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História

O Clube da Esquina em imagens

História de: Cristiano Quintino Gomes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/07/2005

Sinopse

O primeiro contato que Cristiano teve com as imagens foi por meio dos cinemas que seu avô possuía na capital mineira. Cristiano assistia às sessões privé no Cine Brasil no período de 1951 a 1960. Começou na fotografia fotografando corridas de kart. Aos poucos, foi se tornando fotógrafo profissional e passou a fotografar as capas de discos e as fotos de divulgação de vários integrantes do Clube da Esquina, como Lô Borges e Tavinho Moura. 

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História completa

 

P/1 - Cristiano, bom dia!

 

R - Bom dia!

 

P/1 - Obrigada por ter vindo dar seu depoimento, eu queria que você dissesse pra mim seu nome completo.

 

R - Cristiano Quintino Gomes.

 

P/1 - Data e local de nascimento?

 

R - Nasci em 24 de setembro de 1951, na Cidade Jardim, em Belo Horizonte.

 

P/1 - Cristiano, por que a fotografia? Como você começou?

 

R - A fotografia apareceu na minha vida numa necessidade, numa época que eu corria de kart; tinha uma coluna no jornal O Estado de Minas e Diário da Tarde e eu escrevia sobre kart também. E sempre quando tinha as provas eu pedia a um fotógrafo do jornal para ir cobrir a prova, para eu ter as imagens pra matéria; sempre faltavam ali as imagens do piloto que era o melhor. Realmente, o trabalho do fotógrafo de jornal… Às vezes, ele pega muitas pautas no mesmo dia e ele tem que passar por vários lugares ao mesmo tempo, não dá pra concentrar as suas atenções e faltava um pouco as imagens. 

Eu fui fazer a cobertura no campeonato mundial em Estoril, em Portugal, e então eu levei uma máquina fotográfica para registrar todo esse evento lá. Esse negócio é muito antigo, porque na época quem foi campeão mundial de kart foi o Ricardo Patrese, que já até parou de correr. Depois disso, eu comecei a interessar mais pela fotografia.

Comecei a fotografar de hobby, depois fui aprendendo e comecei a usar a fotografia como uma comunicação também que eu precisava. A história minha com fotografia começa por aí; depois eu comecei a fazer os cursos de fotografia e profissionalmente eu comecei a fotografar. 

Eu tive uma oportunidade com a ator José Mayer, que me convidou pra fazer as fotos de uma peça dele. O José Mayer sempre foi um cara muito profissional nas coisas dele, então quando o espetáculo estava montado ele fazia um ensaio especial, com a luz do espetáculo, com o figurino, com o cenário, com iluminação e pegava as principais cenas do espetáculo para fotografar. Eu fazia esse trabalho e foi também a primeira vez que eu vi essas fotos minhas publicadas no jornal como release da peça; [elas] ficavam também na porta do teatro, convidando as pessoas para verem o espetáculo. Então a minha historia começa mais ou menos dessa forma com a fotografia.

 

P/1 - Cristiano, você poderia falar um pouco do seu avô que tinha o cinema?

 

R - Meu avô foi dono de cinemas em Belo Horizonte, então a gente tinha as carteirinhas de permanente e a gente ia principalmente para o Cine Brasil, que era superbacana. A gente subia para o terceiro andar, que era onde eles compravam os filmes que iam passar. Então a gente desde pequeninho acompanhava essa história do cinema, escolhendo os filmes. Eu [os] via de primeira mão; às vezes eu entrava no filme só pra ver o jornal, o Canal 100 pra ver o futebol, então tinha essa coisa com o cinema. Teve um tio também, o tio Márcio, que fez o Cine Grátis, que era o filme que passava nas praças e nas ruas de Belo Horizonte. A gente era pivetinho e saía atrás da caminhonete dele pra ver os filmes nas praças, então tinha toda essa ligação com cinema desde pequeno.

 

P/1 - E como chega o Clube da Esquina na sua vida?

 

R - Tem aquela velha história que os gambás se cheiram, e a gente tinha aquela coisa de gostar das mesmas músicas; já vinha de ouvir os Beatles, de ouvir as músicas todas que vinham daquela época. O Milton, o Beto e o Lô eram muito ídolos, a gente adorava os caras; a gente já ficava fazendo fila para esperar na porta da loja quando ia sair um disco dos Beatles. Eu lembro que quando cheguei de Londres uma vez e trouxe o disco dos Beatles, aquele de capa branca, ninguém tinha aqui no Brasil; cara, fez fila lá em casa, lotou pra poder ouvir o disco a primeira [vez]. Então é mais ou menos nessa história da gente ter o mesmo gosto e eles, eu adorava, sempre adorei. Queria muito conhecer e trabalhar com eles. 

