Busca avançada



Criar

História

O comércio de vestidos de noiva

História de: Jorgete Bichara Jeleilate
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/07/2005

Sinopse

Infância em Rochedo, Mato Grosso do Sul. Pai era lavrador no Líbano; imigrou para o Brasil em 1922, onde adquiriu armazém de secos e molhados e trabalhou na exploração e venda de pedras preciosas no interior do Mato Grosso do Sul. Lembranças da escola. Migração para o Rio de Janeiro e depois para São Paulo. Trabalho na confecção e venda de camisas. Casamento. Fundação da primeira loja de vestidos de noiva na Rua São Caetano. Venda no varejo e, posteriormente, no atacado. Formas de pagamento. Relação com funcionários. Importância do bom atendimento. Trabalho atual. Sonhos.

Tags

História completa

IDENTIFICAÇÃO

Meu nome é Jorgete Bichara Jeleilate, eu nasci em Mato Grosso do Sul, Rochedo, no dia 24 de abril de 1924. Meu pai chama-se Elias Bichara, a minha mãe Afifi Lotfi Bichara. Meu pai nasceu em Mansúria e minha mãe em Zahle, no Líbano.

IMIGRAÇÃO PARA O BRASIL

Meus pais vieram em 1922. Vieram porque tinha um irmão da minha mãe que morava no Rio, então a minha mãe achou que lá não tinha futuro, não tinha nada. Lá no Líbano eles trabalham mais com plantação, tem sítio de uva. Meu avô fazia pinga da uva para vender. Na guerra, ele sobreviveu muito bem, porque tinha muito soldado, então ele vendia muita bebida pra eles. Nós viemos para o Brasil e fomos para o sertão do Mato Grosso, pra lá de Cuiabá. Depois a mamãe ficou comigo e meus irmãos na capital, e papai ficava indo e voltando. Depois viemos para Rochedo, onde nós ficamos um pouquinho mais de tempo.

TRABALHO DOS PAIS

Meu pai tinha um armazém e, além disso, ele tinha capanga pra tirar brilhantes, diamantes. O forte dele era isso. O armazém era de choupana, de tábua, porque onde tinha brilhantes eles iam correndo. Então a casa não era casa, era choupana mesmo. Vendia de tudo. Era arroz, feijão, batata, tecido, álcool, gasolina, remédios, porque era o único que tinha lá.

EDUCAÇÃO

Eu tinha seis anos, e a mamãe e o papai ficaram em Rochedo trabalhando, então eu fiquei no colégio interno. E lá era muito bom, porque eu era a menor de todas, era apaixonada pelas irmãs. Passei lá, mais ou menos, uns dois anos. E depois mamãe veio morar em Campo Grande, quando eu tinha oito anos, quase oito anos de idade, ela veio. O colégio era só de menina, não tinha menino. Agora eu fui visitá-los lá, tem, é misto agora. Chamava-se Nossa Senhora Auxiliadora.

BRINCADEIRAS

Geralmente, não me deixavam entrar na brincadeira, porque eu era pequena, de modo que eu ficava sentada apreciando. Mesmo pra marchar, a madre me chamava, punha no colo dela e eu ficava olhando as festas. Depois que eu fui me ambientando, porque eu era a menor de todas.

MUDANÇA PARA O RIO DE JANEIRO

Fiquei no colégio interno até oito anos. Eu fiz a primeira comunhão e depois fomos pro Rio de Janeiro. Não estava dando muito certo lá pro papai, e meu tio estava no Rio. Ele montou um apartamento pra nós. Meu pai de vez em quando ia pra Mato Grosso, pra comprar pedras preciosas e voltava. Depois não estava dando mesmo, e mamãe resolveu: "Vamos pra São Paulo, porque lá nós vamos ver o que nós vamos fazer, vamos ver o futuro que nós vamos enfrentar." Viemos pra São Paulo e nós abrimos uma loja. Eu ia fazer 11 anos.

