedreiro...” Aqueles nomes, ele me deu todos. Eu fui nele, falei: “Eu não quero comprar feijão. Eu só quero comprar o conhecimento, quem tem conhecimento.” (risos) Quem tinha conhecimento, requisitado, andava na frente. Aí comprei.

Na primeira viagem, eu fui feliz pela apresentação desse senhor. Bom, aí eu trouxe um... Cheguei aqui com os conhecimentos na mão. O meu sócio, sócio e patrão disse: “Você é formidável, hein, rapaz. Como é que você conseguiu isso tudo?” Eu não tinha que dar explicação para eles, que o homem era conhecido do meu pai, eu era, não era. Eu também não dava muito... Mentalmente eu não dava muito valor. É verdade. Uma rotina.

Passados uns tempos, a coisa começou ficar difícil porque não tinha vagão. A produção era muito grande, tinha que escoar. Os outros também andavam à frente. Aí eu conheci um cara chamado Abdala Abud. Ele disse: “O chefe da estação aqui gosta muito de frango. Convide-oe para almoçar ou para comer um frango de noite na casa de uma senhora de idade, você compreendeu?” “Eu não. Não.” Aí convidei seu Escalia - o nome dele é Escalia. Falei: “Seu Escalia, não quer comer um frango lá na casa da Fulana? O senhor Abdala gosta muito de você, disse que é para a gente ir.” “Ah, vou sim. Gosto de comer frango assado.” Dessa grossura o homem. Conversa vem, toma cerveja daqui, toma cerveja dali. Vem aquelas mulheres, senta no colo de um, senta no colo de outro. Era rotina, viu? (risos)

Ele disse assim: “Por que você me dá o serviço?” “Como é que você quer o serviço?” “Eu quero saber quem tem requisição”, que também era segredo. Aí ele me deu. Ele disse: “Você, de onde é?” “Eu sou de Uberlândia.” “Eu tenho uma sobrinha lá em Uberlândia”, disse ele para mim assim. (risos) “Sobrinha em Uberlândia? Como é o nome dela?” “Miriam.” “Miriam é minha cunhada, casada com meu irmão. Só se não for a sua.” “A casada com o Mário?” “É, casada com o meu irmão Mário.” “Ah, então é.” Aí ele pegou, me abraçou, começou a dançar, mas dançar mesmo, homem com homem. Meu Deus, nossa senhora. (risos) Dançava.

Minha filha, não deu outra coisa, você compreendeu? Ninguém fazia mais nada sem a minha ordem. Eu chegava lá, ele dava as listas de quem tinha os vagões requisitados. Eu ia lá, comprava aquilo tudo; comprava ou angariava para mandar para vender. O maior era angariado, não comprado. Então quando ia para o Rio de Janeiro, eu ia com o bolso cheio de papel. Conhecimento da estrada de ferro, legalizada, carimbada, tantos sacos de feijão, com tantos mil quilos. E assim foi.

Começou a chegar feijão demais no Rio de Janeiro, aí o senhor Anaquim disse assim para mim: “Como é que nós vamos deter isso?” Falei: “A baldeação é em Barra Mansa.” Aí falei: “Me arranja um carro que eu vou em Barra Mansa segurar lá.” Para não entrar mercadoria, para poder provocar alta.

 

P/1 – Do preço.

 

R – Fui lá em Barra Mansa, falei com o chefe da estação. “Qual é, me dá o número que você quer que segure.” O que era dos outros, segurava. O que era meu soltava tudo e dava um ‘x’ para ele. Era corrupção, mas quem é que sabia que era corrupção? (risos) Quem podia saber que aquilo era corrupção? Não tinha nem ideia que o sujeito estava corrompendo.

 

P/1 – Mas quem era o seu mercado no Rio de Janeiro?

 

R – Todos os atacadistas.

 

P/1 – O senhor pode citar nomes de firmas tradicionais da época, por favor, de atacado de feijão?

 

R – Posso.

 

P/1 – Por favor.

 

R – Vamos lá: Oliveira Lopes Silva, Monteiro Ramos e Companhia, duas importantes. Casa Souza Matos... Não, Casarão Souza Matos, depois é que passou para Casa. Essa que eu vendi o arroz. Silvestre Ribeiro e Companhia, Vieira da Silva e Companhia. Vamos mais: ________ e Companhia.

 

P/1 – Como?

 

R – Trista.

 

P/1 – Trista?

 

R – É. Soares Bastos e Companhia, Feira Irmão. Vamos ver mais. Vieira da Silva eu já falei, Silvestre Ribeiro já falei. Salinas Pereira Bastos, trabalhava com o Sales e trabalhava com _______.

 

P/1 – O senhor falou nessa Esquina do Pecado. Existia a concentração dessas firmas neste pedaço da cidade?

 

R – Não, os corretores.

 

P/1 – Os corretores.

 

R – É.

 

P/1 – E as firmas estavam onde, os escritórios das firmas ficavam localizados onde?

 

R – Não, as firmas localizadas nos escritórios deles.

 

P/1 – Sei.

R – Um determinado dia, eles iam para aquele lugar ver quem tinha mercadoria mais barata para vender, por isso chamava... Então muitas pessoas dizem assim: “Se a polícia chegar aqui, sai correndo todo mundo porque todo era mundo ladrão lá”. Era de brincadeira, viu? Brincavam uns com os outros.

 

P/1 – Encontro dos corretores era na Rua do Acre...

 

R – Rua do Acre com Alcântara Machado.

 

P/1 – E o senhor está falando que época? Década de 40? Só para citar.

 

R – Época de 1940 até 1951, quando a bolsa de cereais foi fundada na Rua do Acre.

 

P/1 – O senhor pode agora contar um pouco sobre a fundação da Bolsa de Cereais e de que forma o senhor participou dessa fundação?