Nós somos exatamente a mesmo geração, da mesma idade. Eu tenho a mesma idade do Beto, do Lô. 

Teve uma época que eu saí de Belo Horizonte e tinha o sonho de ser fotógrafo do jornal A Última Hora, do Samuel Wainer. Eu adorava o jornal A Última Hora porque era uma capa inteira de fotos e eu falei: “Ainda vou fazer foto pra esse jornal.” Nessa época que eu escrevia no Diário da Tarde sobre kart, o editor geral, o doutor Fábio Doyle, me deu uma carta de apresentação; eu fui pro Rio, consegui esse estágio no jornal A Última Hora e fui empregado na mesma época. 

Logo que eu cheguei, me deram o emprego. Comecei a fotografar no Rio, passou um tempo e eu recebi um convite para participar da Bienal de São Paulo. Ia ter uma parte da Bienal que era “O jovem fotógrafo brasileiro”, era sobre fotografia brasileira e foram uns três fotógrafos convidados daqui de Minas Gerais: era Nem de Tal, eu e o José Luiz Pederneiras. E também, além desse convite, eu namorava a minha atual esposa, a Flávia; ela cantou no coral com o Milton no lançamento do disco Minas, no Mackenzie, e ela fez o coral em Asas da Pan Air. Eu aproveitei as duas coisas, vim pra Belo Horizonte pra preparar o meu trabalho pra Bienal de São Paulo e ver o show; acabou que no final eu não voltei mais para o Rio de Janeiro porque eu recebi vários convites de amigos para projetos. 

O primeiro disco que eu fiz com o turma foi a convite do Tavinho Moura. Tavinho me convidou pra fazer as fotos do disco dele Engenho Trapizonga, aí nós ficamos fazendo esse trabalho e praticamente... Esse trabalho com o Tavinho foi o primeiro e onde eu comecei a trabalhar com os outros todos.

 

P/2 - Em que época foi isso?

 

R - O Engenho Trapizonga com o Tavinho foi em 1982. Esse disco foi superbacana, porque naquela época tinha uma revista que era a Íris, que era uma revista de fotografia nacional; quando chegava o final do ano ela sempre ela dava prêmios para as melhores fotografias do ano. Separava fotografia com fotografia de moda, publicidade, jornalismo e tinha de capa de disco, as dez melhores capas de disco. A gente ganhou com essa capa do Tavinho. 

Eu lembro que eram duas capas, uma do Tavinho e a outra agora me fugiu o nome. As outras oito capas eram só das mulheres, então tinha muita capa de Rita Lee, Elba Ramalho e foi superbacana essa capa, porque deu uma repercussão muito legal. A partir daí que começa esse meu envolvimento com a música e aí comecei a trabalhar com quase todos, preparando fotos para capa de disco, fotos pra release e assim por diante.

 

P/1 - Depois veio o Sonho Real em 1984...

 

R - O Sonho Real foi o primeiro trabalho que eu fiz com o Lô e até quem trouxe esse trabalho para eu fazer foi o Gilbertinho de Abreu. Ele já tinha feito várias capas com o Beto, já tinha feito Equatorial com o Lô. Nós [nos] encontramos em Santa Tereza, começamos a discutir o trabalho; fomos para o apartamento do Lô e começamos a fazer.

O primeiro trabalho que eu fiz com o Lô foi Sonho Real. Depois eu fiz muita coisa com o Lô. Fizemos muita coisa bacana, fizemos muitos trabalhos legais.

 

P/2  - Tem uma historinha dessa capa, você poderia contar pra gente?

 

R- O Sonho Real foi legal demais, essa história é interessante. A gente fez uma ideia e eu não tinha tanta intimidade com o Lô ainda. A gente resolveu fazer a capa. O Gilberto pegou o estúdio e ficou lindo, pintou o estúdio inteiro, o fundo dele todo com cenários de nuvens. até nas luminárias o Gilberto pintou o cenário. 

O Lô chegou no estúdio, a dona Maricota também estava acompanhando, a mãe dele. Quando nós estamos preparando o Lô para o estúdio, a dona Maricota tirou o casaco vermelho e pôs no Lô; ele ficou chiquérrimo de casaco vermelho, de guitarra. Fizemos uma série de fotos. Depois fomos para Rio, porque o Lô tinha que colocar a voz em uma das faixas do disco; a letra tinha ficado maior do que a música, então tinha que dobrar a música. Então nós aproveitamos e fomos pro Rio, o Lô foi lá refazer essa gravação e eu fui - na época, [a gravadora] era Odeon - pro departamento de criação com Tadeu Valério, mexer na capa. 