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – FÁBRICA JORGETE

A loja chamava Fábrica Jorgete e nós tínhamos a oficina, confeccionávamos as camisas. Eu trabalhava na oficina e precisando eu ia trabalhar na loja. Era na Celso Garcia, 391. Tinha um movimento muito grande de pessoas, porque passava ônibus e bondes. No tempo que o bonde foi arrumado, eu cheguei a ver fazer o trabalho dos trilhos. Depois tiraram os bondes, começou a frequentar só ônibus. Então, eu me casei em 1947 e falei pra mamãe: "Vai, só põe noivas!”. E foi assim que passou a ser Fábrica Jorgete – A Francesinha do Brás.

ORIGEM DO NOME – A FRANCESINHA DO BRÁS

A Francesinha do Brás foi um pensamento do meu irmão, pra chamar atenção. Quando nós começamos na Rua São Caetano, nós estávamos só com tecido, perfumaria, coisas que não tinha aquele movimento. Então, uma pessoa da Rádio São Paulo passou perguntando se nós queríamos fazer uma propaganda. Falei pro meu marido: "Vamos fazer! A noiva que fizer um vestido, ganha o vestido do civil." Começou aquele movimento gostoso, começamos a diminuir o estoque de tecidos, até que um dia acabou tudo e ficamos só com noivas.

EMBALAGENS

Na camisaria, tinha papel de presente, tinha caixas de camisas. A gente embrulhava direitinho, empacotávamos. Mas não era aquele barbante finíssimo que agora a gente escolhe. Era barbante mesmo, de cordinha.

NAMORO E CASAMENTO

Conheci meu marido assim: tinha uma amiga minha que confeccionava camisas pra ele. Então, ela falou pra mim: "Você quer parar de trabalhar e passear comigo, ir entregar essas camisas na Rua São Caetano?" E aí, justamente, foi na Casa Mimosa que ela foi entregar as camisas. E ele me olhou e eu olhei, mas nem sonhava. Os árabes costumam ter amizades uns com os outros, então, falou com essa minha amiga que ele estava interessado em conversar comigo. Ele veio à minha casa, conversamos. Isso foi, mais ou menos, em junho e em agosto nós ficamos noivos e em novembro nós casamos. O nome dele é Chafic Jeleilate. Ele é de Zahle, do Líbano. Meu marido tinha 12 anos quando veio pro Brasil. Ele contava que veio com 12 anos e o irmão dele com 14. Vieram os dois juntos porque a família estava toda aqui no Brasil. O pai dele era sapateiro, na Rua São Caetano. Tinha um lugarzinho onde ele fazia sapato muito bem, de cromo, aqueles sapatos finos. E a minha cunhada trabalhava com ele, também em sapato.

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – A PRIMEIRA LOJA DE NOIVAS DA RUA SÃO CAETANO

A Casa Mimosa deve ter sido fundada em 1937. Era de tecidos, brins, perfumaria, com bancas de tecidos. Quando eu conheci a loja, conheci desse jeito. Tinha bons clientes, principalmente, de tecido branco pra noiva, vinham muitas costureiras. Tinha uma vitrininha, então ele colocou umas grinaldas, colocou um manequim com tecido. As costureiras começaram a comprar os tecidos e nós falamos: "Por que nós não vamos confeccionar?" Ele já tinha costureira que fazia algum vestido lá, então nós começamos a confeccionar vestido de noiva. Isso foi em 1949. Aí começamos a confeccionar a madrinha também. Primeiro, o forte foi noiva. Foi a primeira loja de noivas que tinha na Rua São Caetano. Naquela rua se vendia muito mais calçados, máquinas, tinha uns dois bares. Depois de 1961 começaram as noivas. A loja tinha movimento. Os colegas viram que o movimento nosso era grande, então abria uma lá, outra cá e a gente falava: "Pô, estão abrindo muito vestido de noiva agora". E chegou ao ponto de ter cem casas de vestidos de noiva.

ESTOQUE DE VESTIDOS DE NOIVA

A noiva ia até a loja, nós tirávamos a medida, fazíamos o vestido, ela vinha provar e levava o vestido, a grinalda, o acessório de baixo, as peças íntimas, a armação, o véu, o buquê. No início fazíamos sob encomenda. Depois passamos a fazer a parte de estoque para vender. Porque vinha muita gente do interior e queria pronto, então começamos a confeccionar e deixar pronto pra quando a freguesa chegasse. Nós fazíamos mais ou menos uns 20, 30 modelos pra freguesa. Às vezes, viam na vitrine, gostavam, tiravam vitrine e levavam. Atacado depois apareceu e aí a gente confeccionava de monte.