 

R – Olha, a minha participação na bolsa não foi quase nenhuma, porque quem participava era seu Antônio Anaquim. Ele era o chefe da firma, era o representante da firma. Por exemplo, ele brigava com o cliente e eu ia por trás, consertava. Eu era apagado, a verdade era essa, mas, no fundo, eu era a alma da firma. Eu não aparecia.

 

P/1 – Mas o senhor se tornou sócio ou ainda era empregado a essa firma?

 

R – Ah, não. Quando eu entrei para eles já entrei como interessado, com cinco por cento.

 

P/1 – Ah, tá.

 

R – No andar dos tempos, eu cheguei a trinta.

Já em 1965, 1966, nós começamos a dirigir na forma da administração da firma. Ele arranjou uma pessoa, uma amiga; comprou um carro para ela e botava gasolina no nome da firma e eu não concordava com aquilo. Eu achava [que] não…

Um dia eu cheguei perto dele, com muito jeito. Disse assim: “Seu Anaquim, você botou tantos mil reais de gasolina para a Ieda” - o nome dela era Ieda - “Você esqueceu de me dar o dinheiro.” Quem tomava conta do por fora da caixinha era eu. “Você tem que me dar.”

Eu não dizia para ele que ele estava usurpando, mas ele botou um empregado lá como sócio e queria dar dez por cento dos meu trinta. Eu falei: “Não, não dou. Eu dou os trinta para ele, todinho, mas dez eu não dou. Você tem setenta, dá você se você quiser ou senão vou embora.” “Não quero que você vá embora.” E ficamos naquela briga, de 1965 a 1968 numa briga danada. Numa briga, assim, amistosa. Bom, ele acabou dando o dele. O meu eu não dou, não. Tudo bem.

[Em] 1968 eu falei para ele: “Não quero continuar mais, por preço nenhum.” Eu vi, o capital da firma era cinquenta mil. Eu tinha quinze mil, só, mas o ativo da firma dava... A minha parte dava 104 mil e ele não queria me dar. Aí nós divergimos, brigamos, ficamos de mal. Eu juntei o pessoal da Associação Comercial da Bolsa em cima dele, obriguei-o a me dar. Ele pegou, me deu meu dinheiro, mas mesmo assim ainda ficou com quatro mil.

Quando foi no casamento dessa menina, a minha família... Porque ele foi meu padrinho de casamento também. “Não, você tem que convidá-lo.” “Não, estou de mal, não vou convidar.” “Ah, vai convidar sim!”

Cheguei, bati na porta do escritório dele. Ele: “O que você veio fazer aqui?” “Vim falar contigo.” “O que você quer?” Ele [com] cara fechada para mim. “Não, quero entrar, quero falar com você. Eu vou casar a Jamile, eu queria que você fosse no casamento.” Aí ele disse assim para mim: “Não vou.” Falei: “Está bem. Eu estou fazendo a minha obrigação. A minha mulher pediu, todo mundo pediu que eu viesse falar com o senhor. Eu vim, eu cumpri a minha obrigação. Até logo.” Virei as costas. Da porta eu voltei para ele: “Senhor Anaquim, quantos anos nós ficamos de sócio?” Ele disse: “Por que?” “Não, quero saber.” Ele falou assim: “26.” “E quantos anos nós brigamos?” Ele falou assim: “Desde o ano passado.” Eu digo: “É. E qual é que vale mais?” Ele falou: “Você está com a razão. Eu vou no casamento.” (risos)

P/1 – Bom, seu Risde, vamos agora conversar um pouco sobre a história da Bolsa e Gêneros Alimentícios aqui no Rio de Janeiro. Quais são as suas memórias sobre essa fundação, o que o senhor conhece dessa história? Qual foi o grupo de comerciantes ou de...

 

R – Olha, a Bolsa de Gêneros Alimentícios foi fundada pelos atacadistas do Rio de Janeiro e os varejistas da época, de grande projeção; era a Casa da Banha.

 

P/1 – Ah, sei. Quem eram os donos da Casa da Banha?

 

R – Climério Veloso e Venâncio Veloso.

 

P/1 – Em que ano foi isso?

 

R – 1951. Eles, como varejistas, foram grandes percursores e os atacadistas todos apoiavam a Bolsa. Os atacadistas, todos esses que eu citei. Proeminente foi Manoel de Souza Matos, o fundador principal. Seu Manoel de Melo também apoiou muito, foi um representante que hoje atua na Bolsa até hoje. Está com 89 anos. Outra firma importante também chama-se Anardele e Cia.

 

P/1 – O que é a Bolsa de Gêneros alimentícios?

 

R – A Bolsa? Onde [se] aglomeram todos os associados da Bolsa. Compradores e vendedores se unem ali das 8:00 da manhã até 12:00, oferecendo os seus produtos. Era uma concorrência tremenda. Você sabia onde tinha o melhor preço.

 

P/1 – Mas que produtos?

 

R – Arroz, feijão, banha, charque, frango e toda lataria de conserva que existia na época.

 

P/1 – Onde era essa Bolsa, quando ela é fundada?

R – Na Rua do Acre... Espera um pouquinho. O número eu não estou certo, é 28 ou 26. 26. Os atacadistas chegaram comprar a sede, mas a sede ficou pertencendo à Bolsa. E a Bolsa posterior, as autoridades pediram para a gente mudar de lá porque enchia de caminhão e não tinha nem como andar. Aí fomos para o Mercado São Sebastião, em 1970 e... Em 1974 ou 1973, por aí. Eu fui para lá em 1975.

 

P/1 – E na sua opinião, essa mudança foi boa? Por que se escolheu este lugar da cidade para se instalar o Mercado São Sebastião?

 

R – Porque existia uma sociedade que desmontou a feira... Não é feira, não. Como é que dá o nome ali na Praça XV?

 

P/1 – O Mercado [Municipal], que tinha.