Nós chegamos com essas capas coloridas, com as fotos coloridas para pôr na capa e o pessoal não queria fazer a capa colorida. “Não, vamos fazer a capa preto e branco. No final, a gente consegue: liga pra Bituca, pra não sei quem, o Ronaldo estava produzindo o disco também. E no final autorizaram. 

Escolhemos as fotos, bolamos a capa, estava tudo ok. Depois o Lô chegou todo satisfeito, deu tudo certo, aí saímos, fomos comemorar; pegamos o avião mais tarde e viemos embora para Belo Horizonte. Eu, uma semana antes, já tinha feito umas fotos na rua que eram umas fotos preto e branco, eram fotos exatamente para a divulgação do disco. Já tinha feito antes pra divulgação, para release, esse material todo pra divulgar o Sonho Real. 

Às quatro horas da manhã toca o telefone lá em casa. Era o Lô e ele falou: “Eu não quero nem ver essa capa. Aquela foto não sou eu, eu não quero aquilo.” Acabou comigo. “Eu não quero aquilo, esse casaco vermelho, não sou eu.” Aí eu levantei da cama e falei “O que é que eu vou fazer?” 

Fui pro estúdio, peguei todo esse material que eu tinha colhido, que eram essas fotos de rua, fiz uma seleção e vi uma foto que era superbacana. Falei: “Essa foto vai ser legal.” Ela tinha muito mais a ver. Eu já tinha aprendido a conhecer um pouco mais o Lô, já sabia mais como que era a personalidade dele, o jeito do Lô e falei: “A capa é essa mesmo, o Lô está coberto de razão.” 

Trabalhei nessa foto e na época a gente usava muito separação de tons, foto mecânica, estava muito na moda a gente fazer essa coisa assim. Então fui pro laboratório, fiz uns tratamentos na foto e aí esperei [até] mais tarde. Falei: “O Lô agora está dormindo.” Deixei pro final do dia e falei: “Lá pelas seis horas eu vou à casa dele.” 

Liguei pra ele, [nos] encontramos lá em Santa Tereza e aí sim, ele ficou superfeliz. Mudou completamente, foi outra capa e a capa não tem nada a ver com aquela ideia inicial, é preta e branca também. 

Tem essas histórias mesmo. Tem uma capa, a própria capa do Engenho Trapizonga com Tavinho. O processo da fotografia é muito legal; quando você entra no processo, o músico já acabou o estúdio, já gravou, está mixando, então é outro momento. De repente, você já sabe qual é a música que vai dar nome ao disco, qual vai ser a música que vai puxar, que vai tocar no rádio, então você já sabe mais ou menos como você vai trabalhar esse disco, a imagem dele; o próprio músico, o autor, ele já sabe o que quer. O Tavinho já tinha acabado de fazer essa parte toda, já estava mais relaxado e ele ligou: “Cristiano, vamos fazer aqui em casa. Meu quintal está maravilhoso, está coalhado aqui de margaridas amarelas. Vem pra cá, vamos fazer umas fotos aqui.” “Então bem, daqui a pouco eu estou aí.” Mas eu já saí de lá pensando: “Não vai dar certo esse negocio, bicho. No meio de um jardim de margarida amarela? Não vai dar certo esse negócio.” (risos) Mas fomos fazer as fotos. 

Naquela época, tinha que esperar o dia seguinte pra revelar, ver os cromos. Era muito mais demorado o trabalho, apesar que às vezes eu usava muito Polaroid pra me dar um auxílio de luz e de composição. Mas não deu outra, as fotos não deram nem para release; o Tavinho não deve nem lembrar dessas fotos. Nós fizemos umas coisas completamente diferentes, pusemos umas fotos de um barco, mudou completamente a história. Essas histórias das capas são muito interessantes, bacanas. 

 

P/1 - Você tem alguma lembrança do dia, da primeira vez que você ouviu o disco Clube da Esquina 1?

 

R - Eu tenho a lembrança total do Clube da Esquina porque eu acho que é musica mais bonita que eu já ouvi em toda a minha vida - é a mais bonita, eu até arrepio de falar dessa música. Tem vários lugares que eu vou, com o pessoal mais novo, que tem música ao vivo, em fazenda de alguém e aí o pessoal fala quando eu chego: “O Cristiano está aí, vamos tocar Clube da Esquina porque ele fica superfeliz.” 