PRODUTOS E FORMAS DE PAGAMENTO

Nós vendíamos colcha do dia, chegamos a colocar enxoval de cama e mesa. Quer dizer, a gente fazia tudo do ramo. A freguesa vinha escolher, nós separávamos, elas deixavam uma parte paga e dividia em quatro, cinco vezes, mas a mercadoria ficava na loja. Aí quando elas terminavam de pagar levavam a mercadoria. Fizemos isso uns três anos e deu certo. Porque naquele tempo não existia cartão, dinheiro era um pouco difícil. O vestido de noiva também. Fazia, dava o sinal, aí elas vinham, pagavam. Quando ela levava, já estava tudo pago. Agora, prova e paga em duas vezes. Vem provar a segunda e na terceira já leva e paga. De primeiro não, ela dava um sinal e pagava até o casamento.

COTIDIANO NA LOJA

Eu vendia, tirava a medida. Via o que precisava, meu marido ia comprar. Na oficina sempre precisa de alguma coisa, ele ia na Rua 25 de Março, comprava. Depois eu fiquei grávida da minha menina, a mais velha, e trabalhava grávida mesmo, subia escada, descia escada, não tinha problema pra mim, queria era trabalhar. Hoje eu ainda trabalho. Mas agora é mais fácil, agora eu só fico olhando e vendo o que precisa.

EMBALAGENS

Os vestidos eram embrulhados em um papel grande elas embrulhavam. Às vezes, traziam um lençol, embrulhava nele. Depois começou a vir caixas de noivas.

MODELOS DE VESTIDO

De uns dez anos pra cá que começou a trabalhar o estilista dentro das lojas. Porque não tinha, era nós que idealizávamos, era nós que conversávamos com a noiva, que punha no papel muito mal, mas conseguia porque a gente tinha prática.

ACESSÓRIOS

Depois que meu marido faleceu, quando ele já estava doente, nós passamos o ponto da Mimosa. Ficamos só com a Bouquet. Ele ficou doente, faleceu, então eu fiquei aborrecida e era muito pra duas lojas. E eu passei, eu e meu filho, a trabalhar na loja de baixo, tinha as duas. Trabalhávamos na Bouquet, mas a Bouquet confeccionava também. Ele tinha a oficina dele, e eu tinha a nossa. Quer dizer que um fazia concorrência pro outro. Depois que ele faleceu, passamos só pra acessório. A Bouquet foi fundada mais ou menos em 1982. Lá as vitrines são grandes, com muito acessório, muito chapéu, com muita luva, e temos três balcões pra trabalhar com a freguesa, dois provadores pra provar a grinalda, o véu, provar tudo. A parte de baixo ficou pra fazer as encomendas e a parte de cima só pra provar mais a oficina e o escritório. E não confeccionamos mais. Eu compro de outras oficinas e revendo. Pra confeccionar precisa muita coisa, muito ferro, muitos preparativos. A gente fica mais sossegada.

RELAÇÃO COM OS FUNCIONÁRIOS

Eu era muito séria. Se era uma coisa errada, eu bronqueava mesmo. O freguês chegava e aí eu falava: "Por que não está pronto? Por que é que você não fez?" A gente ficava um pouco nervosa, então alterava. Mas eu me dava muito bem com elas. Fora do serviço eram amigas, saíamos juntas, vinham na casa, quer dizer, a gente não tinha assim orgulho de patrão pra empregada, nada disso, éramos tratadas todas iguais. Tive funcionárias por 15 anos, 20 anos. Era amiga, era de casa, como eram muito amigas a gente falava o que sentia. Não tinha problemas, era só naquela horinha. Aí eu acalmava e subia, conversávamos e acabava tudo indo bem.