 

R – Mercado São Sebastião. Tinha um mercado de atacadistas ali, que vendia maçã, uva, pêra, peixe, vendia de tudo, gêneros alimentícios. As autoridades obrigaram eles a sair. Eles, entre si, não queriam ir para o Mercado São Sebastião; fundaram a Cadeg [Centro de Distribuição do Estado da Guanabara], que é ali em São Cristovão, né? Na rua... Como é que chama aquela rua? Bom, agora eu não sei. Ela existe lá até hoje. De lá o Ministério da Agricultura fundou a ASA [Associação dos Servidores da Agricultura] depois, mais tarde, viu? Foi assim. Hoje, a Bolsa de Gênero Alimentícios está isolada, devido as grandes favelas que [se] concentraram em volta dela.

 

P/1 – Em que bairro que ela está?

 

R – Penha.

 

P/2 – O senhor deve ter ido acompanhando a Bolsa. Como era a Penha no momento que a Bolsa se estabelece ali?

 

R – O Dom Helder Câmara conseguiu com as autoridades aquela baixada toda e fundou-se a Baixada Cruzada São Sebastião. Ele vendia os lotes e apareceu firmas que construíam para os atacadistas financiado, foi fazendo aqueles armazéns. O meu sócio tinha comprado um armazém lá, eu não queria que ele comprasse. Eu já tinha uma certa predominância sobre o espírito dele da minha visão comercial, mas ele quis comprar assim mesmo e comprou. Ah, não comprou não. Falei pra ele: “Vamos comprar daqueles que não vão aguentar pagar.” Foi o que se deu. Compramos pela metade do preço.

 

P/1 – Mas isso naquela época era um preço alto para um comerciante ou para um empresário desse ramo era muito alto, era...

 

R – Era pesado.

 

P/1 – Então selecionou as pessoas que foram para lá?

 

R – Foram. Selecionou. E nós tivemos uma firma, que hoje existe, chama Casa e... Era Engenho Soares Companhia, hoje é Casa Engenho Soares. São onze irmãos. Eles têm 33 propriedades lá dentro. Essa firma é importante, de gente muito correta, muito estimada no meio. Eles acreditaram naquilo e se empenharam demais pelas construções.

 

P/1 – E o senhor, então, vai e compra o quê? Quantas, eram...

 

R – Não, seu Anaquim comprou um.

 

P/1 – Comprou um.

 

R – Eu fiquei de sócio nos 30% daquele armazém. Quando ele queria me passar a minha parte, ele não queria comprar. Ele não queria me deixar sair da firma e eu queria sair, aí se valorizou na época por quarenta mil. Eu recebi 30%, doze mil no valor dele. Posteriormente, quando me obrigaram a sair da Rua do Acre já com firma estabelecida ir para lá, apareceu uma firma apertada demais, com dois armazéns. Eu comprei esses dois armazéns.

 

P/1 – Lá no Mercado São Sebastião?

 

R – Lá no Mercado.

 

P/1 –  Quando se dá, em que data o senhor vai para o Mercado São Sebastião?

 

R – 1975.

 

P/1 – E como era o nome da sua firma?

 

R – Era Distribuidora de Cereais Guaianápolis.

 

P/1 – Guaianápolis?

 

R – É. Porque lá em Goiás tinha uma cidade chamado Anápolis e Góia... Não me lembro. Juntei as duas cidades e fiz o nome Guaianápolis.

 

P/1 – Quando o senhor vai para lá? Descreva fisicamente como era um espaço ali de armazém? Descreva o Mercado São Sebastião, por favor.

 

R – Olha, você entra pela Rua do Arroz... Não, entra pela Rua da Farinha. Engano. Estabelecia ao lado da rua do Arroz, a rua assim. A rua do Feijão assim. Tem rua do Alpiste, Rua do Feijão, Rua da Batata, Rua da Cevada, Rua do Trigo...

 

P/1 – Qual é a sua rua?

 

R – Rua do Alho. Hoje eu estou na Rua do Arroz. A propriedade está na Rua do Arroz e na Rua da Soja.

 

P/1 – Como é? É um armazém grande?

 

R – É enorme, lá. É grande, você nunca foi lá não?

 

P/1 – Não. Bom, então o senhor estava descrevendo como era... Como é o Mercado São Sebastião? São grandes armazéns, como é a metragem?

 

R – Grandes armazéns. Os armazéns lá tem, mais ou menos, um por um, 360 metros quadrados, um colado no outro. Cada um é um dono. Tem os armazéns maiores. Por exemplo, eu tenho um armazém lá com 1192 metros. Está vazio, ninguém aluga e não vende.

 

P/1 – Por que o senhor acha que está acontecendo isso?

 

R – Porque tanto o Estado como a prefeitura não olha para lá. Não sei se porque o nosso presidente é um pouco político e sempre mete, fala mal do Governo na Revista da Bolsa. Alguns que já foram presidentes da Bolsa criaram uma mentalidade que ali se negociava todo alimento que vem para o Rio de Janeiro, que não é uma verdade. É parte, parte hoje... Parte pelo CEASA, pela Cadec e pelo Mercado São Sebastião; hoje temos o Mercado de Madureira também, já é uma potência, viu?

 

P/1 – O que é que mudou de 1975, quando o senhor foi para lá, para hoje, 2003, no Mercado São Sebastião?

 

R – Uma decadência paulatina. Ela já teve maior auge, maior expressão. Essa mudança, ela provém… A comunicação entre vendedor e comprador se tornou mais fácil. Hoje tem computador, tem o tal e-mail, internet, então o sujeito consulta direto os preços com o fornecedor do Rio Grande ou de qualquer cidade. Você tem resposta imediata.

 

P/1 – E antes, como era?

R – Ah, demorava a resposta.

 

P/1 – Por que era feito como? Telefone?

 

R – Telefone era difícil. Era feito pela Western do Brasil, telégrafo para o Rio Grande. Para Goiás era telefone. Telegrama levava três dias para chegar em Goiás.