Eu lembro direitinho e é um disco que tem muita gente, amigos envolvidos. O próprio fotógrafo, o Juvenal, é muito meu amigo; nós fizemos muita coisa juntos, ele foi um dos fotógrafos do disco. Tem todo aquele processo daquela época e são vários amigos envolvidos que têm fotos ali na capa, então aquele disco é muito marcante pra todo mundo e a música, pra mim, é uma maravilha.

 

P/1 - Tem algum caso bacana, sobre capas de disco que você gostaria de registrar?

 

R- Tem um disco do Lô que também foi legal. O Lô foi fazer aquele disco solo dele, que era ele e Marilton [Borges]. Eles foram gravar no Rio e o Lô foi me chamar para esse trabalho. 

Eu lembro que eu estava na Cervejaria Brasil com o pessoal e aí tocou o telefone; o garçom me chamou, falou que o Lô queria falar comigo ao telefone. Ele falou: “Cristiano, vem pro Rio amanhã. Vem com Kimura, com Esquetino. Eu preciso de você aqui pra fazer as fotos aqui no estúdio, eu vou gravar.” 

Nós pegamos o carro e fomos para o Rio. Chegamos no estúdio e ele era mais ou menos parecido com esse daqui, tinha uma parede de pedra. Eles montaram o estúdio cheio de cadeirinhas e no primeiro dia era só pra vendedores, aí o Lô cantava e o pessoal batia só palminha, o disco sendo gravado ao vivo. 

Nós saímos do estúdio; todo mundo falando assim: “Nossa, está horrível.” Todo mundo estava deprimido. “Nós temos que aprontar alguma confusão, vamos animar isso daqui.” 

Saímos, fomos jantar e tivemos uma ideia: o Kimura lembrou que ele tinha o painel de uma peça de teatro imenso. Aí nós forramos o estúdio todo de preto, o Marcolino estava também fazendo a luz - a luz já estava no Rio, com mar de fumaça. Nós fizemos aquilo e colocamos em uma rádio, agora eu não lembro qual foi que nós fizemos a chamada, que o Lô estava gravando um disco ao vivo e que quem quisesse ir, as X primeiras pessoas que chegassem - eu não me lembro se era cinquenta a capacidade do estúdio -  que chegassem lá iriam assistir ao show do Lô ao vivo. 

E aí o que é que aconteceu? Foi o contrário, só foram pessoas que eram fãs dele, então foi o maior clima. O disco mudou da água para o vinho, foi a maior emoção. O Lô ficou todo emocionado nesse segundo dia - ele e o Marilton, os dois emocionados. Foi maravilhoso esse dia. 

Essa história é muito bacana pra você ver como a gente mudou a cara da emoção do disco. A gente viveu essa história pra fazer um disco emocionante que está aí, é histórico - o Lô e o Marilton juntos. Muito bacana.

 

P/2  - E o que você acha dessa iniciativa do Clube da Esquina se tornar um museu?

 

R-  Olha, eu acho isso aí louvável porque isso é uma memória, a gente está exatamente precisando disso. Outro dia, nós estávamos conversando na faculdade Estácio de Sá, porque a gente estava com a ideia de levar o Museu Vivo lá na faculdade, para essas novas gerações conviverem com isso; os meninos, hoje, são poucos os que conhecem mesmo essa história. Quando a gente estava preparando pauta de um trabalho lá, que era a influência do Clube da Esquina - que seria os Beatles etc… E depois as pessoas que foram influenciadas, que já pegaram um pouco da estrada do Clube da Esquina, como Skank e agora já tem os meninos, Gabriel, e os meninos todos. Eu estava discutindo isso e falei: “Gente, se bobear, lá na faculdade… Se perguntar pra aqueles meninos, é capaz de eles não saberem cantar Beatles, muito menos Clube da Esquina.” E não deu outra: no dia seguinte chegamos lá, pegamos umas quatro pessoas. “Canta uma música dos Beatles.” “Não, eu não sei cantar, não.”  E eu: “Dá só uma cantarolada.” Eles não sabiam cantarolar Beatles, então isso é muito importante, eu acho importante mesmo. 

Essa história do Museu Vivo, de estar trazendo essa história, esses depoimentos todos - porque o Clube da Esquina é um universo. Essa iniciativa do Marcinho e da Claudinha é uma coisa que a humanidade vai agradecer. Quantas pessoas já falaram, tem gente muito mais balizada que eu que já falou aqui, que a música mineira até hoje é fonte pra eles, então isso é bacana demais.