CONFECÇÃO DO VESTIDO

Tinha costureira, tinha cortadeira, tinha montadeira, depois que ia pra máquina montar de novo, porque a gente provava alinhavado. Nós fazíamos sempre com prova especial, de modo que nunca deu galho nenhum, graças a Deus. Era um trabalho bem especializado. Elas vinham, encomendavam, a gente cortava, montava, punha na caixa com o nome, quando ela chegava já estava pronto, provava. A freguesa não era dessas que ia e voltava, vinha e já estava tudo em ordem. Não tinha atrapalhação nenhuma. Se a gente pegasse um vestido só e fizesse, a gente faria em dois dias. Mas o modo que a gente provava no forro e depois que cortava no tecido, demorava mais, porque daí tinha que desmontar, fazer tudo direitinho.

AUGE DAS ENCOMENDAS

Cheguei a ter dois quartos com varais cheios de encomendas, na Mimosa. A gente pendurava e o nome ficava tudo nos cartões, esperando a freguesa vir buscar. Chegava até a ter fila na Mimosa, por isso. Muito, muito movimento. E a gente fez o papel Casa Mimosa bem grande, com o timbre da loja, escrito enxoval para noivas e tal. Uns 15 anos atrás surgiu isso. Antes era aquele papel que a gente embrulhava. A gente punha alfinete pra ele não separar. Depois começamos a comprar aquele papel de puxar que era timbrado direitinho. Agora, na Bouquet a gente faz na sacola, porque é grinalda, é coisa mais miúda.

MUDANÇAS NO COMÉRCIO

De primeiro, vinha gente do interior, e não vinha freguesas de elite como agora. Agora nós servimos freguesas de todos os tipos, de classes A, B, C. Todas são bem atendidas e temos grinalda, temos material pra atender essas que vão, às vezes, na Rebouças, e falam o nome dos costureiros. Antes era mais simples, uma florzinha, uma coisinha. Agora não, agora já é coisa tudo bordada. Bem fino. Tem tiaras de pérolas, mas o forte é a grinalda mesmo.

FILHOS

Tenho quatro filhos. Eu tenho uma mais velha, ela é excepcional. Tem o Benê, que eu trabalho com ele. Tem o Chafic Jeleilate Júnior, e tenho a Solange Jeleilate, que é casada, também com três filhos. O outro também tem três filhos. Eu moro com a minha excepcional, e tenho uma auxiliar em casa.

ATENDIMENTO AO CLIENTE

Quando ela entra, a gente que tem que ver o gosto dela pra agradar. Se a gente vê uma pessoa que não quer gastar muito, mais simples, pegamos o que está ao alcance dela. Quando é uma freguesa fina, a gente pega as coisas finas. É a gente que tem que cativar a freguesa, porque ela compra em qualquer lugar. Tem que ter lábia, conversar. Antes de pegar a grinalda, a gente tem que por ela sentada, a gente vê como ela vai com o cabelo, se ele vai preso, se vai solto, e vai trazendo: "Que tipo que a senhora sonha? Que tipo que a senhora gosta?" Tem que ter muita delicadeza e pegar o íntimo dela, pra gente trabalhar direito.

SONHOS

Estou contente assim, trabalhando sossegada. Eu morava numa casa muito grande e aluguei, fui pra um apartamento. Depois que meu marido faleceu, eu fiquei dois anos lá e todo mundo falava que era perigoso. Não tenho mais sonhos. Eu sonhava em conhecer o Líbano, mas, com o meu marido não estando, eu tirei esse sonho da minha cabeça. Agora, se surgir uma viagem, uma coisa assim, sempre a gente gostaria de conhecer outras coisas, que não conheço nada. Mas pra isso preciso de uma companhia, precisa ser com um filho, com a nora, com a minha filha, com meu genro. Mas não tenho muito a reclamar. A única coisa que eu penso é que não devia ter passado o ponto da Mimosa. Faria a mesma coisa que estou fazendo na Bouquet e a gente ia ver. Porque eu tenho um filho que trabalha fora, pode ser que ele se interesse pelo comércio, já teria uma porta pra ele. Ficariam os dois bem, trabalhando calmamente, sustentando a família e a gente não quer mais nada. Saúde em primeiro lugar, saúde é tudo na vida. Depois da saúde, o dinheiro.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+