 

P/2 – Esse sistema de telefone e telégrafo, isso foi usado até que ano mais ou menos?

 

R – Não, agora o telefone fala na hora para qualquer lugar.

 

P/2 – Mas essa dificuldade de se falar com Goiás, de ter que mandar o telégrafo ao Rio Grande do Sul, isso foi até quando? Até quando houve essa dificuldade na comunicação?

 

R – Olha, até pouco tempo. Eu não vou lembrar… Vou lembrar, vou ver se eu consigo. Primeiro que não tinha telefone nas grandes cidades produtoras. Anápolis é a maior cidade produtora de gêneros alimentícios. Chegaram lá... Deu tanto arroz uma vez, que o embaixador americano foi lá para ver o arroz no meio da rua, empilhado no meio da rua. Ninguém mexia. Botavam aquelas lona em cima, tampava milhões de sacas de arroz em casca.

Essa dificuldade foi até 1970. De lá começou a melhorar. Por exemplo, [se] você queria ligar para Uberlândia, você tinha que falar com Varginha, Minas Gerais. Varginha ligava para Uberaba, Uberaba ligava para Uberlândia. Era tudo... Não era direto. Você não falava direto.

 

P/1 - No armazém, no Mercado São Sebastião hoje, as mercadorias estão estocadas ali?

 

R – Não.

 

P/1 – Explica como funciona?

 

R – Antigamente era. Todo mundo importava e estocava. Hoje, os atacadistas compram uma quantidade que possa vender numa semana, não compram mais do que isso, então não há estoque suficiente. É a rotina, é o dia a dia.

Hoje é tudo transportado por caminhão. O caminhão chega, descarrega, do caminhão eles já estão mandando para o freguês miúdo e o freguês miúdo já põe na mercearia ou nas grandes cidades. Por exemplo, vamos dizer, eu vendo para a Casa Sendas, como? Eu pego o telefone na mesma hora. Eu ligo assim, de imediato: “O Caese”, a firma, “a Sendas quer dez caminhões de arroz.” Dez caminhões de arroz são nove mil fardos. Cada caminhão leva novecentos fardos de arroz de trinta quilos. “Está fechado.” Aí eu emito um pedido com numeração. Por telefone, ele já anota o número do pedido. A Sendas dá o pedido dela também para confirmar e esse pedido é transmitido via fax na mesma hora. É tudo feito em poucos minutos.

 

P/1 – Para a gente entender, a função do Mercado São Sebastião hoje qual é? Antes ele foi constituído para ser um lugar de estoque de armazéns de congregação dos atacadistas?

 

R – Era.

 

P/1 – E hoje qual é a função do Mercado São Sebastião?

 

R – Pelo hábito, ela criou uma fonte, vamos dizer, pessoas que vão lá especular preço para poder comprar, porque lá é uma concorrência. Dentro da Bolsa é uma concorrência tremenda. Todos representantes têm ordem de venda. A mercadoria não está mais no Rio de Janeiro. No tempo antigo, o Rio de Janeiro armazenava um milhão de sacos de arroz, um milhão e meio. Armazenava feijão, armazenava cebola. Hoje não, a mercadoria entra e sai logo. Ela é consumida imediatamente. Se houver qualquer problema no Rio de Janeiro, vamos dizer, uma revolução, um troço qualquer...

 

P/1 – A gente vai ficar sem comida?

 

R – Não tem abastecimento. É o dia a dia.

 

P/1 – Ainda vem de trem? O trem funciona no Brasil para esse tipo de mercadoria?

 

R – Ao meu ver, não. Não está funcionando mais. Já funcionou muito, hoje não funciona.

 

P/2 – Então os clientes do Mercado São Sebastião seriam só os... Seriam basicamente os atacadistas. Quer dizer, a dona de casa que mora ali na região não pode?

 

R – Não, tem atacadista, mas são poucos. Vou explicar: hoje nós temos a Casa Engenho Soares, tem as firmas que estocam alguma mercadoria, principalmente ração para cachorro, ração para gado, essas coisas assim. Eles revendem para aqueles pequenos varejistas, que têm aquelas lojinhas pequenas, têm os seus viajantes.

 

P/1 – Mas para a gente entender como é que funciona espacialmente; a Bolsa de Gêneros Alimentícios está no Mercado São Sebastião?

 

R – Perfeito.

 

P/1 – E ela tem uma atividade diária?

 

R – Tem.

 

P/1 – Existe uma bolsa de negociações de grãos, é assim que funciona?

 

R – Perfeito.

 

P/1 – Para a gente entender e deixar registrado.

 

R – Ela emite um boletim... Há pessoas dentro da Bolsa responsáveis por fazer um boletim de preço, o preço médio diário que é comercializado. Então por ali, vamos dizer, vem uma pessoa de Campos para comprar. Ele pega o boletim da Bolsa, fica sabendo o preço médio que foi negociado o arroz para ele ter uma base, para poder [se] situar. E a Bolsa fornece isso diariamente.

 

P/1 – E de que forma o senhor se insere hoje na Bolsa de Gêneros Alimentícios?

 

R – Um espectador.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É. Só um espectador.

 

P/1 – Não é mais um...

 

R – Não.

 

P/1 – Um especulador.

 

R – Não, também não. Eu não compro e não vendo. O que eu faço hoje na minha atividade é mais informativa. É o cliente sólido e não sólido.

 

P/1 – Explica melhor.

 

R – Por exemplo: um cliente quer comprar um arroz direto do fornecedor. O fornecedor não conhece o cliente. Quem conhece o cliente no Rio de Janeiro? É o seu Attiê. Então, por que o seu Attiê? Porque é o Fulano que indica. “Ah, o senhor quer saber de _______, é com o Attiê. Você quer saber como que é, é com o Attiê.” Aí criou-se essa áurea. Nem tudo a gente sabe, mas as coisas a gente fica sabendo porque os outros também... Com esse problema de dizer que a gente sabe tudo, os outros trazem a informação para gente. Vamos dizer, o Jornal do Comércio publica diariamente as falência requiridas e as duplicatas protestadas. Isso eu leio todo dia de manhã. Tudo que for cereais eu anoto. Quando é uma firma nova, que eu não conheço, na mesma hora eu vou no Serasa pelo meu computador e tiro a trajetória da empresa. Ali eu faço análise dela, sim ou não.