 

P/2 - Então você enxerga o Clube da Esquina como um movimento que teve uma importância social também?

 

R - Ele teve importância sim, uma importância social e na cultura mundial. Porque tem o pessoal que faz parte dessa indústria cultural que não sabe disso, mas tem uma outra levada, uma outra turma, que não é essa da indústria cultural, que é outra coisa. Então isso é um movimento, em todos os sentidos mesmo. 

O Clube da Esquina tem uma coisa que é muito bacana. As pessoas são amigas, não é aquela coisa de vaidade, de briga por trás não. O Clube da Esquina tem uma [coisa] ímpar ainda, essa amizade que eles têm. A gente fica sem encontrar um ano, mas parece que se viu ontem. Todo mundo é muito carinhoso um com o outro, todo mundo conta histórias, conta a sua vida, e principalmente eles ali. É um barato você ver quando o Lô encontra com o Beto, quando o Beto encontra com o Milton; você vê que tem uma coisa mesmo e essa coisa veio naturalmente, veio com a música deles. Eles se encontraram e isso é muito bacana, esse lado carinhoso que vem na composição carinhosa. Eu acho que esse é um lado super humano mesmo, aí trouxe essa emoção e ela está toda aí. Eu acho que isso é que atraiu e marcou mesmo a história do Clube da Esquina.

 

P/2 - E na sua trajetória de vida, de profissão, você acha que o Clube da Esquina teve influência também?

 

R - Tem toda essa parte, primeiro porque eu tenho o maior orgulho, adoro essa turma, porque a gente pensa igual. A gente gosta mais ou menos das mesmas coisas, gosta dessa coisa da liberdade, tanto é que a gente trabalha junto até hoje. Mas na minha parte do trabalho mesmo com fotografia, todo esse silêncio que eu inspiro na composição do meu trabalho, nas formas; de admirar o barroco, de olhar, de dar tempo, de parar para ficar curtindo aquilo, de ir para Ouro Preto igual a gente ia desde o Festival de Inverno, ficar caminhando… Isso tudo tem na minha fotografia, no time dela e na minha produção, que [tem] a preocupação com o enquadramento, do silêncio. A fotografia tem essa coisa muito bacana: pode estar todo mundo em volta aqui para a gente bater aquela foto ali, mas quem decide o momento exato de apertar o botão sou eu, eu sozinho que decido, ali, agora. Essa coisa na composição tem muita influência e tem muitas passagens importantes. 

O Beto Guedes é uma pessoa muito importante na minha vida por várias histórias, de momentos péssimos em que eu estava e ele chegou e me falou coisas que ninguém tinha coragem de falar. Mudou a minha vida da água para o vinho, então é um cara muito importante nisso. Em todos os sentidos, é importante pra minha carreira.

 

P/1 - E tem mais alguma coisa que você gostaria de registrar?

 

R- Eu estou gostando de fazer agora esse depoimento porque eu estou fotografando. Eu fiz uma exposição um tempo atrás que se chamou Musica P&B, [em] que eu peguei todo esse meu arquivo de vários anos e montei essa exposição, se não me engano em 1999. Foram mais de sessenta fotos, que era todo o meu acervo desse trabalho com quase todos os mineiros e outros de fora de Belo Horizonte. 

Essa exposição, eu fui convidado depois para fazê-la no Mês Internacional da Fotografia lá em São Paulo, que foi lá na Aliança Francesa. E nas fotografias o pessoal está todo novinho. O 14 Bis começando, tinha foto de todo mundo bem novinho; tinha as fotos que eu fui fazendo atuais também, que eu não tinha no meu arquivo e eu produzi. Por exemplo, Chico Amaral eu não tinha, tive que fazer; Juarez Moreira eu também não tinha na época, o Saulo Laranjeira eu não tinha. Mas quando eu montei a exposição em um todo, que eu fui pra São Paulo, as pessoas foram. Principalmente os fotógrafos de lá viram aquelas imagens dos caras novos e falaram: “Você tem que fazer uma exposição agora com os caras de cabelo branco. Deve ser o maior barato, fotografa os caras agora pra gente ver como eles estão.” De repente, essa da gente estar fotografando esses depoimentos agora... Já me passou pela cabeça de fazer os “cinquentões bonitos”. Pode ser até que dê uma historia aí. 

 

P/1 - Então eu queria te agradecer pelo depoimento.

 

R- Eu é que agradeço e parabéns pelo trabalho.

 

 


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