 

P/2 – O senhor, então, é uma espécie de consultor?

 

R – É, mais ou menos... Consultor em benefício próprio. A regra é essa, lógico. Então, quando o freguês não... Se eu não o quero, eu não faço negócio.

 

P/1 – Se o senhor tivesse que pontuar uma grande diferença do mercado de quando o senhor começou no Rio de Janeiro na década de trinta e hoje, o que é que mais mudou comercialmente falando?

 

R – Bom, no tempo antigo você vendia o arroz em saco de sessenta quilos. Você vendia um tipo de arroz pela amostra. Se chegasse igual a amostra, o freguês ficava. O compromisso era taxativo, não tinha qualquer problema. Se o arroz chegasse abaixo da qualidade vendida, ele negociava uma diferença ou deixava à disposição de quem mandou porque o prazo era 30 e 45 dias, dava tempo de discutir. Entendeu agora? (risos)

 

P/1 – Então mudou à beça.

 

R – É, mudou muito. E hoje todo arroz... Nem tudo a gente pode falar. Por exemplo, assim; peso e medida, vamos falar em peso e medida. Peso e medida são funcionários nomeados com salário relativamente médio. Então ele vai ao Sendas, recolhe lá um saco de arroz de uma determinada marca em pacotes de cinco quilos ou de um quilo e leva para a balança do peso deles lá na rua... Como é o nome da rua? Agora eu não me lembro. Depois eu lembro.

Se convém a ele o arroz está certo, o peso é bom. Se ele começar achar diferença de cinco gramas num pacote, dez gramas num outro pacote, aí ele vai em cima da firma. Tem que correr dinheiro. Não pode dizer isso aí. Lógico que não pode, né? Por que você vai provar como?

 

P/1 – É, não vai.

 

R – Não tem jeito. Eu cito um exemplo no tempo que eu vendia arroz em pacote, a minha marca era Arroz Vitória.

 

P/1 – Ah, o senhor teve a sua marca?

 

R – Eu era representante dessa marca, representação exclusiva. Me telefona uma pessoa lá de Inhaúma. “Senhor, olha, eu cozinho o arroz e o arroz fica cor de rosa.” Falei: “Olha, amanhã eu vou aí levar outro pacote para você no lugar desse que você comprou e vou... Eu quero que o senhor me mostre o arroz.” Aí eu chego lá, eu disse que ia amanhã. Peguei um táxi, fui na hora. “Me mostra o arroz cor de rosa.” Não tinha.

Outra telefona e diz: “Olha, eu achei um rato no meio do arroz de cinco quilos.” “A senhora guarda ele para mim. Eu quero ver.” Você pegava o táxi, dizia: “Amanhã eu vou ver.” Mas você ia na hora. Chegava lá, não tinha o arroz. Chantagem.

Tudo isso já existiu. Hoje não existe, porque o arroz vem de uma maneira… Ele passa por um maquinismo que é empacotado de uma maneira que nem põe a mão da pessoa nele mais. É tudo direto, tudo automático. Peso é automático, a escolha é automática. Você quer tipo um, você aperta um botão, tudo [aquilo de] ruim sai fora. Você quer tipo dois, é tipo dois. Feijão, o arroz, é assim. Carne seca hoje é assim. É coxão, é dianteiro, é ponta de agulha; se você compra o coxão, o cara não pode mandar ponta de agulha porque todo mundo conhece.

 

P/1 – Senhor Attiê, se come mais ou menos arroz hoje?

 

R – Olha, se come mais porque a população cresceu muito. Por isso nós importamos arroz do Uruguai, da Argentina. Há pouco tempo chegou um caminhão... Um navio cheio de arroz em casca da América do Norte para o Rio Grande do Sul, porque a nossa produção não dá mais. No tempo antigo, o Pará produzia arroz, Maranhão produzia arroz, Alagoas produzia arroz. Hoje, esse arroz de Alagoas não se vende por preço nenhum, nem de graça; ninguém quer, de tão ruim que é.

 

P/1 – E o arroz integral?

 

R – O arroz integral...

 

P/1 – Faz parte do mercado?

 

R – Faz.

 

P/1 – Faz parte da Bolsa de Gêneros?

 

R – Faz. O arroz é o mesmo arroz, só que aquela película que tem por fora que dá o óleo não é tirada. Ele fica com aquela película. Chamam [de] arroz integral, como tem o trigo integral.

 

P/1 – O que se negocia hoje mais na Bolsa de Gêneros Alimentícios? Qual é o produto que mais se negocia?

 

R – Arroz e feijão. E charque. Carne para açougue - há os grandes distribuidores de carne, que vendem para os açougues. Eles têm frigorífico, vamos dizer, em Caxias, tem frigorífico em São João do Meriti, tem frigorífico na Praça da Bandeira, grandes armazéns que armazenam para resfriar a carne. Não é para congelar a carne.

 

P/1 – Em termos de embalagem, como é embalar? O que mudou na embalagem? Sempre se ensacou? Os sacos são de fibra natural, hoje são de plástico?

 

R – Não, é plástico. Todo ele é plástico. Vem a firma, o tipo da mercadoria, vem o nome da firma com o seu CGC, as credenciais da empresa, o tipo de arroz que é, está lá diz assim; tipo um, tipo dois. E ninguém frauda mais, como antigamente fraudava. Hoje, não frauda.

Nesse ponto, de honestidade comercial, é grande, mas perdeu muito pela competência, a honradez da firma. Muitas firmas compram a 35, 45 dias; de repente desaparecem, não pagam nada a ninguém. Você vê, hoje tem empresas que assaltam os caminhões, roubam o caminhão inteiro. Você vê, até nos jornais dá isso, de vez em quando.

 

P/1 – O senhor falou em pagamento. Como era antes? O senhor, antigamente, falou que só se negociava em dinheiro. Hoje é em cheque, em cartão, como é?

 

R – Duplicata.

 

P/1 – Hoje...

 

R – Duplicata em nota oficial. Sem isso, você não faz mais nada porque todas as firmas hoje são... Tem computador e a firma tem que estar credenciada no comprador também. Ele está lá registrada toda a história da firma que fornece, como também o vendedor tem toda a história do comprador, a fundação, quem são os sócios, onde mora, a tradição.

 

P/1 – Para gente ir encerrando, conta para gente como que é a história do “pão nosso de cada dia”?

 

R – “Pão nosso de cada dia” é uma forma de dizer, só. Eu estou defendendo o nosso pão de cada dia. É genérico, uma coisa assim...

P/1 – Mas não tem uma história que um dia o senhor levou um dinheiro para casa?

 

R – Ah, sim. Levava um dinheiro para casa, dentro _______. Eu recebi um dinheiro na rua e não deu tempo de levar para o escritório. Eu levei para a casa ______. Aí eu disse para a mulher: “Guarda, esse é o pão nosso de cada dia.” Uma forma de dizer. Para não dizer que era dinheiro, disse que era o pão nosso de cada dia. Parecia um embrulho qudradinho, parecia uma forma de pão.

 

P/1 – Ela achou que era pão?

 

R – Ela achou. No dia seguinte, eu pedi o dinheiro, ela falou: “Que dinheiro? Você não me deu dinheiro nenhum. Você me deu foi um pacote de pão.” Eu falei: “Não, é aquele pacote de pão mesmo.” (risos)

 

P/1 – Quer dizer, antigamente se negociava em dinheiro?

 

R – Também. Hoje o dinheiro roda muito pouco em circulação, moeda mesmo. É tudo cheque.

 

P/1 – Senhor Risde, o senhor vai todo dia ao Mercado São Sebastião?

 

R – Todo dia.

 

P/1 – Como é um dia seu lá?

 

R – De manhã cedo. Chego antes do computador começar a funcionar - os empregados é que [colocam para] funcionar. Eu leio Jornal do Comércio, Jornal do Brasil, encosto ele, aí vem a lista de quem pagou e quem não pagou. Quem não pagou, vem uma lista separada, já com os telefones deles, tudo direitinho. Passo para a Ester - a Ester é funcionária há dez anos da empresa, ela cobra e já conhece todo mundo. Um freguês ou outro, ela diz: “Não dei conta de receber, de falar com ele.” Aí passa para mim. Quando eu cobro, o freguês respeita, né? (risos)

 

P/1 – É?

 

R – É.

P/1 – Quer dizer, esse trabalho é o trabalho do senhor?

 

R – Não, é muito pouco.

 

P/1 – É?

 

R – Trabalho pouco. Ela trabalha mais do que eu, vale mais do que eu.

 

P/1 – E hoje o senhor tem um sócio, o senhor trabalha sozinho, como é?

 

R – Tem.

 

P/1 – Quem é o seu sócio?

 

R – Jorge Arantes de Freitas.

 

P/1 – Quem é o seu Jorge?

 

R – Trabalha comigo desde os doze anos. Está com 58 anos hoje. Ele tinha 30% da empresa hoje. E na Eita Fomento Comercial não. Na Guainápolis, ele tem... Hoje eu passei para 50% do lucro e a Eita Fomento Comercial é uma empresa de factoring, ele tem 30%. Vai tomar conta de tudo. Ele tem 46 anos comigo. Está o retrato dele aí naqueles álbuns de fotografia, Jorge Arantes de Freitas.

 

P/1 – Qual é a sua avaliação, então, sobre a Bolsa de Gêneros e Mercado São Sebastião? Isso tende a se dissolver?

 

R – Dissolver? Olha, não há condição para dissolver.

 

P/1 – Não há.

 

R – Porque a Bolsa hoje tem um patrimônio muito bom e todo comerciante atacadista, ou varejista, ou representante, ele tem uma sala na Bolsa. Ele tem o lugar dele. Então ele quer ir na sala dele, quer ver quanto ela vale; quando ela não vale, ele vende para outro, o outro compra dele. Tudo entre eles. Existe um comércio dentro da Bolsa; a sala nunca é vendida para uma pessoa estranha porque a pessoa estranha não compra, está fora do meio.

 

P/2 – Só um ponto que fiquei um pouco em dúvida: qual é a relação entre o pessoal do Mercado São Sebastião com o pessoal do CEASA? É uma relação amistosa, nem tanto assim ou ignora o outro? Como é que se dá essa...

 

R – Não. O CEASA não vende para a Bolsa, ele usa a Bolsa para comprar. Quer dizer, usa os conhecimentos que a Bolsa tem. Os comerciantes que agregam o conhecimento da Bolsa de Gêneros Alimentícios estão sediados dentro da Bolsa. Então, o sujeito para fazer uma compra boa, ele tem que ir a Bolsa porque lá ele recebe a minha informação, recebe informação de outro, vê quem está mentindo, quem está falando a verdade. Então ele tem a decisão dele.

 

P1 – Está bom. Vamos falar um pouco, então, da sua vida hoje. O senhor é casado, tem filhos?

 

R – Tenho.

 

P/1 – Como é o nome da sua esposa?

 

R – Antonieta da Silva Attiê.

 

P/1 – E filhos o senhor tem?

 

R – Jamile, Eliana e Adélia.

 

P/1 – Alguém é ligado nesse ramo atacadista?

R – Não. Um pouquinho a Jamile. Ela vai no escritório de vez em quando. Olha...

 

P/1 – Mas você gostaria que alguma delas desse continuidade aos seus negócios?

 

R – Eu gostaria do meu neto, mas não consegui. Ele não gosta do meio. Ele faz Arquitetura, faz Marketing.

 

P/1 – Vocês fazem Marketing? Como é que se divulga o seu...

 

R – Não divulgamos.

 

P/1 – Não se divulga.

 

R – Não.

 

P/1 – Ah.

 

R – Cada um divulga o seu produto. Por exemplo, uma empresa, arroz carreteiro. O dono do arroz carreteiro, ele divulga a marca dele. Ele dá incentivo ao supermercado. Vamos dizer, o supermercado diz assim para ele: “Você me dá cem fardos de arroz de graça, eu vou fazer a propaganda da sua marca.” Ou cinquenta, vinte, trinta, aquele que combinar. Feijão Máximo é uma firma que produz muito, vende muito feijão. Eles gastam uma fortuna na propaganda de feijão.

 

P/1 – Mas a Bolsa não faz uma propaganda para atrair cliente?

 

R – Não. A atração dela é pela concentração que existe dos vendedores, dos representantes que representam o produtor. Por exemplo, a minha função é mais um representante do produtor, porque ele acredita naquilo que eu falo, naquilo que eu informo a ele. Se eu disser para ele, “o arroz está baixando”... Se ele estiver baixando, eu não posso falar uma coisa dessa porque ele vai ver logo que eu estou mentindo.

P/1 – Qual é a seu perspectiva para o futuro?

 

R – É boa. A gente transmite a perspectiva que a gente tem.

 

P/1 – E como é o senhor como consumidor?

 

R – Minha filha, aí está difícil. Vou dizer, porque eu estou com pouca paciência. Eu compro pelo preço que eu achar na hora.

 

P/1 - O senhor faz compras para casa?

 

R – Passa tudo pela minha mão. É hábito de meus pais. Eu compro feijão, compro o arroz, compro a manteiga. Eu vou com a minha esposa ao mercado, ela vai junto também.

 

P/1 – Também ela pode ir junto, né? Mas quem...

 

R – Não, mas ela compra também. A verdura, folha, essas coisas ela compra. Agora, o feijão, o arroz, compro eu.

 

P/1- E na hora de comer o arroz e o feijão, você fica olhando, dando nota para o arroz e para o feijão?

 

R – Não.

 

P/1 – Não.

 

R – Não. Eu [vendo] só tipo um, tipo de arroz. Olha, existe o arroz Tio João, que você conhece de nome. Tem nome, mas existe o arroz Carreteiro que é igual, existe o arroz Brejeiro que é igual, existe o arroz.... Como é o nome dele? Espera aí. Da Extremo Sul, é igual. Mas o freguês vai mais pela propaganda. Compra mais do outro, embora seja mais caro. Por exemplo, você pega o Makro. Ele empacota arroz dele, tipo um. É igual aos outros. Hoje, o feijão preto tipo um é igual a todas as marcas porque não existe mais feijão de um ano para outro. Tudo que colhe, gasta, então todo feijão é bom. Só comprar o feijão tipo um, porque ele tem que passar pela máquina, escolher grão por grão. A máquina escolhe e aquele que for chocho, estiver estragado, pelo peso, eletronicamente, ele separa.

 

P/1 – Quer dizer que você compra mercadoria. Como é que você elege, escolhe uma mercadoria no supermercado?

 

R – Para o meu consumo?

 

P/1 – É.

 

R – Pelo tipo. Arroz tipo um, feijão tipo um.

 

P/2 – E o quer dizer esse tipo um? É o top de linha, é o melhor?

 

R – É o melhor.

 

P/2 – E quantos tipos existem?

 

R – Hoje existe até tipo dois. O tipo três já é refugo. Ninguém, o consumidor não compra. Você pode botar para vender...

 

P/1 – Ele está mais exigente o consumidor hoje?

 

R – Está mais exigente, o consumidor entende. Às vezes, eu estou comprando no supermercado e a dona de casa olha para a minha cara. Está perto de mim, fala assim: “O senhor está levando essa marca, o senhor conhece?” “Conheço, sim senhora.” “É igual a esse que eu estou levando, que é mais caro?” “É igual.” “Ah, então eu vou levar.” Porque perguntam.

 

P/2 – O aumento da exigência do consumidor é a principal mudança que o senhor vê no perfil desse consumidor ao longo de todo esse tempo que o senhor trabalha com o produto? Que outra mudança o senhor pode colocar como mais marcante nesse consumidor?

 

R – Hoje, a maioria do supermercado fornece uma clientela exigente. Os produtos deles passam pelo crivo de pessoas entendidas no ramo. Quando ele põe o produto na prateleira, você pode comprar.

É muito difícil pegar um supermercado... Você vê, há uma firma que é super exigente, Zona Sul. Se o produto não for bom, ele não bota na prateleira de jeito nem por dinheiro nenhum. Portanto, ele vende mais caro que todo mundo e vende muito pela confiança. Vale dinheiro a confiança.

 

P/1 – Está bom. Só uma última pergunta: de que forma o senhor acha que o Mercado São Sebastião interage com o bairro da Penha? Vocês trazem trabalho, os moradores do bairro são empregados no mercado?

 

R – Não.

 

P/1 – Não.

 

R – O CEASA funciona... Compra dos representantes que representa a Bolsa. Tem um vendedor de alho da Argentina, ele vai à Bolsa para vender e o CEASA entra em contato com ele por telefone. “Olha, eu quero tantas caixas de alho tipo quatro, tipo cinco, tantas caixas; tipo três, que é mais miúdo.” Tudo tem o seu preço, vem separado. Você pega uma caixa de alho nacional ou argentino, ela já vem classificado pelo fornecedor.

 

P/1 – Mas a pergunta foi, quem trabalha no Mercado São Sebastião? Os empregados de lá são moradores do bairro, por exemplo?

 

R – Não. Copacabana, Ipanema, Penha, Madureira, Caxias, nova Iguaçu, todos eles vão lá. Você chega quinta, terça e quinta, fica assim, ó.

 

P/1 – E por que esses dias?

 

R – Vem o pessoal de Niterói, porque é o dia melhor para eles. Cria um hábito. Terça e quinta-feira. Você vai às segundas-feiras, quase não tem ninguém.

 

P/1 – Mas, por exemplo, a dona Ester que trabalha com o senhor, ela mora em que bairro?

 

R – Mora em Nova Iguaçu.

 

P/1 – Está bom. Então para acabar, vou perguntar ao senhor: se o senhor pudesse mudar alguma coisa na sua trajetória de vida, o senhor mudaria?

 

R – Na história ou no fato? Não, não mudaria. Eu estou satisfeito como estou. Não mudaria, porque eu também não teria competência para fazer outra coisa. O que eu aprendi é isso que você viu aí.

 

P/1 – O que o senhor acha desse projeto de memória do Comércio da Cidade do Rio de Janeiro e o que achou de contribuir, dando um depoimento?

 

R – Eu acho positivo. É um conhecimento da história que pode… A história, ela é um pouco curta, porque também não pode ser muito cumprida. Tem muitas histórias, você compreendeu?

Posso contar um fato: quando já nasceu... Eu não sei se pode publicar isso, mas você pode ouvir. Nós saímos de onde moramos, na Ladeira da Glória para a rua das Laranjeiras, 525, quase em frente ao Sion. Qual é o sonho da minha esposa? É pôr a Jamile, a Eliana, a Dedé no Colégio Sion. Como a gente vai botar no Colégio Sion? Não conseguia, é uma barreira impenetrável. Promessa, mais promessa. Então umas das freiras disse assim: “Você não podia arranjar, dar um donativo para o colégio?” “Eu posso conseguir.”

Antigamente eu fornecia muito na feira de gêneros alimentícios. Há dez ou vinte anos passado, era uma potência. Eu, então, pedi um saco de batata um, um saco de arroz a outro e juntei 1500 quilos de batata, arroz, feijão e farinha de mandioca e dei para o colégio. Quer dizer, agora a Jamile vai entrar para o colégio. Chego lá, negativo.

Bom, aí eu falei para o meu sócio, senhor Anaquim, que tinha um tio lá em Portugal, que era bispo, amigo de Dom Sebastião Leme aqui. Pedi para ele escrever para o tio dele, para o Dom Sebastião Leme me dar uma carta para apresentar às feiras, porque eu era protegido do Dom Sebastião Leme. Levei a carta para a feira, dei lá, nada. Não entrou. Aí eles pediram mais donativo. Consegui mais donativo; levei também, não entrou. Aí fiquei com raiva, viu? Deixei a Jamile no Colégio Sacre Coeur de... Como é que chamava o colégio que você foi lá em Copacabana?

 

P/1 – Sacre Coeur de Marie?

 

R – É, e ficou por assim mesmo. Um belo dia, eu estou no meu escritório, me aparece duas freiras e uma senhora muito bem vestida, muito bem arrumada. Madame Schimidt. “Sei pelo colégio que você foi um grande benemérito. Deu tanto de arroz, tanto de feijão. O senhor não podia repetir essas doses? “A senhora está com essas duas vigaristas aí... Não tem nada para elas. Não tem nem conversa.” “Por que você está chamando elas de vigaristas?” Contei a história para ela, viu? Falei isso, isso. Não adiantou carta de Portugal, não adiantou Dom Sebastião Leme, não adiantou ninguém. Não entrou. Aí a madame Schimidt assim: “Eu moro aqui perto de você, na...” Como é que chama aquela rua que ela mora, bem? Sebastião Lacerda. “Olha o meu telefone, me liga amanhã.” “Está bem, vou ligar.” “Olha e manda a sua filha no colégio que já vai entrar.” Aí entrou. (risos) Entrou Eliana, entrou Dedé. Mas foi ‘na abrupta’, viu?

 

P/1 – Então, para acabar, o senhor é benemérito lá no Mercado São Sebastião. Na Bolsa tem uma placa, né?

 

R – Bom, benemérito eu não sou. Eles quiseram que eu fosse. (risos)

 

P/1 – O senhor tem uma placa?

 

R – Tem.

 

P/1 – Em homenagem?

 

R – Tem. Te uma placa sim. Sabe por que? Eu não fiz grande coisa pela Bolsa, não. Apenas fui um conciliador entre a oposição, porque dentro da Bolsa tem uma posição e o presidente da Bolsa. Mediador.

 

P/1 – Ganhou uma placa por isso.

 

R – É, deve ser por isso, não pelo mérito.

 

P/1 – Não, brincadeira. Está bom. Então agradeço o seu depoimento. Gostaria de colocar mais alguma coisa?

 

R – Não, não. Minha filha, se tivesse que colocar, tinha que colocar a vida do Sendas, a vida da Casa da Banha, a vida do Disco. Esse povo todo passou pela minha mão, viu? Começaram do nada.

 

P/1 – Está bom. Então agradeço, então, o seu depoimento. Muito obrigada.

 

R – Quanto mais _______, você espicha muito as coisas, você encontra sempre pessoas que dizem que não é daquele jeito. Eu tenho um grande amigo que diz que é fundador da Bolsa. Eu sei que ele não é fundador, mas todo mundo acredita que ele é, então passa a ser. Agora, eu vou dizer para ele que não é? Qual vantagem eu vou levar?

 

P/1 – Esse é um bom negociador.

 

R – Não adianta.

 

P/1 – O senhor está certo. Está bom, muito obrigada então.

 

R – De nada. À sua disposição. Se você quiser algum esclarecimento, algum ponto depois, telefona para mim.

 

P/1 – Farei, muito obrigada. Vou precisar.

 

R – Está bom.

 

P/1 – Está bom. Muito obrigada.



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